irrealidade virtual

Um conselho sincero: você pode iniciar a leitura desse texto a partir do nono parágrafo sem maiores prejuízos.

Muitas coisas me aconteceram em janeiro, inclusive alguns infortúnios envolvendo meu computador e a internet. Os problemas que tive com o computador nem me deram tanta dor de cabeça quanto os que tive com a internet, mas todos aconteceram ao mesmo tempo em uma semana cheia de compromissos em que eu iria precisar muito do acesso de ambos.

Certo dia, desembarquei do ônibus em uma parada localizada a quatro ruas antes da minha casa para poder caminhar um pouco como faço quase sempre. Logo que desci, ouvi um burburinho na rua de pessoas comentando estarem sem energia elétrica em suas residências. Fiquei tranquilo, pois imaginei que, como ainda estava longe de casa, a falta de energia com certeza não estaria atingido a rua onde moro e, consequentemente, o meu lar. Na rua seguinte, mais pessoas comentavam nas calçadas umas com as outras sobre a falta de energia. Então, durante o trajeto das duas próximas ruas, apurei bem os ouvidos na tentativa de ouvir algum som ligado, o barulho de alguma TV ou até mesmo de um liquidificador. Nada.

Chegando em casa, constatei que a falta de energia era no bairro inteiro e fiquei tranquilo, pois quanto mais ruas são atingidas, maiores são as chances do problema ser solucionado com rapidez. Bebi um copo com água, tirei a roupa e, quando ainda estava debaixo do chuveiro, a energia elétrica voltou. No entanto, não me preocupei em momento algum. Se a falta de energia durasse a tarde inteira, eu sabia muito bem o que fazer: ler. Se no começo da noite ainda estivesse faltando energia, eu dormiria e acordaria durante a madrugada para fazer as coisas que deveria ter feito mais cedo e que necessitavam de eletricidade, isso se ela tivesse voltado – caso não, eu continuaria dormindo na tentativa de diminuir o sono acumulado que eu jamais conseguirei recuperar.

De toda forma, fiquei lendo durante a tarde toda. Como costuma acontecer aqui em casa, quando há quedas de energia, a internet demora um pouco a voltar. Dessa vez, não foi diferente. Quer dizer, foi. Horas depois, a internet ainda não havia voltado e eu saberia que não voltaria mais até receber a visita de algum técnico. Havia chovido forte na noite anterior. Quando acordei, percebi, ainda antes de sair de casa, uma poça de água no chão do quarto, próxima ao computador. Olhei para o teto à procura de alguma mancha de água no forro, mas não havia nada. Desconhecia completamente a origem da poça misteriosa. Fiquei preocupado e corri para ver se meus livros estavam molhados, mas encontrei-os sequinhos. O wi-fi também estava funcionando, o que me levou a crer, mais tarde, quando eu cheguei em casa, que a queda de energia era, de fato, a responsável por ter causado o problema – eu iria descobrir depois que estava enganado.

Liguei para o serviço de atendimento e agendei uma visita com um técnico. Deram-me o prazo de até quarenta e oito horas para solucionar o problema. Em qualquer época do ano, ficar dois dias sem acesso a rede mundial de computadores para mim não é nenhum sacrifício. Entretanto, eu iria filmar um documentário em poucos dias e dependia da internet para fechar todo o cronograma com a equipe, além de fazer umas pesquisas de última hora. Felizmente, o técnico veio no dia seguinte e resolveu tudo. Foi quando eu descobri a origem da água.

Minha internet era à rádio e a água vinha de dentro do cabo que era conectado na torre que ficava em cima da casa. Como a água entrou nele eu ainda não iria ficar sabendo. O técnico retirou a água do cabo e me perguntou se havia ocorrido alguma queda de energia. Respondi que sim e, como eu, ele diagnosticou erroneamente o problema: com a queda de energia, o moldem havia se desconfigurado. Ele reconfigurou tudo e foi embora. Usei a internet normalmente durante o resto do dia e fui dormir. Choveu a noite toda. Ao acordar, a primeira coisa que percebi ao levantar da cama foi o chão mais uma vez molhado com uma poça de água ainda maior que a anterior. A internet estava funcionando normalmente, mas minutos depois ela parou de vez. Eu teria então que resolver tudo com a equipe de filmagem por telefone.

Por falar em telefone, gastei todos os créditos do celular em outra ligação para a central de atendimento. Além de pedir que solucionassem o problema, solicitei a troca da internet à rádio por uma de fibra óptica. Dessa vez, não tive o mesmo fortúnio de antes, pois o técnico só veio no limite das quarenta e oito horas. Ao retirar de cima da casa a torre que capta o sinal, o técnico descobriu um pequeno buraco no cabo, por onde a água entrou e desceu até o meu quarto. Segundo a perícia que ele fez, era a água que estava danificando o cabo e desconfigurando o sinal.

Depois desse dia, não houve mais queda de energia, a internet não voltou a cair, a água não visitou mais meu quarto (embora tenha chovido bastante desde então), e a filmagem aconteceu normalmente. Porém, se você leu até aqui, desde já gostaria de me desculpar por não ter sido mais sucinto – esse é um talento que eu definitivamente não possuo. Dessa forma, tudo o que foi escrito até agora, por mais que tenha consumido metade do corpo do texto, é o que podemos chamar por introdução.

Tudo isso pode não fazer nenhum sentido, mas após esses acontecimentos banais fui acometido por algumas pequenas reflexões. Não é de hoje que a vida virtual vem me preocupando. Já é um fato que a internet está matando em escalas maiores ou menores o consumo de discos físicos, DVDs, livros, entre outras coisas. É possível baixar tudo isso quase sempre de graça, o que ajudou a democratizar o acesso a muitas obras de arte. No entanto, agora é a cultura do download que está sendo morta pelos serviços de streaming.

Nunca gostei de streaming. Quando ele ainda não era moda, grande parte das bandas que curto, disponibilizavam, muitas vezes gratuitamente, seus discos para download. Isso vem deixando de acontecer. Essas mesmas bandas que liberavam seus álbuns agora simplesmente os lançam no Spotfy. O site é bom, admito. Tem, inclusive, me ajudado muito a ouvir os lançamentos dos meus artistas favoritos. O preço a pagar para me ver livre dos anúncios é pequeno, mas não é isso o que eu desejo. Eu quero é ter as músicas no meu computador e no meu celular sem que eu precise ser refém de um wi-fi para ouvi-las, nem que eu tenha que pagar por isso. Quero poder enviá-las para amigos quando me pedirem dicas de músicas, quero poder reproduzi-las no carro e poder levá-las para onde eu for.

Não consumo os dados móveis da minha operadora de celular. Adoto uma filosofia de que nada na internet é tão importante assim para que eu precise dela quando não estou em casa. Quase todos os lugares que frequento possuem acesso a wi-fi, então, tecnicamente, só fico sem internet quando estou na rua me locomovendo de um lugar para o outro. Se estou em um ônibus, prefiro adiantar minhas leituras. Nada é tão urgente que não possa esperar. Se for algo muito sério, alguém vai me ligar.

Também não assino Netflix. O catálogo de filmes, segundo o que meus amigos me falam, não é tão sedutor assim. Não estão lá os filmes que gosto de assistir. Concordo que é bem mais prático fazer um login e assistir a um filme, ao invés de ter que pesquisar na internet e ainda esperar o download terminar – o que às vezes pode demorar bastante. Sem contar a caça por legendas. Sinto que o download de filmes tem caído ainda mais do que o de músicas. Está cada vez mais difícil encontrar torrents ou até mesmo outras formas de download. A pirataria de internet é um assunto complicado, mas qual a outra forma disponível para assistir filmes que não chegam às salas de cinema? Nem estou falando tanto dos filmes estrangeiros, mas do próprio cinema brasileiro mesmo. Só porque não há uma grande procura por determinados títulos, nenhuma empresa se preocupa em vendê-los. Devo me conformar em não assisti-los? É isso que devo fazer? Sinto muito, mas me recuso a proceder assim.

É infinitamente melhor não ter que ocupar a memória do celular ou do computador com músicas e filmes. Todavia, existem os pendrives, que são absurdamente pequenos, e os HDs externos, que muitas vezes são menores que muitos celulares de hoje em dia. O que não dá para aceitar é a segregação dessas obras. Estamos correndo um grande perigo, pois nem tudo está no Spotify e muito menos no Netflix. Essa deve ser a única forma legal de se consumir música e cinema? Os dois são serviços comerciais como qualquer outro. Se não gerarem lucros, eles não vão se interessar por adquirir os direitos de obras que não possuem forte apelo popular. Formas alternativas ao streaming precisam existir. Hoje é o download, amanhã pode ser outra tecnologia, e todas elas devem ser legalizadas para que todos os artistas possam receber por seus direitos autorais (sem que para isso tenhamos que pagar preços abusivos).

Espero estar sendo mais pessimista do que deveria, e acreditar que o download vai resistir. Inclusive, na falta de formas legais de se consumir obras cinematográficas, musicais e literárias, que a pirataria virtual continue fazendo seu serviço de democratização da arte, pois é praticamente isso que ela faz. Os responsáveis por isso são pessoas que na grande maioria das vezes não ganham nada para disponibilizar obras e legendar filmes, além do prazer de compartilhar conteúdo. Sou a favor de pagar por tudo isso que consumo, desde que os filmes que desejo ver estejam nos catálogos dos serviços de vendas e que as músicas que desejo ouvir estejam legalmente disponíveis para download. Quanto à literatura, sou daqueles que acreditam que alguém só lê um livro no computador ou no tablet se realmente não tem condições de comprar (ou porque o título está fora de circulação).

