o cinema é nosso

“Eu vejo o futuro repetir o passado”. Esse trecho da música ‘O Tempo Não Para’ de Cazuza vem martelando em minha cabeça sempre que penso no cenário brasileiro atual. Sinto como se estivesse vivendo situações que só conhecia através dos livros de História, quando estudava os capítulos sobre ditadura militar e respirava aliviado por ter nascido em outra época. Nesses mesmos livros didáticos, muito se falava sobre a censura imposta a todo tipo de arte, embora a música, com o exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil, ganhasse sempre um aprofundamento maior. Não recordo de ler nada relacionado à repressão sofrida pelo cinema brasileiro. Isso eu fui aprender depois por conta própria.

Quando os militares derrubaram João Goulart (1919-1976), o então presidente democraticamente eleito, o cinema brasileiro vivia um importante momento de sua história. ‘O Pagador de Promessas’, de 1962, escrito e dirigido por Anselmo Duarte (1920-2009) e baseado na peça teatral homônima de Dias Gomes (1922-1999), havia ganhado a Palma de Ouro no Festival de Cannes, e o Cinema Novo havia acabado de nos brindar com três clássicos eternos da nossa cinematografia: ‘Vidas Secas’, de 1963, escrito e dirigido por Nelson Pereira dos Santos e baseado no livro homônimo de Graciliano Ramos (1892-1953), ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, de Glauber Rocha (1939-1981) e ‘Os Fuzis’, de Ruy Guerra, ambos de 1964. ‘Vidas Secas’ e ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ foram indicados à Palma de Ouro com grande repercussão internacional, enquanto que Ruy Guerra receberia o Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim por ‘Os Fuzis’.

O Cinema Novo, movimento iniciado ainda na década de 1950 e formado por artistas de esquerda, resultou no maior engajamento político da filmografia nacional. A vida precária no sertão e nas favelas, questões raciais e sociais, a fome e a miséria, foram fortemente denunciados e debatidos em dezenas e dezenas de filmes. Com o golpe militar, esses longa-metragens e seus realizadores passaram a ser perseguidos e censurados. Glauber Rocha, maior nome do movimento, foi exilado.

O Cinema Marginal surgiria nesse meio tempo e, enquanto os cinemanovistas eram perseguidos por sua forte ideologia política, os marginais eram censurados por criticarem o comportamento moralista. Os filmes eram verdadeiramente retalhados e cineastas como José Mojica Marins, que não fazia parte de nenhum dos dois movimentos, foram algumas das maiores vítimas da repressão. Marins teve de cortar dezenas de cenas e falas em seus filmes, chegando até mesmo a modificar finais para conseguir lançá-los. Assim como ‘Terra em Transe’, de 1967, de Glauber, seu longa-metragem ‘Ritual dos Sádicos’, de 1969, foi proibido em todo o território nacional, não chegando nem a ser lançado nos cinemas por ter quase todas as suas cópias apreendidas e queimadas. Recuperado em 1982, foi exibido apenas em mostras e festivais com o título de ‘O Despertar da Besta’. Falido, Mojica teve que dirigir filmes pornôs para não morrer de fome, o que destruiu sua carreira. Na década de 1990 foi redescoberto pelos americanos e conseguiu voltar a dirigir seus filmes de terror, mas o estrago já estava feito. Uma carreira que tinha tudo para ser meteórica foi minada pela censura da ditadura militar.

Em 1964, Eduardo Coutinho (1933-2014) ainda era um diretor de longas de ficção. Ele estava realizando na Paraíba o filme que contaria a história de João Pedro Teixeira, líder camponês da região, assassinado em 1962. O cineasta já estava filmando há duas semanas quando parte da equipe foi presa sob a alegação de comunismo. A produção foi interrompida e Coutinho teve que voltar a trabalhar com jornalismo. Somente dezessete anos depois o trabalho foi retomado, dessa vez, colhendo depoimentos dos camponeses que trabalharam nas primeiras filmagens, com foco principal na história da viúva de João Pedro, dona Elizabeth Altino Teixeira que, desde 1964, teve que viver na clandestinidade, separada dos filhos. Lançado em 1984, ‘Cabra Marcado Para Morrer’ é até hoje o melhor e mais importante documentário brasileiro de todos os tempos.

