o gay antigo de glauber rocha

Caríssimos, acreditem, tudo o que eu mais queria agora era estar publicando aqui um texto bem elaborado, mas não vai ser possível. Para 2017, havia me programado em escrever uma série de textos sobre assuntos que eu ainda não havia abordado aqui no blogue. Anotei várias ideias e estava preparado para esse início de ano. No entanto, uma sequência de acontecimentos não planejados me pegou de surpresa agora em janeiro. São coisas que fogem ao meu controle. Quase tudo o que tem acontecido tem sido bom, mas não estou encontrando tempo nem para respirar direito. A sensação que tive foi de que essa última semana durou um ano. Poucas vezes estive tão cansado. Só ontem consegui ficar em casa e assim concluir minha primeira leitura de 2017: ‘1968 – O Ano Que Não Terminou’, de Zuenir Ventura.

Para não frustrar ninguém, aviso logo que esse texto não é um artigo. Esse era um post que eu havia planejado publicar nos primeiros dias do ano juntamente com mais outros, fazendo assim uma espécie de retrospectiva do blogue, mas já desisti da ideia. Primeiro porque sei que não terei tempo, e segundo porque o entusiasmo inicial já foi embora. Desta forma, vou publicar só esse mesmo da cancelada série de retrospectivas.

Na parte de estatísticas, o WordPress nos permite baixar um arquivo com os termos de buscas usados por leitores que, através dessas pesquisas, chegam até o blogue. Infelizmente é um documento incompleto e que deixa muito a desejar, pois 90% vem classificado como “termos de busca desconhecidos”. Contudo, uma rápida observação dos termos usados é o suficiente para constatar que essas pessoas chegaram até aqui por acidente. Como se isso não bastasse, também é possível constatar que a maioria dessas pessoas ficou insatisfeitíssima, pois não encontrou o que queria. Algumas buscas são curiosas, outras engraçadas. Portanto, resolvi fazer uma pequena lista com as buscas de 2015 e 2016. Meus comentários estão entre parênteses.

2015

Por que gosto de assistir séries? (Você eu não sei, mas expliquei os meus motivos de não gostar de séries aqui.)

Idade Tom Zé (Atualmente ele está com 80 anos.)

Se Cássia Eller não tivesse morrido, como estaria? (Estaria rica, poderosa, gravando discos inesquecíveis e cada vez mais dona do rock brasileiro.)

Porque gostamos tanto de séries? (Eu não gosto.)

Não gosto de Glauber Rocha (É meu cineasta favorito.)

Cenas de sexo gay no filme Pixote: A Lei do Mais Fraco (Faz tempo que não revejo esse filme. Não lembro se tem cena de sexo gay.)

Textos como se já tivesse morrido (Não sei se existem muitos, mas nenhum será tão bom quanto ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’.)

Texto se eu tivesse um irmão gêmeo ele faria prova (Na infância, também já desejei ter um irmão gêmeo para fazer as provas por mim.)

2016

Tom Zé nu (Essa foto abaixo serve?)

tom-ze

Textos de amizades para quem está saindo do ensino médio (Aconselho você mesmo(a) a escrever um.)

Celebre director de cine brasileño (Seria o Glauber Rocha?)

Eu nunca ganho presente em datas comemorativas (Também nunca ganho.)

Não gosto de assistir as aulas (Eu sempre gostei – dependendo da matéria, claro.)

Texto férias na casa da minha irmã (Por que você mesmo(a) não escreve?)

O plano para assassinar Leonel Brizola (Acho que nunca escrevi sobre o Brizola aqui no blogue.)

Christian Karp (Esse texto sobre a Inês Brasil foi um dos que mais deu trabalho de escrever e um dos menos lidos aqui do blogue.)

O melhor livro que li na minha vida (Também não sei qual o meu livro favorito, são muitos.)

Quem canta a música Senhor Cidadão? (É triste saber que muita gente ainda não conhece o Tom Zé. Mais triste ainda é ver que existem pessoas que só escutam o que toca na novela.)

O gay antigo de Glauber Rocha (Realmente nunca li nada sobre Glauber ser gay. Também ainda não li ‘Glauber Rocha Esse Vulcão’, do escritor João Carlos Texeira Gomes. É considerada a mais completa biografia do Glauber e pretendo ler ainda esse ano. Se não tiver nada a respeito disso no livro, acredito que não terá em nenhum outro lugar. Depois de ler, venho aqui contar para vocês.)

Não gosto de filme (Que pena. Espero que mude de ideia um dia e possa ver os meus.)

Filme que passava na TV em 1987 e 1988 e tinha atriz chamada Jessica (Fiquei curioso. Quem souber me fala.)

Telefome sexo pela operadora tom gey (Acho que entendi, mas não entendi.)

José Aldo era marginal quando novo (Não sei e também não vi o filme. Se eu não quis ir assistí-lo no cinema, ao ser transformado em minissérie e dividido em quatro dias pela Globo foi que não me interessou mesmo.)

Conversa perecível (Duvido que esse meu texto sobre amizades perecíveis seja o que essa pessoa estava procurando.)

Monstros que são mulheres (Não, monstros são homens.)

Alexandre Porpetone não tem graça nenhuma (Concordo.)

Memes brasileiros sobre sexo oral (Também quero, quem tiver manda. – Brincadeira!)

Silvio Santos muito estúpido Teleton 2016 (Falei um pouco sobre isso no texto Família Abravanel.)

Aborto estatísticas (Segundo dados recentes, estima-se que, a cada um minuto, uma mulher faz um aborto no Brasil.)

Ninguém gosta de esperar mais gostam de fazer esperar (Odeio esperar e já escrevi sobre isso.)

Filmes de Glauber Rocha gay (Estou começando a acreditar que sou o único que desconhece essa possível homossexualidade de Glauber.)

Que series você assiste? Nenhuma, não gosto. E os livros que gosta? Não gosto de ler. Sai da minha casa (Essa pessoa tem dupla personalidade.)

É interessante como uma bobagem acaba uma amizade (Não sei se interessante é a palavra certa.)

Filme em que menino se entre na voluntariamente (Não entendi, mas quem souber que filme é esse, me avisa também!)

Assistir seriado em português paciência que conseguir (Haja paciência mesmo.)

Oração ao tempo de Caetano Veloso e tempo perdido Legião Urbana. Compare os pontos de vista diferente (Aposto que isso era um trabalho de escola.)

Filhos gays (Escrevi sobre filhos gays aqui.)

Bem, não vou publicar todos os termos de busca. Afinal, a razão de ser desse post foi mais para informá-los de que não desisti do blogue e que pretendo voltar a escrever aqui em breve. Desde já, assumo um compromisso de publicar textos mais elaborados nas próximas oportunidades. Espero que 2017 tenha começado bem para vocês, e torço para que não estejam tão cansados quanto eu. Tenham todos uma ótima semana. Abraçaço

meus livros favoritos de 2016

Tenho certeza de que 2016 foi o ano em que mais li até hoje. Essa afirmação pode soar mentirosa e contraditória quando comparo o número de livros lidos com os do ano anterior. Em 2015, eu li quarenta e seis títulos, em um total de onze mil novecentas e cinquenta e oito páginas. Enquanto que, em 2016, foram trinta e oito títulos, em um total de nove mil duzentas e trinta e nove páginas – o que dá uma média de vinte e cinco páginas por dia, abaixo das trinta e três diárias de 2015.

Os resultados foram bem inferiores, eu sei. Confesso que finalizei o ano frustrado, pois tinha expectativas maiores. No entanto, estou consciente de que um dos principais motivos (se não o maior) dessa diminuição foi o grande número de conteúdo online que eu consumi. Acompanhei muitos blogues em 2016, principalmente os de conteúdo político e feminista. Aprendi coisas como nunca antes e não me arrependo de ter dedicado tanto tempo a ler os textos de outros blogueiros e blogueiras, muito pelo contrário: neste ano, pretendo continuar acompanhando esses blogues e espero conhecer muitos outros.

Acredito muito na força da blogosfera e no poder do ativismo virtual. É importante consumir esse conteúdo alternativo escrito por minorias. Na atual conjuntura, é mais necessário do que nunca dar voz aos silenciados pelo Sistema. Essas leituras constituem uma parte importante da minha vida e sei que, se fosse possível contabilizar as páginas virtuais lidas por mim ano passado, conseguiria provar que foi o ano em que mais li. Porém, vou tratar no texto apenas dos livros.

Apesar de ter lido obras de nove nacionalidades, exatamente metade dos trinta e oito foram de títulos brasileiros e, é dessa metade, que saíram as leituras mais prazerosas. Não sei e não me atrevo a escrever resenhas, então irei tecer apenas breves comentários sobre cada livro da lista. Os títulos não estão classificados por ordem de importância, mas sim por ordem alfabética. São eles:

Abraçado ao Meu Rancor

Publicado originalmente em 1986, ‘Abraçado ao Meu Rancor’ foi minha terceira leitura concluída em 2016. Foi também o primeiro livro que li de João Antônio. Por ser um compêndio de contos, eu esperava ler com mais calma, como geralmente faço com títulos desse gênero (quase nunca leio mais de um conto por vez). No entanto, suas histórias do submundo me envolveram de tal forma, que quando me dei conta, já havia lido tudo.

A Divina Comédia dos Mutantes

Publicado originalmente em 1995, ‘A Divina Comédia dos Mutantes’ foi minha sexta leitura concluída em 2016. O livro de Carlos Calado é a biografia mais completa d’Os Mutantes, minha banda favorita. Foi outro livro que li muito rápido, principalmente por se tratar de um assunto de grande interesse. A pesquisa de Calado nos brinda com muitas curiosidades sobre os bastidores de gravações e, claro, nos apresenta aos vários pontos de vista sobre a polêmica saída de Rita Lee da banda.

Agosto

Publicado originalmente em 1990, ‘Agosto’ foi o primeiro livro que li em 2016. Foi uma das leituras mais gostosas do ano e se tornou um dos meus livros favoritos. A mescla entre ficção e realidade, usando como pano de fundo os acontecimentos que culminaram no suicídio de Getúlio Vargas, em agosto de 1954, foi o que me fascinou. Essa é apenas a terceira obra que leio de Rubem Fonseca e, a cada leitura nova, este autor ganha um lugar cada vez mais especial no meu coração. Agora, sempre que me lembro de ‘Agosto’, sinto uma imensa vontade de reler (e olha que só faz um ano que o folheei).

