irrealidade virtual

Um conselho sincero: você pode iniciar a leitura desse texto a partir do nono parágrafo sem maiores prejuízos.

Muitas coisas me aconteceram em janeiro, inclusive alguns infortúnios envolvendo meu computador e a internet. Os problemas que tive com o computador nem me deram tanta dor de cabeça quanto os que tive com a internet, mas todos aconteceram ao mesmo tempo em uma semana cheia de compromissos em que eu iria precisar muito do acesso de ambos.

Certo dia, desembarquei do ônibus em uma parada localizada a quatro ruas antes da minha casa para poder caminhar um pouco como faço quase sempre. Logo que desci, ouvi um burburinho na rua de pessoas comentando estarem sem energia elétrica em suas residências. Fiquei tranquilo, pois imaginei que, como ainda estava longe de casa, a falta de energia com certeza não estaria atingido a rua onde moro e, consequentemente, o meu lar. Na rua seguinte, mais pessoas comentavam nas calçadas umas com as outras sobre a falta de energia. Então, durante o trajeto das duas próximas ruas, apurei bem os ouvidos na tentativa de ouvir algum som ligado, o barulho de alguma TV ou até mesmo de um liquidificador. Nada.

Chegando em casa, constatei que a falta de energia era no bairro inteiro e fiquei tranquilo, pois quanto mais ruas são atingidas, maiores são as chances do problema ser solucionado com rapidez. Bebi um copo com água, tirei a roupa e, quando ainda estava debaixo do chuveiro, a energia elétrica voltou. No entanto, não me preocupei em momento algum. Se a falta de energia durasse a tarde inteira, eu sabia muito bem o que fazer: ler. Se no começo da noite ainda estivesse faltando energia, eu dormiria e acordaria durante a madrugada para fazer as coisas que deveria ter feito mais cedo e que necessitavam de eletricidade, isso se ela tivesse voltado – caso não, eu continuaria dormindo na tentativa de diminuir o sono acumulado que eu jamais conseguirei recuperar.

De toda forma, fiquei lendo durante a tarde toda. Como costuma acontecer aqui em casa, quando há quedas de energia, a internet demora um pouco a voltar. Dessa vez, não foi diferente. Quer dizer, foi. Horas depois, a internet ainda não havia voltado e eu saberia que não voltaria mais até receber a visita de algum técnico. Havia chovido forte na noite anterior. Quando acordei, percebi, ainda antes de sair de casa, uma poça de água no chão do quarto, próxima ao computador. Olhei para o teto à procura de alguma mancha de água no forro, mas não havia nada. Desconhecia completamente a origem da poça misteriosa. Fiquei preocupado e corri para ver se meus livros estavam molhados, mas encontrei-os sequinhos. O wi-fi também estava funcionando, o que me levou a crer, mais tarde, quando eu cheguei em casa, que a queda de energia era, de fato, a responsável por ter causado o problema – eu iria descobrir depois que estava enganado.

Liguei para o serviço de atendimento e agendei uma visita com um técnico. Deram-me o prazo de até quarenta e oito horas para solucionar o problema. Em qualquer época do ano, ficar dois dias sem acesso a rede mundial de computadores para mim não é nenhum sacrifício. Entretanto, eu iria filmar um documentário em poucos dias e dependia da internet para fechar todo o cronograma com a equipe, além de fazer umas pesquisas de última hora. Felizmente, o técnico veio no dia seguinte e resolveu tudo. Foi quando eu descobri a origem da água.

Minha internet era à rádio e a água vinha de dentro do cabo que era conectado na torre que ficava em cima da casa. Como a água entrou nele eu ainda não iria ficar sabendo. O técnico retirou a água do cabo e me perguntou se havia ocorrido alguma queda de energia. Respondi que sim e, como eu, ele diagnosticou erroneamente o problema: com a queda de energia, o moldem havia se desconfigurado. Ele reconfigurou tudo e foi embora. Usei a internet normalmente durante o resto do dia e fui dormir. Choveu a noite toda. Ao acordar, a primeira coisa que percebi ao levantar da cama foi o chão mais uma vez molhado com uma poça de água ainda maior que a anterior. A internet estava funcionando normalmente, mas minutos depois ela parou de vez. Eu teria então que resolver tudo com a equipe de filmagem por telefone.