Somente em 1975, com a abertura política, os filmes conseguiram uma liberdade maior para abordar temáticas que não agradavam ao governo, sendo lançados com poucos ou até mesmo nenhum corte. Por ter um público infinitamente maior que o do cinema, a censura voltou sua atenção para a televisão. No entanto, mesmo os filmes liberados sem cortes eram censurados quando transmitidos na TV. ‘Pixote: A Lei do Mais Fraco’, de 1980, do diretor Hector Babenco (1946-2016), só foi liberado para a telinha cinco anos depois e com trinta e oito cenas censuradas. Com o fim do regime militar, a censura acabou e os filmes dessa época puderam ser assistidos na íntegra em todo o território nacional.

Os vinte e um anos do regime militar foram o período mais sombrio já vivido pelas criações artísticas brasileiras, um verdadeiro desprezo pela informação e liberdade de expressão. Ao ler essas histórias, parece tudo muito absurdo, mas estamos de fato repetindo o passado. Temos o Congresso mais conservador desde 1964, ano do golpe militar. Hoje, assim como há cinquenta e dois anos atrás, vivemos mais um golpe, dessa vez, parlamentar, em que 367 deputados e 55 senadores anularam 54,5 milhões de votos. A imprensa, assim como em 1964, apoiou o golpe. Em 2013, apenas quarenta e nove anos depois, a Rede Globo se desculpou publicamente, classificando seu apoio ao golpe militar como um erro. No futuro, ela e tantos outros veículos de imprensa haverão de se desculpar novamente. Só espero que não demore outros quarenta e nove anos.

Todos os absurdos que eu lia nos livros de História começam a se repetir. Primeiro um golpe parlamentar derruba Dilma Rousseff, nossa presidenta democraticamente eleita. Depois, Michel Temer, em seu primeiro pronunciamento ao assumir o cargo, diz à nação brasileira: “Não fale em crise, trabalhe!” Qualquer semelhança com o “Brasil, ame-o ou deixe-o” não é mera coincidência. Depois, decreta o fim do Ministério da Cultura (recriado após calorosos protestos da classe artística). Não deu nem muito tempo para comemorar a volta do ministério quando seu novo ministro, Marcelo Calero, simplesmente decidiu exonerar a presidente da Cinemateca Brasileira, Olga Futemma, juntamente com outros quatro técnicos da instituição. A Cinemateca é responsável pela preservação da produção audiovisual brasileira. Dias depois, após forte apelo da classe cinematográfica, o Ministério da Cultura voltou atrás e manteve o emprego de Olga e dos outros quatro funcionários.

Nesse meio tempo, a equipe do filme ‘Aquarius’, do diretor Kleber Mendonça Filho, protestou contra o impeachment da presidenta Dilma no tapete vermelho do Festival de Cannes, em que concorreu a Palma de Ouro depois de oito anos sem um representante brasileiro na disputa oficial. O último filme nacional a concorrer ao prêmio havia sido ‘Linha de Passe’, de Walter Salles e Daniela Thomas, em 2008. O ministro Calero criticou o protesto e disse que os membros da equipe do filme “estão comprometendo [a imagem do país] em nome de uma tese política, e isso é ruim. Eu acho até um pouco totalitário, porque você quer pretender que aquela sua visão específica realmente cobre a imagem de um país inteiro. Eu acho que a democracia precisa ser respeitada e acho que é um desrespeito falar em golpe de Estado com aqueles que viveram o golpe realmente, o de 1964. Pessoas morreram. E as pessoas esquecem isso. Então eu acho [o protesto] de uma irresponsabilidade quase infantil”. Sônia Braga, que interpreta a protagonista do filme, rebateu: “Como pode um Ministro dizer que um ato democrático como o nosso é a representação de um País inteiro? Isso é desconhecimento do que significa plena democracia. Se estivéssemos falando em nome de todos não precisaríamos, evidentemente, fazer o ato. Uma coisa é certa: estamos juntos. O Ministro da Cultura ofendendo artistas é inadmissível. O senhor está nesse cargo para dialogar, para nos ajudar, para fazer a ponte com quem nos explora. A propósito, as críticas para Aquarius foram fabulosas. Quatro estrelas em jornais franceses, italianos, poloneses, russos e três citações no The New York Times. Ponto grande para a imagem da cultura brasileira no exterior. Senhor Ministro, não podemos perder as nossas conquistas. Sobretudo a mais importante delas, o respeito”. Desde então, o filme vem sofrendo uma forte perseguição política.

