boi-leitor

Glauber Rocha inicia ‘Riverão Sussuarana’, seu único romance, publicado originalmente em 1978, com duas resenhas literárias escritas e publicadas por ele em 1956, quando o mesmo tinha apenas dezessete anos. Em um desses textos, ele atribui a seguinte frase a Guimarães Rosa: “Minha literatura é pra bois. Não é para ser engolida de vez”. Hoje, lendo ‘A Normalista’, de Adolfo Caminha, deparei-me com a cena em que a personagem Maria do Carmo lê e relê a carta de amor que recebeu de Zuza, o quintanista de direito. Maria lê como uma ruminante. Quem já recebeu uma carta de amor, um bilhete, que seja, sabe que só passar os olhos rapidamente pela tinta no papel não é suficiente. Como uma leitura só não basta, relemos, interpretamos, lemos nas entrelinhas. Tentamos decifrar o sentido de cada palavra, cada vírgula. Analisamos o dito e o não dito. Não engolimos de vez. Com o tempo curto diante de tantos clássicos e tantas publicações interessantes, é angustiante ver a lista de livros para ler antes de morrer só aumentar. É preciso lutar contra a vontade de ler mais rápido diante do desejo de ler como um boi. Ler tudo o que quero é uma guerra já perdida. Por isso, tenho que me contentar em vencer as batalhas que me cabe lutar, ou seja, os livros que terei a oportunidade de ler antes de morrer. Saber aproveitar bem cada obra, extraindo dela o máximo possível. Como um ruminante. Para isso, tratarei cada livro, a partir de hoje, como uma declaração de amor dos autores para mim.

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meus livros favoritos de 2016

Tenho certeza de que 2016 foi o ano em que mais li até hoje. Essa afirmação pode soar mentirosa e contraditória quando comparo o número de livros lidos com os do ano anterior. Em 2015, eu li quarenta e seis títulos, em um total de onze mil novecentas e cinquenta e oito páginas. Enquanto que, em 2016, foram trinta e oito títulos, em um total de nove mil duzentas e trinta e nove páginas – o que dá uma média de vinte e cinco páginas por dia, abaixo das trinta e três diárias de 2015.

Os resultados foram bem inferiores, eu sei. Confesso que finalizei o ano frustrado, pois tinha expectativas maiores. No entanto, estou consciente de que um dos principais motivos (se não o maior) dessa diminuição foi o grande número de conteúdo online que eu consumi. Acompanhei muitos blogues em 2016, principalmente os de conteúdo político e feminista. Aprendi coisas como nunca antes e não me arrependo de ter dedicado tanto tempo a ler os textos de outros blogueiros e blogueiras, muito pelo contrário: neste ano, pretendo continuar acompanhando esses blogues e espero conhecer muitos outros.

Acredito muito na força da blogosfera e no poder do ativismo virtual. É importante consumir esse conteúdo alternativo escrito por minorias. Na atual conjuntura, é mais necessário do que nunca dar voz aos silenciados pelo Sistema. Essas leituras constituem uma parte importante da minha vida e sei que, se fosse possível contabilizar as páginas virtuais lidas por mim ano passado, conseguiria provar que foi o ano em que mais li. Porém, vou tratar no texto apenas dos livros.

Apesar de ter lido obras de nove nacionalidades, exatamente metade dos trinta e oito foram de títulos brasileiros e, é dessa metade, que saíram as leituras mais prazerosas. Não sei e não me atrevo a escrever resenhas, então irei tecer apenas breves comentários sobre cada livro da lista. Os títulos não estão classificados por ordem de importância, mas sim por ordem alfabética. São eles:

Abraçado ao Meu Rancor

Publicado originalmente em 1986, ‘Abraçado ao Meu Rancor’ foi minha terceira leitura concluída em 2016. Foi também o primeiro livro que li de João Antônio. Por ser um compêndio de contos, eu esperava ler com mais calma, como geralmente faço com títulos desse gênero (quase nunca leio mais de um conto por vez). No entanto, suas histórias do submundo me envolveram de tal forma, que quando me dei conta, já havia lido tudo.

A Divina Comédia dos Mutantes

Publicado originalmente em 1995, ‘A Divina Comédia dos Mutantes’ foi minha sexta leitura concluída em 2016. O livro de Carlos Calado é a biografia mais completa d’Os Mutantes, minha banda favorita. Foi outro livro que li muito rápido, principalmente por se tratar de um assunto de grande interesse. A pesquisa de Calado nos brinda com muitas curiosidades sobre os bastidores de gravações e, claro, nos apresenta aos vários pontos de vista sobre a polêmica saída de Rita Lee da banda.

Agosto

Publicado originalmente em 1990, ‘Agosto’ foi o primeiro livro que li em 2016. Foi uma das leituras mais gostosas do ano e se tornou um dos meus livros favoritos. A mescla entre ficção e realidade, usando como pano de fundo os acontecimentos que culminaram no suicídio de Getúlio Vargas, em agosto de 1954, foi o que me fascinou. Essa é apenas a terceira obra que leio de Rubem Fonseca e, a cada leitura nova, este autor ganha um lugar cada vez mais especial no meu coração. Agora, sempre que me lembro de ‘Agosto’, sinto uma imensa vontade de reler (e olha que só faz um ano que o folheei).

Cazuza - Só As Mães São Felizes

Publicado originalmente em 1997, ‘Cazuza – Só as Mães São Felizes’ foi minha segunda leitura concluída em 2016. Escrito por Lucinha Araújo e Regina Echeverria, a biografia conta a história de Cazuza desde seu nascimento até sua morte prematura. Também o li muito rápido, pois praticamente não o consegui largar enquanto não concluí. Por ser narrado através do ponto de vista de Lucinha, o livro é muito rico em detalhes, principalmente os capítulos que dizem respeito aos últimos dias de vida de Cazuza. Foi de longe a leitura mais emocionante do ano.

Contos Escolhidos

‘Contos Escolhidos’ é uma coleção de contos do Machado de Assis. Foi minha trigésima terceira leitura concluída em 2016. Li-o praticamente o ano inteiro, com muita calma. Como leio muitos livros ao mesmo tempo, quando chega dezembro, eu não inicio mais nenhuma leitura, pois trato de terminar aquelas que eu já iniciei durante o ano. Em dezembro, ainda faltavam alguns contos para concluir e, ao final de cada um deles, eu só conseguia imaginar o quanto ficariam bons se adaptados para o cinema em curtas-metragens. Inclusive, alguns contos desta coleção realmente ganharam adaptações, como foi o caso de ‘A Missa do Galo’ e ‘Uns Braços’.

