os dez melhores livros que li em 2015

Saímos de 2015, mas 2015 não saiu de nós. Mesmo que você, Leitor, não tenha realizado grandes feitos em sua vida nesse ano que se passou (esse foi o meu caso), assim como eu, viu muitas coisas acontecerem no nosso país e no mundo. Grandes ídolos morreram, grandes filmes e discos foram lançados. Novos escândalos de corrupção vieram à tona, ataques terroristas foram realizados, aconteceram diversos eventos esportivos, eventos culturais e festivais de música. Vivemos para ver tudo de bom e de ruim que ocorreu no ano passado. Seja com esses eventos globais ou especificamente localizados, 2015 fará para sempre parte da nossa tragetória, afinal, passamos por ele e estamos aqui para contar a história. Trata-se de um ano que particularmente me marcou pelas leituras que fiz. O conhecimento adquirido no ano passado é algo que vai continuar comigo para o resto da vida, algo que ninguém pode me tirar. Parece um tremendo clichê, mas é verdade. Também foi o ano em que mais li na minha vida: quarenta e seis livros, um total de onze mil novecentas e cinquenta e oito páginas, com média de trinta e três páginas por dia segundo meu perfil no Skoob. Infelizmente, não contei as páginas dos livros para saber se esses números estavam corretos (afinal, sou de humanas), mas resolvi escrever um post sobre os dez melhores livros que li ano passado. São eles, em ordem alfabética:

Discos

Título: Discos
Autor: Arnaldo Cohen, Céline Imbert, Eduardo Giannetti, Lia Rodrigues, Luiz Tatit, Marcelo Coelho, Tom Zé
Primeira publicação: 2003
Minha edição: PubliFolha

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‘Discos’ era um livro que tinha na minha estante já fazia certo tempo, mas que só ano passado resolvi ler. Achava que não ia gostar da leitura, mas me enganei redondamente. O livro me fisgou logo na primeira página. Nele, sete autores dissertam sobre os dez discos que levariam para uma ilha deserta. Sou apaixonado por listas, por isso devo ter gostado tanto de ler algumas feitas por pessoas que admiro, sem contar que, ao longo dos seus mais de setenta capítulos, acaba se tornando um ótimo livro para se pegar dicas de discos para ouvir. Este também foi o livro que me fez conhecer o grande Luiz Tatit. Falei sobre isso em um dos primeiros posts do Satãnatório: o ‘eterno ignorante, parte 1’.

Elite da Tropa

Título: Elite da Tropa
Autor: Luiz Eduardo Soares, André Batista, Rodrigo Pimentel
Primeira publicação: 2005
Minha edição: Objetiva

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Gosto muito do filme ‘Tropa de Elite’ (2007), do diretor José Padilha, e admito que esse livro chegou até mim graças à sua adaptação cinematográfica. No princípio, não tive vontade nenhuma de ler ‘Elite da Tropa’, pois acreditava que devia ser muito parecido com o longa-metragem. Todavia, depois de saber que muitos detalhes são diferentes na obra impressa, decidi ler e me surpreendi. Constatei que, de fato, neste caso, livro e filme parecem ser duas coisas totalmente distintas, incluindo aqui a estrutura narrativa. O escrito está dividido em duas partes. A primeira conta histórias sobre o Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), considerado um esquadrão de elite na Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Baseado em relatos reais de ex-policiais do BOPE, o livro mostra os oficiais como uma tropa aparentemente incorruptível e extremamente violenta. Desse momento inicial foram retirados os personagens do filme e algumas histórias que o compõe. Contudo, a segunda parte, que fala sobre o plano para assassinar Leonel Brizola, na época governador do Rio de Janeiro, é o suprassumo do livro, e nada disso está no longa. Esta outra seção com certeza daria um excelente roteiro se fosse adaptado para o cinema. Já havia falado da minha edição do livro no post ‘livros sebosos’.

