meus discos favoritos de 2016

Eu já havia decidido que não faria a lista dos meus discos favoritos desse ano, pois julgava não ter acompanhado bem a safra de 2016. Acontece que, de fato, não ouvi tanta música como nos anos anteriores, mas ao ver as listas de melhores do ano publicadas em vários sites, constatei que eu havia escutado muitos dos discos listados e que ainda conhecia outros que nem sequer foram citados. Dessa forma, tomei coragem para fazer a minha.

O próprio título do post já diz, mas reforço que esta é uma lista pessoal. No entanto, nem por isso me isento de críticas e sugestões. Quero mais é saber o que vocês acharam e que discos me indicam. Claro que muita gente boa ficou de fora, mas como costumo dizer, uma lista não é uma lista se não deixar de citar algo ou alguém. Eis a minha de discos favoritos de 2016:

10° Praieiro – Selvagens à Procura de Lei
Praieiro

‘Praieiro’ é um forte exemplo de como está difícil acompanhar todos os lançamentos. Selvagens à Procura de Lei é uma das minhas bandas favoritas e eu nem sabia que eles iam lançar disco novo em 2016. Quando me dei conta, os amigos estavam compartilhando as músicas nas redes sociais. Foi uma grata surpresa.

09° Atlas – Baleia
Atlas

‘Atlas’ também seguiu o exemplo de Praieiro. Os amigos compartilharam o videoclipe de ‘Volta’ nas redes sociais (por sinal um dos melhores videoclipes do ano), e só então fiquei sabendo que eles iam lançar disco novo.

08° Arco & Flecha – Iara Rennó
Arco & Flecha

A Iara Rennó foi uma descoberta de 2016. A conheci por acidente acessando um site por acaso (não lembro qual). No site havia a música ‘Mama-me’, que eu adorei logo na primeira ouvida. Fui pesquisar e descobri que ela havia lançado dois álbuns em 2016, um chamado ‘Arco’ e o outro ‘Flecha’. De tão bons, resolvi colocar os dois aqui.

07° Remonta – Liniker e os Caramelows
Remonta

Liniker já havia me ganhado com seus vídeos na internet, então ‘Remonta’ era um disco que eu já estava esperando. Ouvi logo no primeiro dia de lançamento. Lembro bem que parei tudo o que estava fazendo e fui me balançar calmamente na rede enquanto ouvia.

06° Palavras e Sonhos – Luiz Tatit
Palavras e Sonhos

Luiz Tatit é tão recluso que, por mais que eu pesquise sobre ele na internet, quase não consigo informações sobre o que anda fazendo. Descobri que o compositor havia lançado disco novo porque recebi uma notificação do Spotify por e-mail. ‘Palavras e Sonhos’ foi apresentado logo no início do ano e, quando o ouvi, tive logo a certeza de que se fosse fazer minha lista anual de discos favoritos ele estaria entre os escolhidos.

05° Bandida – MC Carol
bandida

Eu já conhecia MC Carol, mas nunca tinha ouvido nenhuma música dela. Karol Conka havia prometido que lançaria um disco novo em 2016 (agora adiado para depois do carnaval de 2017), então eu fiquei na cola dela nas redes sociais para ouvir o disco novo assim que saísse. No entanto, o que ela acabou divulgando foi uma participação na música ‘100% Feminista’ da MC Carol, que eu ouvi e gostei muito. Dias depois, a mesma Conka divulgou que havia sido lançado ‘Bandida’, o novo disco da MC Carol, que para mim, foi um dos trabalhos mais significativos e corajosos do ano.

04° Ainda Há Tempo – Criolo
Ainda Há Tempo

‘Ainda Há Tempo’ foi lançado por Criolo em 2006, mas as canções ganharam uma roupagem completamente nova e o álbum foi relançado esse ano. As músicas ficaram tão diferentes do anterior que não consigo considerar os dois como um mesmo trabalho. Para mim, o ‘Ainda Há Tempo’ de 2006 é um e o ‘Ainda Há Tempo’ de 2016 é outro. Foi sem dúvida um dos discos que mais ouvi nesse ano – incluso na lista mesmo não sendo teoricamente um trabalho inédito.