Por fim, sei que sou um romântico, pois quando realmente gosto de um disco, faço questão de adquirir. Já perdi a conta dos CDs que comprei sem nunca ter colocado no aparelho de som. Comprei só para tê-los e, consequentemente, ajudar as bandas que gosto. Só não consumo mais DVDs de filmes porque quase nunca encontro os títulos que gosto disponíveis para comprar. Sobre os livros, espero não viver o suficiente para ver o fim do formato físico, pois se deixarem de existir, eu mesmo irei imprimi-los e encaderná-los.

Ainda sobre livros, eu realmente gostaria que todas as obras de arte fossem como eles. Explico: para ver um filme, eu preciso de um projetor e uma tela, ou um computador, enquanto que, para ouvir música, eu necessito de um aparelho de som ou um celular. Para consumir os livros, eu só preciso deles, pois se estiverem em formato físico, o único suporte que necessito para desfrutá-los são meus olhos. Nesse sentido, os livros são perfeitos, pois as outras formas de arte requerem tecnologia adicional. É como se os livros tivessem sido feitos sob medida para o corpo humano: um só depende do outro. Acredito que boa parte dos instrumentos musicais também cai nessa categoria. É assustador imaginar um pane global na rede mundial de computadores. Imaginar também alguma catástrofe que deixe a população sem energia elétrica. Em um caso como esses, só teríamos a literatura. Creio que muitas pessoas não resistiriam ao ver suas vidas virtuais sepultadas. Contudo, acredito que estou sendo apocalíptico demais. Estou? Enfim, esse é outro assunto e eu deveria ter escrito só sobre isso. Deveria.

Anúncios

minha estupidez

Fiquei sabendo através das redes sociais que Fernanda Torres estrearia essa semana no canal GNT um programa chamado Minha Estupidez. Programa esse que eu não vou assistir pois não tenho TV por assinatura em casa (nem pretendo) e porque, quando for disponibilizado na internet (se for), eu com certeza já terei esquecido. No entanto, acabei abrindo o texto que falava da estreia e me deparei com o parágrafo de outro que a própria Fernanda escreveu e enviou para jornalistas: “Eu me valho da minha ignorância, da curiosidade onívora e de uma certa franqueza, que me leva a admitir, em público, que não sei o que é solipsismo, […] além de confessar que passei três anos mentindo que havia lido ‘Viva o Povo Brasileiro’.”

Depois de passar alguns anos mentindo que havia lido o clássico de João Ubaldo Ribeiro, finalmente Fernanda o leu em 2008, e aproveitou a ocasião para entrevistar o escritor baiano para um programa que ela havia idealizado e que só agora está sendo lançado sob o título de Minha Estupidez, como citei acima. Realmente não recordo se já menti dizendo que li um livro sem ler, mas admito que são grandes as chances de isso já ter acontecido pelo menos uma vez. De toda forma, se não sei ao certo se menti sobre livros, confesso que já menti dizendo ter visto um filme que ainda não havia assistido.

Todo mundo conhece alguém que dá dicas de filmes aos amigos quando eles não sabem o que assistir. Eu sou essa pessoa. Portanto, para não decepcionar o pequeno imaginário coletivo que se formou através do meu minúsculo ciclo social em relação à minha cinefilia, existiram algumas ocasiões em que menti ao me perguntaram se vi tal filme, principalmente quando o título era um clássico. Como realmente vejo muitos longas, logo não precisei mentir tantas vezes e ninguém nunca desconfiou que eu pudesse estar faltando com a verdade. Mesmo assim, aprendi que não importa o número de filmes que você veja, alguém sempre vai te perguntar por um que você ainda não viu.

Uma das razões das minhas mentiras era mesmo para evitar a reação das pessoas, pois quando eu admitia não ter visto, elas sempre reagiam como se fosse o fim do mundo: “Como assim você não assistiu ainda? Você não é cinéfilo?”. Como se alguém tivesse a obrigação de conhecer tudo. A outra razão era por vergonha mesmo: “Como eu, um cinéfilo, ainda não vi esse filme?”. Entretanto, acredito que essa segunda razão existe muito em função da primeira, pois eu talvez não sentisse vergonha se as pessoas não me julgassem. Se eu teria deixado de mentir se não houvesse julgamento? Não sei. Todavia, não imagine que eu gostava de fazer isso pois, nas vezes em que aconteceu, corri para casa e tratei de ver o filme o mais rápido possível para que a mentira durasse pouco tempo. Conjugo os verbos no passado porque já faz alguns anos da última vez que tentei enganar os outros e a mim mesmo de que era possível conhecer tudo.

Hoje, assim como Fernanda, também me valho de minha ignorância, de minha curiosidade e de minha franqueza para admitir quando não vi tal filme ou li tal livro, mas não só isso, como admitir também o total desconhecimento de vários assuntos. Sentindo uma identificação tremenda com as palavras de Fernanda, decidi procurar pelo texto completo que ela enviou a jornalistas, mas não encontrei. Em compensação, a pesquisa me levou a algumas entrevistas interessantes da atriz e escritora sobre o programa. Porém, como ela também fala de outros assuntos e como eu adoro entrevistas, resolvi transcrever alguns trechos aqui.

Em uma delas, Fernanda, que revela sentir falta de ter cursado uma universidade, compara sua cultura geral a um queijo suíço: “É cheia de buracos. Nunca ninguém ordenou o pensamento para mim. Fui lendo e me informando, mas sem ninguém me conduzindo”. Apesar de cursar uma graduação, também sinto que muitas áreas do meu conhecimento são esburacadas. O que não me desmotiva, muito pelo contrário. Por mais trabalhoso que seja, isso me faz correr atrás dos pensamentos que possam preencher essas fendas.

Em outro momento, dessa vez sobre o processo de impeachment da presidenta Dilma, senti como se Fernanda tivesse lido os meus pensamentos: “Não conseguia escrever. Não conseguia ler. Parecia que minha vida era pautada pelo que fosse decidido em Brasília”. Foi justamente isso que aconteceu comigo durante as últimas semanas do golpe, não consegui produzir nada. Outro momento de identificação foi quando ela falou sobre opiniões formadas: “Pedem muito para a gente, que é ator, dar opinião, e a gente dá, né? Nos últimos anos, também passei a escrever em jornal e revista. Mas aprendi a dizer “Não tenho opinião sobre isso””.

Contudo, nem tudo são flores. Ao ser questionada sobre a polêmica do texto para o blog feminista Agora É Que São Elas, em que falou de “vitimização do feminismo”, ela vê como seu único erro apenas ter publicado tal texto no blog errado: “O texto era para um blog ligado a questões feministas. E eu não entendi isso. Era um lugar errado para falar da minha opinião pessoal. Eu errei. Hoje você tem que ter cuidado redobrado com o que e com quem fala. As coisas reverberam rapidamente na internet. Esse episódio me ensinou muito”. Apesar de ter se retratado depois, Fernanda diz que o ‘mea culpa’ não exclui o que ela pensa. Isso foi mesmo uma estupidez da parte dela, mas esse é assunto para outro texto.

Numa das resenhas do primeiro episódio do programa, há a transcrição do que Fernanda diz na abertura. Repito, eu não vi, então não sei se as palavras foram essas mesmo, mas o que estava escrito me chamou atenção. Diante da estante que herdou do avô, ela diz: “Esse programa nasceu desta estante aqui, de perceber que, por mais que eu tenha lido e amado os livros que eu li, eles se reduzem a isso aqui. Ou seja, nada perto do que existe pra se ler, se conhecer. Essa estante, de certa maneira, mede o tamanho da minha estupidez”. Fernanda disse, dessa vez em uma das entrevistas, que leu tanto para realizar o programa que, quanto mais lia, mais via que não sabia de nada. Ela acha que aumentou sua estupidez. Que leitor nunca sentiu isso?

Olhei então para a minha própria estante que eu já julgava ser tão pequena e, diante de todo o conhecimento da humanidade, é essa minha estante pequena que, de certa forma, também mede o meu próprio conhecimento. Embora muito em breve ela não consiga mais guardar livros novos, mesmo que ela triplique ou quadruplique de tamanho, sua pequenez não se calcula apenas metricamente. À frente de todos os livros que jamais chegarão até aqui, ou mesmo que chegassem, à frente de todos os livros que eu não vou conseguir ler antes de morrer, minha estante e meu conhecimento serão eternamente o que sempre foram: estúpidos.

Curta a página Marginália no Facebook :)

finais abertos

[contém revelações de enredo]

Lembro que, quando assisti ‘Central do Brasil’ com meu pai, ele se mostrou muito decepcionado com o final. Ele não se conformou em esperar quase duas horas para o filme acabar e Josué não encontrar o pai dele. E Dora? Por que ela não ficou com o menino? Tempos depois, assistimos juntos ‘Que Horas Ela Volta?’. Pelo envolvimento dele com os personagens durante todo o filme, deu para perceber que ele estava gostando muito. No entanto, quando a projeção terminou e eu lhe perguntei se ele havia gostado, ele apenas se limitou a dizer: que final feio. Conheço bem o meu pai, e não foi necessário lhe fazer perguntas para descobrir o que ele havia detestado. Foi difícil para ele ver a personagem Val terminar desempregada. E Jéssica, conseguiu ingressar na graduação?

