todo dia é dia de gênio

Certa feita, em uma aula de Cinema Moderno que cursei no segundo semestre do curso de Cinema, a turma assistiu ao filme ‘O Bandido da Luz Vermelha’, de 1968, do diretor Rogério Sganzerla (1946-2004). Era um seminário e havia uma equipe de cinco alunos responsável pela projeção do filme e o debate com o restante da turma sobre a importância deste longa para o cinema brasileiro moderno. Na aula da semana anterior, minha equipe havia apresentado ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, de 1964, do diretor Glauber Rocha (1939-1981). Ao final da aula, a professora, aproveitando a repercussão dessas duas apresentações e o fato de Sganzerla ter apenas vinte e dois anos quando dirigiu ‘O Bandido…’ e Glauber vinte e cinco anos quando lançou ‘Deus e o Diabo…’ – antes disso, tendo lançado seu primeiro longa-metragem, ‘Barravento’, em 1962, aos vinte e três anos -, soltou um comentário que até hoje julgo um tanto quanto irresponsável: “Vocês não se sentem mal por estarem na mesma faixa de idade deles e ainda não terem lançado um longa?”.

Desde o primeiro momento, eu também encarei essa pergunta como uma forma de incentivo, uma provocação, uma tentativa de nos encorajar, digamos assim, a produzirmos. Por ser uma professora e uma pessoa maravilhosa, sei que a intenção era das melhores: fazer-nos sair da teoria e partir para a prática. No entanto, a boa intenção não exclui os muitos problemas dessa pergunta-provocação-incentivo. Um deles é imediato: o sentimento de culpa e fracasso desnecessário que se instala em nossa consciência ao sermos comparados com pessoas da nossa faixa-etária mais bem sucedidas que nós.

A turma dessa disciplina era formada por alguns alunos com menos de vinte anos, a grande maioria na casa dos vinte, alguns com trinta e poucos e até aluno com mais de cinquenta anos. Diante da pergunta, todos ficaram calados, ninguém respondeu nada até eu, que sempre fui de falar muito, respondi com um “não, não me sinto mal por não ter lançado nenhum longa ainda”. Nesse momento todos os olhares se voltaram para mim e eu comecei a dar minhas justificativas, que só não transcrevo aqui porque já não lembro palavra por palavra, mas recordo de ter usado Suzana Amaral como um dos exemplos.

Suzana começou a estudar cinema quando já havia criado os nove filhos. Lançou o primeiro filme, ‘A Hora da Estrela’, um clássico do cinema brasileiro de 1985, aos cinquenta e três anos de idade, baseado na obra homônima de Clarice Lispector. Quando falei dela, um dos alunos, na época com vinte e sete ou vinte e oito anos, comentou que estava aliviado, pois ele ainda estava no tempo. O que muita gente esquece é que todo tempo é tempo. O próprio Sebastião Salgado só começou a fotografar aos vinte e nove. Não há necessidade desse tipo de comparação, principalmente quando o assunto é arte.

Agora, sempre que vejo o exemplo de um artista que começou “tarde”, lembro dessa aula. A própria concepção de “começar tarde” é errada, pois cada profissional tem o seu tempo próprio. O momento de criação de cada um é o tempo certo. É óbvio que muitos fatores nos impedem de começar antes. Artistas que conseguem reconhecimento logo no início são exceções. É difícil estudar em uma universidade um curso que não nos traz muitas ou quase nenhuma perspectivava de emprego. É como saltar sem paraquedas. Para muitos é preciso fazer outro curso antes e se profissionalizar em algo apenas para se conseguir estabilidade financeira. Para a grande maioria (e nisso me incluo), apesar de já cursar a área de interesse, é preciso trabalhar com o que não gostamos para, no futuro, finalmente conseguir trabalhar com o que queremos. Entretanto, nunca é tarde para começar.

Pode até ser desanimador fazer cinema diante de gênios como Glauber e Sganzerla, que começaram tão cedo. Para outros também pode ser desanimador ser escritor ao lado de gênios como Machado de Assis (1839-1908) e Álvares de Azevedo (1831-1852), que começaram tão jovens. Contudo, caríssimos, o fato de Suzana Amaral ter lançado o primeiro filme aos cinquenta e três, Kleber Mendonça Filho ter lançado seu primeiro longa-metragem aos quarenta e cinco anos, e Fernando Meirelles e Cláudio Assis aos quarenta e três anos, não os torna piores. O trabalho de todos eles, inclusive, é muito maduro e consistente. Sganzerla, por exemplo, nunca conseguiu fazer um filme melhor que ‘O Bandido da Luz Vermelha’, enquanto que Kleber Mendonça acaba de lançar a obra-prima ‘Aquarius’, aos quarenta e oito anos. Em 2002, quando Meirelles lançou ‘Cidade de Deus’, ele estava então com quarenta e sete.

