leite de coco é melhor que coca-cola

“Vende-se em segunda mão, e por preço módico, uma consciência quase nova, em perfeito estado de conservação. Por um excesso de escrúpulo, declaramos que ela já foi usada, mas devemos acrescentar que o primitivo dono se serviu dela poucas vezes, podendo assim ser utilizada sem receio por qualquer cidadão.” (Graciliano Ramos)

Este “anúncio” de Graciliano Ramos foi publicado em 27 de fevereiro de 1921, em sua coluna Factos e Fitas do jornal O Índio. Ao ler tal texto em 2017 pela primeira vez, quase cem anos depois de publicado, não pude deixar de pensar em todas as vezes em que ouvi alguém dizer uma variação da frase “gosto de ver filmes para desopilar; quando vou ao cinema, deixo a cabeça em casa”.

“Tem Hollywood o objetivo de atingir o coração do grande público e lhe conquistar simpatia e preferência. Partindo do pressuposto de que o homem de classe média quando entra no cinema procura uma fuga e não espelho da realidade, os produtores capricham nos clichês de entorpecimento e retiram o público do social para o alienante fantástico. A usina de sonhos produz esperança infantil e insufla a consciência de guerra. Há subestimação da solidariedade humana e simpatia exagerada pela moral ensinada. O cinema deixa sua função cultural e assume o papel deseducador. O público elegeu seus “Heróis” e não cede lugar ao aparecimento de outros”. (Glauber Rocha em ‘O Século do Cinema’)

No que convencionei chamar de Trilogia Glauberiana (os livros ‘Revisão Crítica do Cinema Brasileiro’, ‘Revolução do Cinema Novo’ e ‘O Século do Cinema’), Glauber Rocha ataca cirurgicamente o sedentarismo mental das plateias. No início de ‘Revolução do Cinema Novo’, o cineasta faz uso de um texto do ator Miguel Torres, falecido em 1962, aos 36 anos: “Estamos atravessando uma das fases mais graves da história da humanidade e nosso cinema tem que ser sério e grave. Chegou o momento de fechar o circo cinematográfico e fazer conferências maçantes contra a vontade da plateia. Enquanto não realizarmos filmes que violentem o comodismo dessa plateia intoxicada de convicções erradas, não estaremos igualados ao nosso presente”. Torres era um dos argumentistas do Cinema Novo, mas morreu antes de realizar o sonho de dirigir seu próprio filme. Esse e outros textos citados por Glauber, indicando autoria de Miguel Torres, não foram localizados, o que não me deixaria surpreso se descobrisse que foram escritos pelo próprio cineasta que assina o livro. De toda forma, esse é principal mote: atacar o sedentarismo mental das plateias. Como realizar esse ataque? A forma encontrada pelo Cinema Novo foi a violência:

“Nós compreendemos esta fome que o europeu e o brasileiro na maioria não entende. Para o europeu é um estranho surrealismo tropical. Para o brasileiro é uma vergonha nacional. Ele não come mas tem vergonha de dizer isto; e, sobretudo, não sabe de onde vem esta fome. Sabemos nós – que fizemos estes filmes feios e tristes, estes filmes gritados e desesperados onde nem sempre a razão falou mais alto – que a fome não será curada pelos planejamentos de gabinete e que os remendos do tecnicolor não escondem mas agravam seus tumores. Assim, somente uma cultura da fome, minando suas próprias estruturas, pode superar-se qualitativamente: e a mais nobre manifestação cultural da fome é a violência. […] A mendicância, tradição que se implantou com a redentora piedade colonialista, tem sido uma das causadoras de mistificação política e da ufanista mentira cultural: os relatórios oficiais da fome pedem dinheiro aos países colonialistas com o fito de construir escolas sem criar professores, de construir casas sem dar trabalho, de ensinar o ofício sem ensinar o analfabeto. A diplomacia pede, os economistas pedem, a política pede; o cinema novo, no campo internacional, nada pediu: impôs-se a violência de suas imagens e sons em 22 festivais internacionais”. (Glauber Rocha em ‘Revolução do Cinema Novo’)

Como maior aliado teórico desse movimento, Glauber defende a violência como a mais nobre manifestação cultural da fome, e aponta a fome como vergonha nacional: “Ele [o povo brasileiro] não come mas tem vergonha de dizer isto”. Esse trecho fez-me refletir sobre alguns filmes recentes da nossa cinematografia: ‘Cidade de Deus’ (2002), ‘Tropa de Elite’ (2007) e ‘Que Horas Ela Volta?’ (2015). No caso dos filmes de Fernando Meirelles e José Padilha, ambos com grande repercussão internacional, a rejeição por uma parte do público brasileiro se pautava na mesma justificativa: mancham a imagem do Brasil no exterior. De forma velada, o mesmo aconteceu com o filme de Anna Muylaert. Um texto de Nina Lemos chamado ‘Assistir Que Horas Ela Volta na Europa’ publicado na Revista Trip no ano de lançamento do longa-metragem e intensamente compartilhado nas redes sociais, relatava a vergonha da autora em assistir ao filme ao lado de uma plateia europeia.

“Não há quem, neste mundo de hoje dominado pela técnica, não tenha sido influenciado pelo cinema. Mesmo que nunca tenha ido ao cinema em toda vida, o homem recebe influências do cinema: as culturas mais nacionais não resistiriam a uma certa forma de comportamento, a uma certa noção de beleza, a um certo moralismo e, sobretudo, ao estímulo fantástico que o cinema faz à imaginação. Os reflexos se fazem a curto e longo prazo e a sedimentação de uma cultura cinematográfica é fato profundo na vida contemporânea. Não se pode porém falar de cinema sem se falar em cinema americano. Esta noção de cinema com cinema americano é praticamente a mesma coisa: essa influência do cinema é pois uma influência do cinema americano, como forma mais agressiva e difundida da cultura americana sobre o mundo. Esta influência atingiu inclusive o próprio público americano de tal forma que o público, condicionado, passou a exigir do cinema uma imagem à sua própria semelhança. Monstro produtor de ilusões e devorador de alienações, o cinema americano não pôde deixar de gerar similares que logo sentiram a necessidade de devorar o pai para sobreviver”. (Glauber Rocha em ‘Revolução do Cinema Novo’)

Fortemente influenciado pelo cinema americano, uma parte do público brasileiro rejeita os filmes nacionais. Sabemos que existem favelas no Brasil, mas sentimos vergonha de vê-las expostas na tela. Sabemos que existe corrupção na polícia, mas não queremos que os estrangeiros saibam disso. Conhecemos bem, seja de um lado ou de outro, a relação da classe A e B com suas empregadas domésticas, mas ficamos constrangidos se um filme que aborda o assunto é exibido fora do país.

