minha estupidez

Fiquei sabendo através das redes sociais que Fernanda Torres estrearia essa semana no canal GNT um programa chamado Minha Estupidez. Programa esse que eu não vou assistir pois não tenho TV por assinatura em casa (nem pretendo) e porque, quando for disponibilizado na internet (se for), eu com certeza já terei esquecido. No entanto, acabei abrindo o texto que falava da estreia e me deparei com o parágrafo de outro que a própria Fernanda escreveu e enviou para jornalistas: “Eu me valho da minha ignorância, da curiosidade onívora e de uma certa franqueza, que me leva a admitir, em público, que não sei o que é solipsismo, […] além de confessar que passei três anos mentindo que havia lido ‘Viva o Povo Brasileiro’.”

Depois de passar alguns anos mentindo que havia lido o clássico de João Ubaldo Ribeiro, finalmente Fernanda o leu em 2008, e aproveitou a ocasião para entrevistar o escritor baiano para um programa que ela havia idealizado e que só agora está sendo lançado sob o título de Minha Estupidez, como citei acima. Realmente não recordo se já menti dizendo que li um livro sem ler, mas admito que são grandes as chances de isso já ter acontecido pelo menos uma vez. De toda forma, se não sei ao certo se menti sobre livros, confesso que já menti dizendo ter visto um filme que ainda não havia assistido.

Todo mundo conhece alguém que dá dicas de filmes aos amigos quando eles não sabem o que assistir. Eu sou essa pessoa. Portanto, para não decepcionar o pequeno imaginário coletivo que se formou através do meu minúsculo ciclo social em relação à minha cinefilia, existiram algumas ocasiões em que menti ao me perguntaram se vi tal filme, principalmente quando o título era um clássico. Como realmente vejo muitos longas, logo não precisei mentir tantas vezes e ninguém nunca desconfiou que eu pudesse estar faltando com a verdade. Mesmo assim, aprendi que não importa o número de filmes que você veja, alguém sempre vai te perguntar por um que você ainda não viu.

Uma das razões das minhas mentiras era mesmo para evitar a reação das pessoas, pois quando eu admitia não ter visto, elas sempre reagiam como se fosse o fim do mundo: “Como assim você não assistiu ainda? Você não é cinéfilo?”. Como se alguém tivesse a obrigação de conhecer tudo. A outra razão era por vergonha mesmo: “Como eu, um cinéfilo, ainda não vi esse filme?”. Entretanto, acredito que essa segunda razão existe muito em função da primeira, pois eu talvez não sentisse vergonha se as pessoas não me julgassem. Se eu teria deixado de mentir se não houvesse julgamento? Não sei. Todavia, não imagine que eu gostava de fazer isso pois, nas vezes em que aconteceu, corri para casa e tratei de ver o filme o mais rápido possível para que a mentira durasse pouco tempo. Conjugo os verbos no passado porque já faz alguns anos da última vez que tentei enganar os outros e a mim mesmo de que era possível conhecer tudo.

Hoje, assim como Fernanda, também me valho de minha ignorância, de minha curiosidade e de minha franqueza para admitir quando não vi tal filme ou li tal livro, mas não só isso, como admitir também o total desconhecimento de vários assuntos. Sentindo uma identificação tremenda com as palavras de Fernanda, decidi procurar pelo texto completo que ela enviou a jornalistas, mas não encontrei. Em compensação, a pesquisa me levou a algumas entrevistas interessantes da atriz e escritora sobre o programa. Porém, como ela também fala de outros assuntos e como eu adoro entrevistas, resolvi transcrever alguns trechos aqui.

Em uma delas, Fernanda, que revela sentir falta de ter cursado uma universidade, compara sua cultura geral a um queijo suíço: “É cheia de buracos. Nunca ninguém ordenou o pensamento para mim. Fui lendo e me informando, mas sem ninguém me conduzindo”. Apesar de cursar uma graduação, também sinto que muitas áreas do meu conhecimento são esburacadas. O que não me desmotiva, muito pelo contrário. Por mais trabalhoso que seja, isso me faz correr atrás dos pensamentos que possam preencher essas fendas.

Em outro momento, dessa vez sobre o processo de impeachment da presidenta Dilma, senti como se Fernanda tivesse lido os meus pensamentos: “Não conseguia escrever. Não conseguia ler. Parecia que minha vida era pautada pelo que fosse decidido em Brasília”. Foi justamente isso que aconteceu comigo durante as últimas semanas do golpe, não consegui produzir nada. Outro momento de identificação foi quando ela falou sobre opiniões formadas: “Pedem muito para a gente, que é ator, dar opinião, e a gente dá, né? Nos últimos anos, também passei a escrever em jornal e revista. Mas aprendi a dizer “Não tenho opinião sobre isso””.

Contudo, nem tudo são flores. Ao ser questionada sobre a polêmica do texto para o blog feminista Agora É Que São Elas, em que falou de “vitimização do feminismo”, ela vê como seu único erro apenas ter publicado tal texto no blog errado: “O texto era para um blog ligado a questões feministas. E eu não entendi isso. Era um lugar errado para falar da minha opinião pessoal. Eu errei. Hoje você tem que ter cuidado redobrado com o que e com quem fala. As coisas reverberam rapidamente na internet. Esse episódio me ensinou muito”. Apesar de ter se retratado depois, Fernanda diz que o ‘mea culpa’ não exclui o que ela pensa. Isso foi mesmo uma estupidez da parte dela, mas esse é assunto para outro texto.

Numa das resenhas do primeiro episódio do programa, há a transcrição do que Fernanda diz na abertura. Repito, eu não vi, então não sei se as palavras foram essas mesmo, mas o que estava escrito me chamou atenção. Diante da estante que herdou do avô, ela diz: “Esse programa nasceu desta estante aqui, de perceber que, por mais que eu tenha lido e amado os livros que eu li, eles se reduzem a isso aqui. Ou seja, nada perto do que existe pra se ler, se conhecer. Essa estante, de certa maneira, mede o tamanho da minha estupidez”. Fernanda disse, dessa vez em uma das entrevistas, que leu tanto para realizar o programa que, quanto mais lia, mais via que não sabia de nada. Ela acha que aumentou sua estupidez. Que leitor nunca sentiu isso?

