escrever é reescrever

Em entrevista para o projeto Fronteiras do Pensamento, o saudoso Moacyr Scliar contou que era a exaustão que lhe fazia saber quando o livro estava pronto para ser publicado. Disse também que, para ele e para a maioria dos escritores, escrever é reescrever. Nesta perspectiva, não haveria limites para o número de vezes em que um texto pudesse ser reescrito, com seu potencial de aperfeiçoamento sendo absolutamente infinito. Mesmo que a exaustão, o editor ou até mesmo um prazo coloque fim a escrita do livro que será publicado, para Moacyr não haveria texto que não pudesse ser melhorado.

No vídeo, Moacyr usa o jornal como exemplo de escrita urgente, já que ele exige uma entrega mais rápida. Neste caso, os desapontamentos costumam ser maiores. Embora ele tenha citado o suporte periódico, tal situação pode sim acontecer com os blogues. A grande maioria dos blogueiros possui um dia certo ou mais para publicar os seus textos. No caso do Satãnatório, eu tento publicar toda segunda-feira, o que nem sempre é possível. Com o corre-corre da semana, costumeiramente sento para escrever quando já estou quase perdendo o prazo. Essa urgência me faz constantemente me arrepender de certos escritos, principalmente quando deixo passar algum erro de revisão. Tenho de confessar que já cheguei a corrigir e até mesmo mudar frases depois de já ter publicado por achar que ficaria melhor. Sendo assim, quando publico algo, tento não ler mais o que escrevi. Caso eu não finja que aquele texto está morto, o fantasma da reescrita me persegue infinitamente. É crônico.

Como você Leitor pode ver, hoje não é segunda-feira, mas, como estou ausente há quase um mês, resolvi dar um sinal de fumaça. Estou vivo! Estive envolvido na produção de um curta-metragem onde assinei a assistência de direção. No cinema, a função do assistente de direção é fazer a ponte entre direção e produção. Seu trabalho deve estar sempre a serviço da realização do roteiro, da manutenção do cronograma e das melhores condições para o trabalho do diretor no set. Também é sua função realizar a análise técnica do roteiro, do plano e da programação diária de filmagens ou ordem do dia, além de supervisionar o recebimento e distribuição dos elementos requisitados na ordem do dia; coordenar e dinamizar as atividades, visando o cumprimento da programação estabelecida. Trata-se de uma ocupação bastante carregada, já que o assistente de direção começa a trabalhar desde a preparação da produção até o término das filmagens. Muitos dos textos publicados aqui entre outubro e novembro foram escritos quando eu já estava trabalhando na pré-produção, mas conforme as filmagens iam se aproximando, ficou impossível escrever.

As filmagens acabaram domingo (06/12), com uma externa realizada em um terminal rodoviário. Gosto muito de filmar em externas e é sempre curioso ver a reação das pessoas assistindo uma equipe de filmagem trabalhando. Realmente não entendo o encantamento que isso exerce, sobretudo nesse grupo formado por nenhum famoso. Certa vez, Fernando Meirelles comentou algo parecido no blogue-diário de seu filme ‘Ensaio Sobre a Cegueira’: “Não entendo muito o interesse das pessoas em assistir a filmagens. Filmagem é a coisa mais chata se você não está trabalhando. Talvez mais chato do que assistir a um dentista obturando. (Eu nunca liguei para minha dentista para pedir para ir vê-la fazer uma obturação)”.

O que importa é que deu tudo certo e as filmagens acabaram. Hoje, quarta-feira, é o primeiro dia livre que tenho depois que as filmagens foram concluídas, o que me faz ter a sensação de que hoje é sábado. Depois de tantos compromissos, de vários dias dormindo pouco mais de quatro horas, sinto como se tivesse todo o tempo do mundo e justamente por isso nem estou sabendo direito o que fazer com ele. Como segunda-feira ainda vai demorar um pouquinho e eu não queria ter que esperar até lá para voltar a escrever por aqui, resolvi explicar rapidamente o motivo do meu sumiço. Essa é uma escrita urgente, como comecei falando nos primeiros parágrafos, por isso sei que vai me gerar desapontamentos por não ter redigido algo mais elaborado depois de quase um mês parado. Mas a saudade em atualizar o blogue estava grande e, pensando por esse lado, pretendo pseudo-perdoar-me. Dezembro traz o início das férias, então não devo aparecer muito aqui nesses últimos dias de 2015, mas prometo publicar uma saideira antes da virada do ano. Para que não saiam com uma sensação de tempo perdido, deixo com vocês o vídeo do Moacyr Scliar de que eu estava falando. Até a próxima, abraçaço.

