programado para morrer

Um amigo, que sempre consertou meus computadores, costumava dizer que preferia máquinas a pessoas. Para ele, a convivência com a tecnologia era muito mais fácil, pois quando uma máquina apresenta um defeito, é só consertá-la. Já o ser humano, além de não ter cura para todos os seus males, exige mais complexidade no tocante à convivência. Quando uma amizade ou um relacionamento amoroso, por exemplo, apresenta um desgaste ou um conflito, não podemos simplesmente formatar e começar tudo de novo. Fazer as pazes e entrar em um acordo é muito mais difícil.

Nunca concordei com esse meu amigo. Não que eu seja o ser mais sociável do mundo, muito pelo contrário, mas sempre tive problemas com certas tecnologias. Isso não significa que eu não saiba utilizar as máquinas, e sim que tenho muita dificuldade em aceitar que elas saiam intencionalmente de suas fábricas com uma data de validade para deixar de funcionar, apenas para aumentar o consumo.

Vez ou outra, eu me pergunto quando vamos gritar e nos rebelar contra a obsolescência programada. Cada vez mais empresas produzem propositalmente produtos que se tornam obsoletos ou não-funcionais em um curto período de tempo para que possamos comprar a nova geração do mesmo produto. É natural que um objeto se desgaste com o passar do tempo e pare de funcionar, mas é inaceitável que os fabricantes planejem esse envelhecimento. Acabamos por consumir mercadorias que duram menos do que a tecnologia permite.

A obsolescência programada pode ser notada com maior frequência na área tecnológica. O sistema operacional dos computadores estão se desgastando cada vez mais rápido, as baterias e carregadores de computador duram cada vez menos e o cabo dos carregadores de celular são mais frágeis do que deveriam. Qual a razão para uma marca de celulares de última geração fabricar carregadores tão vagabundos se não para nos obrigar a comprar outro aparelho? Os fones de ouvido são outros que também quebram com facilidade. Ao mesmo tempo em que essas mercadorias são planejadas para durar cada vez menos, o preço para a manutenção desses equipamentos se torna cada vez mais alto, induzido os consumidores a adquirir um produto novo.

Os fabricantes tentam se justificar apontando para o avanço da tecnologia. Por essa razão, segundo eles, estão sempre criando novos modelos. Que avanço é esse? Como pode haver tantos progressos em tão pouco tempo? Marcas lançam modelos novos apenas poucos meses após o lançamento do anterior. Antes mesmo de acabar o ano, já é possível comprar versões de carros do ano seguinte. Essa troca regular de produtos só aumenta a produção de lixo e, para piorar, como se não bastasse a humanidade estar consumindo 30% a mais do que o planeta é capaz de repor, o destino de quase 70% dos equipamentos eletrônicos descartados por consumidores de países desenvolvidos são lixões de cidades de países subdesenvolvidos. Os mais pobres, como sempre, continuam pagando a conta.

O consumo permanente tem como finalidade a criação de um consumidor cronicamente insatisfeito. Banhado pelo desejo de comprar sempre o produto mais novo, o da moda, o mais rápido e com a imagem mais moderna, o consumidor cansa cada vez mais rápido do produto que já usufruiu. Esse fenômeno é chamado por muitos de “obsolescência percebida”, e ocorre quando, antes mesmo de apresentar defeito, o consumidor considera o produto que tem em casa como velho diante de todos os novos modelos lançados a todo instante no mercado.

Os smartphones exigem cada vez mais atualizações de seus sistemas operacionais. Atualizações essas que além de não mudarem muita coisa, consomem grande parte da memória que, por sua vez, nos impossibilita de atualizar os aplicativos. Não consigo descrever o quanto isso me irrita. Depois de certo tempo, parei de atualizar o iOS, pois não havia mais memória disponível, a não ser que eu excluísse todos os aplicativos. Em seguida foi a vez dos aplicativos exigirem suas atualizações. Quando não havia mais espaço, fui excluindo os menos usados. Desde o início do ano, o WhatsApp parou de funcionar no meu celular, pois só é possível utilizá-lo em um sistema operacional mais novo. Logo mais será a vez dos demais aplicativos deixarem de funcionar. Eu não queria ter que trocar de celular agora. Não necessito do aparelho mais novo, da moda. Poderia, tranquilamente, passar mais alguns anos com meu aparelho atual, se não estivesse sendo “obrigado” a comprar um novo.

No entanto, tudo isso parece tão natural aos olhos do mundo, que até culturalmente falando podemos encontrar casos de obsolescência programada. É a música feita para tocar só no carnaval, aquele sucesso do verão, os filmes de natal ou os filmes de determinado gênero que fazem sucesso até se tornarem saturados. Atualmente, são os títulos de super-heróis e comédia pastelão. As produtoras vão usar essa fórmula e inundar as salas de cinema com filmes desses gêneros até causar uma overdose no público (vai me dizer que você não consegue enxergar o propósito por trás de tantas sequências das mesmas histórias ou livros de um só volume transformado em séries e mais séries de filmes?). Já no mercado editorial, são os livros de youtubers que estão na moda, o que tem levado muita gente a acreditar que o primeiro passo para se tornar um(a) escritor(a) é criar um canal no YouTube. Calma! Isso é só uma fase – alguém ainda se lembra dos livros de colorir? -, logo essa onda passa e não teremos que ver dezenas de biografias de adolescentes nas prateleiras das livrarias (pelo menos espero).

Contudo, sentei para escrever porque queria dissertar justamente sobre essa obsolescência cultural programada, mas está cada vez mais recorrente em meus textos desejar escrever sobre algo e acabar falando sobre outro assunto. Tal qual um pai que deseja uma profissão para um filho e o rebento acaba seguindo outra. Como eu não segui a profissão que meus pais desejavam para mim, deixo o texto livre para ele ser o que quiser. De toda forma, os dois assuntos entram no mesmo pacote: tudo está ficando cada vez mais descartável. Em consequência disso, sigo não confiando nas máquinas, ou seria em seus fabricantes? E você, antes de substituir qualquer objeto, se pergunta antes se realmente precisa de outro?

irrealidade virtual

Um conselho sincero: você pode iniciar a leitura desse texto a partir do nono parágrafo sem maiores prejuízos.

Muitas coisas me aconteceram em janeiro, inclusive alguns infortúnios envolvendo meu computador e a internet. Os problemas que tive com o computador nem me deram tanta dor de cabeça quanto os que tive com a internet, mas todos aconteceram ao mesmo tempo em uma semana cheia de compromissos em que eu iria precisar muito do acesso de ambos.

Certo dia, desembarquei do ônibus em uma parada localizada a quatro ruas antes da minha casa para poder caminhar um pouco como faço quase sempre. Logo que desci, ouvi um burburinho na rua de pessoas comentando estarem sem energia elétrica em suas residências. Fiquei tranquilo, pois imaginei que, como ainda estava longe de casa, a falta de energia com certeza não estaria atingido a rua onde moro e, consequentemente, o meu lar. Na rua seguinte, mais pessoas comentavam nas calçadas umas com as outras sobre a falta de energia. Então, durante o trajeto das duas próximas ruas, apurei bem os ouvidos na tentativa de ouvir algum som ligado, o barulho de alguma TV ou até mesmo de um liquidificador. Nada.

Chegando em casa, constatei que a falta de energia era no bairro inteiro e fiquei tranquilo, pois quanto mais ruas são atingidas, maiores são as chances do problema ser solucionado com rapidez. Bebi um copo com água, tirei a roupa e, quando ainda estava debaixo do chuveiro, a energia elétrica voltou. No entanto, não me preocupei em momento algum. Se a falta de energia durasse a tarde inteira, eu sabia muito bem o que fazer: ler. Se no começo da noite ainda estivesse faltando energia, eu dormiria e acordaria durante a madrugada para fazer as coisas que deveria ter feito mais cedo e que necessitavam de eletricidade, isso se ela tivesse voltado – caso não, eu continuaria dormindo na tentativa de diminuir o sono acumulado que eu jamais conseguirei recuperar.

De toda forma, fiquei lendo durante a tarde toda. Como costuma acontecer aqui em casa, quando há quedas de energia, a internet demora um pouco a voltar. Dessa vez, não foi diferente. Quer dizer, foi. Horas depois, a internet ainda não havia voltado e eu saberia que não voltaria mais até receber a visita de algum técnico. Havia chovido forte na noite anterior. Quando acordei, percebi, ainda antes de sair de casa, uma poça de água no chão do quarto, próxima ao computador. Olhei para o teto à procura de alguma mancha de água no forro, mas não havia nada. Desconhecia completamente a origem da poça misteriosa. Fiquei preocupado e corri para ver se meus livros estavam molhados, mas encontrei-os sequinhos. O wi-fi também estava funcionando, o que me levou a crer, mais tarde, quando eu cheguei em casa, que a queda de energia era, de fato, a responsável por ter causado o problema – eu iria descobrir depois que estava enganado.

Liguei para o serviço de atendimento e agendei uma visita com um técnico. Deram-me o prazo de até quarenta e oito horas para solucionar o problema. Em qualquer época do ano, ficar dois dias sem acesso a rede mundial de computadores para mim não é nenhum sacrifício. Entretanto, eu iria filmar um documentário em poucos dias e dependia da internet para fechar todo o cronograma com a equipe, além de fazer umas pesquisas de última hora. Felizmente, o técnico veio no dia seguinte e resolveu tudo. Foi quando eu descobri a origem da água.

