nostalgia

Semana passada, estava eu deitado em minha cama, lendo, quando meu cérebro fez um download dos meus treze anos. O livro era ‘Doidinho’, de José Lins do Rego (1901-1957), um romance que estou lendo pela primeira vez e que tem como protagonista o garoto Carlinhos (também figura central de ‘Menino de Engenho’), apelidado nessa obra de Doidinho. O personagem está agora com doze anos de idade e até o final da história suponho que deva completar os treze – não sei, pois ainda não concluí a leitura. Porém, não creio que isso justifique a brincadeira que meu cérebro fez comigo. Sigo acreditando que foi apenas uma grande coincidência.

‘Doidinho’, publicado pela primeira vez em 1933, narra as experiências de Carlinhos como interno em um colégio severo. Mesmo aos doze anos, Carlinhos não é mais um garoto inocente, já tendo realizado até mesmo suas primeiras experiências sexuais – coisa que eu, aos treze, ainda nem sonhava em ter. Com essa idade eu estava fazendo outras descobertas, e a música era uma delas.

Foi aos treze anos que a música entrou de verdade em minha vida, ou seja, muito tarde. Antes disso, minha memória musical é quase nula. Pouquíssimas canções possuem o poder de me deixar com saudade da infância e as que conseguem isso constituem um pequeno número de sucessos do passado que inevitavelmente ouvi através da televisão. Algumas delas são músicas dos Mamonas Assassinas ou da Xuxa que, ao ouvir novamente hoje em dia, me fazem retornar imediatamente ao meu passado, me deixando imensamente feliz por terem sido essas as músicas que ouvi quando criança. Tenho pavor só de imaginar a possibilidade de ser criado ao som de Patati Patatá.

Em minha casa, tínhamos um aparelho de rádio que funcionou por pouco tempo, embora que, mesmo depois de quebrado, tenha sido deixado por meu pai anos e anos sobre a estante da sala. Só recordo de ouvir música nele uma vez, quando meu pai o sintonizou em alguma estação e minha irmã e eu, ainda muito pequenos, pulamos ao som de uma música que eu não lembro qual era.

Ainda aos treze anos, quando eu cursava a sétima série do ensino fundamental, redescobri a TV União. Eu já tinha conhecimento de sua existência, mas foi só nessa idade que me viciei nela. A programação do canal local era e ainda é quase que inteiramente dedicada à transmissão de videoclipes. Hoje, encaro de forma benéfica o fato de até essa época não ter construído nenhuma bagagem musical. Como meus pais não apreciam música, acabei crescendo sem ouvir nada, porém, tive a vantagem de não ter sido influenciado pelo gosto musical dos outros. Aos treze anos, era como se meus ouvidos fossem virgens. Eu haveria de descobrir por conta própria minhas preferências musicais, e foi justamente isso que aconteceu. Imediatamente descobri que o rock e eu estabeleceríamos um relacionamento para a vida toda.

O programa da TV União que eu mais gostava era um chamado Top Mais, que ainda existe. Nele são exibidos os dez videoclipes mais pedidos na programação. Eu simplesmente adorava. Era transmitido das onze da manhã ao meio dia, de segunda a sábado, pois no domingo eles faziam um especial. Os telespectadores enviavam cartas com os seus dez videoclipes favoritos e, em cada domingo, eles sorteavam um felizardo que teria seu pedido atendido. Escrevi várias cartas, mas nunca cheguei a enviar, pois era incapaz de selecionar apenas dez videoclipes. Depois de algum tempo, o programa mudou de horário, passando a ser transmitido do meio dia às treze horas da tarde, o que complicou para o meu lado. Eu estudava no turno da tarde e a aula começava justamente às treze horas. Depois dessa mudança, eu só conseguia assistir do décimo ao quarto colocado e saía correndo para o colégio. Perdia o pódio com os três mais votados. Entretanto, minha melhor amiga na época morava perto do colégio e conseguia assistir tudo. Ela sempre me contava o que eu havia perdido quando nos encontrávamos na aula. Atualmente, não sei mais qual o horário exato do programa e nem se continuam fazendo esse especial aos domingos.

