sobre tempo e pessoas-livro

Se tem uma coisa que eu sempre vi e vejo nas redes sociais são as pessoas se dizendo entediadas. Sendo a internet um lugar de infinitas possibilidades, é cômico ver uma pessoa fazer uso dela para tornar público seu tédio quando seria muito mais produtivo usá-la para saná-lo. Faz tanto tempo que não sinto tédio que minhas últimas lembranças desse aborrecimento dizem respeito à mais tenra idade, quando meus dias eram longos, trancados dentro de casa sem o direito de brincar na rua com os outros garotos. Não há imaginação fértil que suprisse essa rotina. Uma hora ou outra o tédio se permitia vencer.

Hoje o tédio se tornou mesmo uma sensação alheia a mim. Como sempre tenho muita coisa para fazer e estou sempre inventando obrigações novas e como geralmente gosto das coisas que faço, acabo sofrendo é com a falta de tempo para concluir todos esses projetos. Sabe aquele tipo de pessoa que respira festas? Para quem final de semana é sinônimo de sair de casa? Que está sempre planejando a próxima saída? Então, eu não sou esse tipo de pessoa. Não que isso seja ruim. Como nunca fui assim, não posso fazer nenhum tipo de julgamento e mesmo se tivesse sido algum dia, acredito que não julgaria. Apenas sigo outro método que funciona melhor comigo. Meu negócio é ficar em casa. Se estudo ou trabalho a semana inteira, no final de semana meu objetivo de vida é ficar no meu quarto, na minha cama, com meus travesseiros, meus livros, meus filmes.

É difícil saber que tenho cada vez menos tempo para ler todos os livros que quero, ver todos os filmes que tenho vontade, viajar, ouvir música. O tempo passa rápido demais. O ano já entrou em contagem regressiva. Todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou e, ao contrário de Renato Russo, mesmo sendo tão jovem, não tenho todo o tempo do mundo. Já falei aqui em outro texto o quanto odeio perder tempo me locomovendo. Talvez seja esse o maior motivo que me faça preferir ficar em casa conspirando contra o mundo e engordando o cérebro e a barriga. Onde cabe o tédio nisso tudo?

Enquanto o tédio é a falta de coisas interessantes para fazer, a procrastinação é o adiamento das coisas a serem feitas (interessantes ou não). Claro que você, Leitor, sabe disso. Mas quero dizer que procrastino pelo prazer de procrastinar. Porque não fazer nada também tem o seu lado bom. É claro que depois eu saio feito louco correndo contra o relógio e chegará o dia em que não terei mais tempo para correr atrás do tempo perdido.

Gosto de festas, principalmente da comida que encontro nelas. Ademais, se passo muito tempo em alguma, já fico com vontade de ir para casa. Não consigo ver muito sentido em passar a noite toda bebendo e dançando. Não dá nem para aproveitar a companhia dos amigos porque todo mundo fica logo bêbado mesmo. Isso pode ser maravilhoso para outras pessoas, mas orgasmos fílmicos e literários me deixam muito mais feliz. Então a verdade é que evito sair de casa sempre que posso. Tenho ótimas desculpas para não ir a algum evento e geralmente fico muito feliz quando desmarcam um passeio para que eu possa ficar no meu aconchego. Detesto ficar pensando no tempo que estou perdendo. Passei a só aceitar convites de saídas de quem considero o que chamo de “pessoa-livro”, que é aquela pessoa que gosta de ler e tem uma conversa tão interessante que vale por uma leitura. Só assim para não sentir remorso por ter saído de casa. É o tipo perfeito para namorar. É por isso que eu sempre digo: namore quem lê, quem te dá livros e quem te apresenta autores que você não conhecia.

Então as pessoas normais chegam para mim e falam: “nossa você tem que sair de casa, se divertir”. O que elas não sabem é que eu me divirto justamente ficando em casa. Passo a semana inteira saindo, vendo pessoas, encontrando os amigos (nem sempre nos lugares mais apropriados para conversar), mas sempre socializando. É no tempo livre (como o próprio nome diz) que eu escolho o que considero ser melhor para mim. Sei muito bem que a vida pulsa mais forte lá fora, e justamente por não banalizar minhas saídas, quando vou ao cinema, numa exposição, à praia, numa livraria, num restaurante, qualquer lugar que seja, essa saída é sempre tão mais divertida. Lembro que quando trabalhava em frente à praia e passava todos dias por lá, ela começou a não ter mais tanta graça.

