o cinema é nosso

“Eu vejo o futuro repetir o passado”. Esse trecho da música ‘O Tempo Não Para’ de Cazuza vem martelando em minha cabeça sempre que penso no cenário brasileiro atual. Sinto como se estivesse vivendo situações que só conhecia através dos livros de História, quando estudava os capítulos sobre ditadura militar e respirava aliviado por ter nascido em outra época. Nesses mesmos livros didáticos, muito se falava sobre a censura imposta a todo tipo de arte, embora a música, com o exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil, ganhasse sempre um aprofundamento maior. Não recordo de ler nada relacionado à repressão sofrida pelo cinema brasileiro. Isso eu fui aprender depois por conta própria.

Quando os militares derrubaram João Goulart (1919-1976), o então presidente democraticamente eleito, o cinema brasileiro vivia um importante momento de sua história. ‘O Pagador de Promessas’, de 1962, escrito e dirigido por Anselmo Duarte (1920-2009) e baseado na peça teatral homônima de Dias Gomes (1922-1999), havia ganhado a Palma de Ouro no Festival de Cannes, e o Cinema Novo havia acabado de nos brindar com três clássicos eternos da nossa cinematografia: ‘Vidas Secas’, de 1963, escrito e dirigido por Nelson Pereira dos Santos e baseado no livro homônimo de Graciliano Ramos (1892-1953), ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, de Glauber Rocha (1939-1981) e ‘Os Fuzis’, de Ruy Guerra, ambos de 1964. ‘Vidas Secas’ e ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ foram indicados à Palma de Ouro com grande repercussão internacional, enquanto que Ruy Guerra receberia o Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim por ‘Os Fuzis’.

O Cinema Novo, movimento iniciado ainda na década de 1950 e formado por artistas de esquerda, resultou no maior engajamento político da filmografia nacional. A vida precária no sertão e nas favelas, questões raciais e sociais, a fome e a miséria, foram fortemente denunciados e debatidos em dezenas e dezenas de filmes. Com o golpe militar, esses longa-metragens e seus realizadores passaram a ser perseguidos e censurados. Glauber Rocha, maior nome do movimento, foi exilado.

O Cinema Marginal surgiria nesse meio tempo e, enquanto os cinemanovistas eram perseguidos por sua forte ideologia política, os marginais eram censurados por criticarem o comportamento moralista. Os filmes eram verdadeiramente retalhados e cineastas como José Mojica Marins, que não fazia parte de nenhum dos dois movimentos, foram algumas das maiores vítimas da repressão. Marins teve de cortar dezenas de cenas e falas em seus filmes, chegando até mesmo a modificar finais para conseguir lançá-los. Assim como ‘Terra em Transe’, de 1967, de Glauber, seu longa-metragem ‘Ritual dos Sádicos’, de 1969, foi proibido em todo o território nacional, não chegando nem a ser lançado nos cinemas por ter quase todas as suas cópias apreendidas e queimadas. Recuperado em 1982, foi exibido apenas em mostras e festivais com o título de ‘O Despertar da Besta’. Falido, Mojica teve que dirigir filmes pornôs para não morrer de fome, o que destruiu sua carreira. Na década de 1990 foi redescoberto pelos americanos e conseguiu voltar a dirigir seus filmes de terror, mas o estrago já estava feito. Uma carreira que tinha tudo para ser meteórica foi minada pela censura da ditadura militar.

Em 1964, Eduardo Coutinho (1933-2014) ainda era um diretor de longas de ficção. Ele estava realizando na Paraíba o filme que contaria a história de João Pedro Teixeira, líder camponês da região, assassinado em 1962. O cineasta já estava filmando há duas semanas quando parte da equipe foi presa sob a alegação de comunismo. A produção foi interrompida e Coutinho teve que voltar a trabalhar com jornalismo. Somente dezessete anos depois o trabalho foi retomado, dessa vez, colhendo depoimentos dos camponeses que trabalharam nas primeiras filmagens, com foco principal na história da viúva de João Pedro, dona Elizabeth Altino Teixeira que, desde 1964, teve que viver na clandestinidade, separada dos filhos. Lançado em 1984, ‘Cabra Marcado Para Morrer’ é até hoje o melhor e mais importante documentário brasileiro de todos os tempos.

Somente em 1975, com a abertura política, os filmes conseguiram uma liberdade maior para abordar temáticas que não agradavam ao governo, sendo lançados com poucos ou até mesmo nenhum corte. Por ter um público infinitamente maior que o do cinema, a censura voltou sua atenção para a televisão. No entanto, mesmo os filmes liberados sem cortes eram censurados quando transmitidos na TV. ‘Pixote: A Lei do Mais Fraco’, de 1980, do diretor Hector Babenco (1946-2016), só foi liberado para a telinha cinco anos depois e com trinta e oito cenas censuradas. Com o fim do regime militar, a censura acabou e os filmes dessa época puderam ser assistidos na íntegra em todo o território nacional.

Os vinte e um anos do regime militar foram o período mais sombrio já vivido pelas criações artísticas brasileiras, um verdadeiro desprezo pela informação e liberdade de expressão. Ao ler essas histórias, parece tudo muito absurdo, mas estamos de fato repetindo o passado. Temos o Congresso mais conservador desde 1964, ano do golpe militar. Hoje, assim como há cinquenta e dois anos atrás, vivemos mais um golpe, dessa vez, parlamentar, em que 367 deputados e 55 senadores anularam 54,5 milhões de votos. A imprensa, assim como em 1964, apoiou o golpe. Em 2013, apenas quarenta e nove anos depois, a Rede Globo se desculpou publicamente, classificando seu apoio ao golpe militar como um erro. No futuro, ela e tantos outros veículos de imprensa haverão de se desculpar novamente. Só espero que não demore outros quarenta e nove anos.

