santa inês

Quem me conhece sabe que pontualidade é um dos meus pontos fortes, mas quando o assunto são memes ou virais virtuais, sou um dos seres mais atrasados que existem. Estou sempre rindo por último, principalmente quando descubro acidentalmente algum vídeo engraçado que já caiu no esquecimento e que todo mundo já assistiu. Por isso, se alguém não me apresentar aos temas discutidos na rede ou se acidentalmente eu não acabar esbarrando com eles, dificilmente ficarei sabendo, primeiro porque não tenho tempo, e ainda porque não tenho interesse por memes. Também não os reproduzo, como boa parte dos meus amigos fazem, inclusive, agregando-os aos seus vocabulários. Em várias ocasiões, ouço esses chavões e fico sem entender, vindo a descobrir seu significado só muito tempo depois. Mesmo assim, conheço muitos, afinal, eles estão em todos os lugares: quando não estão na internet, estão na boca das pessoas ou em estampas de camisas, por exemplo. Não que eu queira fugir deles, pois a grande maioria me provoca boas risadas e alguns até geram discussões com vínculo político deveras interessantes, ainda que não tenham essa intenção.

Nos últimos dias rolou (ainda está rolando?) uma campanha chamada #MakeBrMemesGreatagain (brasileiros, voltem a fazer grandes memes – em tradução livre), em que seus simpatizantes protestaram contra o que eles decidiram chamar de cultura de memes ruins (protestar contra a cultura do estupro que é bom, ninguém quer, né?). Enfim, até aí, tudo bem. A tag até chegou a ficar em primeiro lugar entre os assuntos mais comentados do Twitter. No entanto, Jair Bolsonaro e Danilo Gentili aderiram à campanha, mostrando que algo de errado essa ação tinha que ter. Pesquisando melhor, fica claro que entre os memes que estão fazendo os simpatizantes da campanha passarem vergonha pela baixa qualidade, os de Inês Brasil são os mais alvejados. Chegamos então ao ponto nevrálgico desse texto.

Quando ela surgiu exatamente para nós internautas eu não vou saber dizer (2012? 2013?), mas, ao contrário dos outros virais, tomei conhecimento de seu vídeo de inscrição para um reality show quase que instantaneamente. Um amigo meu, que nem deve lembrar, foi quem me enviou o vídeo, que tem pouco mais de cinco minutos. Confesso que foi difícil assistir até o fim, não achei a menor graça, e esse meu amigo o havia me enviado justamente por acha-lo hilário. Na época ele não soube me dizer se Inês era uma mulher ou uma travesti, e também não soube me responder se ela era uma personagem. Eu jurava que sim. Certo tempo passou sem que eu visse ou ouvisse Inês Brasil, até que, do nada, ela começou a aparecer em todas as minhas redes sociais com uma frequência assustadora e, aos poucos, sem precisar fazer praticamente nenhum tipo de pesquisa, fui conhecendo ela cada vez mais.

Inês é carioca e, junto com seus nove irmãos, teve uma educação religiosa. Foi na igreja, inclusive, que cantou pela primeira vez. Aos vinte e poucos anos, tornou-se professora de samba, chegando a se apresentar na casa de espetáculos Oba-Oba, do empresário Osvaldo Sargentelli. Por mais de oito anos teve que se prostituir para sobreviver. Conheceu Christian Karp, um alemão, seu “loiro dos olhos azuis”, com quem se casou e que a levou para morar na Alemanha, onde voltou para a prostituição ao mesmo tempo em que iniciou sua carreira musical. Ela afirma ter se inscrito para o reality show cinco vezes, embora eu só tenha visto esse único vídeo e tomado conhecimento de outro que ela fez depois, ao que tudo indica, tentando obter o êxito viral do anterior mais do que participar realmente do programa. Após o sucesso do primeiro vídeo, voltou para o Brasil. Chamada de Panterona pelos fãs, lançou seu primeiro disco ano passado e realiza atualmente uma média de vinte shows por mês, tornando-se mais famosa que qualquer outro candidato (e muito ex-participante) ao tal reality show – programa esse que, inclusive, só perde audiência a cada nova temporada, provando o vacilo de tê-la dispensado.

