programado para morrer

Um amigo, que sempre consertou meus computadores, costumava dizer que preferia máquinas a pessoas. Para ele, a convivência com a tecnologia era muito mais fácil, pois quando uma máquina apresenta um defeito, é só consertá-la. Já o ser humano, além de não ter cura para todos os seus males, exige mais complexidade no tocante à convivência. Quando uma amizade ou um relacionamento amoroso, por exemplo, apresenta um desgaste ou um conflito, não podemos simplesmente formatar e começar tudo de novo. Fazer as pazes e entrar em um acordo é muito mais difícil.

Nunca concordei com esse meu amigo. Não que eu seja o ser mais sociável do mundo, muito pelo contrário, mas sempre tive problemas com certas tecnologias. Isso não significa que eu não saiba utilizar as máquinas, e sim que tenho muita dificuldade em aceitar que elas saiam intencionalmente de suas fábricas com uma data de validade para deixar de funcionar, apenas para aumentar o consumo.

Vez ou outra, eu me pergunto quando vamos gritar e nos rebelar contra a obsolescência programada. Cada vez mais empresas produzem propositalmente produtos que se tornam obsoletos ou não-funcionais em um curto período de tempo para que possamos comprar a nova geração do mesmo produto. É natural que um objeto se desgaste com o passar do tempo e pare de funcionar, mas é inaceitável que os fabricantes planejem esse envelhecimento. Acabamos por consumir mercadorias que duram menos do que a tecnologia permite.

A obsolescência programada pode ser notada com maior frequência na área tecnológica. O sistema operacional dos computadores estão se desgastando cada vez mais rápido, as baterias e carregadores de computador duram cada vez menos e o cabo dos carregadores de celular são mais frágeis do que deveriam. Qual a razão para uma marca de celulares de última geração fabricar carregadores tão vagabundos se não para nos obrigar a comprar outro aparelho? Os fones de ouvido são outros que também quebram com facilidade. Ao mesmo tempo em que essas mercadorias são planejadas para durar cada vez menos, o preço para a manutenção desses equipamentos se torna cada vez mais alto, induzido os consumidores a adquirir um produto novo.

Os fabricantes tentam se justificar apontando para o avanço da tecnologia. Por essa razão, segundo eles, estão sempre criando novos modelos. Que avanço é esse? Como pode haver tantos progressos em tão pouco tempo? Marcas lançam modelos novos apenas poucos meses após o lançamento do anterior. Antes mesmo de acabar o ano, já é possível comprar versões de carros do ano seguinte. Essa troca regular de produtos só aumenta a produção de lixo e, para piorar, como se não bastasse a humanidade estar consumindo 30% a mais do que o planeta é capaz de repor, o destino de quase 70% dos equipamentos eletrônicos descartados por consumidores de países desenvolvidos são lixões de cidades de países subdesenvolvidos. Os mais pobres, como sempre, continuam pagando a conta.

O consumo permanente tem como finalidade a criação de um consumidor cronicamente insatisfeito. Banhado pelo desejo de comprar sempre o produto mais novo, o da moda, o mais rápido e com a imagem mais moderna, o consumidor cansa cada vez mais rápido do produto que já usufruiu. Esse fenômeno é chamado por muitos de “obsolescência percebida”, e ocorre quando, antes mesmo de apresentar defeito, o consumidor considera o produto que tem em casa como velho diante de todos os novos modelos lançados a todo instante no mercado.

Os smartphones exigem cada vez mais atualizações de seus sistemas operacionais. Atualizações essas que além de não mudarem muita coisa, consomem grande parte da memória que, por sua vez, nos impossibilita de atualizar os aplicativos. Não consigo descrever o quanto isso me irrita. Depois de certo tempo, parei de atualizar o iOS, pois não havia mais memória disponível, a não ser que eu excluísse todos os aplicativos. Em seguida foi a vez dos aplicativos exigirem suas atualizações. Quando não havia mais espaço, fui excluindo os menos usados. Desde o início do ano, o WhatsApp parou de funcionar no meu celular, pois só é possível utilizá-lo em um sistema operacional mais novo. Logo mais será a vez dos demais aplicativos deixarem de funcionar. Eu não queria ter que trocar de celular agora. Não necessito do aparelho mais novo, da moda. Poderia, tranquilamente, passar mais alguns anos com meu aparelho atual, se não estivesse sendo “obrigado” a comprar um novo.

No entanto, tudo isso parece tão natural aos olhos do mundo, que até culturalmente falando podemos encontrar casos de obsolescência programada. É a música feita para tocar só no carnaval, aquele sucesso do verão, os filmes de natal ou os filmes de determinado gênero que fazem sucesso até se tornarem saturados. Atualmente, são os títulos de super-heróis e comédia pastelão. As produtoras vão usar essa fórmula e inundar as salas de cinema com filmes desses gêneros até causar uma overdose no público (vai me dizer que você não consegue enxergar o propósito por trás de tantas sequências das mesmas histórias ou livros de um só volume transformado em séries e mais séries de filmes?). Já no mercado editorial, são os livros de youtubers que estão na moda, o que tem levado muita gente a acreditar que o primeiro passo para se tornar um(a) escritor(a) é criar um canal no YouTube. Calma! Isso é só uma fase – alguém ainda se lembra dos livros de colorir? -, logo essa onda passa e não teremos que ver dezenas de biografias de adolescentes nas prateleiras das livrarias (pelo menos espero).

Contudo, sentei para escrever porque queria dissertar justamente sobre essa obsolescência cultural programada, mas está cada vez mais recorrente em meus textos desejar escrever sobre algo e acabar falando sobre outro assunto. Tal qual um pai que deseja uma profissão para um filho e o rebento acaba seguindo outra. Como eu não segui a profissão que meus pais desejavam para mim, deixo o texto livre para ele ser o que quiser. De toda forma, os dois assuntos entram no mesmo pacote: tudo está ficando cada vez mais descartável. Em consequência disso, sigo não confiando nas máquinas, ou seria em seus fabricantes? E você, antes de substituir qualquer objeto, se pergunta antes se realmente precisa de outro?

irrealidade virtual

Um conselho sincero: você pode iniciar a leitura desse texto a partir do nono parágrafo sem maiores prejuízos.

Muitas coisas me aconteceram em janeiro, inclusive alguns infortúnios envolvendo meu computador e a internet. Os problemas que tive com o computador nem me deram tanta dor de cabeça quanto os que tive com a internet, mas todos aconteceram ao mesmo tempo em uma semana cheia de compromissos em que eu iria precisar muito do acesso de ambos.

Certo dia, desembarquei do ônibus em uma parada localizada a quatro ruas antes da minha casa para poder caminhar um pouco como faço quase sempre. Logo que desci, ouvi um burburinho na rua de pessoas comentando estarem sem energia elétrica em suas residências. Fiquei tranquilo, pois imaginei que, como ainda estava longe de casa, a falta de energia com certeza não estaria atingido a rua onde moro e, consequentemente, o meu lar. Na rua seguinte, mais pessoas comentavam nas calçadas umas com as outras sobre a falta de energia. Então, durante o trajeto das duas próximas ruas, apurei bem os ouvidos na tentativa de ouvir algum som ligado, o barulho de alguma TV ou até mesmo de um liquidificador. Nada.

Chegando em casa, constatei que a falta de energia era no bairro inteiro e fiquei tranquilo, pois quanto mais ruas são atingidas, maiores são as chances do problema ser solucionado com rapidez. Bebi um copo com água, tirei a roupa e, quando ainda estava debaixo do chuveiro, a energia elétrica voltou. No entanto, não me preocupei em momento algum. Se a falta de energia durasse a tarde inteira, eu sabia muito bem o que fazer: ler. Se no começo da noite ainda estivesse faltando energia, eu dormiria e acordaria durante a madrugada para fazer as coisas que deveria ter feito mais cedo e que necessitavam de eletricidade, isso se ela tivesse voltado – caso não, eu continuaria dormindo na tentativa de diminuir o sono acumulado que eu jamais conseguirei recuperar.

De toda forma, fiquei lendo durante a tarde toda. Como costuma acontecer aqui em casa, quando há quedas de energia, a internet demora um pouco a voltar. Dessa vez, não foi diferente. Quer dizer, foi. Horas depois, a internet ainda não havia voltado e eu saberia que não voltaria mais até receber a visita de algum técnico. Havia chovido forte na noite anterior. Quando acordei, percebi, ainda antes de sair de casa, uma poça de água no chão do quarto, próxima ao computador. Olhei para o teto à procura de alguma mancha de água no forro, mas não havia nada. Desconhecia completamente a origem da poça misteriosa. Fiquei preocupado e corri para ver se meus livros estavam molhados, mas encontrei-os sequinhos. O wi-fi também estava funcionando, o que me levou a crer, mais tarde, quando eu cheguei em casa, que a queda de energia era, de fato, a responsável por ter causado o problema – eu iria descobrir depois que estava enganado.