Olhei então para a minha própria estante que eu já julgava ser tão pequena e, diante de todo o conhecimento da humanidade, é essa minha estante pequena que, de certa forma, também mede o meu próprio conhecimento. Embora muito em breve ela não consiga mais guardar livros novos, mesmo que ela triplique ou quadruplique de tamanho, sua pequenez não se calcula apenas metricamente. À frente de todos os livros que jamais chegarão até aqui, ou mesmo que chegassem, à frente de todos os livros que eu não vou conseguir ler antes de morrer, minha estante e meu conhecimento serão eternamente o que sempre foram: estúpidos.

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família abravanel

Durante a minha infância, quando havia apenas um único aparelho de TV em minha casa e meu pai monopolizava o controle remoto, os programas do SBT eram sempre assistidos em família. Recordo que acompanhamos algumas novelas infantis e outras estrangeiras. Digo que recordo porque ainda tenho lembranças de alguns desses momentos, mas confesso que esqueci praticamente tudo que foi assistido nesse período. Além das novelas, também assistíamos bastante aos programas dominicais.

Nessa mesma época, pela manhã, eu preferia assistir desenhos animados em outras emissoras, pois nunca gostei muito dos desenhos transmitidos pelo SBT. No entanto, sempre assistia ao Chaves, coisa que faço até hoje pela internet quando bate a saudade ou quando ligo a TV por acaso e descubro que está passando. Porém, agora posso afirmar que não assisto mais aos programas da emissora do Silvio Santos, assim como me afastei da televisão de um modo geral, mas sempre comemoro quando fico sabendo que o SBT ameaça, nem que seja por poucos minutos, a soberania da audiência da toda poderosa Rede Globo.

Não me restam dúvidas de que todo esse carinho se deve a minha admiração por Silvio Santos, quem considero o maior nome da TV brasileira entre os vivos e os mortos. Entretanto, não há admiração no mundo que não se deixe abalar por tanta coisa negativa sendo transmitida. Se não fosse a internet, muitas pessoas jamais ficariam sabendo desses casos. É por isso que acredito tanto na força do ativismo virtual, do contrário, eu mesmo não saberia de nada disso, pois não estava vendo TV quando o preconceito foi televisionado.

Sei que em trinta e cinco anos de história, muitos comentários estúpidos saíram dos programas da emissora, assim como dos programas de todas as suas concorrentes. Contudo, hoje vivemos em outros tempos e o que não repercutia negativamente décadas atrás, agora gera protestos na internet e até mesmo boicotes aos programas que ofendem minorias. A primeira dessas repercussões negativas de que tomei conhecimento aconteceu em maio deste ano. Na ocasião, Patrícia Abravanel disse que não considerava a homossexualidade algo normal. Sua declaração repercutiu nas redes sociais, mas ela não estava sozinha e quase nada se falou sobre os comentários infelizes dos outros participantes.

No Programa Silvio Santos exibido em 8 de maio, no quadro Jogo dos Pontinhos, Silvio comentou sobre filmes que trazem casais lésbicos entre seus personagens e perguntou aos participantes do quadro se eles eram contra ou a favor que duas mulheres se amassem como “marido e mulher”. A coisa já fica feia na pergunta preconceituosa do próprio apresentador. Será que é tão difícil entender que duas mulheres que se amam, não se amam como homem e mulher, e sim como duas mulheres que são?

O que veio a seguir foi um verdadeiro festival de horrores. Apesar de nem todos responderam ser contra, até quem se disse a favor o fez de forma preconceituosa. A primeira a responder foi Lívia Andrade. Ela disse ser a favor do amor entre duas mulheres, mas com ressalvas: “Eu acho bonito quando duas mulheres se amam como duas mulheres, entende? Duas mulheres fisicamente, aparentemente, como mulheres”. Para quem não entendeu, ela estava falando de feminilidade. Bem, o que eu gostaria de dizer para Lívia é que duas mulheres não precisam ser femininas só para que ela ache bonito. O amor entre duas pessoas do mesmo sexo ou até mesmo do sexo oposto só deve ser bonito aos olhos do próprio casal. Com esse discurso ignorante, Lívia demonstrou não ter o mínimo conhecimento sobre identidade de gênero. Flor, a segunda a responder, também se disse a favor, mas, além de se referir as lésbicas como “entendidas” e “sapatões”, ainda comentou que não pagaria para ver um filme com “duas aranhas se pegando”.

É lógico que Carlinhos Aguiar, o terceiro a responder, não iria perder a chance de defecar pela boca. Já era de se esperar que ele se posicionasse contra, mas como se isso não bastasse, ainda disse o seguinte: “Já não chega essas homaradas todas queimando a ruela, o que tem de homem viado aí é brincadeira. Aí ficam essas mulheres colando o velcro, vocês não me conheceram. Eu sou contra, claro que eu sou contra. Porque a partir do momento que elas me conhecessem… Eu pego essas gostosas e tiro elas dessa vida”. Ele só faltou dizer que acredita em estupro corretivo para lésbicas, mas não precisou, ficou implícito.

O humorista Alexandre Porpetone, através do seu personagem Cabrito Tévez, foi o quarto a responder. Com uma piada altamente sem graça, se disse a favor: “Eu sou a favor desde que eu possa participar da festa. Porque não sei se vocês sabem, Silvio, eu sou lésbico. Eu sou lésbico também, então eu apoio a causa”. Porpetone deve ser do tipo de cara que acredita que duas mulheres só podem se relacionar para satisfazer o fetiche dos homens. Helen Ganzarolli, a quinta a responder, também disse ser a favor, mas acredito que ela ficou com medo de que as pessoas duvidassem de sua heterossexualidade, pois achou necessário deixar bem claro que gostava de homem: “A minha opção é pelo sexo oposto, mas eu sou a favor já que é a opção de cada um. Eu gosto de homem, mas eu sou a favor de duas mulheres”. Como se não bastasse, ainda tratou orientação sexual como “opção”.

Silvio deixou Patrícia para o final, e o que já estava horrível, só piorou. A filha do patrão se posicionou contra: “Eu li numa revista que hoje um terço dos jovens se relaciona com pessoas do mesmo sexo. Um terço eu acho muito. […] Mesmo sem saber se a opção deles é real. Eles experimentam. […] Eu acho que o jovem é muito imaturo ainda para poder saber o que quer. Então a gente tem que afirmar que homem é homem e mulher é mulher, entendeu? Não acho que é legal ser super liberal. […] Não acho legal ficar considerando tudo super normal, entendeu? Eu acho que a gente tem que ensinar para os jovens de hoje que homem é homem e mulher é mulher. E se por acaso ele tiver alguma coisa dentro dele que fale diferente, aí tudo bem. Mas o que tá acontecendo hoje é que a gente está falando que tudo é normal, que tudo é bonito e o jovem naquela coisa de querer experimentar tudo acaba experimentando coisas que ele pode vir eventualmente a se arrepender depois. Então eu sou contra ficar propagando em rede nacional que isso é uma coisa super normal. Então eu sou contra”. Silvio a interrompe e pergunta: “Você falou uma coisa aí que foi uma indireta. Isso aqui que eu estou fazendo é propaganda?” Ao que ela responde: “Você está propagando sim, porque não é uma coisa normal. Hoje, eu falar que eu sou contra, eles vão me apedrejar. Eu não sou contra o homossexualismo (sic), eu sou contra falar que é normal. […] E outra, mulher com mulher não é tão legal assim, eu acho. Não tem aquele brinquedinho que a gente gosta bastante. Não dá para brincar direito”. Ao final do discurso, a plateia aplaude.

