leite de coco é melhor que coca-cola

“Vende-se em segunda mão, e por preço módico, uma consciência quase nova, em perfeito estado de conservação. Por um excesso de escrúpulo, declaramos que ela já foi usada, mas devemos acrescentar que o primitivo dono se serviu dela poucas vezes, podendo assim ser utilizada sem receio por qualquer cidadão.” (Graciliano Ramos)

Este “anúncio” de Graciliano Ramos foi publicado em 27 de fevereiro de 1921, em sua coluna Factos e Fitas do jornal O Índio. Ao ler tal texto em 2017 pela primeira vez, quase cem anos depois de publicado, não pude deixar de pensar em todas as vezes em que ouvi alguém dizer uma variação da frase “gosto de ver filmes para desopilar; quando vou ao cinema, deixo a cabeça em casa”.

“Tem Hollywood o objetivo de atingir o coração do grande público e lhe conquistar simpatia e preferência. Partindo do pressuposto de que o homem de classe média quando entra no cinema procura uma fuga e não espelho da realidade, os produtores capricham nos clichês de entorpecimento e retiram o público do social para o alienante fantástico. A usina de sonhos produz esperança infantil e insufla a consciência de guerra. Há subestimação da solidariedade humana e simpatia exagerada pela moral ensinada. O cinema deixa sua função cultural e assume o papel deseducador. O público elegeu seus “Heróis” e não cede lugar ao aparecimento de outros”. (Glauber Rocha em ‘O Século do Cinema’)

No que convencionei chamar de Trilogia Glauberiana (os livros ‘Revisão Crítica do Cinema Brasileiro’, ‘Revolução do Cinema Novo’ e ‘O Século do Cinema’), Glauber Rocha ataca cirurgicamente o sedentarismo mental das plateias. No início de ‘Revolução do Cinema Novo’, o cineasta faz uso de um texto do ator Miguel Torres, falecido em 1962, aos 36 anos: “Estamos atravessando uma das fases mais graves da história da humanidade e nosso cinema tem que ser sério e grave. Chegou o momento de fechar o circo cinematográfico e fazer conferências maçantes contra a vontade da plateia. Enquanto não realizarmos filmes que violentem o comodismo dessa plateia intoxicada de convicções erradas, não estaremos igualados ao nosso presente”. Torres era um dos argumentistas do Cinema Novo, mas morreu antes de realizar o sonho de dirigir seu próprio filme. Esse e outros textos citados por Glauber, indicando autoria de Miguel Torres, não foram localizados, o que não me deixaria surpreso se descobrisse que foram escritos pelo próprio cineasta que assina o livro. De toda forma, esse é principal mote: atacar o sedentarismo mental das plateias. Como realizar esse ataque? A forma encontrada pelo Cinema Novo foi a violência:

“Nós compreendemos esta fome que o europeu e o brasileiro na maioria não entende. Para o europeu é um estranho surrealismo tropical. Para o brasileiro é uma vergonha nacional. Ele não come mas tem vergonha de dizer isto; e, sobretudo, não sabe de onde vem esta fome. Sabemos nós – que fizemos estes filmes feios e tristes, estes filmes gritados e desesperados onde nem sempre a razão falou mais alto – que a fome não será curada pelos planejamentos de gabinete e que os remendos do tecnicolor não escondem mas agravam seus tumores. Assim, somente uma cultura da fome, minando suas próprias estruturas, pode superar-se qualitativamente: e a mais nobre manifestação cultural da fome é a violência. […] A mendicância, tradição que se implantou com a redentora piedade colonialista, tem sido uma das causadoras de mistificação política e da ufanista mentira cultural: os relatórios oficiais da fome pedem dinheiro aos países colonialistas com o fito de construir escolas sem criar professores, de construir casas sem dar trabalho, de ensinar o ofício sem ensinar o analfabeto. A diplomacia pede, os economistas pedem, a política pede; o cinema novo, no campo internacional, nada pediu: impôs-se a violência de suas imagens e sons em 22 festivais internacionais”. (Glauber Rocha em ‘Revolução do Cinema Novo’)