A repressão ao longa só ficou ainda mais evidente quando o Ministério da Justiça o proibiu para menores de dezoito anos, alegando conter situações sexuais complexas. Assisti ao filme e considerei a classificação um abuso. As três cenas de sexo de ‘Aquarius’ duram cada uma menos de trinta segundos. Filmes recentes do cinema nacional, como ‘Tatuagem’, de 2013, escrito e dirigido por Hilton Lacerda, e ‘Boi Neon’, de 2016, escrito e dirigido por Gabriel Mascaro, possuem longas cenas de sexo explícito e foram classificados como impróprios para menores de dezesseis anos. Usando esses exemplos como argumento, Silvia Cruz, sócia da distribuidora Vitrine Filmes, em uma reunião com Gustavo Marrone, secretário nacional de Justiça e Cidadania, pediu a reconsideração da classificação estabelecida. O Ministério da Justiça aceitou o pedido de revisão feito pela distribuidora e o filme acabou lançado como impróprio para menores de dezesseis anos. Em 1964, ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ foi lançado sem cortes, no entanto, foi proibido para menores de dezoito anos. Quem já viu o filme de Glauber sabe o quão isso é absurdo. Quem assistir ‘Aquarius’ também vai considerar a classificação do filme bastante incoerente. Todos sabemos que uma classificação máxima prejudica muito a vida de um filme, que acaba por ter seu leque de público muito reduzido, prejudicando inclusive sua arrecadação com bilheteria, e é justamente isso que o governo está tentando fazer: evitar que as pessoas assistam ao novo filme de Kleber Mendonça Filho. Na França, por exemplo, a produção recebeu a classificação livre para todos os públicos.

Até agora, ‘Aquarius’ conseguiu reverter bem as perseguições que o Ministério da Cultura tem feito contra o longa. Nos primeiros quatro dias de exibição, o filme conseguiu uma bilheteria de cinquenta e cinco mil espectadores, sendo o melhor lançamento da semana em média por sala. No entanto, há um último desafio a ser vencido: ser o representante brasileiro na disputa do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Para a maioria dos profissionais, cinéfilos e críticos nacionais e internacionais, ‘Aquarius’ é o grande favorito, todavia, o Ministério da Cultura ainda tem mais uma carta na manga: o crítico Marcos Petrucelli (da rádio CBN e do site e-Pipoca), anunciado como integrante da comissão responsável pela seleção do representante nacional no Oscar. Petrucelli vem criticando duramente ‘Aquarius’ e especialmente seu diretor, Kleber Mendonça Filho, desde sua passagem no Festival de Cannes. A nomeação de Petrucelli (que confessou não ter visto o filme) é uma clara tentativa do governo de tirar a vaga do longa com o intuito de evitar mais um protesto político de sua equipe com repercussão internacional. Após a polêmica, dois integrantes, a atriz Ingra Lyberato e o diretor Guilherme Fiúza Zenha, se desligaram da comissão, sendo substituídos por Carla Camuratti e Bruno Barreto. Adriana Rattes, Luiz Alberto Rodrigues, George Torquato Firmeza, Paulo de Tarso Basto Menelau, Silvia Maria Sachs Rabello e Sylvia Regina Bahiense Naves são os demais integrantes da comissão. Em protesto, os diretores Gabriel Mascaro e Anna Muylaert retiraram da disputa seus filmes ‘Boi Neon’ e ‘Mãe Só Há Uma’, respectivamente.