Moacyr Scliar – A Escrita Infinita

meu útero

Esse lance de que a inspiração só corresponde a um por cento do trabalho quando os outros noventa e nove por cento são de transpiração é muito verdade. Consegui ver isso melhor agora que tenho o blogue. Não adianta só ter a ideia de um tema interessante para o próximo texto e achar que metade do trabalho está feito. Muitas vezes, quando não é um tema do meu domínio, o empenho só aumenta, colocando a pesquisa como trabalho extra.

Escrever é realmente muito difícil, pois o texto é sempre mais interessante na nossa cabeça. Quando transposto para o computador (quanto menos papel, mais arvores!), é como se algo se perdesse nesse processo. Pode ser que gere um bom resultado, mas nunca como achávamos que ficaria.

Escrever também é físico, pelo menos comigo, que sou amador. Os profissionais, aqueles que escrevem sob encomenda e prazo pré-estabelecido, não devem sofrer tanto, mas eu sofro, mesmo só escrevendo quando quero. Sempre comparei minhas escritas a um parto. Sendo homem, só posso imaginar. Jamais saberei o que é parir uma pessoa. Mas isso são outros quinhentos. Estou falando de parir um texto. Como disse no inicio do parágrafo, é algo físico (além de mental). Uma tarde toda escrevendo me deixa nocauteado no final do dia. Nem quando trabalhava o dia inteiro em pé eu ficava tão cansado.

Quando o assunto é parir um filme, a inspiração corresponde ainda menos de um por cento. Praticamente tudo é transpiração. Ter a ideia do roteiro é o mais fácil. Escrevê-lo e depois reescrevê-lo dezenas de vezes geralmente corresponde a mais de um ano de trabalho. Captar recursos, montar uma equipe, ensaiar, filmar, pós-produzir, lançar, divulgar geram um trabalho tão grande que, sempre que enfrento uma produção, me pergunto se realmente quero continuar fazendo isso. Todo esse processo realmente gera uma crise existencial. Agora vou dissertar sobre o que deveria ter sido esse texto para no mínimo justificar o título. Para isso, preciso transcrever alguns trechos da entrevista de Tom Zé para seu livro ‘Tropicalista Lenta Luta’ (2003). Para quem não gosta de tergiversações, até o próximo texto.

A entrevista foi realizada no dia 22 de agosto de 2003 por Luiz Tatit e Arthur Nestrovski. A conversa editada em livro aparece dividida em diversas seções. Os trechos transcritos a seguir são do capítulo “Os Homens-fêmeos”:

[…] tem uma coisa na Bahia que é muito diferente, que a gente nunca pode explicar. É que o homem é mais feminino do que o homem do Sul. Isso é que é muito difícil de explicar. A mulher tem mais participação. O mundo é mais matriarcal; quer dizer, não é matriarcado, mas a mulher tem mais participação nas decisões e o homem é mais feminino. Essas duas coisas mudam tudo na maneira de você ver o mundo. […] No Nordeste tem isso: o homem era mais feminino, mais gracioso. […] O homem baiano é muito feminino e isso de alguma maneira aumenta o leque do olho. Fica mais observador. […] Você sabe que o lado feminino da gente é que é o lado artista, não é? O lado que tem a gravidez cósmica, que tem a intuição. Neusa (esposa de Tom Zé), por exemplo, é uma pessoa culta e ela mesmo me confessa de vez em quando: “Puxa vida, essa intuição sua é um pecado.” E a intuição é feminina.

Só depois que li essa entrevista foi que entendi a declaração dele em outra ocasião. Trata-se de sua participação no programa de Jô Soares, no dia 15 de abril de 2010, quando ele foi divulgar seu DVD ‘O Pirulito da Ciência’. Tom Zé foi aos estúdios de gravação vestido de saia e Jô quis saber o motivo. Ele disse: “Eu gosto de vir de saia porque eu posso não ter uma vagina, mas útero eu tenho. Eu sou mulher, sempre vivi na sociedade como uma mulher, sofrendo como mulher. Outro dia o João Gordo me chamou pra dizer ‘você é homossexual’ eu disse ‘não, eu sou mulher, é outra coisa’”. Em 30 de outubro de 2014 ele voltou ao Jô, dessa vez para lançar seu mais recente álbum, o ‘Vira Lata na Via Láctea’ e, mais uma vez afirmou: “Eu sempre fui um pouco mulher”.