Como maior aliado teórico desse movimento, Glauber defende a violência como a mais nobre manifestação cultural da fome, e aponta a fome como vergonha nacional: “Ele [o povo brasileiro] não come mas tem vergonha de dizer isto”. Esse trecho fez-me refletir sobre alguns filmes recentes da nossa cinematografia: ‘Cidade de Deus’ (2002), ‘Tropa de Elite’ (2007) e ‘Que Horas Ela Volta?’ (2015). No caso dos filmes de Fernando Meirelles e José Padilha, ambos com grande repercussão internacional, a rejeição por uma parte do público brasileiro se pautava na mesma justificativa: mancham a imagem do Brasil no exterior. De forma velada, o mesmo aconteceu com o filme de Anna Muylaert. Um texto de Nina Lemos chamado ‘Assistir Que Horas Ela Volta na Europa’ publicado na Revista Trip no ano de lançamento do longa-metragem e intensamente compartilhado nas redes sociais, relatava a vergonha da autora em assistir ao filme ao lado de uma plateia europeia.

“Não há quem, neste mundo de hoje dominado pela técnica, não tenha sido influenciado pelo cinema. Mesmo que nunca tenha ido ao cinema em toda vida, o homem recebe influências do cinema: as culturas mais nacionais não resistiriam a uma certa forma de comportamento, a uma certa noção de beleza, a um certo moralismo e, sobretudo, ao estímulo fantástico que o cinema faz à imaginação. Os reflexos se fazem a curto e longo prazo e a sedimentação de uma cultura cinematográfica é fato profundo na vida contemporânea. Não se pode porém falar de cinema sem se falar em cinema americano. Esta noção de cinema com cinema americano é praticamente a mesma coisa: essa influência do cinema é pois uma influência do cinema americano, como forma mais agressiva e difundida da cultura americana sobre o mundo. Esta influência atingiu inclusive o próprio público americano de tal forma que o público, condicionado, passou a exigir do cinema uma imagem à sua própria semelhança. Monstro produtor de ilusões e devorador de alienações, o cinema americano não pôde deixar de gerar similares que logo sentiram a necessidade de devorar o pai para sobreviver”. (Glauber Rocha em ‘Revolução do Cinema Novo’)

Fortemente influenciado pelo cinema americano, uma parte do público brasileiro rejeita os filmes nacionais. Sabemos que existem favelas no Brasil, mas sentimos vergonha de vê-las expostas na tela. Sabemos que existe corrupção na polícia, mas não queremos que os estrangeiros saibam disso. Conhecemos bem, seja de um lado ou de outro, a relação da classe A e B com suas empregadas domésticas, mas ficamos constrangidos se um filme que aborda o assunto é exibido fora do país.

“Muito mais próximos econômica e culturalmente dos Estados Unidos do que da Europa, os nossos espectadores têm uma imagem da vida através do cinema americano. Quando um cidadão brasileiro pensa em fazer seu filme, ele pensa em fazer um filme “à americana”. E é por isto que o espectador brasileiro de um filme brasileiro exige, em primeira instância, um filme “brasileiro à americana”. Se o filme, por ser nacional não é americano, decepciona. O espectador condicionado impõe uma ditadura artística a priori ao filme nacional: não aceita a imagem do Brasil vista por cineastas brasileiros porque ela não corresponde a um mundo tecnicamente desenvolvido e moralmente ideal como se vê nos filmes de Hollywood. Assim, não é mistério quando um filme brasileiro faz sucesso popular: todos os filmes brasileiros que fazem sucesso são aqueles que, mesmo abordando temas nacionais, o fazem utilizando uma técnica e uma arte imitadas do americano”. (Glauber Rocha em ‘Revolução do Cinema Novo’)

Quando alguém elogia um filme nacional dizendo que ele “nem parece brasileiro”, é porque ele de fato, não é brasileiro. Está completamente desprovido de personalidade, de identidade. É uma simples cópia. Atualmente, os filmes brasileiros que alcançam sucesso nacional ou internacional continuam sendo os que de um modo ou de outro imitam as técnicas do cinema americano. O que justifica a teoria de Glauber de que “o público, condicionado pela ideologia de Hollywood, é igual em todas as partes do mundo”. Então, como construir uma cultura nacional?

