vítima da inércia

Sinto saudades de quando Fernando Meirelles dirigia filmes. Ele costumava criar um blogue por longa-metragem, em que escrevia sobre os processos de pré-produção, filmagens, pós-produção, etc., embora ele sempre os abandonasse sem mais nem menos quando o filme estava próximo do seu lançamento. Sempre tive a sensação de que só eu conhecia esses blogues, pois nunca ouvi alguém falar sobre eles. Na página de 360, de 2012, ele escreveu o seguinte: “Sou uma vítima da inércia. […] me pego com aquela conhecida sensação de ter dado um passo errado ao entrar neste filme. Sob o peso do grande esforço que é começar a colocar esta enorme máquina em movimento penso: Tudo estava tão bem em São Paulo, para que me coloco nestas situações?”. Sei que essa sensação não é privilégio de cineastas, mas é exatamente o que sinto sempre que entro em um projeto novo. Atualmente, estou dirigindo um curta-metragem e já rodamos 70% das cenas. A pré-produção começou logo no início do ano e tivemos que correr para filmar a tempo no dia 28 de abril, na greve geral. Depois fizemos uma pausa para pré-produzir as próximas cenas e voltamos a filmar no final de maio. No final deste mês e início de julho, filmaremos as últimas sequências. Foi por esse motivo que este blogue ficou abandonado por tanto tempo. Sinceramente, acreditei que não voltaria mais a publicar aqui, mas hoje deu vontade de contar-lhes o motivo de minha ausência, pois alguns leitores carinhosos me escreveram perguntando o que havia acontecido. Bom, agora vocês já sabem: eu estava bem aqui na minha casa, vivendo tranquilamente, e me coloquei nesta situação. Sempre que estou em um projeto novo digo para mim mesmo que demorarei muito tempo para entrar em outro, mas isso sempre acontece no processo de pré-produção. É o trabalho mais difícil: montar uma equipe, escalar elenco, conseguir as locações, fechar cronogramas, conseguir equipamentos, patrocínio, objetos de cena, figurinos e por aí vai. Durante as filmagens tudo isso passa, e ficamos tristes quando o filme se aproxima do fim. Algumas semanas antes de filmar, eu havia sido assaltado, e não fiquei nervoso em momento algum, mesmo com uma faca apontada para mim. No entanto, quanto mais o dia das filmagens se aproximava, mais nervoso eu ficava. É esse frio na barriga que também faz de mim uma vítima da inércia. Quando o filme acabar e eu finalmente puder descansar, não conseguirei ficar parado por muito tempo, pois vou querer sentir toda essa adrenalina novamente. Em teoria, estou com duas semanas de folga. Digo teoricamente porque ainda terei que resolver algumas burocracias antes de entrar na curva final. O blogue completou dois anos dia 1 de junho e eu nem tive tempo de escrever algo especial. Eu havia até preparado um texto sobre isso, mas não consegui concluir. Fica para o aniversário de três anos. Isso se ele chegar até lá. Eu voltei, mas não sei se para ficar. Neste mesmo blogue do Fernando, ele escreveu a seguinte frase: “Antes as ideias aproveitavam qualquer brecha para entrar, hoje, prefiro ajudá-las, criando um certo espaço mental para elas aparecerem”. Ideias não me faltam, mas elas nem sempre chegam no momento certo. Por essa razão, prefiro aproveitar todo tempinho de folga para respirar em prol do projeto. Talvez eu volte a escrever aqui durante esse período, mas não prometo nada. Para encerrar, deixo com vocês um documentário que fiz com Lola Aronovich no início do ano. Espero que gostem. Abraçaço.

Escreva Lola Escreva

haja paciência

Costumo jantar por volta das 20:00 horas, quando já estou em casa. Acabei me acostumando por ser esse o horário em que coloco o colírio nos olhos de minha mãe, que tem glaucoma. Nesse período da noite, estou quase sempre lendo ou escrevendo no meu quarto, que fica no primeiro andar da casa. Então desço e, depois de medicar minha mãe, faço minha refeição. A cozinha fica muito próxima da sala, onde a televisão fica ligada o tempo inteiro. Essa é também a hora em que meu pai já está de volta do trabalho. Ele janta mais cedo do que eu e depois fica na sala vendo novela até ir dormir (inclusive, sua noite de sono geralmente se inicia no sofá). Ele não é surdo, mas tem sua audição comprometida. Dessa forma, quando ele está assistindo, o aparelho de TV fica com o dobro do volume utilizado pelos outros moradores da casa. Da cozinha, ouço tudo o que se passa na novela. Então, sem querer, quase sempre estou por dentro das tramas.

Atualmente, neste horário, é transmitida uma novela chamada ‘Haja Coração’, em que um núcleo em específico tem me irritado bastante. Antes de falar sobre isso, tive que fazer uma rápida pesquisa para poder escrever esse texto. A novela é escrita por Daniel Ortiz, livremente inspirada em ‘Sassaricando’ de Silvio de Abreu, transmitida originalmente entre 1987 e 1988. ‘Haja Coração’ é a 88ª “novela das sete” exibida pela Rede Globo. Eu não sabia o nome dos atores e atrizes e muito menos o nome das personagens, então, se por acaso eu escrever alguma informação errada e vocês perceberem, por favor, me avisem que logo corrijo.

Pois bem, não é o fato de que o quarentão Malvino Salvador, protagonista da novela, tenha conseguido se transformar em um piloto de corrida nessa idade que vem me irritando, mesmo me incomodando com este elemento ficcional pouco crível, haja vista que com quarenta anos os pilotos profissionais já estão começando a planejar suas aposentadorias. Minha irritação também não é com a personagem de Tatá Werneck que, de tão exagerada, não dá nem para chamar de caricata. O que de fato vem torrando minha paciência é o núcleo de Sabrina Petraglia, Marcos Pitombo e Karen Junqueira que, pelo visto, se tornou um dos pontos principais da trama, pois toda noite escuto a mesma ladainha de seus personagens.

Felipe, interpretado por Pitombo, é disputado por Shirlei, personagem de Petraglia e Jéssica, vivida por Junqueira. Na trama, Shirlei é uma mulher virgem que nunca havia beijado na boca até conhecer Felipe – não sei qual a idade da personagem, embora sua intérprete, Sabrina, tenha trinta e três anos na vida real. Até aí, tudo bem, pois cada pessoa tem o seu tempo próprio e isso deve ser respeitado. Porém, a novela tem feito uma intensa e irresponsável exaltação a virgindade feminina, retratando Shirlei como uma garota pura (a famosa mulher para casar). Em um determinado capítulo, Felipe estava revelando a outro personagem – que eu não sei quem é, pois não vejo as imagens e só ouço as cenas – que tinha sido o primeiro homem a beijar Shirlei. Mesmo que estivesse usando um ponto de vista romântico, ele tratava o caso como uma conquista, um troféu, algo do que se orgulhar. Ele estava feliz por, dentre tantas mulheres com quem já ficou (na ficção), havia encontrado uma donzela imaculada.

Apesar dos pesares, Felipe é um rapaz de bem e realmente aparenta estar apaixonado por Shirlei e ela por ele. Todavia, não nos enganemos: seu encanto pelo puritanismo da moça, juntamente com a forma dela de se comportar atrelada a uma aparência virginal, é um oceano de conservadorismo. Incomoda-me profundamente também o fato de Shirlei ser tratada como uma pobre coitada por ser uma empregada doméstica. Sua profissão e condição social, inclusive, são largamente utilizadas por Jéssica, sua “rival”, para humilhá-la. É nesses momentos que Felipe, o príncipe encantado, entra em cena montado em seu cavalo branco para proteger sua amada que não consegue se defender sozinha. Felipe dá lições de moral em Jéssica através de falas dramaturgicamente pobres que revelam todas as “boas intenções” do autor em prestar um serviço de inclusão social em sua novela. Entretanto, ele só tem reforçado estereótipos e clichês. Um amador não faria pior.

Outro fato difícil de engolir, ou melhor, inaceitável, é que ainda encontremos num folhetim televisivo duas personagens femininas brigando por um homem. Jéssica, uma mulher rica, e que tem tudo o que quer, só estará feliz quando casar com Felipe. Shirlei, uma mulher pobre, e que não teve as mesmas oportunidades de Jéssica, também só ficará feliz quando casar com Felipe (o que a fará, consequentemente, atingir outra condição social através do casamento e não com os próprios méritos – embora essa não seja a intenção da personagem). Acredito que as atrizes não se orgulham de interpretar esses papéis, mas necessitam fazê-lo, afinal, precisam trabalhar e bons personagens femininos são desde sempre muito raros, quase que beirando a extinção.

Frequentemente me pergunto em que ano estamos para ter certeza de que não estou vivendo na Idade Média. Não sei vocês, mas considero ultrajante que um texto tão machista e reacionário como o deste núcleo de ‘Haja Coração’ ainda seja escrito nos dias de hoje. Pior ainda, que uma emissora de TV, de alcance nacional (e internacional), produza e transmita um absurdo desses. Shirlei pode sim ser uma mulher virgem aos trinta e três anos de idade. Que mal há nisso? Porém, fico me perguntando se Felipe se apaixonaria por ela se fosse uma personagem sexualmente experiente (sei que é ficção, mas por suas falas, tenho certeza que não). Ele está encantado demais com o puritanismo da moça e com a possibilidade de ser o primeiro (e único) homem a transar com ela.

