leite de coco é melhor que coca-cola

“Vende-se em segunda mão, e por preço módico, uma consciência quase nova, em perfeito estado de conservação. Por um excesso de escrúpulo, declaramos que ela já foi usada, mas devemos acrescentar que o primitivo dono se serviu dela poucas vezes, podendo assim ser utilizada sem receio por qualquer cidadão.” (Graciliano Ramos)

Este “anúncio” de Graciliano Ramos foi publicado em 27 de fevereiro de 1921, em sua coluna Factos e Fitas do jornal O Índio. Ao ler tal texto em 2017 pela primeira vez, quase cem anos depois de publicado, não pude deixar de pensar em todas as vezes em que ouvi alguém dizer uma variação da frase “gosto de ver filmes para desopilar; quando vou ao cinema, deixo a cabeça em casa”.

“Tem Hollywood o objetivo de atingir o coração do grande público e lhe conquistar simpatia e preferência. Partindo do pressuposto de que o homem de classe média quando entra no cinema procura uma fuga e não espelho da realidade, os produtores capricham nos clichês de entorpecimento e retiram o público do social para o alienante fantástico. A usina de sonhos produz esperança infantil e insufla a consciência de guerra. Há subestimação da solidariedade humana e simpatia exagerada pela moral ensinada. O cinema deixa sua função cultural e assume o papel deseducador. O público elegeu seus “Heróis” e não cede lugar ao aparecimento de outros”. (Glauber Rocha em ‘O Século do Cinema’)

No que convencionei chamar de Trilogia Glauberiana (os livros ‘Revisão Crítica do Cinema Brasileiro’, ‘Revolução do Cinema Novo’ e ‘O Século do Cinema’), Glauber Rocha ataca cirurgicamente o sedentarismo mental das plateias. No início de ‘Revolução do Cinema Novo’, o cineasta faz uso de um texto do ator Miguel Torres, falecido em 1962, aos 36 anos: “Estamos atravessando uma das fases mais graves da história da humanidade e nosso cinema tem que ser sério e grave. Chegou o momento de fechar o circo cinematográfico e fazer conferências maçantes contra a vontade da plateia. Enquanto não realizarmos filmes que violentem o comodismo dessa plateia intoxicada de convicções erradas, não estaremos igualados ao nosso presente”. Torres era um dos argumentistas do Cinema Novo, mas morreu antes de realizar o sonho de dirigir seu próprio filme. Esse e outros textos citados por Glauber, indicando autoria de Miguel Torres, não foram localizados, o que não me deixaria surpreso se descobrisse que foram escritos pelo próprio cineasta que assina o livro. De toda forma, esse é principal mote: atacar o sedentarismo mental das plateias. Como realizar esse ataque? A forma encontrada pelo Cinema Novo foi a violência:

“Nós compreendemos esta fome que o europeu e o brasileiro na maioria não entende. Para o europeu é um estranho surrealismo tropical. Para o brasileiro é uma vergonha nacional. Ele não come mas tem vergonha de dizer isto; e, sobretudo, não sabe de onde vem esta fome. Sabemos nós – que fizemos estes filmes feios e tristes, estes filmes gritados e desesperados onde nem sempre a razão falou mais alto – que a fome não será curada pelos planejamentos de gabinete e que os remendos do tecnicolor não escondem mas agravam seus tumores. Assim, somente uma cultura da fome, minando suas próprias estruturas, pode superar-se qualitativamente: e a mais nobre manifestação cultural da fome é a violência. […] A mendicância, tradição que se implantou com a redentora piedade colonialista, tem sido uma das causadoras de mistificação política e da ufanista mentira cultural: os relatórios oficiais da fome pedem dinheiro aos países colonialistas com o fito de construir escolas sem criar professores, de construir casas sem dar trabalho, de ensinar o ofício sem ensinar o analfabeto. A diplomacia pede, os economistas pedem, a política pede; o cinema novo, no campo internacional, nada pediu: impôs-se a violência de suas imagens e sons em 22 festivais internacionais”. (Glauber Rocha em ‘Revolução do Cinema Novo’)