O longa de Kleber Mendonça Filho concorrerá com outros dezesseis filmes para representar o Brasil no Oscar: ‘A Bruta Flor do Querer’ (Andradina Azevedo, Dida Andrade); ‘A Despedida’ (Marcelo Galvão); ‘A Hora e a Vez de Augusto Matraga’ (Vinícius Coimbra); ‘Até Que a Casa Caia’ (Mauro Giuntini); ‘Campo Grande’ (Sandra Kogut); ‘Chatô – O rei do Brasil’ (Guilherme Fontes); ‘Mais Forte Que o Mundo – A História de José Aldo’ (Afonso Poyart); ‘Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil’ (Belisário Franca); ‘Nise – O Coração da Loucura’ (Roberto Berliner); ‘O Começo da Vida’ (Estela Renner); ‘O Outro Lado do Paraíso’ (André Ristum); ‘O Roubo da Taça’ (Caíto Ortiz); ‘Pequeno Segredo’ (David Schürmann); ‘Tudo Que Aprendemos Juntos’ (Sérgio Machado); ‘Uma Loucura de Mulher’ (Marcus Ligocki Júnior); ‘Vidas Partidas’ (Marcos Schechtman). Nosso representante será anunciado na próxima segunda-feira (12/09), em cerimônia na Cinemateca Brasileira, em São Paulo.

Em seu livro ‘Revisão Crítica do Cinema Brasileiro’, Glauber Rocha dizia que a luta do Cinema Novo era contra a chanchada e o trust americano, e que era preciso salvar o cinema independente: “temos de salvar o cinema independente, temos de construir o cinema brasileiro com os independentes. Somente assim os diretores terão liberdade para criar filmes novos. […] Tudo é muito claro: o que se precisa é a união dos independentes contra o trust americano – a primeira batalha foi interna, contra a chanchada. A segunda é maior, é uma luta igual às outras da indústria brasileira e mais do que nunca, agora, este amadurecimento político de um povo necessita da legenda: o cinema é nosso, como no caso do petróleo.” O Cinema Novo, de fato, conseguiu derrubar a chanchada, mas nunca vencemos a invasão americana. Fosse hoje, Glauber diria que a luta deveria ser contra a comédia pastelão (a chanchada atual), a invasão americana e o boicote do governo ilegítimo.

O cinema é nosso, assim como todas as outras formas de expressão artística. Não podemos deixar que censores virjões tramem boicotes a obras de arte bem debaixo do nosso nariz. É preciso abrir os olhos: a mídia quase sempre está contra nós e suas crias, como Reinaldo Azevedo, da “Revista” Veja, sempre escreverão barbaridades como as que ele escreveu: “o dever das pessoas de bem é boicotar Aquarius”. Bem, confesso que não boicotei, assisti e gostei muito. Estou convicto de que vi um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos. A ideia que os golpistas fazem de moral e bons costumes aos meus olhos são conservadoras e preconceituosas, um retrocesso sem fim. Querem voltar para a idade da pedra. Pessoas do “mal”, uni-vos! Vejam ‘Aquarius’!

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sobre tempo e pessoas-livro

Se tem uma coisa que eu sempre vi e vejo nas redes sociais são as pessoas se dizendo entediadas. Sendo a internet um lugar de infinitas possibilidades, é cômico ver uma pessoa fazer uso dela para tornar público seu tédio quando seria muito mais produtivo usá-la para saná-lo. Faz tanto tempo que não sinto tédio que minhas últimas lembranças desse aborrecimento dizem respeito à mais tenra idade, quando meus dias eram longos, trancados dentro de casa sem o direito de brincar na rua com os outros garotos. Não há imaginação fértil que suprisse essa rotina. Uma hora ou outra o tédio se permitia vencer.