Cazuza - Só As Mães São Felizes

Publicado originalmente em 1997, ‘Cazuza – Só as Mães São Felizes’ foi minha segunda leitura concluída em 2016. Escrito por Lucinha Araújo e Regina Echeverria, a biografia conta a história de Cazuza desde seu nascimento até sua morte prematura. Também o li muito rápido, pois praticamente não o consegui largar enquanto não concluí. Por ser narrado através do ponto de vista de Lucinha, o livro é muito rico em detalhes, principalmente os capítulos que dizem respeito aos últimos dias de vida de Cazuza. Foi de longe a leitura mais emocionante do ano.

Contos Escolhidos

‘Contos Escolhidos’ é uma coleção de contos do Machado de Assis. Foi minha trigésima terceira leitura concluída em 2016. Li-o praticamente o ano inteiro, com muita calma. Como leio muitos livros ao mesmo tempo, quando chega dezembro, eu não inicio mais nenhuma leitura, pois trato de terminar aquelas que eu já iniciei durante o ano. Em dezembro, ainda faltavam alguns contos para concluir e, ao final de cada um deles, eu só conseguia imaginar o quanto ficariam bons se adaptados para o cinema em curtas-metragens. Inclusive, alguns contos desta coleção realmente ganharam adaptações, como foi o caso de ‘A Missa do Galo’ e ‘Uns Braços’.

Golpe 16

‘Golpe 16’ foi uma leitura especial, apesar de se tratar de um assunto amargo. O livro contém vinte e três artigos de blogueiros(as) e intelectuais de esquerda, além de um prefácio escrito pelo ex-presidente Lula e uma entrevista com a presidenta eleita Dilma Rousseff. A ideia do livro foi de Renato Rovai, editor do portal Fórum. Fui ao lançamento do livro em setembro, a convite da blogueira e feminista Lola Aronovich, que eu havia conhecido pessoalmente dias antes. Minha edição está autografada por ela. Além de Lola, há nele artigos de outras pessoas que eu admiro muito, como Cynara Menezes e Paulo Henrique Amorim. Foi minha vigésima oitava leitura concluída em 2016 e outro livro que li rápido, pois parei todas as leituras que havia iniciado para ler ‘Golpe 16’, um dos mais urgentes e importantes títulos publicados no ano passado.

Maldito

Publicado originalmente em 1998, ‘Maldito’ foi minha quarta leitura concluída em 2016. Minha edição, lançada em 2015 é, de longe, o livro mais lindo da minha coleção. O volume tem seiscentas e sessenta e seis páginas, que eu devorei em pouquíssimos dias. Escrita por André Barcinski e Ivan Finotti, a biografia é o título mais completo sobre José Mojica Marins, diretor de clássicos como ‘À Meia-Noite Levarei Sua Alma’, de 1963, e ‘Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver’, de 1966, ambos inclusos na minha lista de filmes favoritos. O livro aborda todas as fases da carreira de Mojica e, apesar de não ser chapa branca (pois aborda também os problemas do cineasta com o álcool, ostracismo, adultérios e o envolvimento com a indústria pornô), tudo é escrito com o maior respeito, tratando Marins como o verdadeiro gênio que é. Foi certamente uma das melhores biografias que já li na vida.

Menino de Engenho

Doidinho

Publicado originalmente em 1932, ‘Menino de Engenho’ foi minha décima primeira leitura concluída no ano passado e o primeiro livro de José Lins do Rego que li. A obra narra a história do menino Carlinhos, que vai morar no engenho do seu avô após perder a mãe assassinada pelo próprio pai. ‘Doidinho’, publicado pela primeira vez em 1933, foi minha vigésima quarta leitura concluída em 2016, e é a continuação de ‘Menino de Engenho’. Inclusive, começa exatamente onde o volume anterior termina. Esse segundo volume foi uma das leituras mais divertidas que fiz até hoje e, apesar de ser uma história triste em muitos momentos, a narrativa não perde o bom humor. Os dois fazem parte do “ciclo da cana-de-açúcar”, composta ainda por ‘Banguê’, publicado em 1934, ‘O Moleque Ricardo’, lançado em 1935, e ‘Usina’, lançado em 1936, títulos que eu pretendo ler muito em breve.

Revisao Crítica do Cinema Brasileiro / O Século do Cinema / Revolução do Cinema Novo

Essa trilogia glauberiana é formada por ‘Revisão Crítica do Cinema Brasileiro’, publicado originalmente em 1963, ‘O Século do Cinema’, de 1983, e ‘Revolução do Cinema Novo’, de 1981. Eles foram minhas leituras de número vinte e dois, trinta, e trinta e um de 2016, respectivamente. São livros escritos para quem realmente ama cinema, sobretudo o brasileiro. Glauber Rocha é meu cineasta favorito e tenho muito interesse por tudo o que diz respeito à sua vida e obra. Nenhum outro diretor me influenciou ou influencia tanto quanto ele. ‘Revolução do Cinema Novo’ trata do maior movimento cinematográfico da história do nosso país e foi o livro de cinema mais importante que já li.

Sargento Getúlio

Publicado originalmente em 1971, ‘Sargento Getúlio’ foi minha décima leitura concluída em 2016, e meu primeiro livro de João Ubaldo Ribeiro. Esse era um título que eu já queria ler há muitos anos, desde que assisti sua adaptação cinematográfica de mesmo nome de 1983, dirigido por Hermanno Penna, com Lima Duarte no papel do protagonista-título. Apesar de ser um livro pequeno, algumas passagens foram sabiamente cortadas no filme. Não por serem ruins, mas por não funcionarem tão perfeitamente no cinema quanto na literatura. Apesar disso, é uma das adaptações mais fiéis que já assisti (Ubaldo também assinou o roteiro) e tanto o filme quanto o livro fazem parte agora da minha lista de obras favoritas.

Minha meta inicial era ler cinquenta livros. No entanto, me dei conta de que um ano tem cinquenta e duas semanas, então esse se tornou o número mágico. Como vocês podem ver, não consegui alcançar nenhum dos dois. Quem sabe em 2017? Gosto de ler com calma e estou consciente de que ler muito rápido não é algo tão bom. Porém, também tenho que lutar contra o fato de que só viverei um determinado número de anos. Esse sentimento gera emoções contraditórias dentro de mim. Por já saber que não vou conseguir ler tudo o que quero, eu poderia muito bem ler livros aleatoriamente. Contudo, tento ser seletivo na maior parte das vezes, mas confesso que também gosto de ler ao acaso. Aprecio muito leituras estranhas, de títulos que quase ninguém ouviu falar.

Para esse ano, gostaria de convidar vocês a participarem do #DesafioLivrosBR do blogue 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer. O desafio consiste em ler, em 2017, doze livros brasileiros de diferentes categorias. Cliquem aqui no link para mais informações. É a primeira vez que participarei de um desafio literário e estou bastante entusiasmado. Segundo a Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2015, o brasileiro lê, em média, apenas dois livros inteiros por ano. Mais do que um país que lê pouco, o Brasil é um país que se lê pouco. Por isso, considero iniciativas como essa muito importantes.

Para finalizar, deixo abaixo o arquivo em PDF de ‘GOLPE: Antologia Manifesto’, obra que reúne cento e vinte artistas contra o golpe acometido contra a nossa democracia no ano passado. Foi uma das minhas leituras de 2016 e cito-o aqui nas menções honrosas. Espero que essa lista possa inspirar a leitura de muitos de vocês. Não se esqueçam de comentar quais desses títulos vocês já leram, quais querem ler e, claro, que livros vocês me indicam para 2017. Até a próxima, abraçaço.

GOLPE: Antologia Manifesto

terceiro turno

Meu pai sempre foi de esquerda, embora ele não soubesse dizer exatamente o que é uma política de esquerda. No entanto, mesmo não sabendo disso e sendo de classe baixa, e talvez por ser justamente de classe baixa, sempre conseguiu identificar muito bem as desvantagens de um governo de direita. Ele sofreu na pele os dois mandatos do governo FHC. Hoje, consigo identificar certa influência de meu pai no meu posicionamento político, embora eu tenha certeza que, mesmo sem sua intervenção, ainda assim eu me identificaria com a esquerda.

Sempre gostei de votar e, em todas as eleições em que participei, jamais fiquei em cima do muro, pois sabia exatamente de que lado estava. Eu tinha apenas nove anos quando aconteceu a eleição presidencial de 2002. Acompanhei meu pai na votação e lembro claramente que durante a volta, segurando sua mão, lhe perguntei em quem ele havia votado. Ele me disse que tinha votado em Lula e me pediu segredo. Meu avô paterno (infelizmente) declarou voto em José Serra e meu pai não queria que brigassem por isso.

Durante o governo do PT a vida de minha família mudou drasticamente e conquistamos a tão sonhada ascensão social. Apesar de não ser o primeiro da família a cursar uma universidade federal, continuo até hoje sendo um dos poucos a conseguir ingressar na graduação. Apesar disso, eu não estava satisfeito com a conjuntura política desde 2013, mas jamais poderia imaginar que as coisas fossem piorar tanto.

Nas eleições deste ano, mesmo tendo candidatos de esquerda em quem votar, me senti muito mal em comparecer ao colégio eleitoral fingindo que estamos vivendo em uma democracia, fingindo que não estamos sofrendo um golpe, fingindo que não estamos sendo oprimidos por um plano de governo que não foi eleito. A vitória da direita conservadora só serviu para fortalecê-los e agravar ainda mais a nossa situação, pois eles estão encarando o resultado nas urnas como uma legitimação ao golpe. Nessas eleições não foi a esquerda quem perdeu, foi o Brasil.

Enquanto a esquerda só criticava a si mesma sem reconhecer os próprios progressos, a direita brasileira conseguiu se organizar e impor seu programa de governo. Não houve a necessidade de tanques nas ruas, o golpe midiático-parlamentar é a ditadura do século vinte e um e a ponte para o futuro do governo golpista é o novo AI-5. Temo que dois anos não seja tempo suficiente para a esquerda se renovar e barrar todo esse retrocesso que está sendo implantado. Não torço para o “quanto pior, melhor”, mas é ilusão demais acreditar que algo bom possa sair disso tudo. Os retrocessos, inclusive, já começaram (Projeto de Lei 257/2016, PEC 55, MP 746) e, a partir de agora, todo e qualquer erro é de responsabilidade da direita, afinal, derrubaram uma presidenta democraticamente eleita para assumir o poder e nada mais justo do que responderem por suas próprias falhas.