Se Tom Zé, o pai da invenção, afirma que o nosso lado artista é o feminino, quem sou eu para discordar? A única coisa que posso dizer é que entendo muito bem quando ele fala que a mulher tem mais participação nas decisões do homem. Não sou baiano, mas sou nordestino. Seria esse o motivo da compreensão? Não sei, mas embora tenha um pai muito carinhoso, posso afirmar que minha mãe é quem está sempre presente. A participação dela na minha educação foi tão forte que praticamente anulou a participação do meu pai. Aprendi infinitamente mais com ela do que com ele. Minha mãe e eu quase não discordamos de nada no dia a dia, diferentemente do meu pai, detentor de um ponto de vista oposto ao meu em praticamente quase todo assunto. Não estou querendo diminuí-lo ou dizer que um é melhor do que o outro, ou que amo mais um do que outro. Ademais, minha forma de ver o mundo se aproxima muito mais do olhar da minha mãe. Também vejo isso em quase todos os meus amigos e acredito que não seja um fenômeno assim tão nordestino. Torço para que não. O mundo seria muito melhor.

No entanto, há algumas semanas, eu estava querendo escrever um texto sobre essas palavras de Tom Zé e não conseguia. Até sentei para escrever, mas as ideias ainda muito prematuras me fizeram abortar o texto. Foi quase como uma gravidez psicológica. Aquela em que você acredita estar gestante de um texto quando na verdade não está. Depois a inspiração (o meu lado feminino) penetrou novamente no meu cérebro e semeou a ideia de falar sobre o trabalho duro que é dar vida a esses embriões. Então, na próxima gestação, decidi que juntaria os dois temas. Não são temas exatamente univitelinos, mas achei que seria a última chance de falar sobre essas entrevistas. Ainda na conversa de 2010 com Jô Soares, Tom Zé disse: “Ideia precisa de silêncio. Ideia não gosta de bater papo. O sítio da ideia é o silêncio, até ela pesar no cérebro e você escrever sobre ela. Sofrer até acertar.” Esse silêncio é mesmo fundamental, sobretudo para mim que escrevo o texto mentalmente antes de entrar em trabalho de parto. Dessa forma, meu cérebro escreve quase o dia todo. Esse processo de ócio criativo me permite gerar a ideia no ventre. Bem, a ideia pesou no meu cérebro, escrevi e o texto nasceu, embora eu acredite que não acertei. Todo texto é como um filho que não pertence aos pais e sim ao mundo. Publicar é cortar o cordão umbilical. Depois disso, alguns fenecem, enquanto outros sobrevivem. Esses que permanecem, escrevem por si só a sua história, totalmente independentes de seus progenitores. Contudo, o que me interessa agora é justamente dar mais vazão ao meu lado artístico (ou feminino) e parir cada vez mais textos e filmes, ciente de que sim, eu tenho útero.

se arrependimento matasse…

É bem verdade que todo mundo diz que é melhor se arrepender de algo feito do que de algo nunca realizado. A justificativa é que se não realizamos, nunca saberemos se teria dado certo ou não. Concordo. Deve ser mesmo terrível chegar a algum estágio da vida com a sensação de não ter realizado certos desejos. Mas é certo também que o arrependimento do erro cometido é tão terrível quanto. É como se os dois doessem iguais, mas de formas diferentes.

Sou impulsivo, esquento fácil, falo demais. Características perfeitas para se conquistar arrependimentos ao longo da vida. Já acumulo alguns. Mas uma professora me disse um dia que é melhor ser do tipo de pessoas que se arrependem, porque nos arrependendo temos a chance de tentar corrigir o erro. Já aqueles que não choram o leite derramado deixam tudo como está para o resto da vida. Eu devia ter por volta de doze anos quando ela me disse isso. Se tais palavras me influenciaram a me arrepender mais dos meus erros, eu não sei, mas são palavras que nunca mais esqueci.

