meus livros favoritos de 2016

Tenho certeza de que 2016 foi o ano em que mais li até hoje. Essa afirmação pode soar mentirosa e contraditória quando comparo o número de livros lidos com os do ano anterior. Em 2015, eu li quarenta e seis títulos, em um total de onze mil novecentas e cinquenta e oito páginas. Enquanto que, em 2016, foram trinta e oito títulos, em um total de nove mil duzentas e trinta e nove páginas – o que dá uma média de vinte e cinco páginas por dia, abaixo das trinta e três diárias de 2015.

Os resultados foram bem inferiores, eu sei. Confesso que finalizei o ano frustrado, pois tinha expectativas maiores. No entanto, estou consciente de que um dos principais motivos (se não o maior) dessa diminuição foi o grande número de conteúdo online que eu consumi. Acompanhei muitos blogues em 2016, principalmente os de conteúdo político e feminista. Aprendi coisas como nunca antes e não me arrependo de ter dedicado tanto tempo a ler os textos de outros blogueiros e blogueiras, muito pelo contrário: neste ano, pretendo continuar acompanhando esses blogues e espero conhecer muitos outros.

Acredito muito na força da blogosfera e no poder do ativismo virtual. É importante consumir esse conteúdo alternativo escrito por minorias. Na atual conjuntura, é mais necessário do que nunca dar voz aos silenciados pelo Sistema. Essas leituras constituem uma parte importante da minha vida e sei que, se fosse possível contabilizar as páginas virtuais lidas por mim ano passado, conseguiria provar que foi o ano em que mais li. Porém, vou tratar no texto apenas dos livros.

Apesar de ter lido obras de nove nacionalidades, exatamente metade dos trinta e oito foram de títulos brasileiros e, é dessa metade, que saíram as leituras mais prazerosas. Não sei e não me atrevo a escrever resenhas, então irei tecer apenas breves comentários sobre cada livro da lista. Os títulos não estão classificados por ordem de importância, mas sim por ordem alfabética. São eles:

Abraçado ao Meu Rancor

Publicado originalmente em 1986, ‘Abraçado ao Meu Rancor’ foi minha terceira leitura concluída em 2016. Foi também o primeiro livro que li de João Antônio. Por ser um compêndio de contos, eu esperava ler com mais calma, como geralmente faço com títulos desse gênero (quase nunca leio mais de um conto por vez). No entanto, suas histórias do submundo me envolveram de tal forma, que quando me dei conta, já havia lido tudo.

A Divina Comédia dos Mutantes

Publicado originalmente em 1995, ‘A Divina Comédia dos Mutantes’ foi minha sexta leitura concluída em 2016. O livro de Carlos Calado é a biografia mais completa d’Os Mutantes, minha banda favorita. Foi outro livro que li muito rápido, principalmente por se tratar de um assunto de grande interesse. A pesquisa de Calado nos brinda com muitas curiosidades sobre os bastidores de gravações e, claro, nos apresenta aos vários pontos de vista sobre a polêmica saída de Rita Lee da banda.

Agosto

Publicado originalmente em 1990, ‘Agosto’ foi o primeiro livro que li em 2016. Foi uma das leituras mais gostosas do ano e se tornou um dos meus livros favoritos. A mescla entre ficção e realidade, usando como pano de fundo os acontecimentos que culminaram no suicídio de Getúlio Vargas, em agosto de 1954, foi o que me fascinou. Essa é apenas a terceira obra que leio de Rubem Fonseca e, a cada leitura nova, este autor ganha um lugar cada vez mais especial no meu coração. Agora, sempre que me lembro de ‘Agosto’, sinto uma imensa vontade de reler (e olha que só faz um ano que o folheei).

Cazuza - Só As Mães São Felizes

Publicado originalmente em 1997, ‘Cazuza – Só as Mães São Felizes’ foi minha segunda leitura concluída em 2016. Escrito por Lucinha Araújo e Regina Echeverria, a biografia conta a história de Cazuza desde seu nascimento até sua morte prematura. Também o li muito rápido, pois praticamente não o consegui largar enquanto não concluí. Por ser narrado através do ponto de vista de Lucinha, o livro é muito rico em detalhes, principalmente os capítulos que dizem respeito aos últimos dias de vida de Cazuza. Foi de longe a leitura mais emocionante do ano.