Como maior aliado teórico desse movimento, Glauber defende a violência como a mais nobre manifestação cultural da fome, e aponta a fome como vergonha nacional: “Ele [o povo brasileiro] não come mas tem vergonha de dizer isto”. Esse trecho fez-me refletir sobre alguns filmes recentes da nossa cinematografia: ‘Cidade de Deus’ (2002), ‘Tropa de Elite’ (2007) e ‘Que Horas Ela Volta?’ (2015). No caso dos filmes de Fernando Meirelles e José Padilha, ambos com grande repercussão internacional, a rejeição por uma parte do público brasileiro se pautava na mesma justificativa: mancham a imagem do Brasil no exterior. De forma velada, o mesmo aconteceu com o filme de Anna Muylaert. Um texto de Nina Lemos chamado ‘Assistir Que Horas Ela Volta na Europa’ publicado na Revista Trip no ano de lançamento do longa-metragem e intensamente compartilhado nas redes sociais, relatava a vergonha da autora em assistir ao filme ao lado de uma plateia europeia.

“Não há quem, neste mundo de hoje dominado pela técnica, não tenha sido influenciado pelo cinema. Mesmo que nunca tenha ido ao cinema em toda vida, o homem recebe influências do cinema: as culturas mais nacionais não resistiriam a uma certa forma de comportamento, a uma certa noção de beleza, a um certo moralismo e, sobretudo, ao estímulo fantástico que o cinema faz à imaginação. Os reflexos se fazem a curto e longo prazo e a sedimentação de uma cultura cinematográfica é fato profundo na vida contemporânea. Não se pode porém falar de cinema sem se falar em cinema americano. Esta noção de cinema com cinema americano é praticamente a mesma coisa: essa influência do cinema é pois uma influência do cinema americano, como forma mais agressiva e difundida da cultura americana sobre o mundo. Esta influência atingiu inclusive o próprio público americano de tal forma que o público, condicionado, passou a exigir do cinema uma imagem à sua própria semelhança. Monstro produtor de ilusões e devorador de alienações, o cinema americano não pôde deixar de gerar similares que logo sentiram a necessidade de devorar o pai para sobreviver”. (Glauber Rocha em ‘Revolução do Cinema Novo’)

Fortemente influenciado pelo cinema americano, uma parte do público brasileiro rejeita os filmes nacionais. Sabemos que existem favelas no Brasil, mas sentimos vergonha de vê-las expostas na tela. Sabemos que existe corrupção na polícia, mas não queremos que os estrangeiros saibam disso. Conhecemos bem, seja de um lado ou de outro, a relação da classe A e B com suas empregadas domésticas, mas ficamos constrangidos se um filme que aborda o assunto é exibido fora do país.

“Muito mais próximos econômica e culturalmente dos Estados Unidos do que da Europa, os nossos espectadores têm uma imagem da vida através do cinema americano. Quando um cidadão brasileiro pensa em fazer seu filme, ele pensa em fazer um filme “à americana”. E é por isto que o espectador brasileiro de um filme brasileiro exige, em primeira instância, um filme “brasileiro à americana”. Se o filme, por ser nacional não é americano, decepciona. O espectador condicionado impõe uma ditadura artística a priori ao filme nacional: não aceita a imagem do Brasil vista por cineastas brasileiros porque ela não corresponde a um mundo tecnicamente desenvolvido e moralmente ideal como se vê nos filmes de Hollywood. Assim, não é mistério quando um filme brasileiro faz sucesso popular: todos os filmes brasileiros que fazem sucesso são aqueles que, mesmo abordando temas nacionais, o fazem utilizando uma técnica e uma arte imitadas do americano”. (Glauber Rocha em ‘Revolução do Cinema Novo’)

Quando alguém elogia um filme nacional dizendo que ele “nem parece brasileiro”, é porque ele de fato, não é brasileiro. Está completamente desprovido de personalidade, de identidade. É uma simples cópia. Atualmente, os filmes brasileiros que alcançam sucesso nacional ou internacional continuam sendo os que de um modo ou de outro imitam as técnicas do cinema americano. O que justifica a teoria de Glauber de que “o público, condicionado pela ideologia de Hollywood, é igual em todas as partes do mundo”. Então, como construir uma cultura nacional?