“O cinema é uma indústria geradora de cultura. Se o cinema americano gerou um tipo de gosto e se o cinema brasileiro, para se desenvolver, precisa seguir o caminho mais fácil, que é utilizar as formas americanas, o cinema industrial brasileiro será apenas um gerador em maior potência da cultura de dominação. Esta cultura, inclusive, poderia ser francesa, russa ou belga: não importa. Num país subdesenvolvido é fundamental que a sociedade adquira um comportamento nascido das condições de sua estrutura econômica. O primeiro desafio ao cineasta brasileiro é este: como conquistar o público sem usar as formas americanas, hoje já diluídas em outras subformas europeias? Este impasse, que reflete a noção moderna das civilizações subdesenvolvidas tropicais, tem uma repercussão moral dupla e diversa: sobre o cineasta que “produz a imitação”, e sobre o público que “recusa a original””. (Glauber Rocha em ‘Revoluções do Cinema Novo’)

A única saída para a indústria nacional é tomar consciência de nossas tradições. É preciso modernizar-se através do passado, ou seja, olhar para nossas raízes, como Mário de Andrade fez em ‘Macunaíma’, livro que causou dificuldade de apreensão desde sua primeira edição em 1928. No livro, o autor paulista resgata vários mitos indígenas, além de lendas e provérbios do folclore brasileiro. Como uma obra tão enraizadamente nacional pode ainda nos soar estranha, mesmo 89 anos depois? No final do livro [pule para o parágrafo seguinte se não quiser ler revelações do enredo], o protagonista Macunaíma, herói de nossa gente, se aborrece de tudo e vira uma estrela, passando a viver solitário do brilho inútil das estrelas no céu. Isso é muito simbólico.

“O público não quer saber de nada disto, ele vai ao cinema para se divertir mas encontra na tela um filme nacional que exige dele um esforço anormal para estabelecer um diálogo com um cineasta que faz, de sua parte, um esforço anormal para falar com o público… em outra linguagem! Sobre esta “linguagem” as discussões são prolixas e reveladoras. O cinema novo, recusando o cinema de imitação e escolhendo uma outra linguagem, recusou também o caminho mais fácil desta “outra linguagem”. Esta outra linguagem, típica das chamadas artes nacionalistas, é o “populismo”. É reflexo de uma atitude política muito nossa. Como o caudilho, o artista se sente pai do povo: a palavra de ordem é “vamos falar coisas simples que o povo entenda”. Considero um desrespeito ao público, por mais subdesenvolvido que ele seja, “fazer coisas simples para um povo simples”. Em primeiro lugar o povo não é simples. Doente, faminto e analfabeto, o povo é complexo. O artista/paternalista idealiza os tipos populares, sujeitos fabulosos que mesmo na miséria têm sua filosofia e, coitados, precisam apenas de um pouco de “consciência política” para, de uma aurora para outra, inverter o processo histórico.” (Glauber Rocha em ‘Revolução do Cinema Novo’)

Em ‘Macunaíma’, podemos constatar um esforço anormal por parte de alguns leitores para estabelecer um diálogo com Mário de Andrade que, por sua parte, fez um esforço anormal (ou não) para nos falar em outra linguagem, a brasileira, que deveria também ser a nossa. Possuímos uma cultura rica e esquecemos isso, tão submissos somos ao que vem de fora. No entanto, mesmo importada, se a obra não apresentar uma cópia da linguagem vigente, essa criação também será rejeitada. O sedentarismo mental da plateia dificulta o diálogo entre público e arte/artista. Para Glauber, o público se recusa a seguir o filme mas quer que o filme siga suas ideias.