Assim como a velha mídia é culpada (pois na ânsia de acabar com o PT, fortaleceu através de seus meios de comunicação a direita brasileira), a esquerda também tem sua parcela de responsabilidade no atual cenário político. É preciso aprender com os próprios erros. Uma política de esquerda verdadeira não pode abrir mão do enfrentamento aos privilégios históricos da Casa Grande. É preciso enxergar também que candidatos evangélicos avançam mais onde o Estado é ausente. Os fundamentalistas religiosos acabaram de conquistar nada menos que a segunda capital mais importante do país, o Rio de Janeiro, apelidada agora de RIURD Janeiro (em referência à Igreja Universal do Reino de Deus).

Outro passo da esquerda é justamente parar de disputar (juntamente com a direita) o apoio das igrejas. O Estado laico está previsto na Constituição, no artigo 19, inciso I, que preconiza: “é vedado ao Poder Público estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança”.

Em ‘Terra em Transe’, filme de 1967 do diretor Glauber Rocha (1939-1981), o personagem Paulo Martins, interpretado por Jardel Filho (1927-1983), ao constatar a fraqueza de Felipe Vieira, interpretado por José Lewgoy (1920-2003), se enfurece diante da recusa do líder populista em assumir a resistência armada ao golpe de Estado e diz o que considero ser uma das frases mais emblemáticas do cinema brasileiro: “se resistirmos será o começo de nossa história”. É nisso que acredito: na resistência.

No entanto, ao contrário de Paulo Martins, não penso que a luta armada seja o caminho, pois eles também não usaram armas para impor o golpe. De toda forma, felizmente, a esquerda já está mostrando através das ocupações das escolas e universidades que haverá luta e, por isso mesmo, os golpistas farão de tudo para deslegitimar esse movimento. Para as eleições municipais, o governo soube muito bem fazer um acordo com os alunos de escolas ocupadas que eram locais de votos. Além dos estudantes liberarem os espaços necessários para as equipes do Tribunal Eleitoral, também houve a realocação das zonas eleitorais para locais provisórios.

Não se deixe enganar, a ameaça de adiar/anular o ENEM foi uma tentativa de jogar os estudantes contra a própria causa. Lembre-se: as ocupações não impediram que as eleições acontecessem. O MEC teve tempo suficiente para dialogar e realocar os alunos, mas não o fez. Não sei o quão eles foram bem sucedidos nessa tática, mas vejo que as ocupações já geraram ódio em muitas pessoas. Acho muito justo quem se preocupa com a sua formatura, mas só enxergar isso é ser individualista. Não é apenas um semestre que está em jogo, são vinte anos de retrocessos. Existem até os bem-intencionados que são contra as ocupações acreditando que enquanto alunos ocupam escolas públicas, os estudantes de colégios particulares se preparam melhor para o ENEM. Contudo, não são os direitos dos alunos ricos que estão sendo cortados.

Veja, os mesmos jovens de dezesseis anos que os golpistas dizem ser doutrinados por comunistas possuem, segundo eles, idade suficiente para serem presos quando cometem crimes. As jovens que participam das ocupações também são consideradas doutrinadas, mas se qualquer uma delas engravidar, os golpistas irão afirmar que ela sabia muito bem o que estava fazendo. Com dezesseis anos a pessoa é madura o suficiente para votar e decidir o futuro do país, mas para ocupar escolas é criança. Não importa quantas vezes os golpistas contradigam o próprio discurso, eles sempre mudarão quando lhes for conveniente.

É preciso dar voz às ocupações, aos sem-teto, ao movimento feminista, aos LGBTs, ao movimento negro. É preciso boicotar a velha mídia e dar espaço para mídia livre nas redes. Acredito muito na importância dos blogues alternativos que exercem um papel vital de contra-informação e contra-opinião. Lutar por nossos direitos não pode ser algo perigoso. O terceiro turno já começou, é preciso ocupar as ruas, agora. Avante, companheiros e companheiras!

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todo dia é dia de gênio

Certa feita, em uma aula de Cinema Moderno que cursei no segundo semestre do curso de Cinema, a turma assistiu ao filme ‘O Bandido da Luz Vermelha’, de 1968, do diretor Rogério Sganzerla (1946-2004). Era um seminário e havia uma equipe de cinco alunos responsável pela projeção do filme e o debate com o restante da turma sobre a importância deste longa para o cinema brasileiro moderno. Na aula da semana anterior, minha equipe havia apresentado ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, de 1964, do diretor Glauber Rocha (1939-1981). Ao final da aula, a professora, aproveitando a repercussão dessas duas apresentações e o fato de Sganzerla ter apenas vinte e dois anos quando dirigiu ‘O Bandido…’ e Glauber vinte e cinco anos quando lançou ‘Deus e o Diabo…’ – antes disso, tendo lançado seu primeiro longa-metragem, ‘Barravento’, em 1962, aos vinte e três anos -, soltou um comentário que até hoje julgo um tanto quanto irresponsável: “Vocês não se sentem mal por estarem na mesma faixa de idade deles e ainda não terem lançado um longa?”.

Desde o primeiro momento, eu também encarei essa pergunta como uma forma de incentivo, uma provocação, uma tentativa de nos encorajar, digamos assim, a produzirmos. Por ser uma professora e uma pessoa maravilhosa, sei que a intenção era das melhores: fazer-nos sair da teoria e partir para a prática. No entanto, a boa intenção não exclui os muitos problemas dessa pergunta-provocação-incentivo. Um deles é imediato: o sentimento de culpa e fracasso desnecessário que se instala em nossa consciência ao sermos comparados com pessoas da nossa faixa-etária mais bem sucedidas que nós.

A turma dessa disciplina era formada por alguns alunos com menos de vinte anos, a grande maioria na casa dos vinte, alguns com trinta e poucos e até aluno com mais de cinquenta anos. Diante da pergunta, todos ficaram calados, ninguém respondeu nada até eu, que sempre fui de falar muito, respondi com um “não, não me sinto mal por não ter lançado nenhum longa ainda”. Nesse momento todos os olhares se voltaram para mim e eu comecei a dar minhas justificativas, que só não transcrevo aqui porque já não lembro palavra por palavra, mas recordo de ter usado Suzana Amaral como um dos exemplos.

Suzana começou a estudar cinema quando já havia criado os nove filhos. Lançou o primeiro filme, ‘A Hora da Estrela’, um clássico do cinema brasileiro de 1985, aos cinquenta e três anos de idade, baseado na obra homônima de Clarice Lispector. Quando falei dela, um dos alunos, na época com vinte e sete ou vinte e oito anos, comentou que estava aliviado, pois ele ainda estava no tempo. O que muita gente esquece é que todo tempo é tempo. O próprio Sebastião Salgado só começou a fotografar aos vinte e nove. Não há necessidade desse tipo de comparação, principalmente quando o assunto é arte.

Agora, sempre que vejo o exemplo de um artista que começou “tarde”, lembro dessa aula. A própria concepção de “começar tarde” é errada, pois cada profissional tem o seu tempo próprio. O momento de criação de cada um é o tempo certo. É óbvio que muitos fatores nos impedem de começar antes. Artistas que conseguem reconhecimento logo no início são exceções. É difícil estudar em uma universidade um curso que não nos traz muitas ou quase nenhuma perspectivava de emprego. É como saltar sem paraquedas. Para muitos é preciso fazer outro curso antes e se profissionalizar em algo apenas para se conseguir estabilidade financeira. Para a grande maioria (e nisso me incluo), apesar de já cursar a área de interesse, é preciso trabalhar com o que não gostamos para, no futuro, finalmente conseguir trabalhar com o que queremos. Entretanto, nunca é tarde para começar.

Pode até ser desanimador fazer cinema diante de gênios como Glauber e Sganzerla, que começaram tão cedo. Para outros também pode ser desanimador ser escritor ao lado de gênios como Machado de Assis (1839-1908) e Álvares de Azevedo (1831-1852), que começaram tão jovens. Contudo, caríssimos, o fato de Suzana Amaral ter lançado o primeiro filme aos cinquenta e três, Kleber Mendonça Filho ter lançado seu primeiro longa-metragem aos quarenta e cinco anos, e Fernando Meirelles e Cláudio Assis aos quarenta e três anos, não os torna piores. O trabalho de todos eles, inclusive, é muito maduro e consistente. Sganzerla, por exemplo, nunca conseguiu fazer um filme melhor que ‘O Bandido da Luz Vermelha’, enquanto que Kleber Mendonça acaba de lançar a obra-prima ‘Aquarius’, aos quarenta e oito anos. Em 2002, quando Meirelles lançou ‘Cidade de Deus’, ele estava então com quarenta e sete.

Cora Coralina (1889-1985) e Graciliano Ramos (1892-1953) são dois gênios da literatura, tendo lançado seus primeiros livros aos setenta e seis e quarenta e um, respectivamente. Não estou dizendo que começar “tarde” é melhor, mas esse desejo de ser o mais rápido, o mais forte e o mais jovem, causa muitos problemas. No desespero de lançar logo a primeira obra, muitos artistas produzem trabalhos que com certeza seriam melhores se houvessem se dado o tempo de amadurecê-los.

Repito, nunca é tarde para começar. E nem para recomeçar. Tom Zé havia abandonado a carreira, mas conseguiu sair do ostracismo aos cinquenta e seis anos. Se já havia lançado clássicos como ‘Todos os Olhos’ (1973) e ‘Estudando o Samba’ (1976), ainda conseguiu realizar um de seus melhores trabalhos em 2012, o disco ‘Tropicália Lixo Lógico’, aos setenta e seis. Esse ano, aos oitenta, acaba de lançar o disco ‘Canções Eróticas de Ninar’, que eu ainda não ouvi e já gostei. Nada está perdido; bons trabalhos são realizados em qualquer idade. Se os artistas mais velhos nos incentivam a sempre continuar tentando, os artistas jovens não podem ser usados para nos desencorajar a produzir depois de uma determinada idade. E tenho dito: todo dia é dia de gênio.

o cinema é nosso

“Eu vejo o futuro repetir o passado”. Esse trecho da música ‘O Tempo Não Para’ de Cazuza vem martelando em minha cabeça sempre que penso no cenário brasileiro atual. Sinto como se estivesse vivendo situações que só conhecia através dos livros de História, quando estudava os capítulos sobre ditadura militar e respirava aliviado por ter nascido em outra época. Nesses mesmos livros didáticos, muito se falava sobre a censura imposta a todo tipo de arte, embora a música, com o exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil, ganhasse sempre um aprofundamento maior. Não recordo de ler nada relacionado à repressão sofrida pelo cinema brasileiro. Isso eu fui aprender depois por conta própria.