03° Tropix – Céu
Tropix

Gosto muito da Céu, mas confesso que quase não a acompanho, mesmo apreciando todos os seus discos. Não sei praticamente nada sobre ela e isso é ótimo, afinal, só o que importa é a música. ‘Tropix’ é incrível e o ouvi muitas vezes no carro enquanto dirigia – sinal de que eu realmente aprovei.

02° MM3 – Metá Metá
MM3

Metá Metá foi outra descoberta de 2016 e até me sinto envergonhado por ter demorado tanto para conhecer essa banda. Se ‘Tropix’ tocou muito no carro, ‘MM3’ tocou até em ônibus durante viagem para outro estado. Se coloco um disco como trilha-sonora para uma viagem é porque eu mais do que gosto, amo. ‘MM3’ também foi o disco que eu mais indiquei para os amigos neste ano e que agora estou indicando para vocês.

01° Canções Eróticas de Ninar – Tom Zé
Canções Eróticas de Ninar

No ano em que Tom Zé lança disco, ninguém fica a frente dele nas minhas listas de melhores do ano. ‘Canções Eróticas de Ninar’ – por sinal, também o melhor título de 2016 – não era um disco que estava sendo esperado. Feito em segredo, só foi divulgado poucos dias antes do lançamento. Que Tom Zé é meu cantor favorito todo mundo já sabe, mas foi só em agosto que o vi ao vivo pela primeira vez. Foi em um show em João Pessoa-PB. Fui especialmente para vê-lo e realizei um dos meus maiores sonhos. Ao final do show, além de conversar com ele, ainda consegui falar com Daniel Maia, que é guitarrista e produtor dos discos do Mestre. Consegui arrancar de Daniel a confissão de que seria lançado um novo álbum em breve. Fui ao show achando que quando saísse já poderia morrer, pois finalmente havia testemunhado o Pai da Invenção em exercício. Entretanto, saí convicto de que não poderia morrer antes de ouvir o novo álbum. No final de novembro, Tom Zé ainda se apresentou em Fortaleza-CE e nem o mais otimista dos otimistas conseguiria prever que eu o veria duas vezes em um ano só. Musicalmente falando, 2016 foi mesmo muito especial.

Amor Geral - Brutown - Acústico Oficina Francisco Brennand - Boogie Naipe

Antes de finalizar, gostaria de citar rapidamente alguns discos que ficaram de fora, mas que ouvi (e gostei) bastante. Foram eles: ‘Amor Geral’, da Fernanda Abreu, ‘Brutown’, do The Baggios e ‘Acústico Oficina Francisco Brennand’, d’O Rappa – este último, em especial, eu deixei de fora por ser um disco ao vivo. Acho que também vou chorar a ausência de ‘Boogie Naipe’, do Mano Brown, que com vinte e duas faixas foi lançado a menos de um mês do fim do ano e que eu ainda não tive tempo suficiente para ouvir com calma. Para 2017, não tenho muitas expectativas, além do já citado álbum da Karol Conka e do novo trabalho do Sepultura, que está marcado para sair em 13 de janeiro. No mais, espero que tenham gostado. Até a próxima, abraçaço.

os dez melhores livros que li em 2015

Saímos de 2015, mas 2015 não saiu de nós. Mesmo que você, Leitor, não tenha realizado grandes feitos em sua vida nesse ano que se passou (esse foi o meu caso), assim como eu, viu muitas coisas acontecerem no nosso país e no mundo. Grandes ídolos morreram, grandes filmes e discos foram lançados. Novos escândalos de corrupção vieram à tona, ataques terroristas foram realizados, aconteceram diversos eventos esportivos, eventos culturais e festivais de música. Vivemos para ver tudo de bom e de ruim que ocorreu no ano passado. Seja com esses eventos globais ou especificamente localizados, 2015 fará para sempre parte da nossa tragetória, afinal, passamos por ele e estamos aqui para contar a história. Trata-se de um ano que particularmente me marcou pelas leituras que fiz. O conhecimento adquirido no ano passado é algo que vai continuar comigo para o resto da vida, algo que ninguém pode me tirar. Parece um tremendo clichê, mas é verdade. Também foi o ano em que mais li na minha vida: quarenta e seis livros, um total de onze mil novecentas e cinquenta e oito páginas, com média de trinta e três páginas por dia segundo meu perfil no Skoob. Infelizmente, não contei as páginas dos livros para saber se esses números estavam corretos (afinal, sou de humanas), mas resolvi escrever um post sobre os dez melhores livros que li ano passado. São eles, em ordem alfabética:

Discos

Título: Discos
Autor: Arnaldo Cohen, Céline Imbert, Eduardo Giannetti, Lia Rodrigues, Luiz Tatit, Marcelo Coelho, Tom Zé
Primeira publicação: 2003
Minha edição: PubliFolha

.