“Muito mais próximos econômica e culturalmente dos Estados Unidos do que da Europa, os nossos espectadores têm uma imagem da vida através do cinema americano. Quando um cidadão brasileiro pensa em fazer seu filme, ele pensa em fazer um filme “à americana”. E é por isto que o espectador brasileiro de um filme brasileiro exige, em primeira instância, um filme “brasileiro à americana”. Se o filme, por ser nacional não é americano, decepciona. O espectador condicionado impõe uma ditadura artística a priori ao filme nacional: não aceita a imagem do Brasil vista por cineastas brasileiros porque ela não corresponde a um mundo tecnicamente desenvolvido e moralmente ideal como se vê nos filmes de Hollywood. Assim, não é mistério quando um filme brasileiro faz sucesso popular: todos os filmes brasileiros que fazem sucesso são aqueles que, mesmo abordando temas nacionais, o fazem utilizando uma técnica e uma arte imitadas do americano”. (Glauber Rocha em ‘Revolução do Cinema Novo’)

Quando alguém elogia um filme nacional dizendo que ele “nem parece brasileiro”, é porque ele de fato, não é brasileiro. Está completamente desprovido de personalidade, de identidade. É uma simples cópia. Atualmente, os filmes brasileiros que alcançam sucesso nacional ou internacional continuam sendo os que de um modo ou de outro imitam as técnicas do cinema americano. O que justifica a teoria de Glauber de que “o público, condicionado pela ideologia de Hollywood, é igual em todas as partes do mundo”. Então, como construir uma cultura nacional?

“O cinema é uma indústria geradora de cultura. Se o cinema americano gerou um tipo de gosto e se o cinema brasileiro, para se desenvolver, precisa seguir o caminho mais fácil, que é utilizar as formas americanas, o cinema industrial brasileiro será apenas um gerador em maior potência da cultura de dominação. Esta cultura, inclusive, poderia ser francesa, russa ou belga: não importa. Num país subdesenvolvido é fundamental que a sociedade adquira um comportamento nascido das condições de sua estrutura econômica. O primeiro desafio ao cineasta brasileiro é este: como conquistar o público sem usar as formas americanas, hoje já diluídas em outras subformas europeias? Este impasse, que reflete a noção moderna das civilizações subdesenvolvidas tropicais, tem uma repercussão moral dupla e diversa: sobre o cineasta que “produz a imitação”, e sobre o público que “recusa a original””. (Glauber Rocha em ‘Revoluções do Cinema Novo’)

A única saída para a indústria nacional é tomar consciência de nossas tradições. É preciso modernizar-se através do passado, ou seja, olhar para nossas raízes, como Mário de Andrade fez em ‘Macunaíma’, livro que causou dificuldade de apreensão desde sua primeira edição em 1928. No livro, o autor paulista resgata vários mitos indígenas, além de lendas e provérbios do folclore brasileiro. Como uma obra tão enraizadamente nacional pode ainda nos soar estranha, mesmo 89 anos depois? No final do livro [pule para o parágrafo seguinte se não quiser ler revelações do enredo], o protagonista Macunaíma, herói de nossa gente, se aborrece de tudo e vira uma estrela, passando a viver solitário do brilho inútil das estrelas no céu. Isso é muito simbólico.

“O público não quer saber de nada disto, ele vai ao cinema para se divertir mas encontra na tela um filme nacional que exige dele um esforço anormal para estabelecer um diálogo com um cineasta que faz, de sua parte, um esforço anormal para falar com o público… em outra linguagem! Sobre esta “linguagem” as discussões são prolixas e reveladoras. O cinema novo, recusando o cinema de imitação e escolhendo uma outra linguagem, recusou também o caminho mais fácil desta “outra linguagem”. Esta outra linguagem, típica das chamadas artes nacionalistas, é o “populismo”. É reflexo de uma atitude política muito nossa. Como o caudilho, o artista se sente pai do povo: a palavra de ordem é “vamos falar coisas simples que o povo entenda”. Considero um desrespeito ao público, por mais subdesenvolvido que ele seja, “fazer coisas simples para um povo simples”. Em primeiro lugar o povo não é simples. Doente, faminto e analfabeto, o povo é complexo. O artista/paternalista idealiza os tipos populares, sujeitos fabulosos que mesmo na miséria têm sua filosofia e, coitados, precisam apenas de um pouco de “consciência política” para, de uma aurora para outra, inverter o processo histórico.” (Glauber Rocha em ‘Revolução do Cinema Novo’)

Em ‘Macunaíma’, podemos constatar um esforço anormal por parte de alguns leitores para estabelecer um diálogo com Mário de Andrade que, por sua parte, fez um esforço anormal (ou não) para nos falar em outra linguagem, a brasileira, que deveria também ser a nossa. Possuímos uma cultura rica e esquecemos isso, tão submissos somos ao que vem de fora. No entanto, mesmo importada, se a obra não apresentar uma cópia da linguagem vigente, essa criação também será rejeitada. O sedentarismo mental da plateia dificulta o diálogo entre público e arte/artista. Para Glauber, o público se recusa a seguir o filme mas quer que o filme siga suas ideias.

“A colonização econômica de nosso cinema gera a colonização cultural do nosso povo. O povo brasileiro é inconscientemente deformado pela visão moral e artística do cinema americano e por isto inconscientemente venera e respeita os Estados Unidos. O fenômeno é igual na América Latina. Hollywood, impondo sua civilização através do cinema, debilita psicologicamente o povo e consolida sua penetração. Se alguém achar que estou mentindo é só fazer uma pesquisa. A colonização do povo pelo cinema hollywoodiano atinge as classes médias e proletária. A burguesia é colonizada “esteticamente” pelo cinema euro-americano. Inconscientemente, duas a três gerações de intelectuais brasileiros foram colonizadas pelo cinema euro-americano. Formou-se uma linguagem. Modelos. Chavões. Clichês. A colonização é um vírus tão forte que contamina até mesmo os espíritos mais nacionalistas. Esta burguesia colonizada produziu um grupo de críticos e cineastas que há muitos anos colabora direta ou indiretamente para a permanência do cinema euro-americano no Brasil e consequentemente sabota o desenvolvimento do cinema nacional. […] Este grupo, colonizado, frustrado, desesperado raciocina abstratamente sobre cinema nacional. Ninguém ousa discutir as estruturas econômicas do cinema nacional. Discutem apenas a estética do cinema nacional. A colonização gerou neles o complexo de que “cineasta brasileiro não sabe fazer filme”. Escreveram isto nos jornais. Excitaram o público e os intelectuais contra o cinema nacional. Botaram a esquerda e a direita contra o cinema nacional. O cineasta brasileiro é uma vítima solitária. Ninguém perdoa a ele o ato de ousar fazer um filme no Brasil. É isto exatamente o que desejam: desmoralizar o cinema brasileiro a fim de que não se crie indústria nacional e o mercado econômico e moral de um povo fique nas mãos dos americanos”. (Glauber Rocha em ‘Revolução do Cinema Novo’)

A inércia mental é tão grave que boa parte do público não consegue assimilar obras com linguagens originais. Fenômeno esse que passei a chamar de Disfagia Cultural. Disfagia é o nome dado à dificuldade para deglutir alimentos, secreções, líquidos ou saliva, desde o seu trajeto inicial na boca até sua transição do esôfago para o estômago. Apesar de não ser uma doença, a disfagia pode trazer prejuízos às condições pulmonares e nutricionais, como desnutrição e desidratação. Por sua vez, a Disfagia Cultural seria a dificuldade de consumir e assimilar obras de arte originais. Condicionado, o público recusa o novo. Desta forma, a arte nacional é estrangeira dentro do próprio país. O mercado audiovisual brasileiro produz mais de 120 filmes longa-metragem por ano, o que dá uma média de um filme brasileiro novo a cada 3 dias. No entanto, esses mesmos filmes representam, segundo dados da ANCINE, apenas 15% do conteúdo consumido pelo público.