Por falar em telefone, gastei todos os créditos do celular em outra ligação para a central de atendimento. Além de pedir que solucionassem o problema, solicitei a troca da internet à rádio por uma de fibra óptica. Dessa vez, não tive o mesmo fortúnio de antes, pois o técnico só veio no limite das quarenta e oito horas. Ao retirar de cima da casa a torre que capta o sinal, o técnico descobriu um pequeno buraco no cabo, por onde a água entrou e desceu até o meu quarto. Segundo a perícia que ele fez, era a água que estava danificando o cabo e desconfigurando o sinal.

Depois desse dia, não houve mais queda de energia, a internet não voltou a cair, a água não visitou mais meu quarto (embora tenha chovido bastante desde então), e a filmagem aconteceu normalmente. Porém, se você leu até aqui, desde já gostaria de me desculpar por não ter sido mais sucinto – esse é um talento que eu definitivamente não possuo. Dessa forma, tudo o que foi escrito até agora, por mais que tenha consumido metade do corpo do texto, é o que podemos chamar por introdução.

Tudo isso pode não fazer nenhum sentido, mas após esses acontecimentos banais fui acometido por algumas pequenas reflexões. Não é de hoje que a vida virtual vem me preocupando. Já é um fato que a internet está matando em escalas maiores ou menores o consumo de discos físicos, DVDs, livros, entre outras coisas. É possível baixar tudo isso quase sempre de graça, o que ajudou a democratizar o acesso a muitas obras de arte. No entanto, agora é a cultura do download que está sendo morta pelos serviços de streaming.

Nunca gostei de streaming. Quando ele ainda não era moda, grande parte das bandas que curto, disponibilizavam, muitas vezes gratuitamente, seus discos para download. Isso vem deixando de acontecer. Essas mesmas bandas que liberavam seus álbuns agora simplesmente os lançam no Spotfy. O site é bom, admito. Tem, inclusive, me ajudado muito a ouvir os lançamentos dos meus artistas favoritos. O preço a pagar para me ver livre dos anúncios é pequeno, mas não é isso o que eu desejo. Eu quero é ter as músicas no meu computador e no meu celular sem que eu precise ser refém de um wi-fi para ouvi-las, nem que eu tenha que pagar por isso. Quero poder enviá-las para amigos quando me pedirem dicas de músicas, quero poder reproduzi-las no carro e poder levá-las para onde eu for.

Não consumo os dados móveis da minha operadora de celular. Adoto uma filosofia de que nada na internet é tão importante assim para que eu precise dela quando não estou em casa. Quase todos os lugares que frequento possuem acesso a wi-fi, então, tecnicamente, só fico sem internet quando estou na rua me locomovendo de um lugar para o outro. Se estou em um ônibus, prefiro adiantar minhas leituras. Nada é tão urgente que não possa esperar. Se for algo muito sério, alguém vai me ligar.

Também não assino Netflix. O catálogo de filmes, segundo o que meus amigos me falam, não é tão sedutor assim. Não estão lá os filmes que gosto de assistir. Concordo que é bem mais prático fazer um login e assistir a um filme, ao invés de ter que pesquisar na internet e ainda esperar o download terminar – o que às vezes pode demorar bastante. Sem contar a caça por legendas. Sinto que o download de filmes tem caído ainda mais do que o de músicas. Está cada vez mais difícil encontrar torrents ou até mesmo outras formas de download. A pirataria de internet é um assunto complicado, mas qual a outra forma disponível para assistir filmes que não chegam às salas de cinema? Nem estou falando tanto dos filmes estrangeiros, mas do próprio cinema brasileiro mesmo. Só porque não há uma grande procura por determinados títulos, nenhuma empresa se preocupa em vendê-los. Devo me conformar em não assisti-los? É isso que devo fazer? Sinto muito, mas me recuso a proceder assim.

É infinitamente melhor não ter que ocupar a memória do celular ou do computador com músicas e filmes. Todavia, existem os pendrives, que são absurdamente pequenos, e os HDs externos, que muitas vezes são menores que muitos celulares de hoje em dia. O que não dá para aceitar é a segregação dessas obras. Estamos correndo um grande perigo, pois nem tudo está no Spotify e muito menos no Netflix. Essa deve ser a única forma legal de se consumir música e cinema? Os dois são serviços comerciais como qualquer outro. Se não gerarem lucros, eles não vão se interessar por adquirir os direitos de obras que não possuem forte apelo popular. Formas alternativas ao streaming precisam existir. Hoje é o download, amanhã pode ser outra tecnologia, e todas elas devem ser legalizadas para que todos os artistas possam receber por seus direitos autorais (sem que para isso tenhamos que pagar preços abusivos).