Contos Escolhidos

‘Contos Escolhidos’ é uma coleção de contos do Machado de Assis. Foi minha trigésima terceira leitura concluída em 2016. Li-o praticamente o ano inteiro, com muita calma. Como leio muitos livros ao mesmo tempo, quando chega dezembro, eu não inicio mais nenhuma leitura, pois trato de terminar aquelas que eu já iniciei durante o ano. Em dezembro, ainda faltavam alguns contos para concluir e, ao final de cada um deles, eu só conseguia imaginar o quanto ficariam bons se adaptados para o cinema em curtas-metragens. Inclusive, alguns contos desta coleção realmente ganharam adaptações, como foi o caso de ‘A Missa do Galo’ e ‘Uns Braços’.

Golpe 16

‘Golpe 16’ foi uma leitura especial, apesar de se tratar de um assunto amargo. O livro contém vinte e três artigos de blogueiros(as) e intelectuais de esquerda, além de um prefácio escrito pelo ex-presidente Lula e uma entrevista com a presidenta eleita Dilma Rousseff. A ideia do livro foi de Renato Rovai, editor do portal Fórum. Fui ao lançamento do livro em setembro, a convite da blogueira e feminista Lola Aronovich, que eu havia conhecido pessoalmente dias antes. Minha edição está autografada por ela. Além de Lola, há nele artigos de outras pessoas que eu admiro muito, como Cynara Menezes e Paulo Henrique Amorim. Foi minha vigésima oitava leitura concluída em 2016 e outro livro que li rápido, pois parei todas as leituras que havia iniciado para ler ‘Golpe 16’, um dos mais urgentes e importantes títulos publicados no ano passado.

Maldito

Publicado originalmente em 1998, ‘Maldito’ foi minha quarta leitura concluída em 2016. Minha edição, lançada em 2015 é, de longe, o livro mais lindo da minha coleção. O volume tem seiscentas e sessenta e seis páginas, que eu devorei em pouquíssimos dias. Escrita por André Barcinski e Ivan Finotti, a biografia é o título mais completo sobre José Mojica Marins, diretor de clássicos como ‘À Meia-Noite Levarei Sua Alma’, de 1963, e ‘Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver’, de 1966, ambos inclusos na minha lista de filmes favoritos. O livro aborda todas as fases da carreira de Mojica e, apesar de não ser chapa branca (pois aborda também os problemas do cineasta com o álcool, ostracismo, adultérios e o envolvimento com a indústria pornô), tudo é escrito com o maior respeito, tratando Marins como o verdadeiro gênio que é. Foi certamente uma das melhores biografias que já li na vida.

Menino de Engenho

Doidinho

Publicado originalmente em 1932, ‘Menino de Engenho’ foi minha décima primeira leitura concluída no ano passado e o primeiro livro de José Lins do Rego que li. A obra narra a história do menino Carlinhos, que vai morar no engenho do seu avô após perder a mãe assassinada pelo próprio pai. ‘Doidinho’, publicado pela primeira vez em 1933, foi minha vigésima quarta leitura concluída em 2016, e é a continuação de ‘Menino de Engenho’. Inclusive, começa exatamente onde o volume anterior termina. Esse segundo volume foi uma das leituras mais divertidas que fiz até hoje e, apesar de ser uma história triste em muitos momentos, a narrativa não perde o bom humor. Os dois fazem parte do “ciclo da cana-de-açúcar”, composta ainda por ‘Banguê’, publicado em 1934, ‘O Moleque Ricardo’, lançado em 1935, e ‘Usina’, lançado em 1936, títulos que eu pretendo ler muito em breve.

Revisao Crítica do Cinema Brasileiro / O Século do Cinema / Revolução do Cinema Novo

Essa trilogia glauberiana é formada por ‘Revisão Crítica do Cinema Brasileiro’, publicado originalmente em 1963, ‘O Século do Cinema’, de 1983, e ‘Revolução do Cinema Novo’, de 1981. Eles foram minhas leituras de número vinte e dois, trinta, e trinta e um de 2016, respectivamente. São livros escritos para quem realmente ama cinema, sobretudo o brasileiro. Glauber Rocha é meu cineasta favorito e tenho muito interesse por tudo o que diz respeito à sua vida e obra. Nenhum outro diretor me influenciou ou influencia tanto quanto ele. ‘Revolução do Cinema Novo’ trata do maior movimento cinematográfico da história do nosso país e foi o livro de cinema mais importante que já li.