Uma mulher livre incomoda muita gente. Uma mulher negra e livre incomoda mais. Uma mulher negra, livre e ex-prostituta, incomoda muito, muito mais. Inês aborrece muita gente e sabe disso (vide a campanha para varrê-la juntamente com outras pessoas da internet). Como símbolo de marginalidade, ela é capaz de despertar nas pessoas seus preconceitos mais primitivos. Vem de origem humilde, não tem instrução, usa o corpo para se promover e fala abertamente sobre sexo. Deve ser difícil para religiosos que seguem um best-seller que há mais de dois mil anos oprime mulheres, negros e homossexuais, ouvirem sair da boca de Inês Brasil seus ensinamentos. Inês, filha legítima da cibercultura, é uma Maria Madalena moderna, porém, mais forte. Não se deixa atingir pelas pedras que lhe atiram, como também não precisou de nenhuma emissora e muito menos de um Messias para se levantar, fazendo o serviço geralmente atrelado a ele melhor que seus seguidores.

Num mundo em que Ana Paula Valadão é a síntese dos líderes religiosos que julgam nossa orientação sexual, nossa identidade de gênero, a roupa que vestimos e até mesmo se estamos acima do peso, isso só para citar alguns exemplos, temos Inês Brasil, que prega o amor. Aos olhos de Inês, somos todos irmãos, independente de sexo, cor, raça e orientação sexual. Conhecida nacionalmente, Valadão poderia usar sua voz para causas nobres, digamos assim, mas se incomoda com um simples comercial de roupas. No texto em que propôs boicote à C&A, manifesta todo o seu preconceito, quer dizer, sua santa indignação, sobre o que chamou de “imposição da ideologia de gênero” (sic). Valadão e seus seguidores atacam os direitos humanos respaldados pelo que chamam de “verdade imutável da palavra de deus”. Ou seja, se essa verdade não muda e se sempre vão existir pessoas dispostas a defendê-la, temos que nos preparar para nos proteger eternamente desses ataques. Diante de tanto machismo e homofobia, é natural que haja resistência do lado oprimido.

Como não há nada tão ruim que não possa piorar, ainda mais assustador que o próprio texto que Valadão publicou em sua rede social propondo o boicote à rede de lojas de vestuário, acredite, são as treze hashtags ao final da postagem: #SouFemininaVistoComoMulher #HomemVesteComoHomem #UnisexNãoExiste #NãoÀIdeologiaDoGênero #DeusFezHomemEMulher #FamíliaÉHomemEMulher #HeteroSexualidade #MonogamiaHeterosexualÉSexoSeguro #Cristianismo #AmizadeDoMundoInimizadeDeDeus #NãoEstouEmBuscaDeFãsMasDeCristo #AgradarADeusNãoAHomens #GalatasUmDez.

Diante do preconceito que ela reproduz, eu poderia gastar muitas linhas explicando que as calças e blazers que ela usa, à princípio, não faziam parte do guarda-roupa feminino, e também não me ariscarei a afirmar que o profeta Jesus usava vestidos (porque eu não estava lá para ver e os biógrafos dele não são muito confiáveis). Ademais, posso afirmar que, como homem, me visto como quiser, afinal, me visto para me agradar, e não para satisfazer a vontade dos líderes da igreja. O best-seller que os religiosos tanto fazem questão de seguir diz que deus, ao criar o homem e a mulher, lhes deu o livre arbítrio. Ou seja, sob essa perspectiva, tanto eu, que não sou religioso, como quem é, somos livres. Valadão nenhuma tem o direito de arbitrar sobre a identidade sexual de ninguém.

Sua defesa de que família é homem e mulher fere completamente a essência de família no sentido amplo. O projeto de lei 3369/2015, do deputado Orlando Silva, do qual o deputado Jean Wyllys é relator, defende o reconhecimento de todas as formas de família. A fundamentação do projeto diz que “existem, em nossa sociedade, muitos tipos de família: além da mal chamada ‘família tradicional’, formada por pai, mãe e filhos, há mães solteiras, pais solteiros, famílias combinadas, casais do mesmo sexo com ou sem filhos, casais de distinto sexo sem filhos, etc. Não estamos falando aqui de opiniões, mas de dados da realidade: todas essas famílias existem e estão constituídas pelos mesmos laços de afeto, amor, solidariedade e cuidado mútuo”. Além de ignorar a existência de todas essas famílias, Valadão ainda reserva espaço para destilar sua homofobia, o que não é de se espantar. Se deus é a imagem e semelhança de seus fiéis (ou vise versa), é um homem branco, hétero e cis. Todos que não seguem esse “padrão” são combatidos. Bom, o que posso fazer é reforçar o que já é óbvio para qualquer pessoa bem informada: sexo hétero não é mais nem menos seguro que sexo gay, ambas as práticas estão igualmente sujeitas às DSTs sem a utilização de preservativo. Desculpem, mas nada do que Inês Brasil fala ou faz é mais assustador do que Ana Paula Valadão, Silas Malafaia, Marco Feliciano e afins falam o tempo todo em suas redes sociais e em emissoras de TV.

