existencialismos e problematizações

Quem nunca passou por uma crise existencial que atire a prim… me ensine o segredo. Sabe a crise dos quarenta? Pois é, acho que estou vivendo ela agora aos vinte e dois (mas só vou poder confirmar quando eu mesmo chegar lá e saber). Muito louco isso, eu sei, mas sempre fui paranoico com o tempo. Sempre. Não adianta me falarem que ainda tenho muitos anos pela frente (eu sei que tenho – tenho?), isso não vai mudar o fato de a minha percepção de tempo ser muito sensível. Há alguns dias, li uma matéria cientifica dizendo que as moscas veem o mundo em câmera lenta (ao utilizarmos o nosso passar do tempo como referência), o que justificaria elas conseguirem evitar ataques tão facilmente. Não fui checar a veracidade dessa informação (embora seja de um site “sério”, desconfio de tudo e não checando só me resta acreditar ou duvidar – quase sempre fico com a segunda opção). Ademais, como poderia verificar a veracidade de tal informação? Suspeito de tudo, pois se a imprensa sempre maquiou as informações, hoje ela definitivamente não é mais fonte de confiança, se é que um dia foi. Vosmecê Leitor, realmente acredita em tudo que lê nos jornais, nas revistas? Acredita nas informações dos telejornais? Dos sites de notícias? Dos meus textos? Caso vosmecê também não acredite em tudo que é divulgado na imprensa, entre outras fontes, saiba que a culpa não é nossa e sim inteiramente dos meios de comunicação. Quem mandou manipularem o que veiculam sempre que lhes convêm? Simplesmente não dá mais para confiar, seria muita ingenuidade da nossa parte. Duvide de mim, duvide de todos: o seguro morreu de velho. No entanto, eu estava falando de moscas porque ia usá-las como exemplo. Gostaria de também poder ver o tempo passar lentamente, porque o que acontece comigo é justamente o contrário, com tudo parecendo estar correndo rápido demais.

Há quase um mês atrás, encontrei o meu primeiro fio de cabelo branco. Ainda não tenho muita certeza se realmente era branco, já que fui loiro durante toda a minha infância, com meu cabelo escurecendo quando cheguei à adolescência, ficando num tom meio castanho escuro. Já acreditei ter visto um fio de cabelo branco outras vezes, mas quando arranquei, percebi que era apenas um fio loiro, mais claro que os outros. Também tenho cabelo curto, então fica um pouco difícil descobrir se o fio realmente é branco… Essas desculpas esfarrapadas talvez sejam apenas para tentar me iludir com a possibilidade de estar enganado, mas já comecei a acreditar (e aceitar) que era mesmo um fio branco.

Seria muita hipocrisia da minha parte dizer que não tenho medo de envelhecer, de ficar com cabelos grisalhos ou até mesmo perdê-los, ainda que sem histórico de calvície entre os homens da minha família. De colecionar cada vez mais rugas e linhas de expressão em uma pele cada vez mais flácida. Vejo meus avós perdendo cada vez mais os seus movimentos, suas forças. Estaria mentindo se dissesse que não tenho medo do que vem pela frente. Tenho sim, principalmente da possibilidade de ter que tomar vários remédios, comer comidas dessaborosas, depender de uma bengala ou até mesmo de outra pessoa para conseguir andar, de precisar de ajuda para tomar banho, enfim, de perder minha independência. Isso tudo é muito assustador, mas posso garantir que nem de longe é isso o que mais me preocupa.

O que vem depois, melhor dizendo, o que não vem depois é o que sempre habita meus pensamentos. A finitude propriamente dita. O fato de que, não importa o que eu faça, irei morrer. Da circunstância de vivermos em um planeta que sabemos também ser finito. Quando o Sol morrer, a vida na Terra morrerá também, pois sem ele não temos chances de sobrevivência. Mesmo que conseguíssemos inventar um Sol artificial, o verdadeiro nos engoliria em seu processo de extinção, o que deve acontecer daqui a algo entre 5 bilhões e 7,5 bilhões de anos, segundo apontam cientistas. Seria o fim da civilização humana? Quem poderia responder? Nosso otimismo nos faz acreditar que, quando esse dia chegar, nossos herdeiros já terão conseguido encontrar vida em outro planeta e realizado um êxodo. Ademais, sabemos que tudo isso é muito difícil: com o aquecimento global e a possibilidade de guerras nucleares, o próprio homem pode extinguir a vida humana antes de conseguir realizar tal feito. Sem contar, por exemplo, com a viabilidade de um asteroide nos atingir e sentirmos na pele a extinção que um dia os dinossauros sofreram ou até mesmo a chance de um buraco negro nos engolir antes do Sol morrer. Não importa! A ordem dos fatores não altera o resultado. Mais cedo ou mais tarde, seremos nada outra vez.