Sargento Getúlio

Publicado originalmente em 1971, ‘Sargento Getúlio’ foi minha décima leitura concluída em 2016, e meu primeiro livro de João Ubaldo Ribeiro. Esse era um título que eu já queria ler há muitos anos, desde que assisti sua adaptação cinematográfica de mesmo nome de 1983, dirigido por Hermanno Penna, com Lima Duarte no papel do protagonista-título. Apesar de ser um livro pequeno, algumas passagens foram sabiamente cortadas no filme. Não por serem ruins, mas por não funcionarem tão perfeitamente no cinema quanto na literatura. Apesar disso, é uma das adaptações mais fiéis que já assisti (Ubaldo também assinou o roteiro) e tanto o filme quanto o livro fazem parte agora da minha lista de obras favoritas.

Minha meta inicial era ler cinquenta livros. No entanto, me dei conta de que um ano tem cinquenta e duas semanas, então esse se tornou o número mágico. Como vocês podem ver, não consegui alcançar nenhum dos dois. Quem sabe em 2017? Gosto de ler com calma e estou consciente de que ler muito rápido não é algo tão bom. Porém, também tenho que lutar contra o fato de que só viverei um determinado número de anos. Esse sentimento gera emoções contraditórias dentro de mim. Por já saber que não vou conseguir ler tudo o que quero, eu poderia muito bem ler livros aleatoriamente. Contudo, tento ser seletivo na maior parte das vezes, mas confesso que também gosto de ler ao acaso. Aprecio muito leituras estranhas, de títulos que quase ninguém ouviu falar.

Para esse ano, gostaria de convidar vocês a participarem do #DesafioLivrosBR do blogue 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer. O desafio consiste em ler, em 2017, doze livros brasileiros de diferentes categorias. Cliquem aqui no link para mais informações. É a primeira vez que participarei de um desafio literário e estou bastante entusiasmado. Segundo a Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2015, o brasileiro lê, em média, apenas dois livros inteiros por ano. Mais do que um país que lê pouco, o Brasil é um país que se lê pouco. Por isso, considero iniciativas como essa muito importantes.

Para finalizar, deixo abaixo o arquivo em PDF de ‘GOLPE: Antologia Manifesto’, obra que reúne cento e vinte artistas contra o golpe acometido contra a nossa democracia no ano passado. Foi uma das minhas leituras de 2016 e cito-o aqui nas menções honrosas. Espero que essa lista possa inspirar a leitura de muitos de vocês. Não se esqueçam de comentar quais desses títulos vocês já leram, quais querem ler e, claro, que livros vocês me indicam para 2017. Até a próxima, abraçaço.

GOLPE: Antologia Manifesto

Anúncios

cinco passos para ser um(a) escritor(a)

Hoje o texto será um pouco diferente, pois tratará da gravação de uma palestra do Rubem Fonseca. Não recordo como encontrei o vídeo, mas certamente foi quando estava navegando, como sempre, à procura de coisas novas. Informações essas que são muitas, muitas mesmo e, por mais que eu seja um astronauta libertado, as novidades me ultrapassam em qualquer rota que eu faça (viva Tom Zé!). É uma corrida desleal, estou sempre atrás das notícias. É humanamente impossível acompanhar tudo e, mesmo que fosse possível, não faria questão. Embora a quantidade de novidades ruins seja infinitamente maior do que as boas, ainda assim as boas continuam em demasia para um único ser humano que, como eu, é sedento por assuntos “desconhecidos”.

Pesquisando, consegui descobrir algumas coisas sobre o vídeo: é de 2012 e foi realizado durante a 13ª edição do Correntes d’Escritas, que é um encontro de escritores de expressão ibérica. Rubem Fonseca foi o convidado especial e recebeu o Prêmio Literário Casino da Póvoa com o livro ‘Bufo & Spallanzani’. No primeiro dia do evento ele palestrou em uma mesa que tinha como tema “A escrita é um risco total”. Foi essa palestra que eu encontrei em vídeo e resolvi compartilhar aqui, afinal, ele não costuma dar entrevistas porque considera que o autor deve ser reconhecido por sua obra, sendo a fala desta palestra um verdadeiro presente.

Lembram que eu disse lá no início que o texto de hoje seria diferente? Pelo menos a intenção era de que realmente o fosse. Os últimos textos do blogue são enormes, o último sempre maior que o antecessor. Desaprendi a escrever textos pequenos e a cada textão que publicava, me sentia mal por roubar o tempo do(a) Leitor(a). A princípio eu compartilharia apenas o vídeo, mas para isso eu tenho meu Tumblr, então decidi escrever algumas palavras sobre a palestra do Rubem Fonseca, que indica cinco coisas que precisamos ter para ser um(a) escritor(a) e fazer um pequeno paralelo com os leitores, mas essas palavras acabaram desaguando em um texto enorme. Portanto, deixo aqui o meu mais sincero conselho: veja o vídeo a seguir (antes que saia do ar) e não leia o resto do texto.