Todos os absurdos que eu lia nos livros de História começam a se repetir. Primeiro um golpe parlamentar derruba Dilma Rousseff, nossa presidenta democraticamente eleita. Depois, Michel Temer, em seu primeiro pronunciamento ao assumir o cargo, diz à nação brasileira: “Não fale em crise, trabalhe!” Qualquer semelhança com o “Brasil, ame-o ou deixe-o” não é mera coincidência. Depois, decreta o fim do Ministério da Cultura (recriado após calorosos protestos da classe artística). Não deu nem muito tempo para comemorar a volta do ministério quando seu novo ministro, Marcelo Calero, simplesmente decidiu exonerar a presidente da Cinemateca Brasileira, Olga Futemma, juntamente com outros quatro técnicos da instituição. A Cinemateca é responsável pela preservação da produção audiovisual brasileira. Dias depois, após forte apelo da classe cinematográfica, o Ministério da Cultura voltou atrás e manteve o emprego de Olga e dos outros quatro funcionários.

Nesse meio tempo, a equipe do filme ‘Aquarius’, do diretor Kleber Mendonça Filho, protestou contra o impeachment da presidenta Dilma no tapete vermelho do Festival de Cannes, em que concorreu a Palma de Ouro depois de oito anos sem um representante brasileiro na disputa oficial. O último filme nacional a concorrer ao prêmio havia sido ‘Linha de Passe’, de Walter Salles e Daniela Thomas, em 2008. O ministro Calero criticou o protesto e disse que os membros da equipe do filme “estão comprometendo [a imagem do país] em nome de uma tese política, e isso é ruim. Eu acho até um pouco totalitário, porque você quer pretender que aquela sua visão específica realmente cobre a imagem de um país inteiro. Eu acho que a democracia precisa ser respeitada e acho que é um desrespeito falar em golpe de Estado com aqueles que viveram o golpe realmente, o de 1964. Pessoas morreram. E as pessoas esquecem isso. Então eu acho [o protesto] de uma irresponsabilidade quase infantil”. Sônia Braga, que interpreta a protagonista do filme, rebateu: “Como pode um Ministro dizer que um ato democrático como o nosso é a representação de um País inteiro? Isso é desconhecimento do que significa plena democracia. Se estivéssemos falando em nome de todos não precisaríamos, evidentemente, fazer o ato. Uma coisa é certa: estamos juntos. O Ministro da Cultura ofendendo artistas é inadmissível. O senhor está nesse cargo para dialogar, para nos ajudar, para fazer a ponte com quem nos explora. A propósito, as críticas para Aquarius foram fabulosas. Quatro estrelas em jornais franceses, italianos, poloneses, russos e três citações no The New York Times. Ponto grande para a imagem da cultura brasileira no exterior. Senhor Ministro, não podemos perder as nossas conquistas. Sobretudo a mais importante delas, o respeito”. Desde então, o filme vem sofrendo uma forte perseguição política.

A repressão ao longa só ficou ainda mais evidente quando o Ministério da Justiça o proibiu para menores de dezoito anos, alegando conter situações sexuais complexas. Assisti ao filme e considerei a classificação um abuso. As três cenas de sexo de ‘Aquarius’ duram cada uma menos de trinta segundos. Filmes recentes do cinema nacional, como ‘Tatuagem’, de 2013, escrito e dirigido por Hilton Lacerda, e ‘Boi Neon’, de 2016, escrito e dirigido por Gabriel Mascaro, possuem longas cenas de sexo explícito e foram classificados como impróprios para menores de dezesseis anos. Usando esses exemplos como argumento, Silvia Cruz, sócia da distribuidora Vitrine Filmes, em uma reunião com Gustavo Marrone, secretário nacional de Justiça e Cidadania, pediu a reconsideração da classificação estabelecida. O Ministério da Justiça aceitou o pedido de revisão feito pela distribuidora e o filme acabou lançado como impróprio para menores de dezesseis anos. Em 1964, ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ foi lançado sem cortes, no entanto, foi proibido para menores de dezoito anos. Quem já viu o filme de Glauber sabe o quão isso é absurdo. Quem assistir ‘Aquarius’ também vai considerar a classificação do filme bastante incoerente. Todos sabemos que uma classificação máxima prejudica muito a vida de um filme, que acaba por ter seu leque de público muito reduzido, prejudicando inclusive sua arrecadação com bilheteria, e é justamente isso que o governo está tentando fazer: evitar que as pessoas assistam ao novo filme de Kleber Mendonça Filho. Na França, por exemplo, a produção recebeu a classificação livre para todos os públicos.

Até agora, ‘Aquarius’ conseguiu reverter bem as perseguições que o Ministério da Cultura tem feito contra o longa. Nos primeiros quatro dias de exibição, o filme conseguiu uma bilheteria de cinquenta e cinco mil espectadores, sendo o melhor lançamento da semana em média por sala. No entanto, há um último desafio a ser vencido: ser o representante brasileiro na disputa do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Para a maioria dos profissionais, cinéfilos e críticos nacionais e internacionais, ‘Aquarius’ é o grande favorito, todavia, o Ministério da Cultura ainda tem mais uma carta na manga: o crítico Marcos Petrucelli (da rádio CBN e do site e-Pipoca), anunciado como integrante da comissão responsável pela seleção do representante nacional no Oscar. Petrucelli vem criticando duramente ‘Aquarius’ e especialmente seu diretor, Kleber Mendonça Filho, desde sua passagem no Festival de Cannes. A nomeação de Petrucelli (que confessou não ter visto o filme) é uma clara tentativa do governo de tirar a vaga do longa com o intuito de evitar mais um protesto político de sua equipe com repercussão internacional. Após a polêmica, dois integrantes, a atriz Ingra Lyberato e o diretor Guilherme Fiúza Zenha, se desligaram da comissão, sendo substituídos por Carla Camuratti e Bruno Barreto. Adriana Rattes, Luiz Alberto Rodrigues, George Torquato Firmeza, Paulo de Tarso Basto Menelau, Silvia Maria Sachs Rabello e Sylvia Regina Bahiense Naves são os demais integrantes da comissão. Em protesto, os diretores Gabriel Mascaro e Anna Muylaert retiraram da disputa seus filmes ‘Boi Neon’ e ‘Mãe Só Há Uma’, respectivamente.

