porque não desejo filhos gays para casais homofóbicos

Certa feita, ao presenciar comentários homofóbicos vindos de um jovem casal heterossexual, pais de uma menininha linda de um aninho, relatei o ocorrido a um amigo meu, em particular. Ao ouvir a história, ele comentou o seguinte: “tomara que a filhinha deles seja lésbica para que eles aprendam a respeitar às diferenças”. A frase me deixou reflexivo.

Conhecendo bem esse meu amigo, sei que ele falou o que falou no calor do momento, pois estava revoltado com o que havia acabado de ouvir. Ele é gay, logo, não considera a homossexualidade algo ruim, então sua intenção não era atingir a criança, e sim o casal que, na cabeça dele, aprenderia a respeitar o amor entre duas pessoas do mesmo sexo quando passassem a conviver com uma lésbica dentro de casa. No entanto, eu penso diferente, pois não desejo filhos gays para casais homofóbicos.

Não acredito em castigo, maldição divina e em nada dessas bobagens para partir do pressuposto que casais homofóbicos merecem mesmo é ter filhos gays, quando na verdade é o filho gay que sofre ao nascer em um lar homofóbico. Os pais mais religiosos, na cegueira da intolerância, só conseguem enxergar o próprio “sofrimento”, perguntando-se o que fizeram para merecer isso. Os pais não religiosos também encaram a situação como uma espécie diferente de castigo, perguntando-se onde erraram na educação da criança.

Na verdade, não desejo filhos (gays ou não) para casais homofóbicos. Se o filho for hétero, são grandes as chances de ele pensar como os pais e, mesmo que não seja homofóbico e tenha amigos gays, dificilmente vai fazer algo para mudar a visão dos pais, afinal, essa não é uma causa dele. Infelizmente, ainda são poucos os héteros que lutam juntos às comunidades LGBTs contra a homofobia. Já se o filho for gay, ele vai sentir a pior dor que um homossexual pode sofrer: a violência do próprio lar. A violência e não aceitação da rua nada se compara a não aceitação familiar.

São os filhos gays que não merecem pais homofóbicos. Quando isso acontece, são enormes as chances de se repetirem casos que já vi acontecer de pais colocarem filhos no exército contra a sua vontade para “virarem homens”; pais que submetem filhos a tratamentos psicológicos quando na verdade são eles que têm problemas; pais que sujeitam os filhos a uma forte violência física e psicológica; pais que trancam os filhos dentro de casa impedindo-os de qualquer contato com o mundo; pais que expõem a sexualidade dos filhos a padres e pastores, arrancando-os à força do armário, o que resulta em uma forte humilhação social, pois é a própria pessoa quem deve decidir quando contar para todos; chegando até mesmo a casos de pais que matam os filhos por não aceitá-los como são.

De todos esses exemplos citados acima, o único que ainda não aconteceu com alguém próximo a mim foi o último, mas não são poucas as histórias de gays mortos pelos próprios pais – isso quando eles mesmos não tiram a própria vida na ânsia de ceifar esse sofrimento. Toda essa violência é fruto do preconceito, mas também de frustração. Casais homofóbicos criam a expectativa de que seus filhos serão héteros, sendo assim, quando ocorre a frustração dessa expectativa, o sofrimento para ambos é quase inevitável. Claro que o sofrimento desses pais é fruto de um “auto-problema”: o próprio preconceito. Enquanto que o sofrimento do gay é fruto do problema de terceiros: a homofobia do outro. Os pais não possuem o direito de criar expectativas com relação à sexualidade dos filhos. Ninguém escolhe ser gay, não é uma opção. Ninguém em sã consciência escolheria passar por todo esse flagelo. É óbvio ululante que nem todos passam por isso, mas é apenas uma minoria que tem a felicidade de nascer em um lar que respeita as diferenças.

Portanto, mesmo que todo filho gay mudasse a mentalidade dos pais homofóbicos, não da para ignorar que esse é um processo muito traumático, logo, não desejo que gay nenhum tenha que passar por isso. É por essa razão que as campanhas contra a homofobia, o debate sobre a identidade de gênero nas escolas e a criminalização da conduta homofóbica são cada vez mais importantes. Porém, isso é o macro e cabe a todos nós combater o micro, que é o preconceito do dia a dia presente nos comentários à mesa do jantar, no ambiente de trabalho, nas piadas homofóbicas nas rodas de conversa com os amigos… Lembre-se: a cada vinte e oito horas, um homossexual morre de forma violenta no Brasil e o país inteiro é culpado, pois o combate à homofobia é (ou deveria ser) uma luta de todos.