Liguei para o serviço de atendimento e agendei uma visita com um técnico. Deram-me o prazo de até quarenta e oito horas para solucionar o problema. Em qualquer época do ano, ficar dois dias sem acesso a rede mundial de computadores para mim não é nenhum sacrifício. Entretanto, eu iria filmar um documentário em poucos dias e dependia da internet para fechar todo o cronograma com a equipe, além de fazer umas pesquisas de última hora. Felizmente, o técnico veio no dia seguinte e resolveu tudo. Foi quando eu descobri a origem da água.

Minha internet era à rádio e a água vinha de dentro do cabo que era conectado na torre que ficava em cima da casa. Como a água entrou nele eu ainda não iria ficar sabendo. O técnico retirou a água do cabo e me perguntou se havia ocorrido alguma queda de energia. Respondi que sim e, como eu, ele diagnosticou erroneamente o problema: com a queda de energia, o moldem havia se desconfigurado. Ele reconfigurou tudo e foi embora. Usei a internet normalmente durante o resto do dia e fui dormir. Choveu a noite toda. Ao acordar, a primeira coisa que percebi ao levantar da cama foi o chão mais uma vez molhado com uma poça de água ainda maior que a anterior. A internet estava funcionando normalmente, mas minutos depois ela parou de vez. Eu teria então que resolver tudo com a equipe de filmagem por telefone.

Por falar em telefone, gastei todos os créditos do celular em outra ligação para a central de atendimento. Além de pedir que solucionassem o problema, solicitei a troca da internet à rádio por uma de fibra óptica. Dessa vez, não tive o mesmo fortúnio de antes, pois o técnico só veio no limite das quarenta e oito horas. Ao retirar de cima da casa a torre que capta o sinal, o técnico descobriu um pequeno buraco no cabo, por onde a água entrou e desceu até o meu quarto. Segundo a perícia que ele fez, era a água que estava danificando o cabo e desconfigurando o sinal.

Depois desse dia, não houve mais queda de energia, a internet não voltou a cair, a água não visitou mais meu quarto (embora tenha chovido bastante desde então), e a filmagem aconteceu normalmente. Porém, se você leu até aqui, desde já gostaria de me desculpar por não ter sido mais sucinto – esse é um talento que eu definitivamente não possuo. Dessa forma, tudo o que foi escrito até agora, por mais que tenha consumido metade do corpo do texto, é o que podemos chamar por introdução.

Tudo isso pode não fazer nenhum sentido, mas após esses acontecimentos banais fui acometido por algumas pequenas reflexões. Não é de hoje que a vida virtual vem me preocupando. Já é um fato que a internet está matando em escalas maiores ou menores o consumo de discos físicos, DVDs, livros, entre outras coisas. É possível baixar tudo isso quase sempre de graça, o que ajudou a democratizar o acesso a muitas obras de arte. No entanto, agora é a cultura do download que está sendo morta pelos serviços de streaming.

Nunca gostei de streaming. Quando ele ainda não era moda, grande parte das bandas que curto, disponibilizavam, muitas vezes gratuitamente, seus discos para download. Isso vem deixando de acontecer. Essas mesmas bandas que liberavam seus álbuns agora simplesmente os lançam no Spotfy. O site é bom, admito. Tem, inclusive, me ajudado muito a ouvir os lançamentos dos meus artistas favoritos. O preço a pagar para me ver livre dos anúncios é pequeno, mas não é isso o que eu desejo. Eu quero é ter as músicas no meu computador e no meu celular sem que eu precise ser refém de um wi-fi para ouvi-las, nem que eu tenha que pagar por isso. Quero poder enviá-las para amigos quando me pedirem dicas de músicas, quero poder reproduzi-las no carro e poder levá-las para onde eu for.

Não consumo os dados móveis da minha operadora de celular. Adoto uma filosofia de que nada na internet é tão importante assim para que eu precise dela quando não estou em casa. Quase todos os lugares que frequento possuem acesso a wi-fi, então, tecnicamente, só fico sem internet quando estou na rua me locomovendo de um lugar para o outro. Se estou em um ônibus, prefiro adiantar minhas leituras. Nada é tão urgente que não possa esperar. Se for algo muito sério, alguém vai me ligar.

Também não assino Netflix. O catálogo de filmes, segundo o que meus amigos me falam, não é tão sedutor assim. Não estão lá os filmes que gosto de assistir. Concordo que é bem mais prático fazer um login e assistir a um filme, ao invés de ter que pesquisar na internet e ainda esperar o download terminar – o que às vezes pode demorar bastante. Sem contar a caça por legendas. Sinto que o download de filmes tem caído ainda mais do que o de músicas. Está cada vez mais difícil encontrar torrents ou até mesmo outras formas de download. A pirataria de internet é um assunto complicado, mas qual a outra forma disponível para assistir filmes que não chegam às salas de cinema? Nem estou falando tanto dos filmes estrangeiros, mas do próprio cinema brasileiro mesmo. Só porque não há uma grande procura por determinados títulos, nenhuma empresa se preocupa em vendê-los. Devo me conformar em não assisti-los? É isso que devo fazer? Sinto muito, mas me recuso a proceder assim.

É infinitamente melhor não ter que ocupar a memória do celular ou do computador com músicas e filmes. Todavia, existem os pendrives, que são absurdamente pequenos, e os HDs externos, que muitas vezes são menores que muitos celulares de hoje em dia. O que não dá para aceitar é a segregação dessas obras. Estamos correndo um grande perigo, pois nem tudo está no Spotify e muito menos no Netflix. Essa deve ser a única forma legal de se consumir música e cinema? Os dois são serviços comerciais como qualquer outro. Se não gerarem lucros, eles não vão se interessar por adquirir os direitos de obras que não possuem forte apelo popular. Formas alternativas ao streaming precisam existir. Hoje é o download, amanhã pode ser outra tecnologia, e todas elas devem ser legalizadas para que todos os artistas possam receber por seus direitos autorais (sem que para isso tenhamos que pagar preços abusivos).

Espero estar sendo mais pessimista do que deveria, e acreditar que o download vai resistir. Inclusive, na falta de formas legais de se consumir obras cinematográficas, musicais e literárias, que a pirataria virtual continue fazendo seu serviço de democratização da arte, pois é praticamente isso que ela faz. Os responsáveis por isso são pessoas que na grande maioria das vezes não ganham nada para disponibilizar obras e legendar filmes, além do prazer de compartilhar conteúdo. Sou a favor de pagar por tudo isso que consumo, desde que os filmes que desejo ver estejam nos catálogos dos serviços de vendas e que as músicas que desejo ouvir estejam legalmente disponíveis para download. Quanto à literatura, sou daqueles que acreditam que alguém só lê um livro no computador ou no tablet se realmente não tem condições de comprar (ou porque o título está fora de circulação).

Por fim, sei que sou um romântico, pois quando realmente gosto de um disco, faço questão de adquirir. Já perdi a conta dos CDs que comprei sem nunca ter colocado no aparelho de som. Comprei só para tê-los e, consequentemente, ajudar as bandas que gosto. Só não consumo mais DVDs de filmes porque quase nunca encontro os títulos que gosto disponíveis para comprar. Sobre os livros, espero não viver o suficiente para ver o fim do formato físico, pois se deixarem de existir, eu mesmo irei imprimi-los e encaderná-los.

Ainda sobre livros, eu realmente gostaria que todas as obras de arte fossem como eles. Explico: para ver um filme, eu preciso de um projetor e uma tela, ou um computador, enquanto que, para ouvir música, eu necessito de um aparelho de som ou um celular. Para consumir os livros, eu só preciso deles, pois se estiverem em formato físico, o único suporte que necessito para desfrutá-los são meus olhos. Nesse sentido, os livros são perfeitos, pois as outras formas de arte requerem tecnologia adicional. É como se os livros tivessem sido feitos sob medida para o corpo humano: um só depende do outro. Acredito que boa parte dos instrumentos musicais também cai nessa categoria. É assustador imaginar um pane global na rede mundial de computadores. Imaginar também alguma catástrofe que deixe a população sem energia elétrica. Em um caso como esses, só teríamos a literatura. Creio que muitas pessoas não resistiriam ao ver suas vidas virtuais sepultadas. Contudo, acredito que estou sendo apocalíptico demais. Estou? Enfim, esse é outro assunto e eu deveria ter escrito só sobre isso. Deveria.

guarda baixa

Sempre me perguntei por que alguns cineastas, após realizarem grandes filmes no passado, verdadeiros clássicos do cinema, dirigem produções tão fracas quando chegam à velhice. Isso quando nem esperam amadurecer para começar a manchar a própria filmografia lançando trabalhos medíocres. Esse também é um fato que vejo com uma frequência ainda maior no cenário musical. Muitas bandas ou artistas-solo que revolucionaram a música quando jovens não conseguiram manter o mesmo nível após alguns anos de carreira. Até na literatura há os que também ficam eternamente marcados pelo livro de estreia.