“A colonização econômica de nosso cinema gera a colonização cultural do nosso povo. O povo brasileiro é inconscientemente deformado pela visão moral e artística do cinema americano e por isto inconscientemente venera e respeita os Estados Unidos. O fenômeno é igual na América Latina. Hollywood, impondo sua civilização através do cinema, debilita psicologicamente o povo e consolida sua penetração. Se alguém achar que estou mentindo é só fazer uma pesquisa. A colonização do povo pelo cinema hollywoodiano atinge as classes médias e proletária. A burguesia é colonizada “esteticamente” pelo cinema euro-americano. Inconscientemente, duas a três gerações de intelectuais brasileiros foram colonizadas pelo cinema euro-americano. Formou-se uma linguagem. Modelos. Chavões. Clichês. A colonização é um vírus tão forte que contamina até mesmo os espíritos mais nacionalistas. Esta burguesia colonizada produziu um grupo de críticos e cineastas que há muitos anos colabora direta ou indiretamente para a permanência do cinema euro-americano no Brasil e consequentemente sabota o desenvolvimento do cinema nacional. […] Este grupo, colonizado, frustrado, desesperado raciocina abstratamente sobre cinema nacional. Ninguém ousa discutir as estruturas econômicas do cinema nacional. Discutem apenas a estética do cinema nacional. A colonização gerou neles o complexo de que “cineasta brasileiro não sabe fazer filme”. Escreveram isto nos jornais. Excitaram o público e os intelectuais contra o cinema nacional. Botaram a esquerda e a direita contra o cinema nacional. O cineasta brasileiro é uma vítima solitária. Ninguém perdoa a ele o ato de ousar fazer um filme no Brasil. É isto exatamente o que desejam: desmoralizar o cinema brasileiro a fim de que não se crie indústria nacional e o mercado econômico e moral de um povo fique nas mãos dos americanos”. (Glauber Rocha em ‘Revolução do Cinema Novo’)

A inércia mental é tão grave que boa parte do público não consegue assimilar obras com linguagens originais. Fenômeno esse que passei a chamar de Disfagia Cultural. Disfagia é o nome dado à dificuldade para deglutir alimentos, secreções, líquidos ou saliva, desde o seu trajeto inicial na boca até sua transição do esôfago para o estômago. Apesar de não ser uma doença, a disfagia pode trazer prejuízos às condições pulmonares e nutricionais, como desnutrição e desidratação. Por sua vez, a Disfagia Cultural seria a dificuldade de consumir e assimilar obras de arte originais. Condicionado, o público recusa o novo. Desta forma, a arte nacional é estrangeira dentro do próprio país. O mercado audiovisual brasileiro produz mais de 120 filmes longa-metragem por ano, o que dá uma média de um filme brasileiro novo a cada 3 dias. No entanto, esses mesmos filmes representam, segundo dados da ANCINE, apenas 15% do conteúdo consumido pelo público.

“Com a consciência de classe. É necessário que os camponeses pobres se organizem para trabalhar a terra e vender seus produtos no mercado. As pessoas preferem os potes de conservas importados; ninguém tem a coragem de dizer-lhes que o leite de coco é melhor do que a coca-cola”. (Glauber Rocha em ‘Revolução do Cinema Novo’)

Em seu livro ‘O Baú do Raul’, nosso saudoso Raul Seixas diz que “o brasileiro não faz História; ele é um espectador da História”. Como discordar disso quando colocados diante dos números da ANCINE? Consumindo apenas conteúdo estrangeiro, deixamos de ser protagonistas de nossa própria história. Somos coadjuvantes em nosso próprio país. Em ‘Brejo das Almas’, de 1934, Carlos Drummond de Andrade incluiu um poema chamado ‘Hino Nacional’, em que dizia que precisamos descobrir o Brasil:

Precisamos descobrir o Brasil!
Escondido atrás das florestas,
com a água dos rios no meio,
o Brasil está dormindo, coitado.
Precisamos colonizar o Brasil.
[…]
Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!
Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,
ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.
O Brasil não nos quer! Está farto de nós!
Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?

Precisamos urgentemente descobrir o Brasil. Não é questão de patriotismo e sim de sobrevivência. Vivemos sufocados por culturas que não são nossas enquanto a cultura brasileira morre. Estamos perdendo nossa identidade. Estamos riscando o Brasil do mapa. Um povo camuflado de culturas que não a sua deixa de existir para reproduzir em maior escala a cultura dominante. Estamos nos rebelando contra nossa própria cultura, estamos destruindo-a, eliminando-a.