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me julgue

Nos últimos tempos, tenho escutado uma variedade de frases absurdas e outras nem tanto, acompanhadas das palavras “me julgue”. Algumas são tristíssimas de ouvir, principalmente quando saem da boca de alguns amigos e amigas. As mais dolorosas continuam sendo “não gosto de literatura brasileira, me julgue”, “não gosto de cinema nacional, me julgue” e “não gosto de música cantada em português, me julgue”. Nesses casos de generalizações o “me julgue” funciona como um “foda-se”. De certa forma, é até uma maneira agressiva de se dizer não gostar e não estar nem um pouco interessado em tentar pesquisar e conhecer melhor o que diz não apreciar – e é por isso que quem diz não liga se é julgado ou não.

Há também um segundo caso, o dos que se sentem constrangidos por gostarem de alguma coisa: “gosto de novelas, me julgue”, “gosto de reality shows, me julgue”, “gosto de música sertaneja, me julgue”. Aqui, o “me julgue” significa “por favor, não me julgue”. Essas pessoas se envergonham por gostarem do que todos adoram falar mal, e essa é a única forma de conseguir revelar suas preferencias para o mundo – funciona como um mecanismo de defesa. Com essas duas palavrinhas, as pessoas tentam nos ludibriar, fingindo não ligar para a opinião alheia, o que evidentemente não é verdade. Quando não nos importamos com a opinião dos outros não sentimos nenhuma necessidade de demonstrar esse posicionamento, apenas dizemos “eu gosto disso” e pronto.

Para os que se sentem envergonhados por gostarem de algo, tudo o que eu tenho a lhes dizer é: gostem, continuem gostando, gostem com força! Se um dia mudarem de ideia e pararem de gostar, que seja por conta própria ou por uma dessas mudanças que o próprio tempo se encarrega de realizar, e não por imposição, julgamento e preconceito da opinião alheia.

Não devemos fazer juízo de valor em nenhum dos dois casos. Não há problema algum em gostar ou não gostar de algo, porém, todavia, entretanto, fazer generalizações como no primeiro caso explanado acima é, digamos assim, exercer uma visão preconceituosa. Quando alguém me diz não gostar de cinema brasileiro (usarei esse exemplo por ser o que mais escuto), eu não julgo, mas isso não me impede de tentar fazer com que o outro enxergue seu posicionamento de forma diferente, pois quase sempre ele não percebe que pode estar sendo induzido a pensar assim.

Somos criados assistindo a um cinema que não é nosso e que nos apresenta uma cultura que também não é nossa. Basta ligar a TV a qualquer hora do dia que em algum canal estará sendo transmitido um filme estrangeiro. Acabamos consumindo aquele estilo de vida e considerando sua estética cinematográfica como a melhor. No entanto, o dinheiro usado para realizar um filme na gringa pagaria a produção de uns vinte filmes brasileiros ou mais. Quando dizem que o público de cinema é elitista há sempre quem rebata essa teoria, mas poder pagar trinta reais em um ingresso é um privilégio de poucos e sabemos disso. Talvez por essa razão, pouca gente ache absurdo gastar milhões para se realizar um filme. Fazer cinema deveria ser barato e o preço do ingresso mais barato ainda. Os altos valores cobrados por uma sessão mantêm o público de classe baixa bem longe da sétima arte.

Em 2007, Hector Babenco deu uma entrevista para Cynara Menezes em que falou um pouco sobre isso, comparando o cinema brasileiro com o argentino: “Quem vai ao cinema no Brasil são as pessoas que podem pagar 16, 20 reais, são de classe média. E o cinema brasileiro de fato tem dado mais espaço a uma dramaturgia alimentada pelos excluídos, pelas desigualdades sociais, por essa mentira em que o país se transformou, essa lepra, como diz o Jabor. Já as tragédias argentinas são dramas de classe média: a vovó que não morre e não deixa a casa que tem que ser dividida pelos filhos, o filho cujo pai está com câncer e não sabe o que fazer… Como o público brasileiro também é de classe média, acha que o cinema daqui teria que ser como o de lá. Sou mais o cinema brasileiro, com suas imperfeições, do que o argentino com seu aburguesamento.”

