programado para morrer

Um amigo, que sempre consertou meus computadores, costumava dizer que preferia máquinas a pessoas. Para ele, a convivência com a tecnologia era muito mais fácil, pois quando uma máquina apresenta um defeito, é só consertá-la. Já o ser humano, além de não ter cura para todos os seus males, exige mais complexidade no tocante à convivência. Quando uma amizade ou um relacionamento amoroso, por exemplo, apresenta um desgaste ou um conflito, não podemos simplesmente formatar e começar tudo de novo. Fazer as pazes e entrar em um acordo é muito mais difícil.

Nunca concordei com esse meu amigo. Não que eu seja o ser mais sociável do mundo, muito pelo contrário, mas sempre tive problemas com certas tecnologias. Isso não significa que eu não saiba utilizar as máquinas, e sim que tenho muita dificuldade em aceitar que elas saiam intencionalmente de suas fábricas com uma data de validade para deixar de funcionar, apenas para aumentar o consumo.

Vez ou outra, eu me pergunto quando vamos gritar e nos rebelar contra a obsolescência programada. Cada vez mais empresas produzem propositalmente produtos que se tornam obsoletos ou não-funcionais em um curto período de tempo para que possamos comprar a nova geração do mesmo produto. É natural que um objeto se desgaste com o passar do tempo e pare de funcionar, mas é inaceitável que os fabricantes planejem esse envelhecimento. Acabamos por consumir mercadorias que duram menos do que a tecnologia permite.

A obsolescência programada pode ser notada com maior frequência na área tecnológica. O sistema operacional dos computadores estão se desgastando cada vez mais rápido, as baterias e carregadores de computador duram cada vez menos e o cabo dos carregadores de celular são mais frágeis do que deveriam. Qual a razão para uma marca de celulares de última geração fabricar carregadores tão vagabundos se não para nos obrigar a comprar outro aparelho? Os fones de ouvido são outros que também quebram com facilidade. Ao mesmo tempo em que essas mercadorias são planejadas para durar cada vez menos, o preço para a manutenção desses equipamentos se torna cada vez mais alto, induzido os consumidores a adquirir um produto novo.

Os fabricantes tentam se justificar apontando para o avanço da tecnologia. Por essa razão, segundo eles, estão sempre criando novos modelos. Que avanço é esse? Como pode haver tantos progressos em tão pouco tempo? Marcas lançam modelos novos apenas poucos meses após o lançamento do anterior. Antes mesmo de acabar o ano, já é possível comprar versões de carros do ano seguinte. Essa troca regular de produtos só aumenta a produção de lixo e, para piorar, como se não bastasse a humanidade estar consumindo 30% a mais do que o planeta é capaz de repor, o destino de quase 70% dos equipamentos eletrônicos descartados por consumidores de países desenvolvidos são lixões de cidades de países subdesenvolvidos. Os mais pobres, como sempre, continuam pagando a conta.

O consumo permanente tem como finalidade a criação de um consumidor cronicamente insatisfeito. Banhado pelo desejo de comprar sempre o produto mais novo, o da moda, o mais rápido e com a imagem mais moderna, o consumidor cansa cada vez mais rápido do produto que já usufruiu. Esse fenômeno é chamado por muitos de “obsolescência percebida”, e ocorre quando, antes mesmo de apresentar defeito, o consumidor considera o produto que tem em casa como velho diante de todos os novos modelos lançados a todo instante no mercado.

Os smartphones exigem cada vez mais atualizações de seus sistemas operacionais. Atualizações essas que além de não mudarem muita coisa, consomem grande parte da memória que, por sua vez, nos impossibilita de atualizar os aplicativos. Não consigo descrever o quanto isso me irrita. Depois de certo tempo, parei de atualizar o iOS, pois não havia mais memória disponível, a não ser que eu excluísse todos os aplicativos. Em seguida foi a vez dos aplicativos exigirem suas atualizações. Quando não havia mais espaço, fui excluindo os menos usados. Desde o início do ano, o WhatsApp parou de funcionar no meu celular, pois só é possível utilizá-lo em um sistema operacional mais novo. Logo mais será a vez dos demais aplicativos deixarem de funcionar. Eu não queria ter que trocar de celular agora. Não necessito do aparelho mais novo, da moda. Poderia, tranquilamente, passar mais alguns anos com meu aparelho atual, se não estivesse sendo “obrigado” a comprar um novo.