Encontros Tom Zé

Título: Encontros – Tom Zé
Autor: Tom Zé, Heyk Pimenta
Primeira publicação: 2011
Minha edição: Azougue

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Primeiro tenho que contar como encontrei essa pérola. Jorge du Peixe, vocalista da Nação Zumbi, publicou uma foto do livro em seu perfil no Instagram com a seguinte legenda: “Livrinho fuderoso da coleção Encontros. Entrevistas antológicas com Tom Zé, o mestre dos mestres e punk mais original do Brasil.” Dias depois, eu já estava com o livro em mãos e me segurando para não ler de uma só vez. Sempre fico triste após terminar de ler uma boa publicação por completo. Quando mais tempo eu convivo com o livro, melhor. Mesmo assim, terminei logo, tanto por ser curto, quanto por ser sobre Tom Zé. Tenho que concordar com du Peixe, o livro é mesmo fuderoso.

Estação Carandiru

Título: Estação Carandiru
Autor: Drauzio Varella
Primeira publicação: 1999
Minha edição: Companhia das Letras

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Esse foi outro livro que cheguei através de um filme: ‘Carandiru’ (2003) de Hector Babenco. A obra de Drauzio Varella é um dos poucos casos em que um sucesso editorial, verdadeiro fenômeno de vendas realmente vale a pena ser lido. Vencedor do Prêmio Jabuti em 2000 na categoria Livro do Ano de Não-Ficção, a publicação conta a experiência de Varella como médico voluntário, a partir de 1989, na Casa de Detenção de São Paulo, onde realiza atendimento em saúde, especialmente na prevenção da AIDS. No post ‘livros sebosos’ também falei sobre a minha edição desse livro.

O Centauro no Jardim

Título: O Centauro no Jardim
Autor: Moacyr Scliar
Primeira publicação: 1980
Minha edição: Companhia de Bolso

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Esse foi meu primeiro livro de Moacyr Scliar, constituindo o suficiente para que eu me tornasse um grande admirador da sua escrita criativa. A obra mistura elementos fantásticos em uma trama muito instigante, contando a estória do centauro Guedali, um ser metade homem, metade cavalo. O blogue 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer fez uma excelente resenha sobre esse livro.

O Guarani

Título: O Guarani
Autor: José de Alencar
Primeira publicação: 1857
Minha edição: Martin Claret

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Meu primeiro contato com a história do livro veio com a ópera de mesmo nome do compositor Carlos Gomes e depois com o filme ‘O Guarani’ (1996), da diretora Norma Bengell. Anos depois, minha irmã ganhou um exemplar do romance, que acabou me dando por não gostar. Eu também acabei o abandonando por não conseguir me envolver com o enredo. Entretanto, no ano passado, resolvi dar mais uma chance a ele e acabei me apaixonando, principalmente por sua parte final. Assim que concluí a leitura, assisti a outra versão cinematográfica do livro, ‘O Guarani’ (1979), do diretor Fauzi Mansur, que supera a outra produção citada. A primeira adaptação do livro para o cinema aconteceu em 1912, em um filme mudo hoje considerado perdido.

O Que é Isso, Companheiro?

Título: O Que é Isso, Companheiro?
Autor: Fernando Gabeira
Primeira publicação: 1979
Minha edição: Companhia de Bolso

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Mais um livro que cheguei através de um filme, dessa vez foi ‘O Que é Isso, Companheiro?’ (1997), do diretor Bruno Barreto, que representou o Brasil no Oscar de 1998, sendo indicado ao prêmio de melhor filme estrangeiro. Até pouco tempo atrás, eu evitava ler livros que eram adaptados para o cinema, tentando focar em histórias que eu ainda não conhecia. Ainda bem que parei com isso, até porque o filme de Barreto é inspirado apenas no 15° capítulo do livro de Gabeira, o trecho que diz respeito ao sequestro do embaixador norte-americano. O livro é um ótimo depoimento sobre quem viveu na pele o terror da ditadura militar brasileira. Super indico a obra para os politicamente alienados que saíram às ruas no ano passado pedindo a volta do regime militar. O blogue 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer também fez uma ótima resenha sobre ele.