‘Discos’ era um livro que tinha na minha estante já fazia certo tempo, mas que só ano passado resolvi ler. Achava que não ia gostar da leitura, mas me enganei redondamente. O livro me fisgou logo na primeira página. Nele, sete autores dissertam sobre os dez discos que levariam para uma ilha deserta. Sou apaixonado por listas, por isso devo ter gostado tanto de ler algumas feitas por pessoas que admiro, sem contar que, ao longo dos seus mais de setenta capítulos, acaba se tornando um ótimo livro para se pegar dicas de discos para ouvir. Este também foi o livro que me fez conhecer o grande Luiz Tatit. Falei sobre isso em um dos primeiros posts do Satãnatório: o ‘eterno ignorante, parte 1’.

Elite da Tropa

Título: Elite da Tropa
Autor: Luiz Eduardo Soares, André Batista, Rodrigo Pimentel
Primeira publicação: 2005
Minha edição: Objetiva

.

Gosto muito do filme ‘Tropa de Elite’ (2007), do diretor José Padilha, e admito que esse livro chegou até mim graças à sua adaptação cinematográfica. No princípio, não tive vontade nenhuma de ler ‘Elite da Tropa’, pois acreditava que devia ser muito parecido com o longa-metragem. Todavia, depois de saber que muitos detalhes são diferentes na obra impressa, decidi ler e me surpreendi. Constatei que, de fato, neste caso, livro e filme parecem ser duas coisas totalmente distintas, incluindo aqui a estrutura narrativa. O escrito está dividido em duas partes. A primeira conta histórias sobre o Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), considerado um esquadrão de elite na Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Baseado em relatos reais de ex-policiais do BOPE, o livro mostra os oficiais como uma tropa aparentemente incorruptível e extremamente violenta. Desse momento inicial foram retirados os personagens do filme e algumas histórias que o compõe. Contudo, a segunda parte, que fala sobre o plano para assassinar Leonel Brizola, na época governador do Rio de Janeiro, é o suprassumo do livro, e nada disso está no longa. Esta outra seção com certeza daria um excelente roteiro se fosse adaptado para o cinema. Já havia falado da minha edição do livro no post ‘livros sebosos’.

Encontros Tom Zé

Título: Encontros – Tom Zé
Autor: Tom Zé, Heyk Pimenta
Primeira publicação: 2011
Minha edição: Azougue

.

.

Primeiro tenho que contar como encontrei essa pérola. Jorge du Peixe, vocalista da Nação Zumbi, publicou uma foto do livro em seu perfil no Instagram com a seguinte legenda: “Livrinho fuderoso da coleção Encontros. Entrevistas antológicas com Tom Zé, o mestre dos mestres e punk mais original do Brasil.” Dias depois, eu já estava com o livro em mãos e me segurando para não ler de uma só vez. Sempre fico triste após terminar de ler uma boa publicação por completo. Quando mais tempo eu convivo com o livro, melhor. Mesmo assim, terminei logo, tanto por ser curto, quanto por ser sobre Tom Zé. Tenho que concordar com du Peixe, o livro é mesmo fuderoso.

Estação Carandiru

Título: Estação Carandiru
Autor: Drauzio Varella
Primeira publicação: 1999
Minha edição: Companhia das Letras

.

.

Esse foi outro livro que cheguei através de um filme: ‘Carandiru’ (2003) de Hector Babenco. A obra de Drauzio Varella é um dos poucos casos em que um sucesso editorial, verdadeiro fenômeno de vendas realmente vale a pena ser lido. Vencedor do Prêmio Jabuti em 2000 na categoria Livro do Ano de Não-Ficção, a publicação conta a experiência de Varella como médico voluntário, a partir de 1989, na Casa de Detenção de São Paulo, onde realiza atendimento em saúde, especialmente na prevenção da AIDS. No post ‘livros sebosos’ também falei sobre a minha edição desse livro.

O Centauro no Jardim

Título: O Centauro no Jardim
Autor: Moacyr Scliar
Primeira publicação: 1980
Minha edição: Companhia de Bolso

.