Logo após, Silvio ainda pergunta se eles são contra ou a favor de quem não acredita em deus. Não vou comentar as asneiras que eles responderam sobre isso, basta dizer que todos se posicionaram contra. A coisa desanda ainda mais quando Silvio pergunta se eles são contra ou a favor do prisioneiro que está cumprindo pena ir para casa no dia das mães ou se são contra ou a favor ter filhos antes do casamento. Não vou dissertar sobre esses outros três momentos do programa que dariam cada um, um texto próprio (se tiver estômago veja o programa inteiro aqui). Portanto, vou me ater apenas ao discurso de Patrícia.

Bem, já eu não acho normal ficar propagando preconceito em rede nacional. Assim como Helen, Patrícia tratou orientação sexual como “opção”. Chamou homossexualidade de homossexualismo e disse não considerar normal a relação entre pessoas do mesmo sexo. Ela deve fazer parte da população que ainda acha que sexo sem pau não é sexo, reduzindo todas as outras formas de relação sexual sem penetração peniana a absolutamente nada. Patrícia disse depois que foi mal interpretada, mas acredito que interpretaram muito bem o que ela quis dizer. A reação nas redes sociais foi muito importante. Ela precisava mesmo enxergar que suas palavras ofenderam sim os homossexuais, e que anormal é ter preconceito. Porém, ao contrário do que ela disse, não vamos apedrejá-la, afinal, isso é coisa de religiosos.

A repercussão foi tão grande que já no dia seguinte Patrícia veio a público pedir desculpas. Entendo perfeitamente porque a fala dela polemizou mais do que a dos outros, mas todos os sete, incluindo o próprio Silvio, erraram, e a comunidade LGBT merecia ouvir uma retratação de todos eles. Um mês antes disso acontecer, no programada de 10 de abril, Silvio já havia dito ao ator João Guilherme, de apenas catorze anos, que ele estava parecendo uma “bichinha”. Embora o comentário também tenha repercutido, nem Silvio, nem o SBT se pronunciaram sobre o ocorrido.

Espero que João Guilherme não tente moldar seu comportamento por medo de voltar a ouvir idiotices como essa. Eu estava tão confuso quando tinha catorze anos, sem saber exatamente quem eu era, que um comentário desses só faria com que eu me escondesse por trás de uma masculinidade tóxica para não ter que ouvir mais esse tipo de coisa. Lembro que quando eu tinha por volta de sete ou oito anos adorava atender ao telefone. As ligações nunca eram para mim, mas eu adorava atendê-las mesmo assim. O aparelho ficava na sala, perto da escada. Certo dia ele tocou e eu atendi, era um tio. Passei o telefone para minha mãe e ele perguntou quem era a menina que havia atendido. Minha mãe ficou super ofendida e disse que não era menina nenhuma, pois quem havia atendido era eu. Eu devia ter oito anos no máximo, e minha mãe me ordenou que eu falasse grosso para que ninguém me confundisse com uma mulher. A história se espalhou pela família e todos riram de mim. Nenhum adulto teve coragem de me defender, de dizer que eu era uma criança e que minha voz era normal. Depois disso, eu passei anos com pânico de atender ligações, e sempre que era realmente necessário realizá-lo, fazia de tudo para engrossar minha voz. Eu só tinha oito anos, porra!

Quando personalidades importantes, formadoras de opinião, esquecem que possuem um papel social na vida de muitas pessoas, passamos a correr certo tipo de perigo. Muita gente reproduz o que vê na TV, basta notar que, por maior que tenha sido a repercussão negativa de Patrícia nas redes sociais, a plateia no auditório a aplaudiu. Tenho certeza de que muita gente aplaudiu de casa também. Do sofá da sala muitos preconceituosos tiveram seus discursos de ódio fortalecidos, legitimados por uma pessoa famosa. Isso tudo aconteceu há mais de seis meses atrás, mas Patrícia já voltou aos holofotes criticando religiões africanas em um vídeo antigo que caiu na rede, em que ela culpa os problemas que assolam o continente africano ao “misticismo” da população. Nesse meio tempo, Silvio também fez comentários racistas e gordofóbicos, os últimos, inclusive, aconteceram recentemente, durante a exibição do Teleton.

Aparentemente, Silvia Abravanel, a outra filha do dono do SBT, se sentiu oprimida pelo pai e a irmã, resolvendo também aprontar as suas próprias besteiras, prestando um dos maiores desserviços que eu já vi na vida: criar, em pleno século vinte e um, uma escola de princesas. Com aulas de boas maneiras, postura corporal e etiqueta à mesa, as meninas aprenderão a se “guardar” para o príncipe encantado. Se Silvia também queria dar maus exemplos como seus familiares, conseguiu. Na verdade, foi muito além, saindo do discurso e partindo diretamente para a prática, criando uma escola que no futuro formará um exército de mulheres belas, recatadas e do lar.

Uma pesquisa realizada esse ano pelo site britânico “YouGov”, apontou Silvio Santos como a personalidade mais admirada pelos brasileiros. Prestes a completar oitenta e seis anos, Silvio está em um de seus melhores momentos como apresentador, cada vez mais solto e mais engraçado. Sei que ele é um senhor de outros tempos, mas inteligente como é, não é injusto lhe dizer que nunca é tarde para aprender. Ser quase uma unanimidade entre os brasileiros lhe reserva uma enorme responsabilidade. É um poder grande, que tanto ele quanto suas sucessoras deveriam usar justamente para combater a homofobia, o racismo, a gordofobia, o machismo, a intolerância religiosa e todo o tipo de preconceito. Para o bem ou para o mal, o SBT faz parte da história do Brasil e de muitos brasileiros, possui o segundo maior complexo televisivo da América Latina e o quarto maior do mundo, tendo sido a primeira emissora da história a transmitir sua inauguração ao vivo. Se uma emissora tão grande e tão querida continuar televisionando discursos preconceituosos para todo o país, um dia ela pode deixar de ser a TV que tem torcida para se tornar a que tem mais desafetos, podendo originar até mesmo inimigos.