O Réu e o Rei

Título: O Réu e o Rei
Autor: Paulo Cesar de Araújo
Primeira publicação: 2014
Minha edição: Companhia das Letras

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Se não me engano, esse é o maior livro dessa lista e o que li mais rápido. Eu já sabia como terminava a história de Paulo Cesar de Araújo com Roberto Carlos, mas queria saber os detalhes. No livro, o autor fala sobre a polêmica proibição de seu livro anterior, a biografia ‘Roberto Carlos em Detalhes’. ‘O Réu e o Rei’ não é uma nova biografia sobre o cantor, mas sim um relato sobre a relação do autor com Roberto. Durante a leitura ainda ficamos conhecendo a história de amizade entre Paulo Cesar de Araújo e João Gilberto, sem dúvida a maior surpresa do livro.

Secreções, Excreções e Desatinos

Título: Secreções, Excreções e Desatinos
Autor: Rubem Fonseca
Primeira publicação: 2001
Minha edição: Companhia das Letras

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Esse foi meu primeiro livro lido em 2015. É um compêndio de contos e constituiu meu segundo título de Rubem Fonseca, depois de ‘O Caso Morel’. Com essa obra, rapidamente descobri porque ele é considerado um dos melhores contistas deste país. O primeiro conto da coletânea, ‘Copromancia’, se tornou um dos meus textos favoritos e, assim como todos os outros que a compõe, a cada parágrafo lido, eu imaginava como ficariam ótimos se fossem adaptados para o cinema.

Tropicalista Lenta Luta

Título: Tropicalista Lenta Luta
Autor: Tom Zé
Primeira publicação: 2003
Minha edição: PubliFolha

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Mais uma vez um livro do Tom Zé! Este, por sua vez, merece destaque por considerado sua biografia. ‘Tropicalista Lenta Luta’ tem capítulos escritos pelo próprio cantor e compositor, contando sobre sua infância em Irará, acerca de sua formação e ida a São Paulo, discutindo o ostracismo e muitas outras curiosidades de sua vida. Ademais, esses capítulos são curtos e não se aprofundam o suficiente como as biografias convencionais (embora não sejam superficiais, pois Tom Zé nunca é superficial naquilo que escreve). Grande parte do livro é formada pelas letras de seus discos, contendo também cartas e uma extensa entrevista concedida a Luiz Tatit e Arthur Nestrovski. Trata-se de um livro indispensável para aqueles que, como eu, são grandes fãs do Pai da Invenção. Citei esse livro no post ‘vinte e três’ e foi também uma parte dele que me inspirou a escrever o texto ‘meu útero’.

E então, caríssimo Leitor, já leu algum desses livros? Gostou? Não gostou? Pretende ler algum? Me conta!

vinte e três

TEXTO-SOMA

Aparentemente, o WordPress nos notifica sempre que publicamos dez novos textos. Pelo menos foi assim comigo. Se ele vai continuar notificando com o passar do tempo, eu já não sei. É importante começar o texto de hoje falando isso porque se não fosse pela notificação de que o texto “Segunda-feira” havia sido o vigésimo a ser publicado aqui, muito provavelmente vocês não estariam lendo esta postagem da forma que ela está. Esse é o texto de número vinte e três do Satãnatório e, como esse é o meu número favorito, resolvi fazer algo especial (com a notificação do WordPress, consegui me organizar para escrevê-lo). Em 1968, durante as filmagens de ‘O Bandido da Luz Vermelha’, Rogério Sganzerla escreveu um manifesto chamado Cinema Fora da Lei, em que ele dizia que seu filme era um “filme-soma”, isto é, fusão e mixagem de vários gêneros: musical, documentário, policial, comédia, chanchada, ficção científica. Foi então que eu resolvi chamar esse post especial de “texto-soma”, um texto sobre vários assuntos, num total de vinte e três textículos. Mas veja bem, eu disse número favorito e não da sorte, pois não acredito em sorte e azar. Esclarecido o caso, podemos dar prosseguimento.