O texto de Valadão tem pouco mais de um mês e o #MakeBrMemesGreatagain mais de uma semana, para vosmecê ter noção do quanto posso ser atrasado ao escrever sobre assuntos que um dia já foram do momento. Entretanto, essa discussão me fez lembrar uma entrevista de Tom Zé para o UOL em 2007, em que ele diz: “se eu tivesse uma filha moça colocava para educar no funk cariosa para ela se livrar de toda a carga que se põe sobre a mulher”. Não posso afirmar com toda certeza, mas talvez tenha sido nessa entrevista concedida a Marcelo Tas e aos internautas do UOL que Tom Zé tenha falado pela primeira vez que o refrão da música ‘Atoladinha’ é microtonal (as notas vão subindo em intervalos menores que um tom), polissemiótico (pois nos chega por outros sentidos além da audição) e metarrefrão (pois trata da própria arte de fazer refrão na música popular ao longo da história), afirmando ainda que trocaria o refrão “tô ficando atoladinha” por todos os refrãos de sua obra. Essas declarações repercutiram e ele voltou a falar sobre isso em 2009, no Programa do Jô, e em 2014, no Esquenta.

Segundo Tom Zé, o funk veio para aposentar o Papa, a igreja, os reacionários e os detratores que proíbem a mulher de gozar. “Tô ficando atoladinha”, diz o eu lírico da canção, lançando ao mundo a liberdade da mulher de sentir prazer e gozar durante o sexo. A letra dessa música liberta as mulheres da repressão que sofrem, muito semelhante a algumas letras de Valesca Popozuda e, claro, de Inês Brasil. Na letra de ‘Make Love’, Inês canta a seguinte frase: “se você não me linguar, hoje eu não vou te dar”. Ela está exigindo nada mais nada menos do que direitos iguais entre homens e mulheres, principalmente no que diz respeito ao sexo oral, que homens sempre querem receber, mas que nem sempre estão dispostos a retribuir. É uma música claramente feminista. Mulheres também têm o direito de sentir prazer. O gozo não deve ser exclusivo do homem e, se ele quiser ter satisfação, tem que estar igualmente disposto a agradar sua parceira.

A exegese de Tom Zé é tão genial que só ele poderia ser capaz de ter feito. Se Ana Paula Valadão tivesse um terço da humildade do Pai da Invenção, ela trocaria todo o seu discurso de ódio (vestido de opinião e resguardado por uma verdade imutável da palavra de deus) pelo refrão da música ‘Make Love’ de Inês Brasil: “se for pra fazer guerra não me chama que eu não tô, make, make, make love é muito melhor, demorou”. Na verdade, se os líderes religiosos fossem humildes, deixariam de pregar a intolerância para pregar o amor, em todas as suas formas.

Talvez Inês Brasil um dia desapareça da internet naturalmente. Não sei se ela tem fôlego para continuar tão presente nas redes sociais por mais cinco anos. Posso até estar enganado, ainda mais agora que ela lançou seu primeiro álbum e tem feito muitos shows. Quem sabe não seja apenas o começo? Seus fãs até conseguiram colocar seu videoclipe na página oficial do Grammy, o que foi um estorvo para muita gente, inclusive para os organizadores do prêmio que bloquearam a página para o território brasileiro, impedindo Inês de concorrer. Ainda assim, me pergunto: a música dela é tão inferior a dos cantores e cantoras que tocam hoje em dia no rádio, novelas e programas dominicais? No entanto, ela não se fez importante por sua música, e sim por ser um símbolo de resistência, por carregar em si uma série de minorias e representá-las. É por isso que ela vem durando bem mais que quinze minutos, mesmo que infelizmente todo esse fenômeno também tenha que passar pela hipersexualização e exploração da exotificação do corpo da mulher negra. O caso do fã que vazou um vídeo transando com Inês reforça essa objetificação. Por mais que ele diga em sua defesa que não foi ele o responsável pelo vazamento, com certeza filmou para mostrar para os amigos e exibir sua conquista.