É triste ver que, com produtos como esse, a Globo consiga ser a emissora mais assistida do Brasil. Isso só reforça o quanto somos um país conservador. Felipe é apenas o retrato do típico homem que quer a todo custo ser “especial” na vida de uma mulher, caso contrário, vai sempre se enxergar como sendo “só mais um”. Fico me perguntando o que fez com que Shirlei se mantivesse virgem. Será que foi escolha (na melhor das hipóteses)? E se foi mesmo uma escolha, será que ela o fez de livre e espontânea vontade? Livre da influência da igreja? Livre da influência do conservadorismo? Livre de uma sociedade patriarcal que diz que mulher deve casar virgem? É realmente difícil acreditar que foi uma escolha livre de influências. Como se não bastasse, em certo capítulo, Shirlei estava confessando para Francesca, personagem de Marisa Orth (que acredito ser mãe dela na novela), que estava muito apreensiva, pois havia começado a namorar Felipe e logo teria que transar com ele, pois ele não ia esperar muito, afinal, “ele é homem”. O machismo se contradiz o tempo inteiro: se a mulher não for virgem, não serve para casar, mas se não transar, é trocada por outra. Realmente não consigo entender.

Fico muito triste que o machismo ainda exista. Fico triste que músicas, novelas, livros e filmes machistas continuem a ser produzidos. Fico triste que uma novela como essa ainda seja consumida em larga escala. Fico triste que ela seja consumida por parentes tão próximos a mim. É assustador que os fãs da novela não consigam formar uma visão crítica em relação ao que assistem. Toda noite, durante os trinta minutos em que fico a ouvir da cozinha o “chorume das sete” enquanto janto e lavo a louça, podem ter certeza que não deixo em paz quem está na sala assistindo. Elenco em voz alta cada comportamento machista, homofóbico e racista que noto nessa trama e em outras, acreditando que um dia eles conseguirão enxergar isso com os próprios olhos. É um luta diária. No momento, só me resta torcer para que pelo menos as próximas não sejam tão horríveis quanto essa. Não por mim, mas por quem assiste. Enquanto essa não acaba, só me resta exercitar a paciência.

santa inês

Quem me conhece sabe que pontualidade é um dos meus pontos fortes, mas quando o assunto são memes ou virais virtuais, sou um dos seres mais atrasados que existem. Estou sempre rindo por último, principalmente quando descubro acidentalmente algum vídeo engraçado que já caiu no esquecimento e que todo mundo já assistiu. Por isso, se alguém não me apresentar aos temas discutidos na rede ou se acidentalmente eu não acabar esbarrando com eles, dificilmente ficarei sabendo, primeiro porque não tenho tempo, e ainda porque não tenho interesse por memes. Também não os reproduzo, como boa parte dos meus amigos fazem, inclusive, agregando-os aos seus vocabulários. Em várias ocasiões, ouço esses chavões e fico sem entender, vindo a descobrir seu significado só muito tempo depois. Mesmo assim, conheço muitos, afinal, eles estão em todos os lugares: quando não estão na internet, estão na boca das pessoas ou em estampas de camisas, por exemplo. Não que eu queira fugir deles, pois a grande maioria me provoca boas risadas e alguns até geram discussões com vínculo político deveras interessantes, ainda que não tenham essa intenção.

Nos últimos dias rolou (ainda está rolando?) uma campanha chamada #MakeBrMemesGreatagain (brasileiros, voltem a fazer grandes memes – em tradução livre), em que seus simpatizantes protestaram contra o que eles decidiram chamar de cultura de memes ruins (protestar contra a cultura do estupro que é bom, ninguém quer, né?). Enfim, até aí, tudo bem. A tag até chegou a ficar em primeiro lugar entre os assuntos mais comentados do Twitter. No entanto, Jair Bolsonaro e Danilo Gentili aderiram à campanha, mostrando que algo de errado essa ação tinha que ter. Pesquisando melhor, fica claro que entre os memes que estão fazendo os simpatizantes da campanha passarem vergonha pela baixa qualidade, os de Inês Brasil são os mais alvejados. Chegamos então ao ponto nevrálgico desse texto.

Quando ela surgiu exatamente para nós internautas eu não vou saber dizer (2012? 2013?), mas, ao contrário dos outros virais, tomei conhecimento de seu vídeo de inscrição para um reality show quase que instantaneamente. Um amigo meu, que nem deve lembrar, foi quem me enviou o vídeo, que tem pouco mais de cinco minutos. Confesso que foi difícil assistir até o fim, não achei a menor graça, e esse meu amigo o havia me enviado justamente por acha-lo hilário. Na época ele não soube me dizer se Inês era uma mulher ou uma travesti, e também não soube me responder se ela era uma personagem. Eu jurava que sim. Certo tempo passou sem que eu visse ou ouvisse Inês Brasil, até que, do nada, ela começou a aparecer em todas as minhas redes sociais com uma frequência assustadora e, aos poucos, sem precisar fazer praticamente nenhum tipo de pesquisa, fui conhecendo ela cada vez mais.

Inês é carioca e, junto com seus nove irmãos, teve uma educação religiosa. Foi na igreja, inclusive, que cantou pela primeira vez. Aos vinte e poucos anos, tornou-se professora de samba, chegando a se apresentar na casa de espetáculos Oba-Oba, do empresário Osvaldo Sargentelli. Por mais de oito anos teve que se prostituir para sobreviver. Conheceu Christian Karp, um alemão, seu “loiro dos olhos azuis”, com quem se casou e que a levou para morar na Alemanha, onde voltou para a prostituição ao mesmo tempo em que iniciou sua carreira musical. Ela afirma ter se inscrito para o reality show cinco vezes, embora eu só tenha visto esse único vídeo e tomado conhecimento de outro que ela fez depois, ao que tudo indica, tentando obter o êxito viral do anterior mais do que participar realmente do programa. Após o sucesso do primeiro vídeo, voltou para o Brasil. Chamada de Panterona pelos fãs, lançou seu primeiro disco ano passado e realiza atualmente uma média de vinte shows por mês, tornando-se mais famosa que qualquer outro candidato (e muito ex-participante) ao tal reality show – programa esse que, inclusive, só perde audiência a cada nova temporada, provando o vacilo de tê-la dispensado.

Uma mulher livre incomoda muita gente. Uma mulher negra e livre incomoda mais. Uma mulher negra, livre e ex-prostituta, incomoda muito, muito mais. Inês aborrece muita gente e sabe disso (vide a campanha para varrê-la juntamente com outras pessoas da internet). Como símbolo de marginalidade, ela é capaz de despertar nas pessoas seus preconceitos mais primitivos. Vem de origem humilde, não tem instrução, usa o corpo para se promover e fala abertamente sobre sexo. Deve ser difícil para religiosos que seguem um best-seller que há mais de dois mil anos oprime mulheres, negros e homossexuais, ouvirem sair da boca de Inês Brasil seus ensinamentos. Inês, filha legítima da cibercultura, é uma Maria Madalena moderna, porém, mais forte. Não se deixa atingir pelas pedras que lhe atiram, como também não precisou de nenhuma emissora e muito menos de um Messias para se levantar, fazendo o serviço geralmente atrelado a ele melhor que seus seguidores.

Num mundo em que Ana Paula Valadão é a síntese dos líderes religiosos que julgam nossa orientação sexual, nossa identidade de gênero, a roupa que vestimos e até mesmo se estamos acima do peso, isso só para citar alguns exemplos, temos Inês Brasil, que prega o amor. Aos olhos de Inês, somos todos irmãos, independente de sexo, cor, raça e orientação sexual. Conhecida nacionalmente, Valadão poderia usar sua voz para causas nobres, digamos assim, mas se incomoda com um simples comercial de roupas. No texto em que propôs boicote à C&A, manifesta todo o seu preconceito, quer dizer, sua santa indignação, sobre o que chamou de “imposição da ideologia de gênero” (sic). Valadão e seus seguidores atacam os direitos humanos respaldados pelo que chamam de “verdade imutável da palavra de deus”. Ou seja, se essa verdade não muda e se sempre vão existir pessoas dispostas a defendê-la, temos que nos preparar para nos proteger eternamente desses ataques. Diante de tanto machismo e homofobia, é natural que haja resistência do lado oprimido.

Como não há nada tão ruim que não possa piorar, ainda mais assustador que o próprio texto que Valadão publicou em sua rede social propondo o boicote à rede de lojas de vestuário, acredite, são as treze hashtags ao final da postagem: #SouFemininaVistoComoMulher #HomemVesteComoHomem #UnisexNãoExiste #NãoÀIdeologiaDoGênero #DeusFezHomemEMulher #FamíliaÉHomemEMulher #HeteroSexualidade #MonogamiaHeterosexualÉSexoSeguro #Cristianismo #AmizadeDoMundoInimizadeDeDeus #NãoEstouEmBuscaDeFãsMasDeCristo #AgradarADeusNãoAHomens #GalatasUmDez.