A razão apontada por Babenco é apenas uma das muitas que mantém o público brasileiro distante do próprio cinema. Reconheço que também produzimos filmes medíocres, mas dizer não gostar da produção nacional por ser um cinema ruim é generalizar. Cinema brasileiro não é só Globo Filmes e, se fosse dessa forma, eu deveria dizer que não gosto de filmes norte-americanos, pois quase todos os que passam na TV ou estão em cartaz nos cinemas, para mim, são desprezíveis. Porém, jamais faria uma afirmação dessas, pois esse mesmo país já produziu e ainda produz obras primas, sem contar o seu circuito independente, que quase nunca decepciona. Porém, esses filmes mais baratos, que fogem dos padrões comerciais e não apresentam em seu elenco atores e atrizes famosos, não chegam às nossas salas de cinema e muito menos são televisionados. Ou seja, todos os países do mundo produzem filmes bons e ruins, não dá para generalizar.

Acontece, caríssimos, que uma espessa nuvem de preguiça paira sobre as plateias, e isso não é uma característica só do público brasileiro. O comodismo impede que muitas pessoas procurem conteúdos por conta própria. Assistir apenas o que fica em cartaz nos cinemas de shopping, ver apenas o que a televisão transmite, ler somente os best-sellers que ocupam as prateleiras das livrarias ou ouvir só o que toca no rádio ou na novela é ficar à deriva, consumindo apenas o que os grandes veículos de mídia tentam impor. É por isso que muita gente diz não gostar de música em português, pois estão acostumados a só ouvirem música internacional tema de casal de novela, muitas vezes sem nem entender o que diz a letra.

Contudo, não é julgando que fazemos o outro ter uma visão nova e talvez mais lúcida da situação. Quando alguém me diz que cinema brasileiro só tem filme de favela, peço sempre que me diga o título de cinco filmes que abordem o tema sem ser ‘Cidade de Deus’ (2002) e ‘Tropa de Elite’ (2007). É óbvio que existem outros longas brasileiros que falam sobre isso, pesquisar e responder é fácil, mas até hoje ninguém conseguiu me informar outros cinco títulos de cabeça. Fazer perguntas para pessoas sem argumentos sempre as deixa sem defesa, pois se não conseguem justificar seus posicionamentos, são automaticamente forçadas a reconhecer que estão sem razão por contradizerem o próprio discurso. O próximo passo é sempre apresentar um bom filme, ou um ótimo livro ou disco, dependendo da generalização. Se a pessoa não gostar, apresentamos outro e mais outro e, se depois de algumas tentativas a pessoa continuar dizendo que não gosta, temos que respeitar, já que, pelo menos, houve uma tentativa do outro lado em conhecer nossa perspectiva.

No filme ‘Real Beleza’ (2015) do diretor Jorge Furtado, o fotógrafo João, personagem de Vladimir Brichta, conversa com seu assistente que lhe diz que “gosto não se discute”, ao que João rebate: “se discute sim, aliás, o tempo todo, é praticamente só o que se faz”. Concordo que gosto se discute o tempo inteiro, mas penso que não deveria. Cada um gosta do que quiser, no entanto, é preciso problematizar as generalizações. Bem mais do que dar uma chance a outras produções, a verdadeira questão é se dar uma chance de pesquisar e conhecer outros nichos e movimentos culturais que vivem à margem. É preciso entrar em contato antes de afirmar não gostar de algo, conceito prévio (pré-conceito) é um comportamento de mentes fechadas.

Não é assustador imaginar que podemos morrer sem conhecer nossos verdadeiros filmes, livros e discos favoritos, só por preguiça de pesquisar? Eles estão em algum lugar por aí, só esperando por nós. Mentes à deriva é tudo que o Sistema deseja para unificar a massa cada vez mais, oprimindo personalidades e rotulando por conta própria o que é bom ou ruim. Também não há problema nenhum em fazer parte de um público massivo e consumir a corrente principal (mainstream), uma vez que esse seja realmente seu conteúdo de preferência. No final, os fãs de filmes blockbusters, de filmes brasileiros e os que não apreciam cinema, vão todos morrer. A vida é curta demais para perder tempo julgando o gosto dos outros, mas que dá vontade de julgar quem faz generalizações, ah isso dá, me julgue.

distância estratégica

Sou um homem de muitos ídolos, em especial cineastas, escritores(as) e compositores(as), mas se tem algo que tenho aprendido com o passar dos anos é que, em alguns casos, manter distância deles pode ser uma decisão muito saudável. Na adolescência, passei por uma fase de fanatismo por bandas de rock, bandas essas que me ajudaram a moldar boa parte da minha personalidade. Ainda gosto dessas bandas, conheci outras e fui ao show de muitas. Conservo em mim a vontade de ainda ver ao vivo as que nunca cheguei a ver – não são poucas, apesar de boa parte delas não existir mais.