“É função do artista violentar – o artista é sempre a esquerda eterna, lógico ou anárquico – o artista só começa a se negar quando adere à ordem estabelecida, quando deixa de exercer seu poder crítico sobre o mundo, sobre o Estado, sobre o conformismo burguês, sobre o gosto fácil. O artista é um ser em oposição – se ele vive no fascismo é antifascista, se vive no Brasil subdesenvolvido e faminto ou na África do Norte colonizada é um revolucionário, usando cabeça e coração para defender e libertar o homem do totalitarismo”. (Glauber Rocha em ‘O Século do Cinema’)

Glauber questionava: dar ao público o que o público quer será uma forma de conquista ou de aproveitamento do condicionamento cultural do público? Mostrar o que o público não conhece não seria então o verdadeiro caminho pela conquista desse público? Afinal, não é função do artista provocar?

Arte no Brasil (ou em qualquer país do Terceiro Mundo) tem sentido, sim senhor! Pobre do país subdesenvolvido que não tiver uma arte forte e loucamente nacional porque, sem sua arte, ele está mais fraco (para ser colonizado na cuca) e essa é a extensão mais perigosa da colonização econômica. É PRECISO CONTINUAR A FAZER CINEMA NO BRASIL. (Glauber Rocha em ‘O Século do Cinema’)

As pessoas podem até preferirem beber coca-cola, e podem até dizer que ela ou outra bebida qualquer são melhores que o leite de coco. Embora talvez pareça, essa não é uma questão de gosto. Outras bebidas podem até ser melhores, e concordo que a coca-cola é a mais poderosa delas, sendo até onipresente. É mesmo muito difícil competir. No entanto, o leite de coco é o melhor para o Brasil, e para a cultura brasileira. Sendo, desta forma, também o melhor para os artistas brasileiros e brasileiras que lutam pelo direito de existir.

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vítima da inércia

Sinto saudades de quando Fernando Meirelles dirigia filmes. Ele costumava criar um blogue por longa-metragem, em que escrevia sobre os processos de pré-produção, filmagens, pós-produção, etc., embora ele sempre os abandonasse sem mais nem menos quando o filme estava próximo do seu lançamento. Sempre tive a sensação de que só eu conhecia esses blogues, pois nunca ouvi alguém falar sobre eles. Na página de 360, de 2012, ele escreveu o seguinte: “Sou uma vítima da inércia. […] me pego com aquela conhecida sensação de ter dado um passo errado ao entrar neste filme. Sob o peso do grande esforço que é começar a colocar esta enorme máquina em movimento penso: Tudo estava tão bem em São Paulo, para que me coloco nestas situações?”. Sei que essa sensação não é privilégio de cineastas, mas é exatamente o que sinto sempre que entro em um projeto novo. Atualmente, estou dirigindo um curta-metragem e já rodamos 70% das cenas. A pré-produção começou logo no início do ano e tivemos que correr para filmar a tempo no dia 28 de abril, na greve geral. Depois fizemos uma pausa para pré-produzir as próximas cenas e voltamos a filmar no final de maio. No final deste mês e início de julho, filmaremos as últimas sequências. Foi por esse motivo que este blogue ficou abandonado por tanto tempo. Sinceramente, acreditei que não voltaria mais a publicar aqui, mas hoje deu vontade de contar-lhes o motivo de minha ausência, pois alguns leitores carinhosos me escreveram perguntando o que havia acontecido. Bom, agora vocês já sabem: eu estava bem aqui na minha casa, vivendo tranquilamente, e me coloquei nesta situação. Sempre que estou em um projeto novo digo para mim mesmo que demorarei muito tempo para entrar em outro, mas isso sempre acontece no processo de pré-produção. É o trabalho mais difícil: montar uma equipe, escalar elenco, conseguir as locações, fechar cronogramas, conseguir equipamentos, patrocínio, objetos de cena, figurinos e por aí vai. Durante as filmagens tudo isso passa, e ficamos tristes quando o filme se aproxima do fim. Algumas semanas antes de filmar, eu havia sido assaltado, e não fiquei nervoso em momento algum, mesmo com uma faca apontada para mim. No entanto, quanto mais o dia das filmagens se aproximava, mais nervoso eu ficava. É esse frio na barriga que também faz de mim uma vítima da inércia. Quando o filme acabar e eu finalmente puder descansar, não conseguirei ficar parado por muito tempo, pois vou querer sentir toda essa adrenalina novamente. Em teoria, estou com duas semanas de folga. Digo teoricamente porque ainda terei que resolver algumas burocracias antes de entrar na curva final. O blogue completou dois anos dia 1 de junho e eu nem tive tempo de escrever algo especial. Eu havia até preparado um texto sobre isso, mas não consegui concluir. Fica para o aniversário de três anos. Isso se ele chegar até lá. Eu voltei, mas não sei se para ficar. Neste mesmo blogue do Fernando, ele escreveu a seguinte frase: “Antes as ideias aproveitavam qualquer brecha para entrar, hoje, prefiro ajudá-las, criando um certo espaço mental para elas aparecerem”. Ideias não me faltam, mas elas nem sempre chegam no momento certo. Por essa razão, prefiro aproveitar todo tempinho de folga para respirar em prol do projeto. Talvez eu volte a escrever aqui durante esse período, mas não prometo nada. Para encerrar, deixo com vocês um documentário que fiz com Lola Aronovich no início do ano. Espero que gostem. Abraçaço.