Voltando aos livros: gostaria de ler mais rápido. Muitas pessoas me falam de livros que leram em um final de semana ou até mesmo em um dia. A única vez que li um em um dia foi com ‘A Hora da Estrela’ de Clarice Lispector e ele é bem curtinho, ou seja, não há mérito nenhum nisso. Também tem os roteiros de filmes publicados posteriormente à sua exibição nos cinemas, o que também não levanta minha moral. Mas agora que falei de ‘A Hora da Estrela’, vou contar para vocês como Suzana Amaral decidiu filmá-lo. Ela contou isso em entrevista para o programa Sala de Cinema. Quando cursava a universidade de cinema, seu professor de roteiro lhe disse que, quando fosse adaptar um livro, nunca escolhesse um livro grande e sim um livro fininho, porque o grande é muito difícil de adaptar e o com o pequeno é possível se fazer uma recriação. Adaptar os grandes é se limitar a resumi-lo, fazendo disso um filme pobre. Eu não sei se concordo com ele, mas Suzana seguiu seu conselho. Como ela já tinha lido todos os livros de Clarice e gostava da escritora desde adolescente, decidiu que adaptaria o seu menor livro. Foi na biblioteca ver qual era e se deparou com a incrível história de Macabéa. E assim nasceu um dos clássicos do cinema nacional. Por que eu tô contando isso mesmo?

De toda forma, essa corrida contra o tempo não é o meu único drama. Sofro também com a ideia de que tudo isso não me serve de nada. Se vou mesmo morrer e virar pó debaixo da terra (não adianta tentar me convencer do contrário), para que ler? Ver filmes? Viajar? Eu vou morrer mesmo. De nada vai me servir. Estamos todos de passagem. Por que essa vontade de escrever, de fazer filmes, se eu vou morrer e não levarei nada comigo? Também não saberei e nem me interessa saber que fim levará tudo que deixarei. Certo que fazer tudo isso me proporciona um imenso prazer e, já que estou de passagem, melhor aproveitar da melhor forma que me convêm. Além disso, esse conhecimento adquirido nos livros me propicia um leque maior de assuntos para conversar com as pessoas. Ninguém merece ficar conversando sobre o clima, não é mesmo? Mas e daí? Felizes mesmo são os alienados que não sofrem com o Sistema, que não enxergam essa bancada conservadora que defende a redução da maioridade penal e a “cura” gay, que define como família apenas a união entre homem e mulher e tantos outros absurdos. Sinto-me de mãos atadas e com muito medo do Brasil de amanhã.

Para não concluir, prefiro pseudo-acreditar que um dia encontrarei um sentido para todas essas leituras, todas essas horas diante de uma tela, de tanto tempo dedicado à escrita e a escutar as músicas que insistem cada vez mais em dizer tudo o que quero. Não muito raramente, penso também no tempo desperdiçado escrevendo. Sei que continuarei riscando neste blogue ou em qualquer outro lugar. É terapêutico. Contudo, no fim, a frustração é tão grande… Parágrafos e mais parágrafos quando existem músicas de quatro minutos que se expressam muito melhor. Às vezes penso que devia fazer um blogue em que compartilharia apenas músicas com letras que dizem exatamente aquilo que eu estava pensando em dizer. Não sei se funcionaria, mas hoje deixo algumas músicas e a entrevista completa da Suzana Amaral. Até a próxima, abraçaço.