“O cinema é uma indústria geradora de cultura. Se o cinema americano gerou um tipo de gosto e se o cinema brasileiro, para se desenvolver, precisa seguir o caminho mais fácil, que é utilizar as formas americanas, o cinema industrial brasileiro será apenas um gerador em maior potência da cultura de dominação. Esta cultura, inclusive, poderia ser francesa, russa ou belga: não importa. Num país subdesenvolvido é fundamental que a sociedade adquira um comportamento nascido das condições de sua estrutura econômica. O primeiro desafio ao cineasta brasileiro é este: como conquistar o público sem usar as formas americanas, hoje já diluídas em outras subformas europeias? Este impasse, que reflete a noção moderna das civilizações subdesenvolvidas tropicais, tem uma repercussão moral dupla e diversa: sobre o cineasta que “produz a imitação”, e sobre o público que “recusa a original””. (Glauber Rocha em ‘Revoluções do Cinema Novo’)

A única saída para a indústria nacional é tomar consciência de nossas tradições. É preciso modernizar-se através do passado, ou seja, olhar para nossas raízes, como Mário de Andrade fez em ‘Macunaíma’, livro que causou dificuldade de apreensão desde sua primeira edição em 1928. No livro, o autor paulista resgata vários mitos indígenas, além de lendas e provérbios do folclore brasileiro. Como uma obra tão enraizadamente nacional pode ainda nos soar estranha, mesmo 89 anos depois? No final do livro [pule para o parágrafo seguinte se não quiser ler revelações do enredo], o protagonista Macunaíma, herói de nossa gente, se aborrece de tudo e vira uma estrela, passando a viver solitário do brilho inútil das estrelas no céu. Isso é muito simbólico.

“O público não quer saber de nada disto, ele vai ao cinema para se divertir mas encontra na tela um filme nacional que exige dele um esforço anormal para estabelecer um diálogo com um cineasta que faz, de sua parte, um esforço anormal para falar com o público… em outra linguagem! Sobre esta “linguagem” as discussões são prolixas e reveladoras. O cinema novo, recusando o cinema de imitação e escolhendo uma outra linguagem, recusou também o caminho mais fácil desta “outra linguagem”. Esta outra linguagem, típica das chamadas artes nacionalistas, é o “populismo”. É reflexo de uma atitude política muito nossa. Como o caudilho, o artista se sente pai do povo: a palavra de ordem é “vamos falar coisas simples que o povo entenda”. Considero um desrespeito ao público, por mais subdesenvolvido que ele seja, “fazer coisas simples para um povo simples”. Em primeiro lugar o povo não é simples. Doente, faminto e analfabeto, o povo é complexo. O artista/paternalista idealiza os tipos populares, sujeitos fabulosos que mesmo na miséria têm sua filosofia e, coitados, precisam apenas de um pouco de “consciência política” para, de uma aurora para outra, inverter o processo histórico.” (Glauber Rocha em ‘Revolução do Cinema Novo’)

Em ‘Macunaíma’, podemos constatar um esforço anormal por parte de alguns leitores para estabelecer um diálogo com Mário de Andrade que, por sua parte, fez um esforço anormal (ou não) para nos falar em outra linguagem, a brasileira, que deveria também ser a nossa. Possuímos uma cultura rica e esquecemos isso, tão submissos somos ao que vem de fora. No entanto, mesmo importada, se a obra não apresentar uma cópia da linguagem vigente, essa criação também será rejeitada. O sedentarismo mental da plateia dificulta o diálogo entre público e arte/artista. Para Glauber, o público se recusa a seguir o filme mas quer que o filme siga suas ideias.

“A colonização econômica de nosso cinema gera a colonização cultural do nosso povo. O povo brasileiro é inconscientemente deformado pela visão moral e artística do cinema americano e por isto inconscientemente venera e respeita os Estados Unidos. O fenômeno é igual na América Latina. Hollywood, impondo sua civilização através do cinema, debilita psicologicamente o povo e consolida sua penetração. Se alguém achar que estou mentindo é só fazer uma pesquisa. A colonização do povo pelo cinema hollywoodiano atinge as classes médias e proletária. A burguesia é colonizada “esteticamente” pelo cinema euro-americano. Inconscientemente, duas a três gerações de intelectuais brasileiros foram colonizadas pelo cinema euro-americano. Formou-se uma linguagem. Modelos. Chavões. Clichês. A colonização é um vírus tão forte que contamina até mesmo os espíritos mais nacionalistas. Esta burguesia colonizada produziu um grupo de críticos e cineastas que há muitos anos colabora direta ou indiretamente para a permanência do cinema euro-americano no Brasil e consequentemente sabota o desenvolvimento do cinema nacional. […] Este grupo, colonizado, frustrado, desesperado raciocina abstratamente sobre cinema nacional. Ninguém ousa discutir as estruturas econômicas do cinema nacional. Discutem apenas a estética do cinema nacional. A colonização gerou neles o complexo de que “cineasta brasileiro não sabe fazer filme”. Escreveram isto nos jornais. Excitaram o público e os intelectuais contra o cinema nacional. Botaram a esquerda e a direita contra o cinema nacional. O cineasta brasileiro é uma vítima solitária. Ninguém perdoa a ele o ato de ousar fazer um filme no Brasil. É isto exatamente o que desejam: desmoralizar o cinema brasileiro a fim de que não se crie indústria nacional e o mercado econômico e moral de um povo fique nas mãos dos americanos”. (Glauber Rocha em ‘Revolução do Cinema Novo’)

