o cinema é nosso

“Eu vejo o futuro repetir o passado”. Esse trecho da música ‘O Tempo Não Para’ de Cazuza vem martelando em minha cabeça sempre que penso no cenário brasileiro atual. Sinto como se estivesse vivendo situações que só conhecia através dos livros de História, quando estudava os capítulos sobre ditadura militar e respirava aliviado por ter nascido em outra época. Nesses mesmos livros didáticos, muito se falava sobre a censura imposta a todo tipo de arte, embora a música, com o exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil, ganhasse sempre um aprofundamento maior. Não recordo de ler nada relacionado à repressão sofrida pelo cinema brasileiro. Isso eu fui aprender depois por conta própria.

Quando os militares derrubaram João Goulart (1919-1976), o então presidente democraticamente eleito, o cinema brasileiro vivia um importante momento de sua história. ‘O Pagador de Promessas’, de 1962, escrito e dirigido por Anselmo Duarte (1920-2009) e baseado na peça teatral homônima de Dias Gomes (1922-1999), havia ganhado a Palma de Ouro no Festival de Cannes, e o Cinema Novo havia acabado de nos brindar com três clássicos eternos da nossa cinematografia: ‘Vidas Secas’, de 1963, escrito e dirigido por Nelson Pereira dos Santos e baseado no livro homônimo de Graciliano Ramos (1892-1953), ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, de Glauber Rocha (1939-1981) e ‘Os Fuzis’, de Ruy Guerra, ambos de 1964. ‘Vidas Secas’ e ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ foram indicados à Palma de Ouro com grande repercussão internacional, enquanto que Ruy Guerra receberia o Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim por ‘Os Fuzis’.

O Cinema Novo, movimento iniciado ainda na década de 1950 e formado por artistas de esquerda, resultou no maior engajamento político da filmografia nacional. A vida precária no sertão e nas favelas, questões raciais e sociais, a fome e a miséria, foram fortemente denunciados e debatidos em dezenas e dezenas de filmes. Com o golpe militar, esses longa-metragens e seus realizadores passaram a ser perseguidos e censurados. Glauber Rocha, maior nome do movimento, foi exilado.

O Cinema Marginal surgiria nesse meio tempo e, enquanto os cinemanovistas eram perseguidos por sua forte ideologia política, os marginais eram censurados por criticarem o comportamento moralista. Os filmes eram verdadeiramente retalhados e cineastas como José Mojica Marins, que não fazia parte de nenhum dos dois movimentos, foram algumas das maiores vítimas da repressão. Marins teve de cortar dezenas de cenas e falas em seus filmes, chegando até mesmo a modificar finais para conseguir lançá-los. Assim como ‘Terra em Transe’, de 1967, de Glauber, seu longa-metragem ‘Ritual dos Sádicos’, de 1969, foi proibido em todo o território nacional, não chegando nem a ser lançado nos cinemas por ter quase todas as suas cópias apreendidas e queimadas. Recuperado em 1982, foi exibido apenas em mostras e festivais com o título de ‘O Despertar da Besta’. Falido, Mojica teve que dirigir filmes pornôs para não morrer de fome, o que destruiu sua carreira. Na década de 1990 foi redescoberto pelos americanos e conseguiu voltar a dirigir seus filmes de terror, mas o estrago já estava feito. Uma carreira que tinha tudo para ser meteórica foi minada pela censura da ditadura militar.

Em 1964, Eduardo Coutinho (1933-2014) ainda era um diretor de longas de ficção. Ele estava realizando na Paraíba o filme que contaria a história de João Pedro Teixeira, líder camponês da região, assassinado em 1962. O cineasta já estava filmando há duas semanas quando parte da equipe foi presa sob a alegação de comunismo. A produção foi interrompida e Coutinho teve que voltar a trabalhar com jornalismo. Somente dezessete anos depois o trabalho foi retomado, dessa vez, colhendo depoimentos dos camponeses que trabalharam nas primeiras filmagens, com foco principal na história da viúva de João Pedro, dona Elizabeth Altino Teixeira que, desde 1964, teve que viver na clandestinidade, separada dos filhos. Lançado em 1984, ‘Cabra Marcado Para Morrer’ é até hoje o melhor e mais importante documentário brasileiro de todos os tempos.

Somente em 1975, com a abertura política, os filmes conseguiram uma liberdade maior para abordar temáticas que não agradavam ao governo, sendo lançados com poucos ou até mesmo nenhum corte. Por ter um público infinitamente maior que o do cinema, a censura voltou sua atenção para a televisão. No entanto, mesmo os filmes liberados sem cortes eram censurados quando transmitidos na TV. ‘Pixote: A Lei do Mais Fraco’, de 1980, do diretor Hector Babenco (1946-2016), só foi liberado para a telinha cinco anos depois e com trinta e oito cenas censuradas. Com o fim do regime militar, a censura acabou e os filmes dessa época puderam ser assistidos na íntegra em todo o território nacional.

Os vinte e um anos do regime militar foram o período mais sombrio já vivido pelas criações artísticas brasileiras, um verdadeiro desprezo pela informação e liberdade de expressão. Ao ler essas histórias, parece tudo muito absurdo, mas estamos de fato repetindo o passado. Temos o Congresso mais conservador desde 1964, ano do golpe militar. Hoje, assim como há cinquenta e dois anos atrás, vivemos mais um golpe, dessa vez, parlamentar, em que 367 deputados e 55 senadores anularam 54,5 milhões de votos. A imprensa, assim como em 1964, apoiou o golpe. Em 2013, apenas quarenta e nove anos depois, a Rede Globo se desculpou publicamente, classificando seu apoio ao golpe militar como um erro. No futuro, ela e tantos outros veículos de imprensa haverão de se desculpar novamente. Só espero que não demore outros quarenta e nove anos.