Cora Coralina (1889-1985) e Graciliano Ramos (1892-1953) são dois gênios da literatura, tendo lançado seus primeiros livros aos setenta e seis e quarenta e um, respectivamente. Não estou dizendo que começar “tarde” é melhor, mas esse desejo de ser o mais rápido, o mais forte e o mais jovem, causa muitos problemas. No desespero de lançar logo a primeira obra, muitos artistas produzem trabalhos que com certeza seriam melhores se houvessem se dado o tempo de amadurecê-los.

Repito, nunca é tarde para começar. E nem para recomeçar. Tom Zé havia abandonado a carreira, mas conseguiu sair do ostracismo aos cinquenta e seis anos. Se já havia lançado clássicos como ‘Todos os Olhos’ (1973) e ‘Estudando o Samba’ (1976), ainda conseguiu realizar um de seus melhores trabalhos em 2012, o disco ‘Tropicália Lixo Lógico’, aos setenta e seis. Esse ano, aos oitenta, acaba de lançar o disco ‘Canções Eróticas de Ninar’, que eu ainda não ouvi e já gostei. Nada está perdido; bons trabalhos são realizados em qualquer idade. Se os artistas mais velhos nos incentivam a sempre continuar tentando, os artistas jovens não podem ser usados para nos desencorajar a produzir depois de uma determinada idade. E tenho dito: todo dia é dia de gênio.

o selo de qualidade dos vira-latas

Em 16 de julho de 1950, a nossa seleção de futebol perdeu a partida para a seleção uruguaia na final da Copa do Mundo realizada no Brasil. A derrota aconteceu em pleno Maracanã, o que contribuiu ainda mais para o forte trauma sofrido pelos brasileiros. Nelson Rodrigues escreveu então um texto* sobre o ocorrido, em que falou pela primeira vez sobre o complexo de inferioridade do nosso povo, que ele chamou de “complexo de vira-lata”. Dizia ele no texto: Por “complexo de vira-lata” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima.

Para Rodrigues, o fenômeno não se limitava somente ao campo futebolístico, até porque o Brasil se recuperaria do complexo de inferioridade no futebol com a conquista da Copa do Mundo de 1958. Estou falando sobre isso porque no próximo dia 28 acontece a cerimônia do Oscar e estamos concorrendo na categoria de Melhor Animação com o filme ‘O Menino e o Mundo’ (2013), do diretor Alê Abreu. Desde a indicação, vejo amigos meus, dentre eles, tanto quem não entende de cinema, quanto quem entende e estuda o assunto, assistindo ao filme de maneira ensandecida. Prestigiei a produção pela primeira vez ano passado – para ser mais preciso, no dia 6 de fevereiro. Todavia, desde 2014 que eu já queria vê-lo. Acho ótimo que o estejam assistindo, afinal, o filme é realmente bom e merece estar entre os cinco indicados. No entanto, se tem uma coisa que eu tenho certeza é que, muitos desses meus amigos (e pessoas por esse Brasilsão a fora) não o veriam se ele não tivesse sido indicado ao Oscar. Esse pensamento é explicado pelo fato de que a maioria dos brasileiros já não gosta do cinema nacional em live-action (termo utilizado no cinema, teatro e televisão para definir os trabalhos que são realizados por atores reais), que dirá um filme de animação, gênero em que o país não possui forte tradição.

Acontece, caríssimo Leitor, que a indicação de um filme para o Oscar é visto como um selo de qualidade pelo povo brasileiro: “se os gringos acham que é bom, então é porque é”. Mas não precisa ser necessariamente um Oscar, qualquer prêmio internacional já é o suficiente para que o público comece a prestar atenção, ou você realmente acha que se o filme ‘Que Horas Ela Volta?’ (2015), da diretora Anna Muylaert, não tivesse vencido o Sundance na categoria especial de Atuação para Regina Casé e Camila Márdila, teria acontecido toda essa repercussão? Muito provavelmente não, o que me deixa muito triste, porque o filme é realmente bom e levantou questões muito importantes que, de fato, precisam ser debatidas urgentemente pela sociedade brasileira. Mesmo com esse prêmio e outros importantes, o filme de Muylaert (que já havia sido transmitido na TV por assinatura) ficou engavetado pela Rede Globo na esperança do filme conseguir a indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A Rede Globo sabe, assim como sabem todos os veículos de comunicação desse país que, se o filme fosse indicado, aumentaria a curiosidade dos brasileiros e, por consequência, a audiência quando o filme fosse exibido. Quando a Academia divulgou a prévia dos nove filmes estrangeiros que concorreriam e ficamos sabendo que a produção protagonizada por Regina Casé estava de fora, em poucos dias ele foi exibido na Tela Quente para aproveitar que ainda era assunto na boca do povo. Deu certo, o filme conseguiu marcar a ótima média de 22 pontos de audiência. O índice foi quatro pontos maior do que a média do último mês, na mesma faixa.