O longa de Kleber Mendonça Filho concorrerá com outros dezesseis filmes para representar o Brasil no Oscar: ‘A Bruta Flor do Querer’ (Andradina Azevedo, Dida Andrade); ‘A Despedida’ (Marcelo Galvão); ‘A Hora e a Vez de Augusto Matraga’ (Vinícius Coimbra); ‘Até Que a Casa Caia’ (Mauro Giuntini); ‘Campo Grande’ (Sandra Kogut); ‘Chatô – O rei do Brasil’ (Guilherme Fontes); ‘Mais Forte Que o Mundo – A História de José Aldo’ (Afonso Poyart); ‘Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil’ (Belisário Franca); ‘Nise – O Coração da Loucura’ (Roberto Berliner); ‘O Começo da Vida’ (Estela Renner); ‘O Outro Lado do Paraíso’ (André Ristum); ‘O Roubo da Taça’ (Caíto Ortiz); ‘Pequeno Segredo’ (David Schürmann); ‘Tudo Que Aprendemos Juntos’ (Sérgio Machado); ‘Uma Loucura de Mulher’ (Marcus Ligocki Júnior); ‘Vidas Partidas’ (Marcos Schechtman). Nosso representante será anunciado na próxima segunda-feira (12/09), em cerimônia na Cinemateca Brasileira, em São Paulo.

Em seu livro ‘Revisão Crítica do Cinema Brasileiro’, Glauber Rocha dizia que a luta do Cinema Novo era contra a chanchada e o trust americano, e que era preciso salvar o cinema independente: “temos de salvar o cinema independente, temos de construir o cinema brasileiro com os independentes. Somente assim os diretores terão liberdade para criar filmes novos. […] Tudo é muito claro: o que se precisa é a união dos independentes contra o trust americano – a primeira batalha foi interna, contra a chanchada. A segunda é maior, é uma luta igual às outras da indústria brasileira e mais do que nunca, agora, este amadurecimento político de um povo necessita da legenda: o cinema é nosso, como no caso do petróleo.” O Cinema Novo, de fato, conseguiu derrubar a chanchada, mas nunca vencemos a invasão americana. Fosse hoje, Glauber diria que a luta deveria ser contra a comédia pastelão (a chanchada atual), a invasão americana e o boicote do governo ilegítimo.

O cinema é nosso, assim como todas as outras formas de expressão artística. Não podemos deixar que censores virjões tramem boicotes a obras de arte bem debaixo do nosso nariz. É preciso abrir os olhos: a mídia quase sempre está contra nós e suas crias, como Reinaldo Azevedo, da “Revista” Veja, sempre escreverão barbaridades como as que ele escreveu: “o dever das pessoas de bem é boicotar Aquarius”. Bem, confesso que não boicotei, assisti e gostei muito. Estou convicto de que vi um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos. A ideia que os golpistas fazem de moral e bons costumes aos meus olhos são conservadoras e preconceituosas, um retrocesso sem fim. Querem voltar para a idade da pedra. Pessoas do “mal”, uni-vos! Vejam ‘Aquarius’!

o selo de qualidade dos vira-latas

Em 16 de julho de 1950, a nossa seleção de futebol perdeu a partida para a seleção uruguaia na final da Copa do Mundo realizada no Brasil. A derrota aconteceu em pleno Maracanã, o que contribuiu ainda mais para o forte trauma sofrido pelos brasileiros. Nelson Rodrigues escreveu então um texto* sobre o ocorrido, em que falou pela primeira vez sobre o complexo de inferioridade do nosso povo, que ele chamou de “complexo de vira-lata”. Dizia ele no texto: Por “complexo de vira-lata” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima.

Para Rodrigues, o fenômeno não se limitava somente ao campo futebolístico, até porque o Brasil se recuperaria do complexo de inferioridade no futebol com a conquista da Copa do Mundo de 1958. Estou falando sobre isso porque no próximo dia 28 acontece a cerimônia do Oscar e estamos concorrendo na categoria de Melhor Animação com o filme ‘O Menino e o Mundo’ (2013), do diretor Alê Abreu. Desde a indicação, vejo amigos meus, dentre eles, tanto quem não entende de cinema, quanto quem entende e estuda o assunto, assistindo ao filme de maneira ensandecida. Prestigiei a produção pela primeira vez ano passado – para ser mais preciso, no dia 6 de fevereiro. Todavia, desde 2014 que eu já queria vê-lo. Acho ótimo que o estejam assistindo, afinal, o filme é realmente bom e merece estar entre os cinco indicados. No entanto, se tem uma coisa que eu tenho certeza é que, muitos desses meus amigos (e pessoas por esse Brasilsão a fora) não o veriam se ele não tivesse sido indicado ao Oscar. Esse pensamento é explicado pelo fato de que a maioria dos brasileiros já não gosta do cinema nacional em live-action (termo utilizado no cinema, teatro e televisão para definir os trabalhos que são realizados por atores reais), que dirá um filme de animação, gênero em que o país não possui forte tradição.