Todos os absurdos que eu lia nos livros de História começam a se repetir. Primeiro um golpe parlamentar derruba Dilma Rousseff, nossa presidenta democraticamente eleita. Depois, Michel Temer, em seu primeiro pronunciamento ao assumir o cargo, diz à nação brasileira: “Não fale em crise, trabalhe!” Qualquer semelhança com o “Brasil, ame-o ou deixe-o” não é mera coincidência. Depois, decreta o fim do Ministério da Cultura (recriado após calorosos protestos da classe artística). Não deu nem muito tempo para comemorar a volta do ministério quando seu novo ministro, Marcelo Calero, simplesmente decidiu exonerar a presidente da Cinemateca Brasileira, Olga Futemma, juntamente com outros quatro técnicos da instituição. A Cinemateca é responsável pela preservação da produção audiovisual brasileira. Dias depois, após forte apelo da classe cinematográfica, o Ministério da Cultura voltou atrás e manteve o emprego de Olga e dos outros quatro funcionários.

Nesse meio tempo, a equipe do filme ‘Aquarius’, do diretor Kleber Mendonça Filho, protestou contra o impeachment da presidenta Dilma no tapete vermelho do Festival de Cannes, em que concorreu a Palma de Ouro depois de oito anos sem um representante brasileiro na disputa oficial. O último filme nacional a concorrer ao prêmio havia sido ‘Linha de Passe’, de Walter Salles e Daniela Thomas, em 2008. O ministro Calero criticou o protesto e disse que os membros da equipe do filme “estão comprometendo [a imagem do país] em nome de uma tese política, e isso é ruim. Eu acho até um pouco totalitário, porque você quer pretender que aquela sua visão específica realmente cobre a imagem de um país inteiro. Eu acho que a democracia precisa ser respeitada e acho que é um desrespeito falar em golpe de Estado com aqueles que viveram o golpe realmente, o de 1964. Pessoas morreram. E as pessoas esquecem isso. Então eu acho [o protesto] de uma irresponsabilidade quase infantil”. Sônia Braga, que interpreta a protagonista do filme, rebateu: “Como pode um Ministro dizer que um ato democrático como o nosso é a representação de um País inteiro? Isso é desconhecimento do que significa plena democracia. Se estivéssemos falando em nome de todos não precisaríamos, evidentemente, fazer o ato. Uma coisa é certa: estamos juntos. O Ministro da Cultura ofendendo artistas é inadmissível. O senhor está nesse cargo para dialogar, para nos ajudar, para fazer a ponte com quem nos explora. A propósito, as críticas para Aquarius foram fabulosas. Quatro estrelas em jornais franceses, italianos, poloneses, russos e três citações no The New York Times. Ponto grande para a imagem da cultura brasileira no exterior. Senhor Ministro, não podemos perder as nossas conquistas. Sobretudo a mais importante delas, o respeito”. Desde então, o filme vem sofrendo uma forte perseguição política.

A repressão ao longa só ficou ainda mais evidente quando o Ministério da Justiça o proibiu para menores de dezoito anos, alegando conter situações sexuais complexas. Assisti ao filme e considerei a classificação um abuso. As três cenas de sexo de ‘Aquarius’ duram cada uma menos de trinta segundos. Filmes recentes do cinema nacional, como ‘Tatuagem’, de 2013, escrito e dirigido por Hilton Lacerda, e ‘Boi Neon’, de 2016, escrito e dirigido por Gabriel Mascaro, possuem longas cenas de sexo explícito e foram classificados como impróprios para menores de dezesseis anos. Usando esses exemplos como argumento, Silvia Cruz, sócia da distribuidora Vitrine Filmes, em uma reunião com Gustavo Marrone, secretário nacional de Justiça e Cidadania, pediu a reconsideração da classificação estabelecida. O Ministério da Justiça aceitou o pedido de revisão feito pela distribuidora e o filme acabou lançado como impróprio para menores de dezesseis anos. Em 1964, ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ foi lançado sem cortes, no entanto, foi proibido para menores de dezoito anos. Quem já viu o filme de Glauber sabe o quão isso é absurdo. Quem assistir ‘Aquarius’ também vai considerar a classificação do filme bastante incoerente. Todos sabemos que uma classificação máxima prejudica muito a vida de um filme, que acaba por ter seu leque de público muito reduzido, prejudicando inclusive sua arrecadação com bilheteria, e é justamente isso que o governo está tentando fazer: evitar que as pessoas assistam ao novo filme de Kleber Mendonça Filho. Na França, por exemplo, a produção recebeu a classificação livre para todos os públicos.

Até agora, ‘Aquarius’ conseguiu reverter bem as perseguições que o Ministério da Cultura tem feito contra o longa. Nos primeiros quatro dias de exibição, o filme conseguiu uma bilheteria de cinquenta e cinco mil espectadores, sendo o melhor lançamento da semana em média por sala. No entanto, há um último desafio a ser vencido: ser o representante brasileiro na disputa do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Para a maioria dos profissionais, cinéfilos e críticos nacionais e internacionais, ‘Aquarius’ é o grande favorito, todavia, o Ministério da Cultura ainda tem mais uma carta na manga: o crítico Marcos Petrucelli (da rádio CBN e do site e-Pipoca), anunciado como integrante da comissão responsável pela seleção do representante nacional no Oscar. Petrucelli vem criticando duramente ‘Aquarius’ e especialmente seu diretor, Kleber Mendonça Filho, desde sua passagem no Festival de Cannes. A nomeação de Petrucelli (que confessou não ter visto o filme) é uma clara tentativa do governo de tirar a vaga do longa com o intuito de evitar mais um protesto político de sua equipe com repercussão internacional. Após a polêmica, dois integrantes, a atriz Ingra Lyberato e o diretor Guilherme Fiúza Zenha, se desligaram da comissão, sendo substituídos por Carla Camuratti e Bruno Barreto. Adriana Rattes, Luiz Alberto Rodrigues, George Torquato Firmeza, Paulo de Tarso Basto Menelau, Silvia Maria Sachs Rabello e Sylvia Regina Bahiense Naves são os demais integrantes da comissão. Em protesto, os diretores Gabriel Mascaro e Anna Muylaert retiraram da disputa seus filmes ‘Boi Neon’ e ‘Mãe Só Há Uma’, respectivamente.