Minha internet era à rádio e a água vinha de dentro do cabo que era conectado na torre que ficava em cima da casa. Como a água entrou nele eu ainda não iria ficar sabendo. O técnico retirou a água do cabo e me perguntou se havia ocorrido alguma queda de energia. Respondi que sim e, como eu, ele diagnosticou erroneamente o problema: com a queda de energia, o moldem havia se desconfigurado. Ele reconfigurou tudo e foi embora. Usei a internet normalmente durante o resto do dia e fui dormir. Choveu a noite toda. Ao acordar, a primeira coisa que percebi ao levantar da cama foi o chão mais uma vez molhado com uma poça de água ainda maior que a anterior. A internet estava funcionando normalmente, mas minutos depois ela parou de vez. Eu teria então que resolver tudo com a equipe de filmagem por telefone.

Por falar em telefone, gastei todos os créditos do celular em outra ligação para a central de atendimento. Além de pedir que solucionassem o problema, solicitei a troca da internet à rádio por uma de fibra óptica. Dessa vez, não tive o mesmo fortúnio de antes, pois o técnico só veio no limite das quarenta e oito horas. Ao retirar de cima da casa a torre que capta o sinal, o técnico descobriu um pequeno buraco no cabo, por onde a água entrou e desceu até o meu quarto. Segundo a perícia que ele fez, era a água que estava danificando o cabo e desconfigurando o sinal.

Depois desse dia, não houve mais queda de energia, a internet não voltou a cair, a água não visitou mais meu quarto (embora tenha chovido bastante desde então), e a filmagem aconteceu normalmente. Porém, se você leu até aqui, desde já gostaria de me desculpar por não ter sido mais sucinto – esse é um talento que eu definitivamente não possuo. Dessa forma, tudo o que foi escrito até agora, por mais que tenha consumido metade do corpo do texto, é o que podemos chamar por introdução.

Tudo isso pode não fazer nenhum sentido, mas após esses acontecimentos banais fui acometido por algumas pequenas reflexões. Não é de hoje que a vida virtual vem me preocupando. Já é um fato que a internet está matando em escalas maiores ou menores o consumo de discos físicos, DVDs, livros, entre outras coisas. É possível baixar tudo isso quase sempre de graça, o que ajudou a democratizar o acesso a muitas obras de arte. No entanto, agora é a cultura do download que está sendo morta pelos serviços de streaming.

Nunca gostei de streaming. Quando ele ainda não era moda, grande parte das bandas que curto, disponibilizavam, muitas vezes gratuitamente, seus discos para download. Isso vem deixando de acontecer. Essas mesmas bandas que liberavam seus álbuns agora simplesmente os lançam no Spotfy. O site é bom, admito. Tem, inclusive, me ajudado muito a ouvir os lançamentos dos meus artistas favoritos. O preço a pagar para me ver livre dos anúncios é pequeno, mas não é isso o que eu desejo. Eu quero é ter as músicas no meu computador e no meu celular sem que eu precise ser refém de um wi-fi para ouvi-las, nem que eu tenha que pagar por isso. Quero poder enviá-las para amigos quando me pedirem dicas de músicas, quero poder reproduzi-las no carro e poder levá-las para onde eu for.

Não consumo os dados móveis da minha operadora de celular. Adoto uma filosofia de que nada na internet é tão importante assim para que eu precise dela quando não estou em casa. Quase todos os lugares que frequento possuem acesso a wi-fi, então, tecnicamente, só fico sem internet quando estou na rua me locomovendo de um lugar para o outro. Se estou em um ônibus, prefiro adiantar minhas leituras. Nada é tão urgente que não possa esperar. Se for algo muito sério, alguém vai me ligar.

Também não assino Netflix. O catálogo de filmes, segundo o que meus amigos me falam, não é tão sedutor assim. Não estão lá os filmes que gosto de assistir. Concordo que é bem mais prático fazer um login e assistir a um filme, ao invés de ter que pesquisar na internet e ainda esperar o download terminar – o que às vezes pode demorar bastante. Sem contar a caça por legendas. Sinto que o download de filmes tem caído ainda mais do que o de músicas. Está cada vez mais difícil encontrar torrents ou até mesmo outras formas de download. A pirataria de internet é um assunto complicado, mas qual a outra forma disponível para assistir filmes que não chegam às salas de cinema? Nem estou falando tanto dos filmes estrangeiros, mas do próprio cinema brasileiro mesmo. Só porque não há uma grande procura por determinados títulos, nenhuma empresa se preocupa em vendê-los. Devo me conformar em não assisti-los? É isso que devo fazer? Sinto muito, mas me recuso a proceder assim.

É infinitamente melhor não ter que ocupar a memória do celular ou do computador com músicas e filmes. Todavia, existem os pendrives, que são absurdamente pequenos, e os HDs externos, que muitas vezes são menores que muitos celulares de hoje em dia. O que não dá para aceitar é a segregação dessas obras. Estamos correndo um grande perigo, pois nem tudo está no Spotify e muito menos no Netflix. Essa deve ser a única forma legal de se consumir música e cinema? Os dois são serviços comerciais como qualquer outro. Se não gerarem lucros, eles não vão se interessar por adquirir os direitos de obras que não possuem forte apelo popular. Formas alternativas ao streaming precisam existir. Hoje é o download, amanhã pode ser outra tecnologia, e todas elas devem ser legalizadas para que todos os artistas possam receber por seus direitos autorais (sem que para isso tenhamos que pagar preços abusivos).

Espero estar sendo mais pessimista do que deveria, e acreditar que o download vai resistir. Inclusive, na falta de formas legais de se consumir obras cinematográficas, musicais e literárias, que a pirataria virtual continue fazendo seu serviço de democratização da arte, pois é praticamente isso que ela faz. Os responsáveis por isso são pessoas que na grande maioria das vezes não ganham nada para disponibilizar obras e legendar filmes, além do prazer de compartilhar conteúdo. Sou a favor de pagar por tudo isso que consumo, desde que os filmes que desejo ver estejam nos catálogos dos serviços de vendas e que as músicas que desejo ouvir estejam legalmente disponíveis para download. Quanto à literatura, sou daqueles que acreditam que alguém só lê um livro no computador ou no tablet se realmente não tem condições de comprar (ou porque o título está fora de circulação).

Por fim, sei que sou um romântico, pois quando realmente gosto de um disco, faço questão de adquirir. Já perdi a conta dos CDs que comprei sem nunca ter colocado no aparelho de som. Comprei só para tê-los e, consequentemente, ajudar as bandas que gosto. Só não consumo mais DVDs de filmes porque quase nunca encontro os títulos que gosto disponíveis para comprar. Sobre os livros, espero não viver o suficiente para ver o fim do formato físico, pois se deixarem de existir, eu mesmo irei imprimi-los e encaderná-los.

Ainda sobre livros, eu realmente gostaria que todas as obras de arte fossem como eles. Explico: para ver um filme, eu preciso de um projetor e uma tela, ou um computador, enquanto que, para ouvir música, eu necessito de um aparelho de som ou um celular. Para consumir os livros, eu só preciso deles, pois se estiverem em formato físico, o único suporte que necessito para desfrutá-los são meus olhos. Nesse sentido, os livros são perfeitos, pois as outras formas de arte requerem tecnologia adicional. É como se os livros tivessem sido feitos sob medida para o corpo humano: um só depende do outro. Acredito que boa parte dos instrumentos musicais também cai nessa categoria. É assustador imaginar um pane global na rede mundial de computadores. Imaginar também alguma catástrofe que deixe a população sem energia elétrica. Em um caso como esses, só teríamos a literatura. Creio que muitas pessoas não resistiriam ao ver suas vidas virtuais sepultadas. Contudo, acredito que estou sendo apocalíptico demais. Estou? Enfim, esse é outro assunto e eu deveria ter escrito só sobre isso. Deveria.

meus livros favoritos de 2016

Tenho certeza de que 2016 foi o ano em que mais li até hoje. Essa afirmação pode soar mentirosa e contraditória quando comparo o número de livros lidos com os do ano anterior. Em 2015, eu li quarenta e seis títulos, em um total de onze mil novecentas e cinquenta e oito páginas. Enquanto que, em 2016, foram trinta e oito títulos, em um total de nove mil duzentas e trinta e nove páginas – o que dá uma média de vinte e cinco páginas por dia, abaixo das trinta e três diárias de 2015.

Os resultados foram bem inferiores, eu sei. Confesso que finalizei o ano frustrado, pois tinha expectativas maiores. No entanto, estou consciente de que um dos principais motivos (se não o maior) dessa diminuição foi o grande número de conteúdo online que eu consumi. Acompanhei muitos blogues em 2016, principalmente os de conteúdo político e feminista. Aprendi coisas como nunca antes e não me arrependo de ter dedicado tanto tempo a ler os textos de outros blogueiros e blogueiras, muito pelo contrário: neste ano, pretendo continuar acompanhando esses blogues e espero conhecer muitos outros.

Acredito muito na força da blogosfera e no poder do ativismo virtual. É importante consumir esse conteúdo alternativo escrito por minorias. Na atual conjuntura, é mais necessário do que nunca dar voz aos silenciados pelo Sistema. Essas leituras constituem uma parte importante da minha vida e sei que, se fosse possível contabilizar as páginas virtuais lidas por mim ano passado, conseguiria provar que foi o ano em que mais li. Porém, vou tratar no texto apenas dos livros.