Se olharmos para o passado, veremos que sempre foi assim. Nosso querido José Mojica Marins, criador do personagem Zé do Caixão, era tido como louco, mas foi só vencer o Festival Internacional de Cinema Fantástico e de Horror em Sitges, na Espanha, com seu filme ‘O Estranho Mundo de Zé do Caixão’ (1968), que a imprensa brasileira começou a enxergar (ainda que a contragosto) o gênio por detrás da capa preta. O mesmo festival ainda lhe homenagearia anos depois com uma menção honrosa pelo conjunto de sua obra e por grandes serviços prestados ao cinema de horror. Também anos depois, dessa vez na França, Mojica participou da 3° Convenção de Cinema Fantástico, realizada em Paris. No encerramento do festival, ele ganhou o troféu L’Écran Fantastique também pelo conjunto de sua obra. Na década de 1990, Mojica ainda seria descoberto pelos fãs de terror nos EUA, onde ficaria conhecido como Coffin Joe. Hoje é ídolo cult, mas dificilmente o seria sem o reconhecimento internacional. Em 1998, André Barcinski e Ivan Finotti publicaram ‘Maldito’, biografia de Mojica. Quem escreveu o prefácio do livro foi Rogério Sganzerla (outro brasileiro que não recebeu o devido reconhecimento de seus compatriotas) ainda vivo na época. Bem no início do texto, Sganzerla aponta: “Mojica deu tudo de si para construir uma obra, perfeitamente assimilada e reconhecida no exterior. Mas não passa de um estrangeiro em seu próprio país, devido à omissão generalizadora da maioria de seus pares – pois tudo se perdoa nos trópicos, menos a inteligência e a criatividade”.

Ademais, como se não bastasse todo esse descaso com o cinema nacional, o mesmo ainda acontece com a música brasileira. Tom Zé talvez seja o nosso maior exemplo desta perspectiva. Se David Byrne não o tivesse descoberto e lançado seus discos no exterior, o Pai da Invenção (como Tom Zé é conhecido internacionalmente) estaria hoje trabalhando como frentista em um posto de gasolina de seu sobrinho, em Irará. Não desmerecendo a profissão dos frentistas (que é tão digna quanto qualquer outra), mas Tom Zé estaria exercendo amargamente essa profissão pelo simples fato de não conseguir viver da própria arte no Brasil. Usando as palavras de Sganzerla como exemplo, por que a obra de nossos melhores artistas é perfeitamente assimilada e reconhecida no exterior, e no Brasil não? Seria uma sequela do terceiro mundismo? Hoje Tom Zé finalmente goza de prestígio em nosso país e consegue viver dos shows que faz e dos discos que vende, mas só depois de conquistar o “selo de qualidade” imposto pelo público brasileiro. Ainda fico na dúvida se a música de Tom Zé é realmente assimilada por todos que dizem admirá-lo ou se o fazem só porque os primos distantes do primeiro mundo ditam a moda. Se realmente assimilam, por que esperar que os países desenvolvidos o façam primeiro? Que espírito de colonizado é esse? Quando nós poderíamos estar recolonizando o mundo com a nossa arte, esperamos que os outros países exportem-na primeiro para depois “venderem” aqui. Nunca conseguirei entender isso.

Outro exemplo musical é Os Mutantes, considerada por muitos (me incluo nesse grupo) como a maior banda brasileira de rock de todos os tempos. Rita Lee e os irmãos Baptista só conquistaram prestígio no Brasil após se apresentarem na Europa e os jornais europeus se curvarem ao seu som. No livro ‘A Divina Comédia dos Mutantes’, biografia da banda publicada pela primeira vez em 1995, pelo escritor Carlos Calado, encontramos um trecho que expressa isso muito bem: Como costuma acontecer nessas ocasiões, a imprensa brasileira fez coro com os elogios dos estrangeiros. Até então tratados com ironias e preconceitos por boa parte da mídia nacional, pela primeira vez Os Mutantes foram enaltecidos como verdadeiros representantes da música popular brasileira. Afinal, a Europa havia se curvado frente aos “nossos” garotos…