Espero estar sendo mais pessimista do que deveria, e acreditar que o download vai resistir. Inclusive, na falta de formas legais de se consumir obras cinematográficas, musicais e literárias, que a pirataria virtual continue fazendo seu serviço de democratização da arte, pois é praticamente isso que ela faz. Os responsáveis por isso são pessoas que na grande maioria das vezes não ganham nada para disponibilizar obras e legendar filmes, além do prazer de compartilhar conteúdo. Sou a favor de pagar por tudo isso que consumo, desde que os filmes que desejo ver estejam nos catálogos dos serviços de vendas e que as músicas que desejo ouvir estejam legalmente disponíveis para download. Quanto à literatura, sou daqueles que acreditam que alguém só lê um livro no computador ou no tablet se realmente não tem condições de comprar (ou porque o título está fora de circulação).

Por fim, sei que sou um romântico, pois quando realmente gosto de um disco, faço questão de adquirir. Já perdi a conta dos CDs que comprei sem nunca ter colocado no aparelho de som. Comprei só para tê-los e, consequentemente, ajudar as bandas que gosto. Só não consumo mais DVDs de filmes porque quase nunca encontro os títulos que gosto disponíveis para comprar. Sobre os livros, espero não viver o suficiente para ver o fim do formato físico, pois se deixarem de existir, eu mesmo irei imprimi-los e encaderná-los.

Ainda sobre livros, eu realmente gostaria que todas as obras de arte fossem como eles. Explico: para ver um filme, eu preciso de um projetor e uma tela, ou um computador, enquanto que, para ouvir música, eu necessito de um aparelho de som ou um celular. Para consumir os livros, eu só preciso deles, pois se estiverem em formato físico, o único suporte que necessito para desfrutá-los são meus olhos. Nesse sentido, os livros são perfeitos, pois as outras formas de arte requerem tecnologia adicional. É como se os livros tivessem sido feitos sob medida para o corpo humano: um só depende do outro. Acredito que boa parte dos instrumentos musicais também cai nessa categoria. É assustador imaginar um pane global na rede mundial de computadores. Imaginar também alguma catástrofe que deixe a população sem energia elétrica. Em um caso como esses, só teríamos a literatura. Creio que muitas pessoas não resistiriam ao ver suas vidas virtuais sepultadas. Contudo, acredito que estou sendo apocalíptico demais. Estou? Enfim, esse é outro assunto e eu deveria ter escrito só sobre isso. Deveria.

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minha mentira favorita

Creio eu que, quando desenvolveram os navegadores de internet, pensaram na barra de favoritos – como o próprio nome sugere – somente como um espaço reservado para o acesso rápido dos sites mais visitados pelo internauta. A função deve ter sido respeitada no início, mas por muito pouco tempo. Particularmente, não necessito ter meus sites mais acessados favoritados no navegador e, justamente por acessá-los sempre, conheço bem o caminho para chegar até essas páginas. Não pense que isso é muito trabalhoso, pois sabemos que, para tudo que já foi acessado antes, não é mais preciso informar a URL completa. Só preciso digitar umas três letrinhas no máximo e, em muitos casos, apenas uma é suficiente para que o próprio navegador me mostre a opção de concluir o endereço sozinho. Dessa forma, minha barra de favoritos se tornou uma extensa fila de espera. Explico.

Assim como todos os leitores e cinéfilos que passaram por esse planeta e não conseguiram ler ou assistir tudo que gostariam em vida, agora, além disso, muitos de nós internautas não conseguiremos acessar tudo que gostaríamos antes de morrer. Como se não bastasse, sou um leitor, cinéfilo e internauta, digamos assim, profissional. Ou seja, consumo todas essas três áreas em excesso, e uma vida só não é insuficiente diante de tanto conteúdo. De toda forma, já me conformei com isso (mentira!), e virei adepto da seletividade. É preciso escolher muito bem para não perder duas horas do seu dia assistindo a um filme medíocre com tantos outros ótimos de bobeira por aí, embora isso não me deixe com muito remorso, confesso. Perder uma semana inteira com um livro ruim, isso sim é inaceitável, embora eu admita que um livro mais raso seja o ideal para curar uma forte ressaca literária adquirida após a leitura de um clássico universal.