Diante do preconceito que ela reproduz, eu poderia gastar muitas linhas explicando que as calças e blazers que ela usa, à princípio, não faziam parte do guarda-roupa feminino, e também não me ariscarei a afirmar que o profeta Jesus usava vestidos (porque eu não estava lá para ver e os biógrafos dele não são muito confiáveis). Ademais, posso afirmar que, como homem, me visto como quiser, afinal, me visto para me agradar, e não para satisfazer a vontade dos líderes da igreja. O best-seller que os religiosos tanto fazem questão de seguir diz que deus, ao criar o homem e a mulher, lhes deu o livre arbítrio. Ou seja, sob essa perspectiva, tanto eu, que não sou religioso, como quem é, somos livres. Valadão nenhuma tem o direito de arbitrar sobre a identidade sexual de ninguém.

Sua defesa de que família é homem e mulher fere completamente a essência de família no sentido amplo. O projeto de lei 3369/2015, do deputado Orlando Silva, do qual o deputado Jean Wyllys é relator, defende o reconhecimento de todas as formas de família. A fundamentação do projeto diz que “existem, em nossa sociedade, muitos tipos de família: além da mal chamada ‘família tradicional’, formada por pai, mãe e filhos, há mães solteiras, pais solteiros, famílias combinadas, casais do mesmo sexo com ou sem filhos, casais de distinto sexo sem filhos, etc. Não estamos falando aqui de opiniões, mas de dados da realidade: todas essas famílias existem e estão constituídas pelos mesmos laços de afeto, amor, solidariedade e cuidado mútuo”. Além de ignorar a existência de todas essas famílias, Valadão ainda reserva espaço para destilar sua homofobia, o que não é de se espantar. Se deus é a imagem e semelhança de seus fiéis (ou vise versa), é um homem branco, hétero e cis. Todos que não seguem esse “padrão” são combatidos. Bom, o que posso fazer é reforçar o que já é óbvio para qualquer pessoa bem informada: sexo hétero não é mais nem menos seguro que sexo gay, ambas as práticas estão igualmente sujeitas às DSTs sem a utilização de preservativo. Desculpem, mas nada do que Inês Brasil fala ou faz é mais assustador do que Ana Paula Valadão, Silas Malafaia, Marco Feliciano e afins falam o tempo todo em suas redes sociais e em emissoras de TV.

O texto de Valadão tem pouco mais de um mês e o #MakeBrMemesGreatagain mais de uma semana, para vosmecê ter noção do quanto posso ser atrasado ao escrever sobre assuntos que um dia já foram do momento. Entretanto, essa discussão me fez lembrar uma entrevista de Tom Zé para o UOL em 2007, em que ele diz: “se eu tivesse uma filha moça colocava para educar no funk cariosa para ela se livrar de toda a carga que se põe sobre a mulher”. Não posso afirmar com toda certeza, mas talvez tenha sido nessa entrevista concedida a Marcelo Tas e aos internautas do UOL que Tom Zé tenha falado pela primeira vez que o refrão da música ‘Atoladinha’ é microtonal (as notas vão subindo em intervalos menores que um tom), polissemiótico (pois nos chega por outros sentidos além da audição) e metarrefrão (pois trata da própria arte de fazer refrão na música popular ao longo da história), afirmando ainda que trocaria o refrão “tô ficando atoladinha” por todos os refrãos de sua obra. Essas declarações repercutiram e ele voltou a falar sobre isso em 2009, no Programa do Jô, e em 2014, no Esquenta.

Segundo Tom Zé, o funk veio para aposentar o Papa, a igreja, os reacionários e os detratores que proíbem a mulher de gozar. “Tô ficando atoladinha”, diz o eu lírico da canção, lançando ao mundo a liberdade da mulher de sentir prazer e gozar durante o sexo. A letra dessa música liberta as mulheres da repressão que sofrem, muito semelhante a algumas letras de Valesca Popozuda e, claro, de Inês Brasil. Na letra de ‘Make Love’, Inês canta a seguinte frase: “se você não me linguar, hoje eu não vou te dar”. Ela está exigindo nada mais nada menos do que direitos iguais entre homens e mulheres, principalmente no que diz respeito ao sexo oral, que homens sempre querem receber, mas que nem sempre estão dispostos a retribuir. É uma música claramente feminista. Mulheres também têm o direito de sentir prazer. O gozo não deve ser exclusivo do homem e, se ele quiser ter satisfação, tem que estar igualmente disposto a agradar sua parceira.

A exegese de Tom Zé é tão genial que só ele poderia ser capaz de ter feito. Se Ana Paula Valadão tivesse um terço da humildade do Pai da Invenção, ela trocaria todo o seu discurso de ódio (vestido de opinião e resguardado por uma verdade imutável da palavra de deus) pelo refrão da música ‘Make Love’ de Inês Brasil: “se for pra fazer guerra não me chama que eu não tô, make, make, make love é muito melhor, demorou”. Na verdade, se os líderes religiosos fossem humildes, deixariam de pregar a intolerância para pregar o amor, em todas as suas formas.

Talvez Inês Brasil um dia desapareça da internet naturalmente. Não sei se ela tem fôlego para continuar tão presente nas redes sociais por mais cinco anos. Posso até estar enganado, ainda mais agora que ela lançou seu primeiro álbum e tem feito muitos shows. Quem sabe não seja apenas o começo? Seus fãs até conseguiram colocar seu videoclipe na página oficial do Grammy, o que foi um estorvo para muita gente, inclusive para os organizadores do prêmio que bloquearam a página para o território brasileiro, impedindo Inês de concorrer. Ainda assim, me pergunto: a música dela é tão inferior a dos cantores e cantoras que tocam hoje em dia no rádio, novelas e programas dominicais? No entanto, ela não se fez importante por sua música, e sim por ser um símbolo de resistência, por carregar em si uma série de minorias e representá-las. É por isso que ela vem durando bem mais que quinze minutos, mesmo que infelizmente todo esse fenômeno também tenha que passar pela hipersexualização e exploração da exotificação do corpo da mulher negra. O caso do fã que vazou um vídeo transando com Inês reforça essa objetificação. Por mais que ele diga em sua defesa que não foi ele o responsável pelo vazamento, com certeza filmou para mostrar para os amigos e exibir sua conquista.

Por enquanto, Inês segue incomodando, e me agrada justamente por incomodar pessoas que se importunam com coisas que não lhes dizem respeito. Desde o início, ela se ocupou em defender todas as formas de amor. Sou ateu, mas acredito que, se um dia, a igreja, além de perpetuar o discurso de Inês, for tão inclusiva quanto ela, talvez eu até me tornasse um simpatizante. Porém, isso nunca vai acontecer, já que o preconceito e a intolerância ainda são muito presentes em nossa cultura. Todavia, é na adversidade que as minorias se unem e se fortalecem. Quem sabe um dia os machistas, racistas, homofóbicos, transfóbicos se deem conta de que esse ódio gratuito é uma marimba muito pesada para eles carregarem. Render-se ao amor é muito melhor, então bora fazendo!

monstros são homens

Evito ao máximo escrever sobre feminismo aqui no blogue. Esse é um assunto que estudo regularmente há dois anos e que, mesmo assim, ainda não me sinto com autoridade para falar ou escrever (e acho que nunca vou ter, afinal, não sou mulher), embora o faça em algumas ocasiões, como agora. Sempre tenho medo de me posicionar equivocadamente sobre determinados assuntos, então prefiro observar, escutar, aprender, ver o posicionamento das mulheres e então, fazer coro. Isso não me impede de tirar conclusões próprias. Na verdade, faço isso o tempo todo, embora guarde tudo para mim. Que importância tem minhas conclusões sobre aborto? Não posso engravidar, embora tenha certeza de que se nós homens engravidássemos, o aborto seria liberado em todos os lugares do mundo. Que conclusões posso tirar do julgamento que as mulheres sofrem por usarem roupas curtas? Eu posso usar regatas e bermudas sem ser chamado de puto ou vagabundo. Acho esse, inclusive, um dos pontos mais absurdos. Acabamos de sair do ano mais quente desde que começaram os registros de temperatura no final do século 19. Não ficarei nem um pouco surpreso se 2016 bater esse recorde. Não faz sentido nenhum exigir que mulheres andem cobertas, mas não tenho a real noção do que é ser julgado por isso, só posso imaginar. Quase todos os tópicos da causa feminista para mim, que sou homem, ficam no meu campo de suposição. Resta-me o bom senso.

Dessa forma, durante muito tempo, identifiquei-me como um homem pró-feminista, ou seja, um aliado da causa, mas não um protagonista. Sempre achei que esse deveria ser o lugar dos homens. Na verdade, continuo achando isso, embora não concorde com a questão do distanciamento do sexo masculino. Eu quero estar presente, acho que os homens devem estar (fazerem-se) presentes. Afinal, feminismo é um movimento social que defende a igualdade de direitos entre homens e mulheres, e essa igualdade interessa-me.