MACHISTAS NÃO PASSARÃO

Nós homens não temos a exata dimensão do que é o machismo. Não sabemos o que é ser mulher e nunca vamos saber. Nosso papel na sociedade é reconhecer que, querendo ou não, nós somos sim privilegiados. Desde que mundo é mundo, elas sofrem com os padrões machistas e patriarcais, e por isso não temos direito nenhum de atrapalhar seus movimentos. Não devemos decidir as prioridades delas, nem como suas lutas devem ocorrer. Mas sim apoiá-las, dar ideias, disseminar seus conhecimentos feministas, ajudá-las a buscar informações e aprender a não fazer uso de estruturas socialmente impostas para oprimir. Escolher ficar calado e não fazer nada é se posicionar contra. Se não lutamos com elas, estamos do lado do opressor. E se você tá cansado de ouvir falar em machismo, imagina elas que vivem com isso a vida toda. É importante que elas falem. O feminismo é bom para todos, pois o machismo oprime os homens também. Nos impossibilita de chorar, de abraçar e beijar nossos amigos homens e de tantas outras coisas que não vou entrar em detalhes porque isso seria uma tentativa de chamar a atenção para nós tomando seu lugar de fala.

SER GAY TUDO BEM, MAS SER AFEMINADO…

tudo bem também! Ninguém tem que se importar com a forma de comportamento dos outros. Chega de acharem que existem características unicamente masculinas ou femininas. Não existem características certas ou erradas, seja você lésbica, gay, bi, trans ou hétero. Se já é difícil lutarmos contra a homofobia, não faz sentido nenhum que exista esse preconceito idiota muitas vezes disseminado entre os próprios gays. Para os discretos e afeminados: chega desse complexo de inferioridade por ser gay. Não tem que olhar torto para o gay que não é machão. Os afeminados disseram não a “proteção” do armário para lutar cara a cara contra o preconceito. Quantos deles morreram para que pudéssemos falar abertamente sobre homofobia? É uma questão de igualdade; aqueles que não fazem uso dos estereótipos masculinos também devem ser respeitados.

SOBRE TRENS

Moro praticamente em frente a uma estação ferroviária. Fora essa coincidência geográfica, eu sempre considerei o trem o transporte público mais cinematográfico de todos. Lembro da explosão do trem em ‘O Assalto ao Trem Pagador’, do final de ‘Pixote: A Lei do Mais Fraco’ com Pixote caminhando sobre os trilhos, dos passeios de Macabéa ao metrô aos finais de semana em ‘A Hora da Estrela’, a estação de trem em que Dora trabalha em ‘Central do Brasil’, o encontro de Rosa e Bernardo em ‘O Lobo Atrás da Porta’, e meu primeiro curta-metragem (amador) que também tinhas cenas em uma estação ferroviária. Não foi proposital. Na verdade foi algo que eu só vim perceber muito tempo depois. Quando vejo cenas em ônibus fico imaginando o quanto elas seriam melhores se fossem filmadas em trens.

COLECIONA-DOR

Já colecionei de tudo. De chaves a canetas. De bolas de gude a DVDs de filmes. Mas, sendo um capitalista sem capital, hoje não me permito colecionar nada. A última delas foram os filmes, mas a substituição do DVD pelo Blu-ray me deixou desanimado a recomeçar tudo de novo. E as constantes notícias de que novas tecnologias vão substituir o Blu-ray em um futuro próximo só me desanima ainda mais. Embora esteja sempre dando um jeitinho de aumentar minha coleção de livros, não acho que sou um colecionador; é como se fosse uma necessidade fisiológica ter sempre algo novo para ler. Então não coleciono nada concreto, mas decididamente sou um colecionador de palavras. Estou sempre anotando vocábulos novos e esperando uma oportunidade para usá-los.

PERDOEM A OUSADIA DE PUBLICAR UM POEMA DE MINHA AUTORIA

Posso ver uma onda de auto-boicotes
Umas espécies novas e acrescidas de auto-inimigos
se auto-trapaceando em departamentos sérios
Fazendo vasectomias intelectuais
e se tornando dignos de pena
Alguns nem isso

ÍDOLOS

Chega um momento da nossa vida em que descobrimos que nossos pais não são o centro do universo. É quando encontramos para nós outras referências, outras formas de se comportar, pensar, falar e se vestir. Infelizmente nasci em uma família que não consome cultura, então minhas referências além-mundo eram mínimas. Tive que procurar tudo por conta própria. Foi terrível até conseguir convencê-los de que não estava jogando dinheiro fora comprando livros e discos. Mas fico pensando pelo lado positivo: eu não fui influenciado por um gosto musical e literário de qualidade duvidosa.