Esse é um assunto que muitas vezes orbitou em rodas de conversas e eu nunca soube apontar uma razão para esse “fenômeno”. No entanto, há algumas semanas atrás, encontrei a resposta assistindo a vídeos de Leandro Karnal que, de tão óbvia, me passou despercebida. Esses artistas caíram na terrível zona de conforto. Tentei encontrar o vídeo para transcrever as palavras de Karnal, mas não encontrei. É um vídeo em que ele usa a expressão “baixar a guarda”. De toda forma, encontrei outras palestras em que ele novamente disserta sobre o tema.

Para Karnal, é natural do ser humano buscar zonas de conforto, pois elas fazem com que não gastemos energia pessoal e cerebral. Porém, para todos aqueles que se dedicam ao estudo de carreira, a zona de conforto é a grande armadilha da vida. Ela nos diz para relaxarmos, para ficarmos bem porque “chegamos lá”. Entretanto, toda vez que acreditamos ter “chegado lá”, começamos a diminuir a potência de tudo aquilo que podemos fazer. Zona de conforto é o que buscamos, mas ela também é o início do nosso declínio, afinal, ela produz a felicidade que nos leva à acomodação, que nos leva à preguiça e esta, por sua vez, nos leva ao não desenvolvimento do nosso potencial. Ou seja, aquilo que nos favorece é também aquilo que nos prejudica.

Tudo isso faz muito sentido. Estudamos, nos esforçamos e damos tudo de si quando estamos desenvolvendo nossos primeiros projetos. Queremos provar para o mundo do que somos capazes. Toda essa motivação inicial é mesmo difícil de ser mantida se já conquistamos um espaço em nossas áreas de atuação. Sempre que penso nisso, me vem à mente o exemplo de Tom Zé, que a cada novo trabalho consegue se superar. O Mestre sempre fala em uma espécie de deficiência, de dificuldade na hora de criar. Segundo ele, esse sofrimento é o que o motiva a estudar todos os dias para conseguir compor suas músicas. Além do talento natural que Tom Zé possui, acredito que essa dificuldade que ele diz ter o impulsiona em direção ao trabalho árduo dos estudos e, consequentemente, para fora de qualquer zona de conforto.

Escrevi essas linhas ao som de Raul Seixas e, coincidentemente, em sua canção ‘Eu Sou Egoísta’, ele fala, entre outras coisas, sobre zonas de conforto. É uma das minhas músicas favoritas do pai do rock brasileiro. Na letra ele diz: […] Eu sou estrela no abismo do espaço / O que eu quero é o que eu penso e o que eu faço / Onde eu tô não há bicho-papão / Eu vou sempre avante no nada infinito / Flamejando meu rock, meu grito / Minha espada é a guitarra na mão / Se o que você quer em sua vida é só paz / Muitas doçuras, seu nome em cartaz / E fica arretado se o açúcar demora / E você chora, cê reza, cê pede, implora / Enquanto eu provo sempre o vinagre e o vinho / Eu quero é ter tentação no caminho / Pois o homem é o exercício que faz […]. Estou sempre em busca dessa tentação no meio do caminho. Perder totalmente o medo da mudança é meu verdadeiro desafio. Nós somos o exercício do que fazemos.

Por fim, quero dizer que escrevi esse texto para agradecer todo o apoio durante o ano de 2016. Sou grato por cada acesso ao blogue, a cada pessoa que tirou alguns minutos do seu precioso tempo para ler meus textos, a cada pessoa que curtiu, seguiu e comentou. Muito obrigado. O que desejo para nós em 2017 e para vida toda é que não baixemos a guarda. Nunca! Feliz ano novo! Abraçaço

hoje eu acordei com rubem braga

“Hoje eu acordei com sono, sem vontade de acordar. O meu amor foi embora e só deixou pra mim um bilhetinho todo azul com seus garranchos”. Não era bem assim que eu pretendia iniciar esse texto, mas ao escrever “hoje eu acordei”, me veio à mente a letra de ‘Bilhetinho Azul’, do Barão Vermelho, música presente no primeiro álbum da banda lançado em 1982. Escrevi o texto ouvindo esse disco que eu adoro e que não escutava há bastante tempo. Sessão nostalgia.

Não deixa de ser verdade que hoje eu acordei com sono, afinal, eu acordo assim todos os dias. No entanto, ao levantar da cama, lembranças há muito perdidas em um passado distante despertaram também. Recordei do livro ‘200 Crônicas Escolhidas’, do escritor Rubem Braga (1913-1990), livro que ganhei ainda criança. Foi o primeiro título adulto que me lembro de ter lido, pois até então eu só havia consumido literatura infantil. O livro tem o selo de venda proibida do Ministério da Educação na capa. Ganhei-o de um tio que era professor na época – se ele o ganhou ou roubou, eu não sei, só sei que ele me deu e que eu o tenho até hoje. A capa, inclusive, tem o desenho de uma mulher nua lendo e, por isso, eu tinha vergonha de lê-lo na frente das pessoas. Se eu era criança, a minha irmã que é mais nova do que eu, era mais criança ainda, e achava a capa super engraçada.

200 Crônicas Escolhidas

Confesso que nunca entendi essa mulher nua na capa, mas o que interessa é que o li por anos e que foi lendo-o que eu tive vontade de ser escritor. A cada crônica lida, eu pensava que podia fazer igual. Fiquei apaixonado pelos textos, queria ser cronista. O primeiro blogue que tive na vida era dedicado ao gênero. Na época, eu não entendia porque lia e achava que era fácil escrever, mas hoje está claro que a genialidade de Rubem Braga fazia tudo parecer fácil, como os atletas de alto nível, que nos banham com a sensação de que é possível fazer igual. Não é que seja fácil, eles é que são bons demais.

Hoje eu não escrevo mais crônicas (eu acho), mas consigo ver uma influência muito forte do gênero em meus textos. Meu tio, que me deu esse livro, nem imagina que foi ele o responsável por despertar o amor pela leitura em mim. Antes mesmo de me dar esse do Braga, ele já havia me presenteado com vários outros, de gênero infantil. Serei eternamente grato e tratarei de contar isso para ele em breve. É uma pena que Rubem Braga não esteja mais entre nós para que eu possa lhe agradecer por me despertar o amor pela escrita. Nem quando eu li o livro seria possível, pois ele já havia morrido quando eu nasci.

Para escrever o texto, retirei da estante minha edição de ‘200 Crônicas Escolhidas’, que já está amarelada pelo tempo, para folhear. Não me lembro da última vez que fiz isso, tanto é que fiquei surpreso ao ver no sumário que eu havia marcado com um marca-texto amarelo, o título de vinte crônicas. Coisa que eu jamais faria hoje, pois não risco um livro nem que me paguem. Pelo título das crônicas marcadas, não consegui recordar se eram as que eu mais gostava. Isso eu vou descobrir em breve, pois pretendo relê-lo de cabo a rabo. Porém, achei estranho que a crônica que mais me marcou (pois me lembro dela até hoje) não estava sinalizada com marca-texto. Ela se chama ‘Rita’ e ironicamente se encontra na página de número duzentos desta edição – a reproduzi para vocês abaixo. Até a próxima, abraçaço.


RITA

No meio da noite despertei sonhando com minha filha Rita. Eu a via nitidamente, na graça de seus cinco anos.

Seus cabelos castanhos – a fita azul – o nariz reto, correto, os olhos de água, o riso fino, engraçado, brusco…

Depois um instante de seriedade; minha filha Rita encarando a vida sem medo, mas séria, com dignidade.

Rita ouvindo música; vendo campos, mares, montanhas; ouvindo de seu pai o pouco, o nada que ele sabe das coisas, mas pegando dele seu jeito de amar – sério, quieto, devagar.

Eu lhe traria cajus amarelos e vermelhos, seus olhos brilhariam de prazer. Eu lhe ensinaria a palavra cica, e também a amar os bichos tristes, a anta e a pequena cutia; e o córrego; e a nuvem tangida pela viração.

Minha filha Rita em meu sonho me sorria – com pena deste seu pai, que nunca a teve.