“Com a consciência de classe. É necessário que os camponeses pobres se organizem para trabalhar a terra e vender seus produtos no mercado. As pessoas preferem os potes de conservas importados; ninguém tem a coragem de dizer-lhes que o leite de coco é melhor do que a coca-cola”. (Glauber Rocha em ‘Revolução do Cinema Novo’)

Em seu livro ‘O Baú do Raul’, nosso saudoso Raul Seixas diz que “o brasileiro não faz História; ele é um espectador da História”. Como discordar disso quando colocados diante dos números da ANCINE? Consumindo apenas conteúdo estrangeiro, deixamos de ser protagonistas de nossa própria história. Somos coadjuvantes em nosso próprio país. Em ‘Brejo das Almas’, de 1934, Carlos Drummond de Andrade incluiu um poema chamado ‘Hino Nacional’, em que dizia que precisamos descobrir o Brasil:

Precisamos descobrir o Brasil!
Escondido atrás das florestas,
com a água dos rios no meio,
o Brasil está dormindo, coitado.
Precisamos colonizar o Brasil.
[…]
Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!
Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,
ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.
O Brasil não nos quer! Está farto de nós!
Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?

Precisamos urgentemente descobrir o Brasil. Não é questão de patriotismo e sim de sobrevivência. Vivemos sufocados por culturas que não são nossas enquanto a cultura brasileira morre. Estamos perdendo nossa identidade. Estamos riscando o Brasil do mapa. Um povo camuflado de culturas que não a sua deixa de existir para reproduzir em maior escala a cultura dominante. Estamos nos rebelando contra nossa própria cultura, estamos destruindo-a, eliminando-a.

“É função do artista violentar – o artista é sempre a esquerda eterna, lógico ou anárquico – o artista só começa a se negar quando adere à ordem estabelecida, quando deixa de exercer seu poder crítico sobre o mundo, sobre o Estado, sobre o conformismo burguês, sobre o gosto fácil. O artista é um ser em oposição – se ele vive no fascismo é antifascista, se vive no Brasil subdesenvolvido e faminto ou na África do Norte colonizada é um revolucionário, usando cabeça e coração para defender e libertar o homem do totalitarismo”. (Glauber Rocha em ‘O Século do Cinema’)

Glauber questionava: dar ao público o que o público quer será uma forma de conquista ou de aproveitamento do condicionamento cultural do público? Mostrar o que o público não conhece não seria então o verdadeiro caminho pela conquista desse público? Afinal, não é função do artista provocar?

Arte no Brasil (ou em qualquer país do Terceiro Mundo) tem sentido, sim senhor! Pobre do país subdesenvolvido que não tiver uma arte forte e loucamente nacional porque, sem sua arte, ele está mais fraco (para ser colonizado na cuca) e essa é a extensão mais perigosa da colonização econômica. É PRECISO CONTINUAR A FAZER CINEMA NO BRASIL. (Glauber Rocha em ‘O Século do Cinema’)

As pessoas podem até preferirem beber coca-cola, e podem até dizer que ela ou outra bebida qualquer são melhores que o leite de coco. Embora talvez pareça, essa não é uma questão de gosto. Outras bebidas podem até ser melhores, e concordo que a coca-cola é a mais poderosa delas, sendo até onipresente. É mesmo muito difícil competir. No entanto, o leite de coco é o melhor para o Brasil, e para a cultura brasileira. Sendo, desta forma, também o melhor para os artistas brasileiros e brasileiras que lutam pelo direito de existir.

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meus livros favoritos de 2016

Tenho certeza de que 2016 foi o ano em que mais li até hoje. Essa afirmação pode soar mentirosa e contraditória quando comparo o número de livros lidos com os do ano anterior. Em 2015, eu li quarenta e seis títulos, em um total de onze mil novecentas e cinquenta e oito páginas. Enquanto que, em 2016, foram trinta e oito títulos, em um total de nove mil duzentas e trinta e nove páginas – o que dá uma média de vinte e cinco páginas por dia, abaixo das trinta e três diárias de 2015.

Os resultados foram bem inferiores, eu sei. Confesso que finalizei o ano frustrado, pois tinha expectativas maiores. No entanto, estou consciente de que um dos principais motivos (se não o maior) dessa diminuição foi o grande número de conteúdo online que eu consumi. Acompanhei muitos blogues em 2016, principalmente os de conteúdo político e feminista. Aprendi coisas como nunca antes e não me arrependo de ter dedicado tanto tempo a ler os textos de outros blogueiros e blogueiras, muito pelo contrário: neste ano, pretendo continuar acompanhando esses blogues e espero conhecer muitos outros.

Acredito muito na força da blogosfera e no poder do ativismo virtual. É importante consumir esse conteúdo alternativo escrito por minorias. Na atual conjuntura, é mais necessário do que nunca dar voz aos silenciados pelo Sistema. Essas leituras constituem uma parte importante da minha vida e sei que, se fosse possível contabilizar as páginas virtuais lidas por mim ano passado, conseguiria provar que foi o ano em que mais li. Porém, vou tratar no texto apenas dos livros.

Apesar de ter lido obras de nove nacionalidades, exatamente metade dos trinta e oito foram de títulos brasileiros e, é dessa metade, que saíram as leituras mais prazerosas. Não sei e não me atrevo a escrever resenhas, então irei tecer apenas breves comentários sobre cada livro da lista. Os títulos não estão classificados por ordem de importância, mas sim por ordem alfabética. São eles:

Abraçado ao Meu Rancor

Publicado originalmente em 1986, ‘Abraçado ao Meu Rancor’ foi minha terceira leitura concluída em 2016. Foi também o primeiro livro que li de João Antônio. Por ser um compêndio de contos, eu esperava ler com mais calma, como geralmente faço com títulos desse gênero (quase nunca leio mais de um conto por vez). No entanto, suas histórias do submundo me envolveram de tal forma, que quando me dei conta, já havia lido tudo.

