o sinal está fechado para nós que somos jovens

Estive aqui pensando. Muito se fala, e com razão, das imprudências dos motoristas no trânsito. Dirigir é uma arte que eu admito não dominar tanto assim, mas é quando estou no volante que vejo as coisas por um prisma diferente, e justamente por saber que não sou um Ayrton Senna da vida, que tento dirigir com o máximo de cuidado possível. Não temo pelo carro, porque para mim ele funciona como uma espécie de armadura para me proteger. Também não tenho medo de morrer, pois como não costumo acelerar muito, acredito que só morro se um caminhão em alta velocidade bater em mim. Sou o cara da passagem. Dou passagem para todo mundo. Não tenho pressa. Estou ali no carro, com ar-condicionado, ouvindo as músicas que eu gosto, então para que me desesperar? No entanto, hoje, quando tenho que sair de carro, o maior medo que tenho é de matar alguém. As pessoas simplesmente se jogam na frente dos carros quando querem atravessar a rua. É muito comum estar passando por algum lugar e, do nada, surgir um pedestre correndo. Sempre fico me perguntando o que aconteceria se eu não dirigisse devagar. O pedestre pode não só acabar com a própria vida, como destruir a minha. Sou um usuário dos coletivos. Uso ônibus diariamente. Só uso o carro para passeios curtos, ou para levar meus pais, que não sabem dirigir, para algum lugar que eles queiram ir. Sei o quanto é frustrante perder um ônibus por questão de segundos. Não há uma semana sequer em que isso não aconteça comigo pelo menos uma vez. Sei o que é ver um ônibus não parar porque ele está tão lotado que não cabe mais ninguém. Pior ainda, sei o que é dar sinal, e o motorista não parar. Sei o que é esperar debaixo de sol e de chuva. Sei o que é subir em um ônibus lotado e passar a viagem inteira me espremendo para chegar até a porta de saída. Sei o que estar em um ônibus que quebra no meio do caminho. Sei até o que é estar dentro de um ônibus durante um assalto. Mas acreditem, prefiro andar de ônibus a dirigir carro. Quando o motorista bate, a culpa não é minha. Com as vias exclusivas para ônibus, chego mais rápido do que de carro. Durante um engarrafamento, adianto a leitura se estiver sentado ou uso o celular se estiver em pé. A caminhada de uma parada até outra serve como um exercício. Sei que não tenho pânico de dirigir, caso contrário não conseguiria ou o faria com muito esforço. Como usuário de coletivos, sei que a distância entre uma faixa de pedestre e outra quase sempre é absurda. Fico pensando: mais faixas e passarelas resolveriam? De que adiantam mais faixas se os motoristas não param? Canso de ver locais em que os pedestres preferem se arriscar na pista a atravessar na passarela. Educação é a única solução. Quando estudamos para conseguir a habilitação, aprendemos uma regra muito linda: o maior protege o menor. Uma pena que fique só no discurso. Os patrões não são compreensíveis, e estamos sempre correndo para não chegarmos atrasados. A rotina nos cansa e, no final do dia, tudo o que queremos é voltar para nossas casas. Quando estou na faixa de pedestre esperando o sinal abrir para mim e vejo o meu ônibus passar do outro lado, fico pensando: de que adianta me jogar na frente dos carros? O atraso pode nos fazer perder o emprego, mas como vamos trabalhar mortos? O maldito sinal, que parece nunca fechar para os carros, pode nos fazer esperar muitos minutos pelo próximo ônibus e nos fazer chegar bem tarde em casa, mas só dá para voltar para o lar se estamos vivos. Um querido professor de matemática costumava comentar em sala de aula que, toda vez que atravessamos uma rua, nosso cérebro realiza um cálculo muito complicado. Calculamos a distância entre a calçada que estamos e o outro lado da rua, assim como a distância dos carros na pista em relação a nós e, por fim, a velocidade que precisamos imprimir para atravessar até o outro lado. Esse é um calculo tão difícil, mas tão difícil, que às vezes erramos e o carro nos pega. Na ânsia de ganhar alguns minutos, perdemos a vida inteira.