EU SOU ÍNDIO

Um sonho que eu tinha quando criança era interpretar um índio em alguma peça da escola. Nas duas oportunidades que tive de participar de encenações que tinham índios, as professoras acabaram me escalando para interpretar nossos malditos colonizadores. Sou branco eu sei. Mas na minha inocência de criança eu conseguia me ver como um verdadeiro tupiniquim. É um sonho meu que nunca foi realizado graças a falta de imaginação dessas educadoras.

MÚSICAS DE AMOR NÃO ME REPRESENTAM

Eu me considero um cara romântico. Faço loucuras, surpresas e profundas declarações de amor. Mas não sou fã de músicas românticas. Isso não quer dizer que eu desgoste. Não é isso. Roberto Carlos que o diga. Mas prefiro músicas de protesto, músicas políticas, músicas sobre os mais diversos sentimentos que não seja o amor. O mesmo acontece com o cinema. Gosto e reconheço a qualidade de diversos filmes românticos, mas gosto mesmo é do cinema abertamente político, revolucionário, experimental. A violência cinematográfica me interessa.

CINEMA BRASILEIRO

Não sei se a realidade está mudando de fato ou se são as pessoas ao meu redor que pensam de forma diferente, mas me parece mesmo que os brasileiros estão começando a olhar com outros olhos para o cinema nacional. O que me entristece é que estão fazendo isso tarde demais. Quando já deixaram vários clássicos do nosso cinema passar despercebidos. Já ouvi de muita gente que o cinema brasileiro só tem filme de favela. Sempre que me diziam isso eu pedia para que citassem cinco filmes brasileiros sobre o tema. Nunca conseguiam ir além de ‘Cidade de Deus’ e ‘Tropa de Elite’. Outra que eu já ouvi muito e que nunca mais alguém falou na minha frente foi de que o cinema brasileiro tinha muito palavrão. Essa geração cresceu sem saber (ou sem querer admitir) que quando os filmes chegam ao Brasil para serem dublados, as empresas responsáveis pela dublagem retiram os palavrões ou os suavizavam com xingamentos mais leves. Tudo isso para que o filme possa ser transmitido a tarde e nos horários nobres da TV aberta. Só uma pessoa alienada que continua vendo esse cinema água com açúcar da TV aberta para ter coragem de dizer um absurdo desses. Acho que, com a internet, cada vez mais pessoas começaram a assistir filmes legendados (esse número infelizmente ainda é pequeno) e descobrir toda a “baixaria” do cinema estrangeiro. E que mal há nisso? Nenhum! Isso apenas não pode ser usado como desculpa para dizer que nosso cinema tem mais palavrão que o deles. O cinema internacional produz em uma quantidade muito maior que a nossa, e todos sabem que quantidade nunca foi sinônimo de qualidade. Basta ligar a TV e constatar que boa parte dos filmes estrangeiros transmitidos são horríveis. E ninguém fala que o cinema deles é ruim. De fato produzem obras primas, mas nós também produzimos. O público europeu e americano também é preguiçoso e não gosta de ler legendas. Filme legendado é sinônimo de fracasso de bilheteria no mercado cinematográfico do mundo inteiro. Por termos sido colonizados justamente por um país que nunca teve uma língua dominante, acabamos sendo muitas vezes excluídos do mercado cinematográfico internacional. Mas a crítica internacional e o público estrangeiro que consegue ter acesso aos nossos filmes reconhecem a qualidade do cinema brasileiro. O fato de não termos um Oscar não significa nada. Continuo achando que quem tem que gostar do nosso cinema somos nós brasileiros.

DOCES

Não sei responder quando me perguntam se gosto mais de doce ou de salgado. As duas respostas parecem certas. Acontece que recentemente eu comecei a acreditar que os doces estão vencendo essa disputa. Sou completamente louco por jujubas, e gosto de todas, menos das roxas que eu acredito serem de uva, nunca sei. Mas elas também servem na falta das outras. O leite condensado eu coloco na geladeira, porque tomar ele natural enjoa muito rápido e gelado a sensação é de que não é tão doce, me possibilitando um número maior de colheradas. Sem falar na minha propensão ao vício por amendoins coloridos. Aqueles cobertos de doce. Por que estou falando sobre isso? Não faço a mínima ideia.