Janeiro, 1955

bibliofilia crônica

Peguei uma doença gravíssima. Atinge diretamente o financeiro, dói no bolso e deixa a consciência pesada. Não consigo lembrar quando começou. Quando dei por mim, estava assim. Logo eu, que durante boa parte da minha vida li livros emprestados dos amigos ou alugados em bibliotecas. Agora estou com essa mania de acumulação que chamam por bibliofilia crônica. Não tem cura, dizem. Espero que estejam enganados. Hoje, o número de livros não lidos em minha estante está bem próximo do número de livros já lidos. Em um curto espaço de tempo terei mais livros para ler do que leituras concluídas. A dependência é forte e só vai piorando com o passar dos anos. No início, nos contentamos com qualquer edição, depois passamos para o estágio de só querer uma edição específica, uma capa específica, uma tradução específica. Conforme a coleção vai crescendo, passamos a querer livros cada vez mais caros, as reedições em capa dura, os clássicos em edições de luxo, até chegar ao ponto de ansiar por raridades. Viramos ratos de sebo, verdadeiros desbravadores da Estante Virtual. Eu, por exemplo, já estou apresentando os primeiros sintomas desse último estágio da doença, se é que é o último. Algumas pessoas bem próximas a mim, outras nem tanto, estão ainda mais graves que eu. Nós doentes nos reconhecemos, nos abraçamos, nos reconfortamos, choramos juntos a mesma dor. Só um bibliófilo crônico entende o sofrimento que é salvar o endereço de uma página na Estante Virtual para comprar o livro depois e, ao voltar, constatar que ele foi adquirido por outra pessoa. Sempre fico imaginando quem foi que me causou tremenda dor. Será que é um bibliófilo também? Será que esse alguém comprou para presentear outro alguém que nem vai fazer tanta questão do livro quanto eu? Será que foi para um trabalho da universidade? Será que foi comprado sem maiores pretensões? No final, sempre prefiro acreditar que foi alguém como eu e que vai tratar o livro tão bem quanto. Só assim alimento esperanças dessa pessoa ser bem mais velha que eu, o que teoricamente aumentam as chances de ela morrer primeiro. Possibilitando, desta forma, uma nova oportunidade de adquirir o livro se o herdeiro ou a herdeira resolver se desfazer dele anunciando-o novamente na Estante Virtual. Essa agonia é bem semelhante à de ver determinado título na livraria e saber de imediato que jamais seremos um do outro. Mesmo assim prometemos, para nós mesmos e para o livro, que voltaremos para comprá-lo depois. Como se não bastasse, ainda tenho uma característica particular, ou não tão particular assim, de comprar títulos estranhos que eu mesmo nunca ouvi falar. São comprados pela intuição: um vigésimo terceiro sentido me diz que vou gostar. São escritos que eu sei que nenhum dos meus amigos gostaria de ler e que talvez até eu mesmo desgoste quando começar a folhear. Por mais tempo que eu passe sem comprar um livro novo, geralmente uma consequência da falta de dinheiro, sempre acontece uma recaída durante essas malditas promoções maravilhosas que nos permitem comprar bons livros a preços acessíveis, mas que mesmo assim nos deixam de cama, tamanha a tristeza por ainda não conseguir levar tudo. A cegueira é tão grande que nos sujeitamos a pagar um valor absurdo de frete – que daria para comprar outro livro – só para sustentar o vício. Algumas horas antes de escrever essas palavras eu tive uma recaída. Estava limpo há um mês. Sei que não é bastante tempo, mas havia prometido não comprar mais nada nesse ano. Agora é tarde para voltar atrás. Durante a próxima semana, sempre que eu estiver na rua e ver um carro dos Correios passando, irei imaginar se minha felicidade estará ali dentro rumo à minha rua, rumo à minha casa. Como quase sempre essas minhas encomendas chegam quando eu não estou presente, minha mãe é quem as recebe e as deixa sobre a mesinha de centro da sala. A mesinha deve ter meio metro de altura no máximo, mas será minha linha do horizonte sempre que eu chegar em casa. No momento passo bem, embora ainda esteja melancólico por não ter comprado todos os títulos que queria. Não posso prever quando será a próxima recaída, mas uma coisa é certa: os primeiros sintomas de abstinência vão surgir poucos minutos após retirar o invólucro dos livros novos e guardá-los na estante. Paciência.

todo dia é dia de gênio

Certa feita, em uma aula de Cinema Moderno que cursei no segundo semestre do curso de Cinema, a turma assistiu ao filme ‘O Bandido da Luz Vermelha’, de 1968, do diretor Rogério Sganzerla (1946-2004). Era um seminário e havia uma equipe de cinco alunos responsável pela projeção do filme e o debate com o restante da turma sobre a importância deste longa para o cinema brasileiro moderno. Na aula da semana anterior, minha equipe havia apresentado ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, de 1964, do diretor Glauber Rocha (1939-1981). Ao final da aula, a professora, aproveitando a repercussão dessas duas apresentações e o fato de Sganzerla ter apenas vinte e dois anos quando dirigiu ‘O Bandido…’ e Glauber vinte e cinco anos quando lançou ‘Deus e o Diabo…’ – antes disso, tendo lançado seu primeiro longa-metragem, ‘Barravento’, em 1962, aos vinte e três anos -, soltou um comentário que até hoje julgo um tanto quanto irresponsável: “Vocês não se sentem mal por estarem na mesma faixa de idade deles e ainda não terem lançado um longa?”.

Desde o primeiro momento, eu também encarei essa pergunta como uma forma de incentivo, uma provocação, uma tentativa de nos encorajar, digamos assim, a produzirmos. Por ser uma professora e uma pessoa maravilhosa, sei que a intenção era das melhores: fazer-nos sair da teoria e partir para a prática. No entanto, a boa intenção não exclui os muitos problemas dessa pergunta-provocação-incentivo. Um deles é imediato: o sentimento de culpa e fracasso desnecessário que se instala em nossa consciência ao sermos comparados com pessoas da nossa faixa-etária mais bem sucedidas que nós.

A turma dessa disciplina era formada por alguns alunos com menos de vinte anos, a grande maioria na casa dos vinte, alguns com trinta e poucos e até aluno com mais de cinquenta anos. Diante da pergunta, todos ficaram calados, ninguém respondeu nada até eu, que sempre fui de falar muito, respondi com um “não, não me sinto mal por não ter lançado nenhum longa ainda”. Nesse momento todos os olhares se voltaram para mim e eu comecei a dar minhas justificativas, que só não transcrevo aqui porque já não lembro palavra por palavra, mas recordo de ter usado Suzana Amaral como um dos exemplos.

Suzana começou a estudar cinema quando já havia criado os nove filhos. Lançou o primeiro filme, ‘A Hora da Estrela’, um clássico do cinema brasileiro de 1985, aos cinquenta e três anos de idade, baseado na obra homônima de Clarice Lispector. Quando falei dela, um dos alunos, na época com vinte e sete ou vinte e oito anos, comentou que estava aliviado, pois ele ainda estava no tempo. O que muita gente esquece é que todo tempo é tempo. O próprio Sebastião Salgado só começou a fotografar aos vinte e nove. Não há necessidade desse tipo de comparação, principalmente quando o assunto é arte.

Agora, sempre que vejo o exemplo de um artista que começou “tarde”, lembro dessa aula. A própria concepção de “começar tarde” é errada, pois cada profissional tem o seu tempo próprio. O momento de criação de cada um é o tempo certo. É óbvio que muitos fatores nos impedem de começar antes. Artistas que conseguem reconhecimento logo no início são exceções. É difícil estudar em uma universidade um curso que não nos traz muitas ou quase nenhuma perspectivava de emprego. É como saltar sem paraquedas. Para muitos é preciso fazer outro curso antes e se profissionalizar em algo apenas para se conseguir estabilidade financeira. Para a grande maioria (e nisso me incluo), apesar de já cursar a área de interesse, é preciso trabalhar com o que não gostamos para, no futuro, finalmente conseguir trabalhar com o que queremos. Entretanto, nunca é tarde para começar.

Pode até ser desanimador fazer cinema diante de gênios como Glauber e Sganzerla, que começaram tão cedo. Para outros também pode ser desanimador ser escritor ao lado de gênios como Machado de Assis (1839-1908) e Álvares de Azevedo (1831-1852), que começaram tão jovens. Contudo, caríssimos, o fato de Suzana Amaral ter lançado o primeiro filme aos cinquenta e três, Kleber Mendonça Filho ter lançado seu primeiro longa-metragem aos quarenta e cinco anos, e Fernando Meirelles e Cláudio Assis aos quarenta e três anos, não os torna piores. O trabalho de todos eles, inclusive, é muito maduro e consistente. Sganzerla, por exemplo, nunca conseguiu fazer um filme melhor que ‘O Bandido da Luz Vermelha’, enquanto que Kleber Mendonça acaba de lançar a obra-prima ‘Aquarius’, aos quarenta e oito anos. Em 2002, quando Meirelles lançou ‘Cidade de Deus’, ele estava então com quarenta e sete.