Muito recentemente, li um texto de Bia Pagliarini no site Blogueiras Feministas. No texto, ela diz: […] esse prefixo “pró” pode significar uma domesticação e amortecimento da própria luta feminista. Se você se diz “pró” alguma coisa, ao invés da própria coisa, você se põe numa posição de exterioridade. Você pode lavar suas mãos. Eu não quero que homens e pessoas cis continuem lavando suas mãos e tendo o privilégio de manterem suas posições, suas identidades, até mesmo suas ontologias inalteradas. Se dizer “pró” é poder não se colocar de forma realmente afetada por aquilo que você julga “apoiar”. Meu transfeminismo não é feito para que homens e pessoas cis fiquem nestes mesmos lugares cômodos. É preciso construir deslocamentos. […]

As palavras de Pagliarini abriram-me novos horizontes e é nesse meu texto de hoje (que, inclusive, é o primeiro sobre o assunto que publico sem antes pedir que alguma amiga feminista o lê-se – espero não estar dando um tiro no pé) que deixo cair o “pró” do meu feminismo. Não quero lavar as mãos, não quero ter privilégios, não quero ficar em lugares cômodos. Talvez o que esteja mudando, de fato, seja apenas a nomenclatura, porque o desejo de igualdade continua o mesmo, quiçá, mais forte. Identificar-me como um homem feminista traz-me muitas responsabilidades; trata-se de um aprendizado diário na busca de tornar-se um ser humano cada vez melhor e igualitário.

No entanto, foi pensando no debate sobre o estupro coletivo da moça (menor de 16 anos) do Rio de Janeiro, que resolvi escrever essas linhas. Debate importante e muito, muito triste. Primeiro porque, infelizmente, ainda parece ser necessário que uma moça passe por uma desgraça dessas para escancarar para um país inteiro a cultura do estupro que o movimento feminista tanto denuncia e que a própria sociedade faz tanta questão de camuflar, e segundo porque é inadmissível que esse tipo de coisa ainda aconteça. Inaceitável também é o fato de o corpo social impor implicitamente a obrigação moral de mulheres vítimas de violência doméstica e sexual provarem para a sociedade que não são culpadas pelo ocorrido.

Não vi e não pretendo ver o vídeo do estupro coletivo que circulou na internet nas últimas semanas, porém, este registro existe, é uma prova concreta de que o estupro aconteceu. Por que algumas (muitas) pessoas ainda persistem em justificar tal ato culpando a menina? O estupro não é e nunca será culpa da vítima. Julgam-na por ela estar sozinha, por estar no morro, por estar usando roupa curta. Tentar justificar esse ato injustificável é uma atitude tão criminosa quanto o próprio ato de estuprar. Isso, caríssimos (as), é decorrência da cultura do estupro e quem a perpetua é diretamente cúmplice da violência que acontece todos os anos no Brasil e no mundo a fora.

Culpar a vítima é apenas uma das muitas atitudes que caracterizam a cultura do estupro. A indignação seletiva é outra delas e uma das piores. Muitos mostraram-se indignados com o que aconteceu com a moça do Rio e escreveram textões nas redes sociais. Porém, é fácil indignar-se com algo que aconteceu com alguém que não se conhece. Muitos possuem amigos que agridem namoradas e as submetem a relacionamentos abusivos. Muita gente ri de piadas misóginas, racistas, homofóbicas e transfóbicas em rodas de conversa. Não indignar-se com esses casos e não combatê-los significa não confrontar a cultura do estupro e ser conivente.

Machistas fingem que estupro não é algo assim tão comum, ignoram as estatísticas (um caso a cada onze minutos, no Brasil). Eu, particularmente, nunca fui sexualmente violentado, porém, conheço três pessoas, das quais duas são diretamente ligadas a mim, que foram estupradas, sendo uma dessas pessoas, um amigo meu. Homens também são estuprados, mas deixamos de enfatizar que são majoritariamente estuprados por outros homens. Ainda assim, o número de homens violentados é infinitamente inferior ao número de mulheres. Tão inferior que nós do sexo masculino não temos medo de sermos estuprados quando saímos de bermuda, quando vestimos regatas ou até mesmo quando estamos sem camisa em algum lugar. Não sentimos medo de sermos estuprados nem quando estamos sozinhos na rua à noite. O medo de estupro só se torna real para um homem quando ele é preso (nossa população carcerária corresponde a menos de 1% dos cidadãos brasileiros). Temos medo mesmo é de sermos assaltados, de sermos mortos (medos esses que mulheres também sentem). Não passa pela nossa cabeça que seremos estuprados (pelo menos não na minha). Meus amigos também nunca me confessaram temerem isso, ao contrário de muitas amigas minhas que já me revelaram sentirem esse medo. Na verdade, mulher nenhuma precisa revelar isso, pois sabemos que, na sociedade em que vivemos, esse é um receio de todas.

Além desses casos, ainda conheço duas garotas que tiveram vídeos íntimos divulgados na internet pelos namorados. Eram filmagens (não vi nenhuma) de relações sexuais consensuais. Os namorados filmaram (em um dos casos sem a autorização da garota) e depois compartilharam na rede. No caso em que a garota autorizou filmar, não fazia parte do acordo mostrar o vídeo para outras pessoas. Acontece que eles desrespeitaram-nas e divulgaram. Em um dos casos, o vídeo foi visto por praticamente todos os alunos da escola em que eu estudava (os garotos passavam o vídeo de celular para celular, via bluetooth). A escola tomou uma atitude e confiscou alguns celulares, mas nenhum aluno sofreu graves consequências por isso. No segundo caso, praticamente todos os moradores da minha rua viram o vídeo. Quem são os culpados? Os caras que filmaram e divulgaram sem autorização, óbvio! Eles eram os namorados delas e o ato praticado por eles é indiscutivelmente criminoso, mas adivinha o que aconteceu? Pelos amigos, eles foram vistos como heróis, quase ninguém voltou-se contra eles. Já as meninas foram praticamente apedrejadas. As justificativas eram das mais estapafúrdias, foram desde “não deveriam estar transando (porque obviamente para a sociedade deveriam casar virgens)” a “não deveriam ter deixado filmar”. As consequências foram inúmeras: as duas entraram em depressão, uma delas parou de ir ao colégio e a outra mudou de endereço pois não conseguia mais sair na rua onde morava, chegando até mesmo a trocar a cor do cabelo e mudar radicalmente o estilo das roupas para não ser mais reconhecida. Elas e tantas outras mulheres não deveriam ser julgadas por vídeos que seus parceiros filmaram (muitas vezes sem suas autorizações) e jogaram na internet. Não há mal nenhum no ato de filmar com autorização uma relação sexual. Eu, se namoro alguém e essa pessoa pede para filmar uma transa nossa, não vejo mal nenhum. Porém, não autorizo que o vídeo seja colocado na internet e deixo isso bem claro. Se a pessoa desrespeitar, a culpada é ela. Divulgar indevidamente vídeos, fotos ou outro material com cenas de nudez ou de atos sexuais é crime!

Sinto dizer que em nenhum desses cinco casos o cara foi preso. Não conheci nenhum deles, mas sei que estão soltos, prontos para fazerem novas vítimas. A vida deles não mudou, seguiram em frente, alguns se casaram e tornaram-se pais. As garotas são julgadas até hoje. Evitam lugares onde sabem que vão encontrar alguém que conhece suas histórias porque não suportam mais os olhares julgadores. Os agressores sem dúvida conseguem dormir bem à noite, isso não os preocupa. As vítimas, embora superem o trauma (será que é possível superar?), nunca esquecerão o que aconteceu. Enquanto isso, a sociedade dá adjetivos para esses homens (é preciso protegê-los), quase sempre chamando-os de monstros, animais, doentes, vermes. É difícil para a sociedade patriarcal chamá-los do que realmente são: homens. Eles estudam, trabalham, pagam suas contas, são pais de família, vão à igreja, pagam o dízimo. Estão à solta, nos ônibus, nos metrôs, nas filas do banco, nos locais de trabalho, nas universidades, dento de casa.

Você, caro (a) Leitor (a), já deve ter ouvido/lido/falado muito disso, mas é muito verdade e vou continuar batendo nessa tecla enquanto for preciso: não ensinemos as mulheres a não serem estupradas, é preciso que nós homens aprendamos a não estuprar. Desde que o mundo é mundo, as mulheres são ensinadas a não serem estupradas: “não saia sozinha”, “não use roupas curtas”, “não fale com estranhos”, “não saia à noite” (entre tantos outros conselhos que inclusive ouvi e ainda ouço dizerem para as mulheres da minha família e minha amigas). Isso nunca erradicou o estupro. É preciso educar nós homens e punir os que cometem esse crime. As mulheres não merecem estar à mercê de homens que sabem que não serão punidos. Chega de camuflar os criminosos e culpar as vítimas. As mulheres não são culpadas e esses monstros são, na verdade, homens. Não são lobos em pele de cordeiro, não. É preciso admitir que eles são homens em pele de homens.

todas as mulheres do mundo

Nasci em uma família repleta de mulheres: minhas avós, um incontável número de tias, um número ainda mais incontável de primas, minha mãe, minha irmã. Mulheres negras, mulheres brancas, mulheres que foram felizes em seus casamentos, que não aceitaram os maus tratos dos maridos e que criaram os filhos sozinhas, que escolheram nunca se casar, que abandonaram a escola, que se formaram em mais de uma graduação, que tinham o trabalho como realização pessoal. Uma pluralidade sem fim.