Acontece, caríssimo Leitor, que a indicação de um filme para o Oscar é visto como um selo de qualidade pelo povo brasileiro: “se os gringos acham que é bom, então é porque é”. Mas não precisa ser necessariamente um Oscar, qualquer prêmio internacional já é o suficiente para que o público comece a prestar atenção, ou você realmente acha que se o filme ‘Que Horas Ela Volta?’ (2015), da diretora Anna Muylaert, não tivesse vencido o Sundance na categoria especial de Atuação para Regina Casé e Camila Márdila, teria acontecido toda essa repercussão? Muito provavelmente não, o que me deixa muito triste, porque o filme é realmente bom e levantou questões muito importantes que, de fato, precisam ser debatidas urgentemente pela sociedade brasileira. Mesmo com esse prêmio e outros importantes, o filme de Muylaert (que já havia sido transmitido na TV por assinatura) ficou engavetado pela Rede Globo na esperança do filme conseguir a indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A Rede Globo sabe, assim como sabem todos os veículos de comunicação desse país que, se o filme fosse indicado, aumentaria a curiosidade dos brasileiros e, por consequência, a audiência quando o filme fosse exibido. Quando a Academia divulgou a prévia dos nove filmes estrangeiros que concorreriam e ficamos sabendo que a produção protagonizada por Regina Casé estava de fora, em poucos dias ele foi exibido na Tela Quente para aproveitar que ainda era assunto na boca do povo. Deu certo, o filme conseguiu marcar a ótima média de 22 pontos de audiência. O índice foi quatro pontos maior do que a média do último mês, na mesma faixa.

Se olharmos para o passado, veremos que sempre foi assim. Nosso querido José Mojica Marins, criador do personagem Zé do Caixão, era tido como louco, mas foi só vencer o Festival Internacional de Cinema Fantástico e de Horror em Sitges, na Espanha, com seu filme ‘O Estranho Mundo de Zé do Caixão’ (1968), que a imprensa brasileira começou a enxergar (ainda que a contragosto) o gênio por detrás da capa preta. O mesmo festival ainda lhe homenagearia anos depois com uma menção honrosa pelo conjunto de sua obra e por grandes serviços prestados ao cinema de horror. Também anos depois, dessa vez na França, Mojica participou da 3° Convenção de Cinema Fantástico, realizada em Paris. No encerramento do festival, ele ganhou o troféu L’Écran Fantastique também pelo conjunto de sua obra. Na década de 1990, Mojica ainda seria descoberto pelos fãs de terror nos EUA, onde ficaria conhecido como Coffin Joe. Hoje é ídolo cult, mas dificilmente o seria sem o reconhecimento internacional. Em 1998, André Barcinski e Ivan Finotti publicaram ‘Maldito’, biografia de Mojica. Quem escreveu o prefácio do livro foi Rogério Sganzerla (outro brasileiro que não recebeu o devido reconhecimento de seus compatriotas) ainda vivo na época. Bem no início do texto, Sganzerla aponta: “Mojica deu tudo de si para construir uma obra, perfeitamente assimilada e reconhecida no exterior. Mas não passa de um estrangeiro em seu próprio país, devido à omissão generalizadora da maioria de seus pares – pois tudo se perdoa nos trópicos, menos a inteligência e a criatividade”.

Ademais, como se não bastasse todo esse descaso com o cinema nacional, o mesmo ainda acontece com a música brasileira. Tom Zé talvez seja o nosso maior exemplo desta perspectiva. Se David Byrne não o tivesse descoberto e lançado seus discos no exterior, o Pai da Invenção (como Tom Zé é conhecido internacionalmente) estaria hoje trabalhando como frentista em um posto de gasolina de seu sobrinho, em Irará. Não desmerecendo a profissão dos frentistas (que é tão digna quanto qualquer outra), mas Tom Zé estaria exercendo amargamente essa profissão pelo simples fato de não conseguir viver da própria arte no Brasil. Usando as palavras de Sganzerla como exemplo, por que a obra de nossos melhores artistas é perfeitamente assimilada e reconhecida no exterior, e no Brasil não? Seria uma sequela do terceiro mundismo? Hoje Tom Zé finalmente goza de prestígio em nosso país e consegue viver dos shows que faz e dos discos que vende, mas só depois de conquistar o “selo de qualidade” imposto pelo público brasileiro. Ainda fico na dúvida se a música de Tom Zé é realmente assimilada por todos que dizem admirá-lo ou se o fazem só porque os primos distantes do primeiro mundo ditam a moda. Se realmente assimilam, por que esperar que os países desenvolvidos o façam primeiro? Que espírito de colonizado é esse? Quando nós poderíamos estar recolonizando o mundo com a nossa arte, esperamos que os outros países exportem-na primeiro para depois “venderem” aqui. Nunca conseguirei entender isso.

Outro exemplo musical é Os Mutantes, considerada por muitos (me incluo nesse grupo) como a maior banda brasileira de rock de todos os tempos. Rita Lee e os irmãos Baptista só conquistaram prestígio no Brasil após se apresentarem na Europa e os jornais europeus se curvarem ao seu som. No livro ‘A Divina Comédia dos Mutantes’, biografia da banda publicada pela primeira vez em 1995, pelo escritor Carlos Calado, encontramos um trecho que expressa isso muito bem: Como costuma acontecer nessas ocasiões, a imprensa brasileira fez coro com os elogios dos estrangeiros. Até então tratados com ironias e preconceitos por boa parte da mídia nacional, pela primeira vez Os Mutantes foram enaltecidos como verdadeiros representantes da música popular brasileira. Afinal, a Europa havia se curvado frente aos “nossos” garotos…