O longa de Kleber Mendonça Filho concorrerá com outros dezesseis filmes para representar o Brasil no Oscar: ‘A Bruta Flor do Querer’ (Andradina Azevedo, Dida Andrade); ‘A Despedida’ (Marcelo Galvão); ‘A Hora e a Vez de Augusto Matraga’ (Vinícius Coimbra); ‘Até Que a Casa Caia’ (Mauro Giuntini); ‘Campo Grande’ (Sandra Kogut); ‘Chatô – O rei do Brasil’ (Guilherme Fontes); ‘Mais Forte Que o Mundo – A História de José Aldo’ (Afonso Poyart); ‘Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil’ (Belisário Franca); ‘Nise – O Coração da Loucura’ (Roberto Berliner); ‘O Começo da Vida’ (Estela Renner); ‘O Outro Lado do Paraíso’ (André Ristum); ‘O Roubo da Taça’ (Caíto Ortiz); ‘Pequeno Segredo’ (David Schürmann); ‘Tudo Que Aprendemos Juntos’ (Sérgio Machado); ‘Uma Loucura de Mulher’ (Marcus Ligocki Júnior); ‘Vidas Partidas’ (Marcos Schechtman). Nosso representante será anunciado na próxima segunda-feira (12/09), em cerimônia na Cinemateca Brasileira, em São Paulo.

Em seu livro ‘Revisão Crítica do Cinema Brasileiro’, Glauber Rocha dizia que a luta do Cinema Novo era contra a chanchada e o trust americano, e que era preciso salvar o cinema independente: “temos de salvar o cinema independente, temos de construir o cinema brasileiro com os independentes. Somente assim os diretores terão liberdade para criar filmes novos. […] Tudo é muito claro: o que se precisa é a união dos independentes contra o trust americano – a primeira batalha foi interna, contra a chanchada. A segunda é maior, é uma luta igual às outras da indústria brasileira e mais do que nunca, agora, este amadurecimento político de um povo necessita da legenda: o cinema é nosso, como no caso do petróleo.” O Cinema Novo, de fato, conseguiu derrubar a chanchada, mas nunca vencemos a invasão americana. Fosse hoje, Glauber diria que a luta deveria ser contra a comédia pastelão (a chanchada atual), a invasão americana e o boicote do governo ilegítimo.

O cinema é nosso, assim como todas as outras formas de expressão artística. Não podemos deixar que censores virjões tramem boicotes a obras de arte bem debaixo do nosso nariz. É preciso abrir os olhos: a mídia quase sempre está contra nós e suas crias, como Reinaldo Azevedo, da “Revista” Veja, sempre escreverão barbaridades como as que ele escreveu: “o dever das pessoas de bem é boicotar Aquarius”. Bem, confesso que não boicotei, assisti e gostei muito. Estou convicto de que vi um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos. A ideia que os golpistas fazem de moral e bons costumes aos meus olhos são conservadoras e preconceituosas, um retrocesso sem fim. Querem voltar para a idade da pedra. Pessoas do “mal”, uni-vos! Vejam ‘Aquarius’!

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filho ingrato da televisão

Sábado último, fiquei acordado até tarde esperando um filme que ia passar na televisão. Foi como ter voltado no tempo, pois não recordo a última vez em que esperei um filme ser exibido na TV para poder assisti-lo. O longa em questão foi ‘Meu Amigo Hindu’, última produção do cineasta Hector Babenco, lançada nos cinemas em março. Anos atrás, após sua estreia nas salas de cinema, os filmes demoravam alguns meses até serem lançados em VHS ou DVD. Eles iam direto para as locadoras de vídeo e, só depois, chegavam às lojas. Passados um, dois anos, ou até mesmo um período maior, o filme seria finalmente exibido na TV, que o anunciaria com grande estardalhaço: “pela primeira vez na televisão”. Toda essa espera para que as locadoras de vídeo pudessem lucrar com o aluguel dos filmes e para que estes fossem exibidos até cansar em emissoras de TV por assinatura. Com o fim das locadoras e o avanço da internet, o caminho que o filme faz das salas de cinema até a TV aberta ficou bem mais curto. Agora, ou as emissoras transmitem os lançamentos em um prazo menor, ou todos já terão assistido quando forem transmitidos. Mesmo assim, ‘Meu Amigo Hindu’ foi televisionado em tempo recorde. A exibição foi uma homenagem da Rege Globo a Babenco, que morreu no último dia 13, dia do rock. Não fosse a morte do diretor, o filme jamais teria sido exibido tão rapidamente.

Estava querendo assistir a ‘Meu Amigo Hindu’ desde o ano passado, quando ele foi apresentado pela primeira vez durante a 39ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O filme teve um lançamento modesto, chegando a poucas salas de cinema e saindo de cartaz rapidamente. Com isso, acabei perdendo a oportunidade de vê-lo na tela grande. Começou então a minha espera pelo lançamento do filme em alguma plataforma online, até que, na quinta-feira (13), acordo e vejo no celular uma mensagem do meu namorado me contando que Hector Babenco havia morrido aos 70 anos de parada cardíaca. Ele sabe da minha forte admiração por Babenco e até já havia me presenteado com o livro ‘Pixote – A Lei do Mais Forte’, de José Louzeiro, que conta a trágica história de Fernando Ramos da Silva, famoso em todo o Brasil por interpretar Pixote, figura central do romance-reportagem ‘Infância dos Mortos’ (do próprio Louzeiro) e do filme de Hector Babenco, nele baseado, ‘Pixote – A Lei do Mais Fraco’ (1980).