.

Esse foi meu primeiro livro de Moacyr Scliar, constituindo o suficiente para que eu me tornasse um grande admirador da sua escrita criativa. A obra mistura elementos fantásticos em uma trama muito instigante, contando a estória do centauro Guedali, um ser metade homem, metade cavalo. O blogue 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer fez uma excelente resenha sobre esse livro.

O Guarani

Título: O Guarani
Autor: José de Alencar
Primeira publicação: 1857
Minha edição: Martin Claret

.

.

Meu primeiro contato com a história do livro veio com a ópera de mesmo nome do compositor Carlos Gomes e depois com o filme ‘O Guarani’ (1996), da diretora Norma Bengell. Anos depois, minha irmã ganhou um exemplar do romance, que acabou me dando por não gostar. Eu também acabei o abandonando por não conseguir me envolver com o enredo. Entretanto, no ano passado, resolvi dar mais uma chance a ele e acabei me apaixonando, principalmente por sua parte final. Assim que concluí a leitura, assisti a outra versão cinematográfica do livro, ‘O Guarani’ (1979), do diretor Fauzi Mansur, que supera a outra produção citada. A primeira adaptação do livro para o cinema aconteceu em 1912, em um filme mudo hoje considerado perdido.

O Que é Isso, Companheiro?

Título: O Que é Isso, Companheiro?
Autor: Fernando Gabeira
Primeira publicação: 1979
Minha edição: Companhia de Bolso

.

.

Mais um livro que cheguei através de um filme, dessa vez foi ‘O Que é Isso, Companheiro?’ (1997), do diretor Bruno Barreto, que representou o Brasil no Oscar de 1998, sendo indicado ao prêmio de melhor filme estrangeiro. Até pouco tempo atrás, eu evitava ler livros que eram adaptados para o cinema, tentando focar em histórias que eu ainda não conhecia. Ainda bem que parei com isso, até porque o filme de Barreto é inspirado apenas no 15° capítulo do livro de Gabeira, o trecho que diz respeito ao sequestro do embaixador norte-americano. O livro é um ótimo depoimento sobre quem viveu na pele o terror da ditadura militar brasileira. Super indico a obra para os politicamente alienados que saíram às ruas no ano passado pedindo a volta do regime militar. O blogue 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer também fez uma ótima resenha sobre ele.

O Réu e o Rei

Título: O Réu e o Rei
Autor: Paulo Cesar de Araújo
Primeira publicação: 2014
Minha edição: Companhia das Letras

.

.

Se não me engano, esse é o maior livro dessa lista e o que li mais rápido. Eu já sabia como terminava a história de Paulo Cesar de Araújo com Roberto Carlos, mas queria saber os detalhes. No livro, o autor fala sobre a polêmica proibição de seu livro anterior, a biografia ‘Roberto Carlos em Detalhes’. ‘O Réu e o Rei’ não é uma nova biografia sobre o cantor, mas sim um relato sobre a relação do autor com Roberto. Durante a leitura ainda ficamos conhecendo a história de amizade entre Paulo Cesar de Araújo e João Gilberto, sem dúvida a maior surpresa do livro.

Secreções, Excreções e Desatinos

Título: Secreções, Excreções e Desatinos
Autor: Rubem Fonseca
Primeira publicação: 2001
Minha edição: Companhia das Letras

.

.

Esse foi meu primeiro livro lido em 2015. É um compêndio de contos e constituiu meu segundo título de Rubem Fonseca, depois de ‘O Caso Morel’. Com essa obra, rapidamente descobri porque ele é considerado um dos melhores contistas deste país. O primeiro conto da coletânea, ‘Copromancia’, se tornou um dos meus textos favoritos e, assim como todos os outros que a compõe, a cada parágrafo lido, eu imaginava como ficariam ótimos se fossem adaptados para o cinema.

Tropicalista Lenta Luta

Título: Tropicalista Lenta Luta
Autor: Tom Zé
Primeira publicação: 2003
Minha edição: PubliFolha

.

.