Quando fui assistir ‘Aquarius’ no cinema, eu não estava acompanhado de ninguém. Cheguei cedo, com medo de não conseguir ingresso (eu sempre acho que não tem mais ingresso). Paguei minha entrada e fiquei esperando o filme que ainda ia demorar para começar, sentado em um banquinho do lado de fora da sala. Nesse mesmo banco estava sentada uma senhora idosa rodeada de sacolas plásticas lendo uma notícia em um jornal impresso que puxou conversa comigo. Contou-me de uma viagem que havia feito recentemente e que, devido a ela, estava usando bengala, pois havia andado tanto que ainda estava com as pernas cansadas. Era início de tarde e, segundo ela, já estava na rua desde de manhã cedinho. Ademais, ela me disse que, quando acabasse ‘Aquarius’, ainda iria ver uma mostra de filmes LGBTs que estava acontecendo no centro cultural ao lado. Confesso que fiquei com inveja de sua vitalidade. Ela até me convidou para lhe fazer companhia durante a mostra, mas quando me entregou a programação, desisti de ir por ser composta apenas de filmes que eu já havia assistido.

No pouco tempo em que ficou do meu lado, ouvi essa senhora disparar o maior número de histórias por minuto que eu já tive oportunidade de presenciar, mas tenho que admitir que estava apreciando sua companhia. Era uma pessoa muito inteligente, simpática e agradável (mesmo que tenha me assustado com seu ódio quase doentio por Dilma Rousseff, em quem, segundo ela, gostaria de dar uma surra). A senhora saiu de onde eu estava para comprar uma água e uma moça bonita e educada que havia sentado perto de nós puxou assunto comigo. Ela me contou que era atriz e eu lhe disse que fazia cinema. Conversamos então sobre testes de elenco, preparações de elenco e produções cinematográficas locais. Apesar de rápida, também foi uma conversa muito agradável. Assim como a senhora idosa e eu, ela também estava esperando a próxima sessão de ‘Aquarius’ começar.

Sem que eu nada perguntasse, a moça comentou que a atuação de Sônia Braga estava maravilhosa. Só então lhe perguntei se já havia assistido ao filme, ao que ela me revelou que aquela seria a sua terceira sessão, mas ainda não a última. Com todo o cuidado do mundo para mudar de assunto, tentei falar de outras coisas com medo de que ela me revelasse algo do filme antes mesmo de eu assisti-lo. Ela não revelou nada, mas do alto de sua empolgação, comentou: “Já estou esperando a continuação”. Como assim seria feita uma continuação de ‘Aquarius’ e eu não estava sabendo? Perguntei-lhe se ela havia visto alguma notícia sobre isso e ela negou. Ela não tinha provas de que seria produzida uma continuação, mas tinha convicções, pois reforçou sua tese: “Do jeito que o filme termina é impossível não ter uma continuação, tem que ter um ‘Aquarius 2′”. Eu nem havia assistido ao filme ainda, mas naquele exato momento eu soube que se tratava de um final aberto. Assim como a moça, que não sei o nome, pois acabamos não nos apresentando, eu não tinha provas, mas tinha convicções de que Kleber Mendonça Filho não faria uma continuação, e claro, lhe expus meu posicionamento. No entanto, a moça estava certa de seu ponto de vista tanto quanto eu estava do meu. As pessoas então começaram a entrar na sala e eu me apressei para entrar também para garantir um bom lugar. A moça, a senhora e eu sentamos em lugares diferentes e nunca mais nos encontramos. Porém, é preciso registrar que em algo eu e a moça concordamos: Sônia Braga está maravilhosa!

Minha cinefilia começou muito cedo. Eu já era cinéfilo antes mesmo de saber que essa palavra existia, e desde o início cultivei um fascínio por finais abertos. ‘Central do Brasil’ foi exibido pela primeira vez em uma mostra regional de cinema na Suíça em 16 de janeiro de 1998. No dia 19 de janeiro foi exibido no Festival Sundance de Cinema nos Estados Unidos e no dia 14 de fevereiro no Festival de Berlim, de onde saiu consagrado com o Urso de Ouro de Melhor Filme. O lançamento no Brasil ocorreu apenas no dia 3 de abril do mesmo ano. Eu tinha então quatro anos de idade. Lógico que eu só fui tomar conhecimento do filme anos depois. Cresci com ele no meu imaginário, assistindo-o repetidas vezes na Sessão da Tarde. Até hoje é um dos meus filmes favoritos, embora seja completamente diferente do tipo de filmes que gosto de ver atualmente. Claro que há um toque de nostalgia em tudo isso. Todavia, Fernanda Montenegro continua sendo minha atriz favorita, o que não se deve apenas por esse trabalho.

Não posso afirmar o ano em que vi ‘Central do Brasil’ pela primeira vez, mas sei que eu tinha por volta de dez anos, não mais que isso. Vinicius de Oliveira tinha apenas doze quando interpretou Josué no filme. Hoje, ele não é assim tão mais velho do que eu e, embora não façamos parte da mesma geração, de uma forma ou de outra, crescemos “juntos”. Durante esses anos todos, me peguei várias vezes pensando no que haveria acontecido com Dora e Josué, mas quando revejo o filme hoje em dia, nem consigo considerar mais que ele tenha um final aberto, pelo menos não tão aberto assim.

O filme de Walter Salles tem um roteiro clássico, nos apresenta uma jornada do herói com seus três atos, pontos de virada, evolução, clímax e resolução da história. Considero-o agora um filme quase “fechado”. Dora é uma vigarista que se dispõe a viajar com Josué até o nordeste do Brasil em busca do pai do garoto. Eles viajam, tornam-se amigos e passam por situações que mudam suas formas de encarar a vida. Não conseguem encontrar o pai de Josué, mas encontram os irmãos do garoto, que também são sua família. A missão de Dora está cumprida. Sei que é difícil encarar a separação dos protagonistas, mas é preciso seguir em frente. O que aconteceu com Dora, se Josué encontrou o pai ou se eles dois voltaram a se encontrar novamente, sinceramente, não importa. O filme apenas se propõe a nos apresentar esse pequeno período da vida dos dois personagens, esse momento chave, essa experiência que resultou na transformação de ambos, tornando-os pessoas melhores e mais fortes. E praticamente tudo que eu disse sobre ‘Central do Brasil’ pode ser aplicado a ‘Que Horas Ela Volta?’ e ‘Aquarius’.

Como roteiro é uma das minhas áreas de atuação, estou sempre estudando e pesquisando sobre. Já li praticamente todos os manuais de roteiro disponíveis no país e posso afirmar que eles não me ajudaram, muito pelo contrário. Manuais são ótimos para quem quer entender o que é um roteiro, para quem quer aprender como ler um roteiro, para quem quer conhecer a formatação de um roteiro, mas são igualmente péssimos na tentativa de ensinar como escrever um. Além de serem livros muito parecidos, alguns quase cópias idênticas, castram a criatividade de um roteirista. Apontam quantos atos um roteiro deve ter, quantas páginas devem conter em cada ato, a duração máxima que um filme deve respeitar, onde devem ser apresentados os pontos de virada, onde deverá ser apresentado o clímax, a forma de apresentar um personagem, a forma de estabelecer um conflito, tudo. Se todos seguissem esses manuais, todos os filmes seriam praticamente iguais. E o que é mais hipócrita nessa história toda é que os prêmios de melhor roteiro quase sempre são entregues para filmes que vão contra essas regras, que subvertem as formas tradicionais de se contar uma história. É como se esses manuais nos ensinassem a como não escrever um roteiro. Acontece, caríssimos, que prêmios não geram bilheteria, então os estúdios seguem impondo essa forma clássica que eu prefiro chamar de forma engessada de escrever roteiros.

Um centenário foi mais do que suficiente para engessar também a forma do público de consumir cinema. Os manuais servem para corresponder a todas as expectativas de quem assiste ao filme. Durante muito tempo, esses manuais só serviram para me deixar inseguro com tudo o que eu escrevia. Eu pensava que se eu não os seguisse à risca, minhas histórias iam ser consideradas péssimas. Antes de ler esses livros eu me sentia muito mais livre e tinha mais coragem de arriscar. Hoje eles ainda são um fantasma, mas já não os leio mais e tento esquecê-los. Agora leio livros de edição e montagem, pois eles não estão preocupados em apresentar uma fórmula, e sim em nos mostrar várias formas diferentes de construir uma mesma cena. E claro, sigo firme no melhor método de aprendizado de todos: assistindo ao maior número de filmes diferentes possível.

Entre as muitas barbaridades que já li em manuais de roteiro, algumas me chamaram mais atenção. Em um deles li que um filme não pode ter mais de duas horas de duração, que o final deve ser sempre feliz, pois filmes tristes deixam o público frustrado, que o filme deve sempre ter um clímax a poucos minutos do fim, que se eu estou escrevendo um roteiro é porque estou pensando em vendê-lo por uma boa quantia em dinheiro e que a melhor forma de conseguir isso é dando ao público o que ele quer ver. Sou contra todas essas estratégias comerciais. O espectador está muito acomodado; é preciso reeducá-lo apresentando coisas novas e não somente o que ele acha que quer. Este é um trabalho difícil, e da forma como o cérebro de boa parte do público está atrofiado, pode ser tarde demais para conseguir reverter essa situação.