Se realmente pararmos para pensar nisso, enlouquecemos. Por esse motivo, o Homem, diante de toda essa fragilidade, inventou suas crenças. É assustador morrer e apenas virar pó. É muito mais confortável acreditar que vamos para algum lugar depois da morte, mesmo que seja um território quente, cheio de fogo, onde sofreremos por toda a eternidade. O mais importante é continuar existindo. É muito doloroso não poder ver novamente as pessoas que amamos. É mais agradável imaginar que vamos nos encontrar novamente e vivermos juntos para todo o sempre. Compreendo até o conforto que deve ser estar à beira da morte e fantasiar que coisas do além podem interferir na situação. Encarar a realidade de que nada disso existe é muito difícil. Todavia, não quero passar a vida toda me iludindo. Sabe aquele clichêzão de que tudo que vem fácil vai fácil também? É bem isso. É totalmente compreensível que muitos prefiram acreditar na ilusão de que outra vida nos espera depois dessa, mas só é preciso morrer para constatar que essa esperança é vã. Pena que uma vez mortos, não possamos constatar nada. É preciso desconstruir fantasias em vida, ou trilhar o caminho mais fácil, porém, imaginário. Contudo, minhas verdades são minhas verdades e cada um tem as suas. Seja no que for, preferir acreditar ou não é, quase sempre, uma escolha pessoal. Mesmo vulneráveis à lavagem cerebral da família, da escola, da Igreja, da mídia, do Sistema, somos livres para questionar, ainda que consigo mesmos, o que acreditamos ser verdade ou não. O importante é ninguém tentar impor, e não é isso que eu quero fazer, definitivamente. Entretanto, para explicar pelo que passo, preciso explicar como penso, apenas.

Não é nada fácil continuar, dia após dia, sabendo que tudo que crio é finito. Saber que os textos e roteiros que escrevo, os filmes que dirijo, tudo que produzo vai acabar não é nem um pouco instigante. Isso é claramente o velho desejo de imortalidade do homem. Mesmo quando morremos, tentamos continuar imortais através de nossos filhos, com a falsa esperança de que nossa memória nunca será esquecida, o que sabemos não ser bem assim. Estima-se que 68% das pessoas não saibam o nome de seus bisavós – eu sou um desses. Ou seja, se um dia até nosso nome será esquecido, mais cedo ou mais tarde, nossa memória vai deixar de existir também. As pessoas que nos conheceram em vida vão aos poucos igualmente morrendo e, em breve, não seremos mais a lembrança de ninguém. Quem será a última pessoa que nos conheceu em vida a morrer e levar consigo nossa lembrança? É difícil para quem não nos conheceu preservar nossa memória, a não ser que tenhamos feito algo notável enquanto vivos, o que por si só não é uma garantia.

A arte e a política parecem ser as armas mais eficazes da pseudo-imortalidade. Lemos livros com mais de quinhentos anos, assistimos filmes com mais de cem anos, vamos a exposições de quadros pintados quando os bisavós dos nossos bisavós ainda nem haviam nascido, estudamos a História e os principais líderes e movimentos políticos. Ainda assim, são poucas as obras de arte que sobrevivem após tantas gerações. Uma guerra, um acidente nuclear ou uma catástrofe natural podem por fim a muitas dessas criações, isso quando nós mesmos não as matamos com o esquecimento. Assim como nós, toda e qualquer obra de arte está sujeita a extinção. Se conseguíssemos povoar outro planeta, dificilmente conseguiríamos levar todas elas conosco. Dependendo da situação, talvez nem cogitemos levar nada além do extremamente necessário, como roupa e alimentação. Mesmo que um ou outro livro/filme/disco/escultura/pintura fosse levado(a), seria impossível transportar tudo – assim creio eu. Embora acreditando que não estamos sozinhos, seria otimismo demais pensar que outra civilização pudesse encontrar e usufruir de nossas obras que, com certeza, seriam para eles demasiado arcaicas, já que, muito provavelmente, serão seres muito mais evoluídos que nós.