Mais uma vez um livro do Tom Zé! Este, por sua vez, merece destaque por considerado sua biografia. ‘Tropicalista Lenta Luta’ tem capítulos escritos pelo próprio cantor e compositor, contando sobre sua infância em Irará, acerca de sua formação e ida a São Paulo, discutindo o ostracismo e muitas outras curiosidades de sua vida. Ademais, esses capítulos são curtos e não se aprofundam o suficiente como as biografias convencionais (embora não sejam superficiais, pois Tom Zé nunca é superficial naquilo que escreve). Grande parte do livro é formada pelas letras de seus discos, contendo também cartas e uma extensa entrevista concedida a Luiz Tatit e Arthur Nestrovski. Trata-se de um livro indispensável para aqueles que, como eu, são grandes fãs do Pai da Invenção. Citei esse livro no post ‘vinte e três’ e foi também uma parte dele que me inspirou a escrever o texto ‘meu útero’.

E então, caríssimo Leitor, já leu algum desses livros? Gostou? Não gostou? Pretende ler algum? Me conta!

meu útero

Esse lance de que a inspiração só corresponde a um por cento do trabalho quando os outros noventa e nove por cento são de transpiração é muito verdade. Consegui ver isso melhor agora que tenho o blogue. Não adianta só ter a ideia de um tema interessante para o próximo texto e achar que metade do trabalho está feito. Muitas vezes, quando não é um tema do meu domínio, o empenho só aumenta, colocando a pesquisa como trabalho extra.

Escrever é realmente muito difícil, pois o texto é sempre mais interessante na nossa cabeça. Quando transposto para o computador (quanto menos papel, mais arvores!), é como se algo se perdesse nesse processo. Pode ser que gere um bom resultado, mas nunca como achávamos que ficaria.

Escrever também é físico, pelo menos comigo, que sou amador. Os profissionais, aqueles que escrevem sob encomenda e prazo pré-estabelecido, não devem sofrer tanto, mas eu sofro, mesmo só escrevendo quando quero. Sempre comparei minhas escritas a um parto. Sendo homem, só posso imaginar. Jamais saberei o que é parir uma pessoa. Mas isso são outros quinhentos. Estou falando de parir um texto. Como disse no inicio do parágrafo, é algo físico (além de mental). Uma tarde toda escrevendo me deixa nocauteado no final do dia. Nem quando trabalhava o dia inteiro em pé eu ficava tão cansado.

Quando o assunto é parir um filme, a inspiração corresponde ainda menos de um por cento. Praticamente tudo é transpiração. Ter a ideia do roteiro é o mais fácil. Escrevê-lo e depois reescrevê-lo dezenas de vezes geralmente corresponde a mais de um ano de trabalho. Captar recursos, montar uma equipe, ensaiar, filmar, pós-produzir, lançar, divulgar geram um trabalho tão grande que, sempre que enfrento uma produção, me pergunto se realmente quero continuar fazendo isso. Todo esse processo realmente gera uma crise existencial. Agora vou dissertar sobre o que deveria ter sido esse texto para no mínimo justificar o título. Para isso, preciso transcrever alguns trechos da entrevista de Tom Zé para seu livro ‘Tropicalista Lenta Luta’ (2003). Para quem não gosta de tergiversações, até o próximo texto.

A entrevista foi realizada no dia 22 de agosto de 2003 por Luiz Tatit e Arthur Nestrovski. A conversa editada em livro aparece dividida em diversas seções. Os trechos transcritos a seguir são do capítulo “Os Homens-fêmeos”:

[…] tem uma coisa na Bahia que é muito diferente, que a gente nunca pode explicar. É que o homem é mais feminino do que o homem do Sul. Isso é que é muito difícil de explicar. A mulher tem mais participação. O mundo é mais matriarcal; quer dizer, não é matriarcado, mas a mulher tem mais participação nas decisões e o homem é mais feminino. Essas duas coisas mudam tudo na maneira de você ver o mundo. […] No Nordeste tem isso: o homem era mais feminino, mais gracioso. […] O homem baiano é muito feminino e isso de alguma maneira aumenta o leque do olho. Fica mais observador. […] Você sabe que o lado feminino da gente é que é o lado artista, não é? O lado que tem a gravidez cósmica, que tem a intuição. Neusa (esposa de Tom Zé), por exemplo, é uma pessoa culta e ela mesmo me confessa de vez em quando: “Puxa vida, essa intuição sua é um pecado.” E a intuição é feminina.