Atualmente, tenho uma lista com mil títulos que ainda quero ler e outra com mais de mil e duzentos filmes que quero assistir. Os números dessas listas não estão completos, foram apenas os que consegui contabilizar até o momento de escrever esse texto – em cadernos velhos tenho mais anotações. Sei que se eu me organizasse, poderia zerar essas listas, mas não é tão simples assim. Conforme os anos vão passando, menos tempo eu tenho, e todo dia são lançadas obras que despertam meu interesse nos mais variados campos. No entanto, como se não bastassem os livros e filmes, tenho mais de sete mil e seiscentos links favoritados, praticamente todos de artigos que salvo para ler depois. Não vou nem falar dos emails que ficam marcados como “não lidos” para que sejam acessados posteriormente e acabam abandonados na caixa de entrada para todo o sempre. Assim vou me enganando, dizendo para mim mesmo a minha mentira favorita: quando eu tiver um tempo, eu leio.

Nesses quase dez anos como usuário de internet, minha fila de espera de links já foi zerada algumas vezes. O mérito não foi meu, e sim dos computadores que quebraram, levando consigo as páginas salvas. Hoje é possível acessar o navegador com um e-mail e, dessa forma, sempre posso recuperar os favoritos em outra máquina. Arrisco afirmar que talvez esse tenha sido o ano em que mais li em minha vida, e olha que 2016 ainda nem acabou. Porém, li pouquíssimos livros diante da infinidade de textos que tenho consumido online. Tenho tentado ler tudo o que posso assim que me deparo com os textos na internet, o que nem sempre é possível, mas estou fazendo um grande esforço para não aumentar essa lista de mais de sete mil links. Nem todos chegam a ser realmente importantes, mas se os salvo é porque me interessaram e podem me ajudar de alguma forma.

O efeito colateral dessa decisão tem resultado justamente em um tempo ainda menor para os livros, pois tentar ler os escritos online assim que os vejo tem feito deles praticamente uma prioridade, uma vez que, quando favoritados, dificilmente voltarão a ser acessados. Ainda assim, a fila só cresce, e salvar as páginas funciona como um afago no meu desejo incontrolável de acompanhar tudo. Porém, o tempo, meu maior inimigo, me vence todos os dias. Na infância, quando estava na rua com meus pais e pedia para me comprarem algo (fosse um biscoito ou um brinquedo), eles me diziam sempre a mesma coisa por não terem dinheiro naquele tempo: na volta a gente compra. É óbvio que nunca voltávamos. Embora eu saiba que muito dificilmente terei tempo para acessar essas páginas salvas, sigo favoritando e, da mesma forma que fazia na infância com as promessas dos meus pais, finjo que acredito.

filho ingrato da televisão

Sábado último, fiquei acordado até tarde esperando um filme que ia passar na televisão. Foi como ter voltado no tempo, pois não recordo a última vez em que esperei um filme ser exibido na TV para poder assisti-lo. O longa em questão foi ‘Meu Amigo Hindu’, última produção do cineasta Hector Babenco, lançada nos cinemas em março. Anos atrás, após sua estreia nas salas de cinema, os filmes demoravam alguns meses até serem lançados em VHS ou DVD. Eles iam direto para as locadoras de vídeo e, só depois, chegavam às lojas. Passados um, dois anos, ou até mesmo um período maior, o filme seria finalmente exibido na TV, que o anunciaria com grande estardalhaço: “pela primeira vez na televisão”. Toda essa espera para que as locadoras de vídeo pudessem lucrar com o aluguel dos filmes e para que estes fossem exibidos até cansar em emissoras de TV por assinatura. Com o fim das locadoras e o avanço da internet, o caminho que o filme faz das salas de cinema até a TV aberta ficou bem mais curto. Agora, ou as emissoras transmitem os lançamentos em um prazo menor, ou todos já terão assistido quando forem transmitidos. Mesmo assim, ‘Meu Amigo Hindu’ foi televisionado em tempo recorde. A exibição foi uma homenagem da Rege Globo a Babenco, que morreu no último dia 13, dia do rock. Não fosse a morte do diretor, o filme jamais teria sido exibido tão rapidamente.