Escreva Lola Escreva

todo dia é dia de gênio

Certa feita, em uma aula de Cinema Moderno que cursei no segundo semestre do curso de Cinema, a turma assistiu ao filme ‘O Bandido da Luz Vermelha’, de 1968, do diretor Rogério Sganzerla (1946-2004). Era um seminário e havia uma equipe de cinco alunos responsável pela projeção do filme e o debate com o restante da turma sobre a importância deste longa para o cinema brasileiro moderno. Na aula da semana anterior, minha equipe havia apresentado ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, de 1964, do diretor Glauber Rocha (1939-1981). Ao final da aula, a professora, aproveitando a repercussão dessas duas apresentações e o fato de Sganzerla ter apenas vinte e dois anos quando dirigiu ‘O Bandido…’ e Glauber vinte e cinco anos quando lançou ‘Deus e o Diabo…’ – antes disso, tendo lançado seu primeiro longa-metragem, ‘Barravento’, em 1962, aos vinte e três anos -, soltou um comentário que até hoje julgo um tanto quanto irresponsável: “Vocês não se sentem mal por estarem na mesma faixa de idade deles e ainda não terem lançado um longa?”.

Desde o primeiro momento, eu também encarei essa pergunta como uma forma de incentivo, uma provocação, uma tentativa de nos encorajar, digamos assim, a produzirmos. Por ser uma professora e uma pessoa maravilhosa, sei que a intenção era das melhores: fazer-nos sair da teoria e partir para a prática. No entanto, a boa intenção não exclui os muitos problemas dessa pergunta-provocação-incentivo. Um deles é imediato: o sentimento de culpa e fracasso desnecessário que se instala em nossa consciência ao sermos comparados com pessoas da nossa faixa-etária mais bem sucedidas que nós.

A turma dessa disciplina era formada por alguns alunos com menos de vinte anos, a grande maioria na casa dos vinte, alguns com trinta e poucos e até aluno com mais de cinquenta anos. Diante da pergunta, todos ficaram calados, ninguém respondeu nada até eu, que sempre fui de falar muito, respondi com um “não, não me sinto mal por não ter lançado nenhum longa ainda”. Nesse momento todos os olhares se voltaram para mim e eu comecei a dar minhas justificativas, que só não transcrevo aqui porque já não lembro palavra por palavra, mas recordo de ter usado Suzana Amaral como um dos exemplos.

Suzana começou a estudar cinema quando já havia criado os nove filhos. Lançou o primeiro filme, ‘A Hora da Estrela’, um clássico do cinema brasileiro de 1985, aos cinquenta e três anos de idade, baseado na obra homônima de Clarice Lispector. Quando falei dela, um dos alunos, na época com vinte e sete ou vinte e oito anos, comentou que estava aliviado, pois ele ainda estava no tempo. O que muita gente esquece é que todo tempo é tempo. O próprio Sebastião Salgado só começou a fotografar aos vinte e nove. Não há necessidade desse tipo de comparação, principalmente quando o assunto é arte.