Só depois que li essa entrevista foi que entendi a declaração dele em outra ocasião. Trata-se de sua participação no programa de Jô Soares, no dia 15 de abril de 2010, quando ele foi divulgar seu DVD ‘O Pirulito da Ciência’. Tom Zé foi aos estúdios de gravação vestido de saia e Jô quis saber o motivo. Ele disse: “Eu gosto de vir de saia porque eu posso não ter uma vagina, mas útero eu tenho. Eu sou mulher, sempre vivi na sociedade como uma mulher, sofrendo como mulher. Outro dia o João Gordo me chamou pra dizer ‘você é homossexual’ eu disse ‘não, eu sou mulher, é outra coisa’”. Em 30 de outubro de 2014 ele voltou ao Jô, dessa vez para lançar seu mais recente álbum, o ‘Vira Lata na Via Láctea’ e, mais uma vez afirmou: “Eu sempre fui um pouco mulher”.

Se Tom Zé, o pai da invenção, afirma que o nosso lado artista é o feminino, quem sou eu para discordar? A única coisa que posso dizer é que entendo muito bem quando ele fala que a mulher tem mais participação nas decisões do homem. Não sou baiano, mas sou nordestino. Seria esse o motivo da compreensão? Não sei, mas embora tenha um pai muito carinhoso, posso afirmar que minha mãe é quem está sempre presente. A participação dela na minha educação foi tão forte que praticamente anulou a participação do meu pai. Aprendi infinitamente mais com ela do que com ele. Minha mãe e eu quase não discordamos de nada no dia a dia, diferentemente do meu pai, detentor de um ponto de vista oposto ao meu em praticamente quase todo assunto. Não estou querendo diminuí-lo ou dizer que um é melhor do que o outro, ou que amo mais um do que outro. Ademais, minha forma de ver o mundo se aproxima muito mais do olhar da minha mãe. Também vejo isso em quase todos os meus amigos e acredito que não seja um fenômeno assim tão nordestino. Torço para que não. O mundo seria muito melhor.

No entanto, há algumas semanas, eu estava querendo escrever um texto sobre essas palavras de Tom Zé e não conseguia. Até sentei para escrever, mas as ideias ainda muito prematuras me fizeram abortar o texto. Foi quase como uma gravidez psicológica. Aquela em que você acredita estar gestante de um texto quando na verdade não está. Depois a inspiração (o meu lado feminino) penetrou novamente no meu cérebro e semeou a ideia de falar sobre o trabalho duro que é dar vida a esses embriões. Então, na próxima gestação, decidi que juntaria os dois temas. Não são temas exatamente univitelinos, mas achei que seria a última chance de falar sobre essas entrevistas. Ainda na conversa de 2010 com Jô Soares, Tom Zé disse: “Ideia precisa de silêncio. Ideia não gosta de bater papo. O sítio da ideia é o silêncio, até ela pesar no cérebro e você escrever sobre ela. Sofrer até acertar.” Esse silêncio é mesmo fundamental, sobretudo para mim que escrevo o texto mentalmente antes de entrar em trabalho de parto. Dessa forma, meu cérebro escreve quase o dia todo. Esse processo de ócio criativo me permite gerar a ideia no ventre. Bem, a ideia pesou no meu cérebro, escrevi e o texto nasceu, embora eu acredite que não acertei. Todo texto é como um filho que não pertence aos pais e sim ao mundo. Publicar é cortar o cordão umbilical. Depois disso, alguns fenecem, enquanto outros sobrevivem. Esses que permanecem, escrevem por si só a sua história, totalmente independentes de seus progenitores. Contudo, o que me interessa agora é justamente dar mais vazão ao meu lado artístico (ou feminino) e parir cada vez mais textos e filmes, ciente de que sim, eu tenho útero.

eterno ignorante, parte 1

Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz. Gonzaguinha sabia das coisas. Quanto mais estudo, maior é a sensação de que tenho muito o que conhecer. O pior disso tudo é aquele velho clichê de que não vamos ver todos os filmes que queremos e nem ler todos os livros que temos vontade. E ainda vamos morrer sem ouvir o próximo álbum daquela banda nova que gostamos.