A inércia mental é tão grave que boa parte do público não consegue assimilar obras com linguagens originais. Fenômeno esse que passei a chamar de Disfagia Cultural. Disfagia é o nome dado à dificuldade para deglutir alimentos, secreções, líquidos ou saliva, desde o seu trajeto inicial na boca até sua transição do esôfago para o estômago. Apesar de não ser uma doença, a disfagia pode trazer prejuízos às condições pulmonares e nutricionais, como desnutrição e desidratação. Por sua vez, a Disfagia Cultural seria a dificuldade de consumir e assimilar obras de arte originais. Condicionado, o público recusa o novo. Desta forma, a arte nacional é estrangeira dentro do próprio país. O mercado audiovisual brasileiro produz mais de 120 filmes longa-metragem por ano, o que dá uma média de um filme brasileiro novo a cada 3 dias. No entanto, esses mesmos filmes representam, segundo dados da ANCINE, apenas 15% do conteúdo consumido pelo público.

“Com a consciência de classe. É necessário que os camponeses pobres se organizem para trabalhar a terra e vender seus produtos no mercado. As pessoas preferem os potes de conservas importados; ninguém tem a coragem de dizer-lhes que o leite de coco é melhor do que a coca-cola”. (Glauber Rocha em ‘Revolução do Cinema Novo’)

Em seu livro ‘O Baú do Raul’, nosso saudoso Raul Seixas diz que “o brasileiro não faz História; ele é um espectador da História”. Como discordar disso quando colocados diante dos números da ANCINE? Consumindo apenas conteúdo estrangeiro, deixamos de ser protagonistas de nossa própria história. Somos coadjuvantes em nosso próprio país. Em ‘Brejo das Almas’, de 1934, Carlos Drummond de Andrade incluiu um poema chamado ‘Hino Nacional’, em que dizia que precisamos descobrir o Brasil:

Precisamos descobrir o Brasil!
Escondido atrás das florestas,
com a água dos rios no meio,
o Brasil está dormindo, coitado.
Precisamos colonizar o Brasil.
[…]
Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!
Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,
ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.
O Brasil não nos quer! Está farto de nós!
Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?

Precisamos urgentemente descobrir o Brasil. Não é questão de patriotismo e sim de sobrevivência. Vivemos sufocados por culturas que não são nossas enquanto a cultura brasileira morre. Estamos perdendo nossa identidade. Estamos riscando o Brasil do mapa. Um povo camuflado de culturas que não a sua deixa de existir para reproduzir em maior escala a cultura dominante. Estamos nos rebelando contra nossa própria cultura, estamos destruindo-a, eliminando-a.

“É função do artista violentar – o artista é sempre a esquerda eterna, lógico ou anárquico – o artista só começa a se negar quando adere à ordem estabelecida, quando deixa de exercer seu poder crítico sobre o mundo, sobre o Estado, sobre o conformismo burguês, sobre o gosto fácil. O artista é um ser em oposição – se ele vive no fascismo é antifascista, se vive no Brasil subdesenvolvido e faminto ou na África do Norte colonizada é um revolucionário, usando cabeça e coração para defender e libertar o homem do totalitarismo”. (Glauber Rocha em ‘O Século do Cinema’)

Glauber questionava: dar ao público o que o público quer será uma forma de conquista ou de aproveitamento do condicionamento cultural do público? Mostrar o que o público não conhece não seria então o verdadeiro caminho pela conquista desse público? Afinal, não é função do artista provocar?