O resultado disso é um público preguiçoso que não consegue nem realizar o esforço de fazer uso do belo presente que filmes com finais abertos nos proporcionam. Para quê imaginar o que aconteceu com Clara de ‘Aquarius’ se eu posso esperar uma sequência que responda minhas dúvidas? Esse exercício gostoso de dar continuidade às histórias dos filmes quando eles acabam eu aprendi há muito tempo com ‘Central do Brasil’. Na minha continuação, Dora e Josué nunca mais se reencontraram. Ela morreu sozinha sem nunca conseguir casar e Josué nunca encontrou o pai. Consigo até imaginar que Irene, personagem de Marília Pêra, também terminou sozinha, embora ainda tenha se relacionado com alguns homens, mas nenhum resultando em um relacionamento duradouro. Em minha continuação de ‘Que Horas Ela Volta?’ de Anna Muylaert, Val, personagem de Regina Casé, conseguiu um novo emprego e mesmo com todas as dificuldades, realizou o sonho de ver a filha formada. Jéssica, personagem de Camila Márdila, com o bom emprego que conseguiu, deu uma boa casa à sua mãe, que não precisou mais trabalhar graças ao ótimo salário da filha. Para Clara, personagem de Sônia Braga em ‘Aquarius’, não construí uma história muito otimista. Acredito que ela tenha se saído vitoriosa, mas só depois de muitos anos com o processo correndo na lenta Justiça de nosso país. O sofrimento foi longo, mas ela também causou muita dor de cabeça aos donos da construtora.

Longe de mim defender que todos os finais devam ser abertos. Esse tipo de desfecho deve ser apenas uma forma entre várias outras de se contar uma história. Que finais assim não sejam usados como justificativas para classificar um filme como ruim. O anticlímax proposital também tem o seu valor. A supervalorização da expectativa correspondida deveria ser substituída pela surpresa. O público tem que sair de sua zona de conforto e abandonar esse olhar que não se permite enxergar outras possibilidades. Nem todos os filmes precisam de uma continuação, pois eles podem (e devem) continuar dentro de nós, em nossas mentes. É divertido se surpreender, é divertido ser apresentado a coisas novas que ainda não sabemos que gostamos. Não tenho problemas com finais felizes, mas tenho pavor do “viveram felizes para sempre”. É o mesmo que matar os personagens. A vida não é feita só de sorrisos. É bom ver nossos heróis vencerem seus desafios, mas o último minuto do filme não pode significar o fim deles – a não ser que eles morram. Se o roteirista decidir por não ceifar a vida de suas criações, assim como nós, suas jornadas “continuam”, pois no fim das contas, enquanto não morrermos, todo dia é um final em aberto.

surpresa x expectativa

Não sou tão velho assim, afinal, “só” vivi duas décadas até agora. Ademais, quem nasceu antes de mim deve entender. Na infância e adolescência, quando um filme era lançado, eu quase sempre era pego de surpresa. O que me despertava para os filmes que estavam em cartaz geralmente era o burburinho que se formava sobre ele ou a indicação de algum amigo: “você já foi ver o filme tal que está nos cinemas?”. O fato de a internet ainda não fazer parte da minha vida naquele período justifica muita coisa. De toda forma, era uma época em que as produções ficavam muito mais tempo em cartaz. Talvez tendo em vista que tivéssemos tempo suficiente para saber que tal filme estava nos cinemas e conseguir ir antes que fosse substituído por outro ou porque a produção cinematográfica (que já era intensa) não era tão acentuada quanto hoje.

Atualmente, eu nem sei o que vou fazer da minha vida amanhã, mas, se quiser, posso saber quais filmes já estão programados para serem lançados nos próximos três anos e quais trilogias ou franquias estarão finalizadas daqui uma década. Como se não bastasse, também é possível saber que trailers, veja bem, que trailers serão lançados até o ano que vem para produções que devem sair em 2018. Enquanto tudo isso não acontece, um tsunami de outras informações vai chegar antes do filme propriamente dito, coisas do tipo “o diretor será substituído”, “ator foi escalado para o papel tal”, “roteirista briga com estúdio”, “atriz foi confirmada para o papel da personagem tal”, “diretor é novamente substituído”, “cantor ou cantora tal (geralmente o/a do momento) irá gravar a canção tema”, “filmagens só devem começar no ano que vem”, “‘vaza’ foto dos bastidores”, “são divulgados cartazes individuais para todo o elenco do filme”, “o filme só deve estrear em 2020 mas os estúdios já confirmaram que haverá uma continuação em 2025”, etc.

Em relação a alguns filmes de super-heróis (não que eu os assista), você até sabe por antecedência que alguém do time protagonista vai morrer. Olha que absurdo! Você entrar na sala do cinema já sabendo que alguém vai morrer e ficar o filme todo tentando adivinhar quem será. Não seria muito melhor ser pego de surpresa? Você está lá, vendo o filme e de repente, pá! Fulano morre. Isso é incrível! Muito melhor do que você estar vendo o filme e quando o personagem morre você pensar consigo “eu sabia que seria ele” ou “imaginava que seria o outro”, o que não deixaria de ser uma mini surpresa, no caso da segunda opção, mas jamais uma surpresa autêntica.

Não sou um desocupado (bem que gostaria de ser), mas tenho muito que fazer e, mesmo que não tivesse, tenho certeza de que não consumiria esse tipo de “informação”. Não ia ficar acompanhando cada foto de bastidor, cada trailer. Entendo que fã é fã. Eu mesmo, quando o assunto é música, gosto muito de acompanhar as notícias das gravações dos álbuns das bandas que admiro, saber quem serão as participações especiais, ver a arte da capa, ouvir o primeiro single (que geralmente é lançado antes do álbum ficar pronto), esse tipo de coisa. Todavia, ao contrário dos filmes, as bandas (pelo menos as que eu escuto) gostam de fazer muito suspense com seus lançamentos. Elas gostam de surpreender. Há quem lance álbum sem que ninguém estivesse esperando. Olha que coisa maravilhosa: você acordar um belo dia e descobrir que uma das suas bandas favoritas lançou disco novo. É uma surpresa indescritível. Contudo, faz tanto tempo que não posso ficar fuçando sites de música que, quando alguém lança disco novo (mesmo avisando previamente), eu sou pego de surpresa do mesmo jeito. No início desse mês saiu o disco novo dos Selvagens à Procura de Lei, ‘Praieiro’, e eu nem sabia que iam lançar álbum novo. Tá incrível! Recomendo! E querem saber? Vou continuar assim, sem acompanhar. Se algum dia eu tiver tempo para navegar na internet por sites de música, vou usar esse tempo para ler meus livros e continuar sendo pego de surpresa. Que venham as próximas!

Na universidade, tive que lidar com muitas revelações de enredo. No entanto, estavam sendo discutidos em sala de aula filmes clássicos, que se eu não tinha visto até então era por culpa minha. O que estava em jogo não era propriamente o enredo do filme e sim como ele foi feito, então sempre nos interessava saber como o diretor conseguiu realizar tal cena ou como o montador solucionou tal problema. Realmente, não me interessa saber como será o cartaz ou quem gravará a canção tema, por exemplo. Se o filme é de uma grande produção de estúdio internacional, também não me interessa saber quem vai dirigir, porque nessas ocasiões o diretor é quase sempre um simples capacho fazendo um filme por encomenda. Interessa-me a atividade dos diretores do circuito independente ou dos diretores consagrados que, mesmo trabalhando para um grande estúdio, conseguem se impor e fazer do seu jeito. Em suma, o que interessa mesmo é o filme.

Se há uma frase que todo mundo já disse ou ouviu foi essa: “não julgue um livro pela capa”. Por que será então que as pessoas fazem tanta questão de julgar um filme pelo trailer? O trailer é como se fosse a capa de um filme: mesmo que seja ótimo, não significa que o filme será, assim como não significa que, se o trailer for ruim, o filme também deve ser. Poderia passar bastante tempo aqui citando trailers que são melhores do que seus respectivos filmes. Todo mundo já deve ter sido enganado por um trailer maravilhoso. É puro marketing. Seria muita ingenuidade da minha parte continuar assistindo essas propagandas enganosas. Resultado: não assisto mais trailers. As únicas exceções são quando vou ao cinema e eles passam antes da sessão ou quando eu já vi o filme e decido conferir o seu trailer.

Pode parecer radical, mas eu não leio nem sinopses. Quando vou ao cinema, o motivo é sempre o (a) diretor (a). Se é um (a) diretor (a) que eu gosto e tem uma obra consistente, sei que são pequenas as chances de jogar meu dinheiro fora. Além disso, existem muitas formas de um filme me chamar atenção, seja por ter como protagonista um ator/atriz que gosto bastante, seja porque ganhou algum prêmio, seja por estar em listas de melhores filmes, seja pela curiosidade do título, seja por indicação de amigos, seja por ter feito parte de algum movimento cinematográfico, seja por ter sido adaptado de algum livro que eu gosto, por ser de um determinado país, enfim, até a intuição vale. Quando o assunto é cinema, minha seletividade não é tão rigorosa como é em relação à música e à literatura.

Durante anos, pensei que os culpados por criarem tantas expectativas eram somente a mídia e os próprios responsáveis pelos filmes ao liberarem muito material prévio. Sabemos inúmeras coisas de um filme antes mesmo dele ser lançado e isso é muito ruim. Sim, eles continuam com sua parcela de culpa liberando esse tipo de material, mas é verdade também que eles não obrigam ninguém a ver nada. O que caracteriza uma culpa de mão dupla: as pessoas pesquisam por conta própria (o que praticamente anula a culpa dos divulgadores do filme). Claro que se essas propagandas enganosas não saíssem, ninguém criaria falsas expectativas e todo mundo já está feio de saber que expectativa não é algo tão bom para se cultivar. Quando alguém me fala que “esperava mais” de um filme, eu primeiramente sei que aquela pessoa é leiga (e não tem problema nenhum nisso – sempre somos leigos em alguma coisa), caso contrário, ela saberia justificar e apontar os aspectos negativos do filme. Também sei que aquela pessoa se inflou de expectativas, então grande culpa por não gostar do filme é dela. O filme não mandou ninguém esperar isso ou aquilo. Seus criadores podem até terem dito que a produção era maravilhosa e feito um trailer emocionante, mas continuar caindo nessa não dá, não é verdade?