Legião Urbana – Tempo Perdido

Caetano Veloso – Oração ao Tempo

Pitty – Semana Que Vem

Cazuza – O Tempo Não Para

Pato Fu – Sobre o Tempo

Lulu Santos – Tempos Modernos

Sala de Cinema – Suzana Amaral

vinte e três

TEXTO-SOMA

Aparentemente, o WordPress nos notifica sempre que publicamos dez novos textos. Pelo menos foi assim comigo. Se ele vai continuar notificando com o passar do tempo, eu já não sei. É importante começar o texto de hoje falando isso porque se não fosse pela notificação de que o texto “Segunda-feira” havia sido o vigésimo a ser publicado aqui, muito provavelmente vocês não estariam lendo esta postagem da forma que ela está. Esse é o texto de número vinte e três do Satãnatório e, como esse é o meu número favorito, resolvi fazer algo especial (com a notificação do WordPress, consegui me organizar para escrevê-lo). Em 1968, durante as filmagens de ‘O Bandido da Luz Vermelha’, Rogério Sganzerla escreveu um manifesto chamado Cinema Fora da Lei, em que ele dizia que seu filme era um “filme-soma”, isto é, fusão e mixagem de vários gêneros: musical, documentário, policial, comédia, chanchada, ficção científica. Foi então que eu resolvi chamar esse post especial de “texto-soma”, um texto sobre vários assuntos, num total de vinte e três textículos. Mas veja bem, eu disse número favorito e não da sorte, pois não acredito em sorte e azar. Esclarecido o caso, podemos dar prosseguimento.

MACHISTAS NÃO PASSARÃO

Nós homens não temos a exata dimensão do que é o machismo. Não sabemos o que é ser mulher e nunca vamos saber. Nosso papel na sociedade é reconhecer que, querendo ou não, nós somos sim privilegiados. Desde que mundo é mundo, elas sofrem com os padrões machistas e patriarcais, e por isso não temos direito nenhum de atrapalhar seus movimentos. Não devemos decidir as prioridades delas, nem como suas lutas devem ocorrer. Mas sim apoiá-las, dar ideias, disseminar seus conhecimentos feministas, ajudá-las a buscar informações e aprender a não fazer uso de estruturas socialmente impostas para oprimir. Escolher ficar calado e não fazer nada é se posicionar contra. Se não lutamos com elas, estamos do lado do opressor. E se você tá cansado de ouvir falar em machismo, imagina elas que vivem com isso a vida toda. É importante que elas falem. O feminismo é bom para todos, pois o machismo oprime os homens também. Nos impossibilita de chorar, de abraçar e beijar nossos amigos homens e de tantas outras coisas que não vou entrar em detalhes porque isso seria uma tentativa de chamar a atenção para nós tomando seu lugar de fala.

SER GAY TUDO BEM, MAS SER AFEMINADO…

tudo bem também! Ninguém tem que se importar com a forma de comportamento dos outros. Chega de acharem que existem características unicamente masculinas ou femininas. Não existem características certas ou erradas, seja você lésbica, gay, bi, trans ou hétero. Se já é difícil lutarmos contra a homofobia, não faz sentido nenhum que exista esse preconceito idiota muitas vezes disseminado entre os próprios gays. Para os discretos e afeminados: chega desse complexo de inferioridade por ser gay. Não tem que olhar torto para o gay que não é machão. Os afeminados disseram não a “proteção” do armário para lutar cara a cara contra o preconceito. Quantos deles morreram para que pudéssemos falar abertamente sobre homofobia? É uma questão de igualdade; aqueles que não fazem uso dos estereótipos masculinos também devem ser respeitados.

SOBRE TRENS

Moro praticamente em frente a uma estação ferroviária. Fora essa coincidência geográfica, eu sempre considerei o trem o transporte público mais cinematográfico de todos. Lembro da explosão do trem em ‘O Assalto ao Trem Pagador’, do final de ‘Pixote: A Lei do Mais Fraco’ com Pixote caminhando sobre os trilhos, dos passeios de Macabéa ao metrô aos finais de semana em ‘A Hora da Estrela’, a estação de trem em que Dora trabalha em ‘Central do Brasil’, o encontro de Rosa e Bernardo em ‘O Lobo Atrás da Porta’, e meu primeiro curta-metragem (amador) que também tinhas cenas em uma estação ferroviária. Não foi proposital. Na verdade foi algo que eu só vim perceber muito tempo depois. Quando vejo cenas em ônibus fico imaginando o quanto elas seriam melhores se fossem filmadas em trens.

COLECIONA-DOR

Já colecionei de tudo. De chaves a canetas. De bolas de gude a DVDs de filmes. Mas, sendo um capitalista sem capital, hoje não me permito colecionar nada. A última delas foram os filmes, mas a substituição do DVD pelo Blu-ray me deixou desanimado a recomeçar tudo de novo. E as constantes notícias de que novas tecnologias vão substituir o Blu-ray em um futuro próximo só me desanima ainda mais. Embora esteja sempre dando um jeitinho de aumentar minha coleção de livros, não acho que sou um colecionador; é como se fosse uma necessidade fisiológica ter sempre algo novo para ler. Então não coleciono nada concreto, mas decididamente sou um colecionador de palavras. Estou sempre anotando vocábulos novos e esperando uma oportunidade para usá-los.