Cora Coralina (1889-1985) e Graciliano Ramos (1892-1953) são dois gênios da literatura, tendo lançado seus primeiros livros aos setenta e seis e quarenta e um, respectivamente. Não estou dizendo que começar “tarde” é melhor, mas esse desejo de ser o mais rápido, o mais forte e o mais jovem, causa muitos problemas. No desespero de lançar logo a primeira obra, muitos artistas produzem trabalhos que com certeza seriam melhores se houvessem se dado o tempo de amadurecê-los.

Repito, nunca é tarde para começar. E nem para recomeçar. Tom Zé havia abandonado a carreira, mas conseguiu sair do ostracismo aos cinquenta e seis anos. Se já havia lançado clássicos como ‘Todos os Olhos’ (1973) e ‘Estudando o Samba’ (1976), ainda conseguiu realizar um de seus melhores trabalhos em 2012, o disco ‘Tropicália Lixo Lógico’, aos setenta e seis. Esse ano, aos oitenta, acaba de lançar o disco ‘Canções Eróticas de Ninar’, que eu ainda não ouvi e já gostei. Nada está perdido; bons trabalhos são realizados em qualquer idade. Se os artistas mais velhos nos incentivam a sempre continuar tentando, os artistas jovens não podem ser usados para nos desencorajar a produzir depois de uma determinada idade. E tenho dito: todo dia é dia de gênio.

eutanásia literária

Como vocês devem saber, existem duas maneiras de se assistir a um filme: a primeira, inconscientemente praticada por quase toda a população, é mergulhando de tal forma na história, a ponto de se esquecer de estar vendo um vídeo; a segunda, mais comum entre profissionais de cinema, é permanecendo o tempo todo consciente de estar assistindo a uma produção cinematográfica e reparando em todos os detalhes técnicos, como atuação, enquadramento, fotografia, roteiro, som, continuidade, etecetera, etecetera. Há quem faça uma mescla, mas uma das formas sempre se sobressai. Ambas, no entanto, me proporcionam um enorme prazer e, até quando a estória é triste, a experiência se torna deleitosa. A primeira forma era a minha maneira de ver filmes antes de começar a estudar cinema e realizar minhas próprias produções. Não consigo voltar a ver filmes como antigamente e nem faço muita questão, já que adoro saber ou imaginar o que acontece por trás das câmeras. Desse modo, não sofro quando um filme acaba (não que sofresse antes, pois sempre anseio pelo final).

Com a literatura ficcional, entretanto, é tudo diferente. Embora eu escreva, só sei ler de uma única forma: me sentindo psicologicamente parte da comunidade protagonista do livro. Em vista disso, concluir boas leituras, às vezes, pode ser um verdadeiro martírio. Diferentemente de um filme, que ocupa em média duas horas do meu tempo (e que vejo de fora, sem o mesmo envolvimento com os personagens e ações principais), os livros me exigem no mínimo uma semana, isso se tratando dos mais curtos, visto que meu ritmo de leitura é lento. Porém, uma semana é tempo suficiente para que eu me envolva com tal força, que é inevitável não me sentir triste ao me despedir do texto.

A relação com o impresso é tão intensa que, a nível de comparação, raramente fico triste com a morte de personagens em filmes (talvez por gostar muito de ver mortes cinematograficamente bem realizadas), mas dependendo do livro e do personagem, sofro demais. Quando a morte ocorre muito antes do fim, além da perda em si, é triste encarar o restante da jornada imaginando a ausência do personagem nas páginas seguintes. Todavia, com ou sem morte, o difícil mesmo é finalizar a leitura de um bom livro e dizer adeus àquele companheiro de dias, semanas ou até meses. Não foram raros os momentos em que desacelerei a leitura propositalmente para permanecer mais tempo com certa história, o que também ocorre com narrativas biográficas e livros de poesia. Concluir a leitura de séries então é uma verdadeira tortura. Li poucas, mas sempre comecei todas muito ansioso por terminar e, ironicamente, ao me aproximar dos últimos volumes, sempre tratava de sabotar o fim lendo outros títulos. Por multiplicar em várias a dor do término de um livro, as séries foram perdendo espaço na minha estante. Hoje, só restam duas ainda não lidas na prateleira e sem a menor previsão de início. A última série que li foi concluída em dois anos. No primeiro ano li 80% dela e deixei apenas dois volumes para o ano seguinte, que foram intercalados por dezenas de leituras a fim de não abreviar sua vida.

Procurando explicações, suponho que a imaginação seja o segredo por trás de todo esse envolvimento. Não querendo contrapor cinema e literatura (justamente porque, ao fazê-lo, cometo uma enorme injustiça para com os dois lados e suas importâncias artísticas, estéticas e políticas), mas inevitavelmente já comparando, é preciso reiterar o que todos já sabem: no cinema, as imagens estão dadas, digamos assim, enquanto que, na literatura, por mais detalhista que seja o escritor, intencionalmente ou não, ele sempre deixará espaços. Logo, não havendo imagens para preencher esses “vazios”, cada pormenor só ganha vida na nossa idealização. No vídeo, embora cada um também possa interpretá-los ou estima-los à sua maneira, os personagens são visualmente iguais para todos. Para cada livro, concebo os personagens da minha forma e até crio vozes diferentes para cada um deles. Não importa quantas pessoas leiam o mesmo título, cada uma delas fantasiará a história de forma singular e, consequentemente, isso fortalece muito a minha relação com o texto.

Com o tempo, fui desenvolvendo estratégias capazes de amenizar o luto de uma eutanásia literária. Passei a ler muitos livros ao mesmo tempo e estabeleci três como número mínimo, mas tenho há muito mantido uma média de cinco leituras simultâneas. Gerenciando bem esses livros, é possível passar por um padecimento por vez, mas continua sendo difícil, para mim, matar uma história lendo o último capítulo. Só livros muito bons causam esse impacto, mas a sensação de folhear a última página, sabendo que depois não tem “mais”, é demasiado amarga. Porém, as outras leituras em andamento funcionam como um conforto, o que me permite não cair em jejum entre um título e outro. No amor, substituir um(a) ex por um novo relacionamento com a intenção de sarar o namoro anterior nunca funcionou comigo, mas posso garantir que nada melhor para curar uma ressaca pós-leitura do que outro porre literário.

me julgue

Nos últimos tempos, tenho escutado uma variedade de frases absurdas e outras nem tanto, acompanhadas das palavras “me julgue”. Algumas são tristíssimas de ouvir, principalmente quando saem da boca de alguns amigos e amigas. As mais dolorosas continuam sendo “não gosto de literatura brasileira, me julgue”, “não gosto de cinema nacional, me julgue” e “não gosto de música cantada em português, me julgue”. Nesses casos de generalizações o “me julgue” funciona como um “foda-se”. De certa forma, é até uma maneira agressiva de se dizer não gostar e não estar nem um pouco interessado em tentar pesquisar e conhecer melhor o que diz não apreciar – e é por isso que quem diz não liga se é julgado ou não.

Há também um segundo caso, o dos que se sentem constrangidos por gostarem de alguma coisa: “gosto de novelas, me julgue”, “gosto de reality shows, me julgue”, “gosto de música sertaneja, me julgue”. Aqui, o “me julgue” significa “por favor, não me julgue”. Essas pessoas se envergonham por gostarem do que todos adoram falar mal, e essa é a única forma de conseguir revelar suas preferencias para o mundo – funciona como um mecanismo de defesa. Com essas duas palavrinhas, as pessoas tentam nos ludibriar, fingindo não ligar para a opinião alheia, o que evidentemente não é verdade. Quando não nos importamos com a opinião dos outros não sentimos nenhuma necessidade de demonstrar esse posicionamento, apenas dizemos “eu gosto disso” e pronto.

Para os que se sentem envergonhados por gostarem de algo, tudo o que eu tenho a lhes dizer é: gostem, continuem gostando, gostem com força! Se um dia mudarem de ideia e pararem de gostar, que seja por conta própria ou por uma dessas mudanças que o próprio tempo se encarrega de realizar, e não por imposição, julgamento e preconceito da opinião alheia.

Não devemos fazer juízo de valor em nenhum dos dois casos. Não há problema algum em gostar ou não gostar de algo, porém, todavia, entretanto, fazer generalizações como no primeiro caso explanado acima é, digamos assim, exercer uma visão preconceituosa. Quando alguém me diz não gostar de cinema brasileiro (usarei esse exemplo por ser o que mais escuto), eu não julgo, mas isso não me impede de tentar fazer com que o outro enxergue seu posicionamento de forma diferente, pois quase sempre ele não percebe que pode estar sendo induzido a pensar assim.