Por que então continuar se boicotando e estragando a melhor parte que é a surpresa? Todo esse material prévio é muito mais interessante quando lido depois de assistir ao filme. Descobrir como aquela cena que você gostou foi feita, quem foram os profissionais que trabalharam por trás das câmeras, ver as fotos dos bastidores e até mesmo ficar por dentro das picuinhas que aconteceram durante a produção. Muito melhor do que aguardar o lançamento de um trailer (tem gente que ainda faz contagem regressiva para isso), assistir, postar nas redes sociais que chorou (!) e muitas vezes se decepcionar ao ver o filme. Sem contar (pasmem!) quem filma as próprias reações assistindo a um trailer. Ainda bem que na sala escura ninguém pode ver o rosto de frustração da pessoa ao lado. Contudo, quem sou eu para dizer qual a melhor forma de se ver um filme? Ademais, quem melhor para dizer o que é bom para mim senão eu mesmo? De toda forma, não sei você, caríssimo Leitor, mas continuo achando que é muito mais interessante ser surpreendido do que criar expectativas e quebrar a cara. E isso vale para tudo.

saindo do livro/filme

Sabe quando você lê várias páginas de um livro e depois se dá conta de que não entendeu nada? Isso geralmente acontece, pelo menos comigo, quando se está com a mente muito cheia. Não importa se são pensamentos bons ou ruins, o fluxo excessivo deles me atira fora do livro. Por esse motivo, tento esvaziar ao máximo a mente antes de ler, algo que não é fácil, sobretudo para quem, como eu, lê todos os dias. Diferentemente de quem o faz esporadicamente e retira um bom momento para isso, geralmente um dia de folga, eu leio sempre que tenho um tempinho livre menor que duas horas (porque se esse tempo for maior ou igual a duas horas, eu prefiro ver um filme).

Sendo detentor de uma crise existencial crônica que me faz sofrer por saber que tenho cada vez menos tempo para ler e assistir ao que quero, não posso me dar ao luxo de passar por várias páginas sem entender nada e ter que voltar a leitura. Então se estou triste, ou acabo de realizar um grande feito que me cause muita euforia, eu sei que não posso pegar nos livros. Não adianta, não consigo.

No entanto, ler todos os dias de alguma forma me ajudou a combater isso. Afinal, como se não bastasse a rotina pesada, estamos sempre lidando com problemas, imprevistos, aborrecimentos e todo tipo de mazelas que nos são reservadas sempre que levantamos da cama toda manhã. Entretanto, consigo manter minhas leituras diárias e poucas vezes ela é comprometida pelos acontecimentos que vivencio.

Lembro-me de uma ocasião em que eu estava doente. Não rememoro exatamente o que eu tinha, mas nesse determinado dia eu estava sofrendo com enjoos. Para me distrair, adivinha o que eu fui fazer? Isso mesmo, ler! Ler quando se está doente não é uma boa ideia. Por que diabos eu fui inventar de fazer isso? Se você Leitor, está pensando que deu merda, acertou novamente. Eu não vomitei no livro, que fique bem claro, mas depois que fiquei curado, toda vez em que eu o pegava para ler, eu me sentia enjoado. Claro que isso foi um dano psicológico que me fez assimilar aquele livro ao momento ruim que tive. Essa nossa mente nos prega peças que a gente nem imagina que ela é capaz, a minha então, vive testando minha paciência. O que posso dizer é que concluir o livro foi um processo bastante difícil. Ademais, se tem uma coisa que eu aprendi é nunca mais ler estando doente. O livro merece o meu melhor, minha máxima dedicação. Se não posso oferecer isso a ele, eu que encontre outra forma de lazer.

Contudo, essas linhas nasceram porque não tive um bom dia. Com a mente atolada em pensamentos ruins, fui ver um filme. Tenho tentado cumprir minha meta cinematográfica à risca. Não adianta marcar os filmes como “quero ver” no meu perfil no Filmow que isso não vai fazer que eles sejam assistidos. É preciso meter a cara e vê-los de fato, mas vocês sabem que tudo o que falei até aqui sobre os livros também pode se aplicar aos filmes. Como entrar em um filme talvez seja o processo mais importante de uma experiência cinéfila, é preciso estar bem ao assistí-lo. Se você está cansado, sonolento, com fome, com sede, irritado, com muito calor, com vontade de ir ao banheiro, numa cadeira desconfortável, numa sala barulhenta, tudo isso pode (e vai) influenciar negativamente na sua experiência fílmica. Muitas vezes, se não gostamos de um filme, a culpa é nossa ou das condições em que nos encontramos. Cabe a nós reconhecer isso e assisti-lo novamente para ver se é mesmo ruim como havíamos julgado.

Há todo um ritual antes de começar a ver o filme, de fato. É preciso se preparar, estar bem, confortável, alimentado. É preciso ir ao banheiro antes de iniciar a projeção. Se você vai ao cinema então o ritual é ainda maior. Escolher uma roupa confortável para suportar o frio do ar-condicionado, levar sua garrafa com água e talvez o mais importante: chegar cedo. Entrar na sala de projeção depois que o filme começou devia ser crime com pena de morte. É ruim para quem chega atrasado, pois deve ter corrido, está suado, irritado porque perdeu o início, e ruim para quem cumpriu corretamente todo o ritual e chegou cedo, pois vai ter a atenção roubada pelo filho da puta que vai passar na sua frente procurando uma cadeira para sentar. Infelizmente, para muitas pessoas, cinema é apenas um motivo para sair de casa, comer pipoca e beber um litro de refrigerante. Em vista disso, não frequento mais cinema de shopping e, mesmo assim, ainda passo por infortúnios, embora numa escala muito menor.

No início de janeiro desse ano fui ver um filme no cinema. Cheguei bem cedo e a bilheteria demorou muito para abrir. Quando abriu, já estava quase na hora do filme iniciar, o que fez com que a sessão atrasasse. Já na sala de projeção, sentado, o lanterninha entra e nos avisa que houve um problema com a cópia do filme, informando que todos ali poderiam receber o dinheiro de volta e, quem quisesse, poderia continuar na sala para a exibição de outro filme. Como eu já tinha saído de casa e não queria voltar sem ter feito nada, decidi por ver o outro. Pois bem, quando já devia ter passado uns trinta minutos desde o início da sessão, a projeção foi interrompida por um problema técnico, que deve ter demorado em torno de cinco a dez minutos para voltar (não tenho noção exata do tempo que demorou). Até aquele momento, já havia acontecido de tudo que atrapalhasse minha experiência com o filme. A sessão começou atrasada e não era o filme que eu queria ver (qual não foi a minha frustração por sair de casa para ver um filme a acabar vendo outro). Todos esses problemas deveriam ter prejudicado minha imersão, mas não. Estava tão determinado a ver o filme que consegui imergir nele mesmo depois de todos os ocorridos. Quando a projeção foi interrompida e eu “saí do filme”, achei que não conseguiria voltar para ele, o que acredito que aconteceu com as outras poucas pessoas que estavam na sala, já que, depois do ocorrido, elas se mostraram muito dispersas e irrequietas. É como uma viagem que foi interrompida porque o carro quebrou ou uma leitura em que você está completamente absorto, mas tem que imergir para o mundo real porque sua mãe te pediu para ir comprar pão. No mais, quando o problema foi resolvido e o filme voltou a ser projetado, inexplicavelmente eu consegui voltar para ele e imergir novamente. Quando acabou, eu havia visto um dos meus filmes favoritos, mas certamente não gostaria de passar por tudo aquilo novamente. Foi a única vez em que tal coisa aconteceu comigo e, para que se mantenha especial, espero que não aconteça de novo.

Sair do filme é tão comum quanto sair de uma leitura. É preciso dizer também que nem sempre é nossa culpa. Se ficarmos conversando, acessando alguma coisa pelo celular ou até mesmo comendo durante uma projeção, claro que a culpa é nossa. Entretanto, por mais concentrado que o espectador esteja, sempre corre o risco de ser distraído pelos pensamentos involuntários. Isso acontece até mesmo quando estou escrevendo. Muitas vezes já sonhei acordado diante da tela do computador e só depois de alguns minutos é que me dei conta de que estava escrevendo e que precisava concluir o texto. Dessa maneira, tento não ver muitos filmes na TV aberta. Arrisco afirmar que me considero um cinéfilo profissional, sabendo depositar muita concentração ao filme que está sendo exibido na minha frente, mas confesso já ter sido atacado por pensamentos involuntários diante de um filme da TV. Na ocasião, lembro-me de ter pegado o controle do DVD achando que podia voltar a cena, descobrindo então que tal ação não era possível. Sou consciente de que perder dois segundos de filme pode ser o suficiente para causar um grande estrago de interpretação.