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haja paciência

Costumo jantar por volta das 20:00 horas, quando já estou em casa. Acabei me acostumando por ser esse o horário em que coloco o colírio nos olhos de minha mãe, que tem glaucoma. Nesse período da noite, estou quase sempre lendo ou escrevendo no meu quarto, que fica no primeiro andar da casa. Então desço e, depois de medicar minha mãe, faço minha refeição. A cozinha fica muito próxima da sala, onde a televisão fica ligada o tempo inteiro. Essa é também a hora em que meu pai já está de volta do trabalho. Ele janta mais cedo do que eu e depois fica na sala vendo novela até ir dormir (inclusive, sua noite de sono geralmente se inicia no sofá). Ele não é surdo, mas tem sua audição comprometida. Dessa forma, quando ele está assistindo, o aparelho de TV fica com o dobro do volume utilizado pelos outros moradores da casa. Da cozinha, ouço tudo o que se passa na novela. Então, sem querer, quase sempre estou por dentro das tramas.

Atualmente, neste horário, é transmitida uma novela chamada ‘Haja Coração’, em que um núcleo em específico tem me irritado bastante. Antes de falar sobre isso, tive que fazer uma rápida pesquisa para poder escrever esse texto. A novela é escrita por Daniel Ortiz, livremente inspirada em ‘Sassaricando’ de Silvio de Abreu, transmitida originalmente entre 1987 e 1988. ‘Haja Coração’ é a 88ª “novela das sete” exibida pela Rede Globo. Eu não sabia o nome dos atores e atrizes e muito menos o nome das personagens, então, se por acaso eu escrever alguma informação errada e vocês perceberem, por favor, me avisem que logo corrijo.

Pois bem, não é o fato de que o quarentão Malvino Salvador, protagonista da novela, tenha conseguido se transformar em um piloto de corrida nessa idade que vem me irritando, mesmo me incomodando com este elemento ficcional pouco crível, haja vista que com quarenta anos os pilotos profissionais já estão começando a planejar suas aposentadorias. Minha irritação também não é com a personagem de Tatá Werneck que, de tão exagerada, não dá nem para chamar de caricata. O que de fato vem torrando minha paciência é o núcleo de Sabrina Petraglia, Marcos Pitombo e Karen Junqueira que, pelo visto, se tornou um dos pontos principais da trama, pois toda noite escuto a mesma ladainha de seus personagens.

Felipe, interpretado por Pitombo, é disputado por Shirlei, personagem de Petraglia e Jéssica, vivida por Junqueira. Na trama, Shirlei é uma mulher virgem que nunca havia beijado na boca até conhecer Felipe – não sei qual a idade da personagem, embora sua intérprete, Sabrina, tenha trinta e três anos na vida real. Até aí, tudo bem, pois cada pessoa tem o seu tempo próprio e isso deve ser respeitado. Porém, a novela tem feito uma intensa e irresponsável exaltação a virgindade feminina, retratando Shirlei como uma garota pura (a famosa mulher para casar). Em um determinado capítulo, Felipe estava revelando a outro personagem – que eu não sei quem é, pois não vejo as imagens e só ouço as cenas – que tinha sido o primeiro homem a beijar Shirlei. Mesmo que estivesse usando um ponto de vista romântico, ele tratava o caso como uma conquista, um troféu, algo do que se orgulhar. Ele estava feliz por, dentre tantas mulheres com quem já ficou (na ficção), havia encontrado uma donzela imaculada.

Apesar dos pesares, Felipe é um rapaz de bem e realmente aparenta estar apaixonado por Shirlei e ela por ele. Todavia, não nos enganemos: seu encanto pelo puritanismo da moça, juntamente com a forma dela de se comportar atrelada a uma aparência virginal, é um oceano de conservadorismo. Incomoda-me profundamente também o fato de Shirlei ser tratada como uma pobre coitada por ser uma empregada doméstica. Sua profissão e condição social, inclusive, são largamente utilizadas por Jéssica, sua “rival”, para humilhá-la. É nesses momentos que Felipe, o príncipe encantado, entra em cena montado em seu cavalo branco para proteger sua amada que não consegue se defender sozinha. Felipe dá lições de moral em Jéssica através de falas dramaturgicamente pobres que revelam todas as “boas intenções” do autor em prestar um serviço de inclusão social em sua novela. Entretanto, ele só tem reforçado estereótipos e clichês. Um amador não faria pior.

Outro fato difícil de engolir, ou melhor, inaceitável, é que ainda encontremos num folhetim televisivo duas personagens femininas brigando por um homem. Jéssica, uma mulher rica, e que tem tudo o que quer, só estará feliz quando casar com Felipe. Shirlei, uma mulher pobre, e que não teve as mesmas oportunidades de Jéssica, também só ficará feliz quando casar com Felipe (o que a fará, consequentemente, atingir outra condição social através do casamento e não com os próprios méritos – embora essa não seja a intenção da personagem). Acredito que as atrizes não se orgulham de interpretar esses papéis, mas necessitam fazê-lo, afinal, precisam trabalhar e bons personagens femininos são desde sempre muito raros, quase que beirando a extinção.

Frequentemente me pergunto em que ano estamos para ter certeza de que não estou vivendo na Idade Média. Não sei vocês, mas considero ultrajante que um texto tão machista e reacionário como o deste núcleo de ‘Haja Coração’ ainda seja escrito nos dias de hoje. Pior ainda, que uma emissora de TV, de alcance nacional (e internacional), produza e transmita um absurdo desses. Shirlei pode sim ser uma mulher virgem aos trinta e três anos de idade. Que mal há nisso? Porém, fico me perguntando se Felipe se apaixonaria por ela se fosse uma personagem sexualmente experiente (sei que é ficção, mas por suas falas, tenho certeza que não). Ele está encantado demais com o puritanismo da moça e com a possibilidade de ser o primeiro (e único) homem a transar com ela.