A banda Luxúria foi a primeira que considerei como favorita em minha vida. O videoclipe da música ‘Imperecível’ ficou por muito tempo entre os mais pedidos da programação. Depois lançaram ‘Lama’, que, juntamente com ‘Ódio’, foram suas músicas mais conhecidas – pois tocaram em novelas. Pouco tempo depois, a banda acabou e a vocalista, Megh Stock, seguiu em carreira solo. Megh chegou a lançar dois álbuns: ‘Da Minha Vida Cuido Eu’, em 2009, e ‘Minha Mente Está em Seu Caos’, em 2011. No entanto, ela está longe dos palcos desde então e sem previsão de volta. As músicas do Luxúria, bem mais do que as dos discos solos de Megh, são muito nostálgicas para mim. Foram elas que, na semana passada, baixaram repentinamente em meu cérebro durante a leitura de ‘Doidinho’. No momento em que isso aconteceu, interrompi a leitura e fui assistir aos videoclipes da banda pelo celular. Quanta saudade!

Luxúria não passou muito tempo no posto de minha banda favorita. Logo ela seria substituída por outras conforme fui descobrindo grupos melhores e com sons mais pesados, porém, nesse curto espaço de tempo, eu me lembro de ter tido aulas com uma excelente professora de geografia que também era roqueira. Ela tinha uns quarenta anos (ou menos) e usava sempre lentes de contato coloridas, embora as vermelhas e as cinzas fossem as que ela usasse com mais frequência. Certo dia, perguntei-lhe se conhecia a banda Luxúria e ela respondeu que não, mas que já tinha ouvido falar e que queria experimentar seu som. Prometi então de lhe gravar um CD com o único álbum da banda lançado em 2006, mas ela acabou saindo do colégio antes que eu lhe entregasse o presente. Meses depois, nos chegava a notícia de que ela havia morrido de overdose. Quem nos contou foi um colega de sala que era vizinho dela. Fiquei muito triste quando soube.

Ouvi muito os discos solos de Megh também, mas isso foi no período em que eu cursava o ensino médio, já na adolescência. Ainda existia o programa de mensagens instantâneas do MSN. Praticamente todos os amigos virtuais que fiz são dessa época. Hoje, o Skype cumpre bem a função do seu antepassado que, convenhamos, era uma bagunça, embora eu veja com saudosismo as funções de chamar atenção e saber o que os amigos estão ouvindo. Estou falando disso porque existia algo no MSN chamado subnick, mais conhecido como “digite sua indireta aqui”. Todo mundo colocava letras de músicas com a ilusão de encobrir a verdadeira intenção da mensagem e todos fingiam que acreditavam. Nós passávamos vergonha e nem sabíamos. Eu adorava usar trechos de músicas da Megh: “não apodreça, ninguém vai reparar”, “mas o que você me faz me dando todos os sinais de que agora eu acertei?”, “daria um pedaço do meu medo pra saber se você tem coragem”, “se eu me escondo aqui nesse lugar tranquilo não se esqueça que pro caos eu tô partindo”. Quem nunca? Faz só três anos que o MSN desativou seu programa de mensagens instantâneas, mas por eu ter deixado de usá-lo antes mesmo do fim, tenho a sensação de que foi há um século.

O meu eu roqueiro de anos atrás não veria com bons olhos o também fã de Tropicália e MPB de hoje. Há anos que eu não ouvia Luxúria e Megh Stock – se não fosse essa lembrança repentina, talvez passasse muitos outros anos sem ouvir novamente. Escrevi esse texto ouvindo essas canções. Elas, juntamente com muitas outras, marcaram minha adolescência que, ao contrário da infância, foi extremamente musical. Gostaria, inclusive, que Megh gravasse um disco novo e voltasse a fazer shows. Eu, que nunca tive a oportunidade de vê-la ao vivo, iria adorar.

Um detalhe é que essa revisitação me serviu para descobrir que eu cantava a letra de ‘Dúvidas’ errado. No trecho “muitas vezes eu te desviei da meta” eu sempre cantei “muitas vezes eu te desviei da merda”. Essa não foi a única: eu também cantava ‘Lama’ de forma errada, já que no trecho “tira essa lama das botas” eu cantava “tira essa lama das portas”. No entanto, o erro de ‘Lama’ eu descobri bem lá no início, na adolescência mesmo. Confesso que prefiro minha versão errada de ‘Dúvidas’. Enfim, vou encerrar por aqui porque ‘Doidinho’ não vai terminar de se ler só. Até a próxima, abraçaço.