A Divina Comédia dos Mutantes

Publicado originalmente em 1995, ‘A Divina Comédia dos Mutantes’ foi minha sexta leitura concluída em 2016. O livro de Carlos Calado é a biografia mais completa d’Os Mutantes, minha banda favorita. Foi outro livro que li muito rápido, principalmente por se tratar de um assunto de grande interesse. A pesquisa de Calado nos brinda com muitas curiosidades sobre os bastidores de gravações e, claro, nos apresenta aos vários pontos de vista sobre a polêmica saída de Rita Lee da banda.

Agosto

Publicado originalmente em 1990, ‘Agosto’ foi o primeiro livro que li em 2016. Foi uma das leituras mais gostosas do ano e se tornou um dos meus livros favoritos. A mescla entre ficção e realidade, usando como pano de fundo os acontecimentos que culminaram no suicídio de Getúlio Vargas, em agosto de 1954, foi o que me fascinou. Essa é apenas a terceira obra que leio de Rubem Fonseca e, a cada leitura nova, este autor ganha um lugar cada vez mais especial no meu coração. Agora, sempre que me lembro de ‘Agosto’, sinto uma imensa vontade de reler (e olha que só faz um ano que o folheei).

Cazuza - Só As Mães São Felizes

Publicado originalmente em 1997, ‘Cazuza – Só as Mães São Felizes’ foi minha segunda leitura concluída em 2016. Escrito por Lucinha Araújo e Regina Echeverria, a biografia conta a história de Cazuza desde seu nascimento até sua morte prematura. Também o li muito rápido, pois praticamente não o consegui largar enquanto não concluí. Por ser narrado através do ponto de vista de Lucinha, o livro é muito rico em detalhes, principalmente os capítulos que dizem respeito aos últimos dias de vida de Cazuza. Foi de longe a leitura mais emocionante do ano.

Contos Escolhidos

‘Contos Escolhidos’ é uma coleção de contos do Machado de Assis. Foi minha trigésima terceira leitura concluída em 2016. Li-o praticamente o ano inteiro, com muita calma. Como leio muitos livros ao mesmo tempo, quando chega dezembro, eu não inicio mais nenhuma leitura, pois trato de terminar aquelas que eu já iniciei durante o ano. Em dezembro, ainda faltavam alguns contos para concluir e, ao final de cada um deles, eu só conseguia imaginar o quanto ficariam bons se adaptados para o cinema em curtas-metragens. Inclusive, alguns contos desta coleção realmente ganharam adaptações, como foi o caso de ‘A Missa do Galo’ e ‘Uns Braços’.

Golpe 16

‘Golpe 16’ foi uma leitura especial, apesar de se tratar de um assunto amargo. O livro contém vinte e três artigos de blogueiros(as) e intelectuais de esquerda, além de um prefácio escrito pelo ex-presidente Lula e uma entrevista com a presidenta eleita Dilma Rousseff. A ideia do livro foi de Renato Rovai, editor do portal Fórum. Fui ao lançamento do livro em setembro, a convite da blogueira e feminista Lola Aronovich, que eu havia conhecido pessoalmente dias antes. Minha edição está autografada por ela. Além de Lola, há nele artigos de outras pessoas que eu admiro muito, como Cynara Menezes e Paulo Henrique Amorim. Foi minha vigésima oitava leitura concluída em 2016 e outro livro que li rápido, pois parei todas as leituras que havia iniciado para ler ‘Golpe 16’, um dos mais urgentes e importantes títulos publicados no ano passado.

Maldito

Publicado originalmente em 1998, ‘Maldito’ foi minha quarta leitura concluída em 2016. Minha edição, lançada em 2015 é, de longe, o livro mais lindo da minha coleção. O volume tem seiscentas e sessenta e seis páginas, que eu devorei em pouquíssimos dias. Escrita por André Barcinski e Ivan Finotti, a biografia é o título mais completo sobre José Mojica Marins, diretor de clássicos como ‘À Meia-Noite Levarei Sua Alma’, de 1963, e ‘Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver’, de 1966, ambos inclusos na minha lista de filmes favoritos. O livro aborda todas as fases da carreira de Mojica e, apesar de não ser chapa branca (pois aborda também os problemas do cineasta com o álcool, ostracismo, adultérios e o envolvimento com a indústria pornô), tudo é escrito com o maior respeito, tratando Marins como o verdadeiro gênio que é. Foi certamente uma das melhores biografias que já li na vida.

Menino de Engenho

Doidinho

Publicado originalmente em 1932, ‘Menino de Engenho’ foi minha décima primeira leitura concluída no ano passado e o primeiro livro de José Lins do Rego que li. A obra narra a história do menino Carlinhos, que vai morar no engenho do seu avô após perder a mãe assassinada pelo próprio pai. ‘Doidinho’, publicado pela primeira vez em 1933, foi minha vigésima quarta leitura concluída em 2016, e é a continuação de ‘Menino de Engenho’. Inclusive, começa exatamente onde o volume anterior termina. Esse segundo volume foi uma das leituras mais divertidas que fiz até hoje e, apesar de ser uma história triste em muitos momentos, a narrativa não perde o bom humor. Os dois fazem parte do “ciclo da cana-de-açúcar”, composta ainda por ‘Banguê’, publicado em 1934, ‘O Moleque Ricardo’, lançado em 1935, e ‘Usina’, lançado em 1936, títulos que eu pretendo ler muito em breve.

Revisao Crítica do Cinema Brasileiro / O Século do Cinema / Revolução do Cinema Novo

Essa trilogia glauberiana é formada por ‘Revisão Crítica do Cinema Brasileiro’, publicado originalmente em 1963, ‘O Século do Cinema’, de 1983, e ‘Revolução do Cinema Novo’, de 1981. Eles foram minhas leituras de número vinte e dois, trinta, e trinta e um de 2016, respectivamente. São livros escritos para quem realmente ama cinema, sobretudo o brasileiro. Glauber Rocha é meu cineasta favorito e tenho muito interesse por tudo o que diz respeito à sua vida e obra. Nenhum outro diretor me influenciou ou influencia tanto quanto ele. ‘Revolução do Cinema Novo’ trata do maior movimento cinematográfico da história do nosso país e foi o livro de cinema mais importante que já li.

Sargento Getúlio

Publicado originalmente em 1971, ‘Sargento Getúlio’ foi minha décima leitura concluída em 2016, e meu primeiro livro de João Ubaldo Ribeiro. Esse era um título que eu já queria ler há muitos anos, desde que assisti sua adaptação cinematográfica de mesmo nome de 1983, dirigido por Hermanno Penna, com Lima Duarte no papel do protagonista-título. Apesar de ser um livro pequeno, algumas passagens foram sabiamente cortadas no filme. Não por serem ruins, mas por não funcionarem tão perfeitamente no cinema quanto na literatura. Apesar disso, é uma das adaptações mais fiéis que já assisti (Ubaldo também assinou o roteiro) e tanto o filme quanto o livro fazem parte agora da minha lista de obras favoritas.