Como lhes confidenciei acima, não tive um dia tão bom e estava agora a pouco vendo um filme, quando me dei conta de que haviam se passado quatro minutos e eu não havia entendido nada. Era como se eu tivesse me ausentado completamente nos últimos quatro minutos de projeção. Tive que voltar e mais uma vez saí do filme. Há uma semana, mais ou menos, comecei a escrever num diário coisas que me acontecem (geralmente coisas ruins). Nesse processo, descobri o quanto fico mais leve depois de jogar meus problemas no papel. É quase como se eles ficassem dentro do caderno. Já havia lido bastante que escrever sobre experiências traumáticas pode ajudar a superá-las. Não que eu tenha tido experiências traumáticas, mas tenho usado a mesma filosofia para problemas pequenos e tem dado certo. Assim sendo, resolvi escrever para conseguir voltar aos meus afazeres, entre eles terminar o filme. Como o texto ficaria muito grande para uma página diária no caderno e como eu também não queria ter de escrever tudo isso à mão, resolvi publicar aqui mesmo. Se isso vai resolver o problema, eu não sei, mas valeu a tentativa. De toda forma, estou indo lá (tentar) concluir o filme. Ficar escrevendo sobre ele também não vai fazer com que ele se assista sozinho. Até a próxima, abraçaço.

o selo de qualidade dos vira-latas

Em 16 de julho de 1950, a nossa seleção de futebol perdeu a partida para a seleção uruguaia na final da Copa do Mundo realizada no Brasil. A derrota aconteceu em pleno Maracanã, o que contribuiu ainda mais para o forte trauma sofrido pelos brasileiros. Nelson Rodrigues escreveu então um texto* sobre o ocorrido, em que falou pela primeira vez sobre o complexo de inferioridade do nosso povo, que ele chamou de “complexo de vira-lata”. Dizia ele no texto: Por “complexo de vira-lata” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima.

Para Rodrigues, o fenômeno não se limitava somente ao campo futebolístico, até porque o Brasil se recuperaria do complexo de inferioridade no futebol com a conquista da Copa do Mundo de 1958. Estou falando sobre isso porque no próximo dia 28 acontece a cerimônia do Oscar e estamos concorrendo na categoria de Melhor Animação com o filme ‘O Menino e o Mundo’ (2013), do diretor Alê Abreu. Desde a indicação, vejo amigos meus, dentre eles, tanto quem não entende de cinema, quanto quem entende e estuda o assunto, assistindo ao filme de maneira ensandecida. Prestigiei a produção pela primeira vez ano passado – para ser mais preciso, no dia 6 de fevereiro. Todavia, desde 2014 que eu já queria vê-lo. Acho ótimo que o estejam assistindo, afinal, o filme é realmente bom e merece estar entre os cinco indicados. No entanto, se tem uma coisa que eu tenho certeza é que, muitos desses meus amigos (e pessoas por esse Brasilsão a fora) não o veriam se ele não tivesse sido indicado ao Oscar. Esse pensamento é explicado pelo fato de que a maioria dos brasileiros já não gosta do cinema nacional em live-action (termo utilizado no cinema, teatro e televisão para definir os trabalhos que são realizados por atores reais), que dirá um filme de animação, gênero em que o país não possui forte tradição.

Acontece, caríssimo Leitor, que a indicação de um filme para o Oscar é visto como um selo de qualidade pelo povo brasileiro: “se os gringos acham que é bom, então é porque é”. Mas não precisa ser necessariamente um Oscar, qualquer prêmio internacional já é o suficiente para que o público comece a prestar atenção, ou você realmente acha que se o filme ‘Que Horas Ela Volta?’ (2015), da diretora Anna Muylaert, não tivesse vencido o Sundance na categoria especial de Atuação para Regina Casé e Camila Márdila, teria acontecido toda essa repercussão? Muito provavelmente não, o que me deixa muito triste, porque o filme é realmente bom e levantou questões muito importantes que, de fato, precisam ser debatidas urgentemente pela sociedade brasileira. Mesmo com esse prêmio e outros importantes, o filme de Muylaert (que já havia sido transmitido na TV por assinatura) ficou engavetado pela Rede Globo na esperança do filme conseguir a indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A Rede Globo sabe, assim como sabem todos os veículos de comunicação desse país que, se o filme fosse indicado, aumentaria a curiosidade dos brasileiros e, por consequência, a audiência quando o filme fosse exibido. Quando a Academia divulgou a prévia dos nove filmes estrangeiros que concorreriam e ficamos sabendo que a produção protagonizada por Regina Casé estava de fora, em poucos dias ele foi exibido na Tela Quente para aproveitar que ainda era assunto na boca do povo. Deu certo, o filme conseguiu marcar a ótima média de 22 pontos de audiência. O índice foi quatro pontos maior do que a média do último mês, na mesma faixa.

Se olharmos para o passado, veremos que sempre foi assim. Nosso querido José Mojica Marins, criador do personagem Zé do Caixão, era tido como louco, mas foi só vencer o Festival Internacional de Cinema Fantástico e de Horror em Sitges, na Espanha, com seu filme ‘O Estranho Mundo de Zé do Caixão’ (1968), que a imprensa brasileira começou a enxergar (ainda que a contragosto) o gênio por detrás da capa preta. O mesmo festival ainda lhe homenagearia anos depois com uma menção honrosa pelo conjunto de sua obra e por grandes serviços prestados ao cinema de horror. Também anos depois, dessa vez na França, Mojica participou da 3° Convenção de Cinema Fantástico, realizada em Paris. No encerramento do festival, ele ganhou o troféu L’Écran Fantastique também pelo conjunto de sua obra. Na década de 1990, Mojica ainda seria descoberto pelos fãs de terror nos EUA, onde ficaria conhecido como Coffin Joe. Hoje é ídolo cult, mas dificilmente o seria sem o reconhecimento internacional. Em 1998, André Barcinski e Ivan Finotti publicaram ‘Maldito’, biografia de Mojica. Quem escreveu o prefácio do livro foi Rogério Sganzerla (outro brasileiro que não recebeu o devido reconhecimento de seus compatriotas) ainda vivo na época. Bem no início do texto, Sganzerla aponta: “Mojica deu tudo de si para construir uma obra, perfeitamente assimilada e reconhecida no exterior. Mas não passa de um estrangeiro em seu próprio país, devido à omissão generalizadora da maioria de seus pares – pois tudo se perdoa nos trópicos, menos a inteligência e a criatividade”.

Ademais, como se não bastasse todo esse descaso com o cinema nacional, o mesmo ainda acontece com a música brasileira. Tom Zé talvez seja o nosso maior exemplo desta perspectiva. Se David Byrne não o tivesse descoberto e lançado seus discos no exterior, o Pai da Invenção (como Tom Zé é conhecido internacionalmente) estaria hoje trabalhando como frentista em um posto de gasolina de seu sobrinho, em Irará. Não desmerecendo a profissão dos frentistas (que é tão digna quanto qualquer outra), mas Tom Zé estaria exercendo amargamente essa profissão pelo simples fato de não conseguir viver da própria arte no Brasil. Usando as palavras de Sganzerla como exemplo, por que a obra de nossos melhores artistas é perfeitamente assimilada e reconhecida no exterior, e no Brasil não? Seria uma sequela do terceiro mundismo? Hoje Tom Zé finalmente goza de prestígio em nosso país e consegue viver dos shows que faz e dos discos que vende, mas só depois de conquistar o “selo de qualidade” imposto pelo público brasileiro. Ainda fico na dúvida se a música de Tom Zé é realmente assimilada por todos que dizem admirá-lo ou se o fazem só porque os primos distantes do primeiro mundo ditam a moda. Se realmente assimilam, por que esperar que os países desenvolvidos o façam primeiro? Que espírito de colonizado é esse? Quando nós poderíamos estar recolonizando o mundo com a nossa arte, esperamos que os outros países exportem-na primeiro para depois “venderem” aqui. Nunca conseguirei entender isso.

Outro exemplo musical é Os Mutantes, considerada por muitos (me incluo nesse grupo) como a maior banda brasileira de rock de todos os tempos. Rita Lee e os irmãos Baptista só conquistaram prestígio no Brasil após se apresentarem na Europa e os jornais europeus se curvarem ao seu som. No livro ‘A Divina Comédia dos Mutantes’, biografia da banda publicada pela primeira vez em 1995, pelo escritor Carlos Calado, encontramos um trecho que expressa isso muito bem: Como costuma acontecer nessas ocasiões, a imprensa brasileira fez coro com os elogios dos estrangeiros. Até então tratados com ironias e preconceitos por boa parte da mídia nacional, pela primeira vez Os Mutantes foram enaltecidos como verdadeiros representantes da música popular brasileira. Afinal, a Europa havia se curvado frente aos “nossos” garotos…

Também não esqueçamos de nossos compatriotas que olham enviesado para nossa literatura só por não possuir um prêmio Nobel. Como se realmente precisássemos disso para afirmar que a literatura brasileira é uma das melhores do mundo, com autores incríveis e traduzidos em todos os continentes. É verdade que todos esses prêmios trazem prestígio para um país e ajudam a divulgar os seus artistas, mas não podemos depender disso para nos orgulhar da arte feita aqui. Não podemos depender de uma visão de fora para decidir o que é bom ou ruim. Não precisamos de um Nobel para provar que Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, José de Alencar, Lima Barreto, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Lygia Fagundes Telles, Manuel Bandeira entre tantos outros, são gênios de sua arte. O prêmio nem existia quando alguns dos maiores escritores de todos os tempos já haviam escrito suas obras-primas. Não, não precisamos de um Nobel! Um prêmio criado pelo inventor da dinamite e que acumulou uma das maiores fortunas de sua época com suas fábricas de armamentos não pode ser selo de qualidade para ninguém. Inclusive com sua categoria da Paz.