Mesmo nessa fase, nunca fui a camarim, nunca fui a aeroporto esperar meus ídolos chegarem na minha cidade, nunca fiz nenhum tipo de loucura de fã, mesmo já tendo sido membro de alguns fã clubes. Não julgo quem faz essas demonstrações de amor, contanto que não passem dos limites do bom senso e jamais ponham a própria segurança e a dos outros em risco. Foi uma fase importante da minha vida, em que conheci muitas pessoas que gostavam das mesmas coisas que eu. Se pudesse voltar no tempo, com certeza faria muita coisa diferente, mas essa fase da adolescência eu não mudaria. Fiz muitas amizades, das quais algumas permanecem até hoje. A música, em especial o rock, me aproximou de muita gente incrível e essas bandas apresentaram-me a muitas outras bandas, a vários filmes e livros. Não foram poucas as ocasiões em que li um livro ou vi um filme porque certo cantor ou cantora dizia gostar em entrevistas. Até hoje fico muito feliz quando alguém me apresenta algo que ainda não conheço, embora nada supere a sensação de sozinho fazer essas descobertas. É por isso que pesquiso tanto, estou sempre desbravando listas de filmes, livros, discos e, conforme o tempo vai passando, menos entrevistas eu leio ou assisto.

Show para mim tem que ser na grade, bem perto do palco. Se eu ficar longe, tenho a sensação de que não fui. Por isso, sempre compro os ingressos no primeiro lote para não correr o risco de perder. Chego cedo, mesmo que tenha que ficar algum tempo na fila. Tenho forte resistência, posso passar bastante tempo em pé, sem comer ou ir ao banheiro. Em quase todos os shows que fui na adolescência, fui a primeira pessoa da fila. Não sei se continuo com essa mesma resistência, porque faz bastante tempo que não sou e nem me preocupo mais em ser o primeiro. Não chego mais com muitas horas de antecedência, porém, chego tarde o suficiente para ainda conseguir ficar na grade (isso não significa que chego cedo, são as pessoas que chegam tarde, acredite). A energia da grade é diferente da dos outros espaços. Ali estão os fãs mais enérgicos, os mais apaixonados, os mais loucos, os que querem ser vistos pela banda. Gosto dessa energia. Hoje não pulo tanto quanto antes e nem tento ser o que grita mais alto. Sempre tenho algo para fazer no dia seguinte, não posso mais dar-me ao luxo de ficar muito cansado e rouco. Agora, só o fato de estar ali me basta, embora continue querendo estar perto.

Todas as vezes que vou a um show, as pessoas perguntam-me no dia seguinte se consegui entrar no camarim e tirar foto com a banda. Eu sempre digo que não (porque, na verdade, nem tento) e recebo sempre uma reação decepcionada. Nunca consegui entender isso. Vou aos shows ver e ouvir as bandas ao vivo, não para tirar fotos com os músicos. Costumo explicar brincando que quando vou a um show só interessa-me a “missa” proporcionada pela banda. O importante mesmo é comungar aquele momento com as pessoas ali presentes. Nos primeiros shows que fui, costumava filmar várias músicas e fotografar bastante, hoje, não faço mais isso. Em boa parte dos casos é uma grande oportunidade estar ali. Sei que queremos registrar cada segundo, mas se estamos muito preocupados em registrar a apresentação, esquecemo-nos de viver aquele momento. Agora, costumo tirar uma ou duas fotos para guardar de recordação, mas não tenho nenhum registro fotográfico do último show que fui. No entanto, lembro nitidamente de tudo e sou capaz de contar em detalhes quando me perguntam como foi.

Acredito que permanecerei sempre como um rato de shows. A sensação de ver minhas bandas favoritas ao vivo é maravilhosa. É um pouco semelhante com o que acontece com o cinema. Muita gente costuma ir ao cinema ver os filmes de seus atores favoritos ou dos gêneros que mais gostam. Se vou ao cinema, o motivo sempre é o(a) diretor(a). Acompanho o trabalho de muitos(as) e sei que ver seus filmes na tela grande é completamente diferente de vê-los em casa. A literatura parece mesmo ser a arte mais solitária – os(as) escritores(as) quase sempre escrevem sozinhos(as), diferente de artes mais coletivas, como a música e o próprio cinema. Eu até posso fazer música sozinho, da mesma forma que posso me filmar, editar e lançar esse filme “solo”, mas sabemos todos que casos assim são raras exceções. Da mesma forma que não são muito comuns leituras coletivas, embora alguns grupos de leitura estejam tentando mudar essa realidade.