PERDOEM A OUSADIA DE PUBLICAR UM POEMA DE MINHA AUTORIA

Posso ver uma onda de auto-boicotes
Umas espécies novas e acrescidas de auto-inimigos
se auto-trapaceando em departamentos sérios
Fazendo vasectomias intelectuais
e se tornando dignos de pena
Alguns nem isso

ÍDOLOS

Chega um momento da nossa vida em que descobrimos que nossos pais não são o centro do universo. É quando encontramos para nós outras referências, outras formas de se comportar, pensar, falar e se vestir. Infelizmente nasci em uma família que não consome cultura, então minhas referências além-mundo eram mínimas. Tive que procurar tudo por conta própria. Foi terrível até conseguir convencê-los de que não estava jogando dinheiro fora comprando livros e discos. Mas fico pensando pelo lado positivo: eu não fui influenciado por um gosto musical e literário de qualidade duvidosa.

EU SOU ÍNDIO

Um sonho que eu tinha quando criança era interpretar um índio em alguma peça da escola. Nas duas oportunidades que tive de participar de encenações que tinham índios, as professoras acabaram me escalando para interpretar nossos malditos colonizadores. Sou branco eu sei. Mas na minha inocência de criança eu conseguia me ver como um verdadeiro tupiniquim. É um sonho meu que nunca foi realizado graças a falta de imaginação dessas educadoras.

MÚSICAS DE AMOR NÃO ME REPRESENTAM

Eu me considero um cara romântico. Faço loucuras, surpresas e profundas declarações de amor. Mas não sou fã de músicas românticas. Isso não quer dizer que eu desgoste. Não é isso. Roberto Carlos que o diga. Mas prefiro músicas de protesto, músicas políticas, músicas sobre os mais diversos sentimentos que não seja o amor. O mesmo acontece com o cinema. Gosto e reconheço a qualidade de diversos filmes românticos, mas gosto mesmo é do cinema abertamente político, revolucionário, experimental. A violência cinematográfica me interessa.

CINEMA BRASILEIRO

Não sei se a realidade está mudando de fato ou se são as pessoas ao meu redor que pensam de forma diferente, mas me parece mesmo que os brasileiros estão começando a olhar com outros olhos para o cinema nacional. O que me entristece é que estão fazendo isso tarde demais. Quando já deixaram vários clássicos do nosso cinema passar despercebidos. Já ouvi de muita gente que o cinema brasileiro só tem filme de favela. Sempre que me diziam isso eu pedia para que citassem cinco filmes brasileiros sobre o tema. Nunca conseguiam ir além de ‘Cidade de Deus’ e ‘Tropa de Elite’. Outra que eu já ouvi muito e que nunca mais alguém falou na minha frente foi de que o cinema brasileiro tinha muito palavrão. Essa geração cresceu sem saber (ou sem querer admitir) que quando os filmes chegam ao Brasil para serem dublados, as empresas responsáveis pela dublagem retiram os palavrões ou os suavizavam com xingamentos mais leves. Tudo isso para que o filme possa ser transmitido a tarde e nos horários nobres da TV aberta. Só uma pessoa alienada que continua vendo esse cinema água com açúcar da TV aberta para ter coragem de dizer um absurdo desses. Acho que, com a internet, cada vez mais pessoas começaram a assistir filmes legendados (esse número infelizmente ainda é pequeno) e descobrir toda a “baixaria” do cinema estrangeiro. E que mal há nisso? Nenhum! Isso apenas não pode ser usado como desculpa para dizer que nosso cinema tem mais palavrão que o deles. O cinema internacional produz em uma quantidade muito maior que a nossa, e todos sabem que quantidade nunca foi sinônimo de qualidade. Basta ligar a TV e constatar que boa parte dos filmes estrangeiros transmitidos são horríveis. E ninguém fala que o cinema deles é ruim. De fato produzem obras primas, mas nós também produzimos. O público europeu e americano também é preguiçoso e não gosta de ler legendas. Filme legendado é sinônimo de fracasso de bilheteria no mercado cinematográfico do mundo inteiro. Por termos sido colonizados justamente por um país que nunca teve uma língua dominante, acabamos sendo muitas vezes excluídos do mercado cinematográfico internacional. Mas a crítica internacional e o público estrangeiro que consegue ter acesso aos nossos filmes reconhecem a qualidade do cinema brasileiro. O fato de não termos um Oscar não significa nada. Continuo achando que quem tem que gostar do nosso cinema somos nós brasileiros.