Quem nasce hoje, tem como mãe legítima a internet, que é minha mãe adotiva, pois mesmo ainda sendo jovem, faço parte da última geração de filhos biológicos da televisão. Fui da parte pobre da família, porque a minha tia rica, quer dizer, a TV por assinatura, nem cheguei a conhecer. Ainda acompanhei os últimos anos das locadoras de vídeo. Nem precisava alugar os DVDs na sexta, como faziam a maioria dos clientes, para ficar com os filmes por mais tempo, já que a locadora fechava aos domingos. Como os títulos que eu alugava eram sempre os que ninguém levava, os donos da locadora me permitiam ficar com eles por mais tempo, sem que fosse preciso pagar multa por atraso. Não faço o tipo saudosista, mas vai ser divertido contar para as futuras gerações que eu alugava o que hoje possuímos ao alcance de um clique.

Durante a infância, estudava no turno da manhã e, quando acabava a aula, corria desesperadamente para chegar em casa e assistir a desenhos animados na TV. Os mais legais ficavam sempre para o final, então dava para assistir as duas últimas atrações. Algumas vezes, eu acabava perdendo certos episódios – isso acontecia quando minha mãe atrasava na hora de ir me buscar na escola ou quando ela decidia fazer alguma compra no caminho de volta. Já escrevi aqui sobre como meus pais eram superprotetores comigo, então minha mãe levava e buscava de bicicleta minha irmã e eu todos os dias. Estudamos sempre nos mesmos colégios, embora em séries diferentes: ela, por ser mais nova, esteve sempre duas sérias abaixo de mim. Quando ganhei minha primeira bicicleta, minha mãe me deixava ir na minha enquanto ela e minha irmã iam em outra, só deixando de nos levar à escola quando fez uma cirurgia, poucos dias após o meu aniversário de dez anos. Isso aconteceu no meu primeiro ano em escola pública, em que todos os meus colegas de sala de aula iam sozinhos, diferente dos meus colegas de colégio particular, que eram levados pelos pais de carro. Foi quando comecei a sentir vergonha por ser levado por minha mãe, pois os garotos me zoavam. Hoje, tenho vergonha por ter sentido vergonha disso. Ela ficou bastante tempo em recuperação após a cirurgia, então passei a ir sozinho à aula. Aquele foi também o meu primeiro ano estudando no turno da tarde. Minha irmã continuou no turno da manhã e ia à aula de carona com nosso vizinho cujo filho estudava na mesma escola. Quando se recuperou, minha mãe havia perdido o medo de me deixar ir sozinho, e não voltou a me levar mais.

Assisti a temporadas inteiras de desenhos animados e tenho de confessar que, às vezes, fingia estar doente para faltar aula e não correr o risco de perder certos episódios, geralmente os últimos da temporada. Quando passei a estudar no turno da tarde, isso deixou de ser um problema, mas continuei fingindo estar doente em algumas ocasiões, dessa vez para não perder o filme que ia passar na TV. Minha mãe sempre desconfiava dessas minhas mentiras, pois eu ficava milagrosamente curado quando estava assistindo televisão.

Alguns anos antes dela fazer essa cirurgia, eu lembro que, à noite, assistia, juntamente com meu pai e minha irmã, às novelas infantis do SBT (pois minha mãe nunca gostou de qualquer folhetim televisivo). Toda noite, duas vizinhas vinham com seus filhos assistir televisão aqui em casa, pois não tinham televisores em seus lares. Uma delas era minha madrinha, que sempre trazia seu filho que, por sua vez, correndo de um lado para o outro, não deixava ninguém em paz. A outra era uma senhora deveras religiosa que trazia o casal de filhos. Ela era a única evangélica da rua que assistia à TV e os outros consideravam isso um pecado, pois quem via aqueles programas corria o risco de não ver Jesus quando ele voltasse à Terra para buscar os seus fiéis no dia do juízo final. O mais irônico é que ela e seus filhos evangélicos eram os que mais gostavam de assistir às novelas, ficando verdadeiramente hipnotizados. Os filhos dela eram meus amigos e da minha irmã. Eles possuíam rádio em casa, o que não tínhamos, e nos contavam que também ouviam novelas pelo rádio. Eu não conseguia entender como alguém podia acompanhar a uma novela só pelo som, e eles me contavam que era do mesmo jeito que assistir na TV, só que sem as imagens. Somente anos depois eu fui descobrir o que eram radionovelas. Certa vez, minha mãe, a religiosa mais herege que eu conheço, disse para uma cliente evangélica que se incomodou com o fato de assistirmos à TV ao invés de ficarmos atentos a volta do Messias: “Quando ele voltar, você nos avisa. Você é minha amiga! Será que vai deixar de me chamar quando Jesus estiver te levando para o céu?” Nem preciso dizer que minha mãe perdeu a cliente.