Golpe 16

‘Golpe 16’ foi uma leitura especial, apesar de se tratar de um assunto amargo. O livro contém vinte e três artigos de blogueiros(as) e intelectuais de esquerda, além de um prefácio escrito pelo ex-presidente Lula e uma entrevista com a presidenta eleita Dilma Rousseff. A ideia do livro foi de Renato Rovai, editor do portal Fórum. Fui ao lançamento do livro em setembro, a convite da blogueira e feminista Lola Aronovich, que eu havia conhecido pessoalmente dias antes. Minha edição está autografada por ela. Além de Lola, há nele artigos de outras pessoas que eu admiro muito, como Cynara Menezes e Paulo Henrique Amorim. Foi minha vigésima oitava leitura concluída em 2016 e outro livro que li rápido, pois parei todas as leituras que havia iniciado para ler ‘Golpe 16’, um dos mais urgentes e importantes títulos publicados no ano passado.

Maldito

Publicado originalmente em 1998, ‘Maldito’ foi minha quarta leitura concluída em 2016. Minha edição, lançada em 2015 é, de longe, o livro mais lindo da minha coleção. O volume tem seiscentas e sessenta e seis páginas, que eu devorei em pouquíssimos dias. Escrita por André Barcinski e Ivan Finotti, a biografia é o título mais completo sobre José Mojica Marins, diretor de clássicos como ‘À Meia-Noite Levarei Sua Alma’, de 1963, e ‘Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver’, de 1966, ambos inclusos na minha lista de filmes favoritos. O livro aborda todas as fases da carreira de Mojica e, apesar de não ser chapa branca (pois aborda também os problemas do cineasta com o álcool, ostracismo, adultérios e o envolvimento com a indústria pornô), tudo é escrito com o maior respeito, tratando Marins como o verdadeiro gênio que é. Foi certamente uma das melhores biografias que já li na vida.

Menino de Engenho

Doidinho

Publicado originalmente em 1932, ‘Menino de Engenho’ foi minha décima primeira leitura concluída no ano passado e o primeiro livro de José Lins do Rego que li. A obra narra a história do menino Carlinhos, que vai morar no engenho do seu avô após perder a mãe assassinada pelo próprio pai. ‘Doidinho’, publicado pela primeira vez em 1933, foi minha vigésima quarta leitura concluída em 2016, e é a continuação de ‘Menino de Engenho’. Inclusive, começa exatamente onde o volume anterior termina. Esse segundo volume foi uma das leituras mais divertidas que fiz até hoje e, apesar de ser uma história triste em muitos momentos, a narrativa não perde o bom humor. Os dois fazem parte do “ciclo da cana-de-açúcar”, composta ainda por ‘Banguê’, publicado em 1934, ‘O Moleque Ricardo’, lançado em 1935, e ‘Usina’, lançado em 1936, títulos que eu pretendo ler muito em breve.

Revisao Crítica do Cinema Brasileiro / O Século do Cinema / Revolução do Cinema Novo

Essa trilogia glauberiana é formada por ‘Revisão Crítica do Cinema Brasileiro’, publicado originalmente em 1963, ‘O Século do Cinema’, de 1983, e ‘Revolução do Cinema Novo’, de 1981. Eles foram minhas leituras de número vinte e dois, trinta, e trinta e um de 2016, respectivamente. São livros escritos para quem realmente ama cinema, sobretudo o brasileiro. Glauber Rocha é meu cineasta favorito e tenho muito interesse por tudo o que diz respeito à sua vida e obra. Nenhum outro diretor me influenciou ou influencia tanto quanto ele. ‘Revolução do Cinema Novo’ trata do maior movimento cinematográfico da história do nosso país e foi o livro de cinema mais importante que já li.

Sargento Getúlio

Publicado originalmente em 1971, ‘Sargento Getúlio’ foi minha décima leitura concluída em 2016, e meu primeiro livro de João Ubaldo Ribeiro. Esse era um título que eu já queria ler há muitos anos, desde que assisti sua adaptação cinematográfica de mesmo nome de 1983, dirigido por Hermanno Penna, com Lima Duarte no papel do protagonista-título. Apesar de ser um livro pequeno, algumas passagens foram sabiamente cortadas no filme. Não por serem ruins, mas por não funcionarem tão perfeitamente no cinema quanto na literatura. Apesar disso, é uma das adaptações mais fiéis que já assisti (Ubaldo também assinou o roteiro) e tanto o filme quanto o livro fazem parte agora da minha lista de obras favoritas.

Minha meta inicial era ler cinquenta livros. No entanto, me dei conta de que um ano tem cinquenta e duas semanas, então esse se tornou o número mágico. Como vocês podem ver, não consegui alcançar nenhum dos dois. Quem sabe em 2017? Gosto de ler com calma e estou consciente de que ler muito rápido não é algo tão bom. Porém, também tenho que lutar contra o fato de que só viverei um determinado número de anos. Esse sentimento gera emoções contraditórias dentro de mim. Por já saber que não vou conseguir ler tudo o que quero, eu poderia muito bem ler livros aleatoriamente. Contudo, tento ser seletivo na maior parte das vezes, mas confesso que também gosto de ler ao acaso. Aprecio muito leituras estranhas, de títulos que quase ninguém ouviu falar.

Para esse ano, gostaria de convidar vocês a participarem do #DesafioLivrosBR do blogue 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer. O desafio consiste em ler, em 2017, doze livros brasileiros de diferentes categorias. Cliquem aqui no link para mais informações. É a primeira vez que participarei de um desafio literário e estou bastante entusiasmado. Segundo a Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2015, o brasileiro lê, em média, apenas dois livros inteiros por ano. Mais do que um país que lê pouco, o Brasil é um país que se lê pouco. Por isso, considero iniciativas como essa muito importantes.

Para finalizar, deixo abaixo o arquivo em PDF de ‘GOLPE: Antologia Manifesto’, obra que reúne cento e vinte artistas contra o golpe acometido contra a nossa democracia no ano passado. Foi uma das minhas leituras de 2016 e cito-o aqui nas menções honrosas. Espero que essa lista possa inspirar a leitura de muitos de vocês. Não se esqueçam de comentar quais desses títulos vocês já leram, quais querem ler e, claro, que livros vocês me indicam para 2017. Até a próxima, abraçaço.

GOLPE: Antologia Manifesto

hoje eu acordei com rubem braga

“Hoje eu acordei com sono, sem vontade de acordar. O meu amor foi embora e só deixou pra mim um bilhetinho todo azul com seus garranchos”. Não era bem assim que eu pretendia iniciar esse texto, mas ao escrever “hoje eu acordei”, me veio à mente a letra de ‘Bilhetinho Azul’, do Barão Vermelho, música presente no primeiro álbum da banda lançado em 1982. Escrevi o texto ouvindo esse disco que eu adoro e que não escutava há bastante tempo. Sessão nostalgia.