Diante de tanta pequenez é que entendemos o que cientistas e filósofos estão tentando nos dizer há anos: não passamos de um simples grão de poeira diante de todo o Universo! É quando todas as conquistas e títulos realçam o egoísmo humano, que todos nós praticamos diariamente. É quando vejo que não faz sentido nenhum ter ciúme dos meus livros, sofrer porque arranhei a tela do celular ou porque a pintura da parede está descascando e, muito menos, ficar mal porque alguém discordou de mim ou disse que o que faço não é bom. Ganhar qualquer prêmio de melhor diretor ou ter o blogue mais acessado não vai fazer diferença nenhuma quando todos deixarmos de existir. O mais bonito e o mais feio, o mais alto e o mais baixo, o mais rápido e o mais lento, o mais forte e o mais fraco, o mais rico e o mais pobre, estão todos no mesmo barco. Não vai haver ninguém para lembrar do pior e muito menos do melhor. O futuro de fato, é a morte de tudo e de todos.

Talvez eu seja pessimista demais, não consigo nem discordar quando falam isso. Quando vejo pessoas lutando por mais igualdade, tento acreditar que vale a pena cada vitória conquistada, e vale! É disseminada a ideia de que o mundo nunca será perfeito, mas também existe a noção de que sempre poderemos deixá-lo melhor. Acredita-se que, a cada vitória, não regrediremos mais. Isso é quase verdade, pois não consigo acreditar que realmente não tenha mais volta. Muitas pessoas lutaram para que nós brasileiros hoje vivêssemos em uma democracia, derrubando um regime militar para que tivéssemos o direito de livre expressão, de ir e vir, de escolher nossos governantes. Entretanto, é sabido também que muitas pessoas saíram às ruas no último ano pedindo a volta da ditadura militar. Prefiro acreditar que esses alienados políticos são realmente um grupo muito pequeno. Quando caminhávamos para um Estado cada vez mais laico, eis que é eleito o Congresso mais conservador desde 1964. Quando deveríamos caminhar para a criminalização da homofobia, tentam nos enfiar goela abaixo a “cura gay”. Quando deveríamos repensar a política carcerária, tentam aprovar a redução da maioridade penal. Quando uma eleição é vencida democraticamente, tentam aplicar um golpe jurídico-midiático. Quando deveríamos caminhar para a legalização do aborto, tentam criminaliza-lo em todos os casos, até nos de estupro e em risco de vida para a gestante, que ainda são permitidos no Brasil. O conservadorismo e o fundamentalismo religioso constituem ainda apenas uma parcela dos vilões de qualquer sociedade que anseie por liberdade, entre tantos outros tristes e indignantes fatores. Por isso, acredito que, enquanto existirem conservadores, e eles sempre vão existir, estarão sempre tentando nos fazer regressar, como se cada vitória conquistada acontecesse apenas para corrermos o risco de perdê-la depois. De maneira alguma podemos aceitar esta perspectiva. Nenhum direito nos foi dado de graça, todos foram devidamente conquistados. Evitemos sempre o retrocesso!

Dias atrás, estava eu tentando encontrar um sentido para cada coisa que faço. Não posso imortalizar-me – o máximo que posso fazer é com que meu pensamento, minha arte e minha memória, que também não podem ser imortais, tenham uma vida mais longa do que o meu corpo. Eu sou ista, eu sou ego, eu sou egoísta. Eu sou artista! Projetar-se na obra talvez seja algo comum entre os operários da arte, e saber que depois da minha partida minha obra também vai morrer, é como morrer duas vezes. Ainda assim, sei que nunca haverá um sentido genuíno para as coisas que produzo. Outros egoístas – menos ou mais, não importa, afinal, somos todos egoístas – ignoram o fato de que somos nanicos diante da imensidão do Universo, iludidos pela sensação de poder e grandeza que os fazem querer pintar o mundo da sua forma, ditando suas regras e vomitando suas verdades sobre nós. Por fim, foi pensando nessas pessoas tentando nos enquadrar em suas regras que acredito ser possível que cada rebelde sem causa encontre sua motivação, que cada vida sem sentido se justifique ao tentar dificultar a existência de quem tenta dificultar suas vidas.