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gentileza gera gentileza

Falta pouco para amanhecer. Depois de uma noite inteira tentando dormir, o sono finalmente chega. Estou quase adormecendo quando mudo de posição para me aconchegar melhor. Como resultado do movimento, afugento o sono. Desisto de rolar na cama e levanto. Ouço música, faço anotações em agendas e tomo um café forte acompanhado de uma tapioca. Começa a chover. Penso no frio. Odeio frio. A chuva para, o sol surge. Ligo a TV. No telejornal local, vejo imagens ao vivo das avenidas mais engarrafadas da cidade. Em pouco mais de uma hora eu estarei dirigindo justamente por uma delas. Começo o dia – quer dizer, continuo o dia anterior, pois não consegui dormir – sabendo que enfrentarei o quarto trânsito mais congestionado do Brasil, segundo um estudo divulgado nessa mesma manhã no mesmo telejornal local. Desligo a TV quando notícias ruins começam a ser transmitidas. Considero-me um sujeito atualizado, mas tenho visto tanto negativismo na mídia que estou começando a achar que o melhor para minha saúde mental é me manter desinformado. Tenho medo de que essa overdose de desgraças faça com que eu perca minha sensibilidade diante do absurdo. Não consigo ver tantas notícias ruins sem me sentir revoltado, impotente e deprimido. Mesmo assim, não quero me acostumar a ver tudo isso e fingir que nada está acontecendo. Consciente de que bombardeios diários de informações desagradáveis podem destruir minha empatia, decido por me afastar dos noticiários por um tempo. Miro meu reflexo no espelho: olheiras. Tomo um banho gelado para afastar o cansaço que começa a se avizinhar do meu corpo insone. Antes de sair, mais uma xícara de café. Na mochila vai o livro ‘Garranchos’, uma coletânea de textos de Graciliano Ramos. Minha manhã acaba sendo mais agitada do que eu esperava que fosse. Não consegui ler nenhum texto do livro. Na volta, o trânsito está bem mais congestionado do que de manhã cedinho. É quase meio-dia, horário de pico. Sigo em uma pista de sentido único. Estou do lado e direito e preciso mudar para a faixa da esquerda. O sinal fecha, os carros param. O sinal abre. Sinalizo para o carro ao lado que vou mudar de faixa. Ele me dá passagem. Quando acelero, o motorista que me deu passagem acelera também. Os carros se chocam. Merda! Que merda! Apesar disso, tenho a sensação de que a batida não foi tão forte assim e de que, no máximo, o carro sofreu alguns arranhões. “Ainda bem que tenho seguro”, penso. O motorista do carro que bateu em mim estaciona um pouco a frente. Não quero confusão. Confesso que desejei intimamente que ele não tivesse parado. Estaciono meu carro no acostamento. Do outro veículo desce um senhor de aparentemente cinquenta anos de idade vestindo calça, camisa e sapatos sociais. Minha roupa é o oposto: uma calça jeans preta e uma camisa do Sepultura, também preta. Saiu do seu carro tão rápido que eu mal havia estacionado e ele já estava batendo na minha janela pedindo para baixar o vidro. No seu rosto, um semblante fechado. Baixo o vidro e ele pergunta: “meu carro bateu em você?” Respondo que sim. O tom de sua voz é calmo e prestativo. Fico mais tranquilo. Desço do carro e finalmente vejo a lateral do veículo dele totalmente amaçada e destruída. Ele se apressa em explicar: “isso foi uma batida com um motoqueiro”. Menos mal. Ele também se apressa em dizer que vai pagar o prejuízo, mas quando olho para a lateral do meu carro atingida pelo veículo dele, não vejo nenhum arranhão ou amassado. Absolutamente nada fora do normal. Não, não foi um milagre. Logo diagnosticamos que o carro dele havia batido no pneu do meu. Ao também se dar conta de que não houve nada, o senhor me explica que parou porque é “um cidadão direito”. Agradeço o seu gesto e nos cumprimentamos com um aperto de mão. Sorrio. Ele sorri de volta. Entramos em nossos respectivos veículos e partimos. Nada de anormal no restante do caminho de volta para casa. Tocava uma música no som quando ocorreu a colisão, mas já não consigo recordar qual era. Mesmo depois de tomar banho e almoçar, não deixo de pensar na batida. Mais especificamente na gentileza do senhor. Presencio tantas brigas no trânsito. Motoristas nervosos e impacientes. Xingamentos, buzinas. Definitivamente não é um ambiente saudável. No entanto, esse senhor e eu éramos duas pessoas dispostas a não brigar. De quem foi a culpa? Não interessa. Ninguém se acusou de nada. Meu dia tinha tudo para ser ruim, mas nem foi. Terminou bem. A primeira batida a gente nunca esquece. Lembrarei sempre da minha como uma experiência agradável. O mundo está precisando de mais “cidadãos direitos” (não de direita). As pessoas ainda podem ser pacientes e gentis umas com as outras. Até mesmo no trânsito.