Meu pai sempre passou o dia fora trabalhando. Fui criado por minha mãe, que trabalhou a vida toda em casa (sempre achou muito chato sair para pegar ônibus, por isso montou o próprio negócio e se tornou a própria patroa). A diferença de idade entre eu e minha irmã mais nova é de dois anos, quatro meses e vinte dias. Não tenho nenhuma lembrança de minha mãe grávida, não tenho nenhuma memória do nascimento da minha irmã, não sei qual é minha lembrança mais antiga dela, mas recordo do resguardo da minha mãe após o parto. Ela ficou doente e uma enfermeira cuidava dela, disso eu lembro. Talvez essa seja a lembrança mais antiga que tenho da minha vida. Em relação à minha irmã, a diferença de mais de dois anos não impediu que nos tornássemos verdadeiros companheiros. Não podíamos brincar na rua, então tínhamos que nos virar dentro de casa, espaço que na época ainda não era tão grande e com quintal. Também nunca tivemos animais de estimação; ou brincávamos juntos, ou sozinhos – como brincar sozinho é sempre muito chato, quase sempre optávamos pela primeira opção.

Na grande maioria das vezes, brincávamos com bola, para o desespero da minha mãe, que via as paredes da casa perderem toda a pintura ou um móvel ser quebrado de vez em quando. Minha irmã também tinha as brincadeiras dela e, para fazer com que ela brincasse de bola, muitas vezes eu tinha que ceder às suas vontades e comer as comidinhas de mentira. Tenho ótimas lembranças dessa época, em que também protagonizamos discussões colossais. Em algumas dessas ocasiões, meu pai fazia com que nos abraçássemos e fizéssemos as pazes se não quiséssemos apanhar. Nessas horas, ela sempre me abraçava e eu, idiota, relutava ao máximo. Não necessariamente por raiva dela e sim para contrariar meu pai. Desde cedo eu tive sérios problemas em acatar ordens. Esperta era a minha irmã, que trocava uma surra por um abraço. Se hoje eu tivesse que passar pela mesma situação, jamais iria preferir apanhar. Abraçar é tão bom…

Na escola, sempre estudei em turmas com um número muito maior de meninas que de meninos e sempre achei muito mais interessante conversar com elas que com eles. As garotas falam sobre tudo: livros, filmes, música, esporte, família, estudos. Até hoje estou tentando entender esses filmes misóginos em que as mulheres estão sempre falando sobre homens. Está tudo errado! Os homens sim, pelo menos a grande maioria dos que passaram pela minha vida, só sabiam falar de mulheres. Por esse motivo, sempre preferi conversar com as meninas e ter um leque de assuntos muito maior. Só na universidade que vim a estudar em turmas com mais homens que mulheres. Cinema ainda é uma profissão dominada por homens, o que é uma pena, porque sempre preferi trabalhar com mulheres e, a cada curta-metragem que faço, tento unir o máximo de profissionais do gênero feminino. Nem sempre é possível, porque as que conheço são tão requisitadas que nem sempre podem aceitar o convite por já estarem trabalhando em outro projeto.

Ademais, sempre tive ótimos amigos meninos, grandes companheiros de travessuras. Em toda a minha vida, consegui transitar muito bem entre os universos masculino e feminino. Não cheguei a contar, mas tenho quase certeza de que tenho mais amigas mulheres do que homens. Não seria capaz de dizer que a amizade masculina é melhor que a feminina, ou vice-versa: são iguais em suas diferenças. Talvez, a melhor diferença da amizade feminina seja o não medo de expor sentimentos. As amigas que fiz durante a vida nunca tiveram problema nenhum em expor seus sentimentos, nunca tiveram medo de fazer calorosas declarações no dia do amigo, de mandar emocionantes mensagens no dia do aniversário, nunca tiveram medo de expressar que gostavam de mim ou dos seus outros amigos e amigas, enfim, nunca tiveram receio de falar “eu te amo”, essas três palavrinhas juntas que podem até estar banalizadas para muitas pessoas, mas que ainda se fazem necessárias quando o sentimento é verdadeiro. Quase todos os amigos homens que tive foram incapazes de expressar seus sentimentos, não só com relação à nossa amizade. Meus amigos de escola só se permitiam abraçar em datas especiais, com o cumprimento diário tendo de ser um aperto de mão. Na universidade, conheci mais amigos diferentes, mas continuaram aparecendo aqueles que não trocam o aperto de mão por nada.

Acho que a frase “amor só de mãe” procura se justificar muito no fato de as mães não possuírem medo de expressar o seu amor pelos filhos e de não se privarem disso. Nunca vi o pai de nenhum amigo meu demonstrar carinho em público pelo filho ou pela filha, um claro efeito do machismo que os oprime e que eles nem se dão conta. As mães, pelo contrário, sempre fizeram questão de demonstrar o seu amor pelos filhos publicamente (para o constrangimento de muitos deles).

Não sou de esconder o que sinto e pretendo não cair nessa: se gosto de alguém, falo, expresso. Não há mal nenhum em dizer para um amigo que valorizamos a sua amizade, o mundo não acaba, os dentes não caem, o céu não muda de cor. Tenho pavor de pensar que um dia posso perder entes queridos sem nunca ter lhes falado o quanto foram importantes para mim. Isso deveria valer para todas as pessoas e não só em relação aos amigos, mas também aos pais, aos irmãos, aos namorados ou namoradas, aos professores. Ah, os professores! Esses mudaram minha vida. É bem verdade que tive professores horríveis também, preconceituosos, arbitrários, incompetentes, anti-éticos. Ainda conheço muitos que, com sua intolerância religiosa, tentavam convencer os seus alunos homossexuais de que eram pecadores e que deviam mudar, outros que comiam as alunas com os olhos, professores que eram verdadeiros ditadores em sala de aula com suas filosofias do medo. Falando assim, parece que só tive educadores terríveis, mas não. Justiça seja feita, a maioria deles eram excelentes, entretanto, como vivi muito em sala de aula, seja na escola, cursos, universidade, tive tempo suficiente para presenciar todo tipo de situação.

Acontece que, durante toda minha existência, convivi e convivo com muitas mulheres, caríssimos. Foi uma mulher que me amamentou, que me criou, foi uma mulher que fez minha infância mais feliz brincando comigo, foram em sua grande maioria mulheres que me educaram em sala de aula, foram minhas amigas mulheres que me ensinaram que não é feio chorar, que não é feio expressar meus sentimentos, que não é feio abraçar. As mulheres que passaram pela minha vida (tirando uma raríssima exceção) nunca me fizeram mal nenhum, nunca tentaram me prejudicar. Elas nunca me disseram para sentar como um menino, nunca me falaram que meu lugar era na cozinha, nunca tentaram me impedir de falar palavrão porque isso não é coisa de menino ou me proibiram de jogar futebol com a explicação de que este “não é esporte para menino”, nunca valorizaram minha bunda mais do que meu cérebro, nunca me impediram de trabalhar fora ou jamais disseram “tudo bem trabalhar fora, desde que isso não atrapalhe as tarefas domésticas”, nunca me aconselharam a não transar no primeiro encontro porque “homem que faz isso não é para casar”, nunca disseram que eu estava mal-humorado porque sou mal-amado, nunca justificaram meu nervosismo com TPM ou disseram que meu estresse era a falta de um pau, nunca me falaram que eu só serei completo se tiver filhos ou me chamaram de Zé Chuteira ou João Gasolina, nunca me disseram que os homens só querem casar com mulheres ricas e com bom carro ou apontaram que eu era bem inteligente para um homem, nunca disseram que saio de bermuda na rua só porque quero ser assediado ou pronunciaram a frase “homem no volante, perigo constante”, assim como também nunca disseram que a única coisa que um homem sabe pilotar é um fogão. Nunca.

Dói-me imensamente saber que todas as mulheres que conheço já ouviram essas coisas e uma infinidade mais. Sinto nojo do ser humano só de lembrar que minha irmã ainda nem havia entrado na adolescência quando os homens já começaram a olhar para ela. De pensar que logo cedo ela teve que controlar o tamanho de suas roupas para evitar o assédio por onde passasse. Sem contar que, mesmo vestindo roupas longas (nesse calor que faz o ano todo na cidade onde moro), ela ainda me pediu algumas vezes que a acompanhasse em alguns lugares para se sentir mais segura, já que com um homem do lado, os outros não iriam importuná-la. As mulheres não deveriam precisar de ninguém do lado para serem respeitadas. Lembro-me da aflição da minha mãe sempre que minha irmã saía sozinha. Certa vez, ela só permitiu que ela fosse ao shopping com as amigas se eu a acompanhasse. Eu fui, mas consciente de que isso não deveria ser assim. Eu não deveria precisar ir para que minha irmã se sentisse segura ou protegida. Ela só queria ir ao shopping tomar um sorvete com as amigas do colégio, porra! Que mundo é esse em que menininhas precisam tão cedo se defender dessa praga chamada Machismo? As mulheres desde muito cedo precisam conviver com o medo de andar na rua com roupa curta, de saírem à noite, de evitarem o falatório. Sinceramente, não quero que uma filha minha passe por isso um dia e ficaria muito feliz se minha mãe, minha irmã, minhas amigas, todas as mulheres do mundo não precisassem mais passar por isso.