Outro fato que pouca gente lembra (ou talvez faça questão de esquecer, tamanha foi a ignorância), é que se hoje a bossa nova é foda, não foi esse o pensamento quando João Gilberto surgiu no final de década de 1950. Esse que é indiscutivelmente um dos gênios da música brasileira, foi chamado de desafinado, sem ritmo, ventríloquo. Contudo, o final da história todo mundo conhece: sua música ultrapassou todas as fronteiras possíveis e, claro que depois de entrar para a seleta lista de brasileiros detentores do prêmio Grammy (o Awards e não o Latino), incluindo um de Álbum do Ano (!), viria a se tornar unanimidade em seu país. Anos depois, Tom Zé apresentaria em sua música “Vaia de Bêbado Não Vale” a interessante tese de que a bossa nova inventou o Brasil. Na música ele canta: “no dia em que a bossa nova inventou o Brasil / no dia em que a bossa nova pariu o Brasil / teve que fazer direito / teve que fazer Brasil / criando a bossa nova em 58 / o Brasil foi protagonista / de coisa que jamais aconteceu / pra toda a humanidade / seja na moderna História / seja na História da Antiguidade […] / quando aquele ano começou, nas / Águas de Março de 58, / o Brasil só exportava matéria-prima / essa tisana / isto é o mais baixo grau da capacidade humana / e o mundo dizia: / que povinho retardado / que povo mais atrasado […] / a surpresa foi que no fim daquele mesmo ano / para toda a parte / o Brasil d’O Pato / com a bossa-nova, exportava arte / o grau mais alto da capacidade humana / e a Europa, assombrada: / que povinho audacioso / que povo civilizado.” Como Tom Zé muito bem apresentou em sua música, o Brasil deixava de exportar matéria-prima (café) para exportar arte (música). O mundo se curvava para um país que, até pouco tempo, era muito pouco conhecido. Muito se falava, mas pouco se sabia, de fato. O Brasil entrava com pé direito para a história da música mundial, de onde nunca mais saiu, estando, desde então, na lista dos países que produzem a melhor música do mundo.

Quando tento pensar em brasileiros pouco premiados no exterior, mas altamente reconhecidos em seu país, Eduardo Coutinho é um dos poucos exemplos que me vem à mente. Embora reconhecido internacionalmente, Coutinho nunca ganhou um prêmio de grande expressão. Entretanto, no meio cinematográfico brasileiro, é o que chamamos de unanimidade. Morreu gozando de grande prestígio entre a crítica e fãs de documentários. Não precisou de um Oscar para que os brasileiros o reconhecessem como um reinventor do gênero documental. O que significa que ainda temos salvação. A bossa nova já provou que podemos ser um povo audacioso e civilizado aos olhos das outras nações. Não precisamos nos impor um selo de qualidade. Vamos enxergar com nossos próprios olhos o que temos de melhor sem esperar que alguém de fora faça isso por nós. ‘O Menino e o Mundo’, com ou sem Oscar, já merece destaque na história da cinematografia brasileira, mas se o prêmio de Melhor Animação servir para dar um fim a esse complexo de vira-lata do cinema nacional, desejo então boa sorte no próximo dia 28. Mas lembrando sempre: não precisamos disso!

* Nelson Rodrigues. “Complexo de vira-lata”. In: À sombra das chuteiras imortais: crônicas de futebol. São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p. 51.

os dez melhores livros que li em 2015

Saímos de 2015, mas 2015 não saiu de nós. Mesmo que você, Leitor, não tenha realizado grandes feitos em sua vida nesse ano que se passou (esse foi o meu caso), assim como eu, viu muitas coisas acontecerem no nosso país e no mundo. Grandes ídolos morreram, grandes filmes e discos foram lançados. Novos escândalos de corrupção vieram à tona, ataques terroristas foram realizados, aconteceram diversos eventos esportivos, eventos culturais e festivais de música. Vivemos para ver tudo de bom e de ruim que ocorreu no ano passado. Seja com esses eventos globais ou especificamente localizados, 2015 fará para sempre parte da nossa tragetória, afinal, passamos por ele e estamos aqui para contar a história. Trata-se de um ano que particularmente me marcou pelas leituras que fiz. O conhecimento adquirido no ano passado é algo que vai continuar comigo para o resto da vida, algo que ninguém pode me tirar. Parece um tremendo clichê, mas é verdade. Também foi o ano em que mais li na minha vida: quarenta e seis livros, um total de onze mil novecentas e cinquenta e oito páginas, com média de trinta e três páginas por dia segundo meu perfil no Skoob. Infelizmente, não contei as páginas dos livros para saber se esses números estavam corretos (afinal, sou de humanas), mas resolvi escrever um post sobre os dez melhores livros que li ano passado. São eles, em ordem alfabética:

Discos

Título: Discos
Autor: Arnaldo Cohen, Céline Imbert, Eduardo Giannetti, Lia Rodrigues, Luiz Tatit, Marcelo Coelho, Tom Zé
Primeira publicação: 2003
Minha edição: PubliFolha

.

‘Discos’ era um livro que tinha na minha estante já fazia certo tempo, mas que só ano passado resolvi ler. Achava que não ia gostar da leitura, mas me enganei redondamente. O livro me fisgou logo na primeira página. Nele, sete autores dissertam sobre os dez discos que levariam para uma ilha deserta. Sou apaixonado por listas, por isso devo ter gostado tanto de ler algumas feitas por pessoas que admiro, sem contar que, ao longo dos seus mais de setenta capítulos, acaba se tornando um ótimo livro para se pegar dicas de discos para ouvir. Este também foi o livro que me fez conhecer o grande Luiz Tatit. Falei sobre isso em um dos primeiros posts do Satãnatório: o ‘eterno ignorante, parte 1’.

Elite da Tropa

Título: Elite da Tropa
Autor: Luiz Eduardo Soares, André Batista, Rodrigo Pimentel
Primeira publicação: 2005
Minha edição: Objetiva

.

Gosto muito do filme ‘Tropa de Elite’ (2007), do diretor José Padilha, e admito que esse livro chegou até mim graças à sua adaptação cinematográfica. No princípio, não tive vontade nenhuma de ler ‘Elite da Tropa’, pois acreditava que devia ser muito parecido com o longa-metragem. Todavia, depois de saber que muitos detalhes são diferentes na obra impressa, decidi ler e me surpreendi. Constatei que, de fato, neste caso, livro e filme parecem ser duas coisas totalmente distintas, incluindo aqui a estrutura narrativa. O escrito está dividido em duas partes. A primeira conta histórias sobre o Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), considerado um esquadrão de elite na Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Baseado em relatos reais de ex-policiais do BOPE, o livro mostra os oficiais como uma tropa aparentemente incorruptível e extremamente violenta. Desse momento inicial foram retirados os personagens do filme e algumas histórias que o compõe. Contudo, a segunda parte, que fala sobre o plano para assassinar Leonel Brizola, na época governador do Rio de Janeiro, é o suprassumo do livro, e nada disso está no longa. Esta outra seção com certeza daria um excelente roteiro se fosse adaptado para o cinema. Já havia falado da minha edição do livro no post ‘livros sebosos’.

Encontros Tom Zé

Título: Encontros – Tom Zé
Autor: Tom Zé, Heyk Pimenta
Primeira publicação: 2011
Minha edição: Azougue

.

.

Primeiro tenho que contar como encontrei essa pérola. Jorge du Peixe, vocalista da Nação Zumbi, publicou uma foto do livro em seu perfil no Instagram com a seguinte legenda: “Livrinho fuderoso da coleção Encontros. Entrevistas antológicas com Tom Zé, o mestre dos mestres e punk mais original do Brasil.” Dias depois, eu já estava com o livro em mãos e me segurando para não ler de uma só vez. Sempre fico triste após terminar de ler uma boa publicação por completo. Quando mais tempo eu convivo com o livro, melhor. Mesmo assim, terminei logo, tanto por ser curto, quanto por ser sobre Tom Zé. Tenho que concordar com du Peixe, o livro é mesmo fuderoso.

Estação Carandiru

Título: Estação Carandiru
Autor: Drauzio Varella
Primeira publicação: 1999
Minha edição: Companhia das Letras

.

.

Esse foi outro livro que cheguei através de um filme: ‘Carandiru’ (2003) de Hector Babenco. A obra de Drauzio Varella é um dos poucos casos em que um sucesso editorial, verdadeiro fenômeno de vendas realmente vale a pena ser lido. Vencedor do Prêmio Jabuti em 2000 na categoria Livro do Ano de Não-Ficção, a publicação conta a experiência de Varella como médico voluntário, a partir de 1989, na Casa de Detenção de São Paulo, onde realiza atendimento em saúde, especialmente na prevenção da AIDS. No post ‘livros sebosos’ também falei sobre a minha edição desse livro.

O Centauro no Jardim

Título: O Centauro no Jardim
Autor: Moacyr Scliar
Primeira publicação: 1980
Minha edição: Companhia de Bolso

.

.

Esse foi meu primeiro livro de Moacyr Scliar, constituindo o suficiente para que eu me tornasse um grande admirador da sua escrita criativa. A obra mistura elementos fantásticos em uma trama muito instigante, contando a estória do centauro Guedali, um ser metade homem, metade cavalo. O blogue 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer fez uma excelente resenha sobre esse livro.

O Guarani

Título: O Guarani
Autor: José de Alencar
Primeira publicação: 1857
Minha edição: Martin Claret

.

.

Meu primeiro contato com a história do livro veio com a ópera de mesmo nome do compositor Carlos Gomes e depois com o filme ‘O Guarani’ (1996), da diretora Norma Bengell. Anos depois, minha irmã ganhou um exemplar do romance, que acabou me dando por não gostar. Eu também acabei o abandonando por não conseguir me envolver com o enredo. Entretanto, no ano passado, resolvi dar mais uma chance a ele e acabei me apaixonando, principalmente por sua parte final. Assim que concluí a leitura, assisti a outra versão cinematográfica do livro, ‘O Guarani’ (1979), do diretor Fauzi Mansur, que supera a outra produção citada. A primeira adaptação do livro para o cinema aconteceu em 1912, em um filme mudo hoje considerado perdido.