Estava querendo assistir a ‘Meu Amigo Hindu’ desde o ano passado, quando ele foi apresentado pela primeira vez durante a 39ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O filme teve um lançamento modesto, chegando a poucas salas de cinema e saindo de cartaz rapidamente. Com isso, acabei perdendo a oportunidade de vê-lo na tela grande. Começou então a minha espera pelo lançamento do filme em alguma plataforma online, até que, na quinta-feira (13), acordo e vejo no celular uma mensagem do meu namorado me contando que Hector Babenco havia morrido aos 70 anos de parada cardíaca. Ele sabe da minha forte admiração por Babenco e até já havia me presenteado com o livro ‘Pixote – A Lei do Mais Forte’, de José Louzeiro, que conta a trágica história de Fernando Ramos da Silva, famoso em todo o Brasil por interpretar Pixote, figura central do romance-reportagem ‘Infância dos Mortos’ (do próprio Louzeiro) e do filme de Hector Babenco, nele baseado, ‘Pixote – A Lei do Mais Fraco’ (1980).

Quem nasce hoje, tem como mãe legítima a internet, que é minha mãe adotiva, pois mesmo ainda sendo jovem, faço parte da última geração de filhos biológicos da televisão. Fui da parte pobre da família, porque a minha tia rica, quer dizer, a TV por assinatura, nem cheguei a conhecer. Ainda acompanhei os últimos anos das locadoras de vídeo. Nem precisava alugar os DVDs na sexta, como faziam a maioria dos clientes, para ficar com os filmes por mais tempo, já que a locadora fechava aos domingos. Como os títulos que eu alugava eram sempre os que ninguém levava, os donos da locadora me permitiam ficar com eles por mais tempo, sem que fosse preciso pagar multa por atraso. Não faço o tipo saudosista, mas vai ser divertido contar para as futuras gerações que eu alugava o que hoje possuímos ao alcance de um clique.

Durante a infância, estudava no turno da manhã e, quando acabava a aula, corria desesperadamente para chegar em casa e assistir a desenhos animados na TV. Os mais legais ficavam sempre para o final, então dava para assistir as duas últimas atrações. Algumas vezes, eu acabava perdendo certos episódios – isso acontecia quando minha mãe atrasava na hora de ir me buscar na escola ou quando ela decidia fazer alguma compra no caminho de volta. Já escrevi aqui sobre como meus pais eram superprotetores comigo, então minha mãe levava e buscava de bicicleta minha irmã e eu todos os dias. Estudamos sempre nos mesmos colégios, embora em séries diferentes: ela, por ser mais nova, esteve sempre duas sérias abaixo de mim. Quando ganhei minha primeira bicicleta, minha mãe me deixava ir na minha enquanto ela e minha irmã iam em outra, só deixando de nos levar à escola quando fez uma cirurgia, poucos dias após o meu aniversário de dez anos. Isso aconteceu no meu primeiro ano em escola pública, em que todos os meus colegas de sala de aula iam sozinhos, diferente dos meus colegas de colégio particular, que eram levados pelos pais de carro. Foi quando comecei a sentir vergonha por ser levado por minha mãe, pois os garotos me zoavam. Hoje, tenho vergonha por ter sentido vergonha disso. Ela ficou bastante tempo em recuperação após a cirurgia, então passei a ir sozinho à aula. Aquele foi também o meu primeiro ano estudando no turno da tarde. Minha irmã continuou no turno da manhã e ia à aula de carona com nosso vizinho cujo filho estudava na mesma escola. Quando se recuperou, minha mãe havia perdido o medo de me deixar ir sozinho, e não voltou a me levar mais.

Assisti a temporadas inteiras de desenhos animados e tenho de confessar que, às vezes, fingia estar doente para faltar aula e não correr o risco de perder certos episódios, geralmente os últimos da temporada. Quando passei a estudar no turno da tarde, isso deixou de ser um problema, mas continuei fingindo estar doente em algumas ocasiões, dessa vez para não perder o filme que ia passar na TV. Minha mãe sempre desconfiava dessas minhas mentiras, pois eu ficava milagrosamente curado quando estava assistindo televisão.