Apesar de ter lido obras de nove nacionalidades, exatamente metade dos trinta e oito foram de títulos brasileiros e, é dessa metade, que saíram as leituras mais prazerosas. Não sei e não me atrevo a escrever resenhas, então irei tecer apenas breves comentários sobre cada livro da lista. Os títulos não estão classificados por ordem de importância, mas sim por ordem alfabética. São eles:

Abraçado ao Meu Rancor

Publicado originalmente em 1986, ‘Abraçado ao Meu Rancor’ foi minha terceira leitura concluída em 2016. Foi também o primeiro livro que li de João Antônio. Por ser um compêndio de contos, eu esperava ler com mais calma, como geralmente faço com títulos desse gênero (quase nunca leio mais de um conto por vez). No entanto, suas histórias do submundo me envolveram de tal forma, que quando me dei conta, já havia lido tudo.

A Divina Comédia dos Mutantes

Publicado originalmente em 1995, ‘A Divina Comédia dos Mutantes’ foi minha sexta leitura concluída em 2016. O livro de Carlos Calado é a biografia mais completa d’Os Mutantes, minha banda favorita. Foi outro livro que li muito rápido, principalmente por se tratar de um assunto de grande interesse. A pesquisa de Calado nos brinda com muitas curiosidades sobre os bastidores de gravações e, claro, nos apresenta aos vários pontos de vista sobre a polêmica saída de Rita Lee da banda.

Agosto

Publicado originalmente em 1990, ‘Agosto’ foi o primeiro livro que li em 2016. Foi uma das leituras mais gostosas do ano e se tornou um dos meus livros favoritos. A mescla entre ficção e realidade, usando como pano de fundo os acontecimentos que culminaram no suicídio de Getúlio Vargas, em agosto de 1954, foi o que me fascinou. Essa é apenas a terceira obra que leio de Rubem Fonseca e, a cada leitura nova, este autor ganha um lugar cada vez mais especial no meu coração. Agora, sempre que me lembro de ‘Agosto’, sinto uma imensa vontade de reler (e olha que só faz um ano que o folheei).

Cazuza - Só As Mães São Felizes

Publicado originalmente em 1997, ‘Cazuza – Só as Mães São Felizes’ foi minha segunda leitura concluída em 2016. Escrito por Lucinha Araújo e Regina Echeverria, a biografia conta a história de Cazuza desde seu nascimento até sua morte prematura. Também o li muito rápido, pois praticamente não o consegui largar enquanto não concluí. Por ser narrado através do ponto de vista de Lucinha, o livro é muito rico em detalhes, principalmente os capítulos que dizem respeito aos últimos dias de vida de Cazuza. Foi de longe a leitura mais emocionante do ano.

Contos Escolhidos

‘Contos Escolhidos’ é uma coleção de contos do Machado de Assis. Foi minha trigésima terceira leitura concluída em 2016. Li-o praticamente o ano inteiro, com muita calma. Como leio muitos livros ao mesmo tempo, quando chega dezembro, eu não inicio mais nenhuma leitura, pois trato de terminar aquelas que eu já iniciei durante o ano. Em dezembro, ainda faltavam alguns contos para concluir e, ao final de cada um deles, eu só conseguia imaginar o quanto ficariam bons se adaptados para o cinema em curtas-metragens. Inclusive, alguns contos desta coleção realmente ganharam adaptações, como foi o caso de ‘A Missa do Galo’ e ‘Uns Braços’.

Golpe 16

‘Golpe 16’ foi uma leitura especial, apesar de se tratar de um assunto amargo. O livro contém vinte e três artigos de blogueiros(as) e intelectuais de esquerda, além de um prefácio escrito pelo ex-presidente Lula e uma entrevista com a presidenta eleita Dilma Rousseff. A ideia do livro foi de Renato Rovai, editor do portal Fórum. Fui ao lançamento do livro em setembro, a convite da blogueira e feminista Lola Aronovich, que eu havia conhecido pessoalmente dias antes. Minha edição está autografada por ela. Além de Lola, há nele artigos de outras pessoas que eu admiro muito, como Cynara Menezes e Paulo Henrique Amorim. Foi minha vigésima oitava leitura concluída em 2016 e outro livro que li rápido, pois parei todas as leituras que havia iniciado para ler ‘Golpe 16’, um dos mais urgentes e importantes títulos publicados no ano passado.

Maldito

Publicado originalmente em 1998, ‘Maldito’ foi minha quarta leitura concluída em 2016. Minha edição, lançada em 2015 é, de longe, o livro mais lindo da minha coleção. O volume tem seiscentas e sessenta e seis páginas, que eu devorei em pouquíssimos dias. Escrita por André Barcinski e Ivan Finotti, a biografia é o título mais completo sobre José Mojica Marins, diretor de clássicos como ‘À Meia-Noite Levarei Sua Alma’, de 1963, e ‘Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver’, de 1966, ambos inclusos na minha lista de filmes favoritos. O livro aborda todas as fases da carreira de Mojica e, apesar de não ser chapa branca (pois aborda também os problemas do cineasta com o álcool, ostracismo, adultérios e o envolvimento com a indústria pornô), tudo é escrito com o maior respeito, tratando Marins como o verdadeiro gênio que é. Foi certamente uma das melhores biografias que já li na vida.

Menino de Engenho

Doidinho

Publicado originalmente em 1932, ‘Menino de Engenho’ foi minha décima primeira leitura concluída no ano passado e o primeiro livro de José Lins do Rego que li. A obra narra a história do menino Carlinhos, que vai morar no engenho do seu avô após perder a mãe assassinada pelo próprio pai. ‘Doidinho’, publicado pela primeira vez em 1933, foi minha vigésima quarta leitura concluída em 2016, e é a continuação de ‘Menino de Engenho’. Inclusive, começa exatamente onde o volume anterior termina. Esse segundo volume foi uma das leituras mais divertidas que fiz até hoje e, apesar de ser uma história triste em muitos momentos, a narrativa não perde o bom humor. Os dois fazem parte do “ciclo da cana-de-açúcar”, composta ainda por ‘Banguê’, publicado em 1934, ‘O Moleque Ricardo’, lançado em 1935, e ‘Usina’, lançado em 1936, títulos que eu pretendo ler muito em breve.

Revisao Crítica do Cinema Brasileiro / O Século do Cinema / Revolução do Cinema Novo

Essa trilogia glauberiana é formada por ‘Revisão Crítica do Cinema Brasileiro’, publicado originalmente em 1963, ‘O Século do Cinema’, de 1983, e ‘Revolução do Cinema Novo’, de 1981. Eles foram minhas leituras de número vinte e dois, trinta, e trinta e um de 2016, respectivamente. São livros escritos para quem realmente ama cinema, sobretudo o brasileiro. Glauber Rocha é meu cineasta favorito e tenho muito interesse por tudo o que diz respeito à sua vida e obra. Nenhum outro diretor me influenciou ou influencia tanto quanto ele. ‘Revolução do Cinema Novo’ trata do maior movimento cinematográfico da história do nosso país e foi o livro de cinema mais importante que já li.

Sargento Getúlio

Publicado originalmente em 1971, ‘Sargento Getúlio’ foi minha décima leitura concluída em 2016, e meu primeiro livro de João Ubaldo Ribeiro. Esse era um título que eu já queria ler há muitos anos, desde que assisti sua adaptação cinematográfica de mesmo nome de 1983, dirigido por Hermanno Penna, com Lima Duarte no papel do protagonista-título. Apesar de ser um livro pequeno, algumas passagens foram sabiamente cortadas no filme. Não por serem ruins, mas por não funcionarem tão perfeitamente no cinema quanto na literatura. Apesar disso, é uma das adaptações mais fiéis que já assisti (Ubaldo também assinou o roteiro) e tanto o filme quanto o livro fazem parte agora da minha lista de obras favoritas.

Minha meta inicial era ler cinquenta livros. No entanto, me dei conta de que um ano tem cinquenta e duas semanas, então esse se tornou o número mágico. Como vocês podem ver, não consegui alcançar nenhum dos dois. Quem sabe em 2017? Gosto de ler com calma e estou consciente de que ler muito rápido não é algo tão bom. Porém, também tenho que lutar contra o fato de que só viverei um determinado número de anos. Esse sentimento gera emoções contraditórias dentro de mim. Por já saber que não vou conseguir ler tudo o que quero, eu poderia muito bem ler livros aleatoriamente. Contudo, tento ser seletivo na maior parte das vezes, mas confesso que também gosto de ler ao acaso. Aprecio muito leituras estranhas, de títulos que quase ninguém ouviu falar.

Para esse ano, gostaria de convidar vocês a participarem do #DesafioLivrosBR do blogue 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer. O desafio consiste em ler, em 2017, doze livros brasileiros de diferentes categorias. Cliquem aqui no link para mais informações. É a primeira vez que participarei de um desafio literário e estou bastante entusiasmado. Segundo a Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2015, o brasileiro lê, em média, apenas dois livros inteiros por ano. Mais do que um país que lê pouco, o Brasil é um país que se lê pouco. Por isso, considero iniciativas como essa muito importantes.

Para finalizar, deixo abaixo o arquivo em PDF de ‘GOLPE: Antologia Manifesto’, obra que reúne cento e vinte artistas contra o golpe acometido contra a nossa democracia no ano passado. Foi uma das minhas leituras de 2016 e cito-o aqui nas menções honrosas. Espero que essa lista possa inspirar a leitura de muitos de vocês. Não se esqueçam de comentar quais desses títulos vocês já leram, quais querem ler e, claro, que livros vocês me indicam para 2017. Até a próxima, abraçaço.