Aprender a identificar qual leite merece ser chorado é que é o segredo. Lamentar uma prova mal realizada pode te fazer estudar mais para a próxima. Mas lastimar o jarro de flores favorito da sua vó que você quebrou não vai trazê-lo de volta. Então melhor não verter lágrimas e muito menos perder noites de sono nesse caso. Isso na teoria é muito simples, como em quase toda teoria. Na prática o bicho pega e tenho me atrapalhado muito nos últimos tempos. Principalmente quando me arrependo e acho que não deveria ter me arrependido de ter dito sozinho coisas que carecem ser gritadas em conjunto. Parece ser pior do que as ofensas berradas em brigas. Toda palavra dita não volta atrás, mas qual delas é possível “corrigir”? A princípio, nenhuma. Contudo, numa briga, você pode se arrepender e pedir desculpas para o ofendido. Por maior que seja o dano, a partir do pedido de desculpas você joga a responsabilidade para a outra pessoa. Vendo por esse lado pode parecer algo injusto, mas cabe ao insultado perdoar ou não, e decidir se os laços serão reatados. Ao contrário do solitário grito contra os opressores quando todos os oprimidos deveriam fazer coro. Isso é tão desmotivador que na maioria das vezes me arrependo por ter me inflamado sozinho.

Sempre amei e odiei pessoas caladas com a mesma intensidade. Fico muito puto quando algo errado acontece e as pessoas não falam nada por medo. Detesto quem não se manifesta e se permite ser massa de manobra. Apesar das consequências imediatas, lutar é um ótimo investimento em longo prazo. Nas aulas, apenas para citar um exemplo, seja na escola ou na universidade, sempre existiu um ou outro professor que fez algo com que a turma não concordava. O silêncio dos alunos era algo que me irritava e me irrita até hoje. Eu falo. Bato de frente. Fico mal na fita com eles e já me prejudiquei algumas vezes por falar o que os professores não queriam ouvir. Para cada cinco professores incríveis que eu tive, havia um arbitrário. O sistema educacional é só uma versão em miniatura da sociedade com suas leis muitas vezes injustas e seus governantes que nem sempre fazem o que é melhor para o povo. Simplesmente não consigo não falar. E é aí que está o meu amor por quem é calado. Queria saber me controlar e ser calado por opção. Não por omissão, como é o caso de praticamente todas as pessoas que conheço.

Não é questão de coragem me impor contra tudo que julgo opressor. É mais uma questão de impulsividade. Quando vejo, já tenho dado a cara à tapa e estou no olho do furacão. Talvez bem lá no fundo eu nem esteja errado como chego a acreditar algumas vezes. É que gritar sozinho sempre faz você parecer do contra. É como se você se queimasse por nada. Entrementes, quem sou eu sem minhas ideologias? E uma delas me diz que ficar com o rabo entre as pernas enquanto uma minoria decide o que seria bom ou ruim para a população não é o ideal a se fazer. Não admito essa intimidação que faz o coletivo ficar calado e aceitar opressões disfarçadas de democracia. De toda forma, eu já me acostumei com o fato de ser chamado de revoltado, rebelde, teimoso, subversivo… Enfim, enquanto não inventam pílulas do dia seguinte para arrependimento, sigo colocando os litros de leite na balança para ver qual deles vale ou não a pena ser chorado.

ninguém gosta de esperar

É difícil ser um cara pontual em um covil de atrasados. Não são muitas as coisas que me tiram do sério, mas atraso definitivamente é uma delas. Não me sinto culpado por isso, pois uma das verdades universais é a de que ninguém gosta de esperar. Eu, muito menos.

Gostaria de não acreditar que isso já faz parte da cultura brasileira, mas está cada vez mais difícil pensar o contrário. O que mais vejo são “pessoas Tim Maia”, que quando não chegam atrasadas, nem vão (brincadeira, Tim). É como se atrasar fosse o novo preto. Tendo que lidar a vida inteira com essa espécime nada rara, aprendi muitas técnicas de como duelar com pessoas especialistas na arte de atrasar.

Não criar expectativas é uma delas, também valendo para tudo na vida. Sempre digo que se você criar expectativas no lançamento de um filme, por exemplo, e sair do cinema decepcionado, a culpa é sua. O filme não te pediu para criar expectativas, você as criou porque quis e sem elas a experiência de ver o filme com certeza seria outra. Ou seja, não dá para acreditar que aquela pessoa que sempre se atrasa irá chegar na hora marcada. Se eu já sei que a pessoa vive atrasada, sei também que ela não mudará. Ninguém muda um hábito que não lhe causa grandes problemas; a tendência é que esse comportamento caia num círculo vicioso e vá se repetindo cada vez mais ao longo da vida, a não ser que ela sofra uma consequência drástica. Pena que eu não tenha o poder de impor essa consequência.