Correntes d’Escritas 2012 – Rubem Fonseca

Vi que vosmecê é um(a) Leitor(a) teimoso(a). Certo, se já está lendo essas palavras, que faça a gentileza de acompanhar-me até o fim. No vídeo, Rubem Fonseca nos brinda com a frase “escrever é uma forma socialmente aceita de loucura”. Como não concordar? É dessa forma que ele dá início à sua tese de que precisamos de cinco coisas para ser um escritor, a começar pela loucura.

1 – Loucura

Para Rubem Fonseca, todos os escritores são loucos, cada um à sua maneira. Para exemplificar, ele diz que é um escritor digitador, enquanto outros escrevem a lápis, portanto, uma loucura diferente. Identifiquei-me prontamente com a loucura de Fonseca, pois também só sei escrever digitando. Primeiro porque escrevendo à mão fica muito difícil acompanhar o raciocínio: mesmo escrevendo o mais rápido que posso, acabo deixando algo passar. Digitando, esse prejuízo é quase zero. Segundo, por um motivo mais nobre, digamos assim, pois quanto menos uso o papel, menos árvores estão sendo derrubadas. Já bastam as que morrem para que eu tenha livros na minha estante. Para Fonseca, a loucura é a característica mais importante de um escritor.

No entanto, quando ele diz que cada escritor tem neuroses, psicoses e depressões singulares, o mesmo pode-se aplicar aos leitores. Apenas para ilustrar, cada leitor lê de uma forma distinta. Alguns preferem ler pela manhã, outros à noite, como eu. Alguns preferem livros no formato digital, outros ainda conservam o romantismo de ter o livro físico e não abrir mão do cheiro de páginas novas, também como eu. Alguns se dedicam a um livro por vez, outros leem vários ao mesmo tempo, como quem vos escreve. Não obstante, o leitor tem que ser igualmente louco para “acreditar” no que está lendo através da suspensão temporária da incredulidade. No livro ‘A Vaca e o Hypogrifo’, Mário Quintana diz que “ao ler alguém que consegue expressar-se com toda a limpidez, nem sentimos que estamos lendo um livro: é como se o estivéssemos pensando.”. Quintana está falando de um escritor que escreve muito bem, mas sua frase torna-se importante aqui porque, ao acharmos que estamos pensando, suspendendo temporariamente nossa incredulidade, somos tão loucos quanto o autor. Porém, não basta apenas ser louco.

2 – Alfabetização

Para ser escritor você também precisa ser alfabetizado (obviamente), para que, através de sua escrita, consiga fazer o leitor sentir e, acima de tudo, ver, para assim poder entender. Nessa parte da palestra, Rubem Fonseca destila seu sarcasmo ao dizer que um escritor alfabetizado não significa ser um escritor inteligente e, que ser alfabetizado não é algo assim tão importante, pois uma pessoa não precisa ser muito alfabetizada para escrever um livro. Um exemplo disso é a enorme quantidade de livros de qualidade duvidosa que sempre inundam o mercado editorial.

Costumo dizer que vivemos na era do gosto literário duvidoso. Se Rubem Fonseca afirma que um escritor não precisa ser muito alfabetizado, que dirá os leitores? Muitos passam a vida toda boiando em uma literatura rasa porque não desenvolveram capacidade suficiente para mergulhar em mares mais profundos das letras. Capacidade essa que todos podemos desenvolver e que, se por um lado muitos não o fazem por conta própria, a grande maioria não desenvolve graças a um péssimo Sistema educacional que ainda restringe conhecimento e informação a poucos. Entretanto, realmente existem livros que exigem mais dos leitores. No livro ‘O Design da Escrita’, o autor Antonio Suarez Abreu diz que um texto é “uma proposta de construção de sentidos. Somos nós, leitores, que, vasculhando nossa memória, buscamos dentro do nosso conhecimento de mundo informações adicionais que possam complementar aquilo que lemos. Sem isso, não há entendimento possível.” Sem informações prévias, qualquer um de nós está sujeito a experimentar o analfabetismo funcional diante de um livro. Eu acredito, por exemplo, que não iria conseguir interpretar muita coisa de um texto de medicina ou de arquitetura, embora conseguisse decodificar as palavras. Apesar disso, sou daqueles que ainda prefere pessoas que leem livros indiscutivelmente rasos, do que quem passa a vida inteira com medo de se molhar e não lê nada. Todavia, não basta ser louco e alfabetizado.