Quando os militares derrubaram João Goulart (1919-1976), o então presidente democraticamente eleito, o cinema brasileiro vivia um importante momento de sua história. ‘O Pagador de Promessas’, de 1962, escrito e dirigido por Anselmo Duarte (1920-2009) e baseado na peça teatral homônima de Dias Gomes (1922-1999), havia ganhado a Palma de Ouro no Festival de Cannes, e o Cinema Novo havia acabado de nos brindar com três clássicos eternos da nossa cinematografia: ‘Vidas Secas’, de 1963, escrito e dirigido por Nelson Pereira dos Santos e baseado no livro homônimo de Graciliano Ramos (1892-1953), ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, de Glauber Rocha (1939-1981) e ‘Os Fuzis’, de Ruy Guerra, ambos de 1964. ‘Vidas Secas’ e ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ foram indicados à Palma de Ouro com grande repercussão internacional, enquanto que Ruy Guerra receberia o Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim por ‘Os Fuzis’.

O Cinema Novo, movimento iniciado ainda na década de 1950 e formado por artistas de esquerda, resultou no maior engajamento político da filmografia nacional. A vida precária no sertão e nas favelas, questões raciais e sociais, a fome e a miséria, foram fortemente denunciados e debatidos em dezenas e dezenas de filmes. Com o golpe militar, esses longa-metragens e seus realizadores passaram a ser perseguidos e censurados. Glauber Rocha, maior nome do movimento, foi exilado.

O Cinema Marginal surgiria nesse meio tempo e, enquanto os cinemanovistas eram perseguidos por sua forte ideologia política, os marginais eram censurados por criticarem o comportamento moralista. Os filmes eram verdadeiramente retalhados e cineastas como José Mojica Marins, que não fazia parte de nenhum dos dois movimentos, foram algumas das maiores vítimas da repressão. Marins teve de cortar dezenas de cenas e falas em seus filmes, chegando até mesmo a modificar finais para conseguir lançá-los. Assim como ‘Terra em Transe’, de 1967, de Glauber, seu longa-metragem ‘Ritual dos Sádicos’, de 1969, foi proibido em todo o território nacional, não chegando nem a ser lançado nos cinemas por ter quase todas as suas cópias apreendidas e queimadas. Recuperado em 1982, foi exibido apenas em mostras e festivais com o título de ‘O Despertar da Besta’. Falido, Mojica teve que dirigir filmes pornôs para não morrer de fome, o que destruiu sua carreira. Na década de 1990 foi redescoberto pelos americanos e conseguiu voltar a dirigir seus filmes de terror, mas o estrago já estava feito. Uma carreira que tinha tudo para ser meteórica foi minada pela censura da ditadura militar.

Em 1964, Eduardo Coutinho (1933-2014) ainda era um diretor de longas de ficção. Ele estava realizando na Paraíba o filme que contaria a história de João Pedro Teixeira, líder camponês da região, assassinado em 1962. O cineasta já estava filmando há duas semanas quando parte da equipe foi presa sob a alegação de comunismo. A produção foi interrompida e Coutinho teve que voltar a trabalhar com jornalismo. Somente dezessete anos depois o trabalho foi retomado, dessa vez, colhendo depoimentos dos camponeses que trabalharam nas primeiras filmagens, com foco principal na história da viúva de João Pedro, dona Elizabeth Altino Teixeira que, desde 1964, teve que viver na clandestinidade, separada dos filhos. Lançado em 1984, ‘Cabra Marcado Para Morrer’ é até hoje o melhor e mais importante documentário brasileiro de todos os tempos.

Somente em 1975, com a abertura política, os filmes conseguiram uma liberdade maior para abordar temáticas que não agradavam ao governo, sendo lançados com poucos ou até mesmo nenhum corte. Por ter um público infinitamente maior que o do cinema, a censura voltou sua atenção para a televisão. No entanto, mesmo os filmes liberados sem cortes eram censurados quando transmitidos na TV. ‘Pixote: A Lei do Mais Fraco’, de 1980, do diretor Hector Babenco (1946-2016), só foi liberado para a telinha cinco anos depois e com trinta e oito cenas censuradas. Com o fim do regime militar, a censura acabou e os filmes dessa época puderam ser assistidos na íntegra em todo o território nacional.

Os vinte e um anos do regime militar foram o período mais sombrio já vivido pelas criações artísticas brasileiras, um verdadeiro desprezo pela informação e liberdade de expressão. Ao ler essas histórias, parece tudo muito absurdo, mas estamos de fato repetindo o passado. Temos o Congresso mais conservador desde 1964, ano do golpe militar. Hoje, assim como há cinquenta e dois anos atrás, vivemos mais um golpe, dessa vez, parlamentar, em que 367 deputados e 55 senadores anularam 54,5 milhões de votos. A imprensa, assim como em 1964, apoiou o golpe. Em 2013, apenas quarenta e nove anos depois, a Rede Globo se desculpou publicamente, classificando seu apoio ao golpe militar como um erro. No futuro, ela e tantos outros veículos de imprensa haverão de se desculpar novamente. Só espero que não demore outros quarenta e nove anos.

Todos os absurdos que eu lia nos livros de História começam a se repetir. Primeiro um golpe parlamentar derruba Dilma Rousseff, nossa presidenta democraticamente eleita. Depois, Michel Temer, em seu primeiro pronunciamento ao assumir o cargo, diz à nação brasileira: “Não fale em crise, trabalhe!” Qualquer semelhança com o “Brasil, ame-o ou deixe-o” não é mera coincidência. Depois, decreta o fim do Ministério da Cultura (recriado após calorosos protestos da classe artística). Não deu nem muito tempo para comemorar a volta do ministério quando seu novo ministro, Marcelo Calero, simplesmente decidiu exonerar a presidente da Cinemateca Brasileira, Olga Futemma, juntamente com outros quatro técnicos da instituição. A Cinemateca é responsável pela preservação da produção audiovisual brasileira. Dias depois, após forte apelo da classe cinematográfica, o Ministério da Cultura voltou atrás e manteve o emprego de Olga e dos outros quatro funcionários.

Nesse meio tempo, a equipe do filme ‘Aquarius’, do diretor Kleber Mendonça Filho, protestou contra o impeachment da presidenta Dilma no tapete vermelho do Festival de Cannes, em que concorreu a Palma de Ouro depois de oito anos sem um representante brasileiro na disputa oficial. O último filme nacional a concorrer ao prêmio havia sido ‘Linha de Passe’, de Walter Salles e Daniela Thomas, em 2008. O ministro Calero criticou o protesto e disse que os membros da equipe do filme “estão comprometendo [a imagem do país] em nome de uma tese política, e isso é ruim. Eu acho até um pouco totalitário, porque você quer pretender que aquela sua visão específica realmente cobre a imagem de um país inteiro. Eu acho que a democracia precisa ser respeitada e acho que é um desrespeito falar em golpe de Estado com aqueles que viveram o golpe realmente, o de 1964. Pessoas morreram. E as pessoas esquecem isso. Então eu acho [o protesto] de uma irresponsabilidade quase infantil”. Sônia Braga, que interpreta a protagonista do filme, rebateu: “Como pode um Ministro dizer que um ato democrático como o nosso é a representação de um País inteiro? Isso é desconhecimento do que significa plena democracia. Se estivéssemos falando em nome de todos não precisaríamos, evidentemente, fazer o ato. Uma coisa é certa: estamos juntos. O Ministro da Cultura ofendendo artistas é inadmissível. O senhor está nesse cargo para dialogar, para nos ajudar, para fazer a ponte com quem nos explora. A propósito, as críticas para Aquarius foram fabulosas. Quatro estrelas em jornais franceses, italianos, poloneses, russos e três citações no The New York Times. Ponto grande para a imagem da cultura brasileira no exterior. Senhor Ministro, não podemos perder as nossas conquistas. Sobretudo a mais importante delas, o respeito”. Desde então, o filme vem sofrendo uma forte perseguição política.

A repressão ao longa só ficou ainda mais evidente quando o Ministério da Justiça o proibiu para menores de dezoito anos, alegando conter situações sexuais complexas. Assisti ao filme e considerei a classificação um abuso. As três cenas de sexo de ‘Aquarius’ duram cada uma menos de trinta segundos. Filmes recentes do cinema nacional, como ‘Tatuagem’, de 2013, escrito e dirigido por Hilton Lacerda, e ‘Boi Neon’, de 2016, escrito e dirigido por Gabriel Mascaro, possuem longas cenas de sexo explícito e foram classificados como impróprios para menores de dezesseis anos. Usando esses exemplos como argumento, Silvia Cruz, sócia da distribuidora Vitrine Filmes, em uma reunião com Gustavo Marrone, secretário nacional de Justiça e Cidadania, pediu a reconsideração da classificação estabelecida. O Ministério da Justiça aceitou o pedido de revisão feito pela distribuidora e o filme acabou lançado como impróprio para menores de dezesseis anos. Em 1964, ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ foi lançado sem cortes, no entanto, foi proibido para menores de dezoito anos. Quem já viu o filme de Glauber sabe o quão isso é absurdo. Quem assistir ‘Aquarius’ também vai considerar a classificação do filme bastante incoerente. Todos sabemos que uma classificação máxima prejudica muito a vida de um filme, que acaba por ter seu leque de público muito reduzido, prejudicando inclusive sua arrecadação com bilheteria, e é justamente isso que o governo está tentando fazer: evitar que as pessoas assistam ao novo filme de Kleber Mendonça Filho. Na França, por exemplo, a produção recebeu a classificação livre para todos os públicos.

