família abravanel

Durante a minha infância, quando havia apenas um único aparelho de TV em minha casa e meu pai monopolizava o controle remoto, os programas do SBT eram sempre assistidos em família. Recordo que acompanhamos algumas novelas infantis e outras estrangeiras. Digo que recordo porque ainda tenho lembranças de alguns desses momentos, mas confesso que esqueci praticamente tudo que foi assistido nesse período. Além das novelas, também assistíamos bastante aos programas dominicais.

Nessa mesma época, pela manhã, eu preferia assistir desenhos animados em outras emissoras, pois nunca gostei muito dos desenhos transmitidos pelo SBT. No entanto, sempre assistia ao Chaves, coisa que faço até hoje pela internet quando bate a saudade ou quando ligo a TV por acaso e descubro que está passando. Porém, agora posso afirmar que não assisto mais aos programas da emissora do Silvio Santos, assim como me afastei da televisão de um modo geral, mas sempre comemoro quando fico sabendo que o SBT ameaça, nem que seja por poucos minutos, a soberania da audiência da toda poderosa Rede Globo.

Não me restam dúvidas de que todo esse carinho se deve a minha admiração por Silvio Santos, quem considero o maior nome da TV brasileira entre os vivos e os mortos. Entretanto, não há admiração no mundo que não se deixe abalar por tanta coisa negativa sendo transmitida. Se não fosse a internet, muitas pessoas jamais ficariam sabendo desses casos. É por isso que acredito tanto na força do ativismo virtual, do contrário, eu mesmo não saberia de nada disso, pois não estava vendo TV quando o preconceito foi televisionado.

Sei que em trinta e cinco anos de história, muitos comentários estúpidos saíram dos programas da emissora, assim como dos programas de todas as suas concorrentes. Contudo, hoje vivemos em outros tempos e o que não repercutia negativamente décadas atrás, agora gera protestos na internet e até mesmo boicotes aos programas que ofendem minorias. A primeira dessas repercussões negativas de que tomei conhecimento aconteceu em maio deste ano. Na ocasião, Patrícia Abravanel disse que não considerava a homossexualidade algo normal. Sua declaração repercutiu nas redes sociais, mas ela não estava sozinha e quase nada se falou sobre os comentários infelizes dos outros participantes.

No Programa Silvio Santos exibido em 8 de maio, no quadro Jogo dos Pontinhos, Silvio comentou sobre filmes que trazem casais lésbicos entre seus personagens e perguntou aos participantes do quadro se eles eram contra ou a favor que duas mulheres se amassem como “marido e mulher”. A coisa já fica feia na pergunta preconceituosa do próprio apresentador. Será que é tão difícil entender que duas mulheres que se amam, não se amam como homem e mulher, e sim como duas mulheres que são?

O que veio a seguir foi um verdadeiro festival de horrores. Apesar de nem todos responderam ser contra, até quem se disse a favor o fez de forma preconceituosa. A primeira a responder foi Lívia Andrade. Ela disse ser a favor do amor entre duas mulheres, mas com ressalvas: “Eu acho bonito quando duas mulheres se amam como duas mulheres, entende? Duas mulheres fisicamente, aparentemente, como mulheres”. Para quem não entendeu, ela estava falando de feminilidade. Bem, o que eu gostaria de dizer para Lívia é que duas mulheres não precisam ser femininas só para que ela ache bonito. O amor entre duas pessoas do mesmo sexo ou até mesmo do sexo oposto só deve ser bonito aos olhos do próprio casal. Com esse discurso ignorante, Lívia demonstrou não ter o mínimo conhecimento sobre identidade de gênero. Flor, a segunda a responder, também se disse a favor, mas, além de se referir as lésbicas como “entendidas” e “sapatões”, ainda comentou que não pagaria para ver um filme com “duas aranhas se pegando”.

É lógico que Carlinhos Aguiar, o terceiro a responder, não iria perder a chance de defecar pela boca. Já era de se esperar que ele se posicionasse contra, mas como se isso não bastasse, ainda disse o seguinte: “Já não chega essas homaradas todas queimando a ruela, o que tem de homem viado aí é brincadeira. Aí ficam essas mulheres colando o velcro, vocês não me conheceram. Eu sou contra, claro que eu sou contra. Porque a partir do momento que elas me conhecessem… Eu pego essas gostosas e tiro elas dessa vida”. Ele só faltou dizer que acredita em estupro corretivo para lésbicas, mas não precisou, ficou implícito.