É triste ver que, com produtos como esse, a Globo consiga ser a emissora mais assistida do Brasil. Isso só reforça o quanto somos um país conservador. Felipe é apenas o retrato do típico homem que quer a todo custo ser “especial” na vida de uma mulher, caso contrário, vai sempre se enxergar como sendo “só mais um”. Fico me perguntando o que fez com que Shirlei se mantivesse virgem. Será que foi escolha (na melhor das hipóteses)? E se foi mesmo uma escolha, será que ela o fez de livre e espontânea vontade? Livre da influência da igreja? Livre da influência do conservadorismo? Livre de uma sociedade patriarcal que diz que mulher deve casar virgem? É realmente difícil acreditar que foi uma escolha livre de influências. Como se não bastasse, em certo capítulo, Shirlei estava confessando para Francesca, personagem de Marisa Orth (que acredito ser mãe dela na novela), que estava muito apreensiva, pois havia começado a namorar Felipe e logo teria que transar com ele, pois ele não ia esperar muito, afinal, “ele é homem”. O machismo se contradiz o tempo inteiro: se a mulher não for virgem, não serve para casar, mas se não transar, é trocada por outra. Realmente não consigo entender.

Fico muito triste que o machismo ainda exista. Fico triste que músicas, novelas, livros e filmes machistas continuem a ser produzidos. Fico triste que uma novela como essa ainda seja consumida em larga escala. Fico triste que ela seja consumida por parentes tão próximos a mim. É assustador que os fãs da novela não consigam formar uma visão crítica em relação ao que assistem. Toda noite, durante os trinta minutos em que fico a ouvir da cozinha o “chorume das sete” enquanto janto e lavo a louça, podem ter certeza que não deixo em paz quem está na sala assistindo. Elenco em voz alta cada comportamento machista, homofóbico e racista que noto nessa trama e em outras, acreditando que um dia eles conseguirão enxergar isso com os próprios olhos. É um luta diária. No momento, só me resta torcer para que pelo menos as próximas não sejam tão horríveis quanto essa. Não por mim, mas por quem assiste. Enquanto essa não acaba, só me resta exercitar a paciência.

nostalgia

Semana passada, estava eu deitado em minha cama, lendo, quando meu cérebro fez um download dos meus treze anos. O livro era ‘Doidinho’, de José Lins do Rego (1901-1957), um romance que estou lendo pela primeira vez e que tem como protagonista o garoto Carlinhos (também figura central de ‘Menino de Engenho’), apelidado nessa obra de Doidinho. O personagem está agora com doze anos de idade e até o final da história suponho que deva completar os treze – não sei, pois ainda não concluí a leitura. Porém, não creio que isso justifique a brincadeira que meu cérebro fez comigo. Sigo acreditando que foi apenas uma grande coincidência.

‘Doidinho’, publicado pela primeira vez em 1933, narra as experiências de Carlinhos como interno em um colégio severo. Mesmo aos doze anos, Carlinhos não é mais um garoto inocente, já tendo realizado até mesmo suas primeiras experiências sexuais – coisa que eu, aos treze, ainda nem sonhava em ter. Com essa idade eu estava fazendo outras descobertas, e a música era uma delas.

Foi aos treze anos que a música entrou de verdade em minha vida, ou seja, muito tarde. Antes disso, minha memória musical é quase nula. Pouquíssimas canções possuem o poder de me deixar com saudade da infância e as que conseguem isso constituem um pequeno número de sucessos do passado que inevitavelmente ouvi através da televisão. Algumas delas são músicas dos Mamonas Assassinas ou da Xuxa que, ao ouvir novamente hoje em dia, me fazem retornar imediatamente ao meu passado, me deixando imensamente feliz por terem sido essas as músicas que ouvi quando criança. Tenho pavor só de imaginar a possibilidade de ser criado ao som de Patati Patatá.

Em minha casa, tínhamos um aparelho de rádio que funcionou por pouco tempo, embora que, mesmo depois de quebrado, tenha sido deixado por meu pai anos e anos sobre a estante da sala. Só recordo de ouvir música nele uma vez, quando meu pai o sintonizou em alguma estação e minha irmã e eu, ainda muito pequenos, pulamos ao som de uma música que eu não lembro qual era.

Ainda aos treze anos, quando eu cursava a sétima série do ensino fundamental, redescobri a TV União. Eu já tinha conhecimento de sua existência, mas foi só nessa idade que me viciei nela. A programação do canal local era e ainda é quase que inteiramente dedicada à transmissão de videoclipes. Hoje, encaro de forma benéfica o fato de até essa época não ter construído nenhuma bagagem musical. Como meus pais não apreciam música, acabei crescendo sem ouvir nada, porém, tive a vantagem de não ter sido influenciado pelo gosto musical dos outros. Aos treze anos, era como se meus ouvidos fossem virgens. Eu haveria de descobrir por conta própria minhas preferências musicais, e foi justamente isso que aconteceu. Imediatamente descobri que o rock e eu estabeleceríamos um relacionamento para a vida toda.

O programa da TV União que eu mais gostava era um chamado Top Mais, que ainda existe. Nele são exibidos os dez videoclipes mais pedidos na programação. Eu simplesmente adorava. Era transmitido das onze da manhã ao meio dia, de segunda a sábado, pois no domingo eles faziam um especial. Os telespectadores enviavam cartas com os seus dez videoclipes favoritos e, em cada domingo, eles sorteavam um felizardo que teria seu pedido atendido. Escrevi várias cartas, mas nunca cheguei a enviar, pois era incapaz de selecionar apenas dez videoclipes. Depois de algum tempo, o programa mudou de horário, passando a ser transmitido do meio dia às treze horas da tarde, o que complicou para o meu lado. Eu estudava no turno da tarde e a aula começava justamente às treze horas. Depois dessa mudança, eu só conseguia assistir do décimo ao quarto colocado e saía correndo para o colégio. Perdia o pódio com os três mais votados. Entretanto, minha melhor amiga na época morava perto do colégio e conseguia assistir tudo. Ela sempre me contava o que eu havia perdido quando nos encontrávamos na aula. Atualmente, não sei mais qual o horário exato do programa e nem se continuam fazendo esse especial aos domingos.

A banda Luxúria foi a primeira que considerei como favorita em minha vida. O videoclipe da música ‘Imperecível’ ficou por muito tempo entre os mais pedidos da programação. Depois lançaram ‘Lama’, que, juntamente com ‘Ódio’, foram suas músicas mais conhecidas – pois tocaram em novelas. Pouco tempo depois, a banda acabou e a vocalista, Megh Stock, seguiu em carreira solo. Megh chegou a lançar dois álbuns: ‘Da Minha Vida Cuido Eu’, em 2009, e ‘Minha Mente Está em Seu Caos’, em 2011. No entanto, ela está longe dos palcos desde então e sem previsão de volta. As músicas do Luxúria, bem mais do que as dos discos solos de Megh, são muito nostálgicas para mim. Foram elas que, na semana passada, baixaram repentinamente em meu cérebro durante a leitura de ‘Doidinho’. No momento em que isso aconteceu, interrompi a leitura e fui assistir aos videoclipes da banda pelo celular. Quanta saudade!