Agora, sempre que vejo o exemplo de um artista que começou “tarde”, lembro dessa aula. A própria concepção de “começar tarde” é errada, pois cada profissional tem o seu tempo próprio. O momento de criação de cada um é o tempo certo. É óbvio que muitos fatores nos impedem de começar antes. Artistas que conseguem reconhecimento logo no início são exceções. É difícil estudar em uma universidade um curso que não nos traz muitas ou quase nenhuma perspectivava de emprego. É como saltar sem paraquedas. Para muitos é preciso fazer outro curso antes e se profissionalizar em algo apenas para se conseguir estabilidade financeira. Para a grande maioria (e nisso me incluo), apesar de já cursar a área de interesse, é preciso trabalhar com o que não gostamos para, no futuro, finalmente conseguir trabalhar com o que queremos. Entretanto, nunca é tarde para começar.

Pode até ser desanimador fazer cinema diante de gênios como Glauber e Sganzerla, que começaram tão cedo. Para outros também pode ser desanimador ser escritor ao lado de gênios como Machado de Assis (1839-1908) e Álvares de Azevedo (1831-1852), que começaram tão jovens. Contudo, caríssimos, o fato de Suzana Amaral ter lançado o primeiro filme aos cinquenta e três, Kleber Mendonça Filho ter lançado seu primeiro longa-metragem aos quarenta e cinco anos, e Fernando Meirelles e Cláudio Assis aos quarenta e três anos, não os torna piores. O trabalho de todos eles, inclusive, é muito maduro e consistente. Sganzerla, por exemplo, nunca conseguiu fazer um filme melhor que ‘O Bandido da Luz Vermelha’, enquanto que Kleber Mendonça acaba de lançar a obra-prima ‘Aquarius’, aos quarenta e oito anos. Em 2002, quando Meirelles lançou ‘Cidade de Deus’, ele estava então com quarenta e sete.

Cora Coralina (1889-1985) e Graciliano Ramos (1892-1953) são dois gênios da literatura, tendo lançado seus primeiros livros aos setenta e seis e quarenta e um, respectivamente. Não estou dizendo que começar “tarde” é melhor, mas esse desejo de ser o mais rápido, o mais forte e o mais jovem, causa muitos problemas. No desespero de lançar logo a primeira obra, muitos artistas produzem trabalhos que com certeza seriam melhores se houvessem se dado o tempo de amadurecê-los.

Repito, nunca é tarde para começar. E nem para recomeçar. Tom Zé havia abandonado a carreira, mas conseguiu sair do ostracismo aos cinquenta e seis anos. Se já havia lançado clássicos como ‘Todos os Olhos’ (1973) e ‘Estudando o Samba’ (1976), ainda conseguiu realizar um de seus melhores trabalhos em 2012, o disco ‘Tropicália Lixo Lógico’, aos setenta e seis. Esse ano, aos oitenta, acaba de lançar o disco ‘Canções Eróticas de Ninar’, que eu ainda não ouvi e já gostei. Nada está perdido; bons trabalhos são realizados em qualquer idade. Se os artistas mais velhos nos incentivam a sempre continuar tentando, os artistas jovens não podem ser usados para nos desencorajar a produzir depois de uma determinada idade. E tenho dito: todo dia é dia de gênio.

escrever é reescrever

Em entrevista para o projeto Fronteiras do Pensamento, o saudoso Moacyr Scliar contou que era a exaustão que lhe fazia saber quando o livro estava pronto para ser publicado. Disse também que, para ele e para a maioria dos escritores, escrever é reescrever. Nesta perspectiva, não haveria limites para o número de vezes em que um texto pudesse ser reescrito, com seu potencial de aperfeiçoamento sendo absolutamente infinito. Mesmo que a exaustão, o editor ou até mesmo um prazo coloque fim a escrita do livro que será publicado, para Moacyr não haveria texto que não pudesse ser melhorado.