Esse período da infância foi o único em que assisti a telenovelas; na adolescência, ainda cheguei a acompanhar umas duas, mas nunca tive muita paciência. Meu interesse mesmo era pelos filmes. Metade dos títulos que vi na vida foi assistida na televisão e a outra parte, na era pós-internet. Vi na TV muitos dos filmes que hoje são considerados clássicos e, desde muito cedo, descobri que os melhores passavam durante a madrugada. Não porque eram longas adultos, pois nunca vi pornô na televisão, mesmo nas sessões da madrugada, e sim porque, na maioria das vezes, não eram produções blockbusters e sim as de baixo orçamento, filmes de arte. É algo até engraçado, visto que os filmes que antes passavam durante a tarde hoje não são mais transmitidos nesse horário por não respeitarem a indicação de faixa-etária livre.

Com a chegada da internet na adolescência, a televisão continuou tendo um lugar de destaque na minha vida. Embora não assistisse mais a desenhos animados, continuava firme e forte com os filmes. O declínio da TV em minha rotina só não aconteceu mais cedo graças à tecla SAP (sigla em inglês para Segundo Programa de Áudio). Permitir assistir aos filmes com o áudio original e legendados foi o que ainda me manteve por um tempo ao lado da minha velha companheira. Quando eu era criança e ainda não sabia o que era a tecla SAP, uma prima de segundo grau veio aqui em casa e, enquanto brincávamos na sala, sentou sem querer sobre o controle remoto que estava no sofá. A TV estava ligada e do nada os personagens do filme que estava passando começaram a falar em inglês. Apertei os vários botões do aparelho na tentativa de fazer o som voltar ao “normal”. Fiquei desesperado, pois achava que meu pai iria me matar quando chegasse em casa à noite e encontrasse a TV falando aquele idioma tão estranho. Depois de muitas tentativas, o som da TV voltou ao áudio dublado, mas eu só vim descobrir o que havia acontecido naquela ocasião anos depois. Tecla SAP é vida!

Hoje, existem quatro aparelhos de televisão aqui em casa, mas assistimos cada vez menos. Não vejo mais filmes na TV, pois são sempre cortados para que caibam na programação. No entanto, os aparelhos ainda me são necessários para que eu possa ver os filmes que coloco no DVD. Admito que, uma vez ou outra, ainda assisto a telejornais, embora minha fonte de informações seja realmente a internet. Também assisto a transmissões de jogos, mas quando estes não são os que desejo ver, mais uma vez recorro à rede. Até alguns programas de entrevistas que gosto de assistir não me preocupam mais, já que, em poucas horas, todos estão disponíveis online. Admito também que, quando um filme que gosto muito está passando e não tenho nada mais importante para fazer, acabo revendo. Esse ano isso aconteceu com ‘Que Horas Ela Volta?’ (2015) e, muito recentemente, com ‘O Som ao Redor’ (2012), sendo que este começou quando eu estava me preparando para deitar. Gosto tanto do filme que só consegui ir dormir quando acabou, mesmo irritado por algumas cenas terem sido suprimidas. Aparentemente, o filme de Babenco foi exibido na íntegra, pois ficou no ar por mais de duas horas, mas só terei certeza acerca disso quando revê-lo.

Havia anos que a TV não transmitia algo do meu interesse e que me fosse inédito. Por Hector Babenco, voltei mais uma vez à tecla SAP e fui dormir de madrugada, todavia, valeu muito a pena. Ainda não sei o que ‘Meu Amigo Hindu’ representa para mim diante de todas as belas sensações que me despertou. Terminei o filme com um nó na garganta por saber que era a última produção de Babenco e feliz por ter sacado todas as suas auto-referências profissionais, mesmo reconhecendo que jamais saberemos o que é ou não biográfico no roteiro. Acabado o longa-metragem, voltei à internet, pois sou um filho ingrato da televisão e espero sinceramente nunca mais ter de voltar a ela devido a morte de alguém querido. Ser um refém da TV é um retrocesso, é estar à mercê da alienação e ser passado para trás por toda uma geração conectada à rede mundial de computadores. Infelizmente, muita gente depende exclusivamente da TV como fonte de informações: segundo o IBGE, 50% dos lares brasileiros ainda não tem acesso à internet. O Estado deveria estar trabalhando para levar acesso aos outros 50% dos lares, e não as operadoras brigando na Justiça para limitar o acesso desta. No entanto, isso é assunto para outro texto. Por hora, sei que sou um afortunado por ter abandonado a TV antes que ela me deixasse igual ao eu lírico da canção ‘Televisão’ dos Titãs: burro, muito burro demais.

vinte e três

TEXTO-SOMA

Aparentemente, o WordPress nos notifica sempre que publicamos dez novos textos. Pelo menos foi assim comigo. Se ele vai continuar notificando com o passar do tempo, eu já não sei. É importante começar o texto de hoje falando isso porque se não fosse pela notificação de que o texto “Segunda-feira” havia sido o vigésimo a ser publicado aqui, muito provavelmente vocês não estariam lendo esta postagem da forma que ela está. Esse é o texto de número vinte e três do Satãnatório e, como esse é o meu número favorito, resolvi fazer algo especial (com a notificação do WordPress, consegui me organizar para escrevê-lo). Em 1968, durante as filmagens de ‘O Bandido da Luz Vermelha’, Rogério Sganzerla escreveu um manifesto chamado Cinema Fora da Lei, em que ele dizia que seu filme era um “filme-soma”, isto é, fusão e mixagem de vários gêneros: musical, documentário, policial, comédia, chanchada, ficção científica. Foi então que eu resolvi chamar esse post especial de “texto-soma”, um texto sobre vários assuntos, num total de vinte e três textículos. Mas veja bem, eu disse número favorito e não da sorte, pois não acredito em sorte e azar. Esclarecido o caso, podemos dar prosseguimento.