Também não esqueçamos de nossos compatriotas que olham enviesado para nossa literatura só por não possuir um prêmio Nobel. Como se realmente precisássemos disso para afirmar que a literatura brasileira é uma das melhores do mundo, com autores incríveis e traduzidos em todos os continentes. É verdade que todos esses prêmios trazem prestígio para um país e ajudam a divulgar os seus artistas, mas não podemos depender disso para nos orgulhar da arte feita aqui. Não podemos depender de uma visão de fora para decidir o que é bom ou ruim. Não precisamos de um Nobel para provar que Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, José de Alencar, Lima Barreto, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Lygia Fagundes Telles, Manuel Bandeira entre tantos outros, são gênios de sua arte. O prêmio nem existia quando alguns dos maiores escritores de todos os tempos já haviam escrito suas obras-primas. Não, não precisamos de um Nobel! Um prêmio criado pelo inventor da dinamite e que acumulou uma das maiores fortunas de sua época com suas fábricas de armamentos não pode ser selo de qualidade para ninguém. Inclusive com sua categoria da Paz.

Outro fato que pouca gente lembra (ou talvez faça questão de esquecer, tamanha foi a ignorância), é que se hoje a bossa nova é foda, não foi esse o pensamento quando João Gilberto surgiu no final de década de 1950. Esse que é indiscutivelmente um dos gênios da música brasileira, foi chamado de desafinado, sem ritmo, ventríloquo. Contudo, o final da história todo mundo conhece: sua música ultrapassou todas as fronteiras possíveis e, claro que depois de entrar para a seleta lista de brasileiros detentores do prêmio Grammy (o Awards e não o Latino), incluindo um de Álbum do Ano (!), viria a se tornar unanimidade em seu país. Anos depois, Tom Zé apresentaria em sua música “Vaia de Bêbado Não Vale” a interessante tese de que a bossa nova inventou o Brasil. Na música ele canta: “no dia em que a bossa nova inventou o Brasil / no dia em que a bossa nova pariu o Brasil / teve que fazer direito / teve que fazer Brasil / criando a bossa nova em 58 / o Brasil foi protagonista / de coisa que jamais aconteceu / pra toda a humanidade / seja na moderna História / seja na História da Antiguidade […] / quando aquele ano começou, nas / Águas de Março de 58, / o Brasil só exportava matéria-prima / essa tisana / isto é o mais baixo grau da capacidade humana / e o mundo dizia: / que povinho retardado / que povo mais atrasado […] / a surpresa foi que no fim daquele mesmo ano / para toda a parte / o Brasil d’O Pato / com a bossa-nova, exportava arte / o grau mais alto da capacidade humana / e a Europa, assombrada: / que povinho audacioso / que povo civilizado.” Como Tom Zé muito bem apresentou em sua música, o Brasil deixava de exportar matéria-prima (café) para exportar arte (música). O mundo se curvava para um país que, até pouco tempo, era muito pouco conhecido. Muito se falava, mas pouco se sabia, de fato. O Brasil entrava com pé direito para a história da música mundial, de onde nunca mais saiu, estando, desde então, na lista dos países que produzem a melhor música do mundo.

Quando tento pensar em brasileiros pouco premiados no exterior, mas altamente reconhecidos em seu país, Eduardo Coutinho é um dos poucos exemplos que me vem à mente. Embora reconhecido internacionalmente, Coutinho nunca ganhou um prêmio de grande expressão. Entretanto, no meio cinematográfico brasileiro, é o que chamamos de unanimidade. Morreu gozando de grande prestígio entre a crítica e fãs de documentários. Não precisou de um Oscar para que os brasileiros o reconhecessem como um reinventor do gênero documental. O que significa que ainda temos salvação. A bossa nova já provou que podemos ser um povo audacioso e civilizado aos olhos das outras nações. Não precisamos nos impor um selo de qualidade. Vamos enxergar com nossos próprios olhos o que temos de melhor sem esperar que alguém de fora faça isso por nós. ‘O Menino e o Mundo’, com ou sem Oscar, já merece destaque na história da cinematografia brasileira, mas se o prêmio de Melhor Animação servir para dar um fim a esse complexo de vira-lata do cinema nacional, desejo então boa sorte no próximo dia 28. Mas lembrando sempre: não precisamos disso!

* Nelson Rodrigues. “Complexo de vira-lata”. In: À sombra das chuteiras imortais: crônicas de futebol. São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p. 51.

cinefolia

Primeiramente, me perdoem o neologismo infame do título. Acredito que ninguém deve estar lendo esse post, afinal é carnaval. Devem estar todos bêbados. Assim sendo, resolvi publicar esse texto fora de época (não esqueça que na esmagadora maioria das vezes, só escrevo aqui nas segundas-feiras). Por consequência, posso confessar sem medo: eu adoro esse feriado! Afinal, ele me proporciona uma grande folga do mundo. E o que eu faço? Bebo até cair, claro! Mentira. Fico em casa fazendo o que mais gosto. Esse ano não vai ser diferente. Ficarei trancado no meu quarto, feliz da vida assistindo a filmes e lendo. Nesses dias de folia, só o cinema e a literatura me completam.

Na verdade, nunca comemorei o carnaval, pois nunca o entendi. Nunca me senti parte dele. Tenho certo que neste período as pessoas celebram a vida, a alegria, mas eu só festejo a alegria quando tenho motivo. Não deixa de ser verdade que estou sempre feliz no carnaval. É um feriado longo. Isso me deixa muito feliz. Acredito até que, de certa forma, comemoro também, só que do meu jeito, deixando a rotina frenética do dia a dia um pouco de lado.