O Que é Isso, Companheiro?

Título: O Que é Isso, Companheiro?
Autor: Fernando Gabeira
Primeira publicação: 1979
Minha edição: Companhia de Bolso

.

.

Mais um livro que cheguei através de um filme, dessa vez foi ‘O Que é Isso, Companheiro?’ (1997), do diretor Bruno Barreto, que representou o Brasil no Oscar de 1998, sendo indicado ao prêmio de melhor filme estrangeiro. Até pouco tempo atrás, eu evitava ler livros que eram adaptados para o cinema, tentando focar em histórias que eu ainda não conhecia. Ainda bem que parei com isso, até porque o filme de Barreto é inspirado apenas no 15° capítulo do livro de Gabeira, o trecho que diz respeito ao sequestro do embaixador norte-americano. O livro é um ótimo depoimento sobre quem viveu na pele o terror da ditadura militar brasileira. Super indico a obra para os politicamente alienados que saíram às ruas no ano passado pedindo a volta do regime militar. O blogue 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer também fez uma ótima resenha sobre ele.

O Réu e o Rei

Título: O Réu e o Rei
Autor: Paulo Cesar de Araújo
Primeira publicação: 2014
Minha edição: Companhia das Letras

.

.

Se não me engano, esse é o maior livro dessa lista e o que li mais rápido. Eu já sabia como terminava a história de Paulo Cesar de Araújo com Roberto Carlos, mas queria saber os detalhes. No livro, o autor fala sobre a polêmica proibição de seu livro anterior, a biografia ‘Roberto Carlos em Detalhes’. ‘O Réu e o Rei’ não é uma nova biografia sobre o cantor, mas sim um relato sobre a relação do autor com Roberto. Durante a leitura ainda ficamos conhecendo a história de amizade entre Paulo Cesar de Araújo e João Gilberto, sem dúvida a maior surpresa do livro.

Secreções, Excreções e Desatinos

Título: Secreções, Excreções e Desatinos
Autor: Rubem Fonseca
Primeira publicação: 2001
Minha edição: Companhia das Letras

.

.

Esse foi meu primeiro livro lido em 2015. É um compêndio de contos e constituiu meu segundo título de Rubem Fonseca, depois de ‘O Caso Morel’. Com essa obra, rapidamente descobri porque ele é considerado um dos melhores contistas deste país. O primeiro conto da coletânea, ‘Copromancia’, se tornou um dos meus textos favoritos e, assim como todos os outros que a compõe, a cada parágrafo lido, eu imaginava como ficariam ótimos se fossem adaptados para o cinema.

Tropicalista Lenta Luta

Título: Tropicalista Lenta Luta
Autor: Tom Zé
Primeira publicação: 2003
Minha edição: PubliFolha

.

.

Mais uma vez um livro do Tom Zé! Este, por sua vez, merece destaque por considerado sua biografia. ‘Tropicalista Lenta Luta’ tem capítulos escritos pelo próprio cantor e compositor, contando sobre sua infância em Irará, acerca de sua formação e ida a São Paulo, discutindo o ostracismo e muitas outras curiosidades de sua vida. Ademais, esses capítulos são curtos e não se aprofundam o suficiente como as biografias convencionais (embora não sejam superficiais, pois Tom Zé nunca é superficial naquilo que escreve). Grande parte do livro é formada pelas letras de seus discos, contendo também cartas e uma extensa entrevista concedida a Luiz Tatit e Arthur Nestrovski. Trata-se de um livro indispensável para aqueles que, como eu, são grandes fãs do Pai da Invenção. Citei esse livro no post ‘vinte e três’ e foi também uma parte dele que me inspirou a escrever o texto ‘meu útero’.

E então, caríssimo Leitor, já leu algum desses livros? Gostou? Não gostou? Pretende ler algum? Me conta!

o filme nosso de cada dia

Ah, a cinefilia! Como não exercer? E pensar que, há pouco mais de cem anos atrás, o mundo ainda não sabia o que viria a ser cinema. Cinefilia é sem sombra de dúvidas a minha única religião, na qual Glauber Rocha é ao mesmo tempo deus e diabo, assim como no seu filme ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, em que Othon Bastos dublou tanto o Deus Negro (Sebastião), interpretado por Lidio Silva, quanto o Diabo Loiro (Corisco), interpretado pelo próprio Othon.

Quando não chamo cinefilia de religião, trato-a por doença. Mas o que é uma religião senão uma doença que ‘cega’ as pessoas? Sendo assim, há mais de dez anos que me autodiagnostiquei cinéfilo (mesmo sem saber exatamente o que era isso). Quando ainda era criança, achava mais divertido ver filmes do que brincar com os garotos da minha idade. Nessa mesma época (quando ainda dependida da programação da TV), festas de finais de ano eram para mim sinônimo de ver filme até o sol raiar. Lembro de uma em que o dia já estava nascendo e começou ‘Central do Brasil’. Era um tempo em que as emissoras ainda selecionavam bons filmes para sua programação. Não sei até onde isso é comum, mas não me recordo de conhecer outras crianças que façam isso. Torço para que elas não sejam assim tão raras.

Foi ainda muito jovem que também comecei a anotar o nome de cada filme que eu assistia, juntamente com a data em que o via. Faço isso até hoje. Juro que lembro nitidamente da noite em que peguei uma agenda e decidi fazer isso. Quando meu tio-avô morreu no ano passado, tive de ir com meu pai selecionar o seus objetos que guardaríamos de recordação de outros que colocaríamos para doação. Foi quando encontrei uma agenda com o nome dos filmes que ele havia assistido acompanhados das datas em que os viu, exatamente da mesma forma que eu ainda faço. Foi algo que me emocionou bastante, ainda mais se tratando de uma coisa que ele nunca soube que eu fazia e que eu também jamais soube que alguém da família fazia igual, muito menos que fazia antes de mim. Já muito debilitado com a doença, ele ainda se deu ao trabalho de anotar os últimos filmes que viu antes de morrer. O nome disso é cinefilia. Guardarei para sempre sua agenda junto com as minhas, tio.

Contudo, cinefilia não se resume apenas a ver filmes. Por essa e por muitas outras razões, fica cada vez mais difícil acreditar quando alguém me diz ser cinéfilo. Ganhei meu primeiro computador logo quando iniciei a adolescência, devendo utilizá-lo para os trabalhos da escola. Porém, durante bastante tempo eu não tive acesso à internet, o que me obrigava ir em lan houses pesquisar os trabalhos, colocar as pesquisas no pendrive e terminar o estudo em casa. Toda semana eu inventava algum trabalho novo só para ter o pretexto de ir à lan house, onde eu pesquisava tudo o que eu podia e encontrava uma variedade de textos sobre história do cinema, que salvava para ler depois. Cheguei até mesmo a criar uma enorme enciclopédia, bastante organizada com biografias dos grandes diretores, fichas técnicas e histórias de bastidores dos filmes mais famosos, história dos movimentos cinematográficos, festivais de cinema e seus vencedores, e muita, muita história do cinema brasileiro. Mas foi um material que inexplicavelmente acabei perdendo em alguma formatação do computador. Uma grande pena.

Agora, Leitor, hei de fazer-lhe uma confissão. Fico envergonhado quando alguém me pergunta sobre algum filme que ainda não vi. Anos atrás eu mentia, dizia que havia visto o filme, mas logo em seguida corria para casa e tratava logo de assisti-lo para que a mentira se tornasse verdade. Hoje em dia não minto mais. Admito quando não vi o filme, mas dói. É por isso que quando fico sabendo de algum filme que não vi, tento reverter a situação o mais rápido possível, para que o constrangimento não se repita novamente. Pode parecer besteira, mas achei que devia contar.

Acontece que, com o passar dos anos, fica cada vez mais difícil encontrar tempo para ver filmes, sobretudo para mim que também não abro mão dos livros. Sendo assim, havia desistido de sempre ficar tentando ver mais filmes que o ano anterior. Havia estabelecido que vendo trezentos e sessenta e cinco filmes por ano estava de bom tamanho. Um filme por dia era um número que eu sempre alcançava. Foi então que percebi alguns amigos cinéfilos estabeleceram a meta de seiscentos e sessenta e seis filmes para 2015. Eu, claro, não ia me permitir ficar por baixo, e estabeleci para mim esse número como meta. Mas 2015 acabou e só consegui ver quinhentos e trinta e oito filmes, sendo quinhentos e quatro vistos por mim pela primeira vez. Eu estava caminhando bem para alcançar essa meta, mas acabei relaxando nos últimos três meses do ano passado.

A conclusão que posso tirar disso é que quanto mais os anos vão passando, menos filmes eu vou poder ver. As responsabilidades só aumentam e o tempo só diminui. Todavia, quem me conhece sabe que não sou homem de desistir assim tão fácil. Eu até poderia ter ficado feliz por ser quem mais viu filmes desse meu ciclo de amigos que estabeleceu esse número como meta. Se eles vão tentar mais uma vez, eu ainda não sei, mas 2016 é um dos últimos anos, quiçá o último, em que terei tempo para ver esse número de filmes. Talvez eu esteja enganado e não queira enxergar que 2015 foi minha última chance, mas sou um cinéfilo muito otimista e prefiro acreditar que tudo está a meu favor, afinal, 2016 é ano bissexto e terei vinte e quatro horas a mais para conseguir realizar esse feito. Seja o que Glauber Rocha quiser! Se eu sumir uma vez ou outra, não se assuste: estou assistindo a algum filme. Até a próxima! Abraçaço.