tempo bom

“Vamo brincá?” É o que ouço da afilhada de dois aninhos da minha irmã sempre que ela me vê. Essa é a única preocupação dela, brincar. Não se contenta em brincar sozinha, alguém tem que ficar brincando com ela o tempo todo, e se irrita quando não encontra um parceiro. O mundo para ela é um grande parque de diversões. Viver é brincar. Tempo bom. Não lembro como chegamos a esse assunto, mas, conversando com meu cunhado há algumas semanas atrás, começamos a falar dos desenhos que assistíamos quando crianças. Com quase dez anos de diferença separando nossos nascimentos, ele falava dos desenhos que assistia no final dos anos oitenta enquanto eu falava dos que via, quando criança, no final dos anos noventa e início dos anos dois mil. Ficamos alguns bons minutos citando o nome de vários desenhos para sabermos quais deles nós dois havíamos assistido. Com essa análise, cheguei à conclusão de que abandonei os desenhos cedo, assisti pouco, ou melhor, vi muitos desenhos em um pequeno período de tempo. Minha paixão por cinema nasceu prematura. Estudei até os nove anos no turno da manhã. Até essa época, minha única preocupação era sair correndo da aula para chegar em casa a tempo de ver os desenhos. Com dez anos, fui para o turno da tarde. Foi quando iniciei minha cinefilia. Minha única preocupação era não perder os filmes da sessão da tarde. Inventei muitas doenças para poder faltar aula durante esse período. Depois, mais crescido, descobri as sessões da madrugada. Tempo bom. Recentemente, conversando com uma amiga do ensino médio que não mora mais na cidade em que vivo, combinamos de nos encontrar em dezembro, quando ela vem visitar a família. Papo vai, papo vem, começamos a relembrar nossas histórias de colégio. Quando nos encontramos, fazemos mais isso do que qualquer outra coisa. Ao encerrarmos a conversa, ela nostalgicamente comenta: “tempo bom”. Entendemos por tempo bom o nosso passado, sem nos dar conta de que nosso presente um dia também será passado, e muito provavelmente sentiremos saudades dele. Sei que daqui a alguns anos, quando chegar aos trinta, terei por tempo bom minha fase atual, na casa dos vinte. Quando chegar aos quarenta, os trinta serão uma lembrança boa. Quando completar cinquenta, sessenta (se chegar até lá), sentirei que o tempo passou rápido demais. O grande arquiteto Paulo Mendes da Rocha costuma contar que, na festa de aniversário de noventa anos do também grandessíssimo arquiteto Oscar Niemeyer, ele lhe perguntou qual a sua idade, ao que Paulo respondeu: “setenta”. Ao ouvir isso, Oscar teceu o seguinte comentário: “essa é uma bela idade, noventa é uma merda”. Niemeyer viveria ainda catorze anos. É preciso viver o tempo bom enquanto ele está sendo bom. Não dá para reviver o que já passou. Nostalgia é apenas isso, nostalgia. Não faz sentido considerar o presente bom apenas no futuro, quando ele já for passado. Se o presente vai ser bom um dia, que seja hoje, agora.

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hoje eu acordei com rubem braga

“Hoje eu acordei com sono, sem vontade de acordar. O meu amor foi embora e só deixou pra mim um bilhetinho todo azul com seus garranchos”. Não era bem assim que eu pretendia iniciar esse texto, mas ao escrever “hoje eu acordei”, me veio à mente a letra de ‘Bilhetinho Azul’, do Barão Vermelho, música presente no primeiro álbum da banda lançado em 1982. Escrevi o texto ouvindo esse disco que eu adoro e que não escutava há bastante tempo. Sessão nostalgia.