GOLPE: Antologia Manifesto

hoje eu acordei com rubem braga

“Hoje eu acordei com sono, sem vontade de acordar. O meu amor foi embora e só deixou pra mim um bilhetinho todo azul com seus garranchos”. Não era bem assim que eu pretendia iniciar esse texto, mas ao escrever “hoje eu acordei”, me veio à mente a letra de ‘Bilhetinho Azul’, do Barão Vermelho, música presente no primeiro álbum da banda lançado em 1982. Escrevi o texto ouvindo esse disco que eu adoro e que não escutava há bastante tempo. Sessão nostalgia.

Não deixa de ser verdade que hoje eu acordei com sono, afinal, eu acordo assim todos os dias. No entanto, ao levantar da cama, lembranças há muito perdidas em um passado distante despertaram também. Recordei do livro ‘200 Crônicas Escolhidas’, do escritor Rubem Braga (1913-1990), livro que ganhei ainda criança. Foi o primeiro título adulto que me lembro de ter lido, pois até então eu só havia consumido literatura infantil. O livro tem o selo de venda proibida do Ministério da Educação na capa. Ganhei-o de um tio que era professor na época – se ele o ganhou ou roubou, eu não sei, só sei que ele me deu e que eu o tenho até hoje. A capa, inclusive, tem o desenho de uma mulher nua lendo e, por isso, eu tinha vergonha de lê-lo na frente das pessoas. Se eu era criança, a minha irmã que é mais nova do que eu, era mais criança ainda, e achava a capa super engraçada.

200 Crônicas Escolhidas

Confesso que nunca entendi essa mulher nua na capa, mas o que interessa é que o li por anos e que foi lendo-o que eu tive vontade de ser escritor. A cada crônica lida, eu pensava que podia fazer igual. Fiquei apaixonado pelos textos, queria ser cronista. O primeiro blogue que tive na vida era dedicado ao gênero. Na época, eu não entendia porque lia e achava que era fácil escrever, mas hoje está claro que a genialidade de Rubem Braga fazia tudo parecer fácil, como os atletas de alto nível, que nos banham com a sensação de que é possível fazer igual. Não é que seja fácil, eles é que são bons demais.

Hoje eu não escrevo mais crônicas (eu acho), mas consigo ver uma influência muito forte do gênero em meus textos. Meu tio, que me deu esse livro, nem imagina que foi ele o responsável por despertar o amor pela leitura em mim. Antes mesmo de me dar esse do Braga, ele já havia me presenteado com vários outros, de gênero infantil. Serei eternamente grato e tratarei de contar isso para ele em breve. É uma pena que Rubem Braga não esteja mais entre nós para que eu possa lhe agradecer por me despertar o amor pela escrita. Nem quando eu li o livro seria possível, pois ele já havia morrido quando eu nasci.

Para escrever o texto, retirei da estante minha edição de ‘200 Crônicas Escolhidas’, que já está amarelada pelo tempo, para folhear. Não me lembro da última vez que fiz isso, tanto é que fiquei surpreso ao ver no sumário que eu havia marcado com um marca-texto amarelo, o título de vinte crônicas. Coisa que eu jamais faria hoje, pois não risco um livro nem que me paguem. Pelo título das crônicas marcadas, não consegui recordar se eram as que eu mais gostava. Isso eu vou descobrir em breve, pois pretendo relê-lo de cabo a rabo. Porém, achei estranho que a crônica que mais me marcou (pois me lembro dela até hoje) não estava sinalizada com marca-texto. Ela se chama ‘Rita’ e ironicamente se encontra na página de número duzentos desta edição – a reproduzi para vocês abaixo. Até a próxima, abraçaço.


RITA

No meio da noite despertei sonhando com minha filha Rita. Eu a via nitidamente, na graça de seus cinco anos.

Seus cabelos castanhos – a fita azul – o nariz reto, correto, os olhos de água, o riso fino, engraçado, brusco…

Depois um instante de seriedade; minha filha Rita encarando a vida sem medo, mas séria, com dignidade.

Rita ouvindo música; vendo campos, mares, montanhas; ouvindo de seu pai o pouco, o nada que ele sabe das coisas, mas pegando dele seu jeito de amar – sério, quieto, devagar.

Eu lhe traria cajus amarelos e vermelhos, seus olhos brilhariam de prazer. Eu lhe ensinaria a palavra cica, e também a amar os bichos tristes, a anta e a pequena cutia; e o córrego; e a nuvem tangida pela viração.

Minha filha Rita em meu sonho me sorria – com pena deste seu pai, que nunca a teve.

Janeiro, 1955

bibliofilia crônica

Peguei uma doença gravíssima. Atinge diretamente o financeiro, dói no bolso e deixa a consciência pesada. Não consigo lembrar quando começou. Quando dei por mim, estava assim. Logo eu, que durante boa parte da minha vida li livros emprestados dos amigos ou alugados em bibliotecas. Agora estou com essa mania de acumulação que chamam por bibliofilia crônica. Não tem cura, dizem. Espero que estejam enganados. Hoje, o número de livros não lidos em minha estante está bem próximo do número de livros já lidos. Em um curto espaço de tempo terei mais livros para ler do que leituras concluídas. A dependência é forte e só vai piorando com o passar dos anos. No início, nos contentamos com qualquer edição, depois passamos para o estágio de só querer uma edição específica, uma capa específica, uma tradução específica. Conforme a coleção vai crescendo, passamos a querer livros cada vez mais caros, as reedições em capa dura, os clássicos em edições de luxo, até chegar ao ponto de ansiar por raridades. Viramos ratos de sebo, verdadeiros desbravadores da Estante Virtual. Eu, por exemplo, já estou apresentando os primeiros sintomas desse último estágio da doença, se é que é o último. Algumas pessoas bem próximas a mim, outras nem tanto, estão ainda mais graves que eu. Nós doentes nos reconhecemos, nos abraçamos, nos reconfortamos, choramos juntos a mesma dor. Só um bibliófilo crônico entende o sofrimento que é salvar o endereço de uma página na Estante Virtual para comprar o livro depois e, ao voltar, constatar que ele foi adquirido por outra pessoa. Sempre fico imaginando quem foi que me causou tremenda dor. Será que é um bibliófilo também? Será que esse alguém comprou para presentear outro alguém que nem vai fazer tanta questão do livro quanto eu? Será que foi para um trabalho da universidade? Será que foi comprado sem maiores pretensões? No final, sempre prefiro acreditar que foi alguém como eu e que vai tratar o livro tão bem quanto. Só assim alimento esperanças dessa pessoa ser bem mais velha que eu, o que teoricamente aumentam as chances de ela morrer primeiro. Possibilitando, desta forma, uma nova oportunidade de adquirir o livro se o herdeiro ou a herdeira resolver se desfazer dele anunciando-o novamente na Estante Virtual. Essa agonia é bem semelhante à de ver determinado título na livraria e saber de imediato que jamais seremos um do outro. Mesmo assim prometemos, para nós mesmos e para o livro, que voltaremos para comprá-lo depois. Como se não bastasse, ainda tenho uma característica particular, ou não tão particular assim, de comprar títulos estranhos que eu mesmo nunca ouvi falar. São comprados pela intuição: um vigésimo terceiro sentido me diz que vou gostar. São escritos que eu sei que nenhum dos meus amigos gostaria de ler e que talvez até eu mesmo desgoste quando começar a folhear. Por mais tempo que eu passe sem comprar um livro novo, geralmente uma consequência da falta de dinheiro, sempre acontece uma recaída durante essas malditas promoções maravilhosas que nos permitem comprar bons livros a preços acessíveis, mas que mesmo assim nos deixam de cama, tamanha a tristeza por ainda não conseguir levar tudo. A cegueira é tão grande que nos sujeitamos a pagar um valor absurdo de frete – que daria para comprar outro livro – só para sustentar o vício. Algumas horas antes de escrever essas palavras eu tive uma recaída. Estava limpo há um mês. Sei que não é bastante tempo, mas havia prometido não comprar mais nada nesse ano. Agora é tarde para voltar atrás. Durante a próxima semana, sempre que eu estiver na rua e ver um carro dos Correios passando, irei imaginar se minha felicidade estará ali dentro rumo à minha rua, rumo à minha casa. Como quase sempre essas minhas encomendas chegam quando eu não estou presente, minha mãe é quem as recebe e as deixa sobre a mesinha de centro da sala. A mesinha deve ter meio metro de altura no máximo, mas será minha linha do horizonte sempre que eu chegar em casa. No momento passo bem, embora ainda esteja melancólico por não ter comprado todos os títulos que queria. Não posso prever quando será a próxima recaída, mas uma coisa é certa: os primeiros sintomas de abstinência vão surgir poucos minutos após retirar o invólucro dos livros novos e guardá-los na estante. Paciência.

minha estupidez

Fiquei sabendo através das redes sociais que Fernanda Torres estrearia essa semana no canal GNT um programa chamado Minha Estupidez. Programa esse que eu não vou assistir pois não tenho TV por assinatura em casa (nem pretendo) e porque, quando for disponibilizado na internet (se for), eu com certeza já terei esquecido. No entanto, acabei abrindo o texto que falava da estreia e me deparei com o parágrafo de outro que a própria Fernanda escreveu e enviou para jornalistas: “Eu me valho da minha ignorância, da curiosidade onívora e de uma certa franqueza, que me leva a admitir, em público, que não sei o que é solipsismo, […] além de confessar que passei três anos mentindo que havia lido ‘Viva o Povo Brasileiro’.”

Depois de passar alguns anos mentindo que havia lido o clássico de João Ubaldo Ribeiro, finalmente Fernanda o leu em 2008, e aproveitou a ocasião para entrevistar o escritor baiano para um programa que ela havia idealizado e que só agora está sendo lançado sob o título de Minha Estupidez, como citei acima. Realmente não recordo se já menti dizendo que li um livro sem ler, mas admito que são grandes as chances de isso já ter acontecido pelo menos uma vez. De toda forma, se não sei ao certo se menti sobre livros, confesso que já menti dizendo ter visto um filme que ainda não havia assistido.