Não deixa de ser verdade que hoje eu acordei com sono, afinal, eu acordo assim todos os dias. No entanto, ao levantar da cama, lembranças há muito perdidas em um passado distante despertaram também. Recordei do livro ‘200 Crônicas Escolhidas’, do escritor Rubem Braga (1913-1990), livro que ganhei ainda criança. Foi o primeiro título adulto que me lembro de ter lido, pois até então eu só havia consumido literatura infantil. O livro tem o selo de venda proibida do Ministério da Educação na capa. Ganhei-o de um tio que era professor na época – se ele o ganhou ou roubou, eu não sei, só sei que ele me deu e que eu o tenho até hoje. A capa, inclusive, tem o desenho de uma mulher nua lendo e, por isso, eu tinha vergonha de lê-lo na frente das pessoas. Se eu era criança, a minha irmã que é mais nova do que eu, era mais criança ainda, e achava a capa super engraçada.

200 Crônicas Escolhidas

Confesso que nunca entendi essa mulher nua na capa, mas o que interessa é que o li por anos e que foi lendo-o que eu tive vontade de ser escritor. A cada crônica lida, eu pensava que podia fazer igual. Fiquei apaixonado pelos textos, queria ser cronista. O primeiro blogue que tive na vida era dedicado ao gênero. Na época, eu não entendia porque lia e achava que era fácil escrever, mas hoje está claro que a genialidade de Rubem Braga fazia tudo parecer fácil, como os atletas de alto nível, que nos banham com a sensação de que é possível fazer igual. Não é que seja fácil, eles é que são bons demais.

Hoje eu não escrevo mais crônicas (eu acho), mas consigo ver uma influência muito forte do gênero em meus textos. Meu tio, que me deu esse livro, nem imagina que foi ele o responsável por despertar o amor pela leitura em mim. Antes mesmo de me dar esse do Braga, ele já havia me presenteado com vários outros, de gênero infantil. Serei eternamente grato e tratarei de contar isso para ele em breve. É uma pena que Rubem Braga não esteja mais entre nós para que eu possa lhe agradecer por me despertar o amor pela escrita. Nem quando eu li o livro seria possível, pois ele já havia morrido quando eu nasci.

Para escrever o texto, retirei da estante minha edição de ‘200 Crônicas Escolhidas’, que já está amarelada pelo tempo, para folhear. Não me lembro da última vez que fiz isso, tanto é que fiquei surpreso ao ver no sumário que eu havia marcado com um marca-texto amarelo, o título de vinte crônicas. Coisa que eu jamais faria hoje, pois não risco um livro nem que me paguem. Pelo título das crônicas marcadas, não consegui recordar se eram as que eu mais gostava. Isso eu vou descobrir em breve, pois pretendo relê-lo de cabo a rabo. Porém, achei estranho que a crônica que mais me marcou (pois me lembro dela até hoje) não estava sinalizada com marca-texto. Ela se chama ‘Rita’ e ironicamente se encontra na página de número duzentos desta edição – a reproduzi para vocês abaixo. Até a próxima, abraçaço.


RITA

No meio da noite despertei sonhando com minha filha Rita. Eu a via nitidamente, na graça de seus cinco anos.

Seus cabelos castanhos – a fita azul – o nariz reto, correto, os olhos de água, o riso fino, engraçado, brusco…

Depois um instante de seriedade; minha filha Rita encarando a vida sem medo, mas séria, com dignidade.

Rita ouvindo música; vendo campos, mares, montanhas; ouvindo de seu pai o pouco, o nada que ele sabe das coisas, mas pegando dele seu jeito de amar – sério, quieto, devagar.

Eu lhe traria cajus amarelos e vermelhos, seus olhos brilhariam de prazer. Eu lhe ensinaria a palavra cica, e também a amar os bichos tristes, a anta e a pequena cutia; e o córrego; e a nuvem tangida pela viração.

Minha filha Rita em meu sonho me sorria – com pena deste seu pai, que nunca a teve.

Janeiro, 1955

bibliofilia crônica

Peguei uma doença gravíssima. Atinge diretamente o financeiro, dói no bolso e deixa a consciência pesada. Não consigo lembrar quando começou. Quando dei por mim, estava assim. Logo eu, que durante boa parte da minha vida li livros emprestados dos amigos ou alugados em bibliotecas. Agora estou com essa mania de acumulação que chamam por bibliofilia crônica. Não tem cura, dizem. Espero que estejam enganados. Hoje, o número de livros não lidos em minha estante está bem próximo do número de livros já lidos. Em um curto espaço de tempo terei mais livros para ler do que leituras concluídas. A dependência é forte e só vai piorando com o passar dos anos. No início, nos contentamos com qualquer edição, depois passamos para o estágio de só querer uma edição específica, uma capa específica, uma tradução específica. Conforme a coleção vai crescendo, passamos a querer livros cada vez mais caros, as reedições em capa dura, os clássicos em edições de luxo, até chegar ao ponto de ansiar por raridades. Viramos ratos de sebo, verdadeiros desbravadores da Estante Virtual. Eu, por exemplo, já estou apresentando os primeiros sintomas desse último estágio da doença, se é que é o último. Algumas pessoas bem próximas a mim, outras nem tanto, estão ainda mais graves que eu. Nós doentes nos reconhecemos, nos abraçamos, nos reconfortamos, choramos juntos a mesma dor. Só um bibliófilo crônico entende o sofrimento que é salvar o endereço de uma página na Estante Virtual para comprar o livro depois e, ao voltar, constatar que ele foi adquirido por outra pessoa. Sempre fico imaginando quem foi que me causou tremenda dor. Será que é um bibliófilo também? Será que esse alguém comprou para presentear outro alguém que nem vai fazer tanta questão do livro quanto eu? Será que foi para um trabalho da universidade? Será que foi comprado sem maiores pretensões? No final, sempre prefiro acreditar que foi alguém como eu e que vai tratar o livro tão bem quanto. Só assim alimento esperanças dessa pessoa ser bem mais velha que eu, o que teoricamente aumentam as chances de ela morrer primeiro. Possibilitando, desta forma, uma nova oportunidade de adquirir o livro se o herdeiro ou a herdeira resolver se desfazer dele anunciando-o novamente na Estante Virtual. Essa agonia é bem semelhante à de ver determinado título na livraria e saber de imediato que jamais seremos um do outro. Mesmo assim prometemos, para nós mesmos e para o livro, que voltaremos para comprá-lo depois. Como se não bastasse, ainda tenho uma característica particular, ou não tão particular assim, de comprar títulos estranhos que eu mesmo nunca ouvi falar. São comprados pela intuição: um vigésimo terceiro sentido me diz que vou gostar. São escritos que eu sei que nenhum dos meus amigos gostaria de ler e que talvez até eu mesmo desgoste quando começar a folhear. Por mais tempo que eu passe sem comprar um livro novo, geralmente uma consequência da falta de dinheiro, sempre acontece uma recaída durante essas malditas promoções maravilhosas que nos permitem comprar bons livros a preços acessíveis, mas que mesmo assim nos deixam de cama, tamanha a tristeza por ainda não conseguir levar tudo. A cegueira é tão grande que nos sujeitamos a pagar um valor absurdo de frete – que daria para comprar outro livro – só para sustentar o vício. Algumas horas antes de escrever essas palavras eu tive uma recaída. Estava limpo há um mês. Sei que não é bastante tempo, mas havia prometido não comprar mais nada nesse ano. Agora é tarde para voltar atrás. Durante a próxima semana, sempre que eu estiver na rua e ver um carro dos Correios passando, irei imaginar se minha felicidade estará ali dentro rumo à minha rua, rumo à minha casa. Como quase sempre essas minhas encomendas chegam quando eu não estou presente, minha mãe é quem as recebe e as deixa sobre a mesinha de centro da sala. A mesinha deve ter meio metro de altura no máximo, mas será minha linha do horizonte sempre que eu chegar em casa. No momento passo bem, embora ainda esteja melancólico por não ter comprado todos os títulos que queria. Não posso prever quando será a próxima recaída, mas uma coisa é certa: os primeiros sintomas de abstinência vão surgir poucos minutos após retirar o invólucro dos livros novos e guardá-los na estante. Paciência.