Outra técnica é sempre levar algo que possa ocupar o meu tempo. As mais clássicas continuam sendo o livro na mochila, papel e caneta, e aquele disco novo que eu coloquei no celular, mas que nunca tive tempo de ouvir com atenção. Geralmente essas coisas fazem com que o tempo passe rápido e o atraso se torne suportável. Acontece que essa nem sempre é uma técnica que funciona. Não muito raro acontece de o ambiente ser barulhento e atrapalhar a leitura, de eu não estar inspirado e nem disposto a usar a caneta e o papel, afinal escrever exige condições confortáveis (pelo menos para mim), ou me encontrar com aquele chato que vai ficar puxando conversa e me impossibilitando de ouvir o som. O que seria muito fácil de evitar se a pessoa que estou esperando chegasse na hora marcada para que eu tivesse uma desculpa para encerrar a conversa. Quando uma dessas coisas acontece, impossível não ficar ainda mais irritado, já que a única coisa que se pode fazer é, de fato, esperar.

Outra tática é marcar com a pessoa uma hora mais cedo, mas vou logo avisando que ela nem sempre funciona e é uma estratégia perigosa que só tem efeito até a pessoa descobrir que você está marcando com ela antes do horário. Se ela descobre, as consequências são dramáticas. Além de nunca mais acreditar que o horário marcado por você é o horário da sua chegada, ela vai passar a achar que o encontro será uma hora mais tarde e chegará duplamente atrasada.

Estabelecer um tempo limite é outro método que talvez não dê muito certo, mas que é um dos de maior satisfação pessoal. Eu aviso, sempre educadamente, que irei esperar até determinado horário e que se a pessoa não chegar até lá, irei embora. Já fiz isso algumas vezes e confesso que é muito divertido imaginar a cara de decepção do atrasado quando chegar lá e não me encontrar. Claro que tudo isso também é muito chato e um verdadeiro desperdício de tempo. Afinal, eu vou ter que sair de casa novamente para ter que resolver esse problema pendente, mas gosto de ver esse desperdício de tempo como um benefício a longo prazo. Nos próximos encontros, a pessoa com certeza deverá chegar na hora. Sendo assim, pode valer à pena perder tempo hoje para não perder tempo amanhã.

Por fim, o último procedimento parece mesmo o de também chegar atrasado. Se for aquele caso em que eu sei que a pessoa chegará atrasada, então posso chegar atrasado também. Com sorte, essa pessoa pode chegar no horário justo no dia em que eu propositalmente decidi atrasar. É quando esses papéis se invertem e a pessoa atrasada prova do próprio veneno que temos a maior chance de fazê-la cair na real, passando a respeitar os horários pré-estabelecidos.

Veja Leitor, que em momento nenhum eu propus o genocídio de pessoas atrasadas. Muito pelo contrário, mesmo sabendo que elas estão erradas (sim, elas estão erradas), eu tento me adaptar para que possamos viver bem. O que me leva tristemente a concluir que muitas das minhas estratégias ao invés de contribuírem para mudar essa situação, colaboram para que tudo permaneça do mesmo jeito. Sei que uma característica dos atrasados é realizar multitarefas. Também sou um desses e sei que consideramos cada uma dessas multitarefas muito importantes. Mas ninguém tem o direito de considerar tais tarefas mais importantes que o tempo de outra pessoa que também deixou de realizar suas tarefas para esperar.

Não acho que pessoas atrasadas se consideram o centro do universo ou egoístas a ponto de achar que o tempo delas é mais importante que o dos outros. Prefiro acreditar que grande parte delas gostaria de conseguir chegar na hora. Mas meu tempo também é importante, e comigo não adianta apenas desejar ser pontual. Tem que realmente cumprir o horário.

De tanto eu chegar na hora ou até mesmo antes dela, quando por ventura eu me atraso, ninguém me olha feio ou me pergunta o motivo. Eles sabem que se estou atrasado é porque de fato aconteceu alguma coisa. Mas é muito difícil acreditar que exista um bom motivo atrás de cada atraso daquele que se atrasa religiosamente. Tento me colocar no lugar dessas pessoas e não ficar feliz quando as vejo perdendo provas de vestibulares, concursos públicos ou até entrevistas de emprego por causa de atrasos. Algo realmente pode ter acontecido e feito essa pessoa atrasar. Muitas vezes não é culpa dela, mas que credibilidade um atrasado crônico tem? Comigo, nenhuma. Uma grande parte desses que perdem uma prova, por exemplo, são os mesmos que acampam dias antes no portão de entrada de um show. Se podem chegar dias antes de um show, podem também chegar na hora marcada em qualquer outro lugar.