No entanto, tudo isso parece tão natural aos olhos do mundo, que até culturalmente falando podemos encontrar casos de obsolescência programada. É a música feita para tocar só no carnaval, aquele sucesso do verão, os filmes de natal ou os filmes de determinado gênero que fazem sucesso até se tornarem saturados. Atualmente, são os títulos de super-heróis e comédia pastelão. As produtoras vão usar essa fórmula e inundar as salas de cinema com filmes desses gêneros até causar uma overdose no público (vai me dizer que você não consegue enxergar o propósito por trás de tantas sequências das mesmas histórias ou livros de um só volume transformado em séries e mais séries de filmes?). Já no mercado editorial, são os livros de youtubers que estão na moda, o que tem levado muita gente a acreditar que o primeiro passo para se tornar um(a) escritor(a) é criar um canal no YouTube. Calma! Isso é só uma fase – alguém ainda se lembra dos livros de colorir? -, logo essa onda passa e não teremos que ver dezenas de biografias de adolescentes nas prateleiras das livrarias (pelo menos espero).

Contudo, sentei para escrever porque queria dissertar justamente sobre essa obsolescência cultural programada, mas está cada vez mais recorrente em meus textos desejar escrever sobre algo e acabar falando sobre outro assunto. Tal qual um pai que deseja uma profissão para um filho e o rebento acaba seguindo outra. Como eu não segui a profissão que meus pais desejavam para mim, deixo o texto livre para ele ser o que quiser. De toda forma, os dois assuntos entram no mesmo pacote: tudo está ficando cada vez mais descartável. Em consequência disso, sigo não confiando nas máquinas, ou seria em seus fabricantes? E você, antes de substituir qualquer objeto, se pergunta antes se realmente precisa de outro?

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anacronismo cibernético

Reconheço que manter um blogue nos dias de hoje é como utilizar máquina de escrever ou fotografar com câmera analógica, isto é, algo ultrapassado (retrô, se preferir). Por onde ando, ouço que as redes sociais mataram os blogues, enquanto que os vlogues jogaram a pá de cal. No entanto, mesmo que inconscientemente, os usuários das mídias sociais se tornaram “blogueiros”, nos contando sempre os que estão fazendo, comentando assuntos do momento, postando fotos de onde estão, o que estão comendo, frases com falsas autorias e até mesmo textões (que ninguém lê). Os sites, inclusive, também aparentam estar caindo em desuso; muitos artistas e empresas nem os possuem mais, aderindo às redes sociais para divulgar suas agendas, novidades e informações, já que, afinal, todos estão lá.

Por que então se exilar e escrever em um lugar ermo? Esse foi um dos dilemas que tive quando decidi criar esse blogue. Dizer que foi para aumentar o leque de leitores é uma grande mentira, já que todas as redes sociais possuem em suas configurações as opções de público e privado. Dizer também que é para conquistar prestígio e fama é uma grande ilusão, pois nós blogueiros(as) temos conhecimento de que muitos nos menosprezam, principalmente no universo acadêmico, de onde nos olham enviezadamente, pois acreditam que só escrevemos em blogues porque não conquistamos um espaço em veículos maiores. Não entra na cabeça deles que muitos(as) de nós não queremos nos filiar a nenhum grupo e muito menos ter que se enquadrar em padrões que podem censurar muitas de nossas liberdades textuais.