O humorista Alexandre Porpetone, através do seu personagem Cabrito Tévez, foi o quarto a responder. Com uma piada altamente sem graça, se disse a favor: “Eu sou a favor desde que eu possa participar da festa. Porque não sei se vocês sabem, Silvio, eu sou lésbico. Eu sou lésbico também, então eu apoio a causa”. Porpetone deve ser do tipo de cara que acredita que duas mulheres só podem se relacionar para satisfazer o fetiche dos homens. Helen Ganzarolli, a quinta a responder, também disse ser a favor, mas acredito que ela ficou com medo de que as pessoas duvidassem de sua heterossexualidade, pois achou necessário deixar bem claro que gostava de homem: “A minha opção é pelo sexo oposto, mas eu sou a favor já que é a opção de cada um. Eu gosto de homem, mas eu sou a favor de duas mulheres”. Como se não bastasse, ainda tratou orientação sexual como “opção”.

Silvio deixou Patrícia para o final, e o que já estava horrível, só piorou. A filha do patrão se posicionou contra: “Eu li numa revista que hoje um terço dos jovens se relaciona com pessoas do mesmo sexo. Um terço eu acho muito. […] Mesmo sem saber se a opção deles é real. Eles experimentam. […] Eu acho que o jovem é muito imaturo ainda para poder saber o que quer. Então a gente tem que afirmar que homem é homem e mulher é mulher, entendeu? Não acho que é legal ser super liberal. […] Não acho legal ficar considerando tudo super normal, entendeu? Eu acho que a gente tem que ensinar para os jovens de hoje que homem é homem e mulher é mulher. E se por acaso ele tiver alguma coisa dentro dele que fale diferente, aí tudo bem. Mas o que tá acontecendo hoje é que a gente está falando que tudo é normal, que tudo é bonito e o jovem naquela coisa de querer experimentar tudo acaba experimentando coisas que ele pode vir eventualmente a se arrepender depois. Então eu sou contra ficar propagando em rede nacional que isso é uma coisa super normal. Então eu sou contra”. Silvio a interrompe e pergunta: “Você falou uma coisa aí que foi uma indireta. Isso aqui que eu estou fazendo é propaganda?” Ao que ela responde: “Você está propagando sim, porque não é uma coisa normal. Hoje, eu falar que eu sou contra, eles vão me apedrejar. Eu não sou contra o homossexualismo (sic), eu sou contra falar que é normal. […] E outra, mulher com mulher não é tão legal assim, eu acho. Não tem aquele brinquedinho que a gente gosta bastante. Não dá para brincar direito”. Ao final do discurso, a plateia aplaude.

Logo após, Silvio ainda pergunta se eles são contra ou a favor de quem não acredita em deus. Não vou comentar as asneiras que eles responderam sobre isso, basta dizer que todos se posicionaram contra. A coisa desanda ainda mais quando Silvio pergunta se eles são contra ou a favor do prisioneiro que está cumprindo pena ir para casa no dia das mães ou se são contra ou a favor ter filhos antes do casamento. Não vou dissertar sobre esses outros três momentos do programa que dariam cada um, um texto próprio (se tiver estômago veja o programa inteiro aqui). Portanto, vou me ater apenas ao discurso de Patrícia.

Bem, já eu não acho normal ficar propagando preconceito em rede nacional. Assim como Helen, Patrícia tratou orientação sexual como “opção”. Chamou homossexualidade de homossexualismo e disse não considerar normal a relação entre pessoas do mesmo sexo. Ela deve fazer parte da população que ainda acha que sexo sem pau não é sexo, reduzindo todas as outras formas de relação sexual sem penetração peniana a absolutamente nada. Patrícia disse depois que foi mal interpretada, mas acredito que interpretaram muito bem o que ela quis dizer. A reação nas redes sociais foi muito importante. Ela precisava mesmo enxergar que suas palavras ofenderam sim os homossexuais, e que anormal é ter preconceito. Porém, ao contrário do que ela disse, não vamos apedrejá-la, afinal, isso é coisa de religiosos.

A repercussão foi tão grande que já no dia seguinte Patrícia veio a público pedir desculpas. Entendo perfeitamente porque a fala dela polemizou mais do que a dos outros, mas todos os sete, incluindo o próprio Silvio, erraram, e a comunidade LGBT merecia ouvir uma retratação de todos eles. Um mês antes disso acontecer, no programada de 10 de abril, Silvio já havia dito ao ator João Guilherme, de apenas catorze anos, que ele estava parecendo uma “bichinha”. Embora o comentário também tenha repercutido, nem Silvio, nem o SBT se pronunciaram sobre o ocorrido.