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odeio datas comemorativas

Bem que o título do texto poderia ser “odeio certas datas comemorativas”, mas achei que só “odeio datas comemorativas” chamaria mais atenção, então ficou assim. Porém, antes de iniciar de fato, gostaria de excluir de antemão as datas de aniversário – não que eu as ame, pois nunca comemoro quando fico um ano mais velho. É bem verdade que meus pais nunca me fizeram festinhas de aniversário, e isto, na infância, foi um drama, mas é algo que já superei. De toda forma, não vejo muitos motivos para comemorar um ano a mais que, na prática, significa um ano a menos. Sei que queremos viver o máximo possível (ou não), e que atingir uma idade avançada é uma vitória (ou não), mas ao mesmo tempo em que vivemos cada vez mais, teremos cada vez menos dias pela frente. Também gostaria de excluir desse texto de ódio o dia da mulher, o dia da consciência negra, o dia do índio, e tantas outras datas importantes que existem para nos conscientizar de algo. Enfim, dito isso, podemos começar.

Odeio datas comemorativas: dia dos pais, dia das mães, dia das crianças, páscoa, dia dos namorados, natal. Todas elas com o intuito de nos fazer consumir, diferentemente das datas citadas no parágrafo acima, que existem para nos vender pensamentos, pois nos fazem refletir sobre algum acontecimento ou situação que devemos mudar. É bem difícil fugir dessas datas organizadas pelo comércio, podendo elas muitas vezes nos causar constrangimento e até mesmo sofrimento sem que nos demos conta.

Na infância, foram pouquíssimos os anos em que meus pais tiveram condições de comprar ovos de páscoa para mim e minha irmã. Sei que os religiosos hão de dizer que esse não é o sentido da data e que devemos comemorar a ressurreição de Cristo e blá blá blá, mas tente explicar isso para uma criança que vê por todos os lados a celebração do coelhinho da páscoa e não de Jesus. Junto à minha irmã, sofri por não ganharmos chocolate enquanto todas as outras crianças esbanjavam seus doces e, embora nunca tenham dito nada, sei que meus pais sofreram também por não estarem em condições financeiras de comprar o maldito ovo. Tudo culpa do comércio que fez disso uma tradição, subvertendo totalmente o sentido dessa data religiosa. Hoje, é como se a páscoa não existisse para mim, primeiro porque sou ateu, e segundo porque não como mais chocolate. O mesmo vale para o natal, mas as duas, aliadas ao capitalismo, continuam oprimindo muitas pessoas, religiosas ou não.

Ainda quando criança, eu tive de enfrentar o famigerado 12 de outubro, que também não foi uma data muito comemorada por mim, mesmo que meus pais nunca tenham deixado passar em branco. Acontece que eles se aproveitavam do dia das crianças para nos comprar roupas e calçados. Juntamente com a festa de final de ano, essa era uma das poucas ocasiões em que ganhávamos roupas novas e todos nós sabemos que, com pouca idade, tudo o que queremos ganhar são brinquedos. Não conseguia considerar as roupas como presentes de dia das crianças porque não era o que todos os meus amigos ganhavam. Enquanto isso, minhas roupas novas ficavam guardadas à espera de compromissos teoricamente importantes, como as festas de aniversário dos outros.

Minha irmã, que nasceu em um dia 13 de outubro, coitada, só ganhava um presente pelas duas datas. No entanto, justiça seja feita, tínhamos brinquedos, embora nunca fossem caros – minha irmã tinha suas bonecas enquanto eu os meus bonecos (nunca gostei muito de carros). Porém, eles quase nunca eram adquiridos no dia das crianças, e sim em outras datas do ano, quando meu pai tinha algum dinheirinho extra. Alguns anos atrás, minha mãe me confessou que se sentia triste por nunca ter comprado uma ótima boneca para minha irmã e que, hoje, quando ela tem condições para fazer isso, minha irmã já é uma mulher.