Por enquanto, Inês segue incomodando, e me agrada justamente por incomodar pessoas que se importunam com coisas que não lhes dizem respeito. Desde o início, ela se ocupou em defender todas as formas de amor. Sou ateu, mas acredito que, se um dia, a igreja, além de perpetuar o discurso de Inês, for tão inclusiva quanto ela, talvez eu até me tornasse um simpatizante. Porém, isso nunca vai acontecer, já que o preconceito e a intolerância ainda são muito presentes em nossa cultura. Todavia, é na adversidade que as minorias se unem e se fortalecem. Quem sabe um dia os machistas, racistas, homofóbicos, transfóbicos se deem conta de que esse ódio gratuito é uma marimba muito pesada para eles carregarem. Render-se ao amor é muito melhor, então bora fazendo!

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o selo de qualidade dos vira-latas

Em 16 de julho de 1950, a nossa seleção de futebol perdeu a partida para a seleção uruguaia na final da Copa do Mundo realizada no Brasil. A derrota aconteceu em pleno Maracanã, o que contribuiu ainda mais para o forte trauma sofrido pelos brasileiros. Nelson Rodrigues escreveu então um texto* sobre o ocorrido, em que falou pela primeira vez sobre o complexo de inferioridade do nosso povo, que ele chamou de “complexo de vira-lata”. Dizia ele no texto: Por “complexo de vira-lata” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima.

Para Rodrigues, o fenômeno não se limitava somente ao campo futebolístico, até porque o Brasil se recuperaria do complexo de inferioridade no futebol com a conquista da Copa do Mundo de 1958. Estou falando sobre isso porque no próximo dia 28 acontece a cerimônia do Oscar e estamos concorrendo na categoria de Melhor Animação com o filme ‘O Menino e o Mundo’ (2013), do diretor Alê Abreu. Desde a indicação, vejo amigos meus, dentre eles, tanto quem não entende de cinema, quanto quem entende e estuda o assunto, assistindo ao filme de maneira ensandecida. Prestigiei a produção pela primeira vez ano passado – para ser mais preciso, no dia 6 de fevereiro. Todavia, desde 2014 que eu já queria vê-lo. Acho ótimo que o estejam assistindo, afinal, o filme é realmente bom e merece estar entre os cinco indicados. No entanto, se tem uma coisa que eu tenho certeza é que, muitos desses meus amigos (e pessoas por esse Brasilsão a fora) não o veriam se ele não tivesse sido indicado ao Oscar. Esse pensamento é explicado pelo fato de que a maioria dos brasileiros já não gosta do cinema nacional em live-action (termo utilizado no cinema, teatro e televisão para definir os trabalhos que são realizados por atores reais), que dirá um filme de animação, gênero em que o país não possui forte tradição.

Acontece, caríssimo Leitor, que a indicação de um filme para o Oscar é visto como um selo de qualidade pelo povo brasileiro: “se os gringos acham que é bom, então é porque é”. Mas não precisa ser necessariamente um Oscar, qualquer prêmio internacional já é o suficiente para que o público comece a prestar atenção, ou você realmente acha que se o filme ‘Que Horas Ela Volta?’ (2015), da diretora Anna Muylaert, não tivesse vencido o Sundance na categoria especial de Atuação para Regina Casé e Camila Márdila, teria acontecido toda essa repercussão? Muito provavelmente não, o que me deixa muito triste, porque o filme é realmente bom e levantou questões muito importantes que, de fato, precisam ser debatidas urgentemente pela sociedade brasileira. Mesmo com esse prêmio e outros importantes, o filme de Muylaert (que já havia sido transmitido na TV por assinatura) ficou engavetado pela Rede Globo na esperança do filme conseguir a indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A Rede Globo sabe, assim como sabem todos os veículos de comunicação desse país que, se o filme fosse indicado, aumentaria a curiosidade dos brasileiros e, por consequência, a audiência quando o filme fosse exibido. Quando a Academia divulgou a prévia dos nove filmes estrangeiros que concorreriam e ficamos sabendo que a produção protagonizada por Regina Casé estava de fora, em poucos dias ele foi exibido na Tela Quente para aproveitar que ainda era assunto na boca do povo. Deu certo, o filme conseguiu marcar a ótima média de 22 pontos de audiência. O índice foi quatro pontos maior do que a média do último mês, na mesma faixa.