Não quero que minha irmã (e todas as mulheres do mundo) seja xingada no trânsito, já que isso não faz sentido, pois a maioria esmagadora delas aprende a dirigir com homens. Eu mesmo quando tirei minha CNH, tive um instrutor homem (não havia nenhuma instrutora na auto escola). Não quero que minha mãe (e todas as mulheres do mundo) ganhe menos do que os homens para exercer a mesma função. Não quero que minhas primas (e todas as mulheres do mundo) sejam chamadas de lésbicas sempre que rejeitarem um cara na balada, até porque nenhuma mulher é lésbica só porque não está a fim de ficar com um cara, assim como a condição de ser lésbica não é algo ruim e não deve caracterizar um xingamento. Não quero que minhas amigas (e todas as mulheres do mundo) sejam agredidas por seus parceiros ou atacadas sexualmente. Se eu tiver uma filha algum dia, quero que ela (e todas as meninas do mundo) não seja ensinada como se comportar e se vestir adequadamente. Ela (e todas as mulheres do mundo) tem que portar-se como quiser, praticar o esporte que quiser, trajar-se como bem entender, exercer a profissão que quiser, ter o direito de falar palavrão se quiser, abortar se quiser, transar no primeiro encontro se quiser, frequentar o lugar que quiser.

Misoginia significa, literalmente, ódio às mulheres – não tem nada a ver com questões sexuais – e pode ou não abarcar manifestações de violência física, mas inclui sempre ataques verbais. Homens que odeiam as mulheres existem e não há como negar isso. Enquanto ditam e impõem valores e comportamentos às mulheres, esquecem que o mais adequado seria ensinar nós homens a respeitá-las. No entanto, jamais pretendo subir em um palanque para defender o feminismo, pois o tablado é delas, a linha de frente é delas, numa luta delas, constituindo um direito delas falarem e serem ouvidas. Nós homens não sabemos o que é ser mulher e nunca vamos saber, por isso, não podemos tomar seu lugar de fala. Nosso papel é sim fazer coro aos seus gritos. Elas já tiveram uma série de vitórias ao longo dos anos, mas, parafraseando Pitty, “quase não é chegar lá”. Elas estão muito longe ainda de possuírem os mesmos direitos e representação social. Por isso é tão necessário abraçar a causa do feminismo, um legítimo movimento que reivindica igualdade de gênero. Dessa forma, desejo imensamente que um dia possamos realmente vivermos em pé de igualdade, nós homens e todas as mulheres do mundo.

meu útero

Esse lance de que a inspiração só corresponde a um por cento do trabalho quando os outros noventa e nove por cento são de transpiração é muito verdade. Consegui ver isso melhor agora que tenho o blogue. Não adianta só ter a ideia de um tema interessante para o próximo texto e achar que metade do trabalho está feito. Muitas vezes, quando não é um tema do meu domínio, o empenho só aumenta, colocando a pesquisa como trabalho extra.

Escrever é realmente muito difícil, pois o texto é sempre mais interessante na nossa cabeça. Quando transposto para o computador (quanto menos papel, mais arvores!), é como se algo se perdesse nesse processo. Pode ser que gere um bom resultado, mas nunca como achávamos que ficaria.

Escrever também é físico, pelo menos comigo, que sou amador. Os profissionais, aqueles que escrevem sob encomenda e prazo pré-estabelecido, não devem sofrer tanto, mas eu sofro, mesmo só escrevendo quando quero. Sempre comparei minhas escritas a um parto. Sendo homem, só posso imaginar. Jamais saberei o que é parir uma pessoa. Mas isso são outros quinhentos. Estou falando de parir um texto. Como disse no inicio do parágrafo, é algo físico (além de mental). Uma tarde toda escrevendo me deixa nocauteado no final do dia. Nem quando trabalhava o dia inteiro em pé eu ficava tão cansado.

Quando o assunto é parir um filme, a inspiração corresponde ainda menos de um por cento. Praticamente tudo é transpiração. Ter a ideia do roteiro é o mais fácil. Escrevê-lo e depois reescrevê-lo dezenas de vezes geralmente corresponde a mais de um ano de trabalho. Captar recursos, montar uma equipe, ensaiar, filmar, pós-produzir, lançar, divulgar geram um trabalho tão grande que, sempre que enfrento uma produção, me pergunto se realmente quero continuar fazendo isso. Todo esse processo realmente gera uma crise existencial. Agora vou dissertar sobre o que deveria ter sido esse texto para no mínimo justificar o título. Para isso, preciso transcrever alguns trechos da entrevista de Tom Zé para seu livro ‘Tropicalista Lenta Luta’ (2003). Para quem não gosta de tergiversações, até o próximo texto.

A entrevista foi realizada no dia 22 de agosto de 2003 por Luiz Tatit e Arthur Nestrovski. A conversa editada em livro aparece dividida em diversas seções. Os trechos transcritos a seguir são do capítulo “Os Homens-fêmeos”:

[…] tem uma coisa na Bahia que é muito diferente, que a gente nunca pode explicar. É que o homem é mais feminino do que o homem do Sul. Isso é que é muito difícil de explicar. A mulher tem mais participação. O mundo é mais matriarcal; quer dizer, não é matriarcado, mas a mulher tem mais participação nas decisões e o homem é mais feminino. Essas duas coisas mudam tudo na maneira de você ver o mundo. […] No Nordeste tem isso: o homem era mais feminino, mais gracioso. […] O homem baiano é muito feminino e isso de alguma maneira aumenta o leque do olho. Fica mais observador. […] Você sabe que o lado feminino da gente é que é o lado artista, não é? O lado que tem a gravidez cósmica, que tem a intuição. Neusa (esposa de Tom Zé), por exemplo, é uma pessoa culta e ela mesmo me confessa de vez em quando: “Puxa vida, essa intuição sua é um pecado.” E a intuição é feminina.

Só depois que li essa entrevista foi que entendi a declaração dele em outra ocasião. Trata-se de sua participação no programa de Jô Soares, no dia 15 de abril de 2010, quando ele foi divulgar seu DVD ‘O Pirulito da Ciência’. Tom Zé foi aos estúdios de gravação vestido de saia e Jô quis saber o motivo. Ele disse: “Eu gosto de vir de saia porque eu posso não ter uma vagina, mas útero eu tenho. Eu sou mulher, sempre vivi na sociedade como uma mulher, sofrendo como mulher. Outro dia o João Gordo me chamou pra dizer ‘você é homossexual’ eu disse ‘não, eu sou mulher, é outra coisa’”. Em 30 de outubro de 2014 ele voltou ao Jô, dessa vez para lançar seu mais recente álbum, o ‘Vira Lata na Via Láctea’ e, mais uma vez afirmou: “Eu sempre fui um pouco mulher”.

Se Tom Zé, o pai da invenção, afirma que o nosso lado artista é o feminino, quem sou eu para discordar? A única coisa que posso dizer é que entendo muito bem quando ele fala que a mulher tem mais participação nas decisões do homem. Não sou baiano, mas sou nordestino. Seria esse o motivo da compreensão? Não sei, mas embora tenha um pai muito carinhoso, posso afirmar que minha mãe é quem está sempre presente. A participação dela na minha educação foi tão forte que praticamente anulou a participação do meu pai. Aprendi infinitamente mais com ela do que com ele. Minha mãe e eu quase não discordamos de nada no dia a dia, diferentemente do meu pai, detentor de um ponto de vista oposto ao meu em praticamente quase todo assunto. Não estou querendo diminuí-lo ou dizer que um é melhor do que o outro, ou que amo mais um do que outro. Ademais, minha forma de ver o mundo se aproxima muito mais do olhar da minha mãe. Também vejo isso em quase todos os meus amigos e acredito que não seja um fenômeno assim tão nordestino. Torço para que não. O mundo seria muito melhor.

No entanto, há algumas semanas, eu estava querendo escrever um texto sobre essas palavras de Tom Zé e não conseguia. Até sentei para escrever, mas as ideias ainda muito prematuras me fizeram abortar o texto. Foi quase como uma gravidez psicológica. Aquela em que você acredita estar gestante de um texto quando na verdade não está. Depois a inspiração (o meu lado feminino) penetrou novamente no meu cérebro e semeou a ideia de falar sobre o trabalho duro que é dar vida a esses embriões. Então, na próxima gestação, decidi que juntaria os dois temas. Não são temas exatamente univitelinos, mas achei que seria a última chance de falar sobre essas entrevistas. Ainda na conversa de 2010 com Jô Soares, Tom Zé disse: “Ideia precisa de silêncio. Ideia não gosta de bater papo. O sítio da ideia é o silêncio, até ela pesar no cérebro e você escrever sobre ela. Sofrer até acertar.” Esse silêncio é mesmo fundamental, sobretudo para mim que escrevo o texto mentalmente antes de entrar em trabalho de parto. Dessa forma, meu cérebro escreve quase o dia todo. Esse processo de ócio criativo me permite gerar a ideia no ventre. Bem, a ideia pesou no meu cérebro, escrevi e o texto nasceu, embora eu acredite que não acertei. Todo texto é como um filho que não pertence aos pais e sim ao mundo. Publicar é cortar o cordão umbilical. Depois disso, alguns fenecem, enquanto outros sobrevivem. Esses que permanecem, escrevem por si só a sua história, totalmente independentes de seus progenitores. Contudo, o que me interessa agora é justamente dar mais vazão ao meu lado artístico (ou feminino) e parir cada vez mais textos e filmes, ciente de que sim, eu tenho útero.

vinte e três

TEXTO-SOMA

Aparentemente, o WordPress nos notifica sempre que publicamos dez novos textos. Pelo menos foi assim comigo. Se ele vai continuar notificando com o passar do tempo, eu já não sei. É importante começar o texto de hoje falando isso porque se não fosse pela notificação de que o texto “Segunda-feira” havia sido o vigésimo a ser publicado aqui, muito provavelmente vocês não estariam lendo esta postagem da forma que ela está. Esse é o texto de número vinte e três do Satãnatório e, como esse é o meu número favorito, resolvi fazer algo especial (com a notificação do WordPress, consegui me organizar para escrevê-lo). Em 1968, durante as filmagens de ‘O Bandido da Luz Vermelha’, Rogério Sganzerla escreveu um manifesto chamado Cinema Fora da Lei, em que ele dizia que seu filme era um “filme-soma”, isto é, fusão e mixagem de vários gêneros: musical, documentário, policial, comédia, chanchada, ficção científica. Foi então que eu resolvi chamar esse post especial de “texto-soma”, um texto sobre vários assuntos, num total de vinte e três textículos. Mas veja bem, eu disse número favorito e não da sorte, pois não acredito em sorte e azar. Esclarecido o caso, podemos dar prosseguimento.