Hoje o tédio se tornou mesmo uma sensação alheia a mim. Como sempre tenho muita coisa para fazer e estou sempre inventando obrigações novas e como geralmente gosto das coisas que faço, acabo sofrendo é com a falta de tempo para concluir todos esses projetos. Sabe aquele tipo de pessoa que respira festas? Para quem final de semana é sinônimo de sair de casa? Que está sempre planejando a próxima saída? Então, eu não sou esse tipo de pessoa. Não que isso seja ruim. Como nunca fui assim, não posso fazer nenhum tipo de julgamento e mesmo se tivesse sido algum dia, acredito que não julgaria. Apenas sigo outro método que funciona melhor comigo. Meu negócio é ficar em casa. Se estudo ou trabalho a semana inteira, no final de semana meu objetivo de vida é ficar no meu quarto, na minha cama, com meus travesseiros, meus livros, meus filmes.

É difícil saber que tenho cada vez menos tempo para ler todos os livros que quero, ver todos os filmes que tenho vontade, viajar, ouvir música. O tempo passa rápido demais. O ano já entrou em contagem regressiva. Todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou e, ao contrário de Renato Russo, mesmo sendo tão jovem, não tenho todo o tempo do mundo. Já falei aqui em outro texto o quanto odeio perder tempo me locomovendo. Talvez seja esse o maior motivo que me faça preferir ficar em casa conspirando contra o mundo e engordando o cérebro e a barriga. Onde cabe o tédio nisso tudo?

Enquanto o tédio é a falta de coisas interessantes para fazer, a procrastinação é o adiamento das coisas a serem feitas (interessantes ou não). Claro que você, Leitor, sabe disso. Mas quero dizer que procrastino pelo prazer de procrastinar. Porque não fazer nada também tem o seu lado bom. É claro que depois eu saio feito louco correndo contra o relógio e chegará o dia em que não terei mais tempo para correr atrás do tempo perdido.

Gosto de festas, principalmente da comida que encontro nelas. Ademais, se passo muito tempo em alguma, já fico com vontade de ir para casa. Não consigo ver muito sentido em passar a noite toda bebendo e dançando. Não dá nem para aproveitar a companhia dos amigos porque todo mundo fica logo bêbado mesmo. Isso pode ser maravilhoso para outras pessoas, mas orgasmos fílmicos e literários me deixam muito mais feliz. Então a verdade é que evito sair de casa sempre que posso. Tenho ótimas desculpas para não ir a algum evento e geralmente fico muito feliz quando desmarcam um passeio para que eu possa ficar no meu aconchego. Detesto ficar pensando no tempo que estou perdendo. Passei a só aceitar convites de saídas de quem considero o que chamo de “pessoa-livro”, que é aquela pessoa que gosta de ler e tem uma conversa tão interessante que vale por uma leitura. Só assim para não sentir remorso por ter saído de casa. É o tipo perfeito para namorar. É por isso que eu sempre digo: namore quem lê, quem te dá livros e quem te apresenta autores que você não conhecia.

Então as pessoas normais chegam para mim e falam: “nossa você tem que sair de casa, se divertir”. O que elas não sabem é que eu me divirto justamente ficando em casa. Passo a semana inteira saindo, vendo pessoas, encontrando os amigos (nem sempre nos lugares mais apropriados para conversar), mas sempre socializando. É no tempo livre (como o próprio nome diz) que eu escolho o que considero ser melhor para mim. Sei muito bem que a vida pulsa mais forte lá fora, e justamente por não banalizar minhas saídas, quando vou ao cinema, numa exposição, à praia, numa livraria, num restaurante, qualquer lugar que seja, essa saída é sempre tão mais divertida. Lembro que quando trabalhava em frente à praia e passava todos dias por lá, ela começou a não ter mais tanta graça.