Tento lembrar dos anos em que meus pais se esforçaram para nos dar roupas e brinquedos no dia das crianças, mas só consigo me recordar de uma ocasião, embora eu acredite que tenham acontecido outras vezes. Foi um ano em que meu pai nos comprou celulares de mentira, eles eram pretos e reproduziam sons diferentes em cada botão. Contudo, ganhávamos brinquedos de tios e tias às vezes e, em um belo dia, parei de recebê-los: havia deixado de ser criança. Não sei quantos anos eu tinha, se onze ou doze. Minha irmã, mais nova que eu, continuou a ganhar por alguns anos e, mesmo eu ainda me considerando uma criança, tive que, à revelia, me enxergar como um adolescente.

De forma alguma eram só nessas datas que minha irmã e eu sofríamos. Em maio, havia o dia das mães e em agosto, outra aflição com o dia dos pais. Criança não trabalha, logo, não tem dinheiro. Se uma criança presenteia alguém é porque algum adulto pagou por isso. Durante todo o tempo em que minha irmã e eu não trabalhamos para ganhar nosso próprio dinheiro, meu pai nunca tinha algum sobrado para que pudéssemos comprar algo no dia das mães e minha mãe também nunca tinha dinheiro para que pudéssemos presentear nosso pai em agosto. Todo esse martírio se repetia nas datas de aniversário deles e, mesmo criança, eu me sentia muito constrangido por dar sempre uma cartinha ou um bilhete. Finalmente, hoje esse constrangimento acabou.

O dia dos namorados é duplamente cruel. Nesta data, quando você não está namorando, é inevitável não se sentir carente enquanto todos os outros parecem estar felizes com seus parceiros e parceiras. Só passei a comemorar o dia dos namorados há três anos. Durante duas décadas, nunca estive namorando alguém no dia 12 de junho. Batia sempre aquele sentimento de azar no amor. De toda forma, foi importantíssimo para que eu aprendesse o verdadeiro valor de amar a si mesmo. Não dá para amar alguém se você não se amar primeiro – é um clichê, mas é verdade. Ao estar namorando no dia dos namorados, data criada apenas para estimular o consumo, acabamos criando toda uma expectativa para comemorar um dia perfeito. É aquela obrigação de dar o melhor presente, de sairmos e ainda realizar a melhor transa da vida. Toda essa expectativa praticamente só gera frustração e basta que apenas uma coisinha não aconteça conforme o planejado para que se estrague tudo. Já não basta o aniversário de namoro? Tem que existir duas datas para se comemorar a mesmíssima coisa?

Quando minha mãe aniversaria, além de presenteá-la e comemorar mais um ano ao seu lado, festejo o fato dela ser minha mãe. O mesmo vale para o meu pai. É para isso que servem os aniversários. Recentemente, novas datas estão começando a virar tradição: o dia do amigo, do irmão, dos avós e por aí vai. Muito em breve, o comércio estará se apossando delas e agregando-as ao seu calendário de datas comemorativas. Virão promoções e, logo logo, serão datas comerciais também. Não vejo sentido no dia do irmão, do amigo e nem dos avós. Quando minha irmã faz aniversário, já comemoramos o fato de sermos irmãos, pois, se não fossemos, não estaríamos comemorando tal data juntos. O mesmo se aplica para os meus amigos e avós. Sem contar que prefiro muito mais os presentes que ganho em dias comuns (são tão mais sinceros!). Eu particularmente adoro presentear sem motivo.

Os dias dos pais e das mães já me foram cruéis e hão de ser ainda mais quando eles não estiverem mais vivos. Em julho deste ano, minha família comemorou o dia dos avós sem meu avô, que havia morrido apenas dois meses antes. Ano que vem, ele não estará comigo no dia de seu aniversário e a data de sua morte vai doer igualmente, porém, são datas privadas. Tem mesmo que existir o dia dos avós para me fazer, além do dia a dia, sentir uma enorme e dolorosa saudade dele? Que tipo de pessoa precisa de uma data marcada para expressar amor e gratidão aos entes queridos? É realmente necessário que essas datas existam? Sei que não temos como fugir de aniversários, mas não há motivos tão importantes assim para se criar datas para tudo. Prefiro o dia do livro, da árvore e do cinema brasileiro em detrimento ao dos avós e do irmão, mas não sou eu quem cria as datas comemorativas, infelizmente.