Minha meta inicial era ler cinquenta livros. No entanto, me dei conta de que um ano tem cinquenta e duas semanas, então esse se tornou o número mágico. Como vocês podem ver, não consegui alcançar nenhum dos dois. Quem sabe em 2017? Gosto de ler com calma e estou consciente de que ler muito rápido não é algo tão bom. Porém, também tenho que lutar contra o fato de que só viverei um determinado número de anos. Esse sentimento gera emoções contraditórias dentro de mim. Por já saber que não vou conseguir ler tudo o que quero, eu poderia muito bem ler livros aleatoriamente. Contudo, tento ser seletivo na maior parte das vezes, mas confesso que também gosto de ler ao acaso. Aprecio muito leituras estranhas, de títulos que quase ninguém ouviu falar.

Para esse ano, gostaria de convidar vocês a participarem do #DesafioLivrosBR do blogue 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer. O desafio consiste em ler, em 2017, doze livros brasileiros de diferentes categorias. Cliquem aqui no link para mais informações. É a primeira vez que participarei de um desafio literário e estou bastante entusiasmado. Segundo a Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2015, o brasileiro lê, em média, apenas dois livros inteiros por ano. Mais do que um país que lê pouco, o Brasil é um país que se lê pouco. Por isso, considero iniciativas como essa muito importantes.

Para finalizar, deixo abaixo o arquivo em PDF de ‘GOLPE: Antologia Manifesto’, obra que reúne cento e vinte artistas contra o golpe acometido contra a nossa democracia no ano passado. Foi uma das minhas leituras de 2016 e cito-o aqui nas menções honrosas. Espero que essa lista possa inspirar a leitura de muitos de vocês. Não se esqueçam de comentar quais desses títulos vocês já leram, quais querem ler e, claro, que livros vocês me indicam para 2017. Até a próxima, abraçaço.

GOLPE: Antologia Manifesto

o cinema é nosso

“Eu vejo o futuro repetir o passado”. Esse trecho da música ‘O Tempo Não Para’ de Cazuza vem martelando em minha cabeça sempre que penso no cenário brasileiro atual. Sinto como se estivesse vivendo situações que só conhecia através dos livros de História, quando estudava os capítulos sobre ditadura militar e respirava aliviado por ter nascido em outra época. Nesses mesmos livros didáticos, muito se falava sobre a censura imposta a todo tipo de arte, embora a música, com o exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil, ganhasse sempre um aprofundamento maior. Não recordo de ler nada relacionado à repressão sofrida pelo cinema brasileiro. Isso eu fui aprender depois por conta própria.

Quando os militares derrubaram João Goulart (1919-1976), o então presidente democraticamente eleito, o cinema brasileiro vivia um importante momento de sua história. ‘O Pagador de Promessas’, de 1962, escrito e dirigido por Anselmo Duarte (1920-2009) e baseado na peça teatral homônima de Dias Gomes (1922-1999), havia ganhado a Palma de Ouro no Festival de Cannes, e o Cinema Novo havia acabado de nos brindar com três clássicos eternos da nossa cinematografia: ‘Vidas Secas’, de 1963, escrito e dirigido por Nelson Pereira dos Santos e baseado no livro homônimo de Graciliano Ramos (1892-1953), ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, de Glauber Rocha (1939-1981) e ‘Os Fuzis’, de Ruy Guerra, ambos de 1964. ‘Vidas Secas’ e ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ foram indicados à Palma de Ouro com grande repercussão internacional, enquanto que Ruy Guerra receberia o Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim por ‘Os Fuzis’.

O Cinema Novo, movimento iniciado ainda na década de 1950 e formado por artistas de esquerda, resultou no maior engajamento político da filmografia nacional. A vida precária no sertão e nas favelas, questões raciais e sociais, a fome e a miséria, foram fortemente denunciados e debatidos em dezenas e dezenas de filmes. Com o golpe militar, esses longa-metragens e seus realizadores passaram a ser perseguidos e censurados. Glauber Rocha, maior nome do movimento, foi exilado.

O Cinema Marginal surgiria nesse meio tempo e, enquanto os cinemanovistas eram perseguidos por sua forte ideologia política, os marginais eram censurados por criticarem o comportamento moralista. Os filmes eram verdadeiramente retalhados e cineastas como José Mojica Marins, que não fazia parte de nenhum dos dois movimentos, foram algumas das maiores vítimas da repressão. Marins teve de cortar dezenas de cenas e falas em seus filmes, chegando até mesmo a modificar finais para conseguir lançá-los. Assim como ‘Terra em Transe’, de 1967, de Glauber, seu longa-metragem ‘Ritual dos Sádicos’, de 1969, foi proibido em todo o território nacional, não chegando nem a ser lançado nos cinemas por ter quase todas as suas cópias apreendidas e queimadas. Recuperado em 1982, foi exibido apenas em mostras e festivais com o título de ‘O Despertar da Besta’. Falido, Mojica teve que dirigir filmes pornôs para não morrer de fome, o que destruiu sua carreira. Na década de 1990 foi redescoberto pelos americanos e conseguiu voltar a dirigir seus filmes de terror, mas o estrago já estava feito. Uma carreira que tinha tudo para ser meteórica foi minada pela censura da ditadura militar.

Em 1964, Eduardo Coutinho (1933-2014) ainda era um diretor de longas de ficção. Ele estava realizando na Paraíba o filme que contaria a história de João Pedro Teixeira, líder camponês da região, assassinado em 1962. O cineasta já estava filmando há duas semanas quando parte da equipe foi presa sob a alegação de comunismo. A produção foi interrompida e Coutinho teve que voltar a trabalhar com jornalismo. Somente dezessete anos depois o trabalho foi retomado, dessa vez, colhendo depoimentos dos camponeses que trabalharam nas primeiras filmagens, com foco principal na história da viúva de João Pedro, dona Elizabeth Altino Teixeira que, desde 1964, teve que viver na clandestinidade, separada dos filhos. Lançado em 1984, ‘Cabra Marcado Para Morrer’ é até hoje o melhor e mais importante documentário brasileiro de todos os tempos.

Somente em 1975, com a abertura política, os filmes conseguiram uma liberdade maior para abordar temáticas que não agradavam ao governo, sendo lançados com poucos ou até mesmo nenhum corte. Por ter um público infinitamente maior que o do cinema, a censura voltou sua atenção para a televisão. No entanto, mesmo os filmes liberados sem cortes eram censurados quando transmitidos na TV. ‘Pixote: A Lei do Mais Fraco’, de 1980, do diretor Hector Babenco (1946-2016), só foi liberado para a telinha cinco anos depois e com trinta e oito cenas censuradas. Com o fim do regime militar, a censura acabou e os filmes dessa época puderam ser assistidos na íntegra em todo o território nacional.