Entretanto, concordo que os blogues saíram fortemente lesionados dessa disputa. Acontece que rede social nunca foi mesmo o meu forte. Utilizo quase todas, caso contrário, não saberia mais o que meus amigos e amigas estão fazendo ou se estão bem ou mal. Ninguém mais se importa em sair para se encontrar e, se saem, a preocupação maior é em fotografar para postar. Essa preocupação em registrar as saídas nunca fez parte de mim, muito menos a necessidade de tornar tudo isso público. Para os meus melhores amigos isso também não é algo que os preocupa e, talvez por isso mesmo, somos melhores amigos. Em certas ocasiões saio até mesmo sem celular, não porque quero ficar incomunicável, mas por medo de assalto. Estou com o mesmo aparelho há três anos e não estou nem um pouco a fim de gastar dinheiro com outro enquanto este estiver suprindo minhas necessidades. Porém, sair sem celular, para muitos outros amigos e amigas, é como sair sem roupa. Alguns(mas) até já foram assaltados(as) enquanto fotografavam. De toda forma, a culpa não é deles(as), caso contrário, eu estaria dando razão aos assaltantes. Ademais, essa obsessão em fotografar tudo foi o que acarretou as vinte e sete mortes registradas ano passado ao redor do mundo por causa de selfies. Infelizmente, esse número só tende a aumentar. Enfim, todo esse rodeio só para dizer que não me interessa o material publicado nas redes sociais e, embora alguns(mas) escritores(as) não saibam fazer diferenciações e reproduzam muito de lá nos seus blogues, pelo menos aqui não há os famigerados “me add”, “troco likes” e “me segue de volta”. Bom, se tem, nunca vi.

Conservo em mim a utopia de que um dia conseguirei excluir todas elas, mas tenho que admitir que este será um trabalho árduo. Criar um perfil em uma rede social é algo fácil, complicado mesmo é sair. Todos os nossos amigos estão lá, nossos contatos, os grupos da universidade e do trabalho. Até nossos avós estão se rendendo. Dói, mas é preciso reconhecer que nos tornamos reféns. Fico me perguntando: quando foi que demos tanto poder às redes de relacionamento online?

Contudo, sigo utilizando uma plataforma que teve o seu auge lá no início dos anos dois mil. Hoje, a tendência tem sido criar vlogues, o que deve perdurar por mais algum tempo até o formato se desgastar ou ser substituído por algo ainda a ser inventado. Ademais, acredito na permanência dos vlogues, principalmente os curtos (pois ninguém tem mais tempo para nada). Confesso que gostaria de ter o talento de escrever textos sucintos, no entanto, a cada post novo, concebo um textão. Sinto-me constrangido por roubar o tempo dos(as) leitores(as), pois em rede social ninguém lê ninguém, só se vê as fotos e os status, mas aqui é diferente: quem acessa blogues o faz porque quer ler, o que também é uma das principais razões para ocupar um domínio em uma plataforma de blogues e resistir escrevendo. “Ocupa e resiste”. Esse tem sido o lema de quem ainda quer manter a engrenagem da Blogosfera girando. Essa resistência tem se mostrado bastante efetiva em blogues feministas e LGBTs, além dos blogues jornalísticos que não estão se curvando ao conservadorismo da imprensa de direita.

Implodir blogues para a construção de textos mal elaborados de opiniões sem aprofundamento em nome da praticidade e da preguiça de criar um espaço em outra plataforma não é o suficiente para me convencer a mudar de lugar. Não escrevo para os meus amigos de redes sociais e sim para quem usa a internet como ferramenta de pesquisa e debate. Realmente não dou atenção ao pessoal que acha que a rede mundial de computadores não vai além de suas timelines e aplicativos de mensagens instantâneas.

Engana-se quem enxerga os blogues como espaços individuais, visto que, a partir do momento em que os(as) leitores(as) comentam os textos, o post passa a ser deles(as) também, pois os comentários funcionam como um complemento do que foi proposto pelo(a) escritor(a). Publicar um texto como esse nos perfis das minhas redes sociais é como vomitar, impor um material que ninguém está interessado em ler, sem contar que, em poucos minutos, teria se perdido no buraco negro da linha do tempo. Posso até compartilhar o link do post, mas quase ninguém vai clicar, visto que a preguiça de abrir outra página é motivo suficiente para desistir. Todos os conteúdos devem estar apresentados na timeline e, dessa forma, ninguém sai. Blogue não é cativeiro e não faz nenhum(a) leitor(a) submisso(a) do algoritmo. Rede social é uma espécie de casa-grande (ou seria senzala?), enquanto que aqui fora, nós libertos, escritores(as) e leitores(as), reconhecemos nossos nichos através dos interesses em comum. Caso as mídias sociais realmente acreditem que mataram a Blogosfera, alguém avise-as que esqueceram de enterrar.