No vídeo, Moacyr usa o jornal como exemplo de escrita urgente, já que ele exige uma entrega mais rápida. Neste caso, os desapontamentos costumam ser maiores. Embora ele tenha citado o suporte periódico, tal situação pode sim acontecer com os blogues. A grande maioria dos blogueiros possui um dia certo ou mais para publicar os seus textos. No caso do Satãnatório, eu tento publicar toda segunda-feira, o que nem sempre é possível. Com o corre-corre da semana, costumeiramente sento para escrever quando já estou quase perdendo o prazo. Essa urgência me faz constantemente me arrepender de certos escritos, principalmente quando deixo passar algum erro de revisão. Tenho de confessar que já cheguei a corrigir e até mesmo mudar frases depois de já ter publicado por achar que ficaria melhor. Sendo assim, quando publico algo, tento não ler mais o que escrevi. Caso eu não finja que aquele texto está morto, o fantasma da reescrita me persegue infinitamente. É crônico.

Como você Leitor pode ver, hoje não é segunda-feira, mas, como estou ausente há quase um mês, resolvi dar um sinal de fumaça. Estou vivo! Estive envolvido na produção de um curta-metragem onde assinei a assistência de direção. No cinema, a função do assistente de direção é fazer a ponte entre direção e produção. Seu trabalho deve estar sempre a serviço da realização do roteiro, da manutenção do cronograma e das melhores condições para o trabalho do diretor no set. Também é sua função realizar a análise técnica do roteiro, do plano e da programação diária de filmagens ou ordem do dia, além de supervisionar o recebimento e distribuição dos elementos requisitados na ordem do dia; coordenar e dinamizar as atividades, visando o cumprimento da programação estabelecida. Trata-se de uma ocupação bastante carregada, já que o assistente de direção começa a trabalhar desde a preparação da produção até o término das filmagens. Muitos dos textos publicados aqui entre outubro e novembro foram escritos quando eu já estava trabalhando na pré-produção, mas conforme as filmagens iam se aproximando, ficou impossível escrever.

As filmagens acabaram domingo (06/12), com uma externa realizada em um terminal rodoviário. Gosto muito de filmar em externas e é sempre curioso ver a reação das pessoas assistindo uma equipe de filmagem trabalhando. Realmente não entendo o encantamento que isso exerce, sobretudo nesse grupo formado por nenhum famoso. Certa vez, Fernando Meirelles comentou algo parecido no blogue-diário de seu filme ‘Ensaio Sobre a Cegueira’: “Não entendo muito o interesse das pessoas em assistir a filmagens. Filmagem é a coisa mais chata se você não está trabalhando. Talvez mais chato do que assistir a um dentista obturando. (Eu nunca liguei para minha dentista para pedir para ir vê-la fazer uma obturação)”.

O que importa é que deu tudo certo e as filmagens acabaram. Hoje, quarta-feira, é o primeiro dia livre que tenho depois que as filmagens foram concluídas, o que me faz ter a sensação de que hoje é sábado. Depois de tantos compromissos, de vários dias dormindo pouco mais de quatro horas, sinto como se tivesse todo o tempo do mundo e justamente por isso nem estou sabendo direito o que fazer com ele. Como segunda-feira ainda vai demorar um pouquinho e eu não queria ter que esperar até lá para voltar a escrever por aqui, resolvi explicar rapidamente o motivo do meu sumiço. Essa é uma escrita urgente, como comecei falando nos primeiros parágrafos, por isso sei que vai me gerar desapontamentos por não ter redigido algo mais elaborado depois de quase um mês parado. Mas a saudade em atualizar o blogue estava grande e, pensando por esse lado, pretendo pseudo-perdoar-me. Dezembro traz o início das férias, então não devo aparecer muito aqui nesses últimos dias de 2015, mas prometo publicar uma saideira antes da virada do ano. Para que não saiam com uma sensação de tempo perdido, deixo com vocês o vídeo do Moacyr Scliar de que eu estava falando. Até a próxima, abraçaço.

Moacyr Scliar – A Escrita Infinita