Ainda assim, me intriga essa alegria sem motivo que surge do nada. Não entendo como o Brasil repentinamente se transforma num país livre de problemas, onde ninguém parece enxergar o absurdo que é as prefeituras gastarem fortunas do dinheiro público para promoverem festas de carnaval em suas cidades. Sem contar os municípios que possuem festas de pré-carnaval, que acontecem praticamente depois da virada do ano (como é o caso da minha localidade). Todavia, se ninguém se importa com as festas multimilhonárias de ano novo, não é de se espantar que vão fechar os olhos para o carnaval, assim como vão ignorar a epidemia de vírus zika que estamos sofrendo e que vai desaparecer dos noticiários durante o feriado. A festa com certeza merece mais destaque do que a epidemia, assim como a Copa das Confederações de 2013 mereceu mais destaque que as manifestações de junho do mesmo ano e assim como a conquista da Copa do Mundo de 1970 foi o suficiente para muita gente esquecer que vivia em um regime militar. Sou brasileiro, amo o Brasil, entendo a importância dessas festas populares, mas não me conformo que o governo e a grande mídia as usem como uma estratégia para manter a massa ocupada. Até hoje o circo sempre falou mais alto que o pão.

Porém, voltando às minhas experiências carnavalescas, sinto dizer que de todos esses anos a única lembrança diferente que tenho do carnaval foi uma saída que fiz com meus amigos de ensino médio. Fomos à praia e depois comer algo que eu não lembro mais o que era. Em todos os outros anos fiquei em casa. Geralmente costuma chover na minha cidade na época do carnaval. Entra ano, sai ano e, todas as lembranças que tenho do carnaval são da minha rua toda molhada. Céu fechado e chuva, inclusive nessa saída com os amigos. Nsse ano, espero que chova de novo. Djavan tem razão: dias frios são bons para se ler. Além do mais, todo ano é a mesma coisa: as pessoas vão beber, dançar, beber, encontrar o amor de suas vidas ou trair o amor de suas vidas, beber, viajar, entre outras coisas semelhantes, todas ao som de músicas que objetificam a mulher ou exaltam carro e bebida, além das que não falam sobre nada, abarrotadas de onomatopeias sem sentido claro.

Quando criança, eu tinha medo do carnaval. Sempre existiam (e ainda existem) as pessoas que passavam do ponto. Que bebiam todas, excedendo o limite. Que brigavam ou morriam. Na infância, o pai de um amigo meu faleceu em decorrência de uma confusão no último dia do carnaval. Sem contar os muitos amigos que se acidentaram nessa data em anos diferentes. Não é a toa que este é o feriado em que mais pessoas morrem no trânsito. Também não me agrada nem um pouco sair na rua para ver os homofóbicos e transfóbicos que passam o ano todo destilando o seu preconceito, vestidos de mulher, assim como não gosto da programação da TV aberta. Se existe um conselho que posso dar nesta época, é esse: não liguem a televisão, esse veículo de comunicação maravilhoso que, em prol da tradicional família brasileira, continua reforçando o tabu de um simples beijo entre pessoas do mesmo sexo ao mesmo tempo em que aceita exibir mulheres seminuas (algumas vezes nuas mesmo), objetificando-as cada vez mais.

Ademais, toda essa discussão começou porque eu estava lembrando um dos meus filmes favoritos (essa lista de filmes favoritos é extensa), que se passa justamente no carnaval: ‘Orfeu Negro’ (1959), do diretor Marcel Camus, baseado na peça teatral ‘Orfeu da Conceição’, de Vinicius de Moraes. Trata-se de uma produção brasileira, falada em português, que ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1960. Contudo, como o diretor era francês, o Oscar foi para o seu país de origem, o que é um absurdo. Foi com ele na cabeça que lembrei a refilmagem que Cacá Diegues fez em 1999, intitulado ‘Orfeu’. Embora Diegues diga que não é um remake do filme original, não deixa de ser uma refilmagem da peça de Vinicius (o blogue 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer fez uma resenha sobre a peça). Vendo por esse lado, o filme de 1999 ficou muito aquém da primeira versão, que é um verdadeiro clássico do cinema brasileiro de todos os tempos.

Por que diabos essa mania de refilmar os clássicos? Parece-me que a única função das refilmagens é para que falemos que o original é melhor. Tudo bem, antes mesmo que vocês venham me mostrar refilmagens melhores que as originais (reconheço que elas existem, afinal, eu mesmo gosto de algumas), é preciso concordar também que a grande maioria delas é ruim (ou menos melhor, se preferirem). Esse é o único caso em que a comparação dos filmes pode de fato apontar um melhor (e, mesmo assim, pode haver discordâncias), já que, embora sejam filmes realizados em datas diferentes, por diferentes profissionais, ainda assim contam a mesma história. Nos festivais de cinema, em que vários filmes competem entre si pelo prêmio de melhor filme, a escolha do melhor é sempre muito subjetiva. Eu posso concordar ou não com a escolha do vencedor, assim como o próprio júri pode divergir sobre quem deve ganhar. Numa maratona, quem chega primeiro vence porque foi mais o rápido, assim como numa partida de basquete vence a equipe que marcar mais pontos. Mas e no cinema? Como comparar filmes tão diferentes e ainda assim dizer que um é melhor do que o outro? Por esse motivo, tenho prestigiado muito mais as mostras de cinemas do que os festivais. As mostras são como um amistoso de futebol que não vale nenhum título, mas ainda assim as pessoas vão para prestigiar o espetáculo. Os festivais são um campeonato oficial, em que a rivalidade impera. Nesse caso vale tudo, inclusive falar mal do filme dos outros em prol do seu favorito. Mas eu estava falando das refilmagens. Continuando:

Deixem os clássicos em paz! Se são clássicos, é porque já são bons, não precisa mexer. É muito melhor que os novos diretores façam seus próprios clássicos. Já imaginou uma refilmagem de ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’? Não gosto nem de pensar. E uma refilmagem de ‘Cidade de Deus’? Ou uma de ‘Central do Brasil’ com outra atriz no lugar de Fernanda Montenegro no papel de Dora? Felizmente, no nosso país são poucos os casos de refilmagens. Acho ótimo, espero que continue assim. Não é porque os gringos precisam revirar constantemente seu próprio acervo por falta de boas histórias que devemos fazer o mesmo. O público agradece.