DOCES

Não sei responder quando me perguntam se gosto mais de doce ou de salgado. As duas respostas parecem certas. Acontece que recentemente eu comecei a acreditar que os doces estão vencendo essa disputa. Sou completamente louco por jujubas, e gosto de todas, menos das roxas que eu acredito serem de uva, nunca sei. Mas elas também servem na falta das outras. O leite condensado eu coloco na geladeira, porque tomar ele natural enjoa muito rápido e gelado a sensação é de que não é tão doce, me possibilitando um número maior de colheradas. Sem falar na minha propensão ao vício por amendoins coloridos. Aqueles cobertos de doce. Por que estou falando sobre isso? Não faço a mínima ideia.

REFRIGERANTE

Não bebo refrigerante a mais de dois anos. Eu era completamente louco pelo refrigerante de guaraná. Lembro da sensação maravilhosa que era beber um copo de refrigerante geladinho depois de chegar em casa numa tarde quente. Mas a grande verdade é que depois que decidi parar de beber, não sinto mais nenhuma vontade. Nem fico mal nem de estar em uma mesa onde todos estão bebendo refrigerante.

“SONHOS” RECORRENTES

Ademais, a decisão de não tomar mais refrigerantes me trouxe um sonho recorrente. Sempre me vem durante o sono a imagem de que estou bebendo refrigerante e quebrando minha abstinência que é de quase três anos atualmente. O mais engraçado é que esses sonhos são para mim o pior pesadelo que posso ter. Sonhar bebendo refrigerante hoje em dia é terrível, e são sonhos tão reais que é como se eu sentisse o gosto do refrigerante na minha boca. Sempre acordo nervoso, achando que tudo aquilo aconteceu de fato.

INSÔNIA

Conseguir dormir é que é o problema. Quem disse que a insônia deixa? É só deitar à noite que começo a pensar em tudo. Já penso muito durante o dia e quando deito para dormir é como se eu não tivesse horas suficientes para pensar enquanto estou acordado e precisasse pegar um pouco da hora de dormir para conseguir pensar tudo. É simplesmente horrível. Seria tão mais fácil se viéssemos com um botão de desligar…

SONO PÓS-ALMOÇO

Na medida em que tenho dificuldade em dormir a noite, ironicamente tenho igual dificuldade em me manter acordado depois do almoço. É um sono infernal que se apodera do meu corpo se transformando em um inimigo muito difícil de vencer. O pior é que é normal sentir esse sono. Já li de tudo sobre o assunto procurando suas causas. Já li que a produção de suco gástrico que faz parte do processo de digestão faz com que o cérebro diminua a atividade de alerta. Que refeições ricas em açúcar fazem com que a concentração de glicose suba no sangue, o que também leva a diminuição do estado de alerta do cérebro. Que na hora do almoço o nosso corpo automaticamente se prepara para dormir e o sono acumulado contribui para isso. Mas segundo as minhas pesquisas, aparentemente, o maior responsável é a concentração de fluxo sanguíneo na região do estômago na hora de digestão. Como o sangue conduz oxigênio para o nosso organismo e o cérebro precisa de muito oxigênio para funcionar, a maior concentração de sangue para a digestão faz com que a oferta de oxigênio diminua para o cérebro, o que força a diminuição da nossa atividade. O que só me leva a concluir que eu estou precisando de muito mais sangue no meu corpo, pois meu sono pós-almoço não é humano.

SOU UM CAVALO

Apaixonado que sou pelos costumes populares, não aceito, contudo, que o povo sacrifique uma perspectiva em função de uma alegoria mística.
Glauber Rocha

Na umbanda aqueles que “recebem” os espíritos são chamados de cavalos. Durante a incorporação, o “cavalo” permanece inconsciente, e quem fala através dele é seu “guia”, ou seja, a entidade espiritual a ele associada. Assim como Glauber Rocha, mesmo sem acreditar em deus, sou apaixonado pelos costumes populares e tenho o hábito de dizer que sou um cavalo. Um cavalo intelectual e não espiritual. Não recebo espíritos, mas estou sempre aberto para receber ideologias. Ideias me interessam.