Também não esqueçamos de nossos compatriotas que olham enviesado para nossa literatura só por não possuir um prêmio Nobel. Como se realmente precisássemos disso para afirmar que a literatura brasileira é uma das melhores do mundo, com autores incríveis e traduzidos em todos os continentes. É verdade que todos esses prêmios trazem prestígio para um país e ajudam a divulgar os seus artistas, mas não podemos depender disso para nos orgulhar da arte feita aqui. Não podemos depender de uma visão de fora para decidir o que é bom ou ruim. Não precisamos de um Nobel para provar que Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, José de Alencar, Lima Barreto, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Lygia Fagundes Telles, Manuel Bandeira entre tantos outros, são gênios de sua arte. O prêmio nem existia quando alguns dos maiores escritores de todos os tempos já haviam escrito suas obras-primas. Não, não precisamos de um Nobel! Um prêmio criado pelo inventor da dinamite e que acumulou uma das maiores fortunas de sua época com suas fábricas de armamentos não pode ser selo de qualidade para ninguém. Inclusive com sua categoria da Paz.

Outro fato que pouca gente lembra (ou talvez faça questão de esquecer, tamanha foi a ignorância), é que se hoje a bossa nova é foda, não foi esse o pensamento quando João Gilberto surgiu no final de década de 1950. Esse que é indiscutivelmente um dos gênios da música brasileira, foi chamado de desafinado, sem ritmo, ventríloquo. Contudo, o final da história todo mundo conhece: sua música ultrapassou todas as fronteiras possíveis e, claro que depois de entrar para a seleta lista de brasileiros detentores do prêmio Grammy (o Awards e não o Latino), incluindo um de Álbum do Ano (!), viria a se tornar unanimidade em seu país. Anos depois, Tom Zé apresentaria em sua música “Vaia de Bêbado Não Vale” a interessante tese de que a bossa nova inventou o Brasil. Na música ele canta: “no dia em que a bossa nova inventou o Brasil / no dia em que a bossa nova pariu o Brasil / teve que fazer direito / teve que fazer Brasil / criando a bossa nova em 58 / o Brasil foi protagonista / de coisa que jamais aconteceu / pra toda a humanidade / seja na moderna História / seja na História da Antiguidade […] / quando aquele ano começou, nas / Águas de Março de 58, / o Brasil só exportava matéria-prima / essa tisana / isto é o mais baixo grau da capacidade humana / e o mundo dizia: / que povinho retardado / que povo mais atrasado […] / a surpresa foi que no fim daquele mesmo ano / para toda a parte / o Brasil d’O Pato / com a bossa-nova, exportava arte / o grau mais alto da capacidade humana / e a Europa, assombrada: / que povinho audacioso / que povo civilizado.” Como Tom Zé muito bem apresentou em sua música, o Brasil deixava de exportar matéria-prima (café) para exportar arte (música). O mundo se curvava para um país que, até pouco tempo, era muito pouco conhecido. Muito se falava, mas pouco se sabia, de fato. O Brasil entrava com pé direito para a história da música mundial, de onde nunca mais saiu, estando, desde então, na lista dos países que produzem a melhor música do mundo.

Quando tento pensar em brasileiros pouco premiados no exterior, mas altamente reconhecidos em seu país, Eduardo Coutinho é um dos poucos exemplos que me vem à mente. Embora reconhecido internacionalmente, Coutinho nunca ganhou um prêmio de grande expressão. Entretanto, no meio cinematográfico brasileiro, é o que chamamos de unanimidade. Morreu gozando de grande prestígio entre a crítica e fãs de documentários. Não precisou de um Oscar para que os brasileiros o reconhecessem como um reinventor do gênero documental. O que significa que ainda temos salvação. A bossa nova já provou que podemos ser um povo audacioso e civilizado aos olhos das outras nações. Não precisamos nos impor um selo de qualidade. Vamos enxergar com nossos próprios olhos o que temos de melhor sem esperar que alguém de fora faça isso por nós. ‘O Menino e o Mundo’, com ou sem Oscar, já merece destaque na história da cinematografia brasileira, mas se o prêmio de Melhor Animação servir para dar um fim a esse complexo de vira-lata do cinema nacional, desejo então boa sorte no próximo dia 28. Mas lembrando sempre: não precisamos disso!