Voltando aos livros: gostaria de ler mais rápido. Muitas pessoas me falam de livros que leram em um final de semana ou até mesmo em um dia. A única vez que li um em um dia foi com ‘A Hora da Estrela’ de Clarice Lispector e ele é bem curtinho, ou seja, não há mérito nenhum nisso. Também tem os roteiros de filmes publicados posteriormente à sua exibição nos cinemas, o que também não levanta minha moral. Mas agora que falei de ‘A Hora da Estrela’, vou contar para vocês como Suzana Amaral decidiu filmá-lo. Ela contou isso em entrevista para o programa Sala de Cinema. Quando cursava a universidade de cinema, seu professor de roteiro lhe disse que, quando fosse adaptar um livro, nunca escolhesse um livro grande e sim um livro fininho, porque o grande é muito difícil de adaptar e o com o pequeno é possível se fazer uma recriação. Adaptar os grandes é se limitar a resumi-lo, fazendo disso um filme pobre. Eu não sei se concordo com ele, mas Suzana seguiu seu conselho. Como ela já tinha lido todos os livros de Clarice e gostava da escritora desde adolescente, decidiu que adaptaria o seu menor livro. Foi na biblioteca ver qual era e se deparou com a incrível história de Macabéa. E assim nasceu um dos clássicos do cinema nacional. Por que eu tô contando isso mesmo?

De toda forma, essa corrida contra o tempo não é o meu único drama. Sofro também com a ideia de que tudo isso não me serve de nada. Se vou mesmo morrer e virar pó debaixo da terra (não adianta tentar me convencer do contrário), para que ler? Ver filmes? Viajar? Eu vou morrer mesmo. De nada vai me servir. Estamos todos de passagem. Por que essa vontade de escrever, de fazer filmes, se eu vou morrer e não levarei nada comigo? Também não saberei e nem me interessa saber que fim levará tudo que deixarei. Certo que fazer tudo isso me proporciona um imenso prazer e, já que estou de passagem, melhor aproveitar da melhor forma que me convêm. Além disso, esse conhecimento adquirido nos livros me propicia um leque maior de assuntos para conversar com as pessoas. Ninguém merece ficar conversando sobre o clima, não é mesmo? Mas e daí? Felizes mesmo são os alienados que não sofrem com o Sistema, que não enxergam essa bancada conservadora que defende a redução da maioridade penal e a “cura” gay, que define como família apenas a união entre homem e mulher e tantos outros absurdos. Sinto-me de mãos atadas e com muito medo do Brasil de amanhã.

Para não concluir, prefiro pseudo-acreditar que um dia encontrarei um sentido para todas essas leituras, todas essas horas diante de uma tela, de tanto tempo dedicado à escrita e a escutar as músicas que insistem cada vez mais em dizer tudo o que quero. Não muito raramente, penso também no tempo desperdiçado escrevendo. Sei que continuarei riscando neste blogue ou em qualquer outro lugar. É terapêutico. Contudo, no fim, a frustração é tão grande… Parágrafos e mais parágrafos quando existem músicas de quatro minutos que se expressam muito melhor. Às vezes penso que devia fazer um blogue em que compartilharia apenas músicas com letras que dizem exatamente aquilo que eu estava pensando em dizer. Não sei se funcionaria, mas hoje deixo algumas músicas e a entrevista completa da Suzana Amaral. Até a próxima, abraçaço.

Legião Urbana – Tempo Perdido

Caetano Veloso – Oração ao Tempo

Pitty – Semana Que Vem

Cazuza – O Tempo Não Para

Pato Fu – Sobre o Tempo

Lulu Santos – Tempos Modernos

Sala de Cinema – Suzana Amaral