Espero que João Guilherme não tente moldar seu comportamento por medo de voltar a ouvir idiotices como essa. Eu estava tão confuso quando tinha catorze anos, sem saber exatamente quem eu era, que um comentário desses só faria com que eu me escondesse por trás de uma masculinidade tóxica para não ter que ouvir mais esse tipo de coisa. Lembro que quando eu tinha por volta de sete ou oito anos adorava atender ao telefone. As ligações nunca eram para mim, mas eu adorava atendê-las mesmo assim. O aparelho ficava na sala, perto da escada. Certo dia ele tocou e eu atendi, era um tio. Passei o telefone para minha mãe e ele perguntou quem era a menina que havia atendido. Minha mãe ficou super ofendida e disse que não era menina nenhuma, pois quem havia atendido era eu. Eu devia ter oito anos no máximo, e minha mãe me ordenou que eu falasse grosso para que ninguém me confundisse com uma mulher. A história se espalhou pela família e todos riram de mim. Nenhum adulto teve coragem de me defender, de dizer que eu era uma criança e que minha voz era normal. Depois disso, eu passei anos com pânico de atender ligações, e sempre que era realmente necessário realizá-lo, fazia de tudo para engrossar minha voz. Eu só tinha oito anos, porra!

Quando personalidades importantes, formadoras de opinião, esquecem que possuem um papel social na vida de muitas pessoas, passamos a correr certo tipo de perigo. Muita gente reproduz o que vê na TV, basta notar que, por maior que tenha sido a repercussão negativa de Patrícia nas redes sociais, a plateia no auditório a aplaudiu. Tenho certeza de que muita gente aplaudiu de casa também. Do sofá da sala muitos preconceituosos tiveram seus discursos de ódio fortalecidos, legitimados por uma pessoa famosa. Isso tudo aconteceu há mais de seis meses atrás, mas Patrícia já voltou aos holofotes criticando religiões africanas em um vídeo antigo que caiu na rede, em que ela culpa os problemas que assolam o continente africano ao “misticismo” da população. Nesse meio tempo, Silvio também fez comentários racistas e gordofóbicos, os últimos, inclusive, aconteceram recentemente, durante a exibição do Teleton.

Aparentemente, Silvia Abravanel, a outra filha do dono do SBT, se sentiu oprimida pelo pai e a irmã, resolvendo também aprontar as suas próprias besteiras, prestando um dos maiores desserviços que eu já vi na vida: criar, em pleno século vinte e um, uma escola de princesas. Com aulas de boas maneiras, postura corporal e etiqueta à mesa, as meninas aprenderão a se “guardar” para o príncipe encantado. Se Silvia também queria dar maus exemplos como seus familiares, conseguiu. Na verdade, foi muito além, saindo do discurso e partindo diretamente para a prática, criando uma escola que no futuro formará um exército de mulheres belas, recatadas e do lar.

Uma pesquisa realizada esse ano pelo site britânico “YouGov”, apontou Silvio Santos como a personalidade mais admirada pelos brasileiros. Prestes a completar oitenta e seis anos, Silvio está em um de seus melhores momentos como apresentador, cada vez mais solto e mais engraçado. Sei que ele é um senhor de outros tempos, mas inteligente como é, não é injusto lhe dizer que nunca é tarde para aprender. Ser quase uma unanimidade entre os brasileiros lhe reserva uma enorme responsabilidade. É um poder grande, que tanto ele quanto suas sucessoras deveriam usar justamente para combater a homofobia, o racismo, a gordofobia, o machismo, a intolerância religiosa e todo o tipo de preconceito. Para o bem ou para o mal, o SBT faz parte da história do Brasil e de muitos brasileiros, possui o segundo maior complexo televisivo da América Latina e o quarto maior do mundo, tendo sido a primeira emissora da história a transmitir sua inauguração ao vivo. Se uma emissora tão grande e tão querida continuar televisionando discursos preconceituosos para todo o país, um dia ela pode deixar de ser a TV que tem torcida para se tornar a que tem mais desafetos, podendo originar até mesmo inimigos.