TODO ESCRITOR ESTÁ MORTO

Quando criança eu cheguei a acreditar que todos os escritores estavam mortos. Coincidentemente, todos os livros que caíram nas minhas mãos eram antigos e seus autores já falecidos. Lembro que foi espantoso quando também criança eu vi um livro que tinha a biografia de um autor ainda vivo. Foi assim que descobri que pessoas jovens também escreviam, já que eu acreditava que só pessoas muito velhas e sábias eram capazes de escrever livros.

TUTORIAL DE COMO MATAR MOSQUITO

Eu ia escrever aqui um tutorial de como matar mosquito, mas já falei tanta besteira que resolvi deixar para lá. Próximo.

SEMPRE FOMOS BONS DE CONVERSAR

Namore alguém com que você goste de conversar. Vai por mim, sexo nenhum, por melhor que seja, segura relacionamento. Não basta ser só bom de cama, tem que ser bom de conversa também.

LIVROS

Sempre estou lendo mais de um livro. O segredo é não misturar os gêneros literários para que não vire tudo uma bagunça na sua cabeça. Então consigo ler um romance e uma biografia, os quais eu me dedico mais. Intercalo-os com livros teóricos de cinema, roteiros, crônicas e poesia. O de poesia fica no aguardo de um mini-tempo livre em que não dá para ler um capítulo do romance ou da biografia, então nesse pequeno espaço eu leio um poema. O livro de crônicas ou qualquer livro de textos curtos fica no limbo (leia mochila) para que seja lido no ônibus ou nas filas da vida. Então eu sempre vou ter mais de uma resposta quando me perguntarem o que estou lendo. O lado negativo é que você convive muito tempo com os mesmos livros. Não se dedicando exclusivamente a um você acaba demorando mais para terminar a leitura. O lado bom é que quase sempre eles costumam acabar juntos. Então você termina uns cinco livros muito próximos uns dos outros e já pode selecionar na estante os outros cinco para a próxima empreitada.

LEITURA ATUAL

Dentre as minhas leituras atuais está o livro ‘Tropicalista Lente Luta’ do Tom Zé. Deixo com vocês o primeiro parágrafo da página 23 do livro. Quem se sentir à vontade, também pode deixar nos comentários a primeira frase/parágrafo da página 23 do livro que está lendo atualmente.

uma ao lado da outra. Lia-se embaixo da primeira: “Esta foto está muito suja. Veja quantos objetos e peças estão perto da pessoa fotografada. É necessário limpar o campo.”
Tom Zé em ‘Tropicalista Lenta Luta’

A PROCURA DO ESCRITOR FAVORITO

Tenho cantor favorito, banda favorita, filme favorito, cineasta favorito, mas não tenho nem livro nem escritor favorito. E é terrível não saber responder a essa pergunta. Já achei que ‘Dom Casmurro’ fosse meu livro favorito, mas não é, embora seja um dos. Em algum momento da vida já achei que Machado de Assis, Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa e Clarice Lispector fossem meus escritores favoritos. Depois da descoberta dos livros violentos de Paulo Lins e Rubem Fonseca, também achei que eles fossem meus favoritos. Mais recentemente me apaixonei pela escrita do Moacyr Scliar e por ai vai. Contudo, entre eles e tantos outros que eu li, acho que nunca existira uma resposta absoluta, embora responder com um desses citados não me pareça errado.

CARTA AO LEITOR

Antes de existir computador as pessoas tinham como viver, não é não? Hoje parece que além do oxigênio agente tem que respirar informação. Todo mundo sabe de tudo mas é tudo superficial, a gente até lê tudo na hora mas não sabe a dor do monge que fez imolação no Nepal.
Trecho da música “Segredos da Levitação” de André Abujamra