nostalgia

Semana passada, estava eu deitado em minha cama, lendo, quando meu cérebro fez um download dos meus treze anos. O livro era ‘Doidinho’, de José Lins do Rego (1901-1957), um romance que estou lendo pela primeira vez e que tem como protagonista o garoto Carlinhos (também figura central de ‘Menino de Engenho’), apelidado nessa obra de Doidinho. O personagem está agora com doze anos de idade e até o final da história suponho que deva completar os treze – não sei, pois ainda não concluí a leitura. Porém, não creio que isso justifique a brincadeira que meu cérebro fez comigo. Sigo acreditando que foi apenas uma grande coincidência.

‘Doidinho’, publicado pela primeira vez em 1933, narra as experiências de Carlinhos como interno em um colégio severo. Mesmo aos doze anos, Carlinhos não é mais um garoto inocente, já tendo realizado até mesmo suas primeiras experiências sexuais – coisa que eu, aos treze, ainda nem sonhava em ter. Com essa idade eu estava fazendo outras descobertas, e a música era uma delas.

Foi aos treze anos que a música entrou de verdade em minha vida, ou seja, muito tarde. Antes disso, minha memória musical é quase nula. Pouquíssimas canções possuem o poder de me deixar com saudade da infância e as que conseguem isso constituem um pequeno número de sucessos do passado que inevitavelmente ouvi através da televisão. Algumas delas são músicas dos Mamonas Assassinas ou da Xuxa que, ao ouvir novamente hoje em dia, me fazem retornar imediatamente ao meu passado, me deixando imensamente feliz por terem sido essas as músicas que ouvi quando criança. Tenho pavor só de imaginar a possibilidade de ser criado ao som de Patati Patatá.

Em minha casa, tínhamos um aparelho de rádio que funcionou por pouco tempo, embora que, mesmo depois de quebrado, tenha sido deixado por meu pai anos e anos sobre a estante da sala. Só recordo de ouvir música nele uma vez, quando meu pai o sintonizou em alguma estação e minha irmã e eu, ainda muito pequenos, pulamos ao som de uma música que eu não lembro qual era.

Ainda aos treze anos, quando eu cursava a sétima série do ensino fundamental, redescobri a TV União. Eu já tinha conhecimento de sua existência, mas foi só nessa idade que me viciei nela. A programação do canal local era e ainda é quase que inteiramente dedicada à transmissão de videoclipes. Hoje, encaro de forma benéfica o fato de até essa época não ter construído nenhuma bagagem musical. Como meus pais não apreciam música, acabei crescendo sem ouvir nada, porém, tive a vantagem de não ter sido influenciado pelo gosto musical dos outros. Aos treze anos, era como se meus ouvidos fossem virgens. Eu haveria de descobrir por conta própria minhas preferências musicais, e foi justamente isso que aconteceu. Imediatamente descobri que o rock e eu estabeleceríamos um relacionamento para a vida toda.

O programa da TV União que eu mais gostava era um chamado Top Mais, que ainda existe. Nele são exibidos os dez videoclipes mais pedidos na programação. Eu simplesmente adorava. Era transmitido das onze da manhã ao meio dia, de segunda a sábado, pois no domingo eles faziam um especial. Os telespectadores enviavam cartas com os seus dez videoclipes favoritos e, em cada domingo, eles sorteavam um felizardo que teria seu pedido atendido. Escrevi várias cartas, mas nunca cheguei a enviar, pois era incapaz de selecionar apenas dez videoclipes. Depois de algum tempo, o programa mudou de horário, passando a ser transmitido do meio dia às treze horas da tarde, o que complicou para o meu lado. Eu estudava no turno da tarde e a aula começava justamente às treze horas. Depois dessa mudança, eu só conseguia assistir do décimo ao quarto colocado e saía correndo para o colégio. Perdia o pódio com os três mais votados. Entretanto, minha melhor amiga na época morava perto do colégio e conseguia assistir tudo. Ela sempre me contava o que eu havia perdido quando nos encontrávamos na aula. Atualmente, não sei mais qual o horário exato do programa e nem se continuam fazendo esse especial aos domingos.

A banda Luxúria foi a primeira que considerei como favorita em minha vida. O videoclipe da música ‘Imperecível’ ficou por muito tempo entre os mais pedidos da programação. Depois lançaram ‘Lama’, que, juntamente com ‘Ódio’, foram suas músicas mais conhecidas – pois tocaram em novelas. Pouco tempo depois, a banda acabou e a vocalista, Megh Stock, seguiu em carreira solo. Megh chegou a lançar dois álbuns: ‘Da Minha Vida Cuido Eu’, em 2009, e ‘Minha Mente Está em Seu Caos’, em 2011. No entanto, ela está longe dos palcos desde então e sem previsão de volta. As músicas do Luxúria, bem mais do que as dos discos solos de Megh, são muito nostálgicas para mim. Foram elas que, na semana passada, baixaram repentinamente em meu cérebro durante a leitura de ‘Doidinho’. No momento em que isso aconteceu, interrompi a leitura e fui assistir aos videoclipes da banda pelo celular. Quanta saudade!

Luxúria não passou muito tempo no posto de minha banda favorita. Logo ela seria substituída por outras conforme fui descobrindo grupos melhores e com sons mais pesados, porém, nesse curto espaço de tempo, eu me lembro de ter tido aulas com uma excelente professora de geografia que também era roqueira. Ela tinha uns quarenta anos (ou menos) e usava sempre lentes de contato coloridas, embora as vermelhas e as cinzas fossem as que ela usasse com mais frequência. Certo dia, perguntei-lhe se conhecia a banda Luxúria e ela respondeu que não, mas que já tinha ouvido falar e que queria experimentar seu som. Prometi então de lhe gravar um CD com o único álbum da banda lançado em 2006, mas ela acabou saindo do colégio antes que eu lhe entregasse o presente. Meses depois, nos chegava a notícia de que ela havia morrido de overdose. Quem nos contou foi um colega de sala que era vizinho dela. Fiquei muito triste quando soube.