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filho ingrato da televisão

Sábado último, fiquei acordado até tarde esperando um filme que ia passar na televisão. Foi como ter voltado no tempo, pois não recordo a última vez em que esperei um filme ser exibido na TV para poder assisti-lo. O longa em questão foi ‘Meu Amigo Hindu’, última produção do cineasta Hector Babenco, lançada nos cinemas em março. Anos atrás, após sua estreia nas salas de cinema, os filmes demoravam alguns meses até serem lançados em VHS ou DVD. Eles iam direto para as locadoras de vídeo e, só depois, chegavam às lojas. Passados um, dois anos, ou até mesmo um período maior, o filme seria finalmente exibido na TV, que o anunciaria com grande estardalhaço: “pela primeira vez na televisão”. Toda essa espera para que as locadoras de vídeo pudessem lucrar com o aluguel dos filmes e para que estes fossem exibidos até cansar em emissoras de TV por assinatura. Com o fim das locadoras e o avanço da internet, o caminho que o filme faz das salas de cinema até a TV aberta ficou bem mais curto. Agora, ou as emissoras transmitem os lançamentos em um prazo menor, ou todos já terão assistido quando forem transmitidos. Mesmo assim, ‘Meu Amigo Hindu’ foi televisionado em tempo recorde. A exibição foi uma homenagem da Rege Globo a Babenco, que morreu no último dia 13, dia do rock. Não fosse a morte do diretor, o filme jamais teria sido exibido tão rapidamente.

Estava querendo assistir a ‘Meu Amigo Hindu’ desde o ano passado, quando ele foi apresentado pela primeira vez durante a 39ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O filme teve um lançamento modesto, chegando a poucas salas de cinema e saindo de cartaz rapidamente. Com isso, acabei perdendo a oportunidade de vê-lo na tela grande. Começou então a minha espera pelo lançamento do filme em alguma plataforma online, até que, na quinta-feira (13), acordo e vejo no celular uma mensagem do meu namorado me contando que Hector Babenco havia morrido aos 70 anos de parada cardíaca. Ele sabe da minha forte admiração por Babenco e até já havia me presenteado com o livro ‘Pixote – A Lei do Mais Forte’, de José Louzeiro, que conta a trágica história de Fernando Ramos da Silva, famoso em todo o Brasil por interpretar Pixote, figura central do romance-reportagem ‘Infância dos Mortos’ (do próprio Louzeiro) e do filme de Hector Babenco, nele baseado, ‘Pixote – A Lei do Mais Fraco’ (1980).

Quem nasce hoje, tem como mãe legítima a internet, que é minha mãe adotiva, pois mesmo ainda sendo jovem, faço parte da última geração de filhos biológicos da televisão. Fui da parte pobre da família, porque a minha tia rica, quer dizer, a TV por assinatura, nem cheguei a conhecer. Ainda acompanhei os últimos anos das locadoras de vídeo. Nem precisava alugar os DVDs na sexta, como faziam a maioria dos clientes, para ficar com os filmes por mais tempo, já que a locadora fechava aos domingos. Como os títulos que eu alugava eram sempre os que ninguém levava, os donos da locadora me permitiam ficar com eles por mais tempo, sem que fosse preciso pagar multa por atraso. Não faço o tipo saudosista, mas vai ser divertido contar para as futuras gerações que eu alugava o que hoje possuímos ao alcance de um clique.

Durante a infância, estudava no turno da manhã e, quando acabava a aula, corria desesperadamente para chegar em casa e assistir a desenhos animados na TV. Os mais legais ficavam sempre para o final, então dava para assistir as duas últimas atrações. Algumas vezes, eu acabava perdendo certos episódios – isso acontecia quando minha mãe atrasava na hora de ir me buscar na escola ou quando ela decidia fazer alguma compra no caminho de volta. Já escrevi aqui sobre como meus pais eram superprotetores comigo, então minha mãe levava e buscava de bicicleta minha irmã e eu todos os dias. Estudamos sempre nos mesmos colégios, embora em séries diferentes: ela, por ser mais nova, esteve sempre duas sérias abaixo de mim. Quando ganhei minha primeira bicicleta, minha mãe me deixava ir na minha enquanto ela e minha irmã iam em outra, só deixando de nos levar à escola quando fez uma cirurgia, poucos dias após o meu aniversário de dez anos. Isso aconteceu no meu primeiro ano em escola pública, em que todos os meus colegas de sala de aula iam sozinhos, diferente dos meus colegas de colégio particular, que eram levados pelos pais de carro. Foi quando comecei a sentir vergonha por ser levado por minha mãe, pois os garotos me zoavam. Hoje, tenho vergonha por ter sentido vergonha disso. Ela ficou bastante tempo em recuperação após a cirurgia, então passei a ir sozinho à aula. Aquele foi também o meu primeiro ano estudando no turno da tarde. Minha irmã continuou no turno da manhã e ia à aula de carona com nosso vizinho cujo filho estudava na mesma escola. Quando se recuperou, minha mãe havia perdido o medo de me deixar ir sozinho, e não voltou a me levar mais.