Alguns anos antes dela fazer essa cirurgia, eu lembro que, à noite, assistia, juntamente com meu pai e minha irmã, às novelas infantis do SBT (pois minha mãe nunca gostou de qualquer folhetim televisivo). Toda noite, duas vizinhas vinham com seus filhos assistir televisão aqui em casa, pois não tinham televisores em seus lares. Uma delas era minha madrinha, que sempre trazia seu filho que, por sua vez, correndo de um lado para o outro, não deixava ninguém em paz. A outra era uma senhora deveras religiosa que trazia o casal de filhos. Ela era a única evangélica da rua que assistia à TV e os outros consideravam isso um pecado, pois quem via aqueles programas corria o risco de não ver Jesus quando ele voltasse à Terra para buscar os seus fiéis no dia do juízo final. O mais irônico é que ela e seus filhos evangélicos eram os que mais gostavam de assistir às novelas, ficando verdadeiramente hipnotizados. Os filhos dela eram meus amigos e da minha irmã. Eles possuíam rádio em casa, o que não tínhamos, e nos contavam que também ouviam novelas pelo rádio. Eu não conseguia entender como alguém podia acompanhar a uma novela só pelo som, e eles me contavam que era do mesmo jeito que assistir na TV, só que sem as imagens. Somente anos depois eu fui descobrir o que eram radionovelas. Certa vez, minha mãe, a religiosa mais herege que eu conheço, disse para uma cliente evangélica que se incomodou com o fato de assistirmos à TV ao invés de ficarmos atentos a volta do Messias: “Quando ele voltar, você nos avisa. Você é minha amiga! Será que vai deixar de me chamar quando Jesus estiver te levando para o céu?” Nem preciso dizer que minha mãe perdeu a cliente.

Esse período da infância foi o único em que assisti a telenovelas; na adolescência, ainda cheguei a acompanhar umas duas, mas nunca tive muita paciência. Meu interesse mesmo era pelos filmes. Metade dos títulos que vi na vida foi assistida na televisão e a outra parte, na era pós-internet. Vi na TV muitos dos filmes que hoje são considerados clássicos e, desde muito cedo, descobri que os melhores passavam durante a madrugada. Não porque eram longas adultos, pois nunca vi pornô na televisão, mesmo nas sessões da madrugada, e sim porque, na maioria das vezes, não eram produções blockbusters e sim as de baixo orçamento, filmes de arte. É algo até engraçado, visto que os filmes que antes passavam durante a tarde hoje não são mais transmitidos nesse horário por não respeitarem a indicação de faixa-etária livre.

Com a chegada da internet na adolescência, a televisão continuou tendo um lugar de destaque na minha vida. Embora não assistisse mais a desenhos animados, continuava firme e forte com os filmes. O declínio da TV em minha rotina só não aconteceu mais cedo graças à tecla SAP (sigla em inglês para Segundo Programa de Áudio). Permitir assistir aos filmes com o áudio original e legendados foi o que ainda me manteve por um tempo ao lado da minha velha companheira. Quando eu era criança e ainda não sabia o que era a tecla SAP, uma prima de segundo grau veio aqui em casa e, enquanto brincávamos na sala, sentou sem querer sobre o controle remoto que estava no sofá. A TV estava ligada e do nada os personagens do filme que estava passando começaram a falar em inglês. Apertei os vários botões do aparelho na tentativa de fazer o som voltar ao “normal”. Fiquei desesperado, pois achava que meu pai iria me matar quando chegasse em casa à noite e encontrasse a TV falando aquele idioma tão estranho. Depois de muitas tentativas, o som da TV voltou ao áudio dublado, mas eu só vim descobrir o que havia acontecido naquela ocasião anos depois. Tecla SAP é vida!