Me sinto muito constrangido em roubar o tempo de você Leitor com meus textos. São tantos canais na TV, tantas páginas na internet, tantas redes sociais e aplicativos. Como André Abujamra diz em sua música ‘Segredos da Levitação’: “a gente até lê tudo, mas é tudo superficial”. O que assistir? O que ler? O que ouvir? O que acessar? Como ser seletivo? É tanta coisa que eu posso morrer sem ter visto o meu verdadeiro filme favorito. Sem ouvir uma banda que poderia me agradar mais do que qualquer outra. É muito material e pouco tempo. Pitty escreveu muito recentemente um texto bem interessante em seu blogue sobre não querer contribuir para o entulho do que ela chama de “mar de links”. Meu constrangimento nasce disso. Com tantas informações para assimilar para quê contribuir ainda mais com esse montante? Cada filme/livro/disco lançado já nasce inflacionado. Mas como ficar calado nessa zorra? Se todos falam, eu também quero falar e ser ouvido. No entanto, sou eu quem escolho minhas prioridades, assim como vocês escolhem as suas. E como vocês me leem por livre e espontânea vontade, eu prefiro ficar com essa falsa sensação de consciência tranquila. Me despeço aqui desses vinte e três mini-textos que acabaram formando um aterro ideológico de ideia nenhuma. No fundo eu desejo que você tenha desistido de ler ainda no primeiro parágrafo. Até a próxima! Abraçaço.

como seria o mundo sem a bahia?

Para vocês que leram E se eu não tivesse escrito esse texto?, esse é o que eu posso chamar de parte dois. Vocês hão de me perguntar: mas Jaírlos, você não disse que iria evitar ficar pensando em coisas que não podem acontecer? Sim, eu evito, mas essa pergunta vai muito além de um simples “e se não existisse Bahia?”. É a mesma pergunta feita de um jeito diferente: você Leitor, já imaginou como seria o mundo sem a Bahia?

Eu pergunto, mas nem de longe sou a pessoa mais ideal para responder. Não sou baiano, entretanto tenho um fascínio enorme pela Bahia e só consigo pensar o quanto o mundo perderia sem ela e o quanto o Brasil seria mais pobre. Para começo de conversa, nosso cinema seria muito mais apagado e bem menos respeitado no mundo. O maior cineasta desse país foi e sempre será Glauber Rocha. Já imaginou a filmografia brasileira sem ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ e ‘Terra em Transe’?

E a dramaturgia seria igualmente modesta. Nosso cinema não teria Antonio Pitanga, Geraldo Del Rey e Othon Bastos. E o cinema marginal não teria Helena Ignez, sua maior estrela. A nova geração também perderia grandes nomes como Lázaro Ramos e Wagner Moura. Você consegue imaginar outra pessoa como Capitão Nascimento?

Não teríamos Milton Santos e Carlos Marighella, e nem os escritores Gregório de Matos, Castro Alvez, João Ubaldo Ribeiro e Jorge Amado. Não teríamos Gabriela, nem Dona Flor e nem seus dois maridos. E o que dizer de Tieta? Consegue sentir como o nosso imaginário popular seria bem mais carente?

E quando o assunto é música, caríssimos, o prejuízo seria ainda maior. Só para início de conversa, não teríamos Tom Zé, Caetano Veloso e Gilberto Gil. A pergunta que fica disso é a seguinte: teria existido tropicalismo? E tem mais, todos sabemos do caso da bossa nova com o Rio de Janeiro, é algo que não dá para negar, mas que fica difícil imaginar a bossa nova sem João Gilberto, fica.

Sem esses quatro a música brasileira já não seria o que é, mas a facada não para por aí, ainda temos (ou não teríamos) Dorival Caymmi, Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Carlinhos Brown e Waldick Soriano. E me diga, Leitor(a), o que é que a Bahia tem? Tem Gal Costa, Daniela Mercury, Astrud Gilberto, Ivete Sangalo, Karina Buhr, Maria Bethânia, Margareth Menezes e o que para mim é a cereja do bolo: as bandas de rock.

Muitos só conseguem enxergar os trios elétricos e se esquecem que Raul Seixas, o eterno pai do rock brasileiro era baiano. Além de Marcelo Nova que com o Camisa de Vênus fez história nos anos 80. Mas nem só de glórias passadas vive o rock baiano, além das bandas Cascadura, Vivendo do Ócio e Maglore, temos Pitty, que é a maior representante do rock da atualidade. Ela já está a mais de dez anos nesse posto e parece que ainda vai ficar por muito tempo nele.

Eu sei que eu esqueci de muita gente (alguns intencionalmente), afinal, não dá para passar o dia todo citando nomes e nomes. Eu me limitei a falar de quem gosto e acho que ainda assim deu para ter uma noção do estrago que seria para a nossa cultura. Agora vou me aquietar e prometo tentar não perturbar mais vocês com minhas súbitas crises de “e sismos”. Até a próxima.