Somos criados assistindo a um cinema que não é nosso e que nos apresenta uma cultura que também não é nossa. Basta ligar a TV a qualquer hora do dia que em algum canal estará sendo transmitido um filme estrangeiro. Acabamos consumindo aquele estilo de vida e considerando sua estética cinematográfica como a melhor. No entanto, o dinheiro usado para realizar um filme na gringa pagaria a produção de uns vinte filmes brasileiros ou mais. Quando dizem que o público de cinema é elitista há sempre quem rebata essa teoria, mas poder pagar trinta reais em um ingresso é um privilégio de poucos e sabemos disso. Talvez por essa razão, pouca gente ache absurdo gastar milhões para se realizar um filme. Fazer cinema deveria ser barato e o preço do ingresso mais barato ainda. Os altos valores cobrados por uma sessão mantêm o público de classe baixa bem longe da sétima arte.

Em 2007, Hector Babenco deu uma entrevista para Cynara Menezes em que falou um pouco sobre isso, comparando o cinema brasileiro com o argentino: “Quem vai ao cinema no Brasil são as pessoas que podem pagar 16, 20 reais, são de classe média. E o cinema brasileiro de fato tem dado mais espaço a uma dramaturgia alimentada pelos excluídos, pelas desigualdades sociais, por essa mentira em que o país se transformou, essa lepra, como diz o Jabor. Já as tragédias argentinas são dramas de classe média: a vovó que não morre e não deixa a casa que tem que ser dividida pelos filhos, o filho cujo pai está com câncer e não sabe o que fazer… Como o público brasileiro também é de classe média, acha que o cinema daqui teria que ser como o de lá. Sou mais o cinema brasileiro, com suas imperfeições, do que o argentino com seu aburguesamento.”

A razão apontada por Babenco é apenas uma das muitas que mantém o público brasileiro distante do próprio cinema. Reconheço que também produzimos filmes medíocres, mas dizer não gostar da produção nacional por ser um cinema ruim é generalizar. Cinema brasileiro não é só Globo Filmes e, se fosse dessa forma, eu deveria dizer que não gosto de filmes norte-americanos, pois quase todos os que passam na TV ou estão em cartaz nos cinemas, para mim, são desprezíveis. Porém, jamais faria uma afirmação dessas, pois esse mesmo país já produziu e ainda produz obras primas, sem contar o seu circuito independente, que quase nunca decepciona. Porém, esses filmes mais baratos, que fogem dos padrões comerciais e não apresentam em seu elenco atores e atrizes famosos, não chegam às nossas salas de cinema e muito menos são televisionados. Ou seja, todos os países do mundo produzem filmes bons e ruins, não dá para generalizar.

Acontece, caríssimos, que uma espessa nuvem de preguiça paira sobre as plateias, e isso não é uma característica só do público brasileiro. O comodismo impede que muitas pessoas procurem conteúdos por conta própria. Assistir apenas o que fica em cartaz nos cinemas de shopping, ver apenas o que a televisão transmite, ler somente os best-sellers que ocupam as prateleiras das livrarias ou ouvir só o que toca no rádio ou na novela é ficar à deriva, consumindo apenas o que os grandes veículos de mídia tentam impor. É por isso que muita gente diz não gostar de música em português, pois estão acostumados a só ouvirem música internacional tema de casal de novela, muitas vezes sem nem entender o que diz a letra.

Contudo, não é julgando que fazemos o outro ter uma visão nova e talvez mais lúcida da situação. Quando alguém me diz que cinema brasileiro só tem filme de favela, peço sempre que me diga o título de cinco filmes que abordem o tema sem ser ‘Cidade de Deus’ (2002) e ‘Tropa de Elite’ (2007). É óbvio que existem outros longas brasileiros que falam sobre isso, pesquisar e responder é fácil, mas até hoje ninguém conseguiu me informar outros cinco títulos de cabeça. Fazer perguntas para pessoas sem argumentos sempre as deixa sem defesa, pois se não conseguem justificar seus posicionamentos, são automaticamente forçadas a reconhecer que estão sem razão por contradizerem o próprio discurso. O próximo passo é sempre apresentar um bom filme, ou um ótimo livro ou disco, dependendo da generalização. Se a pessoa não gostar, apresentamos outro e mais outro e, se depois de algumas tentativas a pessoa continuar dizendo que não gosta, temos que respeitar, já que, pelo menos, houve uma tentativa do outro lado em conhecer nossa perspectiva.

No filme ‘Real Beleza’ (2015) do diretor Jorge Furtado, o fotógrafo João, personagem de Vladimir Brichta, conversa com seu assistente que lhe diz que “gosto não se discute”, ao que João rebate: “se discute sim, aliás, o tempo todo, é praticamente só o que se faz”. Concordo que gosto se discute o tempo inteiro, mas penso que não deveria. Cada um gosta do que quiser, no entanto, é preciso problematizar as generalizações. Bem mais do que dar uma chance a outras produções, a verdadeira questão é se dar uma chance de pesquisar e conhecer outros nichos e movimentos culturais que vivem à margem. É preciso entrar em contato antes de afirmar não gostar de algo, conceito prévio (pré-conceito) é um comportamento de mentes fechadas.

Não é assustador imaginar que podemos morrer sem conhecer nossos verdadeiros filmes, livros e discos favoritos, só por preguiça de pesquisar? Eles estão em algum lugar por aí, só esperando por nós. Mentes à deriva é tudo que o Sistema deseja para unificar a massa cada vez mais, oprimindo personalidades e rotulando por conta própria o que é bom ou ruim. Também não há problema nenhum em fazer parte de um público massivo e consumir a corrente principal (mainstream), uma vez que esse seja realmente seu conteúdo de preferência. No final, os fãs de filmes blockbusters, de filmes brasileiros e os que não apreciam cinema, vão todos morrer. A vida é curta demais para perder tempo julgando o gosto dos outros, mas que dá vontade de julgar quem faz generalizações, ah isso dá, me julgue.

distância estratégica

Sou um homem de muitos ídolos, em especial cineastas, escritores(as) e compositores(as), mas se tem algo que tenho aprendido com o passar dos anos é que, em alguns casos, manter distância deles pode ser uma decisão muito saudável. Na adolescência, passei por uma fase de fanatismo por bandas de rock, bandas essas que me ajudaram a moldar boa parte da minha personalidade. Ainda gosto dessas bandas, conheci outras e fui ao show de muitas. Conservo em mim a vontade de ainda ver ao vivo as que nunca cheguei a ver – não são poucas, apesar de boa parte delas não existir mais.

Mesmo nessa fase, nunca fui a camarim, nunca fui a aeroporto esperar meus ídolos chegarem na minha cidade, nunca fiz nenhum tipo de loucura de fã, mesmo já tendo sido membro de alguns fã clubes. Não julgo quem faz essas demonstrações de amor, contanto que não passem dos limites do bom senso e jamais ponham a própria segurança e a dos outros em risco. Foi uma fase importante da minha vida, em que conheci muitas pessoas que gostavam das mesmas coisas que eu. Se pudesse voltar no tempo, com certeza faria muita coisa diferente, mas essa fase da adolescência eu não mudaria. Fiz muitas amizades, das quais algumas permanecem até hoje. A música, em especial o rock, me aproximou de muita gente incrível e essas bandas apresentaram-me a muitas outras bandas, a vários filmes e livros. Não foram poucas as ocasiões em que li um livro ou vi um filme porque certo cantor ou cantora dizia gostar em entrevistas. Até hoje fico muito feliz quando alguém me apresenta algo que ainda não conheço, embora nada supere a sensação de sozinho fazer essas descobertas. É por isso que pesquiso tanto, estou sempre desbravando listas de filmes, livros, discos e, conforme o tempo vai passando, menos entrevistas eu leio ou assisto.

Show para mim tem que ser na grade, bem perto do palco. Se eu ficar longe, tenho a sensação de que não fui. Por isso, sempre compro os ingressos no primeiro lote para não correr o risco de perder. Chego cedo, mesmo que tenha que ficar algum tempo na fila. Tenho forte resistência, posso passar bastante tempo em pé, sem comer ou ir ao banheiro. Em quase todos os shows que fui na adolescência, fui a primeira pessoa da fila. Não sei se continuo com essa mesma resistência, porque faz bastante tempo que não sou e nem me preocupo mais em ser o primeiro. Não chego mais com muitas horas de antecedência, porém, chego tarde o suficiente para ainda conseguir ficar na grade (isso não significa que chego cedo, são as pessoas que chegam tarde, acredite). A energia da grade é diferente da dos outros espaços. Ali estão os fãs mais enérgicos, os mais apaixonados, os mais loucos, os que querem ser vistos pela banda. Gosto dessa energia. Hoje não pulo tanto quanto antes e nem tento ser o que grita mais alto. Sempre tenho algo para fazer no dia seguinte, não posso mais dar-me ao luxo de ficar muito cansado e rouco. Agora, só o fato de estar ali me basta, embora continue querendo estar perto.