* Nelson Rodrigues. “Complexo de vira-lata”. In: À sombra das chuteiras imortais: crônicas de futebol. São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p. 51.

vinte e três

TEXTO-SOMA

Aparentemente, o WordPress nos notifica sempre que publicamos dez novos textos. Pelo menos foi assim comigo. Se ele vai continuar notificando com o passar do tempo, eu já não sei. É importante começar o texto de hoje falando isso porque se não fosse pela notificação de que o texto “Segunda-feira” havia sido o vigésimo a ser publicado aqui, muito provavelmente vocês não estariam lendo esta postagem da forma que ela está. Esse é o texto de número vinte e três do Satãnatório e, como esse é o meu número favorito, resolvi fazer algo especial (com a notificação do WordPress, consegui me organizar para escrevê-lo). Em 1968, durante as filmagens de ‘O Bandido da Luz Vermelha’, Rogério Sganzerla escreveu um manifesto chamado Cinema Fora da Lei, em que ele dizia que seu filme era um “filme-soma”, isto é, fusão e mixagem de vários gêneros: musical, documentário, policial, comédia, chanchada, ficção científica. Foi então que eu resolvi chamar esse post especial de “texto-soma”, um texto sobre vários assuntos, num total de vinte e três textículos. Mas veja bem, eu disse número favorito e não da sorte, pois não acredito em sorte e azar. Esclarecido o caso, podemos dar prosseguimento.

MACHISTAS NÃO PASSARÃO

Nós homens não temos a exata dimensão do que é o machismo. Não sabemos o que é ser mulher e nunca vamos saber. Nosso papel na sociedade é reconhecer que, querendo ou não, nós somos sim privilegiados. Desde que mundo é mundo, elas sofrem com os padrões machistas e patriarcais, e por isso não temos direito nenhum de atrapalhar seus movimentos. Não devemos decidir as prioridades delas, nem como suas lutas devem ocorrer. Mas sim apoiá-las, dar ideias, disseminar seus conhecimentos feministas, ajudá-las a buscar informações e aprender a não fazer uso de estruturas socialmente impostas para oprimir. Escolher ficar calado e não fazer nada é se posicionar contra. Se não lutamos com elas, estamos do lado do opressor. E se você tá cansado de ouvir falar em machismo, imagina elas que vivem com isso a vida toda. É importante que elas falem. O feminismo é bom para todos, pois o machismo oprime os homens também. Nos impossibilita de chorar, de abraçar e beijar nossos amigos homens e de tantas outras coisas que não vou entrar em detalhes porque isso seria uma tentativa de chamar a atenção para nós tomando seu lugar de fala.

SER GAY TUDO BEM, MAS SER AFEMINADO…

tudo bem também! Ninguém tem que se importar com a forma de comportamento dos outros. Chega de acharem que existem características unicamente masculinas ou femininas. Não existem características certas ou erradas, seja você lésbica, gay, bi, trans ou hétero. Se já é difícil lutarmos contra a homofobia, não faz sentido nenhum que exista esse preconceito idiota muitas vezes disseminado entre os próprios gays. Para os discretos e afeminados: chega desse complexo de inferioridade por ser gay. Não tem que olhar torto para o gay que não é machão. Os afeminados disseram não a “proteção” do armário para lutar cara a cara contra o preconceito. Quantos deles morreram para que pudéssemos falar abertamente sobre homofobia? É uma questão de igualdade; aqueles que não fazem uso dos estereótipos masculinos também devem ser respeitados.

SOBRE TRENS

Moro praticamente em frente a uma estação ferroviária. Fora essa coincidência geográfica, eu sempre considerei o trem o transporte público mais cinematográfico de todos. Lembro da explosão do trem em ‘O Assalto ao Trem Pagador’, do final de ‘Pixote: A Lei do Mais Fraco’ com Pixote caminhando sobre os trilhos, dos passeios de Macabéa ao metrô aos finais de semana em ‘A Hora da Estrela’, a estação de trem em que Dora trabalha em ‘Central do Brasil’, o encontro de Rosa e Bernardo em ‘O Lobo Atrás da Porta’, e meu primeiro curta-metragem (amador) que também tinhas cenas em uma estação ferroviária. Não foi proposital. Na verdade foi algo que eu só vim perceber muito tempo depois. Quando vejo cenas em ônibus fico imaginando o quanto elas seriam melhores se fossem filmadas em trens.

COLECIONA-DOR

Já colecionei de tudo. De chaves a canetas. De bolas de gude a DVDs de filmes. Mas, sendo um capitalista sem capital, hoje não me permito colecionar nada. A última delas foram os filmes, mas a substituição do DVD pelo Blu-ray me deixou desanimado a recomeçar tudo de novo. E as constantes notícias de que novas tecnologias vão substituir o Blu-ray em um futuro próximo só me desanima ainda mais. Embora esteja sempre dando um jeitinho de aumentar minha coleção de livros, não acho que sou um colecionador; é como se fosse uma necessidade fisiológica ter sempre algo novo para ler. Então não coleciono nada concreto, mas decididamente sou um colecionador de palavras. Estou sempre anotando vocábulos novos e esperando uma oportunidade para usá-los.