Se você chegou até aqui, caríssimo Leitor, você muito provavelmente comemora o carnaval às avessas, assim como eu. Mas saiba que não vou roubar mais seu tempo. Voltarei para os meus filmes. Bom carnaval para quem é de carnaval! E não esqueça: se beber, não dirija e use sempre camisinha. Ah, e se você for homem, respeite as mulheres, nada de beijo forçado. Não é não. Até a próxima, abraçaço

os dez melhores livros que li em 2015

Saímos de 2015, mas 2015 não saiu de nós. Mesmo que você, Leitor, não tenha realizado grandes feitos em sua vida nesse ano que se passou (esse foi o meu caso), assim como eu, viu muitas coisas acontecerem no nosso país e no mundo. Grandes ídolos morreram, grandes filmes e discos foram lançados. Novos escândalos de corrupção vieram à tona, ataques terroristas foram realizados, aconteceram diversos eventos esportivos, eventos culturais e festivais de música. Vivemos para ver tudo de bom e de ruim que ocorreu no ano passado. Seja com esses eventos globais ou especificamente localizados, 2015 fará para sempre parte da nossa tragetória, afinal, passamos por ele e estamos aqui para contar a história. Trata-se de um ano que particularmente me marcou pelas leituras que fiz. O conhecimento adquirido no ano passado é algo que vai continuar comigo para o resto da vida, algo que ninguém pode me tirar. Parece um tremendo clichê, mas é verdade. Também foi o ano em que mais li na minha vida: quarenta e seis livros, um total de onze mil novecentas e cinquenta e oito páginas, com média de trinta e três páginas por dia segundo meu perfil no Skoob. Infelizmente, não contei as páginas dos livros para saber se esses números estavam corretos (afinal, sou de humanas), mas resolvi escrever um post sobre os dez melhores livros que li ano passado. São eles, em ordem alfabética:

Discos

Título: Discos
Autor: Arnaldo Cohen, Céline Imbert, Eduardo Giannetti, Lia Rodrigues, Luiz Tatit, Marcelo Coelho, Tom Zé
Primeira publicação: 2003
Minha edição: PubliFolha

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‘Discos’ era um livro que tinha na minha estante já fazia certo tempo, mas que só ano passado resolvi ler. Achava que não ia gostar da leitura, mas me enganei redondamente. O livro me fisgou logo na primeira página. Nele, sete autores dissertam sobre os dez discos que levariam para uma ilha deserta. Sou apaixonado por listas, por isso devo ter gostado tanto de ler algumas feitas por pessoas que admiro, sem contar que, ao longo dos seus mais de setenta capítulos, acaba se tornando um ótimo livro para se pegar dicas de discos para ouvir. Este também foi o livro que me fez conhecer o grande Luiz Tatit. Falei sobre isso em um dos primeiros posts do Satãnatório: o ‘eterno ignorante, parte 1’.

Elite da Tropa

Título: Elite da Tropa
Autor: Luiz Eduardo Soares, André Batista, Rodrigo Pimentel
Primeira publicação: 2005
Minha edição: Objetiva

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Gosto muito do filme ‘Tropa de Elite’ (2007), do diretor José Padilha, e admito que esse livro chegou até mim graças à sua adaptação cinematográfica. No princípio, não tive vontade nenhuma de ler ‘Elite da Tropa’, pois acreditava que devia ser muito parecido com o longa-metragem. Todavia, depois de saber que muitos detalhes são diferentes na obra impressa, decidi ler e me surpreendi. Constatei que, de fato, neste caso, livro e filme parecem ser duas coisas totalmente distintas, incluindo aqui a estrutura narrativa. O escrito está dividido em duas partes. A primeira conta histórias sobre o Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), considerado um esquadrão de elite na Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Baseado em relatos reais de ex-policiais do BOPE, o livro mostra os oficiais como uma tropa aparentemente incorruptível e extremamente violenta. Desse momento inicial foram retirados os personagens do filme e algumas histórias que o compõe. Contudo, a segunda parte, que fala sobre o plano para assassinar Leonel Brizola, na época governador do Rio de Janeiro, é o suprassumo do livro, e nada disso está no longa. Esta outra seção com certeza daria um excelente roteiro se fosse adaptado para o cinema. Já havia falado da minha edição do livro no post ‘livros sebosos’.

Encontros Tom Zé

Título: Encontros – Tom Zé
Autor: Tom Zé, Heyk Pimenta
Primeira publicação: 2011
Minha edição: Azougue

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Primeiro tenho que contar como encontrei essa pérola. Jorge du Peixe, vocalista da Nação Zumbi, publicou uma foto do livro em seu perfil no Instagram com a seguinte legenda: “Livrinho fuderoso da coleção Encontros. Entrevistas antológicas com Tom Zé, o mestre dos mestres e punk mais original do Brasil.” Dias depois, eu já estava com o livro em mãos e me segurando para não ler de uma só vez. Sempre fico triste após terminar de ler uma boa publicação por completo. Quando mais tempo eu convivo com o livro, melhor. Mesmo assim, terminei logo, tanto por ser curto, quanto por ser sobre Tom Zé. Tenho que concordar com du Peixe, o livro é mesmo fuderoso.