Ironicamente, os atrasadinhos também fazem parte do time dos que reclamam da demora das filas, do trânsito e por aí vai. Afinal, o mundo inteiro está atrasado. Os ônibus atrasam, o trânsito caótico atrasa quem vai e quem vem, as filas de banco atrasam mais do que deveriam, os médicos atrasam, os professores atrasam. Tudo está atrasado, meus amigos. Então não adianta sair poucos minutos antes do horário marcado. Para ser pontual tem que se levar em consideração muitos fatores: o pneu que pode furar, o ônibus que pode quebrar, os congestionamentos, a chuva. Pessoas pontuais levam tudo isso em conta, programam-se e saem mais cedo só para encontrar com alguém. Ninguém é obrigado a assumir um compromisso, mas se assumiu de livre e espontânea vontade, o mínimo que se pode fazer é ser educado e chegar no horário.

No entanto, o que mais existe por aí são pessoas bem mais intolerantes do que eu. Que nunca vão levar em consideração casos reais de pessoas ansiosas que possuem dificuldade em se organizar e estabelecer suas prioridades. Gente que não sabe programar quanto tempo levará para realizar suas tarefas. Pessoas que sabemos que serão eternamente atrasadas, que não têm mais como mudar. Conheço pessoas assim e, por mais que eu goste delas, infelizmente não tenho tempo para perder esperando-as. O carinho continua o mesmo, mas as quero cada vez menos em meus projetos. O meu tempo é importante para mim e talvez o maior conselho para os “atrasildos” seja a comunicação. Se avisam que vão atrasar, já ajuda bastante. Todo mundo tolera dez minutinhos de atraso uma vez ou outra, mas muita gente perde completamente a hora porque sempre decide por dormir dez minutinhos a mais. Talvez seja o caso de colocar aquele velho ditado em prática: se quer dormir mais dez minutinhos, acorde dez minutinhos mais cedo.

as primeiras vezes que a gente nunca esquece

Estava eu sem ideia sobre o que escrever enquanto filosofava sobre as duas diferenças que uma primeira vez pode ter. Você com certeza já refletiu sobre as duas, mas acontece que eu só vim pensar nisso há pouco tempo. E também tenho certeza que o Leitor não perdeu tanto tempo quanto eu pensando nisso. A perda de tempo foi tanta que virou texto.

Pode não fazer sentido na sua cabeça (mas faz na minha), então eu as dividi da seguinte forma: existe aquela ‘primeira vez’ que você sabe que está vivendo e por si só ela já se torna especial. Quando vamos ao primeiro show da nossa banda favorita sabemos disso (a não ser que ela venha a se tornar sua banda favorita depois, mas isso eu explico no próximo parágrafo). Sabemos (ou deveríamos saber) quando transamos pela primeira vez. Quando temos nosso primeiro dia de trabalho, quando recebemos nosso primeiro salário. Quando pilotamos uma moto ou dirigimos um carro pela primeira vez. Podemos não recordar do primeiro dia de aula da vida, mas muito provavelmente sabemos quando estamos assistindo a nossa primeira aula na universidade.

A segunda ‘primeira vez’ é aquela que acontece e só depois se torna especial, com a gente procurando dar a ela a devida importância. Sabe quando você tenta lembrar quando conversou pela primeira vez com a sua melhor amiga? Ou quando conversou pela primeira vez com a pessoa que você ama? Quando e onde foi o primeiro beijo de vocês? Qual o primeiro filme que vocês viram juntos? Geralmente não nos damos conta disso, a não ser que seja amor à primeira vista. Quando não é o caso, você buscará na memória recordar desse primeiro dia. Essa procura pelos detalhes faz parte do processo de transformar essa primeira vez em uma memória importante, mesmo que aparentemente não tenha sido quando aconteceu.

Eu estava radiante quando viajei sozinho pela primeira vez, quando sai do estado pela primeira vez, quando recebi o primeiro salário da minha vida e quando fiz a primeira compra com meu próprio dinheiro. Outras ‘primeiras vezes’ só vieram se tornar importantes depois, como foi o caso da primeira vez que vi meu filme favorito e eu tive que puxar na memória esse dia. Há também as primeiras vezes que foram perdidas por não conseguir lembrá-las, mesmo com a grande importância que elas teriam hoje. Embora recorde do primeiro filme visto no cinema, não sei qual o primeiro filme que vi na vida (embora lembre os primeiros, não rememoro o primeiro de fato). Também não lembro qual o primeiro livro que li (assim como os filmes, eu recordo dos primeiros livros, mas não do primeiríssimo). Tenho muita inveja de quem lembra do seu primeiro filme e livro. Também gostaria de lembrar da primeira vez em que andei de ônibus sozinho. Tenho certeza que eu devia estar muito feliz e ao mesmo tempo com muito medo de descer no ponto errado. É uma parte importante da minha vida que eu sei que existiu mas que ficou perdida ao cair no berço quente do esquecimento.