Os vinte e um anos do regime militar foram o período mais sombrio já vivido pelas criações artísticas brasileiras, um verdadeiro desprezo pela informação e liberdade de expressão. Ao ler essas histórias, parece tudo muito absurdo, mas estamos de fato repetindo o passado. Temos o Congresso mais conservador desde 1964, ano do golpe militar. Hoje, assim como há cinquenta e dois anos atrás, vivemos mais um golpe, dessa vez, parlamentar, em que 367 deputados e 55 senadores anularam 54,5 milhões de votos. A imprensa, assim como em 1964, apoiou o golpe. Em 2013, apenas quarenta e nove anos depois, a Rede Globo se desculpou publicamente, classificando seu apoio ao golpe militar como um erro. No futuro, ela e tantos outros veículos de imprensa haverão de se desculpar novamente. Só espero que não demore outros quarenta e nove anos.

Todos os absurdos que eu lia nos livros de História começam a se repetir. Primeiro um golpe parlamentar derruba Dilma Rousseff, nossa presidenta democraticamente eleita. Depois, Michel Temer, em seu primeiro pronunciamento ao assumir o cargo, diz à nação brasileira: “Não fale em crise, trabalhe!” Qualquer semelhança com o “Brasil, ame-o ou deixe-o” não é mera coincidência. Depois, decreta o fim do Ministério da Cultura (recriado após calorosos protestos da classe artística). Não deu nem muito tempo para comemorar a volta do ministério quando seu novo ministro, Marcelo Calero, simplesmente decidiu exonerar a presidente da Cinemateca Brasileira, Olga Futemma, juntamente com outros quatro técnicos da instituição. A Cinemateca é responsável pela preservação da produção audiovisual brasileira. Dias depois, após forte apelo da classe cinematográfica, o Ministério da Cultura voltou atrás e manteve o emprego de Olga e dos outros quatro funcionários.

Nesse meio tempo, a equipe do filme ‘Aquarius’, do diretor Kleber Mendonça Filho, protestou contra o impeachment da presidenta Dilma no tapete vermelho do Festival de Cannes, em que concorreu a Palma de Ouro depois de oito anos sem um representante brasileiro na disputa oficial. O último filme nacional a concorrer ao prêmio havia sido ‘Linha de Passe’, de Walter Salles e Daniela Thomas, em 2008. O ministro Calero criticou o protesto e disse que os membros da equipe do filme “estão comprometendo [a imagem do país] em nome de uma tese política, e isso é ruim. Eu acho até um pouco totalitário, porque você quer pretender que aquela sua visão específica realmente cobre a imagem de um país inteiro. Eu acho que a democracia precisa ser respeitada e acho que é um desrespeito falar em golpe de Estado com aqueles que viveram o golpe realmente, o de 1964. Pessoas morreram. E as pessoas esquecem isso. Então eu acho [o protesto] de uma irresponsabilidade quase infantil”. Sônia Braga, que interpreta a protagonista do filme, rebateu: “Como pode um Ministro dizer que um ato democrático como o nosso é a representação de um País inteiro? Isso é desconhecimento do que significa plena democracia. Se estivéssemos falando em nome de todos não precisaríamos, evidentemente, fazer o ato. Uma coisa é certa: estamos juntos. O Ministro da Cultura ofendendo artistas é inadmissível. O senhor está nesse cargo para dialogar, para nos ajudar, para fazer a ponte com quem nos explora. A propósito, as críticas para Aquarius foram fabulosas. Quatro estrelas em jornais franceses, italianos, poloneses, russos e três citações no The New York Times. Ponto grande para a imagem da cultura brasileira no exterior. Senhor Ministro, não podemos perder as nossas conquistas. Sobretudo a mais importante delas, o respeito”. Desde então, o filme vem sofrendo uma forte perseguição política.

A repressão ao longa só ficou ainda mais evidente quando o Ministério da Justiça o proibiu para menores de dezoito anos, alegando conter situações sexuais complexas. Assisti ao filme e considerei a classificação um abuso. As três cenas de sexo de ‘Aquarius’ duram cada uma menos de trinta segundos. Filmes recentes do cinema nacional, como ‘Tatuagem’, de 2013, escrito e dirigido por Hilton Lacerda, e ‘Boi Neon’, de 2016, escrito e dirigido por Gabriel Mascaro, possuem longas cenas de sexo explícito e foram classificados como impróprios para menores de dezesseis anos. Usando esses exemplos como argumento, Silvia Cruz, sócia da distribuidora Vitrine Filmes, em uma reunião com Gustavo Marrone, secretário nacional de Justiça e Cidadania, pediu a reconsideração da classificação estabelecida. O Ministério da Justiça aceitou o pedido de revisão feito pela distribuidora e o filme acabou lançado como impróprio para menores de dezesseis anos. Em 1964, ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ foi lançado sem cortes, no entanto, foi proibido para menores de dezoito anos. Quem já viu o filme de Glauber sabe o quão isso é absurdo. Quem assistir ‘Aquarius’ também vai considerar a classificação do filme bastante incoerente. Todos sabemos que uma classificação máxima prejudica muito a vida de um filme, que acaba por ter seu leque de público muito reduzido, prejudicando inclusive sua arrecadação com bilheteria, e é justamente isso que o governo está tentando fazer: evitar que as pessoas assistam ao novo filme de Kleber Mendonça Filho. Na França, por exemplo, a produção recebeu a classificação livre para todos os públicos.

Até agora, ‘Aquarius’ conseguiu reverter bem as perseguições que o Ministério da Cultura tem feito contra o longa. Nos primeiros quatro dias de exibição, o filme conseguiu uma bilheteria de cinquenta e cinco mil espectadores, sendo o melhor lançamento da semana em média por sala. No entanto, há um último desafio a ser vencido: ser o representante brasileiro na disputa do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Para a maioria dos profissionais, cinéfilos e críticos nacionais e internacionais, ‘Aquarius’ é o grande favorito, todavia, o Ministério da Cultura ainda tem mais uma carta na manga: o crítico Marcos Petrucelli (da rádio CBN e do site e-Pipoca), anunciado como integrante da comissão responsável pela seleção do representante nacional no Oscar. Petrucelli vem criticando duramente ‘Aquarius’ e especialmente seu diretor, Kleber Mendonça Filho, desde sua passagem no Festival de Cannes. A nomeação de Petrucelli (que confessou não ter visto o filme) é uma clara tentativa do governo de tirar a vaga do longa com o intuito de evitar mais um protesto político de sua equipe com repercussão internacional. Após a polêmica, dois integrantes, a atriz Ingra Lyberato e o diretor Guilherme Fiúza Zenha, se desligaram da comissão, sendo substituídos por Carla Camuratti e Bruno Barreto. Adriana Rattes, Luiz Alberto Rodrigues, George Torquato Firmeza, Paulo de Tarso Basto Menelau, Silvia Maria Sachs Rabello e Sylvia Regina Bahiense Naves são os demais integrantes da comissão. Em protesto, os diretores Gabriel Mascaro e Anna Muylaert retiraram da disputa seus filmes ‘Boi Neon’ e ‘Mãe Só Há Uma’, respectivamente.