Todas as vezes que vou a um show, as pessoas perguntam-me no dia seguinte se consegui entrar no camarim e tirar foto com a banda. Eu sempre digo que não (porque, na verdade, nem tento) e recebo sempre uma reação decepcionada. Nunca consegui entender isso. Vou aos shows ver e ouvir as bandas ao vivo, não para tirar fotos com os músicos. Costumo explicar brincando que quando vou a um show só interessa-me a “missa” proporcionada pela banda. O importante mesmo é comungar aquele momento com as pessoas ali presentes. Nos primeiros shows que fui, costumava filmar várias músicas e fotografar bastante, hoje, não faço mais isso. Em boa parte dos casos é uma grande oportunidade estar ali. Sei que queremos registrar cada segundo, mas se estamos muito preocupados em registrar a apresentação, esquecemo-nos de viver aquele momento. Agora, costumo tirar uma ou duas fotos para guardar de recordação, mas não tenho nenhum registro fotográfico do último show que fui. No entanto, lembro nitidamente de tudo e sou capaz de contar em detalhes quando me perguntam como foi.

Acredito que permanecerei sempre como um rato de shows. A sensação de ver minhas bandas favoritas ao vivo é maravilhosa. É um pouco semelhante com o que acontece com o cinema. Muita gente costuma ir ao cinema ver os filmes de seus atores favoritos ou dos gêneros que mais gostam. Se vou ao cinema, o motivo sempre é o(a) diretor(a). Acompanho o trabalho de muitos(as) e sei que ver seus filmes na tela grande é completamente diferente de vê-los em casa. A literatura parece mesmo ser a arte mais solitária – os(as) escritores(as) quase sempre escrevem sozinhos(as), diferente de artes mais coletivas, como a música e o próprio cinema. Eu até posso fazer música sozinho, da mesma forma que posso me filmar, editar e lançar esse filme “solo”, mas sabemos todos que casos assim são raras exceções. Da mesma forma que não são muito comuns leituras coletivas, embora alguns grupos de leitura estejam tentando mudar essa realidade.

No entanto, atualmente, quase não acompanho nada, salvo uma ou duas bandas que eu tô sempre observando. Quando são lançados discos novos, praticamente sou pego de surpresa. São tantas notícias que não dá para acompanhar tudo. Mesmo quando se trata de filmes, que possuem um processo de produção mais longo (captação de recursos, pré-produção, produção, edição, participação em festivais, divulgação, exibição nos cinemas), consigo ser pego de surpresa com um ou outro lançamento, principalmente tratando-se da fonte nacional, que é o que eu mais gosto de acompanhar e assistir, mas que não tem uma distribuição tão massiva quanto a dos filmes enlatados que as distribuidoras brasileiras importam de outros países para ocuparem as salas de cinema do Brasil inteiro. Quando a questão envolve os livros, é aí que eu sou surpreendido mesmo, por isso, sempre que posso, dou uma pesquisada para ver o que tem sido publicado atualmente (mesmo saindo geralmente muito triste de ver os títulos e os autores que estão ocupando as prateleiras das livrarias).

Apesar disso, não sofro. Muito pelo contrário, estou evitando cada vez mais saber o que eles estão fazendo e principalmente falando. Não tem sido poucas as ocasiões em que venho decepcionando-me com artistas. Toda vez que assisto uma entrevista em que José Mojica Marins faz comentários homofóbicos, dói-me o coração. Quando vi Caetano Veloso, Chico Buarque, Djavan e Gilberto Gil aderindo ao Procure Saber, grupo que luta pela proibição de biografias não autorizadas, custei a acreditar. Não fiquei surpreso com Roberto Carlos, porque já conhecia seu histórico de proibições que, inclusive, não é de hoje. Quando Jô Soares constrangeu a youtuber Jout Jout com comentários machistas em seu programa, eu também me senti constrangido. Nunca acompanhei a carreira de Roger, embora goste muito dos primeiros discos do Ultraje a Rigor, mas recentemente tenho ficado impressionado com o modo como o vocalista dessa banda que produziu um dos discos fundamentais do rock brasileiro dos anos 1980, o Nós Vamos Invadir Sua Praia (1985), consegue a proeza de em várias ocasiões precisar de tão poucas palavras para destilar seu machismo e homofobia. Por falar nisso, tem sido cada vez mais difícil ouvir as piadas homofóbicas de Silvio Santos, quem tanto respeito e admiro. Sei que ele é um senhor de idade que nasceu e viveu em outra época, mas ele é um homem inteligente o suficiente para saber que nunca é tarde demais para aprender. Foi muito difícil também ler o texto de Fernanda Torres para o Agora é Que São Elas com posicionamentos tão equivocados sobre o feminismo. Sei que ela publicou depois outro texto retratando-se, mas o primeiro havia sido tão exageradamente sincero que, por mais que ela tenha se desculpado, sabemos que infelizmente é daquela forma que ela pensa. Porém, as pessoas mudam, e prefiro acreditar que ela mudou também. Aliás, as intervenções machistas de Claudio Assis durante o debate de Anna Muylaert sobre o filme Que Horas Ela Volta? (2015) e que acabou banindo-o por um ano do Cinema da Fundação Joaquim Nabuco, reduto da arte cinematográfica contemporânea no Recife, foi outro caso difícil de engolir. São casos assim que estão ensinando-me cada vez mais a separar a obra da pessoa. Dessa forma, tenho cada vez menos ídolos, mas admiro cada vez mais as obras de arte em si. Inclusive, seria muito interessante se mais pessoas fossem fãs apenas dos livros, filmes, discos, fotografias, telas, esculturas. Isso me tem evitado muito mal estar. Afinal, são as obras que de fato interessam. São elas que ficam quando o artista morre. Contudo, precisamos sim indignar-se com esses casos, deixar passar esse tipo de coisa só pelo fato de serem artistas é exercer a indignação seletiva. Intolerância, machismo, racismo, homofobia, transfobia, todo tipo de discriminação e preconceito precisam ser combatidos, na vida e nas artes.

cinco passos para ser um(a) escritor(a)

Hoje o texto será um pouco diferente, pois tratará da gravação de uma palestra do Rubem Fonseca. Não recordo como encontrei o vídeo, mas certamente foi quando estava navegando, como sempre, à procura de coisas novas. Informações essas que são muitas, muitas mesmo e, por mais que eu seja um astronauta libertado, as novidades me ultrapassam em qualquer rota que eu faça (viva Tom Zé!). É uma corrida desleal, estou sempre atrás das notícias. É humanamente impossível acompanhar tudo e, mesmo que fosse possível, não faria questão. Embora a quantidade de novidades ruins seja infinitamente maior do que as boas, ainda assim as boas continuam em demasia para um único ser humano que, como eu, é sedento por assuntos “desconhecidos”.

Pesquisando, consegui descobrir algumas coisas sobre o vídeo: é de 2012 e foi realizado durante a 13ª edição do Correntes d’Escritas, que é um encontro de escritores de expressão ibérica. Rubem Fonseca foi o convidado especial e recebeu o Prêmio Literário Casino da Póvoa com o livro ‘Bufo & Spallanzani’. No primeiro dia do evento ele palestrou em uma mesa que tinha como tema “A escrita é um risco total”. Foi essa palestra que eu encontrei em vídeo e resolvi compartilhar aqui, afinal, ele não costuma dar entrevistas porque considera que o autor deve ser reconhecido por sua obra, sendo a fala desta palestra um verdadeiro presente.

Lembram que eu disse lá no início que o texto de hoje seria diferente? Pelo menos a intenção era de que realmente o fosse. Os últimos textos do blogue são enormes, o último sempre maior que o antecessor. Desaprendi a escrever textos pequenos e a cada textão que publicava, me sentia mal por roubar o tempo do(a) Leitor(a). A princípio eu compartilharia apenas o vídeo, mas para isso eu tenho meu Tumblr, então decidi escrever algumas palavras sobre a palestra do Rubem Fonseca, que indica cinco coisas que precisamos ter para ser um(a) escritor(a) e fazer um pequeno paralelo com os leitores, mas essas palavras acabaram desaguando em um texto enorme. Portanto, deixo aqui o meu mais sincero conselho: veja o vídeo a seguir (antes que saia do ar) e não leia o resto do texto.