Assisti a temporadas inteiras de desenhos animados e tenho de confessar que, às vezes, fingia estar doente para faltar aula e não correr o risco de perder certos episódios, geralmente os últimos da temporada. Quando passei a estudar no turno da tarde, isso deixou de ser um problema, mas continuei fingindo estar doente em algumas ocasiões, dessa vez para não perder o filme que ia passar na TV. Minha mãe sempre desconfiava dessas minhas mentiras, pois eu ficava milagrosamente curado quando estava assistindo televisão.

Alguns anos antes dela fazer essa cirurgia, eu lembro que, à noite, assistia, juntamente com meu pai e minha irmã, às novelas infantis do SBT (pois minha mãe nunca gostou de qualquer folhetim televisivo). Toda noite, duas vizinhas vinham com seus filhos assistir televisão aqui em casa, pois não tinham televisores em seus lares. Uma delas era minha madrinha, que sempre trazia seu filho que, por sua vez, correndo de um lado para o outro, não deixava ninguém em paz. A outra era uma senhora deveras religiosa que trazia o casal de filhos. Ela era a única evangélica da rua que assistia à TV e os outros consideravam isso um pecado, pois quem via aqueles programas corria o risco de não ver Jesus quando ele voltasse à Terra para buscar os seus fiéis no dia do juízo final. O mais irônico é que ela e seus filhos evangélicos eram os que mais gostavam de assistir às novelas, ficando verdadeiramente hipnotizados. Os filhos dela eram meus amigos e da minha irmã. Eles possuíam rádio em casa, o que não tínhamos, e nos contavam que também ouviam novelas pelo rádio. Eu não conseguia entender como alguém podia acompanhar a uma novela só pelo som, e eles me contavam que era do mesmo jeito que assistir na TV, só que sem as imagens. Somente anos depois eu fui descobrir o que eram radionovelas. Certa vez, minha mãe, a religiosa mais herege que eu conheço, disse para uma cliente evangélica que se incomodou com o fato de assistirmos à TV ao invés de ficarmos atentos a volta do Messias: “Quando ele voltar, você nos avisa. Você é minha amiga! Será que vai deixar de me chamar quando Jesus estiver te levando para o céu?” Nem preciso dizer que minha mãe perdeu a cliente.

Esse período da infância foi o único em que assisti a telenovelas; na adolescência, ainda cheguei a acompanhar umas duas, mas nunca tive muita paciência. Meu interesse mesmo era pelos filmes. Metade dos títulos que vi na vida foi assistida na televisão e a outra parte, na era pós-internet. Vi na TV muitos dos filmes que hoje são considerados clássicos e, desde muito cedo, descobri que os melhores passavam durante a madrugada. Não porque eram longas adultos, pois nunca vi pornô na televisão, mesmo nas sessões da madrugada, e sim porque, na maioria das vezes, não eram produções blockbusters e sim as de baixo orçamento, filmes de arte. É algo até engraçado, visto que os filmes que antes passavam durante a tarde hoje não são mais transmitidos nesse horário por não respeitarem a indicação de faixa-etária livre.

Com a chegada da internet na adolescência, a televisão continuou tendo um lugar de destaque na minha vida. Embora não assistisse mais a desenhos animados, continuava firme e forte com os filmes. O declínio da TV em minha rotina só não aconteceu mais cedo graças à tecla SAP (sigla em inglês para Segundo Programa de Áudio). Permitir assistir aos filmes com o áudio original e legendados foi o que ainda me manteve por um tempo ao lado da minha velha companheira. Quando eu era criança e ainda não sabia o que era a tecla SAP, uma prima de segundo grau veio aqui em casa e, enquanto brincávamos na sala, sentou sem querer sobre o controle remoto que estava no sofá. A TV estava ligada e do nada os personagens do filme que estava passando começaram a falar em inglês. Apertei os vários botões do aparelho na tentativa de fazer o som voltar ao “normal”. Fiquei desesperado, pois achava que meu pai iria me matar quando chegasse em casa à noite e encontrasse a TV falando aquele idioma tão estranho. Depois de muitas tentativas, o som da TV voltou ao áudio dublado, mas eu só vim descobrir o que havia acontecido naquela ocasião anos depois. Tecla SAP é vida!