Todo mundo conhece alguém que dá dicas de filmes aos amigos quando eles não sabem o que assistir. Eu sou essa pessoa. Portanto, para não decepcionar o pequeno imaginário coletivo que se formou através do meu minúsculo ciclo social em relação à minha cinefilia, existiram algumas ocasiões em que menti ao me perguntaram se vi tal filme, principalmente quando o título era um clássico. Como realmente vejo muitos longas, logo não precisei mentir tantas vezes e ninguém nunca desconfiou que eu pudesse estar faltando com a verdade. Mesmo assim, aprendi que não importa o número de filmes que você veja, alguém sempre vai te perguntar por um que você ainda não viu.

Uma das razões das minhas mentiras era mesmo para evitar a reação das pessoas, pois quando eu admitia não ter visto, elas sempre reagiam como se fosse o fim do mundo: “Como assim você não assistiu ainda? Você não é cinéfilo?”. Como se alguém tivesse a obrigação de conhecer tudo. A outra razão era por vergonha mesmo: “Como eu, um cinéfilo, ainda não vi esse filme?”. Entretanto, acredito que essa segunda razão existe muito em função da primeira, pois eu talvez não sentisse vergonha se as pessoas não me julgassem. Se eu teria deixado de mentir se não houvesse julgamento? Não sei. Todavia, não imagine que eu gostava de fazer isso pois, nas vezes em que aconteceu, corri para casa e tratei de ver o filme o mais rápido possível para que a mentira durasse pouco tempo. Conjugo os verbos no passado porque já faz alguns anos da última vez que tentei enganar os outros e a mim mesmo de que era possível conhecer tudo.

Hoje, assim como Fernanda, também me valho de minha ignorância, de minha curiosidade e de minha franqueza para admitir quando não vi tal filme ou li tal livro, mas não só isso, como admitir também o total desconhecimento de vários assuntos. Sentindo uma identificação tremenda com as palavras de Fernanda, decidi procurar pelo texto completo que ela enviou a jornalistas, mas não encontrei. Em compensação, a pesquisa me levou a algumas entrevistas interessantes da atriz e escritora sobre o programa. Porém, como ela também fala de outros assuntos e como eu adoro entrevistas, resolvi transcrever alguns trechos aqui.

Em uma delas, Fernanda, que revela sentir falta de ter cursado uma universidade, compara sua cultura geral a um queijo suíço: “É cheia de buracos. Nunca ninguém ordenou o pensamento para mim. Fui lendo e me informando, mas sem ninguém me conduzindo”. Apesar de cursar uma graduação, também sinto que muitas áreas do meu conhecimento são esburacadas. O que não me desmotiva, muito pelo contrário. Por mais trabalhoso que seja, isso me faz correr atrás dos pensamentos que possam preencher essas fendas.

Em outro momento, dessa vez sobre o processo de impeachment da presidenta Dilma, senti como se Fernanda tivesse lido os meus pensamentos: “Não conseguia escrever. Não conseguia ler. Parecia que minha vida era pautada pelo que fosse decidido em Brasília”. Foi justamente isso que aconteceu comigo durante as últimas semanas do golpe, não consegui produzir nada. Outro momento de identificação foi quando ela falou sobre opiniões formadas: “Pedem muito para a gente, que é ator, dar opinião, e a gente dá, né? Nos últimos anos, também passei a escrever em jornal e revista. Mas aprendi a dizer “Não tenho opinião sobre isso””.

Contudo, nem tudo são flores. Ao ser questionada sobre a polêmica do texto para o blog feminista Agora É Que São Elas, em que falou de “vitimização do feminismo”, ela vê como seu único erro apenas ter publicado tal texto no blog errado: “O texto era para um blog ligado a questões feministas. E eu não entendi isso. Era um lugar errado para falar da minha opinião pessoal. Eu errei. Hoje você tem que ter cuidado redobrado com o que e com quem fala. As coisas reverberam rapidamente na internet. Esse episódio me ensinou muito”. Apesar de ter se retratado depois, Fernanda diz que o ‘mea culpa’ não exclui o que ela pensa. Isso foi mesmo uma estupidez da parte dela, mas esse é assunto para outro texto.

Numa das resenhas do primeiro episódio do programa, há a transcrição do que Fernanda diz na abertura. Repito, eu não vi, então não sei se as palavras foram essas mesmo, mas o que estava escrito me chamou atenção. Diante da estante que herdou do avô, ela diz: “Esse programa nasceu desta estante aqui, de perceber que, por mais que eu tenha lido e amado os livros que eu li, eles se reduzem a isso aqui. Ou seja, nada perto do que existe pra se ler, se conhecer. Essa estante, de certa maneira, mede o tamanho da minha estupidez”. Fernanda disse, dessa vez em uma das entrevistas, que leu tanto para realizar o programa que, quanto mais lia, mais via que não sabia de nada. Ela acha que aumentou sua estupidez. Que leitor nunca sentiu isso?

Olhei então para a minha própria estante que eu já julgava ser tão pequena e, diante de todo o conhecimento da humanidade, é essa minha estante pequena que, de certa forma, também mede o meu próprio conhecimento. Embora muito em breve ela não consiga mais guardar livros novos, mesmo que ela triplique ou quadruplique de tamanho, sua pequenez não se calcula apenas metricamente. À frente de todos os livros que jamais chegarão até aqui, ou mesmo que chegassem, à frente de todos os livros que eu não vou conseguir ler antes de morrer, minha estante e meu conhecimento serão eternamente o que sempre foram: estúpidos.

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nostalgia

Semana passada, estava eu deitado em minha cama, lendo, quando meu cérebro fez um download dos meus treze anos. O livro era ‘Doidinho’, de José Lins do Rego (1901-1957), um romance que estou lendo pela primeira vez e que tem como protagonista o garoto Carlinhos (também figura central de ‘Menino de Engenho’), apelidado nessa obra de Doidinho. O personagem está agora com doze anos de idade e até o final da história suponho que deva completar os treze – não sei, pois ainda não concluí a leitura. Porém, não creio que isso justifique a brincadeira que meu cérebro fez comigo. Sigo acreditando que foi apenas uma grande coincidência.

‘Doidinho’, publicado pela primeira vez em 1933, narra as experiências de Carlinhos como interno em um colégio severo. Mesmo aos doze anos, Carlinhos não é mais um garoto inocente, já tendo realizado até mesmo suas primeiras experiências sexuais – coisa que eu, aos treze, ainda nem sonhava em ter. Com essa idade eu estava fazendo outras descobertas, e a música era uma delas.

Foi aos treze anos que a música entrou de verdade em minha vida, ou seja, muito tarde. Antes disso, minha memória musical é quase nula. Pouquíssimas canções possuem o poder de me deixar com saudade da infância e as que conseguem isso constituem um pequeno número de sucessos do passado que inevitavelmente ouvi através da televisão. Algumas delas são músicas dos Mamonas Assassinas ou da Xuxa que, ao ouvir novamente hoje em dia, me fazem retornar imediatamente ao meu passado, me deixando imensamente feliz por terem sido essas as músicas que ouvi quando criança. Tenho pavor só de imaginar a possibilidade de ser criado ao som de Patati Patatá.

Em minha casa, tínhamos um aparelho de rádio que funcionou por pouco tempo, embora que, mesmo depois de quebrado, tenha sido deixado por meu pai anos e anos sobre a estante da sala. Só recordo de ouvir música nele uma vez, quando meu pai o sintonizou em alguma estação e minha irmã e eu, ainda muito pequenos, pulamos ao som de uma música que eu não lembro qual era.

Ainda aos treze anos, quando eu cursava a sétima série do ensino fundamental, redescobri a TV União. Eu já tinha conhecimento de sua existência, mas foi só nessa idade que me viciei nela. A programação do canal local era e ainda é quase que inteiramente dedicada à transmissão de videoclipes. Hoje, encaro de forma benéfica o fato de até essa época não ter construído nenhuma bagagem musical. Como meus pais não apreciam música, acabei crescendo sem ouvir nada, porém, tive a vantagem de não ter sido influenciado pelo gosto musical dos outros. Aos treze anos, era como se meus ouvidos fossem virgens. Eu haveria de descobrir por conta própria minhas preferências musicais, e foi justamente isso que aconteceu. Imediatamente descobri que o rock e eu estabeleceríamos um relacionamento para a vida toda.

O programa da TV União que eu mais gostava era um chamado Top Mais, que ainda existe. Nele são exibidos os dez videoclipes mais pedidos na programação. Eu simplesmente adorava. Era transmitido das onze da manhã ao meio dia, de segunda a sábado, pois no domingo eles faziam um especial. Os telespectadores enviavam cartas com os seus dez videoclipes favoritos e, em cada domingo, eles sorteavam um felizardo que teria seu pedido atendido. Escrevi várias cartas, mas nunca cheguei a enviar, pois era incapaz de selecionar apenas dez videoclipes. Depois de algum tempo, o programa mudou de horário, passando a ser transmitido do meio dia às treze horas da tarde, o que complicou para o meu lado. Eu estudava no turno da tarde e a aula começava justamente às treze horas. Depois dessa mudança, eu só conseguia assistir do décimo ao quarto colocado e saía correndo para o colégio. Perdia o pódio com os três mais votados. Entretanto, minha melhor amiga na época morava perto do colégio e conseguia assistir tudo. Ela sempre me contava o que eu havia perdido quando nos encontrávamos na aula. Atualmente, não sei mais qual o horário exato do programa e nem se continuam fazendo esse especial aos domingos.