No entanto, atualmente, quase não acompanho nada, salvo uma ou duas bandas que eu tô sempre observando. Quando são lançados discos novos, praticamente sou pego de surpresa. São tantas notícias que não dá para acompanhar tudo. Mesmo quando se trata de filmes, que possuem um processo de produção mais longo (captação de recursos, pré-produção, produção, edição, participação em festivais, divulgação, exibição nos cinemas), consigo ser pego de surpresa com um ou outro lançamento, principalmente tratando-se da fonte nacional, que é o que eu mais gosto de acompanhar e assistir, mas que não tem uma distribuição tão massiva quanto a dos filmes enlatados que as distribuidoras brasileiras importam de outros países para ocuparem as salas de cinema do Brasil inteiro. Quando a questão envolve os livros, é aí que eu sou surpreendido mesmo, por isso, sempre que posso, dou uma pesquisada para ver o que tem sido publicado atualmente (mesmo saindo geralmente muito triste de ver os títulos e os autores que estão ocupando as prateleiras das livrarias).

Apesar disso, não sofro. Muito pelo contrário, estou evitando cada vez mais saber o que eles estão fazendo e principalmente falando. Não tem sido poucas as ocasiões em que venho decepcionando-me com artistas. Toda vez que assisto uma entrevista em que José Mojica Marins faz comentários homofóbicos, dói-me o coração. Quando vi Caetano Veloso, Chico Buarque, Djavan e Gilberto Gil aderindo ao Procure Saber, grupo que luta pela proibição de biografias não autorizadas, custei a acreditar. Não fiquei surpreso com Roberto Carlos, porque já conhecia seu histórico de proibições que, inclusive, não é de hoje. Quando Jô Soares constrangeu a youtuber Jout Jout com comentários machistas em seu programa, eu também me senti constrangido. Nunca acompanhei a carreira de Roger, embora goste muito dos primeiros discos do Ultraje a Rigor, mas recentemente tenho ficado impressionado com o modo como o vocalista dessa banda que produziu um dos discos fundamentais do rock brasileiro dos anos 1980, o Nós Vamos Invadir Sua Praia (1985), consegue a proeza de em várias ocasiões precisar de tão poucas palavras para destilar seu machismo e homofobia. Por falar nisso, tem sido cada vez mais difícil ouvir as piadas homofóbicas de Silvio Santos, quem tanto respeito e admiro. Sei que ele é um senhor de idade que nasceu e viveu em outra época, mas ele é um homem inteligente o suficiente para saber que nunca é tarde demais para aprender. Foi muito difícil também ler o texto de Fernanda Torres para o Agora é Que São Elas com posicionamentos tão equivocados sobre o feminismo. Sei que ela publicou depois outro texto retratando-se, mas o primeiro havia sido tão exageradamente sincero que, por mais que ela tenha se desculpado, sabemos que infelizmente é daquela forma que ela pensa. Porém, as pessoas mudam, e prefiro acreditar que ela mudou também. Aliás, as intervenções machistas de Claudio Assis durante o debate de Anna Muylaert sobre o filme Que Horas Ela Volta? (2015) e que acabou banindo-o por um ano do Cinema da Fundação Joaquim Nabuco, reduto da arte cinematográfica contemporânea no Recife, foi outro caso difícil de engolir. São casos assim que estão ensinando-me cada vez mais a separar a obra da pessoa. Dessa forma, tenho cada vez menos ídolos, mas admiro cada vez mais as obras de arte em si. Inclusive, seria muito interessante se mais pessoas fossem fãs apenas dos livros, filmes, discos, fotografias, telas, esculturas. Isso me tem evitado muito mal estar. Afinal, são as obras que de fato interessam. São elas que ficam quando o artista morre. Contudo, precisamos sim indignar-se com esses casos, deixar passar esse tipo de coisa só pelo fato de serem artistas é exercer a indignação seletiva. Intolerância, machismo, racismo, homofobia, transfobia, todo tipo de discriminação e preconceito precisam ser combatidos, na vida e nas artes.