Ouvi muito os discos solos de Megh também, mas isso foi no período em que eu cursava o ensino médio, já na adolescência. Ainda existia o programa de mensagens instantâneas do MSN. Praticamente todos os amigos virtuais que fiz são dessa época. Hoje, o Skype cumpre bem a função do seu antepassado que, convenhamos, era uma bagunça, embora eu veja com saudosismo as funções de chamar atenção e saber o que os amigos estão ouvindo. Estou falando disso porque existia algo no MSN chamado subnick, mais conhecido como “digite sua indireta aqui”. Todo mundo colocava letras de músicas com a ilusão de encobrir a verdadeira intenção da mensagem e todos fingiam que acreditavam. Nós passávamos vergonha e nem sabíamos. Eu adorava usar trechos de músicas da Megh: “não apodreça, ninguém vai reparar”, “mas o que você me faz me dando todos os sinais de que agora eu acertei?”, “daria um pedaço do meu medo pra saber se você tem coragem”, “se eu me escondo aqui nesse lugar tranquilo não se esqueça que pro caos eu tô partindo”. Quem nunca? Faz só três anos que o MSN desativou seu programa de mensagens instantâneas, mas por eu ter deixado de usá-lo antes mesmo do fim, tenho a sensação de que foi há um século.

O meu eu roqueiro de anos atrás não veria com bons olhos o também fã de Tropicália e MPB de hoje. Há anos que eu não ouvia Luxúria e Megh Stock – se não fosse essa lembrança repentina, talvez passasse muitos outros anos sem ouvir novamente. Escrevi esse texto ouvindo essas canções. Elas, juntamente com muitas outras, marcaram minha adolescência que, ao contrário da infância, foi extremamente musical. Gostaria, inclusive, que Megh gravasse um disco novo e voltasse a fazer shows. Eu, que nunca tive a oportunidade de vê-la ao vivo, iria adorar.

Um detalhe é que essa revisitação me serviu para descobrir que eu cantava a letra de ‘Dúvidas’ errado. No trecho “muitas vezes eu te desviei da meta” eu sempre cantei “muitas vezes eu te desviei da merda”. Essa não foi a única: eu também cantava ‘Lama’ de forma errada, já que no trecho “tira essa lama das botas” eu cantava “tira essa lama das portas”. No entanto, o erro de ‘Lama’ eu descobri bem lá no início, na adolescência mesmo. Confesso que prefiro minha versão errada de ‘Dúvidas’. Enfim, vou encerrar por aqui porque ‘Doidinho’ não vai terminar de se ler só. Até a próxima, abraçaço.

eutanásia literária

Como vocês devem saber, existem duas maneiras de se assistir a um filme: a primeira, inconscientemente praticada por quase toda a população, é mergulhando de tal forma na história, a ponto de se esquecer de estar vendo um vídeo; a segunda, mais comum entre profissionais de cinema, é permanecendo o tempo todo consciente de estar assistindo a uma produção cinematográfica e reparando em todos os detalhes técnicos, como atuação, enquadramento, fotografia, roteiro, som, continuidade, etecetera, etecetera. Há quem faça uma mescla, mas uma das formas sempre se sobressai. Ambas, no entanto, me proporcionam um enorme prazer e, até quando a estória é triste, a experiência se torna deleitosa. A primeira forma era a minha maneira de ver filmes antes de começar a estudar cinema e realizar minhas próprias produções. Não consigo voltar a ver filmes como antigamente e nem faço muita questão, já que adoro saber ou imaginar o que acontece por trás das câmeras. Desse modo, não sofro quando um filme acaba (não que sofresse antes, pois sempre anseio pelo final).

Com a literatura ficcional, entretanto, é tudo diferente. Embora eu escreva, só sei ler de uma única forma: me sentindo psicologicamente parte da comunidade protagonista do livro. Em vista disso, concluir boas leituras, às vezes, pode ser um verdadeiro martírio. Diferentemente de um filme, que ocupa em média duas horas do meu tempo (e que vejo de fora, sem o mesmo envolvimento com os personagens e ações principais), os livros me exigem no mínimo uma semana, isso se tratando dos mais curtos, visto que meu ritmo de leitura é lento. Porém, uma semana é tempo suficiente para que eu me envolva com tal força, que é inevitável não me sentir triste ao me despedir do texto.

A relação com o impresso é tão intensa que, a nível de comparação, raramente fico triste com a morte de personagens em filmes (talvez por gostar muito de ver mortes cinematograficamente bem realizadas), mas dependendo do livro e do personagem, sofro demais. Quando a morte ocorre muito antes do fim, além da perda em si, é triste encarar o restante da jornada imaginando a ausência do personagem nas páginas seguintes. Todavia, com ou sem morte, o difícil mesmo é finalizar a leitura de um bom livro e dizer adeus àquele companheiro de dias, semanas ou até meses. Não foram raros os momentos em que desacelerei a leitura propositalmente para permanecer mais tempo com certa história, o que também ocorre com narrativas biográficas e livros de poesia. Concluir a leitura de séries então é uma verdadeira tortura. Li poucas, mas sempre comecei todas muito ansioso por terminar e, ironicamente, ao me aproximar dos últimos volumes, sempre tratava de sabotar o fim lendo outros títulos. Por multiplicar em várias a dor do término de um livro, as séries foram perdendo espaço na minha estante. Hoje, só restam duas ainda não lidas na prateleira e sem a menor previsão de início. A última série que li foi concluída em dois anos. No primeiro ano li 80% dela e deixei apenas dois volumes para o ano seguinte, que foram intercalados por dezenas de leituras a fim de não abreviar sua vida.

Procurando explicações, suponho que a imaginação seja o segredo por trás de todo esse envolvimento. Não querendo contrapor cinema e literatura (justamente porque, ao fazê-lo, cometo uma enorme injustiça para com os dois lados e suas importâncias artísticas, estéticas e políticas), mas inevitavelmente já comparando, é preciso reiterar o que todos já sabem: no cinema, as imagens estão dadas, digamos assim, enquanto que, na literatura, por mais detalhista que seja o escritor, intencionalmente ou não, ele sempre deixará espaços. Logo, não havendo imagens para preencher esses “vazios”, cada pormenor só ganha vida na nossa idealização. No vídeo, embora cada um também possa interpretá-los ou estima-los à sua maneira, os personagens são visualmente iguais para todos. Para cada livro, concebo os personagens da minha forma e até crio vozes diferentes para cada um deles. Não importa quantas pessoas leiam o mesmo título, cada uma delas fantasiará a história de forma singular e, consequentemente, isso fortalece muito a minha relação com o texto.