Luxúria não passou muito tempo no posto de minha banda favorita. Logo ela seria substituída por outras conforme fui descobrindo grupos melhores e com sons mais pesados, porém, nesse curto espaço de tempo, eu me lembro de ter tido aulas com uma excelente professora de geografia que também era roqueira. Ela tinha uns quarenta anos (ou menos) e usava sempre lentes de contato coloridas, embora as vermelhas e as cinzas fossem as que ela usasse com mais frequência. Certo dia, perguntei-lhe se conhecia a banda Luxúria e ela respondeu que não, mas que já tinha ouvido falar e que queria experimentar seu som. Prometi então de lhe gravar um CD com o único álbum da banda lançado em 2006, mas ela acabou saindo do colégio antes que eu lhe entregasse o presente. Meses depois, nos chegava a notícia de que ela havia morrido de overdose. Quem nos contou foi um colega de sala que era vizinho dela. Fiquei muito triste quando soube.

Ouvi muito os discos solos de Megh também, mas isso foi no período em que eu cursava o ensino médio, já na adolescência. Ainda existia o programa de mensagens instantâneas do MSN. Praticamente todos os amigos virtuais que fiz são dessa época. Hoje, o Skype cumpre bem a função do seu antepassado que, convenhamos, era uma bagunça, embora eu veja com saudosismo as funções de chamar atenção e saber o que os amigos estão ouvindo. Estou falando disso porque existia algo no MSN chamado subnick, mais conhecido como “digite sua indireta aqui”. Todo mundo colocava letras de músicas com a ilusão de encobrir a verdadeira intenção da mensagem e todos fingiam que acreditavam. Nós passávamos vergonha e nem sabíamos. Eu adorava usar trechos de músicas da Megh: “não apodreça, ninguém vai reparar”, “mas o que você me faz me dando todos os sinais de que agora eu acertei?”, “daria um pedaço do meu medo pra saber se você tem coragem”, “se eu me escondo aqui nesse lugar tranquilo não se esqueça que pro caos eu tô partindo”. Quem nunca? Faz só três anos que o MSN desativou seu programa de mensagens instantâneas, mas por eu ter deixado de usá-lo antes mesmo do fim, tenho a sensação de que foi há um século.

O meu eu roqueiro de anos atrás não veria com bons olhos o também fã de Tropicália e MPB de hoje. Há anos que eu não ouvia Luxúria e Megh Stock – se não fosse essa lembrança repentina, talvez passasse muitos outros anos sem ouvir novamente. Escrevi esse texto ouvindo essas canções. Elas, juntamente com muitas outras, marcaram minha adolescência que, ao contrário da infância, foi extremamente musical. Gostaria, inclusive, que Megh gravasse um disco novo e voltasse a fazer shows. Eu, que nunca tive a oportunidade de vê-la ao vivo, iria adorar.

Um detalhe é que essa revisitação me serviu para descobrir que eu cantava a letra de ‘Dúvidas’ errado. No trecho “muitas vezes eu te desviei da meta” eu sempre cantei “muitas vezes eu te desviei da merda”. Essa não foi a única: eu também cantava ‘Lama’ de forma errada, já que no trecho “tira essa lama das botas” eu cantava “tira essa lama das portas”. No entanto, o erro de ‘Lama’ eu descobri bem lá no início, na adolescência mesmo. Confesso que prefiro minha versão errada de ‘Dúvidas’. Enfim, vou encerrar por aqui porque ‘Doidinho’ não vai terminar de se ler só. Até a próxima, abraçaço.

filho ingrato da televisão

Sábado último, fiquei acordado até tarde esperando um filme que ia passar na televisão. Foi como ter voltado no tempo, pois não recordo a última vez em que esperei um filme ser exibido na TV para poder assisti-lo. O longa em questão foi ‘Meu Amigo Hindu’, última produção do cineasta Hector Babenco, lançada nos cinemas em março. Anos atrás, após sua estreia nas salas de cinema, os filmes demoravam alguns meses até serem lançados em VHS ou DVD. Eles iam direto para as locadoras de vídeo e, só depois, chegavam às lojas. Passados um, dois anos, ou até mesmo um período maior, o filme seria finalmente exibido na TV, que o anunciaria com grande estardalhaço: “pela primeira vez na televisão”. Toda essa espera para que as locadoras de vídeo pudessem lucrar com o aluguel dos filmes e para que estes fossem exibidos até cansar em emissoras de TV por assinatura. Com o fim das locadoras e o avanço da internet, o caminho que o filme faz das salas de cinema até a TV aberta ficou bem mais curto. Agora, ou as emissoras transmitem os lançamentos em um prazo menor, ou todos já terão assistido quando forem transmitidos. Mesmo assim, ‘Meu Amigo Hindu’ foi televisionado em tempo recorde. A exibição foi uma homenagem da Rege Globo a Babenco, que morreu no último dia 13, dia do rock. Não fosse a morte do diretor, o filme jamais teria sido exibido tão rapidamente.

Estava querendo assistir a ‘Meu Amigo Hindu’ desde o ano passado, quando ele foi apresentado pela primeira vez durante a 39ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O filme teve um lançamento modesto, chegando a poucas salas de cinema e saindo de cartaz rapidamente. Com isso, acabei perdendo a oportunidade de vê-lo na tela grande. Começou então a minha espera pelo lançamento do filme em alguma plataforma online, até que, na quinta-feira (13), acordo e vejo no celular uma mensagem do meu namorado me contando que Hector Babenco havia morrido aos 70 anos de parada cardíaca. Ele sabe da minha forte admiração por Babenco e até já havia me presenteado com o livro ‘Pixote – A Lei do Mais Forte’, de José Louzeiro, que conta a trágica história de Fernando Ramos da Silva, famoso em todo o Brasil por interpretar Pixote, figura central do romance-reportagem ‘Infância dos Mortos’ (do próprio Louzeiro) e do filme de Hector Babenco, nele baseado, ‘Pixote – A Lei do Mais Fraco’ (1980).