Correntes d’Escritas 2012 – Rubem Fonseca

Vi que vosmecê é um(a) Leitor(a) teimoso(a). Certo, se já está lendo essas palavras, que faça a gentileza de acompanhar-me até o fim. No vídeo, Rubem Fonseca nos brinda com a frase “escrever é uma forma socialmente aceita de loucura”. Como não concordar? É dessa forma que ele dá início à sua tese de que precisamos de cinco coisas para ser um escritor, a começar pela loucura.

1 – Loucura

Para Rubem Fonseca, todos os escritores são loucos, cada um à sua maneira. Para exemplificar, ele diz que é um escritor digitador, enquanto outros escrevem a lápis, portanto, uma loucura diferente. Identifiquei-me prontamente com a loucura de Fonseca, pois também só sei escrever digitando. Primeiro porque escrevendo à mão fica muito difícil acompanhar o raciocínio: mesmo escrevendo o mais rápido que posso, acabo deixando algo passar. Digitando, esse prejuízo é quase zero. Segundo, por um motivo mais nobre, digamos assim, pois quanto menos uso o papel, menos árvores estão sendo derrubadas. Já bastam as que morrem para que eu tenha livros na minha estante. Para Fonseca, a loucura é a característica mais importante de um escritor.

No entanto, quando ele diz que cada escritor tem neuroses, psicoses e depressões singulares, o mesmo pode-se aplicar aos leitores. Apenas para ilustrar, cada leitor lê de uma forma distinta. Alguns preferem ler pela manhã, outros à noite, como eu. Alguns preferem livros no formato digital, outros ainda conservam o romantismo de ter o livro físico e não abrir mão do cheiro de páginas novas, também como eu. Alguns se dedicam a um livro por vez, outros leem vários ao mesmo tempo, como quem vos escreve. Não obstante, o leitor tem que ser igualmente louco para “acreditar” no que está lendo através da suspensão temporária da incredulidade. No livro ‘A Vaca e o Hypogrifo’, Mário Quintana diz que “ao ler alguém que consegue expressar-se com toda a limpidez, nem sentimos que estamos lendo um livro: é como se o estivéssemos pensando.”. Quintana está falando de um escritor que escreve muito bem, mas sua frase torna-se importante aqui porque, ao acharmos que estamos pensando, suspendendo temporariamente nossa incredulidade, somos tão loucos quanto o autor. Porém, não basta apenas ser louco.

2 – Alfabetização

Para ser escritor você também precisa ser alfabetizado (obviamente), para que, através de sua escrita, consiga fazer o leitor sentir e, acima de tudo, ver, para assim poder entender. Nessa parte da palestra, Rubem Fonseca destila seu sarcasmo ao dizer que um escritor alfabetizado não significa ser um escritor inteligente e, que ser alfabetizado não é algo assim tão importante, pois uma pessoa não precisa ser muito alfabetizada para escrever um livro. Um exemplo disso é a enorme quantidade de livros de qualidade duvidosa que sempre inundam o mercado editorial.

Costumo dizer que vivemos na era do gosto literário duvidoso. Se Rubem Fonseca afirma que um escritor não precisa ser muito alfabetizado, que dirá os leitores? Muitos passam a vida toda boiando em uma literatura rasa porque não desenvolveram capacidade suficiente para mergulhar em mares mais profundos das letras. Capacidade essa que todos podemos desenvolver e que, se por um lado muitos não o fazem por conta própria, a grande maioria não desenvolve graças a um péssimo Sistema educacional que ainda restringe conhecimento e informação a poucos. Entretanto, realmente existem livros que exigem mais dos leitores. No livro ‘O Design da Escrita’, o autor Antonio Suarez Abreu diz que um texto é “uma proposta de construção de sentidos. Somos nós, leitores, que, vasculhando nossa memória, buscamos dentro do nosso conhecimento de mundo informações adicionais que possam complementar aquilo que lemos. Sem isso, não há entendimento possível.” Sem informações prévias, qualquer um de nós está sujeito a experimentar o analfabetismo funcional diante de um livro. Eu acredito, por exemplo, que não iria conseguir interpretar muita coisa de um texto de medicina ou de arquitetura, embora conseguisse decodificar as palavras. Apesar disso, sou daqueles que ainda prefere pessoas que leem livros indiscutivelmente rasos, do que quem passa a vida inteira com medo de se molhar e não lê nada. Todavia, não basta ser louco e alfabetizado.

3 – Motivação

Sem motivação você não faz nada, nem descasca uma banana, diz Rubem Fonseca. O escritor precisa ser motivado e cada um encontra motivação de uma maneira diferente, não importa qual seja. Na palestra, ele não diz o que o motiva a escrever e eu só não digo o que me motiva porque acho que ainda não sei. Não ganho absolutamente nada escrevendo, no entanto, gosto de escrever, sinto prazer. Talvez seja apenas por satisfação pessoal.

Ademais, também é preciso ser motivado para ler. A motivação mais comum talvez seja para descobrir o final da história, mas há quem lê porque precisa fazer uma prova ou porque anseia por mais conhecimento. Confesso que não preciso de muita motivação para pegar nos livros, estou sempre com vontade de ler, é quase uma necessidade fisiológica. Porém, às vezes preciso de motivação para terminar certos livros. Para isso, aplico a lei do esforço e recompensa: dou uma pausa na leitura que está enfadonha e inicio outra, dessa vez de algum livro que eu tenho certeza que vou gostar bastante e que vai reacender em mim a motivação pela leitura. Geralmente são biografias ou romances de autores que gosto muito. Concluída a leitura desse livro, coloco outro livro que também sei que dificilmente vai me decepcionar, na cabeceira da minha cama. Dessa forma, sempre que eu olhar para aquele livro que estou com muita vontade de ler e que só me permitirei fazê-lo depois de terminar a leitura enfadonha do livro que eu havia pausado, sentir-me-ei muito estimulado. Contudo, não basta ser louco, alfabetizado e motivado.

4 – Paciência

É preciso ser paciente e não parar de escrever. A ação de escrever permanentemente, continuamente, entretanto, deve ser realizada sem pressa. É compreensível que escritores passem cinco anos escrevendo um livro de duzentas páginas, por exemplo, a procura das palavras perfeitas. Para Fonseca, não existem sinônimos, com cada palavra possuindo um significado diferente, próprio. Para ele, sinônimos são conversa dos gramáticos para boi dormir.

Nós, leitores, também estamos sempre exercitando nossa paciência, afinal, não é fácil ler ao final de um dia cansativo. Estamos sempre correndo contra o tempo, não conseguimos ler tanto quanto gostaríamos e muitas vezes precisamos ler textos contra a nossa vontade, seja na escola, universidade ou trabalho. É preciso não parar, ler permanentemente, em cada tempinho livre. Devagar se vai longe! Não obstante, não basta ser louco, alfabetizado, motivado e paciente.

5 – Imaginação

O escritor tem que ter imaginação. Para Fonseca, é fundamental que o escritor invente. Tudo bem que o Chacrinha já nos ensinou que nada se cria e tudo se copia, mas não temos acesso a todos os livros do mundo e, por esse motivo, é imprescindível que os livros que cheguem até nós nos pareçam novos, diferentes. No fundo, eu sei que alguém em algum lugar do mundo já deve ter escrito algum livro parecido e que todas as histórias possíveis já foram contadas. Apesar disso, não li e nem vou conseguir ler todos os livros do mundo, por isso estou sempre procurando livros criativos que sejam novos para mim.

Em 2013, Rubem Fonseca participou da inauguração do ambiente de leitura que leva seu nome, no canteiro de obras da Linha 4 do metrô carioca, na Praça Antero de Quental, no Leblon. A Biblioteca Rubem Fonseca é destinada aos funcionários da obra. No seu empolgado discurso de inauguração (veja o discurso nesse vídeo), Fonseca disse que a palavra é extremamente polissêmica, que cada leitor lê de uma maneira diferente e que cada um de nós recria o que está lendo. Essa é a vantagem da leitura: nós preenchemos as lacunas que os escritores deixam deliberadamente ou inconscientemente. Ou seja, o livro não é uma coisa que vem pronta; o leitor precisa ser igualmente imaginativo para preencher esses espaços. Para finalizar, deixo com vocês a teoria do escritor e filósofo Eduardo Giannetti, que expressa bem essa ideia em seu livro ‘Auto-engano’: Ler é recriar. A palavra final não é dada por quem a escreve, mas por quem a lê. O diálogo interno do autor é a semente que frutifica (ou definha) no diálogo interno do leitor. A aposta é recíproca, o resultado imprevisível. Entendimento absoluto não há. Um mal-entendido – o folhear aleatório e absorto de um texto que acidentalmente nos cai nas mãos – pode ser o início de algo mais criativo e valioso do que uma leitura reta, porém burocrática e maquinal. “Autores são atores, livros são teatros.” A verdadeira trama é a que transcorre na mente do leitor-interlocutor.

Até a próxima, abraçaço.