Nossas vidas estão cheias de ‘primeiras vezes’. Algumas delas nós planejamos. Pode ser o lançamento do primeiro livro, a primeira partida assistida em um estádio de futebol ou a primeira viagem para fora do Brasil. Outras são vividas e só nos damos conta depois, como, por exemplo, a primeira vez em que somos assaltados. Se você nunca foi (espero que não tenha sido), pode ter certeza que a última coisa que irá pensar será no fato de estar acontecendo pela primeira vez.

A primeira briga na escola e a primeira vez que fui expulso de sala de aula são acontecimentos que mantenho vivos na memória, mesmo que, no momento em que aconteciam, eu não tenha me dado conta de que estavam ocorrendo pela primeira vez. Lembro que na quarta série eu tirei a minha primeira nota vermelha. Foi um 4,0 em uma prova de matemática. Naquele dia eu ainda não sabia que me acostumaria com isso. O mais irônico é que por três vezes eu passei de fases na Olimpíada de Matemática, desbancando até mesmo os alunos com melhor desempenho na matéria da turma. Viva a múltipla escolha!

Isso tudo me fez pensar que só vim dar importância ao meu primeiro blogue depois de criar muitos blogues, quando ele já não mais existia. Recordo do primeiro texto neste aqui. Enquanto escrevo, vou tentando lembrar de outras ‘primeiras vezes’ que eu tive, e ansiando por novas. Porque se tem uma coisa que eu não perco é a oportunidade de viver algo pela primeira vez. As próximas vezes podem até ser melhores, mas a primeira será sempre a primeira.

e se eu não tivesse escrito esse texto?

E se o Brasil tivesse vencido a Copa de 50? E se Raul Seixas, Elis Regina, Tim Maia e Cássia Eller não tivessem morrido, que discos eles teriam feito? E se aquele muro não tivesse parado Ayrton Senna, quantos campeonatos ele teria vencido? E se Fernanda Montenegro tivesse ganhado o Oscar? E se Silvio Santos tivesse conseguido se candidatar à presidência da república? E se o sequestrador de Silvio Santos o tivesse matado quando teve oportunidade? E se deus existisse? E se maconha não fosse proibida? E se Cazuza e Renato Russo não tivessem contraído AIDS? E se AIDS não existisse? E se Rita Lee não tivesse saído d’Os Mutantes? E se Marcelo Yuka não tivesse sido baleado? E se os Mamonas Assassinas não tivessem embarcado naquele avião? E se os militares não tivessem aplicado um golpe militar no país? E se os guerrilheiros tivessem derrubado os militares? E se Paulo Coelho não tivesse proibido Zé Ramalho de gravar suas composições feitas com Raul Seixas no disco tributo ao Raul? E se Eduardo Coutinho não tivesse sido morto pelo seu filho? E se Glauber Rocha não tivesse morrido aos 42 anos, que filmes ele teria feito? E se não tivesse existido Cinema Novo, Cinema Marginal e Pornochanchada? E se Machado de Assis tivesse escrito outro final para ‘Dom Casmurro’? E se Belchior não tivesse abandonado tudo? E se João Gilberto não tivesse lançado seu disco ‘Chega de Saudade’, teria existido bossa nova? E se não fossemos um país de terceiro mundo? E se tivéssemos sido colonizados por outro país? E se Décio Pignatari não tivesse sugerido a foto de um ânus, como Tom Zé teria feito a capa do disco ‘Todos os Olhos’? E se Hélio Oiticica não tivesse apresentado seu Labirinto Tropicália, como se chamaria o tropicalismo?

Eu sei que o parágrafo anterior é cansativo, mas ele tinha que ser escrito daquela forma. Porque não sei vocês, caríssimos, mas tenho súbitas crises de “e sismos”. Não é algo frequente, mas vez ou outra essa doença me ataca e seu maior e único sintoma é nos fazer ficar pensando no que teria acontecido se algo que já aconteceu tivesse sido diferente. É o famoso e famigerado “e se?”.