Até agora, ‘Aquarius’ conseguiu reverter bem as perseguições que o Ministério da Cultura tem feito contra o longa. Nos primeiros quatro dias de exibição, o filme conseguiu uma bilheteria de cinquenta e cinco mil espectadores, sendo o melhor lançamento da semana em média por sala. No entanto, há um último desafio a ser vencido: ser o representante brasileiro na disputa do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Para a maioria dos profissionais, cinéfilos e críticos nacionais e internacionais, ‘Aquarius’ é o grande favorito, todavia, o Ministério da Cultura ainda tem mais uma carta na manga: o crítico Marcos Petrucelli (da rádio CBN e do site e-Pipoca), anunciado como integrante da comissão responsável pela seleção do representante nacional no Oscar. Petrucelli vem criticando duramente ‘Aquarius’ e especialmente seu diretor, Kleber Mendonça Filho, desde sua passagem no Festival de Cannes. A nomeação de Petrucelli (que confessou não ter visto o filme) é uma clara tentativa do governo de tirar a vaga do longa com o intuito de evitar mais um protesto político de sua equipe com repercussão internacional. Após a polêmica, dois integrantes, a atriz Ingra Lyberato e o diretor Guilherme Fiúza Zenha, se desligaram da comissão, sendo substituídos por Carla Camuratti e Bruno Barreto. Adriana Rattes, Luiz Alberto Rodrigues, George Torquato Firmeza, Paulo de Tarso Basto Menelau, Silvia Maria Sachs Rabello e Sylvia Regina Bahiense Naves são os demais integrantes da comissão. Em protesto, os diretores Gabriel Mascaro e Anna Muylaert retiraram da disputa seus filmes ‘Boi Neon’ e ‘Mãe Só Há Uma’, respectivamente.

O longa de Kleber Mendonça Filho concorrerá com outros dezesseis filmes para representar o Brasil no Oscar: ‘A Bruta Flor do Querer’ (Andradina Azevedo, Dida Andrade); ‘A Despedida’ (Marcelo Galvão); ‘A Hora e a Vez de Augusto Matraga’ (Vinícius Coimbra); ‘Até Que a Casa Caia’ (Mauro Giuntini); ‘Campo Grande’ (Sandra Kogut); ‘Chatô – O rei do Brasil’ (Guilherme Fontes); ‘Mais Forte Que o Mundo – A História de José Aldo’ (Afonso Poyart); ‘Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil’ (Belisário Franca); ‘Nise – O Coração da Loucura’ (Roberto Berliner); ‘O Começo da Vida’ (Estela Renner); ‘O Outro Lado do Paraíso’ (André Ristum); ‘O Roubo da Taça’ (Caíto Ortiz); ‘Pequeno Segredo’ (David Schürmann); ‘Tudo Que Aprendemos Juntos’ (Sérgio Machado); ‘Uma Loucura de Mulher’ (Marcus Ligocki Júnior); ‘Vidas Partidas’ (Marcos Schechtman). Nosso representante será anunciado na próxima segunda-feira (12/09), em cerimônia na Cinemateca Brasileira, em São Paulo.

Em seu livro ‘Revisão Crítica do Cinema Brasileiro’, Glauber Rocha dizia que a luta do Cinema Novo era contra a chanchada e o trust americano, e que era preciso salvar o cinema independente: “temos de salvar o cinema independente, temos de construir o cinema brasileiro com os independentes. Somente assim os diretores terão liberdade para criar filmes novos. […] Tudo é muito claro: o que se precisa é a união dos independentes contra o trust americano – a primeira batalha foi interna, contra a chanchada. A segunda é maior, é uma luta igual às outras da indústria brasileira e mais do que nunca, agora, este amadurecimento político de um povo necessita da legenda: o cinema é nosso, como no caso do petróleo.” O Cinema Novo, de fato, conseguiu derrubar a chanchada, mas nunca vencemos a invasão americana. Fosse hoje, Glauber diria que a luta deveria ser contra a comédia pastelão (a chanchada atual), a invasão americana e o boicote do governo ilegítimo.

O cinema é nosso, assim como todas as outras formas de expressão artística. Não podemos deixar que censores virjões tramem boicotes a obras de arte bem debaixo do nosso nariz. É preciso abrir os olhos: a mídia quase sempre está contra nós e suas crias, como Reinaldo Azevedo, da “Revista” Veja, sempre escreverão barbaridades como as que ele escreveu: “o dever das pessoas de bem é boicotar Aquarius”. Bem, confesso que não boicotei, assisti e gostei muito. Estou convicto de que vi um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos. A ideia que os golpistas fazem de moral e bons costumes aos meus olhos são conservadoras e preconceituosas, um retrocesso sem fim. Querem voltar para a idade da pedra. Pessoas do “mal”, uni-vos! Vejam ‘Aquarius’!

mãos que não escrevem

Sou fascinado por manuscritos. Sempre que vou a alguma exposição ou retrospectiva em homenagem a algum(a) escritor(a), procuro por eles. A última exposição desse gênero que tive a oportunidade de prestigiar foi a Múltiplo Leminski, dedicada ao escritor e poeta curitibano Paulo Leminski (1944-1989). Além dos seus manuscritos, a mostra reuniu mais de mil objetos pessoais, entre fotos, livros, pinturas, textos datilografados, vídeos e filmes. Recentemente, li ‘Menino de Engenho’, de José Lins do Rego (1901-1957). Minha edição, que é de 1992, apresenta o manuscrito da última página do livro ao final do volume. Tal registro vem acompanhado do seguinte texto: […] para decifrar a quase ilegível letra de José Lins, colamos a ‘tradução’ nas linhas respectivas. “Quase ilegível” é elogio, pois salvo uma ou duas palavras, eu não consegui entender nada dos garranchos do escritor paraibano. Apresento abaixo uma foto que fiz da página com o manuscrito, mas aconselho quem ainda não leu que não veja com atenção, pois contém revelações de enredo.

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Após o término da leitura, fiquei pensativo. A maioria dos escritores contemporâneos não deve escrever mais à mão, preferindo digitar em seus computadores. Aposto que muitos autores só utilizam a caneta em sessões de autógrafo – que um dia ainda hão de ser totalmente substituídas por sessões de selfies. Suponho que, daqui a algumas décadas, quando organizarem mostras em homenagem a eles, não haja nenhum manuscrito. Os exemplares das primeiras edições impressas de seus livros talvez se tornem os documentos mais valiosos dos futuros escritores. Não os condeno, pois eu mesmo não escrevo mais à mão. É muito mais prático digitar, posso reescrever uma frase na hora que eu quiser, sem ter de apagar o que já foi posto com borracha ou riscar as linhas com caneta ao escrever outra coisa por cima. Ainda posso inserir palavras novas ou até mesmo frases inteiras no texto redigido sem precisar fazer isso na borda da folha. Sem contar o que para mim é a maior vantagem: a rapidez. Passaria horas escrevendo à mão o que digito em alguns minutos. Digitando, consigo acompanhar meu raciocínio, enquanto que à mão, a velocidade da escrita não respeita a do cérebro: acabo deixando de colocar no papel o que estou pensando naquele momento, resultando em um acumulo de ideias que, consequentemente, acarreta o esquecimento de algumas delas, me forçando a pensar novamente o que devo escrever. Com o auxílio do teclado, praticamente consigo digitar o que penso em tempo real.

Sempre fui um militante da escrita eletrônica por entender que quanto menos papel for usado, melhor será para o ecossistema, pois, mesmo que seja oriundo de reflorestamento, o solo e a água não deixam de ser usados. Sei que a geração de energia elétrica afeta o meio ambiente, mas o desmatamento de árvores também é muito nocivo à natureza. A combinação da escrita eletrônica com a utilização de energia sustentável é o ideal. Porém, eu ainda não havia percebido que estamos caminhando para a extinção em massa dos manuscritos. Em um futuro próximo, além da morte desses documentos de grande valor histórico, poderemos assistir até mesmo ao fim do ensino da chamada “escrita à mão”. Tudo ao nosso redor está trabalhando em função disso, até nossas assinaturas em documentos estão ficando cada vez mais raras, já que a biometria digital está sendo implantada em todos os lugares: além dos bancos e das votações eleitorais, eu já havia usado a biometria no colégio (para o controle da entrada e saída dos alunos), na academia e na autoescola. Sem contar que a prova teórica do exame de CNH foi realizada no computador. Não está muito distante o dia em que todos os vestibulares também serão realizados dessa forma, com o aluno recebendo o resultado logo após o término da prova. Para usar carteirinha de estudante também já está sendo preciso fazer a biometria facial. Temo que, muito em breve, todo e qualquer estabelecimento cobrará nossa identificação e, finalmente, cada movimento nosso será monitorado ao bel-prazer do Sistema.

Alguns países do primeiro mundo já estão deixando de ensinar a letra cursiva, cobrando dos alunos apenas o aprendizado da letra de forma e substituindo o velho caderno de caligrafia por tablets e computadores. As crianças aprendem a reconhecer as letras escritas de forma cursiva, mas não são mais ensinadas a reproduzi-las. Nos últimos anos as crianças estão apresentando cada vez mais dificuldade em aprender a escrita de mão, entretanto, com o crescente contato com as novas tecnologias, estima-se que um terço dos bebês usa smartphones e outros aparelhos digitais antes mesmo de aprender a andar e a falar.

No entanto, alguns pais estão preocupados, acreditando que o fim do ensino da letra de mão pode prejudicar seus filhos. A discussão divide especialistas: de um lado estão os que defendem que a escrita é importante para desenvolver a psicomotricidade fina, fundamental para o desenvolvimento psicomotor, pois quanto mais estímulos o cérebro recebe, mais sinapses ele faz, aumentando sua capacidade, e o uso das mãos têm grande influência no desenvolvimento das sinapses; do outro lado, estão aqueles que defendem que, mesmo com o fim do ensino da escrita de mão, as habilidades motoras das crianças continuam sendo exercitadas com o manejo de smartphones, tablets, videogames e computadores. Estes últimos também argumentam que as habilidades motoras podem ser treinadas nas disciplinas de desenho e pintura. Não sou nenhum especialista para conseguir justificar a importância de escrever à mão, mas sei que se cada vez mais países desenvolvidos aderirem ao fim da letra cursiva, logo essa medida também deverá estar sendo implantada nos países emergentes, e aqui, onde mal temos direito à educação, não teremos aulas de desenho e pintura para suprir o desenvolvimento psicomotor das crianças.