Quem nasce hoje, tem como mãe legítima a internet, que é minha mãe adotiva, pois mesmo ainda sendo jovem, faço parte da última geração de filhos biológicos da televisão. Fui da parte pobre da família, porque a minha tia rica, quer dizer, a TV por assinatura, nem cheguei a conhecer. Ainda acompanhei os últimos anos das locadoras de vídeo. Nem precisava alugar os DVDs na sexta, como faziam a maioria dos clientes, para ficar com os filmes por mais tempo, já que a locadora fechava aos domingos. Como os títulos que eu alugava eram sempre os que ninguém levava, os donos da locadora me permitiam ficar com eles por mais tempo, sem que fosse preciso pagar multa por atraso. Não faço o tipo saudosista, mas vai ser divertido contar para as futuras gerações que eu alugava o que hoje possuímos ao alcance de um clique.

Durante a infância, estudava no turno da manhã e, quando acabava a aula, corria desesperadamente para chegar em casa e assistir a desenhos animados na TV. Os mais legais ficavam sempre para o final, então dava para assistir as duas últimas atrações. Algumas vezes, eu acabava perdendo certos episódios – isso acontecia quando minha mãe atrasava na hora de ir me buscar na escola ou quando ela decidia fazer alguma compra no caminho de volta. Já escrevi aqui sobre como meus pais eram superprotetores comigo, então minha mãe levava e buscava de bicicleta minha irmã e eu todos os dias. Estudamos sempre nos mesmos colégios, embora em séries diferentes: ela, por ser mais nova, esteve sempre duas sérias abaixo de mim. Quando ganhei minha primeira bicicleta, minha mãe me deixava ir na minha enquanto ela e minha irmã iam em outra, só deixando de nos levar à escola quando fez uma cirurgia, poucos dias após o meu aniversário de dez anos. Isso aconteceu no meu primeiro ano em escola pública, em que todos os meus colegas de sala de aula iam sozinhos, diferente dos meus colegas de colégio particular, que eram levados pelos pais de carro. Foi quando comecei a sentir vergonha por ser levado por minha mãe, pois os garotos me zoavam. Hoje, tenho vergonha por ter sentido vergonha disso. Ela ficou bastante tempo em recuperação após a cirurgia, então passei a ir sozinho à aula. Aquele foi também o meu primeiro ano estudando no turno da tarde. Minha irmã continuou no turno da manhã e ia à aula de carona com nosso vizinho cujo filho estudava na mesma escola. Quando se recuperou, minha mãe havia perdido o medo de me deixar ir sozinho, e não voltou a me levar mais.

Assisti a temporadas inteiras de desenhos animados e tenho de confessar que, às vezes, fingia estar doente para faltar aula e não correr o risco de perder certos episódios, geralmente os últimos da temporada. Quando passei a estudar no turno da tarde, isso deixou de ser um problema, mas continuei fingindo estar doente em algumas ocasiões, dessa vez para não perder o filme que ia passar na TV. Minha mãe sempre desconfiava dessas minhas mentiras, pois eu ficava milagrosamente curado quando estava assistindo televisão.

Alguns anos antes dela fazer essa cirurgia, eu lembro que, à noite, assistia, juntamente com meu pai e minha irmã, às novelas infantis do SBT (pois minha mãe nunca gostou de qualquer folhetim televisivo). Toda noite, duas vizinhas vinham com seus filhos assistir televisão aqui em casa, pois não tinham televisores em seus lares. Uma delas era minha madrinha, que sempre trazia seu filho que, por sua vez, correndo de um lado para o outro, não deixava ninguém em paz. A outra era uma senhora deveras religiosa que trazia o casal de filhos. Ela era a única evangélica da rua que assistia à TV e os outros consideravam isso um pecado, pois quem via aqueles programas corria o risco de não ver Jesus quando ele voltasse à Terra para buscar os seus fiéis no dia do juízo final. O mais irônico é que ela e seus filhos evangélicos eram os que mais gostavam de assistir às novelas, ficando verdadeiramente hipnotizados. Os filhos dela eram meus amigos e da minha irmã. Eles possuíam rádio em casa, o que não tínhamos, e nos contavam que também ouviam novelas pelo rádio. Eu não conseguia entender como alguém podia acompanhar a uma novela só pelo som, e eles me contavam que era do mesmo jeito que assistir na TV, só que sem as imagens. Somente anos depois eu fui descobrir o que eram radionovelas. Certa vez, minha mãe, a religiosa mais herege que eu conheço, disse para uma cliente evangélica que se incomodou com o fato de assistirmos à TV ao invés de ficarmos atentos a volta do Messias: “Quando ele voltar, você nos avisa. Você é minha amiga! Será que vai deixar de me chamar quando Jesus estiver te levando para o céu?” Nem preciso dizer que minha mãe perdeu a cliente.

Esse período da infância foi o único em que assisti a telenovelas; na adolescência, ainda cheguei a acompanhar umas duas, mas nunca tive muita paciência. Meu interesse mesmo era pelos filmes. Metade dos títulos que vi na vida foi assistida na televisão e a outra parte, na era pós-internet. Vi na TV muitos dos filmes que hoje são considerados clássicos e, desde muito cedo, descobri que os melhores passavam durante a madrugada. Não porque eram longas adultos, pois nunca vi pornô na televisão, mesmo nas sessões da madrugada, e sim porque, na maioria das vezes, não eram produções blockbusters e sim as de baixo orçamento, filmes de arte. É algo até engraçado, visto que os filmes que antes passavam durante a tarde hoje não são mais transmitidos nesse horário por não respeitarem a indicação de faixa-etária livre.

Com a chegada da internet na adolescência, a televisão continuou tendo um lugar de destaque na minha vida. Embora não assistisse mais a desenhos animados, continuava firme e forte com os filmes. O declínio da TV em minha rotina só não aconteceu mais cedo graças à tecla SAP (sigla em inglês para Segundo Programa de Áudio). Permitir assistir aos filmes com o áudio original e legendados foi o que ainda me manteve por um tempo ao lado da minha velha companheira. Quando eu era criança e ainda não sabia o que era a tecla SAP, uma prima de segundo grau veio aqui em casa e, enquanto brincávamos na sala, sentou sem querer sobre o controle remoto que estava no sofá. A TV estava ligada e do nada os personagens do filme que estava passando começaram a falar em inglês. Apertei os vários botões do aparelho na tentativa de fazer o som voltar ao “normal”. Fiquei desesperado, pois achava que meu pai iria me matar quando chegasse em casa à noite e encontrasse a TV falando aquele idioma tão estranho. Depois de muitas tentativas, o som da TV voltou ao áudio dublado, mas eu só vim descobrir o que havia acontecido naquela ocasião anos depois. Tecla SAP é vida!