Abraçaço

o ovo enjaulado das vespas mandarinas

Iniciei a semana muito puto porque a banda Vespas Mandarinas lançou seu primeiro CD e DVD ao vivo. Não sei vocês, mas quando uma banda que eu gosto lança material ao vivo eu particularmente fico triste. Um disco ao vivo para as bandas brasileiras significa um ou dois anos (até mais) de turnê de divulgação e um tempo enorme sem material inédito. Aconteceu algo bem parecido quando anunciaram o último DVD ao vivo da Pitty (A Trupe Delirante no Circo Voador). Quando ela lançou o Chiaroscuro em 2009, depois de quatro anos sem disco de estúdio, intercalado pelo ao vivo {Des}concerto, eu imaginava que em 2011 teríamos um novo disco de inéditas. Que nada! Até veio um álbum no final de 2011, mas era o do projeto Agridoce, que seguiu turnê pelo país para depois ela decidir lançar o SETEVIDAS, que veio com CINCOANOS de atraso. Isso fez com que a cantora quebrasse uma tradição conhecida pelos fãs, só lançando até então álbuns de estúdio em anos de números ímpares: Admirável Chip Novo (2003), Anacrônico (2005), {Des}concerto (2007), Chiaroscuro (2009), A Trupe Delirante no Circo Voador (2011) e Agridoce (2011).

Animal Nacional Ao Vivo

Mas essa birra com registros ao vivo se deve muito também ao fato de que, fazendo cinema, eu não posso usar essas músicas na trilha sonora de um filme. Simplesmente não funciona. E sobre isso tenho mais uma revolta: bandas que lançam músicas ao vivo sem nunca terem feito o registro em estúdio. Como o caso da versão de “Como Nossos Pais” de Daniela Mercury que só existe no DVD ao vivo. Nesse quesito, Pitty está de parabéns, todas as músicas lançadas em registros ao vivo (“Pulsos”, “Malditos Cromossomos”, “Comum de Dois”, “Se Você Pensa”) tiveram suas versões em estúdio liberadas.

Outra coisa que me deixa irritado são essas versões ao vivo que são melhores que as versões em estúdio. As versões ao vivo de “Malandragem” e “Por Enquanto” de Cássia Eller, por exemplo, são muito melhores que as de estúdio. E são as versões que ficaram consagradas na voz dela. Fica até ruim usá-las em uma trilha sonora com versões ao vivo tão boas e consagradas como essas. Isso também aconteceu com O Rappa, quando regravaram “Brixton, Bronx ou Baixada” e “Pescador de Ilusões” no DVD ao vivo. Tais versões dessas músicas são infinitamente melhores que as que estão nos discos O Rappa de 1994 e Rappa Mundi de 1996, respectivamente. Depois de lançadas eu nunca mais ouvi tocar as versões originais por onde quer que eu vá.

Enfim, chega de rodeios e voltemos às Vespas Mandarinas. Eles lançaram seu primeiro registro ao vivo chamado Animal Nacional Ao Vivo e eu fiquei indignado que tenham feito isso com apenas um álbum lançado, o Animal Nacional de 2013. Foi quando eu lembrei que antes do primeiro álbum eles já haviam lançado dois EPs (Da Doo Ron Ron de 2011 e Sasha Grey de 2012) e com isso possuíam músicas suficientes para um show de registro em DVD.

Pausa para eu falar mal dos EPs: eu sei que está virando moda aqui no Brasil as bandas lançarem EPs, e até entendo que é mais viável para as que estão começando e as já velhas que querem renovar um pouco o repertório, mesmo não possuindo ainda músicas suficientes para encher um disco. O fato é que sou guloso demais e EPs são muito pequenos para mim. Se com um álbum cheio eu já fico com gostinho de quero mais, com um EP então não dá nem para começar a se divertir.

Depois de lançarem o disco ao vivo, as Vespas Mandarinas soltaram um vídeo chamado O Ovo Enjaulado, um sinal que indica o lançamento de um álbum novo, embora eu possa estar enganado. Enquanto eles não abrem o jogo para nós, vamos ouvindo o disco ao vivo que, mesmo eu não apoiando, ficou foda e ainda conta com a participação de Edgard Scandurra.