A banda Luxúria foi a primeira que considerei como favorita em minha vida. O videoclipe da música ‘Imperecível’ ficou por muito tempo entre os mais pedidos da programação. Depois lançaram ‘Lama’, que, juntamente com ‘Ódio’, foram suas músicas mais conhecidas – pois tocaram em novelas. Pouco tempo depois, a banda acabou e a vocalista, Megh Stock, seguiu em carreira solo. Megh chegou a lançar dois álbuns: ‘Da Minha Vida Cuido Eu’, em 2009, e ‘Minha Mente Está em Seu Caos’, em 2011. No entanto, ela está longe dos palcos desde então e sem previsão de volta. As músicas do Luxúria, bem mais do que as dos discos solos de Megh, são muito nostálgicas para mim. Foram elas que, na semana passada, baixaram repentinamente em meu cérebro durante a leitura de ‘Doidinho’. No momento em que isso aconteceu, interrompi a leitura e fui assistir aos videoclipes da banda pelo celular. Quanta saudade!

Luxúria não passou muito tempo no posto de minha banda favorita. Logo ela seria substituída por outras conforme fui descobrindo grupos melhores e com sons mais pesados, porém, nesse curto espaço de tempo, eu me lembro de ter tido aulas com uma excelente professora de geografia que também era roqueira. Ela tinha uns quarenta anos (ou menos) e usava sempre lentes de contato coloridas, embora as vermelhas e as cinzas fossem as que ela usasse com mais frequência. Certo dia, perguntei-lhe se conhecia a banda Luxúria e ela respondeu que não, mas que já tinha ouvido falar e que queria experimentar seu som. Prometi então de lhe gravar um CD com o único álbum da banda lançado em 2006, mas ela acabou saindo do colégio antes que eu lhe entregasse o presente. Meses depois, nos chegava a notícia de que ela havia morrido de overdose. Quem nos contou foi um colega de sala que era vizinho dela. Fiquei muito triste quando soube.

Ouvi muito os discos solos de Megh também, mas isso foi no período em que eu cursava o ensino médio, já na adolescência. Ainda existia o programa de mensagens instantâneas do MSN. Praticamente todos os amigos virtuais que fiz são dessa época. Hoje, o Skype cumpre bem a função do seu antepassado que, convenhamos, era uma bagunça, embora eu veja com saudosismo as funções de chamar atenção e saber o que os amigos estão ouvindo. Estou falando disso porque existia algo no MSN chamado subnick, mais conhecido como “digite sua indireta aqui”. Todo mundo colocava letras de músicas com a ilusão de encobrir a verdadeira intenção da mensagem e todos fingiam que acreditavam. Nós passávamos vergonha e nem sabíamos. Eu adorava usar trechos de músicas da Megh: “não apodreça, ninguém vai reparar”, “mas o que você me faz me dando todos os sinais de que agora eu acertei?”, “daria um pedaço do meu medo pra saber se você tem coragem”, “se eu me escondo aqui nesse lugar tranquilo não se esqueça que pro caos eu tô partindo”. Quem nunca? Faz só três anos que o MSN desativou seu programa de mensagens instantâneas, mas por eu ter deixado de usá-lo antes mesmo do fim, tenho a sensação de que foi há um século.

O meu eu roqueiro de anos atrás não veria com bons olhos o também fã de Tropicália e MPB de hoje. Há anos que eu não ouvia Luxúria e Megh Stock – se não fosse essa lembrança repentina, talvez passasse muitos outros anos sem ouvir novamente. Escrevi esse texto ouvindo essas canções. Elas, juntamente com muitas outras, marcaram minha adolescência que, ao contrário da infância, foi extremamente musical. Gostaria, inclusive, que Megh gravasse um disco novo e voltasse a fazer shows. Eu, que nunca tive a oportunidade de vê-la ao vivo, iria adorar.

Um detalhe é que essa revisitação me serviu para descobrir que eu cantava a letra de ‘Dúvidas’ errado. No trecho “muitas vezes eu te desviei da meta” eu sempre cantei “muitas vezes eu te desviei da merda”. Essa não foi a única: eu também cantava ‘Lama’ de forma errada, já que no trecho “tira essa lama das botas” eu cantava “tira essa lama das portas”. No entanto, o erro de ‘Lama’ eu descobri bem lá no início, na adolescência mesmo. Confesso que prefiro minha versão errada de ‘Dúvidas’. Enfim, vou encerrar por aqui porque ‘Doidinho’ não vai terminar de se ler só. Até a próxima, abraçaço.

eutanásia literária

Como vocês devem saber, existem duas maneiras de se assistir a um filme: a primeira, inconscientemente praticada por quase toda a população, é mergulhando de tal forma na história, a ponto de se esquecer de estar vendo um vídeo; a segunda, mais comum entre profissionais de cinema, é permanecendo o tempo todo consciente de estar assistindo a uma produção cinematográfica e reparando em todos os detalhes técnicos, como atuação, enquadramento, fotografia, roteiro, som, continuidade, etecetera, etecetera. Há quem faça uma mescla, mas uma das formas sempre se sobressai. Ambas, no entanto, me proporcionam um enorme prazer e, até quando a estória é triste, a experiência se torna deleitosa. A primeira forma era a minha maneira de ver filmes antes de começar a estudar cinema e realizar minhas próprias produções. Não consigo voltar a ver filmes como antigamente e nem faço muita questão, já que adoro saber ou imaginar o que acontece por trás das câmeras. Desse modo, não sofro quando um filme acaba (não que sofresse antes, pois sempre anseio pelo final).

Com a literatura ficcional, entretanto, é tudo diferente. Embora eu escreva, só sei ler de uma única forma: me sentindo psicologicamente parte da comunidade protagonista do livro. Em vista disso, concluir boas leituras, às vezes, pode ser um verdadeiro martírio. Diferentemente de um filme, que ocupa em média duas horas do meu tempo (e que vejo de fora, sem o mesmo envolvimento com os personagens e ações principais), os livros me exigem no mínimo uma semana, isso se tratando dos mais curtos, visto que meu ritmo de leitura é lento. Porém, uma semana é tempo suficiente para que eu me envolva com tal força, que é inevitável não me sentir triste ao me despedir do texto.

A relação com o impresso é tão intensa que, a nível de comparação, raramente fico triste com a morte de personagens em filmes (talvez por gostar muito de ver mortes cinematograficamente bem realizadas), mas dependendo do livro e do personagem, sofro demais. Quando a morte ocorre muito antes do fim, além da perda em si, é triste encarar o restante da jornada imaginando a ausência do personagem nas páginas seguintes. Todavia, com ou sem morte, o difícil mesmo é finalizar a leitura de um bom livro e dizer adeus àquele companheiro de dias, semanas ou até meses. Não foram raros os momentos em que desacelerei a leitura propositalmente para permanecer mais tempo com certa história, o que também ocorre com narrativas biográficas e livros de poesia. Concluir a leitura de séries então é uma verdadeira tortura. Li poucas, mas sempre comecei todas muito ansioso por terminar e, ironicamente, ao me aproximar dos últimos volumes, sempre tratava de sabotar o fim lendo outros títulos. Por multiplicar em várias a dor do término de um livro, as séries foram perdendo espaço na minha estante. Hoje, só restam duas ainda não lidas na prateleira e sem a menor previsão de início. A última série que li foi concluída em dois anos. No primeiro ano li 80% dela e deixei apenas dois volumes para o ano seguinte, que foram intercalados por dezenas de leituras a fim de não abreviar sua vida.

Procurando explicações, suponho que a imaginação seja o segredo por trás de todo esse envolvimento. Não querendo contrapor cinema e literatura (justamente porque, ao fazê-lo, cometo uma enorme injustiça para com os dois lados e suas importâncias artísticas, estéticas e políticas), mas inevitavelmente já comparando, é preciso reiterar o que todos já sabem: no cinema, as imagens estão dadas, digamos assim, enquanto que, na literatura, por mais detalhista que seja o escritor, intencionalmente ou não, ele sempre deixará espaços. Logo, não havendo imagens para preencher esses “vazios”, cada pormenor só ganha vida na nossa idealização. No vídeo, embora cada um também possa interpretá-los ou estima-los à sua maneira, os personagens são visualmente iguais para todos. Para cada livro, concebo os personagens da minha forma e até crio vozes diferentes para cada um deles. Não importa quantas pessoas leiam o mesmo título, cada uma delas fantasiará a história de forma singular e, consequentemente, isso fortalece muito a minha relação com o texto.