Se olharmos para o passado, veremos que sempre foi assim. Nosso querido José Mojica Marins, criador do personagem Zé do Caixão, era tido como louco, mas foi só vencer o Festival Internacional de Cinema Fantástico e de Horror em Sitges, na Espanha, com seu filme ‘O Estranho Mundo de Zé do Caixão’ (1968), que a imprensa brasileira começou a enxergar (ainda que a contragosto) o gênio por detrás da capa preta. O mesmo festival ainda lhe homenagearia anos depois com uma menção honrosa pelo conjunto de sua obra e por grandes serviços prestados ao cinema de horror. Também anos depois, dessa vez na França, Mojica participou da 3° Convenção de Cinema Fantástico, realizada em Paris. No encerramento do festival, ele ganhou o troféu L’Écran Fantastique também pelo conjunto de sua obra. Na década de 1990, Mojica ainda seria descoberto pelos fãs de terror nos EUA, onde ficaria conhecido como Coffin Joe. Hoje é ídolo cult, mas dificilmente o seria sem o reconhecimento internacional. Em 1998, André Barcinski e Ivan Finotti publicaram ‘Maldito’, biografia de Mojica. Quem escreveu o prefácio do livro foi Rogério Sganzerla (outro brasileiro que não recebeu o devido reconhecimento de seus compatriotas) ainda vivo na época. Bem no início do texto, Sganzerla aponta: “Mojica deu tudo de si para construir uma obra, perfeitamente assimilada e reconhecida no exterior. Mas não passa de um estrangeiro em seu próprio país, devido à omissão generalizadora da maioria de seus pares – pois tudo se perdoa nos trópicos, menos a inteligência e a criatividade”.

Ademais, como se não bastasse todo esse descaso com o cinema nacional, o mesmo ainda acontece com a música brasileira. Tom Zé talvez seja o nosso maior exemplo desta perspectiva. Se David Byrne não o tivesse descoberto e lançado seus discos no exterior, o Pai da Invenção (como Tom Zé é conhecido internacionalmente) estaria hoje trabalhando como frentista em um posto de gasolina de seu sobrinho, em Irará. Não desmerecendo a profissão dos frentistas (que é tão digna quanto qualquer outra), mas Tom Zé estaria exercendo amargamente essa profissão pelo simples fato de não conseguir viver da própria arte no Brasil. Usando as palavras de Sganzerla como exemplo, por que a obra de nossos melhores artistas é perfeitamente assimilada e reconhecida no exterior, e no Brasil não? Seria uma sequela do terceiro mundismo? Hoje Tom Zé finalmente goza de prestígio em nosso país e consegue viver dos shows que faz e dos discos que vende, mas só depois de conquistar o “selo de qualidade” imposto pelo público brasileiro. Ainda fico na dúvida se a música de Tom Zé é realmente assimilada por todos que dizem admirá-lo ou se o fazem só porque os primos distantes do primeiro mundo ditam a moda. Se realmente assimilam, por que esperar que os países desenvolvidos o façam primeiro? Que espírito de colonizado é esse? Quando nós poderíamos estar recolonizando o mundo com a nossa arte, esperamos que os outros países exportem-na primeiro para depois “venderem” aqui. Nunca conseguirei entender isso.

Outro exemplo musical é Os Mutantes, considerada por muitos (me incluo nesse grupo) como a maior banda brasileira de rock de todos os tempos. Rita Lee e os irmãos Baptista só conquistaram prestígio no Brasil após se apresentarem na Europa e os jornais europeus se curvarem ao seu som. No livro ‘A Divina Comédia dos Mutantes’, biografia da banda publicada pela primeira vez em 1995, pelo escritor Carlos Calado, encontramos um trecho que expressa isso muito bem: Como costuma acontecer nessas ocasiões, a imprensa brasileira fez coro com os elogios dos estrangeiros. Até então tratados com ironias e preconceitos por boa parte da mídia nacional, pela primeira vez Os Mutantes foram enaltecidos como verdadeiros representantes da música popular brasileira. Afinal, a Europa havia se curvado frente aos “nossos” garotos…