Arte no Brasil (ou em qualquer país do Terceiro Mundo) tem sentido, sim senhor! Pobre do país subdesenvolvido que não tiver uma arte forte e loucamente nacional porque, sem sua arte, ele está mais fraco (para ser colonizado na cuca) e essa é a extensão mais perigosa da colonização econômica. É PRECISO CONTINUAR A FAZER CINEMA NO BRASIL. (Glauber Rocha em ‘O Século do Cinema’)

As pessoas podem até preferirem beber coca-cola, e podem até dizer que ela ou outra bebida qualquer são melhores que o leite de coco. Embora talvez pareça, essa não é uma questão de gosto. Outras bebidas podem até ser melhores, e concordo que a coca-cola é a mais poderosa delas, sendo até onipresente. É mesmo muito difícil competir. No entanto, o leite de coco é o melhor para o Brasil, e para a cultura brasileira. Sendo, desta forma, também o melhor para os artistas brasileiros e brasileiras que lutam pelo direito de existir.

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guarda baixa

Sempre me perguntei por que alguns cineastas, após realizarem grandes filmes no passado, verdadeiros clássicos do cinema, dirigem produções tão fracas quando chegam à velhice. Isso quando nem esperam amadurecer para começar a manchar a própria filmografia lançando trabalhos medíocres. Esse também é um fato que vejo com uma frequência ainda maior no cenário musical. Muitas bandas ou artistas-solo que revolucionaram a música quando jovens não conseguiram manter o mesmo nível após alguns anos de carreira. Até na literatura há os que também ficam eternamente marcados pelo livro de estreia.

Esse é um assunto que muitas vezes orbitou em rodas de conversas e eu nunca soube apontar uma razão para esse “fenômeno”. No entanto, há algumas semanas atrás, encontrei a resposta assistindo a vídeos de Leandro Karnal que, de tão óbvia, me passou despercebida. Esses artistas caíram na terrível zona de conforto. Tentei encontrar o vídeo para transcrever as palavras de Karnal, mas não encontrei. É um vídeo em que ele usa a expressão “baixar a guarda”. De toda forma, encontrei outras palestras em que ele novamente disserta sobre o tema.

Para Karnal, é natural do ser humano buscar zonas de conforto, pois elas fazem com que não gastemos energia pessoal e cerebral. Porém, para todos aqueles que se dedicam ao estudo de carreira, a zona de conforto é a grande armadilha da vida. Ela nos diz para relaxarmos, para ficarmos bem porque “chegamos lá”. Entretanto, toda vez que acreditamos ter “chegado lá”, começamos a diminuir a potência de tudo aquilo que podemos fazer. Zona de conforto é o que buscamos, mas ela também é o início do nosso declínio, afinal, ela produz a felicidade que nos leva à acomodação, que nos leva à preguiça e esta, por sua vez, nos leva ao não desenvolvimento do nosso potencial. Ou seja, aquilo que nos favorece é também aquilo que nos prejudica.

Tudo isso faz muito sentido. Estudamos, nos esforçamos e damos tudo de si quando estamos desenvolvendo nossos primeiros projetos. Queremos provar para o mundo do que somos capazes. Toda essa motivação inicial é mesmo difícil de ser mantida se já conquistamos um espaço em nossas áreas de atuação. Sempre que penso nisso, me vem à mente o exemplo de Tom Zé, que a cada novo trabalho consegue se superar. O Mestre sempre fala em uma espécie de deficiência, de dificuldade na hora de criar. Segundo ele, esse sofrimento é o que o motiva a estudar todos os dias para conseguir compor suas músicas. Além do talento natural que Tom Zé possui, acredito que essa dificuldade que ele diz ter o impulsiona em direção ao trabalho árduo dos estudos e, consequentemente, para fora de qualquer zona de conforto.

Escrevi essas linhas ao som de Raul Seixas e, coincidentemente, em sua canção ‘Eu Sou Egoísta’, ele fala, entre outras coisas, sobre zonas de conforto. É uma das minhas músicas favoritas do pai do rock brasileiro. Na letra ele diz: […] Eu sou estrela no abismo do espaço / O que eu quero é o que eu penso e o que eu faço / Onde eu tô não há bicho-papão / Eu vou sempre avante no nada infinito / Flamejando meu rock, meu grito / Minha espada é a guitarra na mão / Se o que você quer em sua vida é só paz / Muitas doçuras, seu nome em cartaz / E fica arretado se o açúcar demora / E você chora, cê reza, cê pede, implora / Enquanto eu provo sempre o vinagre e o vinho / Eu quero é ter tentação no caminho / Pois o homem é o exercício que faz […]. Estou sempre em busca dessa tentação no meio do caminho. Perder totalmente o medo da mudança é meu verdadeiro desafio. Nós somos o exercício do que fazemos.