Não, não é vingança, não é toma lá dá cá. Política, imprensa, publicidade, capitalismo, fundamentalismo religioso, entre outra esferas da sociedade, tentam (e quase sempre conseguem) nos impor suas leis. A política e a religião se metem em questões de foro íntimo, a imprensa omite verdades e mascara fatos, a publicidade e o capitalismo nos impõem padrões de beleza e decidem que só pessoas detentoras de bens existem. Quando digo dificultar a vida dessas instituições que juntas formam um organizado Sistema, estou falando em melhoria de vida por meio da desconstrução de paradigmas. Sempre que não aceitamos calados todas essas barbaridades, “prejudicamos” quem tanto nos prejudica. Sempre que um gay sai do armário ou uma mulher se liberta das amarras do machismo, os conservadores e fundamentalistas religiosos são alvejados. Sempre que uma pessoa “fora” dos moldes físicos da moda se aceita feliz com seu corpo, a publicidade e seu padrão de beleza é atingido. Sempre que um pobre conquista um diploma, um burguês bate a panela. O medo que eles sentem de nós, minorias, é real. Contudo, se eles são a pedra no nosso sapato, sejamos também a pedra no sapato deles: se vão nos oprimir, que não facilitemos, gritemos, lutemos por nossos direitos. Em suma, sempre que não abaixarmos a cabeça, sempre que não aceitarmos calados e conseguirmos nos libertar dessas amarras, dificultaremos a existência de quem oprime nossa liberdade. Não há mal nenhum em golpear essas pessoas com nossa felicidade. Quem fica triste com a alegria dos outros merece mesmo é sofrer para aprender a viver a própria vida e quem sabe, ser verdadeiramente feliz um dia.

Portanto, me proponho a não aceitar nada calado: se vivo em um globo que flutua no meio do universo e que um dia vai deixar de existir porque será engolido no processo de extinção do Sol, o que me resta é tentar aproveitar ao máximo o tempo nessa bomba relógio. O nascimento pode ser sim encarado como um privilégio, mas é também muito compreensível se visto como uma desvantagem, pois nunca ter existido é uma teoria muito sedutora. Afinal, se não nascemos, não sabemos o que é existir e não sofremos por não ter nascido. Somos de fato, os espermatozoides que “venceram”? Às vezes, penso que não. No entanto, por que sofrer com o esquecimento além-morte? Por que me importar com a realidade de não poder mais ouvir os discos novos que minhas bandas favoritas vão lançar depois da minha morte? Por que me importar com os filmes que serão feitos e os livros que serão escritos? Por que essa vontade de saber quem serão as próximas pessoas a se tornarem presidentes do Brasil? Por que sofrer por não ver os próximos títulos a serem conquistados pelo meu time do coração? Quem nascer próximo do fim será afortunado, por ter toda a História aos seus pés e igualmente desafortunado, por em uma vida só não conseguir se aprofundar em todos os acontecimentos, já que, se isso hoje não é possível, que dirá daqui há mais alguns bilhões de anos. Chega de sofrer por isso em vida, não voltaremos aqui para ver o que aconteceu. Uma vez mortos, não sofreremos por mais nada. Então, avante! Tratemos de viver enquanto ainda podemos!

sobre tempo e pessoas-livro

Se tem uma coisa que eu sempre vi e vejo nas redes sociais são as pessoas se dizendo entediadas. Sendo a internet um lugar de infinitas possibilidades, é cômico ver uma pessoa fazer uso dela para tornar público seu tédio quando seria muito mais produtivo usá-la para saná-lo. Faz tanto tempo que não sinto tédio que minhas últimas lembranças desse aborrecimento dizem respeito à mais tenra idade, quando meus dias eram longos, trancados dentro de casa sem o direito de brincar na rua com os outros garotos. Não há imaginação fértil que suprisse essa rotina. Uma hora ou outra o tédio se permitia vencer.