Aprendi a ler e a escrever aos seis anos de idade e recordo bem da alegria que senti no dia em que a professora me pediu para escrever a palavra “lago” na lousa e não errei. Sempre elogiaram a beleza da minha letra grande e redonda, mas hoje ela não é mais a mesma. Atualmente estou lendo ‘Revisão Crítica do Cinema Brasileiro’ de Glauber Rocha (1939-1981) e, quando me debruço sobre livros que tratam do cinema, costumo fazer anotações em algum caderno, pois nunca, em hipótese nenhuma, risco um impresso. Havia certo tempo em que eu não lia alguma obra acerca da sétima arte e havia mais tempo ainda em que eu não fazia anotações. Acredito que escrever é como andar de bicicleta: quem aprende, nunca esquece, mas quando não praticamos, sofremos um pouquinho para voltar a dominar o guidão. Quando fui fazer as anotações, senti a caneta correndo rápido demais, foi preciso algumas linhas para me familiarizar novamente com aquele objeto.

Não recordo de ter tido muita dificuldade em aprender a escrever, pois a professora que me alfabetizou era tão rigorosa que com certeza haveria feito disso um trauma na minha infância. De certa forma, me lembro de uma única ocasião em que fiz um teste de caligrafia e a professora me mandou refazer várias vezes porque minha letra estava feia. Os alunos que terminavam podiam ir para o recreio. Fiquei vendo todos os colegas brincando no pátio e eu ali, preso no teste de caligrafia. Reescrevi tantas vezes que a folha foi ficando cada vez mais fina de tanto apagar com a borracha, até chegar ao ponto de rasgar em algumas partes. Por fim, acabei chorando e as lágrimas borraram tudo ainda mais. Não lembro se consegui ir para o recreio, minha memória só chega até esse ponto da lembrança.

Que benefícios o ensino da letra escrita me trouxe, eu não sou capaz de dizer. Talvez, aos seis anos de idade, adorasse receber a notícia de que não precisaria aprender a escrever, e olha que, no meu tempo, as crianças ainda não possuíam celulares – o meu primeiro aparelho eu só fui ter aos catorze anos. Admito que a escrita cursiva exige muita coordenação motora e que aprender a desenhar as letras é um processo demorado. É como se fossemos alfabetizados duas vezes, aprendendo a ler as letras e depois a reproduzi-las. Todavia, hoje eu optaria por ter aprendido a escrever, e acredito que o ideal seria a junção do ensino da letra de mão com o aprendizado das novas tecnologias. Uma não precisa substituir a outra, embora o já esteja fazendo sem que percebamos. No dia a dia, não necessito mais carregar um bloquinho de notas juntamente com uma caneta (que sempre periga estourar dentro do bolso) ou mandar bilhete para ninguém, pois uso o celular para fazer anotações e os aplicativos de mensagens instantâneas para enviar algum recado.

Com o fim do ensino da escrita cursiva, as crianças só serão capazes de escrever em letras de forma, pois são mais fáceis de reproduzir. Em uma sociedade cada vez mais prática, as pessoas defendem que, se não usam algo, não há porque perder tempo aprendendo. O mais irônico nessa história toda é que as variantes cursivas foram desenvolvidas durante a Idade Média para permitir uma escrita manual mais rápida, pois é possível alcançar uma velocidade de escrita maior quando se usa o método clássico de passar de uma letra a outra sem levantar a caneta do papel.

Reconheço que a tecnologia tem força suficiente para dar fim à escrita de mão, e saber que existe a possibilidade dos meus netos ficarem intrigados ao me verem escrevendo no papel, prática usada há cerca de sete mil anos, é um pouco assustador. Por um longo período, usaram o termo “pré-história” para dividir o tempo em antes e depois da invenção da escrita como registro da realidade. Novas formas de contar a história hão de nascer com o desenvolvimento feroz da informática e talvez um dia também sejamos pré-alguma coisa.

Quando os arqueólogos do futuro (se é que ainda se chamarão assim) ou até mesmo seres de outro planeta em um possível período pós-apocalíptico procurarem vestígios de nossa civilização aqui na Terra, além de fósseis, encontrarão muitos fragmentos de computadores, tablets e smartphones. Haverão também muitos muros grafitados que dirão mais coisas sobre nós do que vosmecê imagina (a arte do grafite é uma espécie de pintura rupestre moderna). Talvez ainda encontrem restos de manuscritos, que poderão ser os vestígios mais preciosos da nossa civilização, pois a letra de alguém diz muito sobre sua personalidade, o que ainda não é possível estudar através da digitação.

vinte e três

TEXTO-SOMA

Aparentemente, o WordPress nos notifica sempre que publicamos dez novos textos. Pelo menos foi assim comigo. Se ele vai continuar notificando com o passar do tempo, eu já não sei. É importante começar o texto de hoje falando isso porque se não fosse pela notificação de que o texto “Segunda-feira” havia sido o vigésimo a ser publicado aqui, muito provavelmente vocês não estariam lendo esta postagem da forma que ela está. Esse é o texto de número vinte e três do Satãnatório e, como esse é o meu número favorito, resolvi fazer algo especial (com a notificação do WordPress, consegui me organizar para escrevê-lo). Em 1968, durante as filmagens de ‘O Bandido da Luz Vermelha’, Rogério Sganzerla escreveu um manifesto chamado Cinema Fora da Lei, em que ele dizia que seu filme era um “filme-soma”, isto é, fusão e mixagem de vários gêneros: musical, documentário, policial, comédia, chanchada, ficção científica. Foi então que eu resolvi chamar esse post especial de “texto-soma”, um texto sobre vários assuntos, num total de vinte e três textículos. Mas veja bem, eu disse número favorito e não da sorte, pois não acredito em sorte e azar. Esclarecido o caso, podemos dar prosseguimento.

MACHISTAS NÃO PASSARÃO

Nós homens não temos a exata dimensão do que é o machismo. Não sabemos o que é ser mulher e nunca vamos saber. Nosso papel na sociedade é reconhecer que, querendo ou não, nós somos sim privilegiados. Desde que mundo é mundo, elas sofrem com os padrões machistas e patriarcais, e por isso não temos direito nenhum de atrapalhar seus movimentos. Não devemos decidir as prioridades delas, nem como suas lutas devem ocorrer. Mas sim apoiá-las, dar ideias, disseminar seus conhecimentos feministas, ajudá-las a buscar informações e aprender a não fazer uso de estruturas socialmente impostas para oprimir. Escolher ficar calado e não fazer nada é se posicionar contra. Se não lutamos com elas, estamos do lado do opressor. E se você tá cansado de ouvir falar em machismo, imagina elas que vivem com isso a vida toda. É importante que elas falem. O feminismo é bom para todos, pois o machismo oprime os homens também. Nos impossibilita de chorar, de abraçar e beijar nossos amigos homens e de tantas outras coisas que não vou entrar em detalhes porque isso seria uma tentativa de chamar a atenção para nós tomando seu lugar de fala.

SER GAY TUDO BEM, MAS SER AFEMINADO…

tudo bem também! Ninguém tem que se importar com a forma de comportamento dos outros. Chega de acharem que existem características unicamente masculinas ou femininas. Não existem características certas ou erradas, seja você lésbica, gay, bi, trans ou hétero. Se já é difícil lutarmos contra a homofobia, não faz sentido nenhum que exista esse preconceito idiota muitas vezes disseminado entre os próprios gays. Para os discretos e afeminados: chega desse complexo de inferioridade por ser gay. Não tem que olhar torto para o gay que não é machão. Os afeminados disseram não a “proteção” do armário para lutar cara a cara contra o preconceito. Quantos deles morreram para que pudéssemos falar abertamente sobre homofobia? É uma questão de igualdade; aqueles que não fazem uso dos estereótipos masculinos também devem ser respeitados.

SOBRE TRENS

Moro praticamente em frente a uma estação ferroviária. Fora essa coincidência geográfica, eu sempre considerei o trem o transporte público mais cinematográfico de todos. Lembro da explosão do trem em ‘O Assalto ao Trem Pagador’, do final de ‘Pixote: A Lei do Mais Fraco’ com Pixote caminhando sobre os trilhos, dos passeios de Macabéa ao metrô aos finais de semana em ‘A Hora da Estrela’, a estação de trem em que Dora trabalha em ‘Central do Brasil’, o encontro de Rosa e Bernardo em ‘O Lobo Atrás da Porta’, e meu primeiro curta-metragem (amador) que também tinhas cenas em uma estação ferroviária. Não foi proposital. Na verdade foi algo que eu só vim perceber muito tempo depois. Quando vejo cenas em ônibus fico imaginando o quanto elas seriam melhores se fossem filmadas em trens.

COLECIONA-DOR

Já colecionei de tudo. De chaves a canetas. De bolas de gude a DVDs de filmes. Mas, sendo um capitalista sem capital, hoje não me permito colecionar nada. A última delas foram os filmes, mas a substituição do DVD pelo Blu-ray me deixou desanimado a recomeçar tudo de novo. E as constantes notícias de que novas tecnologias vão substituir o Blu-ray em um futuro próximo só me desanima ainda mais. Embora esteja sempre dando um jeitinho de aumentar minha coleção de livros, não acho que sou um colecionador; é como se fosse uma necessidade fisiológica ter sempre algo novo para ler. Então não coleciono nada concreto, mas decididamente sou um colecionador de palavras. Estou sempre anotando vocábulos novos e esperando uma oportunidade para usá-los.

PERDOEM A OUSADIA DE PUBLICAR UM POEMA DE MINHA AUTORIA

Posso ver uma onda de auto-boicotes
Umas espécies novas e acrescidas de auto-inimigos
se auto-trapaceando em departamentos sérios
Fazendo vasectomias intelectuais
e se tornando dignos de pena
Alguns nem isso

ÍDOLOS

Chega um momento da nossa vida em que descobrimos que nossos pais não são o centro do universo. É quando encontramos para nós outras referências, outras formas de se comportar, pensar, falar e se vestir. Infelizmente nasci em uma família que não consome cultura, então minhas referências além-mundo eram mínimas. Tive que procurar tudo por conta própria. Foi terrível até conseguir convencê-los de que não estava jogando dinheiro fora comprando livros e discos. Mas fico pensando pelo lado positivo: eu não fui influenciado por um gosto musical e literário de qualidade duvidosa.