Estação Carandiru

Título: Estação Carandiru
Autor: Drauzio Varella
Primeira publicação: 1999
Minha edição: Companhia das Letras

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Esse foi outro livro que cheguei através de um filme: ‘Carandiru’ (2003) de Hector Babenco. A obra de Drauzio Varella é um dos poucos casos em que um sucesso editorial, verdadeiro fenômeno de vendas realmente vale a pena ser lido. Vencedor do Prêmio Jabuti em 2000 na categoria Livro do Ano de Não-Ficção, a publicação conta a experiência de Varella como médico voluntário, a partir de 1989, na Casa de Detenção de São Paulo, onde realiza atendimento em saúde, especialmente na prevenção da AIDS. No post ‘livros sebosos’ também falei sobre a minha edição desse livro.

O Centauro no Jardim

Título: O Centauro no Jardim
Autor: Moacyr Scliar
Primeira publicação: 1980
Minha edição: Companhia de Bolso

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Esse foi meu primeiro livro de Moacyr Scliar, constituindo o suficiente para que eu me tornasse um grande admirador da sua escrita criativa. A obra mistura elementos fantásticos em uma trama muito instigante, contando a estória do centauro Guedali, um ser metade homem, metade cavalo. O blogue 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer fez uma excelente resenha sobre esse livro.

O Guarani

Título: O Guarani
Autor: José de Alencar
Primeira publicação: 1857
Minha edição: Martin Claret

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Meu primeiro contato com a história do livro veio com a ópera de mesmo nome do compositor Carlos Gomes e depois com o filme ‘O Guarani’ (1996), da diretora Norma Bengell. Anos depois, minha irmã ganhou um exemplar do romance, que acabou me dando por não gostar. Eu também acabei o abandonando por não conseguir me envolver com o enredo. Entretanto, no ano passado, resolvi dar mais uma chance a ele e acabei me apaixonando, principalmente por sua parte final. Assim que concluí a leitura, assisti a outra versão cinematográfica do livro, ‘O Guarani’ (1979), do diretor Fauzi Mansur, que supera a outra produção citada. A primeira adaptação do livro para o cinema aconteceu em 1912, em um filme mudo hoje considerado perdido.

O Que é Isso, Companheiro?

Título: O Que é Isso, Companheiro?
Autor: Fernando Gabeira
Primeira publicação: 1979
Minha edição: Companhia de Bolso

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Mais um livro que cheguei através de um filme, dessa vez foi ‘O Que é Isso, Companheiro?’ (1997), do diretor Bruno Barreto, que representou o Brasil no Oscar de 1998, sendo indicado ao prêmio de melhor filme estrangeiro. Até pouco tempo atrás, eu evitava ler livros que eram adaptados para o cinema, tentando focar em histórias que eu ainda não conhecia. Ainda bem que parei com isso, até porque o filme de Barreto é inspirado apenas no 15° capítulo do livro de Gabeira, o trecho que diz respeito ao sequestro do embaixador norte-americano. O livro é um ótimo depoimento sobre quem viveu na pele o terror da ditadura militar brasileira. Super indico a obra para os politicamente alienados que saíram às ruas no ano passado pedindo a volta do regime militar. O blogue 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer também fez uma ótima resenha sobre ele.

O Réu e o Rei

Título: O Réu e o Rei
Autor: Paulo Cesar de Araújo
Primeira publicação: 2014
Minha edição: Companhia das Letras

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Se não me engano, esse é o maior livro dessa lista e o que li mais rápido. Eu já sabia como terminava a história de Paulo Cesar de Araújo com Roberto Carlos, mas queria saber os detalhes. No livro, o autor fala sobre a polêmica proibição de seu livro anterior, a biografia ‘Roberto Carlos em Detalhes’. ‘O Réu e o Rei’ não é uma nova biografia sobre o cantor, mas sim um relato sobre a relação do autor com Roberto. Durante a leitura ainda ficamos conhecendo a história de amizade entre Paulo Cesar de Araújo e João Gilberto, sem dúvida a maior surpresa do livro.

Secreções, Excreções e Desatinos

Título: Secreções, Excreções e Desatinos
Autor: Rubem Fonseca
Primeira publicação: 2001
Minha edição: Companhia das Letras

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Esse foi meu primeiro livro lido em 2015. É um compêndio de contos e constituiu meu segundo título de Rubem Fonseca, depois de ‘O Caso Morel’. Com essa obra, rapidamente descobri porque ele é considerado um dos melhores contistas deste país. O primeiro conto da coletânea, ‘Copromancia’, se tornou um dos meus textos favoritos e, assim como todos os outros que a compõe, a cada parágrafo lido, eu imaginava como ficariam ótimos se fossem adaptados para o cinema.

Tropicalista Lenta Luta

Título: Tropicalista Lenta Luta
Autor: Tom Zé
Primeira publicação: 2003
Minha edição: PubliFolha

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Mais uma vez um livro do Tom Zé! Este, por sua vez, merece destaque por considerado sua biografia. ‘Tropicalista Lenta Luta’ tem capítulos escritos pelo próprio cantor e compositor, contando sobre sua infância em Irará, acerca de sua formação e ida a São Paulo, discutindo o ostracismo e muitas outras curiosidades de sua vida. Ademais, esses capítulos são curtos e não se aprofundam o suficiente como as biografias convencionais (embora não sejam superficiais, pois Tom Zé nunca é superficial naquilo que escreve). Grande parte do livro é formada pelas letras de seus discos, contendo também cartas e uma extensa entrevista concedida a Luiz Tatit e Arthur Nestrovski. Trata-se de um livro indispensável para aqueles que, como eu, são grandes fãs do Pai da Invenção. Citei esse livro no post ‘vinte e três’ e foi também uma parte dele que me inspirou a escrever o texto ‘meu útero’.

E então, caríssimo Leitor, já leu algum desses livros? Gostou? Não gostou? Pretende ler algum? Me conta!