Recentemente li um livro chamado Discos publicado pela PubliFolha em 2003, em que sete autores (Arnaldo Cohen, Céline Imbert, Eduardo Giannetti, Lia Rodrigues, Luiz Tatit, Marcelo Coelho e Tom Zé) dissertam sobre os dez discos que levariam para uma ilha deserta. São mais de setenta capítulos e desde o primeiro eu ficava pensando quais eu listaria se fosse convidado para participar de um livro assim. Quantos do Tom Zé eu levaria? Não poderia deixar Os Mutantes de fora. O primeiro ou o último da Pitty? O Rappa com certeza estaria dentro. Raul Seixas não poderia faltar. Qual da Cássia Eller? Como escolher só um da Elis Regina? Como escolher um único de Jorge Ben Jor se gosto de todos igualmente? Nunca me perdoaria se Zé Ramalho ficasse de fora. Nunca mais ouviria Roberto Carlos? E quando batesse saudade de Daniela Mercury, Cazuza, Rita Lee, Capital Inicial, Skank, Vivendo do Ócio, Talma&Gadelha, Vespas Mandarinas, Titãs, Cachorro Grande, Secos & Molhados, Cascadura, RPM, Kid Abelha, Cícero, Los Hermanos, Mallu Magalhães, Raimundos, Megh Stock, Novos Baianos, Tim Maia, Karol Conka, Planet Hemp, Seu Jorge, Alceu Valença, Ave Sangria, Nação Zumbi, Emicida, Chico César, Cartola, Lenine, Criolo, Caetano Veloso. Gente, Caetano! Tão vendo? É uma tortura. Mesmo com toda a liberdade desse post, eu ainda vou me arrepender por ter esquecido de citar tantos outros que eu amo, quanto mais listar só dez. Por isso jamais aceitaria participar de um projeto como esse. Sou fraco demais e isso é para os fortes.

Discos

Esse é apenas o quinto post do blogue, mas se você leu os anteriores já deve ter se dado conta do quanto esse que vos escreve gosta de dar voltas até chegar nos finalmentes. Então, o eterno ignorante do título sou eu, que só vim descobrir quem era Luiz Tatit depois de ler o livro. E ainda tem mais: embora lendo os dez capítulos escritos por ele, só fui procurar sua música depois de ler o Tom Zé dizendo que levaria um de seus discos para a ilha deserta. Foi o suficiente para me despertar interesse. Se Tom Zé levaria um álbum do cara é porque valeria muito a pena. E vale mesmo!

Luiz Tatit vive enclausurado numa prisão agrícola chamada USP. Neguei-me sempre a escrever sobre ele, porque posso prejudicá-lo e a inveja dos deuses agravar-lhe a pena para um cárcere comum. É que o panteão da canção brasileira já tem seu concreto quase empedrado. E os deuses coroados sabem que, com Tatit, ou a gente continua escondendo, ou terá de quebrar o panteão todo.
Tom Zé no livro Discos

Além de também ser escritor, atualmente Tatit é professor titular do Departamento de Linguística da Faculdade de Filosofia, Letras & Ciências Humanas da USP. Seu último álbum lançado foi o Sem Destino de 2010 e, por enquanto, o cantor não teria planos para discos futuros. Entretanto, há três meses, ele publicou em seu canal oficial no YouTube um projeto chamado Voz e Violão, em que canta suas músicas em versões acústicas.

Tatit tem quatro discos de estúdio em carreira solo (ele lançou outros discos com o Grupo Rumo) e um ao vivo. O álbum que Tom Zé escolheu foi um lançado em 2000 chamado O Meio. Eu ainda não sei qual o meu favorito, mas tá sendo uma delícia descobrir aos poucos. Apesar da dor de ter conhecido esse gênio tão tardiamente, está sendo mais sofrido constatar que poucos o conhecem. Todo mundo usa o título da música do Criolo “Não Existe Amor em SP” como legendas de fotos e todos lembram da famosa “São São Paulo” do Tom Zé no aniversário da maior metrópole do país, mas nunca vi “Deu Pane Em São Paulo” do Tatit nas listas de músicas sobre a terra da garoa. Digo isso mesmo com Tom Zé considerando a canção “Esboço”, também de Tatit, como uma das canções mais lindas compostas sobre São Paulo.

“Em todo caso, desejo aumentar a curiosidade de vocês a respeito dele, porque seu escondimento é um prejuízo”, escreveu Tom Zé ainda no livro Discos. Por isso não levem a mal o que vou dizer, mas sinto pena de quem não conhece Luiz Tatit, a mesma pena que sinto do meu eu anterior que desconhecia esse monstro da música brasileira.

Luiz Tatit – Felicidade