Hoje, existem quatro aparelhos de televisão aqui em casa, mas assistimos cada vez menos. Não vejo mais filmes na TV, pois são sempre cortados para que caibam na programação. No entanto, os aparelhos ainda me são necessários para que eu possa ver os filmes que coloco no DVD. Admito que, uma vez ou outra, ainda assisto a telejornais, embora minha fonte de informações seja realmente a internet. Também assisto a transmissões de jogos, mas quando estes não são os que desejo ver, mais uma vez recorro à rede. Até alguns programas de entrevistas que gosto de assistir não me preocupam mais, já que, em poucas horas, todos estão disponíveis online. Admito também que, quando um filme que gosto muito está passando e não tenho nada mais importante para fazer, acabo revendo. Esse ano isso aconteceu com ‘Que Horas Ela Volta?’ (2015) e, muito recentemente, com ‘O Som ao Redor’ (2012), sendo que este começou quando eu estava me preparando para deitar. Gosto tanto do filme que só consegui ir dormir quando acabou, mesmo irritado por algumas cenas terem sido suprimidas. Aparentemente, o filme de Babenco foi exibido na íntegra, pois ficou no ar por mais de duas horas, mas só terei certeza acerca disso quando revê-lo.

Havia anos que a TV não transmitia algo do meu interesse e que me fosse inédito. Por Hector Babenco, voltei mais uma vez à tecla SAP e fui dormir de madrugada, todavia, valeu muito a pena. Ainda não sei o que ‘Meu Amigo Hindu’ representa para mim diante de todas as belas sensações que me despertou. Terminei o filme com um nó na garganta por saber que era a última produção de Babenco e feliz por ter sacado todas as suas auto-referências profissionais, mesmo reconhecendo que jamais saberemos o que é ou não biográfico no roteiro. Acabado o longa-metragem, voltei à internet, pois sou um filho ingrato da televisão e espero sinceramente nunca mais ter de voltar a ela devido a morte de alguém querido. Ser um refém da TV é um retrocesso, é estar à mercê da alienação e ser passado para trás por toda uma geração conectada à rede mundial de computadores. Infelizmente, muita gente depende exclusivamente da TV como fonte de informações: segundo o IBGE, 50% dos lares brasileiros ainda não tem acesso à internet. O Estado deveria estar trabalhando para levar acesso aos outros 50% dos lares, e não as operadoras brigando na Justiça para limitar o acesso desta. No entanto, isso é assunto para outro texto. Por hora, sei que sou um afortunado por ter abandonado a TV antes que ela me deixasse igual ao eu lírico da canção ‘Televisão’ dos Titãs: burro, muito burro demais.

silvio santos em 23 imagens

“Depois da minha família, a pessoa que eu mais amo nesse mundo é o Silvio Santos”. Vi essa frase já faz algum tempo, só não me recordo onde. O que posso dizer é: essa frase nunca foi tão minha.

Não consigo entender por qual motivo o cara me soa tão íntimo. Mesmo tendo uma tia fisicamente parecida com ele (que fique claro que eu sou o único parente dela que acha isso) e de ter crescido assistindo aos seus programas, não acredito que tenho razões fortes o suficiente para sentí-lo como alguém tão familiar. Muitas pessoas cresceram assistindo-o e não nutriram o mesmo sentimento que eu. Minha irmã é uma delas.

Já que com ele eu me sinto totalmente em casa, o escolhi para estrear uma categoria especial aqui no blogue que irei chamar de 23 Imagens. Essa seção, que pretendo postar uma vez por mês, consiste em homenagear meus grandes ídolos em vinte e três fotos. Eu adoro me torturar e fazendo isso sempre vou sofrer por deixar certas fotos de fora. Mas para mim listas são isso, só servem para deixar algo de fora.

Se deus existisse, eu só conseguiria imaginá-lo como sendo alguém bem parecido com o Silvio Santos, com aquele sorriso constante, me despertando esse sentimento de parentesco, além de ser muito divertido e sem papas na língua como o patrão (sempre quis chamá-lo de patrão, como fazem seus funcionários). Hoje não o assisto tanto quanto gostaria, mas a minha admiração só cresce. Silvio, te amo.

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Não sei quem são os fotógrafos responsáveis pelas fotos, mas se você conhece ou fotografou alguma delas, é só deixar o nome com o número da foto para que sejam devidamente creditados.