Com o tempo, fui desenvolvendo estratégias capazes de amenizar o luto de uma eutanásia literária. Passei a ler muitos livros ao mesmo tempo e estabeleci três como número mínimo, mas tenho há muito mantido uma média de cinco leituras simultâneas. Gerenciando bem esses livros, é possível passar por um padecimento por vez, mas continua sendo difícil, para mim, matar uma história lendo o último capítulo. Só livros muito bons causam esse impacto, mas a sensação de folhear a última página, sabendo que depois não tem “mais”, é demasiado amarga. Porém, as outras leituras em andamento funcionam como um conforto, o que me permite não cair em jejum entre um título e outro. No amor, substituir um(a) ex por um novo relacionamento com a intenção de sarar o namoro anterior nunca funcionou comigo, mas posso garantir que nada melhor para curar uma ressaca pós-leitura do que outro porre literário.

saindo do livro/filme

Sabe quando você lê várias páginas de um livro e depois se dá conta de que não entendeu nada? Isso geralmente acontece, pelo menos comigo, quando se está com a mente muito cheia. Não importa se são pensamentos bons ou ruins, o fluxo excessivo deles me atira fora do livro. Por esse motivo, tento esvaziar ao máximo a mente antes de ler, algo que não é fácil, sobretudo para quem, como eu, lê todos os dias. Diferentemente de quem o faz esporadicamente e retira um bom momento para isso, geralmente um dia de folga, eu leio sempre que tenho um tempinho livre menor que duas horas (porque se esse tempo for maior ou igual a duas horas, eu prefiro ver um filme).

Sendo detentor de uma crise existencial crônica que me faz sofrer por saber que tenho cada vez menos tempo para ler e assistir ao que quero, não posso me dar ao luxo de passar por várias páginas sem entender nada e ter que voltar a leitura. Então se estou triste, ou acabo de realizar um grande feito que me cause muita euforia, eu sei que não posso pegar nos livros. Não adianta, não consigo.

No entanto, ler todos os dias de alguma forma me ajudou a combater isso. Afinal, como se não bastasse a rotina pesada, estamos sempre lidando com problemas, imprevistos, aborrecimentos e todo tipo de mazelas que nos são reservadas sempre que levantamos da cama toda manhã. Entretanto, consigo manter minhas leituras diárias e poucas vezes ela é comprometida pelos acontecimentos que vivencio.

Lembro-me de uma ocasião em que eu estava doente. Não rememoro exatamente o que eu tinha, mas nesse determinado dia eu estava sofrendo com enjoos. Para me distrair, adivinha o que eu fui fazer? Isso mesmo, ler! Ler quando se está doente não é uma boa ideia. Por que diabos eu fui inventar de fazer isso? Se você Leitor, está pensando que deu merda, acertou novamente. Eu não vomitei no livro, que fique bem claro, mas depois que fiquei curado, toda vez em que eu o pegava para ler, eu me sentia enjoado. Claro que isso foi um dano psicológico que me fez assimilar aquele livro ao momento ruim que tive. Essa nossa mente nos prega peças que a gente nem imagina que ela é capaz, a minha então, vive testando minha paciência. O que posso dizer é que concluir o livro foi um processo bastante difícil. Ademais, se tem uma coisa que eu aprendi é nunca mais ler estando doente. O livro merece o meu melhor, minha máxima dedicação. Se não posso oferecer isso a ele, eu que encontre outra forma de lazer.

Contudo, essas linhas nasceram porque não tive um bom dia. Com a mente atolada em pensamentos ruins, fui ver um filme. Tenho tentado cumprir minha meta cinematográfica à risca. Não adianta marcar os filmes como “quero ver” no meu perfil no Filmow que isso não vai fazer que eles sejam assistidos. É preciso meter a cara e vê-los de fato, mas vocês sabem que tudo o que falei até aqui sobre os livros também pode se aplicar aos filmes. Como entrar em um filme talvez seja o processo mais importante de uma experiência cinéfila, é preciso estar bem ao assistí-lo. Se você está cansado, sonolento, com fome, com sede, irritado, com muito calor, com vontade de ir ao banheiro, numa cadeira desconfortável, numa sala barulhenta, tudo isso pode (e vai) influenciar negativamente na sua experiência fílmica. Muitas vezes, se não gostamos de um filme, a culpa é nossa ou das condições em que nos encontramos. Cabe a nós reconhecer isso e assisti-lo novamente para ver se é mesmo ruim como havíamos julgado.

Há todo um ritual antes de começar a ver o filme, de fato. É preciso se preparar, estar bem, confortável, alimentado. É preciso ir ao banheiro antes de iniciar a projeção. Se você vai ao cinema então o ritual é ainda maior. Escolher uma roupa confortável para suportar o frio do ar-condicionado, levar sua garrafa com água e talvez o mais importante: chegar cedo. Entrar na sala de projeção depois que o filme começou devia ser crime com pena de morte. É ruim para quem chega atrasado, pois deve ter corrido, está suado, irritado porque perdeu o início, e ruim para quem cumpriu corretamente todo o ritual e chegou cedo, pois vai ter a atenção roubada pelo filho da puta que vai passar na sua frente procurando uma cadeira para sentar. Infelizmente, para muitas pessoas, cinema é apenas um motivo para sair de casa, comer pipoca e beber um litro de refrigerante. Em vista disso, não frequento mais cinema de shopping e, mesmo assim, ainda passo por infortúnios, embora numa escala muito menor.

No início de janeiro desse ano fui ver um filme no cinema. Cheguei bem cedo e a bilheteria demorou muito para abrir. Quando abriu, já estava quase na hora do filme iniciar, o que fez com que a sessão atrasasse. Já na sala de projeção, sentado, o lanterninha entra e nos avisa que houve um problema com a cópia do filme, informando que todos ali poderiam receber o dinheiro de volta e, quem quisesse, poderia continuar na sala para a exibição de outro filme. Como eu já tinha saído de casa e não queria voltar sem ter feito nada, decidi por ver o outro. Pois bem, quando já devia ter passado uns trinta minutos desde o início da sessão, a projeção foi interrompida por um problema técnico, que deve ter demorado em torno de cinco a dez minutos para voltar (não tenho noção exata do tempo que demorou). Até aquele momento, já havia acontecido de tudo que atrapalhasse minha experiência com o filme. A sessão começou atrasada e não era o filme que eu queria ver (qual não foi a minha frustração por sair de casa para ver um filme a acabar vendo outro). Todos esses problemas deveriam ter prejudicado minha imersão, mas não. Estava tão determinado a ver o filme que consegui imergir nele mesmo depois de todos os ocorridos. Quando a projeção foi interrompida e eu “saí do filme”, achei que não conseguiria voltar para ele, o que acredito que aconteceu com as outras poucas pessoas que estavam na sala, já que, depois do ocorrido, elas se mostraram muito dispersas e irrequietas. É como uma viagem que foi interrompida porque o carro quebrou ou uma leitura em que você está completamente absorto, mas tem que imergir para o mundo real porque sua mãe te pediu para ir comprar pão. No mais, quando o problema foi resolvido e o filme voltou a ser projetado, inexplicavelmente eu consegui voltar para ele e imergir novamente. Quando acabou, eu havia visto um dos meus filmes favoritos, mas certamente não gostaria de passar por tudo aquilo novamente. Foi a única vez em que tal coisa aconteceu comigo e, para que se mantenha especial, espero que não aconteça de novo.