REFRIGERANTE

Não bebo refrigerante a mais de dois anos. Eu era completamente louco pelo refrigerante de guaraná. Lembro da sensação maravilhosa que era beber um copo de refrigerante geladinho depois de chegar em casa numa tarde quente. Mas a grande verdade é que depois que decidi parar de beber, não sinto mais nenhuma vontade. Nem fico mal nem de estar em uma mesa onde todos estão bebendo refrigerante.

“SONHOS” RECORRENTES

Ademais, a decisão de não tomar mais refrigerantes me trouxe um sonho recorrente. Sempre me vem durante o sono a imagem de que estou bebendo refrigerante e quebrando minha abstinência que é de quase três anos atualmente. O mais engraçado é que esses sonhos são para mim o pior pesadelo que posso ter. Sonhar bebendo refrigerante hoje em dia é terrível, e são sonhos tão reais que é como se eu sentisse o gosto do refrigerante na minha boca. Sempre acordo nervoso, achando que tudo aquilo aconteceu de fato.

INSÔNIA

Conseguir dormir é que é o problema. Quem disse que a insônia deixa? É só deitar à noite que começo a pensar em tudo. Já penso muito durante o dia e quando deito para dormir é como se eu não tivesse horas suficientes para pensar enquanto estou acordado e precisasse pegar um pouco da hora de dormir para conseguir pensar tudo. É simplesmente horrível. Seria tão mais fácil se viéssemos com um botão de desligar…

SONO PÓS-ALMOÇO

Na medida em que tenho dificuldade em dormir a noite, ironicamente tenho igual dificuldade em me manter acordado depois do almoço. É um sono infernal que se apodera do meu corpo se transformando em um inimigo muito difícil de vencer. O pior é que é normal sentir esse sono. Já li de tudo sobre o assunto procurando suas causas. Já li que a produção de suco gástrico que faz parte do processo de digestão faz com que o cérebro diminua a atividade de alerta. Que refeições ricas em açúcar fazem com que a concentração de glicose suba no sangue, o que também leva a diminuição do estado de alerta do cérebro. Que na hora do almoço o nosso corpo automaticamente se prepara para dormir e o sono acumulado contribui para isso. Mas segundo as minhas pesquisas, aparentemente, o maior responsável é a concentração de fluxo sanguíneo na região do estômago na hora de digestão. Como o sangue conduz oxigênio para o nosso organismo e o cérebro precisa de muito oxigênio para funcionar, a maior concentração de sangue para a digestão faz com que a oferta de oxigênio diminua para o cérebro, o que força a diminuição da nossa atividade. O que só me leva a concluir que eu estou precisando de muito mais sangue no meu corpo, pois meu sono pós-almoço não é humano.

SOU UM CAVALO

Apaixonado que sou pelos costumes populares, não aceito, contudo, que o povo sacrifique uma perspectiva em função de uma alegoria mística.
Glauber Rocha

Na umbanda aqueles que “recebem” os espíritos são chamados de cavalos. Durante a incorporação, o “cavalo” permanece inconsciente, e quem fala através dele é seu “guia”, ou seja, a entidade espiritual a ele associada. Assim como Glauber Rocha, mesmo sem acreditar em deus, sou apaixonado pelos costumes populares e tenho o hábito de dizer que sou um cavalo. Um cavalo intelectual e não espiritual. Não recebo espíritos, mas estou sempre aberto para receber ideologias. Ideias me interessam.

TODO ESCRITOR ESTÁ MORTO

Quando criança eu cheguei a acreditar que todos os escritores estavam mortos. Coincidentemente, todos os livros que caíram nas minhas mãos eram antigos e seus autores já falecidos. Lembro que foi espantoso quando também criança eu vi um livro que tinha a biografia de um autor ainda vivo. Foi assim que descobri que pessoas jovens também escreviam, já que eu acreditava que só pessoas muito velhas e sábias eram capazes de escrever livros.

TUTORIAL DE COMO MATAR MOSQUITO

Eu ia escrever aqui um tutorial de como matar mosquito, mas já falei tanta besteira que resolvi deixar para lá. Próximo.