Hoje, existem quatro aparelhos de televisão aqui em casa, mas assistimos cada vez menos. Não vejo mais filmes na TV, pois são sempre cortados para que caibam na programação. No entanto, os aparelhos ainda me são necessários para que eu possa ver os filmes que coloco no DVD. Admito que, uma vez ou outra, ainda assisto a telejornais, embora minha fonte de informações seja realmente a internet. Também assisto a transmissões de jogos, mas quando estes não são os que desejo ver, mais uma vez recorro à rede. Até alguns programas de entrevistas que gosto de assistir não me preocupam mais, já que, em poucas horas, todos estão disponíveis online. Admito também que, quando um filme que gosto muito está passando e não tenho nada mais importante para fazer, acabo revendo. Esse ano isso aconteceu com ‘Que Horas Ela Volta?’ (2015) e, muito recentemente, com ‘O Som ao Redor’ (2012), sendo que este começou quando eu estava me preparando para deitar. Gosto tanto do filme que só consegui ir dormir quando acabou, mesmo irritado por algumas cenas terem sido suprimidas. Aparentemente, o filme de Babenco foi exibido na íntegra, pois ficou no ar por mais de duas horas, mas só terei certeza acerca disso quando revê-lo.

Havia anos que a TV não transmitia algo do meu interesse e que me fosse inédito. Por Hector Babenco, voltei mais uma vez à tecla SAP e fui dormir de madrugada, todavia, valeu muito a pena. Ainda não sei o que ‘Meu Amigo Hindu’ representa para mim diante de todas as belas sensações que me despertou. Terminei o filme com um nó na garganta por saber que era a última produção de Babenco e feliz por ter sacado todas as suas auto-referências profissionais, mesmo reconhecendo que jamais saberemos o que é ou não biográfico no roteiro. Acabado o longa-metragem, voltei à internet, pois sou um filho ingrato da televisão e espero sinceramente nunca mais ter de voltar a ela devido a morte de alguém querido. Ser um refém da TV é um retrocesso, é estar à mercê da alienação e ser passado para trás por toda uma geração conectada à rede mundial de computadores. Infelizmente, muita gente depende exclusivamente da TV como fonte de informações: segundo o IBGE, 50% dos lares brasileiros ainda não tem acesso à internet. O Estado deveria estar trabalhando para levar acesso aos outros 50% dos lares, e não as operadoras brigando na Justiça para limitar o acesso desta. No entanto, isso é assunto para outro texto. Por hora, sei que sou um afortunado por ter abandonado a TV antes que ela me deixasse igual ao eu lírico da canção ‘Televisão’ dos Titãs: burro, muito burro demais.

anacronismo cibernético

Reconheço que manter um blogue nos dias de hoje é como utilizar máquina de escrever ou fotografar com câmera analógica, isto é, algo ultrapassado (retrô, se preferir). Por onde ando, ouço que as redes sociais mataram os blogues, enquanto que os vlogues jogaram a pá de cal. No entanto, mesmo que inconscientemente, os usuários das mídias sociais se tornaram “blogueiros”, nos contando sempre os que estão fazendo, comentando assuntos do momento, postando fotos de onde estão, o que estão comendo, frases com falsas autorias e até mesmo textões (que ninguém lê). Os sites, inclusive, também aparentam estar caindo em desuso; muitos artistas e empresas nem os possuem mais, aderindo às redes sociais para divulgar suas agendas, novidades e informações, já que, afinal, todos estão lá.

Por que então se exilar e escrever em um lugar ermo? Esse foi um dos dilemas que tive quando decidi criar esse blogue. Dizer que foi para aumentar o leque de leitores é uma grande mentira, já que todas as redes sociais possuem em suas configurações as opções de público e privado. Dizer também que é para conquistar prestígio e fama é uma grande ilusão, pois nós blogueiros(as) temos conhecimento de que muitos nos menosprezam, principalmente no universo acadêmico, de onde nos olham enviezadamente, pois acreditam que só escrevemos em blogues porque não conquistamos um espaço em veículos maiores. Não entra na cabeça deles que muitos(as) de nós não queremos nos filiar a nenhum grupo e muito menos ter que se enquadrar em padrões que podem censurar muitas de nossas liberdades textuais.