MACHISTAS NÃO PASSARÃO

Nós homens não temos a exata dimensão do que é o machismo. Não sabemos o que é ser mulher e nunca vamos saber. Nosso papel na sociedade é reconhecer que, querendo ou não, nós somos sim privilegiados. Desde que mundo é mundo, elas sofrem com os padrões machistas e patriarcais, e por isso não temos direito nenhum de atrapalhar seus movimentos. Não devemos decidir as prioridades delas, nem como suas lutas devem ocorrer. Mas sim apoiá-las, dar ideias, disseminar seus conhecimentos feministas, ajudá-las a buscar informações e aprender a não fazer uso de estruturas socialmente impostas para oprimir. Escolher ficar calado e não fazer nada é se posicionar contra. Se não lutamos com elas, estamos do lado do opressor. E se você tá cansado de ouvir falar em machismo, imagina elas que vivem com isso a vida toda. É importante que elas falem. O feminismo é bom para todos, pois o machismo oprime os homens também. Nos impossibilita de chorar, de abraçar e beijar nossos amigos homens e de tantas outras coisas que não vou entrar em detalhes porque isso seria uma tentativa de chamar a atenção para nós tomando seu lugar de fala.

SER GAY TUDO BEM, MAS SER AFEMINADO…

tudo bem também! Ninguém tem que se importar com a forma de comportamento dos outros. Chega de acharem que existem características unicamente masculinas ou femininas. Não existem características certas ou erradas, seja você lésbica, gay, bi, trans ou hétero. Se já é difícil lutarmos contra a homofobia, não faz sentido nenhum que exista esse preconceito idiota muitas vezes disseminado entre os próprios gays. Para os discretos e afeminados: chega desse complexo de inferioridade por ser gay. Não tem que olhar torto para o gay que não é machão. Os afeminados disseram não a “proteção” do armário para lutar cara a cara contra o preconceito. Quantos deles morreram para que pudéssemos falar abertamente sobre homofobia? É uma questão de igualdade; aqueles que não fazem uso dos estereótipos masculinos também devem ser respeitados.

SOBRE TRENS

Moro praticamente em frente a uma estação ferroviária. Fora essa coincidência geográfica, eu sempre considerei o trem o transporte público mais cinematográfico de todos. Lembro da explosão do trem em ‘O Assalto ao Trem Pagador’, do final de ‘Pixote: A Lei do Mais Fraco’ com Pixote caminhando sobre os trilhos, dos passeios de Macabéa ao metrô aos finais de semana em ‘A Hora da Estrela’, a estação de trem em que Dora trabalha em ‘Central do Brasil’, o encontro de Rosa e Bernardo em ‘O Lobo Atrás da Porta’, e meu primeiro curta-metragem (amador) que também tinhas cenas em uma estação ferroviária. Não foi proposital. Na verdade foi algo que eu só vim perceber muito tempo depois. Quando vejo cenas em ônibus fico imaginando o quanto elas seriam melhores se fossem filmadas em trens.

COLECIONA-DOR

Já colecionei de tudo. De chaves a canetas. De bolas de gude a DVDs de filmes. Mas, sendo um capitalista sem capital, hoje não me permito colecionar nada. A última delas foram os filmes, mas a substituição do DVD pelo Blu-ray me deixou desanimado a recomeçar tudo de novo. E as constantes notícias de que novas tecnologias vão substituir o Blu-ray em um futuro próximo só me desanima ainda mais. Embora esteja sempre dando um jeitinho de aumentar minha coleção de livros, não acho que sou um colecionador; é como se fosse uma necessidade fisiológica ter sempre algo novo para ler. Então não coleciono nada concreto, mas decididamente sou um colecionador de palavras. Estou sempre anotando vocábulos novos e esperando uma oportunidade para usá-los.

PERDOEM A OUSADIA DE PUBLICAR UM POEMA DE MINHA AUTORIA

Posso ver uma onda de auto-boicotes
Umas espécies novas e acrescidas de auto-inimigos
se auto-trapaceando em departamentos sérios
Fazendo vasectomias intelectuais
e se tornando dignos de pena
Alguns nem isso

ÍDOLOS

Chega um momento da nossa vida em que descobrimos que nossos pais não são o centro do universo. É quando encontramos para nós outras referências, outras formas de se comportar, pensar, falar e se vestir. Infelizmente nasci em uma família que não consome cultura, então minhas referências além-mundo eram mínimas. Tive que procurar tudo por conta própria. Foi terrível até conseguir convencê-los de que não estava jogando dinheiro fora comprando livros e discos. Mas fico pensando pelo lado positivo: eu não fui influenciado por um gosto musical e literário de qualidade duvidosa.

EU SOU ÍNDIO

Um sonho que eu tinha quando criança era interpretar um índio em alguma peça da escola. Nas duas oportunidades que tive de participar de encenações que tinham índios, as professoras acabaram me escalando para interpretar nossos malditos colonizadores. Sou branco eu sei. Mas na minha inocência de criança eu conseguia me ver como um verdadeiro tupiniquim. É um sonho meu que nunca foi realizado graças a falta de imaginação dessas educadoras.

MÚSICAS DE AMOR NÃO ME REPRESENTAM

Eu me considero um cara romântico. Faço loucuras, surpresas e profundas declarações de amor. Mas não sou fã de músicas românticas. Isso não quer dizer que eu desgoste. Não é isso. Roberto Carlos que o diga. Mas prefiro músicas de protesto, músicas políticas, músicas sobre os mais diversos sentimentos que não seja o amor. O mesmo acontece com o cinema. Gosto e reconheço a qualidade de diversos filmes românticos, mas gosto mesmo é do cinema abertamente político, revolucionário, experimental. A violência cinematográfica me interessa.