Com o tempo, fui desenvolvendo estratégias capazes de amenizar o luto de uma eutanásia literária. Passei a ler muitos livros ao mesmo tempo e estabeleci três como número mínimo, mas tenho há muito mantido uma média de cinco leituras simultâneas. Gerenciando bem esses livros, é possível passar por um padecimento por vez, mas continua sendo difícil, para mim, matar uma história lendo o último capítulo. Só livros muito bons causam esse impacto, mas a sensação de folhear a última página, sabendo que depois não tem “mais”, é demasiado amarga. Porém, as outras leituras em andamento funcionam como um conforto, o que me permite não cair em jejum entre um título e outro. No amor, substituir um(a) ex por um novo relacionamento com a intenção de sarar o namoro anterior nunca funcionou comigo, mas posso garantir que nada melhor para curar uma ressaca pós-leitura do que outro porre literário.

mãos que não escrevem

Sou fascinado por manuscritos. Sempre que vou a alguma exposição ou retrospectiva em homenagem a algum(a) escritor(a), procuro por eles. A última exposição desse gênero que tive a oportunidade de prestigiar foi a Múltiplo Leminski, dedicada ao escritor e poeta curitibano Paulo Leminski (1944-1989). Além dos seus manuscritos, a mostra reuniu mais de mil objetos pessoais, entre fotos, livros, pinturas, textos datilografados, vídeos e filmes. Recentemente, li ‘Menino de Engenho’, de José Lins do Rego (1901-1957). Minha edição, que é de 1992, apresenta o manuscrito da última página do livro ao final do volume. Tal registro vem acompanhado do seguinte texto: […] para decifrar a quase ilegível letra de José Lins, colamos a ‘tradução’ nas linhas respectivas. “Quase ilegível” é elogio, pois salvo uma ou duas palavras, eu não consegui entender nada dos garranchos do escritor paraibano. Apresento abaixo uma foto que fiz da página com o manuscrito, mas aconselho quem ainda não leu que não veja com atenção, pois contém revelações de enredo.

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Após o término da leitura, fiquei pensativo. A maioria dos escritores contemporâneos não deve escrever mais à mão, preferindo digitar em seus computadores. Aposto que muitos autores só utilizam a caneta em sessões de autógrafo – que um dia ainda hão de ser totalmente substituídas por sessões de selfies. Suponho que, daqui a algumas décadas, quando organizarem mostras em homenagem a eles, não haja nenhum manuscrito. Os exemplares das primeiras edições impressas de seus livros talvez se tornem os documentos mais valiosos dos futuros escritores. Não os condeno, pois eu mesmo não escrevo mais à mão. É muito mais prático digitar, posso reescrever uma frase na hora que eu quiser, sem ter de apagar o que já foi posto com borracha ou riscar as linhas com caneta ao escrever outra coisa por cima. Ainda posso inserir palavras novas ou até mesmo frases inteiras no texto redigido sem precisar fazer isso na borda da folha. Sem contar o que para mim é a maior vantagem: a rapidez. Passaria horas escrevendo à mão o que digito em alguns minutos. Digitando, consigo acompanhar meu raciocínio, enquanto que à mão, a velocidade da escrita não respeita a do cérebro: acabo deixando de colocar no papel o que estou pensando naquele momento, resultando em um acumulo de ideias que, consequentemente, acarreta o esquecimento de algumas delas, me forçando a pensar novamente o que devo escrever. Com o auxílio do teclado, praticamente consigo digitar o que penso em tempo real.

Sempre fui um militante da escrita eletrônica por entender que quanto menos papel for usado, melhor será para o ecossistema, pois, mesmo que seja oriundo de reflorestamento, o solo e a água não deixam de ser usados. Sei que a geração de energia elétrica afeta o meio ambiente, mas o desmatamento de árvores também é muito nocivo à natureza. A combinação da escrita eletrônica com a utilização de energia sustentável é o ideal. Porém, eu ainda não havia percebido que estamos caminhando para a extinção em massa dos manuscritos. Em um futuro próximo, além da morte desses documentos de grande valor histórico, poderemos assistir até mesmo ao fim do ensino da chamada “escrita à mão”. Tudo ao nosso redor está trabalhando em função disso, até nossas assinaturas em documentos estão ficando cada vez mais raras, já que a biometria digital está sendo implantada em todos os lugares: além dos bancos e das votações eleitorais, eu já havia usado a biometria no colégio (para o controle da entrada e saída dos alunos), na academia e na autoescola. Sem contar que a prova teórica do exame de CNH foi realizada no computador. Não está muito distante o dia em que todos os vestibulares também serão realizados dessa forma, com o aluno recebendo o resultado logo após o término da prova. Para usar carteirinha de estudante também já está sendo preciso fazer a biometria facial. Temo que, muito em breve, todo e qualquer estabelecimento cobrará nossa identificação e, finalmente, cada movimento nosso será monitorado ao bel-prazer do Sistema.

Alguns países do primeiro mundo já estão deixando de ensinar a letra cursiva, cobrando dos alunos apenas o aprendizado da letra de forma e substituindo o velho caderno de caligrafia por tablets e computadores. As crianças aprendem a reconhecer as letras escritas de forma cursiva, mas não são mais ensinadas a reproduzi-las. Nos últimos anos as crianças estão apresentando cada vez mais dificuldade em aprender a escrita de mão, entretanto, com o crescente contato com as novas tecnologias, estima-se que um terço dos bebês usa smartphones e outros aparelhos digitais antes mesmo de aprender a andar e a falar.

No entanto, alguns pais estão preocupados, acreditando que o fim do ensino da letra de mão pode prejudicar seus filhos. A discussão divide especialistas: de um lado estão os que defendem que a escrita é importante para desenvolver a psicomotricidade fina, fundamental para o desenvolvimento psicomotor, pois quanto mais estímulos o cérebro recebe, mais sinapses ele faz, aumentando sua capacidade, e o uso das mãos têm grande influência no desenvolvimento das sinapses; do outro lado, estão aqueles que defendem que, mesmo com o fim do ensino da escrita de mão, as habilidades motoras das crianças continuam sendo exercitadas com o manejo de smartphones, tablets, videogames e computadores. Estes últimos também argumentam que as habilidades motoras podem ser treinadas nas disciplinas de desenho e pintura. Não sou nenhum especialista para conseguir justificar a importância de escrever à mão, mas sei que se cada vez mais países desenvolvidos aderirem ao fim da letra cursiva, logo essa medida também deverá estar sendo implantada nos países emergentes, e aqui, onde mal temos direito à educação, não teremos aulas de desenho e pintura para suprir o desenvolvimento psicomotor das crianças.

Aprendi a ler e a escrever aos seis anos de idade e recordo bem da alegria que senti no dia em que a professora me pediu para escrever a palavra “lago” na lousa e não errei. Sempre elogiaram a beleza da minha letra grande e redonda, mas hoje ela não é mais a mesma. Atualmente estou lendo ‘Revisão Crítica do Cinema Brasileiro’ de Glauber Rocha (1939-1981) e, quando me debruço sobre livros que tratam do cinema, costumo fazer anotações em algum caderno, pois nunca, em hipótese nenhuma, risco um impresso. Havia certo tempo em que eu não lia alguma obra acerca da sétima arte e havia mais tempo ainda em que eu não fazia anotações. Acredito que escrever é como andar de bicicleta: quem aprende, nunca esquece, mas quando não praticamos, sofremos um pouquinho para voltar a dominar o guidão. Quando fui fazer as anotações, senti a caneta correndo rápido demais, foi preciso algumas linhas para me familiarizar novamente com aquele objeto.

Não recordo de ter tido muita dificuldade em aprender a escrever, pois a professora que me alfabetizou era tão rigorosa que com certeza haveria feito disso um trauma na minha infância. De certa forma, me lembro de uma única ocasião em que fiz um teste de caligrafia e a professora me mandou refazer várias vezes porque minha letra estava feia. Os alunos que terminavam podiam ir para o recreio. Fiquei vendo todos os colegas brincando no pátio e eu ali, preso no teste de caligrafia. Reescrevi tantas vezes que a folha foi ficando cada vez mais fina de tanto apagar com a borracha, até chegar ao ponto de rasgar em algumas partes. Por fim, acabei chorando e as lágrimas borraram tudo ainda mais. Não lembro se consegui ir para o recreio, minha memória só chega até esse ponto da lembrança.

Que benefícios o ensino da letra escrita me trouxe, eu não sou capaz de dizer. Talvez, aos seis anos de idade, adorasse receber a notícia de que não precisaria aprender a escrever, e olha que, no meu tempo, as crianças ainda não possuíam celulares – o meu primeiro aparelho eu só fui ter aos catorze anos. Admito que a escrita cursiva exige muita coordenação motora e que aprender a desenhar as letras é um processo demorado. É como se fossemos alfabetizados duas vezes, aprendendo a ler as letras e depois a reproduzi-las. Todavia, hoje eu optaria por ter aprendido a escrever, e acredito que o ideal seria a junção do ensino da letra de mão com o aprendizado das novas tecnologias. Uma não precisa substituir a outra, embora o já esteja fazendo sem que percebamos. No dia a dia, não necessito mais carregar um bloquinho de notas juntamente com uma caneta (que sempre periga estourar dentro do bolso) ou mandar bilhete para ninguém, pois uso o celular para fazer anotações e os aplicativos de mensagens instantâneas para enviar algum recado.

Com o fim do ensino da escrita cursiva, as crianças só serão capazes de escrever em letras de forma, pois são mais fáceis de reproduzir. Em uma sociedade cada vez mais prática, as pessoas defendem que, se não usam algo, não há porque perder tempo aprendendo. O mais irônico nessa história toda é que as variantes cursivas foram desenvolvidas durante a Idade Média para permitir uma escrita manual mais rápida, pois é possível alcançar uma velocidade de escrita maior quando se usa o método clássico de passar de uma letra a outra sem levantar a caneta do papel.

Reconheço que a tecnologia tem força suficiente para dar fim à escrita de mão, e saber que existe a possibilidade dos meus netos ficarem intrigados ao me verem escrevendo no papel, prática usada há cerca de sete mil anos, é um pouco assustador. Por um longo período, usaram o termo “pré-história” para dividir o tempo em antes e depois da invenção da escrita como registro da realidade. Novas formas de contar a história hão de nascer com o desenvolvimento feroz da informática e talvez um dia também sejamos pré-alguma coisa.