Por fim, quero dizer que escrevi esse texto para agradecer todo o apoio durante o ano de 2016. Sou grato por cada acesso ao blogue, a cada pessoa que tirou alguns minutos do seu precioso tempo para ler meus textos, a cada pessoa que curtiu, seguiu e comentou. Muito obrigado. O que desejo para nós em 2017 e para vida toda é que não baixemos a guarda. Nunca! Feliz ano novo! Abraçaço

como seria o mundo sem a bahia?

Para vocês que leram E se eu não tivesse escrito esse texto?, esse é o que eu posso chamar de parte dois. Vocês hão de me perguntar: mas Jaírlos, você não disse que iria evitar ficar pensando em coisas que não podem acontecer? Sim, eu evito, mas essa pergunta vai muito além de um simples “e se não existisse Bahia?”. É a mesma pergunta feita de um jeito diferente: você Leitor, já imaginou como seria o mundo sem a Bahia?

Eu pergunto, mas nem de longe sou a pessoa mais ideal para responder. Não sou baiano, entretanto tenho um fascínio enorme pela Bahia e só consigo pensar o quanto o mundo perderia sem ela e o quanto o Brasil seria mais pobre. Para começo de conversa, nosso cinema seria muito mais apagado e bem menos respeitado no mundo. O maior cineasta desse país foi e sempre será Glauber Rocha. Já imaginou a filmografia brasileira sem ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ e ‘Terra em Transe’?

E a dramaturgia seria igualmente modesta. Nosso cinema não teria Antonio Pitanga, Geraldo Del Rey e Othon Bastos. E o cinema marginal não teria Helena Ignez, sua maior estrela. A nova geração também perderia grandes nomes como Lázaro Ramos e Wagner Moura. Você consegue imaginar outra pessoa como Capitão Nascimento?

Não teríamos Milton Santos e Carlos Marighella, e nem os escritores Gregório de Matos, Castro Alvez, João Ubaldo Ribeiro e Jorge Amado. Não teríamos Gabriela, nem Dona Flor e nem seus dois maridos. E o que dizer de Tieta? Consegue sentir como o nosso imaginário popular seria bem mais carente?

E quando o assunto é música, caríssimos, o prejuízo seria ainda maior. Só para início de conversa, não teríamos Tom Zé, Caetano Veloso e Gilberto Gil. A pergunta que fica disso é a seguinte: teria existido tropicalismo? E tem mais, todos sabemos do caso da bossa nova com o Rio de Janeiro, é algo que não dá para negar, mas que fica difícil imaginar a bossa nova sem João Gilberto, fica.

Sem esses quatro a música brasileira já não seria o que é, mas a facada não para por aí, ainda temos (ou não teríamos) Dorival Caymmi, Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Carlinhos Brown e Waldick Soriano. E me diga, Leitor(a), o que é que a Bahia tem? Tem Gal Costa, Daniela Mercury, Astrud Gilberto, Ivete Sangalo, Karina Buhr, Maria Bethânia, Margareth Menezes e o que para mim é a cereja do bolo: as bandas de rock.

Muitos só conseguem enxergar os trios elétricos e se esquecem que Raul Seixas, o eterno pai do rock brasileiro era baiano. Além de Marcelo Nova que com o Camisa de Vênus fez história nos anos 80. Mas nem só de glórias passadas vive o rock baiano, além das bandas Cascadura, Vivendo do Ócio e Maglore, temos Pitty, que é a maior representante do rock da atualidade. Ela já está a mais de dez anos nesse posto e parece que ainda vai ficar por muito tempo nele.

Eu sei que eu esqueci de muita gente (alguns intencionalmente), afinal, não dá para passar o dia todo citando nomes e nomes. Eu me limitei a falar de quem gosto e acho que ainda assim deu para ter uma noção do estrago que seria para a nossa cultura. Agora vou me aquietar e prometo tentar não perturbar mais vocês com minhas súbitas crises de “e sismos”. Até a próxima.

Abraçaço