PERDOEM A OUSADIA DE PUBLICAR UM POEMA DE MINHA AUTORIA

Posso ver uma onda de auto-boicotes
Umas espécies novas e acrescidas de auto-inimigos
se auto-trapaceando em departamentos sérios
Fazendo vasectomias intelectuais
e se tornando dignos de pena
Alguns nem isso

ÍDOLOS

Chega um momento da nossa vida em que descobrimos que nossos pais não são o centro do universo. É quando encontramos para nós outras referências, outras formas de se comportar, pensar, falar e se vestir. Infelizmente nasci em uma família que não consome cultura, então minhas referências além-mundo eram mínimas. Tive que procurar tudo por conta própria. Foi terrível até conseguir convencê-los de que não estava jogando dinheiro fora comprando livros e discos. Mas fico pensando pelo lado positivo: eu não fui influenciado por um gosto musical e literário de qualidade duvidosa.

EU SOU ÍNDIO

Um sonho que eu tinha quando criança era interpretar um índio em alguma peça da escola. Nas duas oportunidades que tive de participar de encenações que tinham índios, as professoras acabaram me escalando para interpretar nossos malditos colonizadores. Sou branco eu sei. Mas na minha inocência de criança eu conseguia me ver como um verdadeiro tupiniquim. É um sonho meu que nunca foi realizado graças a falta de imaginação dessas educadoras.

MÚSICAS DE AMOR NÃO ME REPRESENTAM

Eu me considero um cara romântico. Faço loucuras, surpresas e profundas declarações de amor. Mas não sou fã de músicas românticas. Isso não quer dizer que eu desgoste. Não é isso. Roberto Carlos que o diga. Mas prefiro músicas de protesto, músicas políticas, músicas sobre os mais diversos sentimentos que não seja o amor. O mesmo acontece com o cinema. Gosto e reconheço a qualidade de diversos filmes românticos, mas gosto mesmo é do cinema abertamente político, revolucionário, experimental. A violência cinematográfica me interessa.

CINEMA BRASILEIRO

Não sei se a realidade está mudando de fato ou se são as pessoas ao meu redor que pensam de forma diferente, mas me parece mesmo que os brasileiros estão começando a olhar com outros olhos para o cinema nacional. O que me entristece é que estão fazendo isso tarde demais. Quando já deixaram vários clássicos do nosso cinema passar despercebidos. Já ouvi de muita gente que o cinema brasileiro só tem filme de favela. Sempre que me diziam isso eu pedia para que citassem cinco filmes brasileiros sobre o tema. Nunca conseguiam ir além de ‘Cidade de Deus’ e ‘Tropa de Elite’. Outra que eu já ouvi muito e que nunca mais alguém falou na minha frente foi de que o cinema brasileiro tinha muito palavrão. Essa geração cresceu sem saber (ou sem querer admitir) que quando os filmes chegam ao Brasil para serem dublados, as empresas responsáveis pela dublagem retiram os palavrões ou os suavizavam com xingamentos mais leves. Tudo isso para que o filme possa ser transmitido a tarde e nos horários nobres da TV aberta. Só uma pessoa alienada que continua vendo esse cinema água com açúcar da TV aberta para ter coragem de dizer um absurdo desses. Acho que, com a internet, cada vez mais pessoas começaram a assistir filmes legendados (esse número infelizmente ainda é pequeno) e descobrir toda a “baixaria” do cinema estrangeiro. E que mal há nisso? Nenhum! Isso apenas não pode ser usado como desculpa para dizer que nosso cinema tem mais palavrão que o deles. O cinema internacional produz em uma quantidade muito maior que a nossa, e todos sabem que quantidade nunca foi sinônimo de qualidade. Basta ligar a TV e constatar que boa parte dos filmes estrangeiros transmitidos são horríveis. E ninguém fala que o cinema deles é ruim. De fato produzem obras primas, mas nós também produzimos. O público europeu e americano também é preguiçoso e não gosta de ler legendas. Filme legendado é sinônimo de fracasso de bilheteria no mercado cinematográfico do mundo inteiro. Por termos sido colonizados justamente por um país que nunca teve uma língua dominante, acabamos sendo muitas vezes excluídos do mercado cinematográfico internacional. Mas a crítica internacional e o público estrangeiro que consegue ter acesso aos nossos filmes reconhecem a qualidade do cinema brasileiro. O fato de não termos um Oscar não significa nada. Continuo achando que quem tem que gostar do nosso cinema somos nós brasileiros.