SEMPRE FOMOS BONS DE CONVERSAR

Namore alguém com que você goste de conversar. Vai por mim, sexo nenhum, por melhor que seja, segura relacionamento. Não basta ser só bom de cama, tem que ser bom de conversa também.

LIVROS

Sempre estou lendo mais de um livro. O segredo é não misturar os gêneros literários para que não vire tudo uma bagunça na sua cabeça. Então consigo ler um romance e uma biografia, os quais eu me dedico mais. Intercalo-os com livros teóricos de cinema, roteiros, crônicas e poesia. O de poesia fica no aguardo de um mini-tempo livre em que não dá para ler um capítulo do romance ou da biografia, então nesse pequeno espaço eu leio um poema. O livro de crônicas ou qualquer livro de textos curtos fica no limbo (leia mochila) para que seja lido no ônibus ou nas filas da vida. Então eu sempre vou ter mais de uma resposta quando me perguntarem o que estou lendo. O lado negativo é que você convive muito tempo com os mesmos livros. Não se dedicando exclusivamente a um você acaba demorando mais para terminar a leitura. O lado bom é que quase sempre eles costumam acabar juntos. Então você termina uns cinco livros muito próximos uns dos outros e já pode selecionar na estante os outros cinco para a próxima empreitada.

LEITURA ATUAL

Dentre as minhas leituras atuais está o livro ‘Tropicalista Lente Luta’ do Tom Zé. Deixo com vocês o primeiro parágrafo da página 23 do livro. Quem se sentir à vontade, também pode deixar nos comentários a primeira frase/parágrafo da página 23 do livro que está lendo atualmente.

uma ao lado da outra. Lia-se embaixo da primeira: “Esta foto está muito suja. Veja quantos objetos e peças estão perto da pessoa fotografada. É necessário limpar o campo.”
Tom Zé em ‘Tropicalista Lenta Luta’

A PROCURA DO ESCRITOR FAVORITO

Tenho cantor favorito, banda favorita, filme favorito, cineasta favorito, mas não tenho nem livro nem escritor favorito. E é terrível não saber responder a essa pergunta. Já achei que ‘Dom Casmurro’ fosse meu livro favorito, mas não é, embora seja um dos. Em algum momento da vida já achei que Machado de Assis, Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa e Clarice Lispector fossem meus escritores favoritos. Depois da descoberta dos livros violentos de Paulo Lins e Rubem Fonseca, também achei que eles fossem meus favoritos. Mais recentemente me apaixonei pela escrita do Moacyr Scliar e por ai vai. Contudo, entre eles e tantos outros que eu li, acho que nunca existira uma resposta absoluta, embora responder com um desses citados não me pareça errado.

CARTA AO LEITOR

Antes de existir computador as pessoas tinham como viver, não é não? Hoje parece que além do oxigênio agente tem que respirar informação. Todo mundo sabe de tudo mas é tudo superficial, a gente até lê tudo na hora mas não sabe a dor do monge que fez imolação no Nepal.
Trecho da música “Segredos da Levitação” de André Abujamra

Me sinto muito constrangido em roubar o tempo de você Leitor com meus textos. São tantos canais na TV, tantas páginas na internet, tantas redes sociais e aplicativos. Como André Abujamra diz em sua música ‘Segredos da Levitação’: “a gente até lê tudo, mas é tudo superficial”. O que assistir? O que ler? O que ouvir? O que acessar? Como ser seletivo? É tanta coisa que eu posso morrer sem ter visto o meu verdadeiro filme favorito. Sem ouvir uma banda que poderia me agradar mais do que qualquer outra. É muito material e pouco tempo. Pitty escreveu muito recentemente um texto bem interessante em seu blogue sobre não querer contribuir para o entulho do que ela chama de “mar de links”. Meu constrangimento nasce disso. Com tantas informações para assimilar para quê contribuir ainda mais com esse montante? Cada filme/livro/disco lançado já nasce inflacionado. Mas como ficar calado nessa zorra? Se todos falam, eu também quero falar e ser ouvido. No entanto, sou eu quem escolho minhas prioridades, assim como vocês escolhem as suas. E como vocês me leem por livre e espontânea vontade, eu prefiro ficar com essa falsa sensação de consciência tranquila. Me despeço aqui desses vinte e três mini-textos que acabaram formando um aterro ideológico de ideia nenhuma. No fundo eu desejo que você tenha desistido de ler ainda no primeiro parágrafo. Até a próxima! Abraçaço.

livros sebosos

Eu sou mais um capitalista sem capital. Enquanto isso, as editoras seguem lançando cada vez mais livros interessantes e relançando títulos importantes em edições especiais ou comemorativas. Eu não consigo adquirir tudo, pois compro bem menos do que gostaria. Pesa em mim também o fato de ser materialista e só querer comprar exemplares novos. Poucos cheiros no mundo são melhores do que o de um livro novo, recém-saído do invólucro.