CINEMA BRASILEIRO

Não sei se a realidade está mudando de fato ou se são as pessoas ao meu redor que pensam de forma diferente, mas me parece mesmo que os brasileiros estão começando a olhar com outros olhos para o cinema nacional. O que me entristece é que estão fazendo isso tarde demais. Quando já deixaram vários clássicos do nosso cinema passar despercebidos. Já ouvi de muita gente que o cinema brasileiro só tem filme de favela. Sempre que me diziam isso eu pedia para que citassem cinco filmes brasileiros sobre o tema. Nunca conseguiam ir além de ‘Cidade de Deus’ e ‘Tropa de Elite’. Outra que eu já ouvi muito e que nunca mais alguém falou na minha frente foi de que o cinema brasileiro tinha muito palavrão. Essa geração cresceu sem saber (ou sem querer admitir) que quando os filmes chegam ao Brasil para serem dublados, as empresas responsáveis pela dublagem retiram os palavrões ou os suavizavam com xingamentos mais leves. Tudo isso para que o filme possa ser transmitido a tarde e nos horários nobres da TV aberta. Só uma pessoa alienada que continua vendo esse cinema água com açúcar da TV aberta para ter coragem de dizer um absurdo desses. Acho que, com a internet, cada vez mais pessoas começaram a assistir filmes legendados (esse número infelizmente ainda é pequeno) e descobrir toda a “baixaria” do cinema estrangeiro. E que mal há nisso? Nenhum! Isso apenas não pode ser usado como desculpa para dizer que nosso cinema tem mais palavrão que o deles. O cinema internacional produz em uma quantidade muito maior que a nossa, e todos sabem que quantidade nunca foi sinônimo de qualidade. Basta ligar a TV e constatar que boa parte dos filmes estrangeiros transmitidos são horríveis. E ninguém fala que o cinema deles é ruim. De fato produzem obras primas, mas nós também produzimos. O público europeu e americano também é preguiçoso e não gosta de ler legendas. Filme legendado é sinônimo de fracasso de bilheteria no mercado cinematográfico do mundo inteiro. Por termos sido colonizados justamente por um país que nunca teve uma língua dominante, acabamos sendo muitas vezes excluídos do mercado cinematográfico internacional. Mas a crítica internacional e o público estrangeiro que consegue ter acesso aos nossos filmes reconhecem a qualidade do cinema brasileiro. O fato de não termos um Oscar não significa nada. Continuo achando que quem tem que gostar do nosso cinema somos nós brasileiros.

DOCES

Não sei responder quando me perguntam se gosto mais de doce ou de salgado. As duas respostas parecem certas. Acontece que recentemente eu comecei a acreditar que os doces estão vencendo essa disputa. Sou completamente louco por jujubas, e gosto de todas, menos das roxas que eu acredito serem de uva, nunca sei. Mas elas também servem na falta das outras. O leite condensado eu coloco na geladeira, porque tomar ele natural enjoa muito rápido e gelado a sensação é de que não é tão doce, me possibilitando um número maior de colheradas. Sem falar na minha propensão ao vício por amendoins coloridos. Aqueles cobertos de doce. Por que estou falando sobre isso? Não faço a mínima ideia.

REFRIGERANTE

Não bebo refrigerante a mais de dois anos. Eu era completamente louco pelo refrigerante de guaraná. Lembro da sensação maravilhosa que era beber um copo de refrigerante geladinho depois de chegar em casa numa tarde quente. Mas a grande verdade é que depois que decidi parar de beber, não sinto mais nenhuma vontade. Nem fico mal nem de estar em uma mesa onde todos estão bebendo refrigerante.

“SONHOS” RECORRENTES

Ademais, a decisão de não tomar mais refrigerantes me trouxe um sonho recorrente. Sempre me vem durante o sono a imagem de que estou bebendo refrigerante e quebrando minha abstinência que é de quase três anos atualmente. O mais engraçado é que esses sonhos são para mim o pior pesadelo que posso ter. Sonhar bebendo refrigerante hoje em dia é terrível, e são sonhos tão reais que é como se eu sentisse o gosto do refrigerante na minha boca. Sempre acordo nervoso, achando que tudo aquilo aconteceu de fato.

INSÔNIA

Conseguir dormir é que é o problema. Quem disse que a insônia deixa? É só deitar à noite que começo a pensar em tudo. Já penso muito durante o dia e quando deito para dormir é como se eu não tivesse horas suficientes para pensar enquanto estou acordado e precisasse pegar um pouco da hora de dormir para conseguir pensar tudo. É simplesmente horrível. Seria tão mais fácil se viéssemos com um botão de desligar…

SONO PÓS-ALMOÇO

Na medida em que tenho dificuldade em dormir a noite, ironicamente tenho igual dificuldade em me manter acordado depois do almoço. É um sono infernal que se apodera do meu corpo se transformando em um inimigo muito difícil de vencer. O pior é que é normal sentir esse sono. Já li de tudo sobre o assunto procurando suas causas. Já li que a produção de suco gástrico que faz parte do processo de digestão faz com que o cérebro diminua a atividade de alerta. Que refeições ricas em açúcar fazem com que a concentração de glicose suba no sangue, o que também leva a diminuição do estado de alerta do cérebro. Que na hora do almoço o nosso corpo automaticamente se prepara para dormir e o sono acumulado contribui para isso. Mas segundo as minhas pesquisas, aparentemente, o maior responsável é a concentração de fluxo sanguíneo na região do estômago na hora de digestão. Como o sangue conduz oxigênio para o nosso organismo e o cérebro precisa de muito oxigênio para funcionar, a maior concentração de sangue para a digestão faz com que a oferta de oxigênio diminua para o cérebro, o que força a diminuição da nossa atividade. O que só me leva a concluir que eu estou precisando de muito mais sangue no meu corpo, pois meu sono pós-almoço não é humano.