DOCES

Não sei responder quando me perguntam se gosto mais de doce ou de salgado. As duas respostas parecem certas. Acontece que recentemente eu comecei a acreditar que os doces estão vencendo essa disputa. Sou completamente louco por jujubas, e gosto de todas, menos das roxas que eu acredito serem de uva, nunca sei. Mas elas também servem na falta das outras. O leite condensado eu coloco na geladeira, porque tomar ele natural enjoa muito rápido e gelado a sensação é de que não é tão doce, me possibilitando um número maior de colheradas. Sem falar na minha propensão ao vício por amendoins coloridos. Aqueles cobertos de doce. Por que estou falando sobre isso? Não faço a mínima ideia.

REFRIGERANTE

Não bebo refrigerante a mais de dois anos. Eu era completamente louco pelo refrigerante de guaraná. Lembro da sensação maravilhosa que era beber um copo de refrigerante geladinho depois de chegar em casa numa tarde quente. Mas a grande verdade é que depois que decidi parar de beber, não sinto mais nenhuma vontade. Nem fico mal nem de estar em uma mesa onde todos estão bebendo refrigerante.

“SONHOS” RECORRENTES

Ademais, a decisão de não tomar mais refrigerantes me trouxe um sonho recorrente. Sempre me vem durante o sono a imagem de que estou bebendo refrigerante e quebrando minha abstinência que é de quase três anos atualmente. O mais engraçado é que esses sonhos são para mim o pior pesadelo que posso ter. Sonhar bebendo refrigerante hoje em dia é terrível, e são sonhos tão reais que é como se eu sentisse o gosto do refrigerante na minha boca. Sempre acordo nervoso, achando que tudo aquilo aconteceu de fato.

INSÔNIA

Conseguir dormir é que é o problema. Quem disse que a insônia deixa? É só deitar à noite que começo a pensar em tudo. Já penso muito durante o dia e quando deito para dormir é como se eu não tivesse horas suficientes para pensar enquanto estou acordado e precisasse pegar um pouco da hora de dormir para conseguir pensar tudo. É simplesmente horrível. Seria tão mais fácil se viéssemos com um botão de desligar…

SONO PÓS-ALMOÇO

Na medida em que tenho dificuldade em dormir a noite, ironicamente tenho igual dificuldade em me manter acordado depois do almoço. É um sono infernal que se apodera do meu corpo se transformando em um inimigo muito difícil de vencer. O pior é que é normal sentir esse sono. Já li de tudo sobre o assunto procurando suas causas. Já li que a produção de suco gástrico que faz parte do processo de digestão faz com que o cérebro diminua a atividade de alerta. Que refeições ricas em açúcar fazem com que a concentração de glicose suba no sangue, o que também leva a diminuição do estado de alerta do cérebro. Que na hora do almoço o nosso corpo automaticamente se prepara para dormir e o sono acumulado contribui para isso. Mas segundo as minhas pesquisas, aparentemente, o maior responsável é a concentração de fluxo sanguíneo na região do estômago na hora de digestão. Como o sangue conduz oxigênio para o nosso organismo e o cérebro precisa de muito oxigênio para funcionar, a maior concentração de sangue para a digestão faz com que a oferta de oxigênio diminua para o cérebro, o que força a diminuição da nossa atividade. O que só me leva a concluir que eu estou precisando de muito mais sangue no meu corpo, pois meu sono pós-almoço não é humano.

SOU UM CAVALO

Apaixonado que sou pelos costumes populares, não aceito, contudo, que o povo sacrifique uma perspectiva em função de uma alegoria mística.
Glauber Rocha

Na umbanda aqueles que “recebem” os espíritos são chamados de cavalos. Durante a incorporação, o “cavalo” permanece inconsciente, e quem fala através dele é seu “guia”, ou seja, a entidade espiritual a ele associada. Assim como Glauber Rocha, mesmo sem acreditar em deus, sou apaixonado pelos costumes populares e tenho o hábito de dizer que sou um cavalo. Um cavalo intelectual e não espiritual. Não recebo espíritos, mas estou sempre aberto para receber ideologias. Ideias me interessam.

TODO ESCRITOR ESTÁ MORTO

Quando criança eu cheguei a acreditar que todos os escritores estavam mortos. Coincidentemente, todos os livros que caíram nas minhas mãos eram antigos e seus autores já falecidos. Lembro que foi espantoso quando também criança eu vi um livro que tinha a biografia de um autor ainda vivo. Foi assim que descobri que pessoas jovens também escreviam, já que eu acreditava que só pessoas muito velhas e sábias eram capazes de escrever livros.