EU SOU ÍNDIO

Um sonho que eu tinha quando criança era interpretar um índio em alguma peça da escola. Nas duas oportunidades que tive de participar de encenações que tinham índios, as professoras acabaram me escalando para interpretar nossos malditos colonizadores. Sou branco eu sei. Mas na minha inocência de criança eu conseguia me ver como um verdadeiro tupiniquim. É um sonho meu que nunca foi realizado graças a falta de imaginação dessas educadoras.

MÚSICAS DE AMOR NÃO ME REPRESENTAM

Eu me considero um cara romântico. Faço loucuras, surpresas e profundas declarações de amor. Mas não sou fã de músicas românticas. Isso não quer dizer que eu desgoste. Não é isso. Roberto Carlos que o diga. Mas prefiro músicas de protesto, músicas políticas, músicas sobre os mais diversos sentimentos que não seja o amor. O mesmo acontece com o cinema. Gosto e reconheço a qualidade de diversos filmes românticos, mas gosto mesmo é do cinema abertamente político, revolucionário, experimental. A violência cinematográfica me interessa.

CINEMA BRASILEIRO

Não sei se a realidade está mudando de fato ou se são as pessoas ao meu redor que pensam de forma diferente, mas me parece mesmo que os brasileiros estão começando a olhar com outros olhos para o cinema nacional. O que me entristece é que estão fazendo isso tarde demais. Quando já deixaram vários clássicos do nosso cinema passar despercebidos. Já ouvi de muita gente que o cinema brasileiro só tem filme de favela. Sempre que me diziam isso eu pedia para que citassem cinco filmes brasileiros sobre o tema. Nunca conseguiam ir além de ‘Cidade de Deus’ e ‘Tropa de Elite’. Outra que eu já ouvi muito e que nunca mais alguém falou na minha frente foi de que o cinema brasileiro tinha muito palavrão. Essa geração cresceu sem saber (ou sem querer admitir) que quando os filmes chegam ao Brasil para serem dublados, as empresas responsáveis pela dublagem retiram os palavrões ou os suavizavam com xingamentos mais leves. Tudo isso para que o filme possa ser transmitido a tarde e nos horários nobres da TV aberta. Só uma pessoa alienada que continua vendo esse cinema água com açúcar da TV aberta para ter coragem de dizer um absurdo desses. Acho que, com a internet, cada vez mais pessoas começaram a assistir filmes legendados (esse número infelizmente ainda é pequeno) e descobrir toda a “baixaria” do cinema estrangeiro. E que mal há nisso? Nenhum! Isso apenas não pode ser usado como desculpa para dizer que nosso cinema tem mais palavrão que o deles. O cinema internacional produz em uma quantidade muito maior que a nossa, e todos sabem que quantidade nunca foi sinônimo de qualidade. Basta ligar a TV e constatar que boa parte dos filmes estrangeiros transmitidos são horríveis. E ninguém fala que o cinema deles é ruim. De fato produzem obras primas, mas nós também produzimos. O público europeu e americano também é preguiçoso e não gosta de ler legendas. Filme legendado é sinônimo de fracasso de bilheteria no mercado cinematográfico do mundo inteiro. Por termos sido colonizados justamente por um país que nunca teve uma língua dominante, acabamos sendo muitas vezes excluídos do mercado cinematográfico internacional. Mas a crítica internacional e o público estrangeiro que consegue ter acesso aos nossos filmes reconhecem a qualidade do cinema brasileiro. O fato de não termos um Oscar não significa nada. Continuo achando que quem tem que gostar do nosso cinema somos nós brasileiros.

DOCES

Não sei responder quando me perguntam se gosto mais de doce ou de salgado. As duas respostas parecem certas. Acontece que recentemente eu comecei a acreditar que os doces estão vencendo essa disputa. Sou completamente louco por jujubas, e gosto de todas, menos das roxas que eu acredito serem de uva, nunca sei. Mas elas também servem na falta das outras. O leite condensado eu coloco na geladeira, porque tomar ele natural enjoa muito rápido e gelado a sensação é de que não é tão doce, me possibilitando um número maior de colheradas. Sem falar na minha propensão ao vício por amendoins coloridos. Aqueles cobertos de doce. Por que estou falando sobre isso? Não faço a mínima ideia.

REFRIGERANTE

Não bebo refrigerante a mais de dois anos. Eu era completamente louco pelo refrigerante de guaraná. Lembro da sensação maravilhosa que era beber um copo de refrigerante geladinho depois de chegar em casa numa tarde quente. Mas a grande verdade é que depois que decidi parar de beber, não sinto mais nenhuma vontade. Nem fico mal nem de estar em uma mesa onde todos estão bebendo refrigerante.

“SONHOS” RECORRENTES

Ademais, a decisão de não tomar mais refrigerantes me trouxe um sonho recorrente. Sempre me vem durante o sono a imagem de que estou bebendo refrigerante e quebrando minha abstinência que é de quase três anos atualmente. O mais engraçado é que esses sonhos são para mim o pior pesadelo que posso ter. Sonhar bebendo refrigerante hoje em dia é terrível, e são sonhos tão reais que é como se eu sentisse o gosto do refrigerante na minha boca. Sempre acordo nervoso, achando que tudo aquilo aconteceu de fato.

INSÔNIA

Conseguir dormir é que é o problema. Quem disse que a insônia deixa? É só deitar à noite que começo a pensar em tudo. Já penso muito durante o dia e quando deito para dormir é como se eu não tivesse horas suficientes para pensar enquanto estou acordado e precisasse pegar um pouco da hora de dormir para conseguir pensar tudo. É simplesmente horrível. Seria tão mais fácil se viéssemos com um botão de desligar…

SONO PÓS-ALMOÇO

Na medida em que tenho dificuldade em dormir a noite, ironicamente tenho igual dificuldade em me manter acordado depois do almoço. É um sono infernal que se apodera do meu corpo se transformando em um inimigo muito difícil de vencer. O pior é que é normal sentir esse sono. Já li de tudo sobre o assunto procurando suas causas. Já li que a produção de suco gástrico que faz parte do processo de digestão faz com que o cérebro diminua a atividade de alerta. Que refeições ricas em açúcar fazem com que a concentração de glicose suba no sangue, o que também leva a diminuição do estado de alerta do cérebro. Que na hora do almoço o nosso corpo automaticamente se prepara para dormir e o sono acumulado contribui para isso. Mas segundo as minhas pesquisas, aparentemente, o maior responsável é a concentração de fluxo sanguíneo na região do estômago na hora de digestão. Como o sangue conduz oxigênio para o nosso organismo e o cérebro precisa de muito oxigênio para funcionar, a maior concentração de sangue para a digestão faz com que a oferta de oxigênio diminua para o cérebro, o que força a diminuição da nossa atividade. O que só me leva a concluir que eu estou precisando de muito mais sangue no meu corpo, pois meu sono pós-almoço não é humano.

SOU UM CAVALO

Apaixonado que sou pelos costumes populares, não aceito, contudo, que o povo sacrifique uma perspectiva em função de uma alegoria mística.
Glauber Rocha

Na umbanda aqueles que “recebem” os espíritos são chamados de cavalos. Durante a incorporação, o “cavalo” permanece inconsciente, e quem fala através dele é seu “guia”, ou seja, a entidade espiritual a ele associada. Assim como Glauber Rocha, mesmo sem acreditar em deus, sou apaixonado pelos costumes populares e tenho o hábito de dizer que sou um cavalo. Um cavalo intelectual e não espiritual. Não recebo espíritos, mas estou sempre aberto para receber ideologias. Ideias me interessam.

TODO ESCRITOR ESTÁ MORTO

Quando criança eu cheguei a acreditar que todos os escritores estavam mortos. Coincidentemente, todos os livros que caíram nas minhas mãos eram antigos e seus autores já falecidos. Lembro que foi espantoso quando também criança eu vi um livro que tinha a biografia de um autor ainda vivo. Foi assim que descobri que pessoas jovens também escreviam, já que eu acreditava que só pessoas muito velhas e sábias eram capazes de escrever livros.

TUTORIAL DE COMO MATAR MOSQUITO

Eu ia escrever aqui um tutorial de como matar mosquito, mas já falei tanta besteira que resolvi deixar para lá. Próximo.

SEMPRE FOMOS BONS DE CONVERSAR

Namore alguém com que você goste de conversar. Vai por mim, sexo nenhum, por melhor que seja, segura relacionamento. Não basta ser só bom de cama, tem que ser bom de conversa também.

LIVROS

Sempre estou lendo mais de um livro. O segredo é não misturar os gêneros literários para que não vire tudo uma bagunça na sua cabeça. Então consigo ler um romance e uma biografia, os quais eu me dedico mais. Intercalo-os com livros teóricos de cinema, roteiros, crônicas e poesia. O de poesia fica no aguardo de um mini-tempo livre em que não dá para ler um capítulo do romance ou da biografia, então nesse pequeno espaço eu leio um poema. O livro de crônicas ou qualquer livro de textos curtos fica no limbo (leia mochila) para que seja lido no ônibus ou nas filas da vida. Então eu sempre vou ter mais de uma resposta quando me perguntarem o que estou lendo. O lado negativo é que você convive muito tempo com os mesmos livros. Não se dedicando exclusivamente a um você acaba demorando mais para terminar a leitura. O lado bom é que quase sempre eles costumam acabar juntos. Então você termina uns cinco livros muito próximos uns dos outros e já pode selecionar na estante os outros cinco para a próxima empreitada.

LEITURA ATUAL

Dentre as minhas leituras atuais está o livro ‘Tropicalista Lente Luta’ do Tom Zé. Deixo com vocês o primeiro parágrafo da página 23 do livro. Quem se sentir à vontade, também pode deixar nos comentários a primeira frase/parágrafo da página 23 do livro que está lendo atualmente.

uma ao lado da outra. Lia-se embaixo da primeira: “Esta foto está muito suja. Veja quantos objetos e peças estão perto da pessoa fotografada. É necessário limpar o campo.”
Tom Zé em ‘Tropicalista Lenta Luta’

A PROCURA DO ESCRITOR FAVORITO

Tenho cantor favorito, banda favorita, filme favorito, cineasta favorito, mas não tenho nem livro nem escritor favorito. E é terrível não saber responder a essa pergunta. Já achei que ‘Dom Casmurro’ fosse meu livro favorito, mas não é, embora seja um dos. Em algum momento da vida já achei que Machado de Assis, Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa e Clarice Lispector fossem meus escritores favoritos. Depois da descoberta dos livros violentos de Paulo Lins e Rubem Fonseca, também achei que eles fossem meus favoritos. Mais recentemente me apaixonei pela escrita do Moacyr Scliar e por ai vai. Contudo, entre eles e tantos outros que eu li, acho que nunca existira uma resposta absoluta, embora responder com um desses citados não me pareça errado.