E se eu tivesse nascido em outro lugar? E se meu nome fosse outro? E se meus pais fossem outros? E se eu fosse adotado? E se eu tivesse mais irmãos? E se eu tivesse um irmão gêmeo? E se fosse filho único? E se eu tivesse estudado em outra escola? E se eu tivesse me matriculado em outro curso na universidade? E se eu não gostasse de ler? E se eu soubesse jogar futebol? E se eu tivesse alguma deficiência física? E se eu não tivesse nascido? E se eu tivesse nascido mulher? E se eu não fosse geminiano? E se eu não tivesse me apaixonado? E se eu praticasse capoeira? E se eu não fosse louco? E se eu tivesse nascido em 1823? E se eu nascesse hoje? E se eu morresse hoje? E se eu me suicidasse?

É uma perda de tempo ficar imaginando caminhos e soluções diferentes para coisas que já aconteceram. Mas é algo que não posso evitar. Hoje lido bem com essa patologia e quando me dou conta de que estou fazendo isso, corto imediatamente o fio do pensamento. São todas perguntas sem respostas, onde eu só poderia saber como teria sido diferente se de fato tivesse sido diferente. É algo tão forte que é possível até sofrer quando se imagina um caminho melhor do que aquele já trilhado. Se é arrependimento, eu não sei. Portanto, o que funciona para mim é aquele chavão de sempre: viver o presente e tentar seguir o melhor caminho possível. Eu sei que essas bifurcações me matam, mas ficar remoendo pseudo-passados é deixar de viver.

necessidade dramática

Quem é blogueiro sabe que, durante alguns momentos, somos amaldiçoados com alguns posts que não querem vir ao mundo. Quando isso acontece, nós autores dizemos estar passando por um bloqueio criativo. Eu que estava livre desse mal, resolvi criar o Satãnatório e fui amaldiçoado no post de número seis, este que você está lendo agora.

Quando liberamos o blogue para a leitura, passamos por um período de empolgação (que geralmente passa com um mês) em que queremos escrever, escrever, escrever. Achamos que quem acessa e vê poucos posts não vai querer voltar depois. Então começamos a postar um atrás do outro e encher o blogue com material para que assim o leitor veja que estamos em atividade constante e volte depois.

Após o post de número cinco, aquele período de empolgação passou para mim e fui viver minha vida. Passei cinco dias muito ocupado e, mesmo assim, vez ou outra eu pensava no que postar quando tivesse um tempinho livre. Esse período veio e a inspiração não. Nesses dias em que não consegui pensar em nada, logo diagnostiquei que este seria um post de parto difícil, mas encarei de frente esse meu mini-bloqueio criativo apelando para uma ideia fajuta com o intuito de vencer esse mal.

Estou escrevendo um roteiro e tenho tido certa dificuldade em desenvolver a necessidade dramática da minha personagem. No cinema, chamamos de necessidade dramática a vontade do personagem, o que ele quer vencer, ganhar, conseguir, alcançar durante o filme. É isso que o impulsiona através dos obstáculos e dos conflitos que ele enfrenta. E eu, que agora tenho um blogue, me presenteei com uma necessidade dramática: mantê-lo atualizado. Agora mais especificamente, vencer o maldito post de número seis!

Portanto, decidi escrever qualquer coisa e postar – e falar sobre essa maldição que de quando em quando bate a porta dos blogueiros me pareceu ser o mais sensato. Não posso chamar isso de jornada do herói, mas posso dizer que venci o meu conflito quando escrevi essas linhas e cliquei em Publicar.

Confesso que carrego comigo um arrependimento constante com relação a esse blogue e o tempo que gastei com os meus anteriores. Sempre que venho escrever bate um remorso com relação as minhas outras “necessidades dramáticas”. Eu poderia estar lendo, vendo filmes, escrevendo roteiros, trabalhando em futuros projetos ou dormindo. Só eu sei o quanto estou precisando dormir. Mas cada vez mais tento me convencer de que preciso externalizar certos fluxos de pensamento, mesmo que ninguém os leia.

Estou partindo amanhã para uma viagem de uma semana e sei que durante esse período eu muito provavelmente não irei ter tempo ou vontade para passar por aqui. Mas pode ser possível, já que minhas vontades são muito inconstantes e quando a gente quer, a gente sempre encontra tempo. Então, meu caro amigo, me desculpe por ter feito você ler esse texto sobre absolutamente nada, mas eu realmente não queria ter que viajar antes de vencer a maldição do post seis. Não prometo voltar com maior conteúdo no próximo porque não gosto de fazer promessas, mas tentarei.

Abraçaço.