SOU UM CAVALO

Apaixonado que sou pelos costumes populares, não aceito, contudo, que o povo sacrifique uma perspectiva em função de uma alegoria mística.
Glauber Rocha

Na umbanda aqueles que “recebem” os espíritos são chamados de cavalos. Durante a incorporação, o “cavalo” permanece inconsciente, e quem fala através dele é seu “guia”, ou seja, a entidade espiritual a ele associada. Assim como Glauber Rocha, mesmo sem acreditar em deus, sou apaixonado pelos costumes populares e tenho o hábito de dizer que sou um cavalo. Um cavalo intelectual e não espiritual. Não recebo espíritos, mas estou sempre aberto para receber ideologias. Ideias me interessam.

TODO ESCRITOR ESTÁ MORTO

Quando criança eu cheguei a acreditar que todos os escritores estavam mortos. Coincidentemente, todos os livros que caíram nas minhas mãos eram antigos e seus autores já falecidos. Lembro que foi espantoso quando também criança eu vi um livro que tinha a biografia de um autor ainda vivo. Foi assim que descobri que pessoas jovens também escreviam, já que eu acreditava que só pessoas muito velhas e sábias eram capazes de escrever livros.

TUTORIAL DE COMO MATAR MOSQUITO

Eu ia escrever aqui um tutorial de como matar mosquito, mas já falei tanta besteira que resolvi deixar para lá. Próximo.

SEMPRE FOMOS BONS DE CONVERSAR

Namore alguém com que você goste de conversar. Vai por mim, sexo nenhum, por melhor que seja, segura relacionamento. Não basta ser só bom de cama, tem que ser bom de conversa também.

LIVROS

Sempre estou lendo mais de um livro. O segredo é não misturar os gêneros literários para que não vire tudo uma bagunça na sua cabeça. Então consigo ler um romance e uma biografia, os quais eu me dedico mais. Intercalo-os com livros teóricos de cinema, roteiros, crônicas e poesia. O de poesia fica no aguardo de um mini-tempo livre em que não dá para ler um capítulo do romance ou da biografia, então nesse pequeno espaço eu leio um poema. O livro de crônicas ou qualquer livro de textos curtos fica no limbo (leia mochila) para que seja lido no ônibus ou nas filas da vida. Então eu sempre vou ter mais de uma resposta quando me perguntarem o que estou lendo. O lado negativo é que você convive muito tempo com os mesmos livros. Não se dedicando exclusivamente a um você acaba demorando mais para terminar a leitura. O lado bom é que quase sempre eles costumam acabar juntos. Então você termina uns cinco livros muito próximos uns dos outros e já pode selecionar na estante os outros cinco para a próxima empreitada.

LEITURA ATUAL

Dentre as minhas leituras atuais está o livro ‘Tropicalista Lente Luta’ do Tom Zé. Deixo com vocês o primeiro parágrafo da página 23 do livro. Quem se sentir à vontade, também pode deixar nos comentários a primeira frase/parágrafo da página 23 do livro que está lendo atualmente.

uma ao lado da outra. Lia-se embaixo da primeira: “Esta foto está muito suja. Veja quantos objetos e peças estão perto da pessoa fotografada. É necessário limpar o campo.”
Tom Zé em ‘Tropicalista Lenta Luta’

A PROCURA DO ESCRITOR FAVORITO

Tenho cantor favorito, banda favorita, filme favorito, cineasta favorito, mas não tenho nem livro nem escritor favorito. E é terrível não saber responder a essa pergunta. Já achei que ‘Dom Casmurro’ fosse meu livro favorito, mas não é, embora seja um dos. Em algum momento da vida já achei que Machado de Assis, Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa e Clarice Lispector fossem meus escritores favoritos. Depois da descoberta dos livros violentos de Paulo Lins e Rubem Fonseca, também achei que eles fossem meus favoritos. Mais recentemente me apaixonei pela escrita do Moacyr Scliar e por ai vai. Contudo, entre eles e tantos outros que eu li, acho que nunca existira uma resposta absoluta, embora responder com um desses citados não me pareça errado.

CARTA AO LEITOR

Antes de existir computador as pessoas tinham como viver, não é não? Hoje parece que além do oxigênio agente tem que respirar informação. Todo mundo sabe de tudo mas é tudo superficial, a gente até lê tudo na hora mas não sabe a dor do monge que fez imolação no Nepal.
Trecho da música “Segredos da Levitação” de André Abujamra

Me sinto muito constrangido em roubar o tempo de você Leitor com meus textos. São tantos canais na TV, tantas páginas na internet, tantas redes sociais e aplicativos. Como André Abujamra diz em sua música ‘Segredos da Levitação’: “a gente até lê tudo, mas é tudo superficial”. O que assistir? O que ler? O que ouvir? O que acessar? Como ser seletivo? É tanta coisa que eu posso morrer sem ter visto o meu verdadeiro filme favorito. Sem ouvir uma banda que poderia me agradar mais do que qualquer outra. É muito material e pouco tempo. Pitty escreveu muito recentemente um texto bem interessante em seu blogue sobre não querer contribuir para o entulho do que ela chama de “mar de links”. Meu constrangimento nasce disso. Com tantas informações para assimilar para quê contribuir ainda mais com esse montante? Cada filme/livro/disco lançado já nasce inflacionado. Mas como ficar calado nessa zorra? Se todos falam, eu também quero falar e ser ouvido. No entanto, sou eu quem escolho minhas prioridades, assim como vocês escolhem as suas. E como vocês me leem por livre e espontânea vontade, eu prefiro ficar com essa falsa sensação de consciência tranquila. Me despeço aqui desses vinte e três mini-textos que acabaram formando um aterro ideológico de ideia nenhuma. No fundo eu desejo que você tenha desistido de ler ainda no primeiro parágrafo. Até a próxima! Abraçaço.