santa inês

Quem me conhece sabe que pontualidade é um dos meus pontos fortes, mas quando o assunto são memes ou virais virtuais, sou um dos seres mais atrasados que existem. Estou sempre rindo por último, principalmente quando descubro acidentalmente algum vídeo engraçado que já caiu no esquecimento e que todo mundo já assistiu. Por isso, se alguém não me apresentar aos temas discutidos na rede ou se acidentalmente eu não acabar esbarrando com eles, dificilmente ficarei sabendo, primeiro porque não tenho tempo, e ainda porque não tenho interesse por memes. Também não os reproduzo, como boa parte dos meus amigos fazem, inclusive, agregando-os aos seus vocabulários. Em várias ocasiões, ouço esses chavões e fico sem entender, vindo a descobrir seu significado só muito tempo depois. Mesmo assim, conheço muitos, afinal, eles estão em todos os lugares: quando não estão na internet, estão na boca das pessoas ou em estampas de camisas, por exemplo. Não que eu queira fugir deles, pois a grande maioria me provoca boas risadas e alguns até geram discussões com vínculo político deveras interessantes, ainda que não tenham essa intenção.

Nos últimos dias rolou (ainda está rolando?) uma campanha chamada #MakeBrMemesGreatagain (brasileiros, voltem a fazer grandes memes – em tradução livre), em que seus simpatizantes protestaram contra o que eles decidiram chamar de cultura de memes ruins (protestar contra a cultura do estupro que é bom, ninguém quer, né?). Enfim, até aí, tudo bem. A tag até chegou a ficar em primeiro lugar entre os assuntos mais comentados do Twitter. No entanto, Jair Bolsonaro e Danilo Gentili aderiram à campanha, mostrando que algo de errado essa ação tinha que ter. Pesquisando melhor, fica claro que entre os memes que estão fazendo os simpatizantes da campanha passarem vergonha pela baixa qualidade, os de Inês Brasil são os mais alvejados. Chegamos então ao ponto nevrálgico desse texto.

Quando ela surgiu exatamente para nós internautas eu não vou saber dizer (2012? 2013?), mas, ao contrário dos outros virais, tomei conhecimento de seu vídeo de inscrição para um reality show quase que instantaneamente. Um amigo meu, que nem deve lembrar, foi quem me enviou o vídeo, que tem pouco mais de cinco minutos. Confesso que foi difícil assistir até o fim, não achei a menor graça, e esse meu amigo o havia me enviado justamente por acha-lo hilário. Na época ele não soube me dizer se Inês era uma mulher ou uma travesti, e também não soube me responder se ela era uma personagem. Eu jurava que sim. Certo tempo passou sem que eu visse ou ouvisse Inês Brasil, até que, do nada, ela começou a aparecer em todas as minhas redes sociais com uma frequência assustadora e, aos poucos, sem precisar fazer praticamente nenhum tipo de pesquisa, fui conhecendo ela cada vez mais.

Inês é carioca e, junto com seus nove irmãos, teve uma educação religiosa. Foi na igreja, inclusive, que cantou pela primeira vez. Aos vinte e poucos anos, tornou-se professora de samba, chegando a se apresentar na casa de espetáculos Oba-Oba, do empresário Osvaldo Sargentelli. Por mais de oito anos teve que se prostituir para sobreviver. Conheceu Christian Karp, um alemão, seu “loiro dos olhos azuis”, com quem se casou e que a levou para morar na Alemanha, onde voltou para a prostituição ao mesmo tempo em que iniciou sua carreira musical. Ela afirma ter se inscrito para o reality show cinco vezes, embora eu só tenha visto esse único vídeo e tomado conhecimento de outro que ela fez depois, ao que tudo indica, tentando obter o êxito viral do anterior mais do que participar realmente do programa. Após o sucesso do primeiro vídeo, voltou para o Brasil. Chamada de Panterona pelos fãs, lançou seu primeiro disco ano passado e realiza atualmente uma média de vinte shows por mês, tornando-se mais famosa que qualquer outro candidato (e muito ex-participante) ao tal reality show – programa esse que, inclusive, só perde audiência a cada nova temporada, provando o vacilo de tê-la dispensado.

Uma mulher livre incomoda muita gente. Uma mulher negra e livre incomoda mais. Uma mulher negra, livre e ex-prostituta, incomoda muito, muito mais. Inês aborrece muita gente e sabe disso (vide a campanha para varrê-la juntamente com outras pessoas da internet). Como símbolo de marginalidade, ela é capaz de despertar nas pessoas seus preconceitos mais primitivos. Vem de origem humilde, não tem instrução, usa o corpo para se promover e fala abertamente sobre sexo. Deve ser difícil para religiosos que seguem um best-seller que há mais de dois mil anos oprime mulheres, negros e homossexuais, ouvirem sair da boca de Inês Brasil seus ensinamentos. Inês, filha legítima da cibercultura, é uma Maria Madalena moderna, porém, mais forte. Não se deixa atingir pelas pedras que lhe atiram, como também não precisou de nenhuma emissora e muito menos de um Messias para se levantar, fazendo o serviço geralmente atrelado a ele melhor que seus seguidores.