Hoje o tédio se tornou mesmo uma sensação alheia a mim. Como sempre tenho muita coisa para fazer e estou sempre inventando obrigações novas e como geralmente gosto das coisas que faço, acabo sofrendo é com a falta de tempo para concluir todos esses projetos. Sabe aquele tipo de pessoa que respira festas? Para quem final de semana é sinônimo de sair de casa? Que está sempre planejando a próxima saída? Então, eu não sou esse tipo de pessoa. Não que isso seja ruim. Como nunca fui assim, não posso fazer nenhum tipo de julgamento e mesmo se tivesse sido algum dia, acredito que não julgaria. Apenas sigo outro método que funciona melhor comigo. Meu negócio é ficar em casa. Se estudo ou trabalho a semana inteira, no final de semana meu objetivo de vida é ficar no meu quarto, na minha cama, com meus travesseiros, meus livros, meus filmes.

É difícil saber que tenho cada vez menos tempo para ler todos os livros que quero, ver todos os filmes que tenho vontade, viajar, ouvir música. O tempo passa rápido demais. O ano já entrou em contagem regressiva. Todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou e, ao contrário de Renato Russo, mesmo sendo tão jovem, não tenho todo o tempo do mundo. Já falei aqui em outro texto o quanto odeio perder tempo me locomovendo. Talvez seja esse o maior motivo que me faça preferir ficar em casa conspirando contra o mundo e engordando o cérebro e a barriga. Onde cabe o tédio nisso tudo?

Enquanto o tédio é a falta de coisas interessantes para fazer, a procrastinação é o adiamento das coisas a serem feitas (interessantes ou não). Claro que você, Leitor, sabe disso. Mas quero dizer que procrastino pelo prazer de procrastinar. Porque não fazer nada também tem o seu lado bom. É claro que depois eu saio feito louco correndo contra o relógio e chegará o dia em que não terei mais tempo para correr atrás do tempo perdido.

Gosto de festas, principalmente da comida que encontro nelas. Ademais, se passo muito tempo em alguma, já fico com vontade de ir para casa. Não consigo ver muito sentido em passar a noite toda bebendo e dançando. Não dá nem para aproveitar a companhia dos amigos porque todo mundo fica logo bêbado mesmo. Isso pode ser maravilhoso para outras pessoas, mas orgasmos fílmicos e literários me deixam muito mais feliz. Então a verdade é que evito sair de casa sempre que posso. Tenho ótimas desculpas para não ir a algum evento e geralmente fico muito feliz quando desmarcam um passeio para que eu possa ficar no meu aconchego. Detesto ficar pensando no tempo que estou perdendo. Passei a só aceitar convites de saídas de quem considero o que chamo de “pessoa-livro”, que é aquela pessoa que gosta de ler e tem uma conversa tão interessante que vale por uma leitura. Só assim para não sentir remorso por ter saído de casa. É o tipo perfeito para namorar. É por isso que eu sempre digo: namore quem lê, quem te dá livros e quem te apresenta autores que você não conhecia.

Então as pessoas normais chegam para mim e falam: “nossa você tem que sair de casa, se divertir”. O que elas não sabem é que eu me divirto justamente ficando em casa. Passo a semana inteira saindo, vendo pessoas, encontrando os amigos (nem sempre nos lugares mais apropriados para conversar), mas sempre socializando. É no tempo livre (como o próprio nome diz) que eu escolho o que considero ser melhor para mim. Sei muito bem que a vida pulsa mais forte lá fora, e justamente por não banalizar minhas saídas, quando vou ao cinema, numa exposição, à praia, numa livraria, num restaurante, qualquer lugar que seja, essa saída é sempre tão mais divertida. Lembro que quando trabalhava em frente à praia e passava todos dias por lá, ela começou a não ter mais tanta graça.