Também não esqueçamos de nossos compatriotas que olham enviesado para nossa literatura só por não possuir um prêmio Nobel. Como se realmente precisássemos disso para afirmar que a literatura brasileira é uma das melhores do mundo, com autores incríveis e traduzidos em todos os continentes. É verdade que todos esses prêmios trazem prestígio para um país e ajudam a divulgar os seus artistas, mas não podemos depender disso para nos orgulhar da arte feita aqui. Não podemos depender de uma visão de fora para decidir o que é bom ou ruim. Não precisamos de um Nobel para provar que Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, José de Alencar, Lima Barreto, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Lygia Fagundes Telles, Manuel Bandeira entre tantos outros, são gênios de sua arte. O prêmio nem existia quando alguns dos maiores escritores de todos os tempos já haviam escrito suas obras-primas. Não, não precisamos de um Nobel! Um prêmio criado pelo inventor da dinamite e que acumulou uma das maiores fortunas de sua época com suas fábricas de armamentos não pode ser selo de qualidade para ninguém. Inclusive com sua categoria da Paz.

Outro fato que pouca gente lembra (ou talvez faça questão de esquecer, tamanha foi a ignorância), é que se hoje a bossa nova é foda, não foi esse o pensamento quando João Gilberto surgiu no final de década de 1950. Esse que é indiscutivelmente um dos gênios da música brasileira, foi chamado de desafinado, sem ritmo, ventríloquo. Contudo, o final da história todo mundo conhece: sua música ultrapassou todas as fronteiras possíveis e, claro que depois de entrar para a seleta lista de brasileiros detentores do prêmio Grammy (o Awards e não o Latino), incluindo um de Álbum do Ano (!), viria a se tornar unanimidade em seu país. Anos depois, Tom Zé apresentaria em sua música “Vaia de Bêbado Não Vale” a interessante tese de que a bossa nova inventou o Brasil. Na música ele canta: “no dia em que a bossa nova inventou o Brasil / no dia em que a bossa nova pariu o Brasil / teve que fazer direito / teve que fazer Brasil / criando a bossa nova em 58 / o Brasil foi protagonista / de coisa que jamais aconteceu / pra toda a humanidade / seja na moderna História / seja na História da Antiguidade […] / quando aquele ano começou, nas / Águas de Março de 58, / o Brasil só exportava matéria-prima / essa tisana / isto é o mais baixo grau da capacidade humana / e o mundo dizia: / que povinho retardado / que povo mais atrasado […] / a surpresa foi que no fim daquele mesmo ano / para toda a parte / o Brasil d’O Pato / com a bossa-nova, exportava arte / o grau mais alto da capacidade humana / e a Europa, assombrada: / que povinho audacioso / que povo civilizado.” Como Tom Zé muito bem apresentou em sua música, o Brasil deixava de exportar matéria-prima (café) para exportar arte (música). O mundo se curvava para um país que, até pouco tempo, era muito pouco conhecido. Muito se falava, mas pouco se sabia, de fato. O Brasil entrava com pé direito para a história da música mundial, de onde nunca mais saiu, estando, desde então, na lista dos países que produzem a melhor música do mundo.

Quando tento pensar em brasileiros pouco premiados no exterior, mas altamente reconhecidos em seu país, Eduardo Coutinho é um dos poucos exemplos que me vem à mente. Embora reconhecido internacionalmente, Coutinho nunca ganhou um prêmio de grande expressão. Entretanto, no meio cinematográfico brasileiro, é o que chamamos de unanimidade. Morreu gozando de grande prestígio entre a crítica e fãs de documentários. Não precisou de um Oscar para que os brasileiros o reconhecessem como um reinventor do gênero documental. O que significa que ainda temos salvação. A bossa nova já provou que podemos ser um povo audacioso e civilizado aos olhos das outras nações. Não precisamos nos impor um selo de qualidade. Vamos enxergar com nossos próprios olhos o que temos de melhor sem esperar que alguém de fora faça isso por nós. ‘O Menino e o Mundo’, com ou sem Oscar, já merece destaque na história da cinematografia brasileira, mas se o prêmio de Melhor Animação servir para dar um fim a esse complexo de vira-lata do cinema nacional, desejo então boa sorte no próximo dia 28. Mas lembrando sempre: não precisamos disso!

* Nelson Rodrigues. “Complexo de vira-lata”. In: À sombra das chuteiras imortais: crônicas de futebol. São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p. 51.