Num mundo em que Ana Paula Valadão é a síntese dos líderes religiosos que julgam nossa orientação sexual, nossa identidade de gênero, a roupa que vestimos e até mesmo se estamos acima do peso, isso só para citar alguns exemplos, temos Inês Brasil, que prega o amor. Aos olhos de Inês, somos todos irmãos, independente de sexo, cor, raça e orientação sexual. Conhecida nacionalmente, Valadão poderia usar sua voz para causas nobres, digamos assim, mas se incomoda com um simples comercial de roupas. No texto em que propôs boicote à C&A, manifesta todo o seu preconceito, quer dizer, sua santa indignação, sobre o que chamou de “imposição da ideologia de gênero” (sic). Valadão e seus seguidores atacam os direitos humanos respaldados pelo que chamam de “verdade imutável da palavra de deus”. Ou seja, se essa verdade não muda e se sempre vão existir pessoas dispostas a defendê-la, temos que nos preparar para nos proteger eternamente desses ataques. Diante de tanto machismo e homofobia, é natural que haja resistência do lado oprimido.

Como não há nada tão ruim que não possa piorar, ainda mais assustador que o próprio texto que Valadão publicou em sua rede social propondo o boicote à rede de lojas de vestuário, acredite, são as treze hashtags ao final da postagem: #SouFemininaVistoComoMulher #HomemVesteComoHomem #UnisexNãoExiste #NãoÀIdeologiaDoGênero #DeusFezHomemEMulher #FamíliaÉHomemEMulher #HeteroSexualidade #MonogamiaHeterosexualÉSexoSeguro #Cristianismo #AmizadeDoMundoInimizadeDeDeus #NãoEstouEmBuscaDeFãsMasDeCristo #AgradarADeusNãoAHomens #GalatasUmDez.

Diante do preconceito que ela reproduz, eu poderia gastar muitas linhas explicando que as calças e blazers que ela usa, à princípio, não faziam parte do guarda-roupa feminino, e também não me ariscarei a afirmar que o profeta Jesus usava vestidos (porque eu não estava lá para ver e os biógrafos dele não são muito confiáveis). Ademais, posso afirmar que, como homem, me visto como quiser, afinal, me visto para me agradar, e não para satisfazer a vontade dos líderes da igreja. O best-seller que os religiosos tanto fazem questão de seguir diz que deus, ao criar o homem e a mulher, lhes deu o livre arbítrio. Ou seja, sob essa perspectiva, tanto eu, que não sou religioso, como quem é, somos livres. Valadão nenhuma tem o direito de arbitrar sobre a identidade sexual de ninguém.

Sua defesa de que família é homem e mulher fere completamente a essência de família no sentido amplo. O projeto de lei 3369/2015, do deputado Orlando Silva, do qual o deputado Jean Wyllys é relator, defende o reconhecimento de todas as formas de família. A fundamentação do projeto diz que “existem, em nossa sociedade, muitos tipos de família: além da mal chamada ‘família tradicional’, formada por pai, mãe e filhos, há mães solteiras, pais solteiros, famílias combinadas, casais do mesmo sexo com ou sem filhos, casais de distinto sexo sem filhos, etc. Não estamos falando aqui de opiniões, mas de dados da realidade: todas essas famílias existem e estão constituídas pelos mesmos laços de afeto, amor, solidariedade e cuidado mútuo”. Além de ignorar a existência de todas essas famílias, Valadão ainda reserva espaço para destilar sua homofobia, o que não é de se espantar. Se deus é a imagem e semelhança de seus fiéis (ou vise versa), é um homem branco, hétero e cis. Todos que não seguem esse “padrão” são combatidos. Bom, o que posso fazer é reforçar o que já é óbvio para qualquer pessoa bem informada: sexo hétero não é mais nem menos seguro que sexo gay, ambas as práticas estão igualmente sujeitas às DSTs sem a utilização de preservativo. Desculpem, mas nada do que Inês Brasil fala ou faz é mais assustador do que Ana Paula Valadão, Silas Malafaia, Marco Feliciano e afins falam o tempo todo em suas redes sociais e em emissoras de TV.