Não deixa de ser verdade que hoje eu acordei com sono, afinal, eu acordo assim todos os dias. No entanto, ao levantar da cama, lembranças há muito perdidas em um passado distante despertaram também. Recordei do livro ‘200 Crônicas Escolhidas’, do escritor Rubem Braga (1913-1990), livro que ganhei ainda criança. Foi o primeiro título adulto que me lembro de ter lido, pois até então eu só havia consumido literatura infantil. O livro tem o selo de venda proibida do Ministério da Educação na capa. Ganhei-o de um tio que era professor na época – se ele o ganhou ou roubou, eu não sei, só sei que ele me deu e que eu o tenho até hoje. A capa, inclusive, tem o desenho de uma mulher nua lendo e, por isso, eu tinha vergonha de lê-lo na frente das pessoas. Se eu era criança, a minha irmã que é mais nova do que eu, era mais criança ainda, e achava a capa super engraçada.

200 Crônicas Escolhidas

Confesso que nunca entendi essa mulher nua na capa, mas o que interessa é que o li por anos e que foi lendo-o que eu tive vontade de ser escritor. A cada crônica lida, eu pensava que podia fazer igual. Fiquei apaixonado pelos textos, queria ser cronista. O primeiro blogue que tive na vida era dedicado ao gênero. Na época, eu não entendia porque lia e achava que era fácil escrever, mas hoje está claro que a genialidade de Rubem Braga fazia tudo parecer fácil, como os atletas de alto nível, que nos banham com a sensação de que é possível fazer igual. Não é que seja fácil, eles é que são bons demais.

Hoje eu não escrevo mais crônicas (eu acho), mas consigo ver uma influência muito forte do gênero em meus textos. Meu tio, que me deu esse livro, nem imagina que foi ele o responsável por despertar o amor pela leitura em mim. Antes mesmo de me dar esse do Braga, ele já havia me presenteado com vários outros, de gênero infantil. Serei eternamente grato e tratarei de contar isso para ele em breve. É uma pena que Rubem Braga não esteja mais entre nós para que eu possa lhe agradecer por me despertar o amor pela escrita. Nem quando eu li o livro seria possível, pois ele já havia morrido quando eu nasci.

Para escrever o texto, retirei da estante minha edição de ‘200 Crônicas Escolhidas’, que já está amarelada pelo tempo, para folhear. Não me lembro da última vez que fiz isso, tanto é que fiquei surpreso ao ver no sumário que eu havia marcado com um marca-texto amarelo, o título de vinte crônicas. Coisa que eu jamais faria hoje, pois não risco um livro nem que me paguem. Pelo título das crônicas marcadas, não consegui recordar se eram as que eu mais gostava. Isso eu vou descobrir em breve, pois pretendo relê-lo de cabo a rabo. Porém, achei estranho que a crônica que mais me marcou (pois me lembro dela até hoje) não estava sinalizada com marca-texto. Ela se chama ‘Rita’ e ironicamente se encontra na página de número duzentos desta edição – a reproduzi para vocês abaixo. Até a próxima, abraçaço.


RITA

No meio da noite despertei sonhando com minha filha Rita. Eu a via nitidamente, na graça de seus cinco anos.

Seus cabelos castanhos – a fita azul – o nariz reto, correto, os olhos de água, o riso fino, engraçado, brusco…

Depois um instante de seriedade; minha filha Rita encarando a vida sem medo, mas séria, com dignidade.

Rita ouvindo música; vendo campos, mares, montanhas; ouvindo de seu pai o pouco, o nada que ele sabe das coisas, mas pegando dele seu jeito de amar – sério, quieto, devagar.

Eu lhe traria cajus amarelos e vermelhos, seus olhos brilhariam de prazer. Eu lhe ensinaria a palavra cica, e também a amar os bichos tristes, a anta e a pequena cutia; e o córrego; e a nuvem tangida pela viração.

Minha filha Rita em meu sonho me sorria – com pena deste seu pai, que nunca a teve.

Janeiro, 1955

nostalgia

Semana passada, estava eu deitado em minha cama, lendo, quando meu cérebro fez um download dos meus treze anos. O livro era ‘Doidinho’, de José Lins do Rego (1901-1957), um romance que estou lendo pela primeira vez e que tem como protagonista o garoto Carlinhos (também figura central de ‘Menino de Engenho’), apelidado nessa obra de Doidinho. O personagem está agora com doze anos de idade e até o final da história suponho que deva completar os treze – não sei, pois ainda não concluí a leitura. Porém, não creio que isso justifique a brincadeira que meu cérebro fez comigo. Sigo acreditando que foi apenas uma grande coincidência.