O longa de Kleber Mendonça Filho concorrerá com outros dezesseis filmes para representar o Brasil no Oscar: ‘A Bruta Flor do Querer’ (Andradina Azevedo, Dida Andrade); ‘A Despedida’ (Marcelo Galvão); ‘A Hora e a Vez de Augusto Matraga’ (Vinícius Coimbra); ‘Até Que a Casa Caia’ (Mauro Giuntini); ‘Campo Grande’ (Sandra Kogut); ‘Chatô – O rei do Brasil’ (Guilherme Fontes); ‘Mais Forte Que o Mundo – A História de José Aldo’ (Afonso Poyart); ‘Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil’ (Belisário Franca); ‘Nise – O Coração da Loucura’ (Roberto Berliner); ‘O Começo da Vida’ (Estela Renner); ‘O Outro Lado do Paraíso’ (André Ristum); ‘O Roubo da Taça’ (Caíto Ortiz); ‘Pequeno Segredo’ (David Schürmann); ‘Tudo Que Aprendemos Juntos’ (Sérgio Machado); ‘Uma Loucura de Mulher’ (Marcus Ligocki Júnior); ‘Vidas Partidas’ (Marcos Schechtman). Nosso representante será anunciado na próxima segunda-feira (12/09), em cerimônia na Cinemateca Brasileira, em São Paulo.

Em seu livro ‘Revisão Crítica do Cinema Brasileiro’, Glauber Rocha dizia que a luta do Cinema Novo era contra a chanchada e o trust americano, e que era preciso salvar o cinema independente: “temos de salvar o cinema independente, temos de construir o cinema brasileiro com os independentes. Somente assim os diretores terão liberdade para criar filmes novos. […] Tudo é muito claro: o que se precisa é a união dos independentes contra o trust americano – a primeira batalha foi interna, contra a chanchada. A segunda é maior, é uma luta igual às outras da indústria brasileira e mais do que nunca, agora, este amadurecimento político de um povo necessita da legenda: o cinema é nosso, como no caso do petróleo.” O Cinema Novo, de fato, conseguiu derrubar a chanchada, mas nunca vencemos a invasão americana. Fosse hoje, Glauber diria que a luta deveria ser contra a comédia pastelão (a chanchada atual), a invasão americana e o boicote do governo ilegítimo.

O cinema é nosso, assim como todas as outras formas de expressão artística. Não podemos deixar que censores virjões tramem boicotes a obras de arte bem debaixo do nosso nariz. É preciso abrir os olhos: a mídia quase sempre está contra nós e suas crias, como Reinaldo Azevedo, da “Revista” Veja, sempre escreverão barbaridades como as que ele escreveu: “o dever das pessoas de bem é boicotar Aquarius”. Bem, confesso que não boicotei, assisti e gostei muito. Estou convicto de que vi um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos. A ideia que os golpistas fazem de moral e bons costumes aos meus olhos são conservadoras e preconceituosas, um retrocesso sem fim. Querem voltar para a idade da pedra. Pessoas do “mal”, uni-vos! Vejam ‘Aquarius’!

mãos que não escrevem

Sou fascinado por manuscritos. Sempre que vou a alguma exposição ou retrospectiva em homenagem a algum(a) escritor(a), procuro por eles. A última exposição desse gênero que tive a oportunidade de prestigiar foi a Múltiplo Leminski, dedicada ao escritor e poeta curitibano Paulo Leminski (1944-1989). Além dos seus manuscritos, a mostra reuniu mais de mil objetos pessoais, entre fotos, livros, pinturas, textos datilografados, vídeos e filmes. Recentemente, li ‘Menino de Engenho’, de José Lins do Rego (1901-1957). Minha edição, que é de 1992, apresenta o manuscrito da última página do livro ao final do volume. Tal registro vem acompanhado do seguinte texto: […] para decifrar a quase ilegível letra de José Lins, colamos a ‘tradução’ nas linhas respectivas. “Quase ilegível” é elogio, pois salvo uma ou duas palavras, eu não consegui entender nada dos garranchos do escritor paraibano. Apresento abaixo uma foto que fiz da página com o manuscrito, mas aconselho quem ainda não leu que não veja com atenção, pois contém revelações de enredo.

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Após o término da leitura, fiquei pensativo. A maioria dos escritores contemporâneos não deve escrever mais à mão, preferindo digitar em seus computadores. Aposto que muitos autores só utilizam a caneta em sessões de autógrafo – que um dia ainda hão de ser totalmente substituídas por sessões de selfies. Suponho que, daqui a algumas décadas, quando organizarem mostras em homenagem a eles, não haja nenhum manuscrito. Os exemplares das primeiras edições impressas de seus livros talvez se tornem os documentos mais valiosos dos futuros escritores. Não os condeno, pois eu mesmo não escrevo mais à mão. É muito mais prático digitar, posso reescrever uma frase na hora que eu quiser, sem ter de apagar o que já foi posto com borracha ou riscar as linhas com caneta ao escrever outra coisa por cima. Ainda posso inserir palavras novas ou até mesmo frases inteiras no texto redigido sem precisar fazer isso na borda da folha. Sem contar o que para mim é a maior vantagem: a rapidez. Passaria horas escrevendo à mão o que digito em alguns minutos. Digitando, consigo acompanhar meu raciocínio, enquanto que à mão, a velocidade da escrita não respeita a do cérebro: acabo deixando de colocar no papel o que estou pensando naquele momento, resultando em um acumulo de ideias que, consequentemente, acarreta o esquecimento de algumas delas, me forçando a pensar novamente o que devo escrever. Com o auxílio do teclado, praticamente consigo digitar o que penso em tempo real.

Sempre fui um militante da escrita eletrônica por entender que quanto menos papel for usado, melhor será para o ecossistema, pois, mesmo que seja oriundo de reflorestamento, o solo e a água não deixam de ser usados. Sei que a geração de energia elétrica afeta o meio ambiente, mas o desmatamento de árvores também é muito nocivo à natureza. A combinação da escrita eletrônica com a utilização de energia sustentável é o ideal. Porém, eu ainda não havia percebido que estamos caminhando para a extinção em massa dos manuscritos. Em um futuro próximo, além da morte desses documentos de grande valor histórico, poderemos assistir até mesmo ao fim do ensino da chamada “escrita à mão”. Tudo ao nosso redor está trabalhando em função disso, até nossas assinaturas em documentos estão ficando cada vez mais raras, já que a biometria digital está sendo implantada em todos os lugares: além dos bancos e das votações eleitorais, eu já havia usado a biometria no colégio (para o controle da entrada e saída dos alunos), na academia e na autoescola. Sem contar que a prova teórica do exame de CNH foi realizada no computador. Não está muito distante o dia em que todos os vestibulares também serão realizados dessa forma, com o aluno recebendo o resultado logo após o término da prova. Para usar carteirinha de estudante também já está sendo preciso fazer a biometria facial. Temo que, muito em breve, todo e qualquer estabelecimento cobrará nossa identificação e, finalmente, cada movimento nosso será monitorado ao bel-prazer do Sistema.