O texto de Valadão tem pouco mais de um mês e o #MakeBrMemesGreatagain mais de uma semana, para vosmecê ter noção do quanto posso ser atrasado ao escrever sobre assuntos que um dia já foram do momento. Entretanto, essa discussão me fez lembrar uma entrevista de Tom Zé para o UOL em 2007, em que ele diz: “se eu tivesse uma filha moça colocava para educar no funk cariosa para ela se livrar de toda a carga que se põe sobre a mulher”. Não posso afirmar com toda certeza, mas talvez tenha sido nessa entrevista concedida a Marcelo Tas e aos internautas do UOL que Tom Zé tenha falado pela primeira vez que o refrão da música ‘Atoladinha’ é microtonal (as notas vão subindo em intervalos menores que um tom), polissemiótico (pois nos chega por outros sentidos além da audição) e metarrefrão (pois trata da própria arte de fazer refrão na música popular ao longo da história), afirmando ainda que trocaria o refrão “tô ficando atoladinha” por todos os refrãos de sua obra. Essas declarações repercutiram e ele voltou a falar sobre isso em 2009, no Programa do Jô, e em 2014, no Esquenta.

Segundo Tom Zé, o funk veio para aposentar o Papa, a igreja, os reacionários e os detratores que proíbem a mulher de gozar. “Tô ficando atoladinha”, diz o eu lírico da canção, lançando ao mundo a liberdade da mulher de sentir prazer e gozar durante o sexo. A letra dessa música liberta as mulheres da repressão que sofrem, muito semelhante a algumas letras de Valesca Popozuda e, claro, de Inês Brasil. Na letra de ‘Make Love’, Inês canta a seguinte frase: “se você não me linguar, hoje eu não vou te dar”. Ela está exigindo nada mais nada menos do que direitos iguais entre homens e mulheres, principalmente no que diz respeito ao sexo oral, que homens sempre querem receber, mas que nem sempre estão dispostos a retribuir. É uma música claramente feminista. Mulheres também têm o direito de sentir prazer. O gozo não deve ser exclusivo do homem e, se ele quiser ter satisfação, tem que estar igualmente disposto a agradar sua parceira.

A exegese de Tom Zé é tão genial que só ele poderia ser capaz de ter feito. Se Ana Paula Valadão tivesse um terço da humildade do Pai da Invenção, ela trocaria todo o seu discurso de ódio (vestido de opinião e resguardado por uma verdade imutável da palavra de deus) pelo refrão da música ‘Make Love’ de Inês Brasil: “se for pra fazer guerra não me chama que eu não tô, make, make, make love é muito melhor, demorou”. Na verdade, se os líderes religiosos fossem humildes, deixariam de pregar a intolerância para pregar o amor, em todas as suas formas.

Talvez Inês Brasil um dia desapareça da internet naturalmente. Não sei se ela tem fôlego para continuar tão presente nas redes sociais por mais cinco anos. Posso até estar enganado, ainda mais agora que ela lançou seu primeiro álbum e tem feito muitos shows. Quem sabe não seja apenas o começo? Seus fãs até conseguiram colocar seu videoclipe na página oficial do Grammy, o que foi um estorvo para muita gente, inclusive para os organizadores do prêmio que bloquearam a página para o território brasileiro, impedindo Inês de concorrer. Ainda assim, me pergunto: a música dela é tão inferior a dos cantores e cantoras que tocam hoje em dia no rádio, novelas e programas dominicais? No entanto, ela não se fez importante por sua música, e sim por ser um símbolo de resistência, por carregar em si uma série de minorias e representá-las. É por isso que ela vem durando bem mais que quinze minutos, mesmo que infelizmente todo esse fenômeno também tenha que passar pela hipersexualização e exploração da exotificação do corpo da mulher negra. O caso do fã que vazou um vídeo transando com Inês reforça essa objetificação. Por mais que ele diga em sua defesa que não foi ele o responsável pelo vazamento, com certeza filmou para mostrar para os amigos e exibir sua conquista.

Por enquanto, Inês segue incomodando, e me agrada justamente por incomodar pessoas que se importunam com coisas que não lhes dizem respeito. Desde o início, ela se ocupou em defender todas as formas de amor. Sou ateu, mas acredito que, se um dia, a igreja, além de perpetuar o discurso de Inês, for tão inclusiva quanto ela, talvez eu até me tornasse um simpatizante. Porém, isso nunca vai acontecer, já que o preconceito e a intolerância ainda são muito presentes em nossa cultura. Todavia, é na adversidade que as minorias se unem e se fortalecem. Quem sabe um dia os machistas, racistas, homofóbicos, transfóbicos se deem conta de que esse ódio gratuito é uma marimba muito pesada para eles carregarem. Render-se ao amor é muito melhor, então bora fazendo!