‘Doidinho’, publicado pela primeira vez em 1933, narra as experiências de Carlinhos como interno em um colégio severo. Mesmo aos doze anos, Carlinhos não é mais um garoto inocente, já tendo realizado até mesmo suas primeiras experiências sexuais – coisa que eu, aos treze, ainda nem sonhava em ter. Com essa idade eu estava fazendo outras descobertas, e a música era uma delas.

Foi aos treze anos que a música entrou de verdade em minha vida, ou seja, muito tarde. Antes disso, minha memória musical é quase nula. Pouquíssimas canções possuem o poder de me deixar com saudade da infância e as que conseguem isso constituem um pequeno número de sucessos do passado que inevitavelmente ouvi através da televisão. Algumas delas são músicas dos Mamonas Assassinas ou da Xuxa que, ao ouvir novamente hoje em dia, me fazem retornar imediatamente ao meu passado, me deixando imensamente feliz por terem sido essas as músicas que ouvi quando criança. Tenho pavor só de imaginar a possibilidade de ser criado ao som de Patati Patatá.

Em minha casa, tínhamos um aparelho de rádio que funcionou por pouco tempo, embora que, mesmo depois de quebrado, tenha sido deixado por meu pai anos e anos sobre a estante da sala. Só recordo de ouvir música nele uma vez, quando meu pai o sintonizou em alguma estação e minha irmã e eu, ainda muito pequenos, pulamos ao som de uma música que eu não lembro qual era.

Ainda aos treze anos, quando eu cursava a sétima série do ensino fundamental, redescobri a TV União. Eu já tinha conhecimento de sua existência, mas foi só nessa idade que me viciei nela. A programação do canal local era e ainda é quase que inteiramente dedicada à transmissão de videoclipes. Hoje, encaro de forma benéfica o fato de até essa época não ter construído nenhuma bagagem musical. Como meus pais não apreciam música, acabei crescendo sem ouvir nada, porém, tive a vantagem de não ter sido influenciado pelo gosto musical dos outros. Aos treze anos, era como se meus ouvidos fossem virgens. Eu haveria de descobrir por conta própria minhas preferências musicais, e foi justamente isso que aconteceu. Imediatamente descobri que o rock e eu estabeleceríamos um relacionamento para a vida toda.

O programa da TV União que eu mais gostava era um chamado Top Mais, que ainda existe. Nele são exibidos os dez videoclipes mais pedidos na programação. Eu simplesmente adorava. Era transmitido das onze da manhã ao meio dia, de segunda a sábado, pois no domingo eles faziam um especial. Os telespectadores enviavam cartas com os seus dez videoclipes favoritos e, em cada domingo, eles sorteavam um felizardo que teria seu pedido atendido. Escrevi várias cartas, mas nunca cheguei a enviar, pois era incapaz de selecionar apenas dez videoclipes. Depois de algum tempo, o programa mudou de horário, passando a ser transmitido do meio dia às treze horas da tarde, o que complicou para o meu lado. Eu estudava no turno da tarde e a aula começava justamente às treze horas. Depois dessa mudança, eu só conseguia assistir do décimo ao quarto colocado e saía correndo para o colégio. Perdia o pódio com os três mais votados. Entretanto, minha melhor amiga na época morava perto do colégio e conseguia assistir tudo. Ela sempre me contava o que eu havia perdido quando nos encontrávamos na aula. Atualmente, não sei mais qual o horário exato do programa e nem se continuam fazendo esse especial aos domingos.