CARTA AO LEITOR

Antes de existir computador as pessoas tinham como viver, não é não? Hoje parece que além do oxigênio agente tem que respirar informação. Todo mundo sabe de tudo mas é tudo superficial, a gente até lê tudo na hora mas não sabe a dor do monge que fez imolação no Nepal.
Trecho da música “Segredos da Levitação” de André Abujamra

Me sinto muito constrangido em roubar o tempo de você Leitor com meus textos. São tantos canais na TV, tantas páginas na internet, tantas redes sociais e aplicativos. Como André Abujamra diz em sua música ‘Segredos da Levitação’: “a gente até lê tudo, mas é tudo superficial”. O que assistir? O que ler? O que ouvir? O que acessar? Como ser seletivo? É tanta coisa que eu posso morrer sem ter visto o meu verdadeiro filme favorito. Sem ouvir uma banda que poderia me agradar mais do que qualquer outra. É muito material e pouco tempo. Pitty escreveu muito recentemente um texto bem interessante em seu blogue sobre não querer contribuir para o entulho do que ela chama de “mar de links”. Meu constrangimento nasce disso. Com tantas informações para assimilar para quê contribuir ainda mais com esse montante? Cada filme/livro/disco lançado já nasce inflacionado. Mas como ficar calado nessa zorra? Se todos falam, eu também quero falar e ser ouvido. No entanto, sou eu quem escolho minhas prioridades, assim como vocês escolhem as suas. E como vocês me leem por livre e espontânea vontade, eu prefiro ficar com essa falsa sensação de consciência tranquila. Me despeço aqui desses vinte e três mini-textos que acabaram formando um aterro ideológico de ideia nenhuma. No fundo eu desejo que você tenha desistido de ler ainda no primeiro parágrafo. Até a próxima! Abraçaço.

glauber rocha em 23 imagens

Não sei vocês, caríssimos, mas tenho muita dificuldade em falar sobre coisas que gosto. É complicado traduzir em palavras o que sinto, o que não acontece quando tenho que falar sobre as coisas que não gosto. Quando não gosto, os motivos estão sempre muito claros. A resposta na maioria das vezes está na ponta da língua e expressar isso é fácil. Mas quando me perguntam por que gosto de tal músico ou tal livro é difícil dar uma resposta. Por mais que eu fale me parece que nunca consigo responder a altura do meu amor pela obra ou pessoa. Se tento ser objetivo, me parece que a resposta nunca é satisfatória para quem pergunta e se preparo um discurso mais elaborado, tenho a sensação de que não passo confiança. Coisa de geminiano (ou não), vai entender.

Se você Leitor acompanha meus escritos desde o início ou não tão desde o início assim, vou tentar deixar mais claro o meu raciocínio. Foi fácil falar aqui no blogue o porquê de não gostar de discos ao vivo, de séries, de acordar cedo, entre outras coisas. Mas quando vou escrever sobre meus grandes ídolos, a coisa fica difícil. Mais difícil ainda é falar do meu cineasta favorito, que se fosse vivo seria hoje meu colega de profissão. É por isso que esse texto é mais sobre minha dificuldade de falar a respeito dele do que um texto sobre ele. Quem foi Glauber Rocha? Eu não sei e acredito que não é possível responder a tão pretensiosa pergunta.

Apontado como o melhor e mais importante cineasta de sua geração, a meu ver ele continua sendo o melhor cineasta daquela e todas as gerações de realizadores brasileiros que vieram posteriormente. Dizem que gostamos mesmo de algo quando queríamos ter feito. E como eu gostaria de ter feito os filmes de Glauber.

O Cinema Novo é um fenômeno dos povos colonizados e não uma entidade privilegiada do Brasil: onde houver um cineasta disposto a filmar a verdade e a enfrentar os padrões hipócritas e policialescos da censura, aí haverá um germe vivo do Cinema Novo. Onde houver um cineasta disposto a enfrentar o comercialismo, a exploração, a pornografia, o tecnicismo, aí haverá um germe do Cinema Novo. Onde houver um cineasta, de qualquer idade ou de qualquer procedência, pronto a pôr seu cinema e sua profissão a serviço das causas importantes de seu tempo, aí haverá um germe do Cinema Novo. A definição é esta e por esta definição o Cinema Novo se marginaliza da indústria porque o compromisso do Cinema Industrial é com a mentira e com a exploração.
Glauber Rocha em ‘A Estética da Fome’

‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ completou cinquenta anos ano passado, e em dois anos será a vez de ‘Terra em Transe’. É fácil ver os dois filmes e fazer uma ligação direta com o período de ditadura militar que o país enfrentava. Mas também é possível fazer uma ponte com a crise política atual. Se em ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, Manuel era o personagem-síntese do povo como massa da manobra, eu vos pergunto: que outro personagem do cinema brasileiro nos traduz hoje melhor que Manuel? O povo continua como massa de manobra. Enquanto a mídia faz cobertura ao vivo dos protestos de impeachment, a Câmara aprova na surdina a redução da maioridade penal. Em ‘Terra em Transe’ o povo de Eldorado não estava pronto para a revolução e quem bate panela pedindo a volta do regime militar também não. Mesmo não tendo votado em Dilma no primeiro turno, e me vendo obrigado a votar nela no segundo por ela ser a menos pior, gostaria de parabenizá-la por ser a primeira a conseguir fazer a classe A colocar as mãos em panelas, mesmo sabendo que é fácil bater panelas que a empregada vai ter que desamassar depois.

Enquanto selecionava as imagens para esse post e me dava conta do quanto Glauber fumava e de como são poucos os registros fotográficos dele se comparados aos outros cineastas de sua época, eu só conseguia pensar nos grandes filmes que ele faria sobre nossa atual situação política se estivesse vivo. Só nos resta ver seus filmes e tristemente constatar que em meio século o Brasil pouco mudou.

Portanto, concluo frustrado esse texto que deveria falar do meu amor por esse cara que junto com Nelson Pereira dos Santos e tantos outros viveram o sonho do cinema brasileiro antes de mim. A sensação é de uma eterna divida de gratidão, em especial a Glauber Rocha que tanto me influenciou e influencia. A ele o meu muito obrigado!

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Não sei quem são os fotógrafos responsáveis pelas fotos, mas se você conhece ou fotografou alguma delas, é só deixar o nome com o número da foto para que sejam devidamente creditados.

como seria o mundo sem a bahia?

Para vocês que leram E se eu não tivesse escrito esse texto?, esse é o que eu posso chamar de parte dois. Vocês hão de me perguntar: mas Jaírlos, você não disse que iria evitar ficar pensando em coisas que não podem acontecer? Sim, eu evito, mas essa pergunta vai muito além de um simples “e se não existisse Bahia?”. É a mesma pergunta feita de um jeito diferente: você Leitor, já imaginou como seria o mundo sem a Bahia?

Eu pergunto, mas nem de longe sou a pessoa mais ideal para responder. Não sou baiano, entretanto tenho um fascínio enorme pela Bahia e só consigo pensar o quanto o mundo perderia sem ela e o quanto o Brasil seria mais pobre. Para começo de conversa, nosso cinema seria muito mais apagado e bem menos respeitado no mundo. O maior cineasta desse país foi e sempre será Glauber Rocha. Já imaginou a filmografia brasileira sem ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ e ‘Terra em Transe’?

E a dramaturgia seria igualmente modesta. Nosso cinema não teria Antonio Pitanga, Geraldo Del Rey e Othon Bastos. E o cinema marginal não teria Helena Ignez, sua maior estrela. A nova geração também perderia grandes nomes como Lázaro Ramos e Wagner Moura. Você consegue imaginar outra pessoa como Capitão Nascimento?

Não teríamos Milton Santos e Carlos Marighella, e nem os escritores Gregório de Matos, Castro Alvez, João Ubaldo Ribeiro e Jorge Amado. Não teríamos Gabriela, nem Dona Flor e nem seus dois maridos. E o que dizer de Tieta? Consegue sentir como o nosso imaginário popular seria bem mais carente?

E quando o assunto é música, caríssimos, o prejuízo seria ainda maior. Só para início de conversa, não teríamos Tom Zé, Caetano Veloso e Gilberto Gil. A pergunta que fica disso é a seguinte: teria existido tropicalismo? E tem mais, todos sabemos do caso da bossa nova com o Rio de Janeiro, é algo que não dá para negar, mas que fica difícil imaginar a bossa nova sem João Gilberto, fica.

Sem esses quatro a música brasileira já não seria o que é, mas a facada não para por aí, ainda temos (ou não teríamos) Dorival Caymmi, Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Carlinhos Brown e Waldick Soriano. E me diga, Leitor(a), o que é que a Bahia tem? Tem Gal Costa, Daniela Mercury, Astrud Gilberto, Ivete Sangalo, Karina Buhr, Maria Bethânia, Margareth Menezes e o que para mim é a cereja do bolo: as bandas de rock.

Muitos só conseguem enxergar os trios elétricos e se esquecem que Raul Seixas, o eterno pai do rock brasileiro era baiano. Além de Marcelo Nova que com o Camisa de Vênus fez história nos anos 80. Mas nem só de glórias passadas vive o rock baiano, além das bandas Cascadura, Vivendo do Ócio e Maglore, temos Pitty, que é a maior representante do rock da atualidade. Ela já está a mais de dez anos nesse posto e parece que ainda vai ficar por muito tempo nele.

Eu sei que eu esqueci de muita gente (alguns intencionalmente), afinal, não dá para passar o dia todo citando nomes e nomes. Eu me limitei a falar de quem gosto e acho que ainda assim deu para ter uma noção do estrago que seria para a nossa cultura. Agora vou me aquietar e prometo tentar não perturbar mais vocês com minhas súbitas crises de “e sismos”. Até a próxima.

Abraçaço