Sair do filme é tão comum quanto sair de uma leitura. É preciso dizer também que nem sempre é nossa culpa. Se ficarmos conversando, acessando alguma coisa pelo celular ou até mesmo comendo durante uma projeção, claro que a culpa é nossa. Entretanto, por mais concentrado que o espectador esteja, sempre corre o risco de ser distraído pelos pensamentos involuntários. Isso acontece até mesmo quando estou escrevendo. Muitas vezes já sonhei acordado diante da tela do computador e só depois de alguns minutos é que me dei conta de que estava escrevendo e que precisava concluir o texto. Dessa maneira, tento não ver muitos filmes na TV aberta. Arrisco afirmar que me considero um cinéfilo profissional, sabendo depositar muita concentração ao filme que está sendo exibido na minha frente, mas confesso já ter sido atacado por pensamentos involuntários diante de um filme da TV. Na ocasião, lembro-me de ter pegado o controle do DVD achando que podia voltar a cena, descobrindo então que tal ação não era possível. Sou consciente de que perder dois segundos de filme pode ser o suficiente para causar um grande estrago de interpretação.

Como lhes confidenciei acima, não tive um dia tão bom e estava agora a pouco vendo um filme, quando me dei conta de que haviam se passado quatro minutos e eu não havia entendido nada. Era como se eu tivesse me ausentado completamente nos últimos quatro minutos de projeção. Tive que voltar e mais uma vez saí do filme. Há uma semana, mais ou menos, comecei a escrever num diário coisas que me acontecem (geralmente coisas ruins). Nesse processo, descobri o quanto fico mais leve depois de jogar meus problemas no papel. É quase como se eles ficassem dentro do caderno. Já havia lido bastante que escrever sobre experiências traumáticas pode ajudar a superá-las. Não que eu tenha tido experiências traumáticas, mas tenho usado a mesma filosofia para problemas pequenos e tem dado certo. Assim sendo, resolvi escrever para conseguir voltar aos meus afazeres, entre eles terminar o filme. Como o texto ficaria muito grande para uma página diária no caderno e como eu também não queria ter de escrever tudo isso à mão, resolvi publicar aqui mesmo. Se isso vai resolver o problema, eu não sei, mas valeu a tentativa. De toda forma, estou indo lá (tentar) concluir o filme. Ficar escrevendo sobre ele também não vai fazer com que ele se assista sozinho. Até a próxima, abraçaço.

os dez melhores livros que li em 2015

Saímos de 2015, mas 2015 não saiu de nós. Mesmo que você, Leitor, não tenha realizado grandes feitos em sua vida nesse ano que se passou (esse foi o meu caso), assim como eu, viu muitas coisas acontecerem no nosso país e no mundo. Grandes ídolos morreram, grandes filmes e discos foram lançados. Novos escândalos de corrupção vieram à tona, ataques terroristas foram realizados, aconteceram diversos eventos esportivos, eventos culturais e festivais de música. Vivemos para ver tudo de bom e de ruim que ocorreu no ano passado. Seja com esses eventos globais ou especificamente localizados, 2015 fará para sempre parte da nossa tragetória, afinal, passamos por ele e estamos aqui para contar a história. Trata-se de um ano que particularmente me marcou pelas leituras que fiz. O conhecimento adquirido no ano passado é algo que vai continuar comigo para o resto da vida, algo que ninguém pode me tirar. Parece um tremendo clichê, mas é verdade. Também foi o ano em que mais li na minha vida: quarenta e seis livros, um total de onze mil novecentas e cinquenta e oito páginas, com média de trinta e três páginas por dia segundo meu perfil no Skoob. Infelizmente, não contei as páginas dos livros para saber se esses números estavam corretos (afinal, sou de humanas), mas resolvi escrever um post sobre os dez melhores livros que li ano passado. São eles, em ordem alfabética:

Discos

Título: Discos
Autor: Arnaldo Cohen, Céline Imbert, Eduardo Giannetti, Lia Rodrigues, Luiz Tatit, Marcelo Coelho, Tom Zé
Primeira publicação: 2003
Minha edição: PubliFolha

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‘Discos’ era um livro que tinha na minha estante já fazia certo tempo, mas que só ano passado resolvi ler. Achava que não ia gostar da leitura, mas me enganei redondamente. O livro me fisgou logo na primeira página. Nele, sete autores dissertam sobre os dez discos que levariam para uma ilha deserta. Sou apaixonado por listas, por isso devo ter gostado tanto de ler algumas feitas por pessoas que admiro, sem contar que, ao longo dos seus mais de setenta capítulos, acaba se tornando um ótimo livro para se pegar dicas de discos para ouvir. Este também foi o livro que me fez conhecer o grande Luiz Tatit. Falei sobre isso em um dos primeiros posts do Satãnatório: o ‘eterno ignorante, parte 1’.

Elite da Tropa

Título: Elite da Tropa
Autor: Luiz Eduardo Soares, André Batista, Rodrigo Pimentel
Primeira publicação: 2005
Minha edição: Objetiva

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Gosto muito do filme ‘Tropa de Elite’ (2007), do diretor José Padilha, e admito que esse livro chegou até mim graças à sua adaptação cinematográfica. No princípio, não tive vontade nenhuma de ler ‘Elite da Tropa’, pois acreditava que devia ser muito parecido com o longa-metragem. Todavia, depois de saber que muitos detalhes são diferentes na obra impressa, decidi ler e me surpreendi. Constatei que, de fato, neste caso, livro e filme parecem ser duas coisas totalmente distintas, incluindo aqui a estrutura narrativa. O escrito está dividido em duas partes. A primeira conta histórias sobre o Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), considerado um esquadrão de elite na Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Baseado em relatos reais de ex-policiais do BOPE, o livro mostra os oficiais como uma tropa aparentemente incorruptível e extremamente violenta. Desse momento inicial foram retirados os personagens do filme e algumas histórias que o compõe. Contudo, a segunda parte, que fala sobre o plano para assassinar Leonel Brizola, na época governador do Rio de Janeiro, é o suprassumo do livro, e nada disso está no longa. Esta outra seção com certeza daria um excelente roteiro se fosse adaptado para o cinema. Já havia falado da minha edição do livro no post ‘livros sebosos’.