A banda Luxúria foi a primeira que considerei como favorita em minha vida. O videoclipe da música ‘Imperecível’ ficou por muito tempo entre os mais pedidos da programação. Depois lançaram ‘Lama’, que, juntamente com ‘Ódio’, foram suas músicas mais conhecidas – pois tocaram em novelas. Pouco tempo depois, a banda acabou e a vocalista, Megh Stock, seguiu em carreira solo. Megh chegou a lançar dois álbuns: ‘Da Minha Vida Cuido Eu’, em 2009, e ‘Minha Mente Está em Seu Caos’, em 2011. No entanto, ela está longe dos palcos desde então e sem previsão de volta. As músicas do Luxúria, bem mais do que as dos discos solos de Megh, são muito nostálgicas para mim. Foram elas que, na semana passada, baixaram repentinamente em meu cérebro durante a leitura de ‘Doidinho’. No momento em que isso aconteceu, interrompi a leitura e fui assistir aos videoclipes da banda pelo celular. Quanta saudade!

Luxúria não passou muito tempo no posto de minha banda favorita. Logo ela seria substituída por outras conforme fui descobrindo grupos melhores e com sons mais pesados, porém, nesse curto espaço de tempo, eu me lembro de ter tido aulas com uma excelente professora de geografia que também era roqueira. Ela tinha uns quarenta anos (ou menos) e usava sempre lentes de contato coloridas, embora as vermelhas e as cinzas fossem as que ela usasse com mais frequência. Certo dia, perguntei-lhe se conhecia a banda Luxúria e ela respondeu que não, mas que já tinha ouvido falar e que queria experimentar seu som. Prometi então de lhe gravar um CD com o único álbum da banda lançado em 2006, mas ela acabou saindo do colégio antes que eu lhe entregasse o presente. Meses depois, nos chegava a notícia de que ela havia morrido de overdose. Quem nos contou foi um colega de sala que era vizinho dela. Fiquei muito triste quando soube.

Ouvi muito os discos solos de Megh também, mas isso foi no período em que eu cursava o ensino médio, já na adolescência. Ainda existia o programa de mensagens instantâneas do MSN. Praticamente todos os amigos virtuais que fiz são dessa época. Hoje, o Skype cumpre bem a função do seu antepassado que, convenhamos, era uma bagunça, embora eu veja com saudosismo as funções de chamar atenção e saber o que os amigos estão ouvindo. Estou falando disso porque existia algo no MSN chamado subnick, mais conhecido como “digite sua indireta aqui”. Todo mundo colocava letras de músicas com a ilusão de encobrir a verdadeira intenção da mensagem e todos fingiam que acreditavam. Nós passávamos vergonha e nem sabíamos. Eu adorava usar trechos de músicas da Megh: “não apodreça, ninguém vai reparar”, “mas o que você me faz me dando todos os sinais de que agora eu acertei?”, “daria um pedaço do meu medo pra saber se você tem coragem”, “se eu me escondo aqui nesse lugar tranquilo não se esqueça que pro caos eu tô partindo”. Quem nunca? Faz só três anos que o MSN desativou seu programa de mensagens instantâneas, mas por eu ter deixado de usá-lo antes mesmo do fim, tenho a sensação de que foi há um século.

O meu eu roqueiro de anos atrás não veria com bons olhos o também fã de Tropicália e MPB de hoje. Há anos que eu não ouvia Luxúria e Megh Stock – se não fosse essa lembrança repentina, talvez passasse muitos outros anos sem ouvir novamente. Escrevi esse texto ouvindo essas canções. Elas, juntamente com muitas outras, marcaram minha adolescência que, ao contrário da infância, foi extremamente musical. Gostaria, inclusive, que Megh gravasse um disco novo e voltasse a fazer shows. Eu, que nunca tive a oportunidade de vê-la ao vivo, iria adorar.

Um detalhe é que essa revisitação me serviu para descobrir que eu cantava a letra de ‘Dúvidas’ errado. No trecho “muitas vezes eu te desviei da meta” eu sempre cantei “muitas vezes eu te desviei da merda”. Essa não foi a única: eu também cantava ‘Lama’ de forma errada, já que no trecho “tira essa lama das botas” eu cantava “tira essa lama das portas”. No entanto, o erro de ‘Lama’ eu descobri bem lá no início, na adolescência mesmo. Confesso que prefiro minha versão errada de ‘Dúvidas’. Enfim, vou encerrar por aqui porque ‘Doidinho’ não vai terminar de se ler só. Até a próxima, abraçaço.