Voltando aos livros: gostaria de ler mais rápido. Muitas pessoas me falam de livros que leram em um final de semana ou até mesmo em um dia. A única vez que li um em um dia foi com ‘A Hora da Estrela’ de Clarice Lispector e ele é bem curtinho, ou seja, não há mérito nenhum nisso. Também tem os roteiros de filmes publicados posteriormente à sua exibição nos cinemas, o que também não levanta minha moral. Mas agora que falei de ‘A Hora da Estrela’, vou contar para vocês como Suzana Amaral decidiu filmá-lo. Ela contou isso em entrevista para o programa Sala de Cinema. Quando cursava a universidade de cinema, seu professor de roteiro lhe disse que, quando fosse adaptar um livro, nunca escolhesse um livro grande e sim um livro fininho, porque o grande é muito difícil de adaptar e o com o pequeno é possível se fazer uma recriação. Adaptar os grandes é se limitar a resumi-lo, fazendo disso um filme pobre. Eu não sei se concordo com ele, mas Suzana seguiu seu conselho. Como ela já tinha lido todos os livros de Clarice e gostava da escritora desde adolescente, decidiu que adaptaria o seu menor livro. Foi na biblioteca ver qual era e se deparou com a incrível história de Macabéa. E assim nasceu um dos clássicos do cinema nacional. Por que eu tô contando isso mesmo?

De toda forma, essa corrida contra o tempo não é o meu único drama. Sofro também com a ideia de que tudo isso não me serve de nada. Se vou mesmo morrer e virar pó debaixo da terra (não adianta tentar me convencer do contrário), para que ler? Ver filmes? Viajar? Eu vou morrer mesmo. De nada vai me servir. Estamos todos de passagem. Por que essa vontade de escrever, de fazer filmes, se eu vou morrer e não levarei nada comigo? Também não saberei e nem me interessa saber que fim levará tudo que deixarei. Certo que fazer tudo isso me proporciona um imenso prazer e, já que estou de passagem, melhor aproveitar da melhor forma que me convêm. Além disso, esse conhecimento adquirido nos livros me propicia um leque maior de assuntos para conversar com as pessoas. Ninguém merece ficar conversando sobre o clima, não é mesmo? Mas e daí? Felizes mesmo são os alienados que não sofrem com o Sistema, que não enxergam essa bancada conservadora que defende a redução da maioridade penal e a “cura” gay, que define como família apenas a união entre homem e mulher e tantos outros absurdos. Sinto-me de mãos atadas e com muito medo do Brasil de amanhã.

Para não concluir, prefiro pseudo-acreditar que um dia encontrarei um sentido para todas essas leituras, todas essas horas diante de uma tela, de tanto tempo dedicado à escrita e a escutar as músicas que insistem cada vez mais em dizer tudo o que quero. Não muito raramente, penso também no tempo desperdiçado escrevendo. Sei que continuarei riscando neste blogue ou em qualquer outro lugar. É terapêutico. Contudo, no fim, a frustração é tão grande… Parágrafos e mais parágrafos quando existem músicas de quatro minutos que se expressam muito melhor. Às vezes penso que devia fazer um blogue em que compartilharia apenas músicas com letras que dizem exatamente aquilo que eu estava pensando em dizer. Não sei se funcionaria, mas hoje deixo algumas músicas e a entrevista completa da Suzana Amaral. Até a próxima, abraçaço.

Legião Urbana – Tempo Perdido

Caetano Veloso – Oração ao Tempo

Pitty – Semana Que Vem

Cazuza – O Tempo Não Para

Pato Fu – Sobre o Tempo

Lulu Santos – Tempos Modernos

Sala de Cinema – Suzana Amaral

morte ao tempo morto

Dei uma pausa no roteiro que estou escrevendo e vim aqui conversar com vocês sobre o que costumo chamar de tempo morto. Para isso vamos partir do pressuposto de que todos nós gostamos de assistir as aulas da universidade e gostamos também de trabalhar. Sei que existe uma ou outra disciplina chata, e isso acontece em todos os cursos, mas se você não gosta do seu curso em geral, alguma coisa está errada e você tem grandes chances de estar comprometendo negativamente o seu futuro. Também sei que não é todo dia que é prazeroso trabalhar, sempre tem um dia que será muito difícil e cansativo, mas se na maioria das vezes esse trabalho não é feliz, você está caminhando em direção a uma existência vazia.