Acontece que há pouco mais de dois anos eu descobri, mesmo que tardiamente, a magia dos sebos. Quando conheci meu namorado ele era então estudante de letras (hoje já é formado e mestrando em literatura). Os sebos faziam parte da vida dele e passaram a fazer parte da minha também. O primeiro livro que ele me deu era novo, mas não tardou até que ele começasse a me dar edições encontradas em sebos. Ademais, o dinheiro curto não foi o principal motivo para ele me dar livros usados. Ele sempre apontava para o fato de serem edições muitas vezes raras. Coisa que só ele e verdadeiros estudiosos de literatura me parecem capazes de garimpar.

Lembro, por exemplo, quando ele me deu o livro ‘Elite da Tropa’. Ele sabia do meu amor pelo filme e sabia que eu queria ler o livro que o originou. Sabia que, como ele, eu não gosto de livros com capas de filmes, mas que nesse caso eu preferiria a versão nova do livro que vem com uma foto de Wagner Moura como Capitão Nascimento. Acontece que a edição que ele me deu, comprada em um sebo, era a primeira edição do livro. Ele viu um resquício de decepção quando me deu, mas tratou imediatamente de aniquilá-lo com um simples comentário: essa foi a mesma edição que José Padilha leu. Foi o suficiente para que eu nunca mais quisesse saber da segunda edição.

Elite da Tropa

É bem verdade que esses livros de sebo no início me faziam espirrar por três dias seguidos até que eu me acostume com o cheiro. Sou alérgico e isso infelizmente nunca vai mudar, mas é preciso reconhecer que esses livros usados estão me deixando cada vez mais resistente. Lembro que na primeira vez em que fomos a um sebo juntos, tive uma pequena crise de espirros e fiquei esperando por ele na entrada enquanto conversava sobre movimentos revolucionários com o dono do estabelecimento. Hoje consigo ficar no sebo o tempo que for preciso.

Quando bem mais jovem eu tinha o costume de emprestar meus livros e pedir para que as pessoas que lessem escrevessem seus nomes nele com a data que iniciaram a leitura e a data em que terminaram. Ainda tenho alguns livros desse tempo, mas realmente não sei como e quando aconteceu a transição para o meu eu de hoje que não risca livro nem para colocar uma dedicatória, embora atualmente não me incomode mais quando ganho um livro que vem com algumas frases grifadas. Fico imaginando o que a frase teria de tão especial para ter sido grifada por quem o leu primeiro que eu. A edição de ‘Estação Carandiru’ que meu namorado me deu, também comprado em um sebo, veio grifado em algumas páginas. Ao final da leitura percebi que todas as frases grifadas diziam respeito a estatísticas colocadas no livro por Drauzio Varella. O que me leva a crer que alguém usou essas estatísticas em algum lugar. Teria sido em algum trabalho de sociologia? Nunca saberei e a graça está justamente nisso: imaginar.

Estação Carandiru

Meus livros, inclusive, quase não saem de casa para evitar que os outros peçam para “ver”, já que ver significa folhear, ou pior, para que não peçam emprestado. Juro que estou trabalhando para vencer essa obsessão e voltar a emprestá-los, já que não faz sentido nenhum escondê-los do mundo depois que eu os já li. Quando eu morrer não vou levá-los fisicamente comigo, mas ainda estarão no meu cérebro que infelizmente não é um HD externo em que eu possa guardar todos os conhecimentos adquiridos com as leituras. Ele é só mais uma parte do meu corpo que vai virar pó assim como o pó das prateleiras dos sebos que eu aprendi a gostar graças ao meu amor.