Quando os arqueólogos do futuro (se é que ainda se chamarão assim) ou até mesmo seres de outro planeta em um possível período pós-apocalíptico procurarem vestígios de nossa civilização aqui na Terra, além de fósseis, encontrarão muitos fragmentos de computadores, tablets e smartphones. Haverão também muitos muros grafitados que dirão mais coisas sobre nós do que vosmecê imagina (a arte do grafite é uma espécie de pintura rupestre moderna). Talvez ainda encontrem restos de manuscritos, que poderão ser os vestígios mais preciosos da nossa civilização, pois a letra de alguém diz muito sobre sua personalidade, o que ainda não é possível estudar através da digitação.

distância estratégica

Sou um homem de muitos ídolos, em especial cineastas, escritores(as) e compositores(as), mas se tem algo que tenho aprendido com o passar dos anos é que, em alguns casos, manter distância deles pode ser uma decisão muito saudável. Na adolescência, passei por uma fase de fanatismo por bandas de rock, bandas essas que me ajudaram a moldar boa parte da minha personalidade. Ainda gosto dessas bandas, conheci outras e fui ao show de muitas. Conservo em mim a vontade de ainda ver ao vivo as que nunca cheguei a ver – não são poucas, apesar de boa parte delas não existir mais.

Mesmo nessa fase, nunca fui a camarim, nunca fui a aeroporto esperar meus ídolos chegarem na minha cidade, nunca fiz nenhum tipo de loucura de fã, mesmo já tendo sido membro de alguns fã clubes. Não julgo quem faz essas demonstrações de amor, contanto que não passem dos limites do bom senso e jamais ponham a própria segurança e a dos outros em risco. Foi uma fase importante da minha vida, em que conheci muitas pessoas que gostavam das mesmas coisas que eu. Se pudesse voltar no tempo, com certeza faria muita coisa diferente, mas essa fase da adolescência eu não mudaria. Fiz muitas amizades, das quais algumas permanecem até hoje. A música, em especial o rock, me aproximou de muita gente incrível e essas bandas apresentaram-me a muitas outras bandas, a vários filmes e livros. Não foram poucas as ocasiões em que li um livro ou vi um filme porque certo cantor ou cantora dizia gostar em entrevistas. Até hoje fico muito feliz quando alguém me apresenta algo que ainda não conheço, embora nada supere a sensação de sozinho fazer essas descobertas. É por isso que pesquiso tanto, estou sempre desbravando listas de filmes, livros, discos e, conforme o tempo vai passando, menos entrevistas eu leio ou assisto.

Show para mim tem que ser na grade, bem perto do palco. Se eu ficar longe, tenho a sensação de que não fui. Por isso, sempre compro os ingressos no primeiro lote para não correr o risco de perder. Chego cedo, mesmo que tenha que ficar algum tempo na fila. Tenho forte resistência, posso passar bastante tempo em pé, sem comer ou ir ao banheiro. Em quase todos os shows que fui na adolescência, fui a primeira pessoa da fila. Não sei se continuo com essa mesma resistência, porque faz bastante tempo que não sou e nem me preocupo mais em ser o primeiro. Não chego mais com muitas horas de antecedência, porém, chego tarde o suficiente para ainda conseguir ficar na grade (isso não significa que chego cedo, são as pessoas que chegam tarde, acredite). A energia da grade é diferente da dos outros espaços. Ali estão os fãs mais enérgicos, os mais apaixonados, os mais loucos, os que querem ser vistos pela banda. Gosto dessa energia. Hoje não pulo tanto quanto antes e nem tento ser o que grita mais alto. Sempre tenho algo para fazer no dia seguinte, não posso mais dar-me ao luxo de ficar muito cansado e rouco. Agora, só o fato de estar ali me basta, embora continue querendo estar perto.

Todas as vezes que vou a um show, as pessoas perguntam-me no dia seguinte se consegui entrar no camarim e tirar foto com a banda. Eu sempre digo que não (porque, na verdade, nem tento) e recebo sempre uma reação decepcionada. Nunca consegui entender isso. Vou aos shows ver e ouvir as bandas ao vivo, não para tirar fotos com os músicos. Costumo explicar brincando que quando vou a um show só interessa-me a “missa” proporcionada pela banda. O importante mesmo é comungar aquele momento com as pessoas ali presentes. Nos primeiros shows que fui, costumava filmar várias músicas e fotografar bastante, hoje, não faço mais isso. Em boa parte dos casos é uma grande oportunidade estar ali. Sei que queremos registrar cada segundo, mas se estamos muito preocupados em registrar a apresentação, esquecemo-nos de viver aquele momento. Agora, costumo tirar uma ou duas fotos para guardar de recordação, mas não tenho nenhum registro fotográfico do último show que fui. No entanto, lembro nitidamente de tudo e sou capaz de contar em detalhes quando me perguntam como foi.

Acredito que permanecerei sempre como um rato de shows. A sensação de ver minhas bandas favoritas ao vivo é maravilhosa. É um pouco semelhante com o que acontece com o cinema. Muita gente costuma ir ao cinema ver os filmes de seus atores favoritos ou dos gêneros que mais gostam. Se vou ao cinema, o motivo sempre é o(a) diretor(a). Acompanho o trabalho de muitos(as) e sei que ver seus filmes na tela grande é completamente diferente de vê-los em casa. A literatura parece mesmo ser a arte mais solitária – os(as) escritores(as) quase sempre escrevem sozinhos(as), diferente de artes mais coletivas, como a música e o próprio cinema. Eu até posso fazer música sozinho, da mesma forma que posso me filmar, editar e lançar esse filme “solo”, mas sabemos todos que casos assim são raras exceções. Da mesma forma que não são muito comuns leituras coletivas, embora alguns grupos de leitura estejam tentando mudar essa realidade.

No entanto, atualmente, quase não acompanho nada, salvo uma ou duas bandas que eu tô sempre observando. Quando são lançados discos novos, praticamente sou pego de surpresa. São tantas notícias que não dá para acompanhar tudo. Mesmo quando se trata de filmes, que possuem um processo de produção mais longo (captação de recursos, pré-produção, produção, edição, participação em festivais, divulgação, exibição nos cinemas), consigo ser pego de surpresa com um ou outro lançamento, principalmente tratando-se da fonte nacional, que é o que eu mais gosto de acompanhar e assistir, mas que não tem uma distribuição tão massiva quanto a dos filmes enlatados que as distribuidoras brasileiras importam de outros países para ocuparem as salas de cinema do Brasil inteiro. Quando a questão envolve os livros, é aí que eu sou surpreendido mesmo, por isso, sempre que posso, dou uma pesquisada para ver o que tem sido publicado atualmente (mesmo saindo geralmente muito triste de ver os títulos e os autores que estão ocupando as prateleiras das livrarias).

Apesar disso, não sofro. Muito pelo contrário, estou evitando cada vez mais saber o que eles estão fazendo e principalmente falando. Não tem sido poucas as ocasiões em que venho decepcionando-me com artistas. Toda vez que assisto uma entrevista em que José Mojica Marins faz comentários homofóbicos, dói-me o coração. Quando vi Caetano Veloso, Chico Buarque, Djavan e Gilberto Gil aderindo ao Procure Saber, grupo que luta pela proibição de biografias não autorizadas, custei a acreditar. Não fiquei surpreso com Roberto Carlos, porque já conhecia seu histórico de proibições que, inclusive, não é de hoje. Quando Jô Soares constrangeu a youtuber Jout Jout com comentários machistas em seu programa, eu também me senti constrangido. Nunca acompanhei a carreira de Roger, embora goste muito dos primeiros discos do Ultraje a Rigor, mas recentemente tenho ficado impressionado com o modo como o vocalista dessa banda que produziu um dos discos fundamentais do rock brasileiro dos anos 1980, o Nós Vamos Invadir Sua Praia (1985), consegue a proeza de em várias ocasiões precisar de tão poucas palavras para destilar seu machismo e homofobia. Por falar nisso, tem sido cada vez mais difícil ouvir as piadas homofóbicas de Silvio Santos, quem tanto respeito e admiro. Sei que ele é um senhor de idade que nasceu e viveu em outra época, mas ele é um homem inteligente o suficiente para saber que nunca é tarde demais para aprender. Foi muito difícil também ler o texto de Fernanda Torres para o Agora é Que São Elas com posicionamentos tão equivocados sobre o feminismo. Sei que ela publicou depois outro texto retratando-se, mas o primeiro havia sido tão exageradamente sincero que, por mais que ela tenha se desculpado, sabemos que infelizmente é daquela forma que ela pensa. Porém, as pessoas mudam, e prefiro acreditar que ela mudou também. Aliás, as intervenções machistas de Claudio Assis durante o debate de Anna Muylaert sobre o filme Que Horas Ela Volta? (2015) e que acabou banindo-o por um ano do Cinema da Fundação Joaquim Nabuco, reduto da arte cinematográfica contemporânea no Recife, foi outro caso difícil de engolir. São casos assim que estão ensinando-me cada vez mais a separar a obra da pessoa. Dessa forma, tenho cada vez menos ídolos, mas admiro cada vez mais as obras de arte em si. Inclusive, seria muito interessante se mais pessoas fossem fãs apenas dos livros, filmes, discos, fotografias, telas, esculturas. Isso me tem evitado muito mal estar. Afinal, são as obras que de fato interessam. São elas que ficam quando o artista morre. Contudo, precisamos sim indignar-se com esses casos, deixar passar esse tipo de coisa só pelo fato de serem artistas é exercer a indignação seletiva. Intolerância, machismo, racismo, homofobia, transfobia, todo tipo de discriminação e preconceito precisam ser combatidos, na vida e nas artes.