MACHISTAS NÃO PASSARÃO

Nós homens não temos a exata dimensão do que é o machismo. Não sabemos o que é ser mulher e nunca vamos saber. Nosso papel na sociedade é reconhecer que, querendo ou não, nós somos sim privilegiados. Desde que mundo é mundo, elas sofrem com os padrões machistas e patriarcais, e por isso não temos direito nenhum de atrapalhar seus movimentos. Não devemos decidir as prioridades delas, nem como suas lutas devem ocorrer. Mas sim apoiá-las, dar ideias, disseminar seus conhecimentos feministas, ajudá-las a buscar informações e aprender a não fazer uso de estruturas socialmente impostas para oprimir. Escolher ficar calado e não fazer nada é se posicionar contra. Se não lutamos com elas, estamos do lado do opressor. E se você tá cansado de ouvir falar em machismo, imagina elas que vivem com isso a vida toda. É importante que elas falem. O feminismo é bom para todos, pois o machismo oprime os homens também. Nos impossibilita de chorar, de abraçar e beijar nossos amigos homens e de tantas outras coisas que não vou entrar em detalhes porque isso seria uma tentativa de chamar a atenção para nós tomando seu lugar de fala.

SER GAY TUDO BEM, MAS SER AFEMINADO…

tudo bem também! Ninguém tem que se importar com a forma de comportamento dos outros. Chega de acharem que existem características unicamente masculinas ou femininas. Não existem características certas ou erradas, seja você lésbica, gay, bi, trans ou hétero. Se já é difícil lutarmos contra a homofobia, não faz sentido nenhum que exista esse preconceito idiota muitas vezes disseminado entre os próprios gays. Para os discretos e afeminados: chega desse complexo de inferioridade por ser gay. Não tem que olhar torto para o gay que não é machão. Os afeminados disseram não a “proteção” do armário para lutar cara a cara contra o preconceito. Quantos deles morreram para que pudéssemos falar abertamente sobre homofobia? É uma questão de igualdade; aqueles que não fazem uso dos estereótipos masculinos também devem ser respeitados.

SOBRE TRENS

Moro praticamente em frente a uma estação ferroviária. Fora essa coincidência geográfica, eu sempre considerei o trem o transporte público mais cinematográfico de todos. Lembro da explosão do trem em ‘O Assalto ao Trem Pagador’, do final de ‘Pixote: A Lei do Mais Fraco’ com Pixote caminhando sobre os trilhos, dos passeios de Macabéa ao metrô aos finais de semana em ‘A Hora da Estrela’, a estação de trem em que Dora trabalha em ‘Central do Brasil’, o encontro de Rosa e Bernardo em ‘O Lobo Atrás da Porta’, e meu primeiro curta-metragem (amador) que também tinhas cenas em uma estação ferroviária. Não foi proposital. Na verdade foi algo que eu só vim perceber muito tempo depois. Quando vejo cenas em ônibus fico imaginando o quanto elas seriam melhores se fossem filmadas em trens.

COLECIONA-DOR

Já colecionei de tudo. De chaves a canetas. De bolas de gude a DVDs de filmes. Mas, sendo um capitalista sem capital, hoje não me permito colecionar nada. A última delas foram os filmes, mas a substituição do DVD pelo Blu-ray me deixou desanimado a recomeçar tudo de novo. E as constantes notícias de que novas tecnologias vão substituir o Blu-ray em um futuro próximo só me desanima ainda mais. Embora esteja sempre dando um jeitinho de aumentar minha coleção de livros, não acho que sou um colecionador; é como se fosse uma necessidade fisiológica ter sempre algo novo para ler. Então não coleciono nada concreto, mas decididamente sou um colecionador de palavras. Estou sempre anotando vocábulos novos e esperando uma oportunidade para usá-los.

PERDOEM A OUSADIA DE PUBLICAR UM POEMA DE MINHA AUTORIA

Posso ver uma onda de auto-boicotes
Umas espécies novas e acrescidas de auto-inimigos
se auto-trapaceando em departamentos sérios
Fazendo vasectomias intelectuais
e se tornando dignos de pena
Alguns nem isso

ÍDOLOS

Chega um momento da nossa vida em que descobrimos que nossos pais não são o centro do universo. É quando encontramos para nós outras referências, outras formas de se comportar, pensar, falar e se vestir. Infelizmente nasci em uma família que não consome cultura, então minhas referências além-mundo eram mínimas. Tive que procurar tudo por conta própria. Foi terrível até conseguir convencê-los de que não estava jogando dinheiro fora comprando livros e discos. Mas fico pensando pelo lado positivo: eu não fui influenciado por um gosto musical e literário de qualidade duvidosa.

EU SOU ÍNDIO

Um sonho que eu tinha quando criança era interpretar um índio em alguma peça da escola. Nas duas oportunidades que tive de participar de encenações que tinham índios, as professoras acabaram me escalando para interpretar nossos malditos colonizadores. Sou branco eu sei. Mas na minha inocência de criança eu conseguia me ver como um verdadeiro tupiniquim. É um sonho meu que nunca foi realizado graças a falta de imaginação dessas educadoras.

MÚSICAS DE AMOR NÃO ME REPRESENTAM

Eu me considero um cara romântico. Faço loucuras, surpresas e profundas declarações de amor. Mas não sou fã de músicas românticas. Isso não quer dizer que eu desgoste. Não é isso. Roberto Carlos que o diga. Mas prefiro músicas de protesto, músicas políticas, músicas sobre os mais diversos sentimentos que não seja o amor. O mesmo acontece com o cinema. Gosto e reconheço a qualidade de diversos filmes românticos, mas gosto mesmo é do cinema abertamente político, revolucionário, experimental. A violência cinematográfica me interessa.

CINEMA BRASILEIRO

Não sei se a realidade está mudando de fato ou se são as pessoas ao meu redor que pensam de forma diferente, mas me parece mesmo que os brasileiros estão começando a olhar com outros olhos para o cinema nacional. O que me entristece é que estão fazendo isso tarde demais. Quando já deixaram vários clássicos do nosso cinema passar despercebidos. Já ouvi de muita gente que o cinema brasileiro só tem filme de favela. Sempre que me diziam isso eu pedia para que citassem cinco filmes brasileiros sobre o tema. Nunca conseguiam ir além de ‘Cidade de Deus’ e ‘Tropa de Elite’. Outra que eu já ouvi muito e que nunca mais alguém falou na minha frente foi de que o cinema brasileiro tinha muito palavrão. Essa geração cresceu sem saber (ou sem querer admitir) que quando os filmes chegam ao Brasil para serem dublados, as empresas responsáveis pela dublagem retiram os palavrões ou os suavizavam com xingamentos mais leves. Tudo isso para que o filme possa ser transmitido a tarde e nos horários nobres da TV aberta. Só uma pessoa alienada que continua vendo esse cinema água com açúcar da TV aberta para ter coragem de dizer um absurdo desses. Acho que, com a internet, cada vez mais pessoas começaram a assistir filmes legendados (esse número infelizmente ainda é pequeno) e descobrir toda a “baixaria” do cinema estrangeiro. E que mal há nisso? Nenhum! Isso apenas não pode ser usado como desculpa para dizer que nosso cinema tem mais palavrão que o deles. O cinema internacional produz em uma quantidade muito maior que a nossa, e todos sabem que quantidade nunca foi sinônimo de qualidade. Basta ligar a TV e constatar que boa parte dos filmes estrangeiros transmitidos são horríveis. E ninguém fala que o cinema deles é ruim. De fato produzem obras primas, mas nós também produzimos. O público europeu e americano também é preguiçoso e não gosta de ler legendas. Filme legendado é sinônimo de fracasso de bilheteria no mercado cinematográfico do mundo inteiro. Por termos sido colonizados justamente por um país que nunca teve uma língua dominante, acabamos sendo muitas vezes excluídos do mercado cinematográfico internacional. Mas a crítica internacional e o público estrangeiro que consegue ter acesso aos nossos filmes reconhecem a qualidade do cinema brasileiro. O fato de não termos um Oscar não significa nada. Continuo achando que quem tem que gostar do nosso cinema somos nós brasileiros.