TUTORIAL DE COMO MATAR MOSQUITO

Eu ia escrever aqui um tutorial de como matar mosquito, mas já falei tanta besteira que resolvi deixar para lá. Próximo.

SEMPRE FOMOS BONS DE CONVERSAR

Namore alguém com que você goste de conversar. Vai por mim, sexo nenhum, por melhor que seja, segura relacionamento. Não basta ser só bom de cama, tem que ser bom de conversa também.

LIVROS

Sempre estou lendo mais de um livro. O segredo é não misturar os gêneros literários para que não vire tudo uma bagunça na sua cabeça. Então consigo ler um romance e uma biografia, os quais eu me dedico mais. Intercalo-os com livros teóricos de cinema, roteiros, crônicas e poesia. O de poesia fica no aguardo de um mini-tempo livre em que não dá para ler um capítulo do romance ou da biografia, então nesse pequeno espaço eu leio um poema. O livro de crônicas ou qualquer livro de textos curtos fica no limbo (leia mochila) para que seja lido no ônibus ou nas filas da vida. Então eu sempre vou ter mais de uma resposta quando me perguntarem o que estou lendo. O lado negativo é que você convive muito tempo com os mesmos livros. Não se dedicando exclusivamente a um você acaba demorando mais para terminar a leitura. O lado bom é que quase sempre eles costumam acabar juntos. Então você termina uns cinco livros muito próximos uns dos outros e já pode selecionar na estante os outros cinco para a próxima empreitada.

LEITURA ATUAL

Dentre as minhas leituras atuais está o livro ‘Tropicalista Lente Luta’ do Tom Zé. Deixo com vocês o primeiro parágrafo da página 23 do livro. Quem se sentir à vontade, também pode deixar nos comentários a primeira frase/parágrafo da página 23 do livro que está lendo atualmente.

uma ao lado da outra. Lia-se embaixo da primeira: “Esta foto está muito suja. Veja quantos objetos e peças estão perto da pessoa fotografada. É necessário limpar o campo.”
Tom Zé em ‘Tropicalista Lenta Luta’

A PROCURA DO ESCRITOR FAVORITO

Tenho cantor favorito, banda favorita, filme favorito, cineasta favorito, mas não tenho nem livro nem escritor favorito. E é terrível não saber responder a essa pergunta. Já achei que ‘Dom Casmurro’ fosse meu livro favorito, mas não é, embora seja um dos. Em algum momento da vida já achei que Machado de Assis, Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa e Clarice Lispector fossem meus escritores favoritos. Depois da descoberta dos livros violentos de Paulo Lins e Rubem Fonseca, também achei que eles fossem meus favoritos. Mais recentemente me apaixonei pela escrita do Moacyr Scliar e por ai vai. Contudo, entre eles e tantos outros que eu li, acho que nunca existira uma resposta absoluta, embora responder com um desses citados não me pareça errado.

CARTA AO LEITOR

Antes de existir computador as pessoas tinham como viver, não é não? Hoje parece que além do oxigênio agente tem que respirar informação. Todo mundo sabe de tudo mas é tudo superficial, a gente até lê tudo na hora mas não sabe a dor do monge que fez imolação no Nepal.
Trecho da música “Segredos da Levitação” de André Abujamra

Me sinto muito constrangido em roubar o tempo de você Leitor com meus textos. São tantos canais na TV, tantas páginas na internet, tantas redes sociais e aplicativos. Como André Abujamra diz em sua música ‘Segredos da Levitação’: “a gente até lê tudo, mas é tudo superficial”. O que assistir? O que ler? O que ouvir? O que acessar? Como ser seletivo? É tanta coisa que eu posso morrer sem ter visto o meu verdadeiro filme favorito. Sem ouvir uma banda que poderia me agradar mais do que qualquer outra. É muito material e pouco tempo. Pitty escreveu muito recentemente um texto bem interessante em seu blogue sobre não querer contribuir para o entulho do que ela chama de “mar de links”. Meu constrangimento nasce disso. Com tantas informações para assimilar para quê contribuir ainda mais com esse montante? Cada filme/livro/disco lançado já nasce inflacionado. Mas como ficar calado nessa zorra? Se todos falam, eu também quero falar e ser ouvido. No entanto, sou eu quem escolho minhas prioridades, assim como vocês escolhem as suas. E como vocês me leem por livre e espontânea vontade, eu prefiro ficar com essa falsa sensação de consciência tranquila. Me despeço aqui desses vinte e três mini-textos que acabaram formando um aterro ideológico de ideia nenhuma. No fundo eu desejo que você tenha desistido de ler ainda no primeiro parágrafo. Até a próxima! Abraçaço.