Hoje, existem quatro aparelhos de televisão aqui em casa, mas assistimos cada vez menos. Não vejo mais filmes na TV, pois são sempre cortados para que caibam na programação. No entanto, os aparelhos ainda me são necessários para que eu possa ver os filmes que coloco no DVD. Admito que, uma vez ou outra, ainda assisto a telejornais, embora minha fonte de informações seja realmente a internet. Também assisto a transmissões de jogos, mas quando estes não são os que desejo ver, mais uma vez recorro à rede. Até alguns programas de entrevistas que gosto de assistir não me preocupam mais, já que, em poucas horas, todos estão disponíveis online. Admito também que, quando um filme que gosto muito está passando e não tenho nada mais importante para fazer, acabo revendo. Esse ano isso aconteceu com ‘Que Horas Ela Volta?’ (2015) e, muito recentemente, com ‘O Som ao Redor’ (2012), sendo que este começou quando eu estava me preparando para deitar. Gosto tanto do filme que só consegui ir dormir quando acabou, mesmo irritado por algumas cenas terem sido suprimidas. Aparentemente, o filme de Babenco foi exibido na íntegra, pois ficou no ar por mais de duas horas, mas só terei certeza acerca disso quando revê-lo.

Havia anos que a TV não transmitia algo do meu interesse e que me fosse inédito. Por Hector Babenco, voltei mais uma vez à tecla SAP e fui dormir de madrugada, todavia, valeu muito a pena. Ainda não sei o que ‘Meu Amigo Hindu’ representa para mim diante de todas as belas sensações que me despertou. Terminei o filme com um nó na garganta por saber que era a última produção de Babenco e feliz por ter sacado todas as suas auto-referências profissionais, mesmo reconhecendo que jamais saberemos o que é ou não biográfico no roteiro. Acabado o longa-metragem, voltei à internet, pois sou um filho ingrato da televisão e espero sinceramente nunca mais ter de voltar a ela devido a morte de alguém querido. Ser um refém da TV é um retrocesso, é estar à mercê da alienação e ser passado para trás por toda uma geração conectada à rede mundial de computadores. Infelizmente, muita gente depende exclusivamente da TV como fonte de informações: segundo o IBGE, 50% dos lares brasileiros ainda não tem acesso à internet. O Estado deveria estar trabalhando para levar acesso aos outros 50% dos lares, e não as operadoras brigando na Justiça para limitar o acesso desta. No entanto, isso é assunto para outro texto. Por hora, sei que sou um afortunado por ter abandonado a TV antes que ela me deixasse igual ao eu lírico da canção ‘Televisão’ dos Titãs: burro, muito burro demais.

meus superpoderes

Recentemente estava pensando em um filme que vi já faz certo tempo e que por coincidência passou na TV pouquíssimos dias depois. O filme passou na programação da madrugada e nem cheguei a assisti-lo novamente, apenas vi quando trocava de canal. Acontece que esse fato me fez lembrar de quando eu era criança e achava que tinha o poder de prever/escolher qual filme passaria na TV.

Quem nunca teve vontade de ter algum tipo de poder? Eu já quis ter vários. Já desejei, inclusive, ser imortal. Mas desisti da ideia por ter de ver todas as pessoas que amo morrerem. Depois eu teria que encontrar mais pessoas para amar e elas morreriam também. Com o passar do tempo eu teria me despedido de tantos amores que não suportaria a overdose de saudade.

Também já desejei ler mente, mas hoje vejo que com certeza seria um poder terrível para qualquer um, sobretudo para mim. Classifico as pessoas em quatro categorias: a que você conhece e gosta logo de cara e com o passar do tempo você continua gostando; a que você conhece e gosta logo de cara, mas que conforme vai conhecendo melhor deixa de gostar; a que você conhece e logo de cara não gosta, mas que com o passar do tempo aprende a gostar; e a que você conhece e logo de cara não gosta e não vai gostar nunca por mais tempo que passe. Eu me classifico entre essas duas últimas. Ninguém gosta de mim logo de cara. Claro que existem suas exceções, mas a maioria dos meus amigos me detestou antes de me amar. Imagina só se eu pudesse ler o pensamento dessas pessoas? Do jeito que (infelizmente) sou rancoroso, eu jamais daria oportunidade para elas me conhecerem melhor e ambos perderíamos um amigo.

Contudo, superpoderes não existem e não gosto de perder meu tempo imaginando como seria algo que nunca vai acontecer. Se bem que do jeito que a programação da televisão brasileira vai de mal a pior, eu bem que gostaria mesmo de ter o poder que “tinha” quando criança, onde eu pensava em um filme e dias depois ele passava na TV. Era bem mais divertido esse tempo em que eu ainda não sabia o significado da palavra coincidência.

silvio santos em 23 imagens

“Depois da minha família, a pessoa que eu mais amo nesse mundo é o Silvio Santos”. Vi essa frase já faz algum tempo, só não me recordo onde. O que posso dizer é: essa frase nunca foi tão minha.

Não consigo entender por qual motivo o cara me soa tão íntimo. Mesmo tendo uma tia fisicamente parecida com ele (que fique claro que eu sou o único parente dela que acha isso) e de ter crescido assistindo aos seus programas, não acredito que tenho razões fortes o suficiente para sentí-lo como alguém tão familiar. Muitas pessoas cresceram assistindo-o e não nutriram o mesmo sentimento que eu. Minha irmã é uma delas.

Já que com ele eu me sinto totalmente em casa, o escolhi para estrear uma categoria especial aqui no blogue que irei chamar de 23 Imagens. Essa seção, que pretendo postar uma vez por mês, consiste em homenagear meus grandes ídolos em vinte e três fotos. Eu adoro me torturar e fazendo isso sempre vou sofrer por deixar certas fotos de fora. Mas para mim listas são isso, só servem para deixar algo de fora.

Se deus existisse, eu só conseguiria imaginá-lo como sendo alguém bem parecido com o Silvio Santos, com aquele sorriso constante, me despertando esse sentimento de parentesco, além de ser muito divertido e sem papas na língua como o patrão (sempre quis chamá-lo de patrão, como fazem seus funcionários). Hoje não o assisto tanto quanto gostaria, mas a minha admiração só cresce. Silvio, te amo.

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Não sei quem são os fotógrafos responsáveis pelas fotos, mas se você conhece ou fotografou alguma delas, é só deixar o nome com o número da foto para que sejam devidamente creditados.