Entretanto, concordo que os blogues saíram fortemente lesionados dessa disputa. Acontece que rede social nunca foi mesmo o meu forte. Utilizo quase todas, caso contrário, não saberia mais o que meus amigos e amigas estão fazendo ou se estão bem ou mal. Ninguém mais se importa em sair para se encontrar e, se saem, a preocupação maior é em fotografar para postar. Essa preocupação em registrar as saídas nunca fez parte de mim, muito menos a necessidade de tornar tudo isso público. Para os meus melhores amigos isso também não é algo que os preocupa e, talvez por isso mesmo, somos melhores amigos. Em certas ocasiões saio até mesmo sem celular, não porque quero ficar incomunicável, mas por medo de assalto. Estou com o mesmo aparelho há três anos e não estou nem um pouco a fim de gastar dinheiro com outro enquanto este estiver suprindo minhas necessidades. Porém, sair sem celular, para muitos outros amigos e amigas, é como sair sem roupa. Alguns(mas) até já foram assaltados(as) enquanto fotografavam. De toda forma, a culpa não é deles(as), caso contrário, eu estaria dando razão aos assaltantes. Ademais, essa obsessão em fotografar tudo foi o que acarretou as vinte e sete mortes registradas ano passado ao redor do mundo por causa de selfies. Infelizmente, esse número só tende a aumentar. Enfim, todo esse rodeio só para dizer que não me interessa o material publicado nas redes sociais e, embora alguns(mas) escritores(as) não saibam fazer diferenciações e reproduzam muito de lá nos seus blogues, pelo menos aqui não há os famigerados “me add”, “troco likes” e “me segue de volta”. Bom, se tem, nunca vi.

Conservo em mim a utopia de que um dia conseguirei excluir todas elas, mas tenho que admitir que este será um trabalho árduo. Criar um perfil em uma rede social é algo fácil, complicado mesmo é sair. Todos os nossos amigos estão lá, nossos contatos, os grupos da universidade e do trabalho. Até nossos avós estão se rendendo. Dói, mas é preciso reconhecer que nos tornamos reféns. Fico me perguntando: quando foi que demos tanto poder às redes de relacionamento online?

Contudo, sigo utilizando uma plataforma que teve o seu auge lá no início dos anos dois mil. Hoje, a tendência tem sido criar vlogues, o que deve perdurar por mais algum tempo até o formato se desgastar ou ser substituído por algo ainda a ser inventado. Ademais, acredito na permanência dos vlogues, principalmente os curtos (pois ninguém tem mais tempo para nada). Confesso que gostaria de ter o talento de escrever textos sucintos, no entanto, a cada post novo, concebo um textão. Sinto-me constrangido por roubar o tempo dos(as) leitores(as), pois em rede social ninguém lê ninguém, só se vê as fotos e os status, mas aqui é diferente: quem acessa blogues o faz porque quer ler, o que também é uma das principais razões para ocupar um domínio em uma plataforma de blogues e resistir escrevendo. “Ocupa e resiste”. Esse tem sido o lema de quem ainda quer manter a engrenagem da Blogosfera girando. Essa resistência tem se mostrado bastante efetiva em blogues feministas e LGBTs, além dos blogues jornalísticos que não estão se curvando ao conservadorismo da imprensa de direita.

Implodir blogues para a construção de textos mal elaborados de opiniões sem aprofundamento em nome da praticidade e da preguiça de criar um espaço em outra plataforma não é o suficiente para me convencer a mudar de lugar. Não escrevo para os meus amigos de redes sociais e sim para quem usa a internet como ferramenta de pesquisa e debate. Realmente não dou atenção ao pessoal que acha que a rede mundial de computadores não vai além de suas timelines e aplicativos de mensagens instantâneas.

Engana-se quem enxerga os blogues como espaços individuais, visto que, a partir do momento em que os(as) leitores(as) comentam os textos, o post passa a ser deles(as) também, pois os comentários funcionam como um complemento do que foi proposto pelo(a) escritor(a). Publicar um texto como esse nos perfis das minhas redes sociais é como vomitar, impor um material que ninguém está interessado em ler, sem contar que, em poucos minutos, teria se perdido no buraco negro da linha do tempo. Posso até compartilhar o link do post, mas quase ninguém vai clicar, visto que a preguiça de abrir outra página é motivo suficiente para desistir. Todos os conteúdos devem estar apresentados na timeline e, dessa forma, ninguém sai. Blogue não é cativeiro e não faz nenhum(a) leitor(a) submisso(a) do algoritmo. Rede social é uma espécie de casa-grande (ou seria senzala?), enquanto que aqui fora, nós libertos, escritores(as) e leitores(as), reconhecemos nossos nichos através dos interesses em comum. Caso as mídias sociais realmente acreditem que mataram a Blogosfera, alguém avise-as que esqueceram de enterrar.