Alguns países do primeiro mundo já estão deixando de ensinar a letra cursiva, cobrando dos alunos apenas o aprendizado da letra de forma e substituindo o velho caderno de caligrafia por tablets e computadores. As crianças aprendem a reconhecer as letras escritas de forma cursiva, mas não são mais ensinadas a reproduzi-las. Nos últimos anos as crianças estão apresentando cada vez mais dificuldade em aprender a escrita de mão, entretanto, com o crescente contato com as novas tecnologias, estima-se que um terço dos bebês usa smartphones e outros aparelhos digitais antes mesmo de aprender a andar e a falar.

No entanto, alguns pais estão preocupados, acreditando que o fim do ensino da letra de mão pode prejudicar seus filhos. A discussão divide especialistas: de um lado estão os que defendem que a escrita é importante para desenvolver a psicomotricidade fina, fundamental para o desenvolvimento psicomotor, pois quanto mais estímulos o cérebro recebe, mais sinapses ele faz, aumentando sua capacidade, e o uso das mãos têm grande influência no desenvolvimento das sinapses; do outro lado, estão aqueles que defendem que, mesmo com o fim do ensino da escrita de mão, as habilidades motoras das crianças continuam sendo exercitadas com o manejo de smartphones, tablets, videogames e computadores. Estes últimos também argumentam que as habilidades motoras podem ser treinadas nas disciplinas de desenho e pintura. Não sou nenhum especialista para conseguir justificar a importância de escrever à mão, mas sei que se cada vez mais países desenvolvidos aderirem ao fim da letra cursiva, logo essa medida também deverá estar sendo implantada nos países emergentes, e aqui, onde mal temos direito à educação, não teremos aulas de desenho e pintura para suprir o desenvolvimento psicomotor das crianças.

Aprendi a ler e a escrever aos seis anos de idade e recordo bem da alegria que senti no dia em que a professora me pediu para escrever a palavra “lago” na lousa e não errei. Sempre elogiaram a beleza da minha letra grande e redonda, mas hoje ela não é mais a mesma. Atualmente estou lendo ‘Revisão Crítica do Cinema Brasileiro’ de Glauber Rocha (1939-1981) e, quando me debruço sobre livros que tratam do cinema, costumo fazer anotações em algum caderno, pois nunca, em hipótese nenhuma, risco um impresso. Havia certo tempo em que eu não lia alguma obra acerca da sétima arte e havia mais tempo ainda em que eu não fazia anotações. Acredito que escrever é como andar de bicicleta: quem aprende, nunca esquece, mas quando não praticamos, sofremos um pouquinho para voltar a dominar o guidão. Quando fui fazer as anotações, senti a caneta correndo rápido demais, foi preciso algumas linhas para me familiarizar novamente com aquele objeto.

Não recordo de ter tido muita dificuldade em aprender a escrever, pois a professora que me alfabetizou era tão rigorosa que com certeza haveria feito disso um trauma na minha infância. De certa forma, me lembro de uma única ocasião em que fiz um teste de caligrafia e a professora me mandou refazer várias vezes porque minha letra estava feia. Os alunos que terminavam podiam ir para o recreio. Fiquei vendo todos os colegas brincando no pátio e eu ali, preso no teste de caligrafia. Reescrevi tantas vezes que a folha foi ficando cada vez mais fina de tanto apagar com a borracha, até chegar ao ponto de rasgar em algumas partes. Por fim, acabei chorando e as lágrimas borraram tudo ainda mais. Não lembro se consegui ir para o recreio, minha memória só chega até esse ponto da lembrança.

Que benefícios o ensino da letra escrita me trouxe, eu não sou capaz de dizer. Talvez, aos seis anos de idade, adorasse receber a notícia de que não precisaria aprender a escrever, e olha que, no meu tempo, as crianças ainda não possuíam celulares – o meu primeiro aparelho eu só fui ter aos catorze anos. Admito que a escrita cursiva exige muita coordenação motora e que aprender a desenhar as letras é um processo demorado. É como se fossemos alfabetizados duas vezes, aprendendo a ler as letras e depois a reproduzi-las. Todavia, hoje eu optaria por ter aprendido a escrever, e acredito que o ideal seria a junção do ensino da letra de mão com o aprendizado das novas tecnologias. Uma não precisa substituir a outra, embora o já esteja fazendo sem que percebamos. No dia a dia, não necessito mais carregar um bloquinho de notas juntamente com uma caneta (que sempre periga estourar dentro do bolso) ou mandar bilhete para ninguém, pois uso o celular para fazer anotações e os aplicativos de mensagens instantâneas para enviar algum recado.

Com o fim do ensino da escrita cursiva, as crianças só serão capazes de escrever em letras de forma, pois são mais fáceis de reproduzir. Em uma sociedade cada vez mais prática, as pessoas defendem que, se não usam algo, não há porque perder tempo aprendendo. O mais irônico nessa história toda é que as variantes cursivas foram desenvolvidas durante a Idade Média para permitir uma escrita manual mais rápida, pois é possível alcançar uma velocidade de escrita maior quando se usa o método clássico de passar de uma letra a outra sem levantar a caneta do papel.

Reconheço que a tecnologia tem força suficiente para dar fim à escrita de mão, e saber que existe a possibilidade dos meus netos ficarem intrigados ao me verem escrevendo no papel, prática usada há cerca de sete mil anos, é um pouco assustador. Por um longo período, usaram o termo “pré-história” para dividir o tempo em antes e depois da invenção da escrita como registro da realidade. Novas formas de contar a história hão de nascer com o desenvolvimento feroz da informática e talvez um dia também sejamos pré-alguma coisa.

Quando os arqueólogos do futuro (se é que ainda se chamarão assim) ou até mesmo seres de outro planeta em um possível período pós-apocalíptico procurarem vestígios de nossa civilização aqui na Terra, além de fósseis, encontrarão muitos fragmentos de computadores, tablets e smartphones. Haverão também muitos muros grafitados que dirão mais coisas sobre nós do que vosmecê imagina (a arte do grafite é uma espécie de pintura rupestre moderna). Talvez ainda encontrem restos de manuscritos, que poderão ser os vestígios mais preciosos da nossa civilização, pois a letra de alguém diz muito sobre sua personalidade, o que ainda não é possível estudar através da digitação.