DOCES

Não sei responder quando me perguntam se gosto mais de doce ou de salgado. As duas respostas parecem certas. Acontece que recentemente eu comecei a acreditar que os doces estão vencendo essa disputa. Sou completamente louco por jujubas, e gosto de todas, menos das roxas que eu acredito serem de uva, nunca sei. Mas elas também servem na falta das outras. O leite condensado eu coloco na geladeira, porque tomar ele natural enjoa muito rápido e gelado a sensação é de que não é tão doce, me possibilitando um número maior de colheradas. Sem falar na minha propensão ao vício por amendoins coloridos. Aqueles cobertos de doce. Por que estou falando sobre isso? Não faço a mínima ideia.

REFRIGERANTE

Não bebo refrigerante a mais de dois anos. Eu era completamente louco pelo refrigerante de guaraná. Lembro da sensação maravilhosa que era beber um copo de refrigerante geladinho depois de chegar em casa numa tarde quente. Mas a grande verdade é que depois que decidi parar de beber, não sinto mais nenhuma vontade. Nem fico mal nem de estar em uma mesa onde todos estão bebendo refrigerante.

“SONHOS” RECORRENTES

Ademais, a decisão de não tomar mais refrigerantes me trouxe um sonho recorrente. Sempre me vem durante o sono a imagem de que estou bebendo refrigerante e quebrando minha abstinência que é de quase três anos atualmente. O mais engraçado é que esses sonhos são para mim o pior pesadelo que posso ter. Sonhar bebendo refrigerante hoje em dia é terrível, e são sonhos tão reais que é como se eu sentisse o gosto do refrigerante na minha boca. Sempre acordo nervoso, achando que tudo aquilo aconteceu de fato.

INSÔNIA

Conseguir dormir é que é o problema. Quem disse que a insônia deixa? É só deitar à noite que começo a pensar em tudo. Já penso muito durante o dia e quando deito para dormir é como se eu não tivesse horas suficientes para pensar enquanto estou acordado e precisasse pegar um pouco da hora de dormir para conseguir pensar tudo. É simplesmente horrível. Seria tão mais fácil se viéssemos com um botão de desligar…

SONO PÓS-ALMOÇO

Na medida em que tenho dificuldade em dormir a noite, ironicamente tenho igual dificuldade em me manter acordado depois do almoço. É um sono infernal que se apodera do meu corpo se transformando em um inimigo muito difícil de vencer. O pior é que é normal sentir esse sono. Já li de tudo sobre o assunto procurando suas causas. Já li que a produção de suco gástrico que faz parte do processo de digestão faz com que o cérebro diminua a atividade de alerta. Que refeições ricas em açúcar fazem com que a concentração de glicose suba no sangue, o que também leva a diminuição do estado de alerta do cérebro. Que na hora do almoço o nosso corpo automaticamente se prepara para dormir e o sono acumulado contribui para isso. Mas segundo as minhas pesquisas, aparentemente, o maior responsável é a concentração de fluxo sanguíneo na região do estômago na hora de digestão. Como o sangue conduz oxigênio para o nosso organismo e o cérebro precisa de muito oxigênio para funcionar, a maior concentração de sangue para a digestão faz com que a oferta de oxigênio diminua para o cérebro, o que força a diminuição da nossa atividade. O que só me leva a concluir que eu estou precisando de muito mais sangue no meu corpo, pois meu sono pós-almoço não é humano.

SOU UM CAVALO

Apaixonado que sou pelos costumes populares, não aceito, contudo, que o povo sacrifique uma perspectiva em função de uma alegoria mística.
Glauber Rocha

Na umbanda aqueles que “recebem” os espíritos são chamados de cavalos. Durante a incorporação, o “cavalo” permanece inconsciente, e quem fala através dele é seu “guia”, ou seja, a entidade espiritual a ele associada. Assim como Glauber Rocha, mesmo sem acreditar em deus, sou apaixonado pelos costumes populares e tenho o hábito de dizer que sou um cavalo. Um cavalo intelectual e não espiritual. Não recebo espíritos, mas estou sempre aberto para receber ideologias. Ideias me interessam.

TODO ESCRITOR ESTÁ MORTO

Quando criança eu cheguei a acreditar que todos os escritores estavam mortos. Coincidentemente, todos os livros que caíram nas minhas mãos eram antigos e seus autores já falecidos. Lembro que foi espantoso quando também criança eu vi um livro que tinha a biografia de um autor ainda vivo. Foi assim que descobri que pessoas jovens também escreviam, já que eu acreditava que só pessoas muito velhas e sábias eram capazes de escrever livros.

TUTORIAL DE COMO MATAR MOSQUITO

Eu ia escrever aqui um tutorial de como matar mosquito, mas já falei tanta besteira que resolvi deixar para lá. Próximo.

SEMPRE FOMOS BONS DE CONVERSAR

Namore alguém com que você goste de conversar. Vai por mim, sexo nenhum, por melhor que seja, segura relacionamento. Não basta ser só bom de cama, tem que ser bom de conversa também.

LIVROS

Sempre estou lendo mais de um livro. O segredo é não misturar os gêneros literários para que não vire tudo uma bagunça na sua cabeça. Então consigo ler um romance e uma biografia, os quais eu me dedico mais. Intercalo-os com livros teóricos de cinema, roteiros, crônicas e poesia. O de poesia fica no aguardo de um mini-tempo livre em que não dá para ler um capítulo do romance ou da biografia, então nesse pequeno espaço eu leio um poema. O livro de crônicas ou qualquer livro de textos curtos fica no limbo (leia mochila) para que seja lido no ônibus ou nas filas da vida. Então eu sempre vou ter mais de uma resposta quando me perguntarem o que estou lendo. O lado negativo é que você convive muito tempo com os mesmos livros. Não se dedicando exclusivamente a um você acaba demorando mais para terminar a leitura. O lado bom é que quase sempre eles costumam acabar juntos. Então você termina uns cinco livros muito próximos uns dos outros e já pode selecionar na estante os outros cinco para a próxima empreitada.

LEITURA ATUAL

Dentre as minhas leituras atuais está o livro ‘Tropicalista Lente Luta’ do Tom Zé. Deixo com vocês o primeiro parágrafo da página 23 do livro. Quem se sentir à vontade, também pode deixar nos comentários a primeira frase/parágrafo da página 23 do livro que está lendo atualmente.

uma ao lado da outra. Lia-se embaixo da primeira: “Esta foto está muito suja. Veja quantos objetos e peças estão perto da pessoa fotografada. É necessário limpar o campo.”
Tom Zé em ‘Tropicalista Lenta Luta’

A PROCURA DO ESCRITOR FAVORITO

Tenho cantor favorito, banda favorita, filme favorito, cineasta favorito, mas não tenho nem livro nem escritor favorito. E é terrível não saber responder a essa pergunta. Já achei que ‘Dom Casmurro’ fosse meu livro favorito, mas não é, embora seja um dos. Em algum momento da vida já achei que Machado de Assis, Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa e Clarice Lispector fossem meus escritores favoritos. Depois da descoberta dos livros violentos de Paulo Lins e Rubem Fonseca, também achei que eles fossem meus favoritos. Mais recentemente me apaixonei pela escrita do Moacyr Scliar e por ai vai. Contudo, entre eles e tantos outros que eu li, acho que nunca existira uma resposta absoluta, embora responder com um desses citados não me pareça errado.

CARTA AO LEITOR

Antes de existir computador as pessoas tinham como viver, não é não? Hoje parece que além do oxigênio agente tem que respirar informação. Todo mundo sabe de tudo mas é tudo superficial, a gente até lê tudo na hora mas não sabe a dor do monge que fez imolação no Nepal.
Trecho da música “Segredos da Levitação” de André Abujamra

Me sinto muito constrangido em roubar o tempo de você Leitor com meus textos. São tantos canais na TV, tantas páginas na internet, tantas redes sociais e aplicativos. Como André Abujamra diz em sua música ‘Segredos da Levitação’: “a gente até lê tudo, mas é tudo superficial”. O que assistir? O que ler? O que ouvir? O que acessar? Como ser seletivo? É tanta coisa que eu posso morrer sem ter visto o meu verdadeiro filme favorito. Sem ouvir uma banda que poderia me agradar mais do que qualquer outra. É muito material e pouco tempo. Pitty escreveu muito recentemente um texto bem interessante em seu blogue sobre não querer contribuir para o entulho do que ela chama de “mar de links”. Meu constrangimento nasce disso. Com tantas informações para assimilar para quê contribuir ainda mais com esse montante? Cada filme/livro/disco lançado já nasce inflacionado. Mas como ficar calado nessa zorra? Se todos falam, eu também quero falar e ser ouvido. No entanto, sou eu quem escolho minhas prioridades, assim como vocês escolhem as suas. E como vocês me leem por livre e espontânea vontade, eu prefiro ficar com essa falsa sensação de consciência tranquila. Me despeço aqui desses vinte e três mini-textos que acabaram formando um aterro ideológico de ideia nenhuma. No fundo eu desejo que você tenha desistido de ler ainda no primeiro parágrafo. Até a próxima! Abraçaço.