Encontros Tom Zé

Título: Encontros – Tom Zé
Autor: Tom Zé, Heyk Pimenta
Primeira publicação: 2011
Minha edição: Azougue

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Primeiro tenho que contar como encontrei essa pérola. Jorge du Peixe, vocalista da Nação Zumbi, publicou uma foto do livro em seu perfil no Instagram com a seguinte legenda: “Livrinho fuderoso da coleção Encontros. Entrevistas antológicas com Tom Zé, o mestre dos mestres e punk mais original do Brasil.” Dias depois, eu já estava com o livro em mãos e me segurando para não ler de uma só vez. Sempre fico triste após terminar de ler uma boa publicação por completo. Quando mais tempo eu convivo com o livro, melhor. Mesmo assim, terminei logo, tanto por ser curto, quanto por ser sobre Tom Zé. Tenho que concordar com du Peixe, o livro é mesmo fuderoso.

Estação Carandiru

Título: Estação Carandiru
Autor: Drauzio Varella
Primeira publicação: 1999
Minha edição: Companhia das Letras

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Esse foi outro livro que cheguei através de um filme: ‘Carandiru’ (2003) de Hector Babenco. A obra de Drauzio Varella é um dos poucos casos em que um sucesso editorial, verdadeiro fenômeno de vendas realmente vale a pena ser lido. Vencedor do Prêmio Jabuti em 2000 na categoria Livro do Ano de Não-Ficção, a publicação conta a experiência de Varella como médico voluntário, a partir de 1989, na Casa de Detenção de São Paulo, onde realiza atendimento em saúde, especialmente na prevenção da AIDS. No post ‘livros sebosos’ também falei sobre a minha edição desse livro.

O Centauro no Jardim

Título: O Centauro no Jardim
Autor: Moacyr Scliar
Primeira publicação: 1980
Minha edição: Companhia de Bolso

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Esse foi meu primeiro livro de Moacyr Scliar, constituindo o suficiente para que eu me tornasse um grande admirador da sua escrita criativa. A obra mistura elementos fantásticos em uma trama muito instigante, contando a estória do centauro Guedali, um ser metade homem, metade cavalo. O blogue 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer fez uma excelente resenha sobre esse livro.

O Guarani

Título: O Guarani
Autor: José de Alencar
Primeira publicação: 1857
Minha edição: Martin Claret

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Meu primeiro contato com a história do livro veio com a ópera de mesmo nome do compositor Carlos Gomes e depois com o filme ‘O Guarani’ (1996), da diretora Norma Bengell. Anos depois, minha irmã ganhou um exemplar do romance, que acabou me dando por não gostar. Eu também acabei o abandonando por não conseguir me envolver com o enredo. Entretanto, no ano passado, resolvi dar mais uma chance a ele e acabei me apaixonando, principalmente por sua parte final. Assim que concluí a leitura, assisti a outra versão cinematográfica do livro, ‘O Guarani’ (1979), do diretor Fauzi Mansur, que supera a outra produção citada. A primeira adaptação do livro para o cinema aconteceu em 1912, em um filme mudo hoje considerado perdido.

O Que é Isso, Companheiro?

Título: O Que é Isso, Companheiro?
Autor: Fernando Gabeira
Primeira publicação: 1979
Minha edição: Companhia de Bolso

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Mais um livro que cheguei através de um filme, dessa vez foi ‘O Que é Isso, Companheiro?’ (1997), do diretor Bruno Barreto, que representou o Brasil no Oscar de 1998, sendo indicado ao prêmio de melhor filme estrangeiro. Até pouco tempo atrás, eu evitava ler livros que eram adaptados para o cinema, tentando focar em histórias que eu ainda não conhecia. Ainda bem que parei com isso, até porque o filme de Barreto é inspirado apenas no 15° capítulo do livro de Gabeira, o trecho que diz respeito ao sequestro do embaixador norte-americano. O livro é um ótimo depoimento sobre quem viveu na pele o terror da ditadura militar brasileira. Super indico a obra para os politicamente alienados que saíram às ruas no ano passado pedindo a volta do regime militar. O blogue 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer também fez uma ótima resenha sobre ele.

O Réu e o Rei

Título: O Réu e o Rei
Autor: Paulo Cesar de Araújo
Primeira publicação: 2014
Minha edição: Companhia das Letras

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Se não me engano, esse é o maior livro dessa lista e o que li mais rápido. Eu já sabia como terminava a história de Paulo Cesar de Araújo com Roberto Carlos, mas queria saber os detalhes. No livro, o autor fala sobre a polêmica proibição de seu livro anterior, a biografia ‘Roberto Carlos em Detalhes’. ‘O Réu e o Rei’ não é uma nova biografia sobre o cantor, mas sim um relato sobre a relação do autor com Roberto. Durante a leitura ainda ficamos conhecendo a história de amizade entre Paulo Cesar de Araújo e João Gilberto, sem dúvida a maior surpresa do livro.

Secreções, Excreções e Desatinos

Título: Secreções, Excreções e Desatinos
Autor: Rubem Fonseca
Primeira publicação: 2001
Minha edição: Companhia das Letras

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Esse foi meu primeiro livro lido em 2015. É um compêndio de contos e constituiu meu segundo título de Rubem Fonseca, depois de ‘O Caso Morel’. Com essa obra, rapidamente descobri porque ele é considerado um dos melhores contistas deste país. O primeiro conto da coletânea, ‘Copromancia’, se tornou um dos meus textos favoritos e, assim como todos os outros que a compõe, a cada parágrafo lido, eu imaginava como ficariam ótimos se fossem adaptados para o cinema.

Tropicalista Lenta Luta

Título: Tropicalista Lenta Luta
Autor: Tom Zé
Primeira publicação: 2003
Minha edição: PubliFolha

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Mais uma vez um livro do Tom Zé! Este, por sua vez, merece destaque por considerado sua biografia. ‘Tropicalista Lenta Luta’ tem capítulos escritos pelo próprio cantor e compositor, contando sobre sua infância em Irará, acerca de sua formação e ida a São Paulo, discutindo o ostracismo e muitas outras curiosidades de sua vida. Ademais, esses capítulos são curtos e não se aprofundam o suficiente como as biografias convencionais (embora não sejam superficiais, pois Tom Zé nunca é superficial naquilo que escreve). Grande parte do livro é formada pelas letras de seus discos, contendo também cartas e uma extensa entrevista concedida a Luiz Tatit e Arthur Nestrovski. Trata-se de um livro indispensável para aqueles que, como eu, são grandes fãs do Pai da Invenção. Citei esse livro no post ‘vinte e três’ e foi também uma parte dele que me inspirou a escrever o texto ‘meu útero’.

E então, caríssimo Leitor, já leu algum desses livros? Gostou? Não gostou? Pretende ler algum? Me conta!