3 – Motivação

Sem motivação você não faz nada, nem descasca uma banana, diz Rubem Fonseca. O escritor precisa ser motivado e cada um encontra motivação de uma maneira diferente, não importa qual seja. Na palestra, ele não diz o que o motiva a escrever e eu só não digo o que me motiva porque acho que ainda não sei. Não ganho absolutamente nada escrevendo, no entanto, gosto de escrever, sinto prazer. Talvez seja apenas por satisfação pessoal.

Ademais, também é preciso ser motivado para ler. A motivação mais comum talvez seja para descobrir o final da história, mas há quem lê porque precisa fazer uma prova ou porque anseia por mais conhecimento. Confesso que não preciso de muita motivação para pegar nos livros, estou sempre com vontade de ler, é quase uma necessidade fisiológica. Porém, às vezes preciso de motivação para terminar certos livros. Para isso, aplico a lei do esforço e recompensa: dou uma pausa na leitura que está enfadonha e inicio outra, dessa vez de algum livro que eu tenho certeza que vou gostar bastante e que vai reacender em mim a motivação pela leitura. Geralmente são biografias ou romances de autores que gosto muito. Concluída a leitura desse livro, coloco outro livro que também sei que dificilmente vai me decepcionar, na cabeceira da minha cama. Dessa forma, sempre que eu olhar para aquele livro que estou com muita vontade de ler e que só me permitirei fazê-lo depois de terminar a leitura enfadonha do livro que eu havia pausado, sentir-me-ei muito estimulado. Contudo, não basta ser louco, alfabetizado e motivado.

4 – Paciência

É preciso ser paciente e não parar de escrever. A ação de escrever permanentemente, continuamente, entretanto, deve ser realizada sem pressa. É compreensível que escritores passem cinco anos escrevendo um livro de duzentas páginas, por exemplo, a procura das palavras perfeitas. Para Fonseca, não existem sinônimos, com cada palavra possuindo um significado diferente, próprio. Para ele, sinônimos são conversa dos gramáticos para boi dormir.

Nós, leitores, também estamos sempre exercitando nossa paciência, afinal, não é fácil ler ao final de um dia cansativo. Estamos sempre correndo contra o tempo, não conseguimos ler tanto quanto gostaríamos e muitas vezes precisamos ler textos contra a nossa vontade, seja na escola, universidade ou trabalho. É preciso não parar, ler permanentemente, em cada tempinho livre. Devagar se vai longe! Não obstante, não basta ser louco, alfabetizado, motivado e paciente.

5 – Imaginação

O escritor tem que ter imaginação. Para Fonseca, é fundamental que o escritor invente. Tudo bem que o Chacrinha já nos ensinou que nada se cria e tudo se copia, mas não temos acesso a todos os livros do mundo e, por esse motivo, é imprescindível que os livros que cheguem até nós nos pareçam novos, diferentes. No fundo, eu sei que alguém em algum lugar do mundo já deve ter escrito algum livro parecido e que todas as histórias possíveis já foram contadas. Apesar disso, não li e nem vou conseguir ler todos os livros do mundo, por isso estou sempre procurando livros criativos que sejam novos para mim.

Em 2013, Rubem Fonseca participou da inauguração do ambiente de leitura que leva seu nome, no canteiro de obras da Linha 4 do metrô carioca, na Praça Antero de Quental, no Leblon. A Biblioteca Rubem Fonseca é destinada aos funcionários da obra. No seu empolgado discurso de inauguração (veja o discurso nesse vídeo), Fonseca disse que a palavra é extremamente polissêmica, que cada leitor lê de uma maneira diferente e que cada um de nós recria o que está lendo. Essa é a vantagem da leitura: nós preenchemos as lacunas que os escritores deixam deliberadamente ou inconscientemente. Ou seja, o livro não é uma coisa que vem pronta; o leitor precisa ser igualmente imaginativo para preencher esses espaços. Para finalizar, deixo com vocês a teoria do escritor e filósofo Eduardo Giannetti, que expressa bem essa ideia em seu livro ‘Auto-engano’: Ler é recriar. A palavra final não é dada por quem a escreve, mas por quem a lê. O diálogo interno do autor é a semente que frutifica (ou definha) no diálogo interno do leitor. A aposta é recíproca, o resultado imprevisível. Entendimento absoluto não há. Um mal-entendido – o folhear aleatório e absorto de um texto que acidentalmente nos cai nas mãos – pode ser o início de algo mais criativo e valioso do que uma leitura reta, porém burocrática e maquinal. “Autores são atores, livros são teatros.” A verdadeira trama é a que transcorre na mente do leitor-interlocutor.

Até a próxima, abraçaço.