Deixemos esse parágrafo pseudo-autoajuda-desnecessário de lado, porque eu vim falar de tempo morto e não sei porquê comecei assim, então vou dar outro exemplo. Eu sempre odiei ir à escola, mas quando já estava lá, eu gostava. Gostava dos amigos, dos professores e era tudo muito divertido. Mas de nada adiantava: no dia seguinte eu estava em casa novamente odiando o fato de ter que ir à escola. Hoje eu compreendo que o ódio não era de estudar, e sim de me locomover.

Esse deslocamento diário de casa para a universidade, trabalho ou qualquer outro lugar é o que me esmorece. E não por sedentarismo. É que odeio o fato de estar perdendo um precioso tempo me locomovendo. Você Leitor já sabe o quanto sou paranoico com relação ao tempo, então imagine como é torturante para mim perder horas do meu dia no trânsito, em filas de banco e até em noites de insônia em que preciso dormir e fico rolando na cama.

Exceto quando decido ir a pé para algum lugar, onde sei que de uma forma ou de outra meu corpo tá aproveitando esse exercício, me locomover sempre é uma perda de tempo. Então tento fazer algo para transformar esse deslocamento o mais proveitoso possível, embora nem sempre consiga. Todas as saídas para o mesmo local são diferentes, e nunca demora o mesmo tempo, é variável. Embora você se programe, tem de lembrar que o que vem durante o caminho é completamente imprevisível. Como odeio chegar atrasado em qualquer ocasião, tenho que dormir menos para estar sempre adiantado graças a essa imprevisibilidade, tendo também sempre em mente que não há nada tão ruim que não possa piorar.

Uma das opções mais usada pelas pessoas (e não por mim) para aproveitar esse tempo morto é a famosa leitura de ônibus. Fico extremamente feliz quando vejo alguém lendo dentro do coletivo. Exceto quando descubro que o livro é de autoajuda ou religioso. São esses consumidores de livros ruins que alimentam a gana dos escritores ruins a lançarem mais livros ruins no mercado. Perdoem esse meu desabafo aleatório, mas vivemos na era do gosto literário duvidoso.

Mesmo sabendo que ler em ônibus/carro em movimento não desloca a retina, eu prefiro ouvir música. Não dá para planejar ler sempre que sair de ônibus. Nem todas as vezes vou conseguir uma cadeira para sentar (já vi gente lendo em pé, mas ou eu me seguro, ou leio e caio), e nem sempre vou estar livre de barulhos aleatórios que não me deixam concentrar na leitura. Então ouvir música é o que faço. Em pé ou sentado, ela vai poder estar ali comigo e com ou sem barulho eu vou conseguir curtir o som.

Cazuza costumava dizer em entrevistas que artistas como Rita Lee, Caetano Veloso e Gilberto Gil revolucionaram sua vida. Que depois de comprar os discos deles, ele se tornou uma pessoa melhor. Pena que não dê, falando por mim, para conhecer discos novos nessas andanças. Gosto da magia do primeiro contato e não aceito que o momento de ouvir um disco pela primeira vez aconteça no trânsito. Por isso que nos deslocamentos sempre escuto o mesmo de sempre.

Outro hábito que tenho é o de ler no banheiro para tentar fazer do que considero um tempo morto, algo proveitoso. Faço isso mesmo depois de ver um estudo que diz que ler no banheiro pode ser prejudicial à saúde por conta das bactérias presentes no ambiente. Até hoje finjo que não li esse estudo. Quero mesmo é aproveitar o máximo de tempo possível. Para você ter noção, já escrevi até textos para esse blogue enquanto estava no intervalo de uma aula e outra.

Portanto, me parece que, considerando tudo isso, a solução é trabalhar em casa e não precisar dormir menos por causa da distância. Já sei que nem sempre vai ser possível para mim este feito, mas enquanto eu não compro uma bicicleta, sigo enfrentando transporte público lotado, trânsito interminável e correndo o risco de ser assaltado, sequestrado e esquartejado, quando tudo o que eu queria era matar o tempo morto.