antirretrospecto

Na madrugada de hoje, terminei minha segunda leitura do ano: ‘Cinema Brasileiro a Partir da Retomada – Aspectos Econômicos e Políticos’, do Marcelo Ikeda. Esse livro me surpreendeu muito positivamente, e o recomendo para quem trabalha, estuda ou pretende estudar cinema, principalmente quem se interessa pela área de produção e distribuição de filmes. Estou escrevendo sobre isso por dois motivos: primeiro, para indicar o livro, e segundo, para falar que minha meta de leitura está atrasada.

Iniciamos ontem a quarta semana do ano e eu já deveria já estar no quarto livro. No entanto, estou na metade do terceiro, que pretendo terminar antes do fim da semana para já iniciar o próximo. Não estou correndo, nem fazendo leituras atropeladas, mas apenas me organizando melhor para conseguir ler mais. Diante disso e de tudo o que tem acontecido em janeiro, tomei uma decisão que preciso compartilhar: só escreverei aqui quando concluir um livro. Dessa forma, vocês saberão que a cada novo texto publicado, uma leitura foi concluída por mim.

Pois bem, esse não é o tão prometido artigo elaborado que falei na postagem anterior. Até comecei a elaborar um que deve ser o próximo a ser publicado. Só não trabalhei nele agora porque aconteceu algo que me motivou a escrever essas linhas. Hoje cedo, quando eu acordei, recebi um e-mail notificando que o blogue Calculadamente havia citado um texto meu chamado Procrastinatório. O autor do blogue é o David, meu amigo de muitos anos, que vive criando blogues e abandonando. Nesse novo texto ele prometeu uma porrada de publicações para esse ano. Vamos ver se dessa vez ele cumpre. De toda forma, não é exatamente sobre isso que eu queria falar, e sim do fato de que eu não lembrava de ter escrito algo com esse título – se eu não lembrava do título, também não fazia a menor ideia do que havia escrito no corpo do texto.

Intencionalmente, tento me distanciar das coisas que já escrevi. Evito ler os textos antigos desse blogue, por exemplo. Quase sempre sinto vergonha do que está escrito e mudaria muita coisa, se possível. Na verdade, é possível, e é justamente por isso que tento não ler – para não ficar reescrevendo eternamente o mesmo texto. O sentimento é o mesmo para os meus primeiros curtas-metragens. Não gosto muito de assisti-los. Ao contrário dos textos, não é possível modificá-los. Por outro lado, ler ou rever trabalhos antigos tem o lado positivo de nos fazer reconhecer os próprios erros e constatar se está ou não havendo uma evolução ao comparar com os trabalhos mais recentes.

Todos esses trabalhos foram importantes na época de suas realizações. Entretanto, não me interessa revisitá-los. Ao fim de cada trabalho realizado, só consigo pensar no próximo degrau. Certa vez, Jô Soares disse em um de seus programas que Tom Zé era um artista antirretrospecto. Ou seja, que não vive de glórias passadas. O Mestre está sempre lançando trabalhos novos e relevantes, o que evidencia sua capacidade de evolução. Claro que ninguém, muito menos eu, vai conseguir chegar ao patamar do Tom Zé, mas me interessa tentar. É uma briga perdida, eu sei, mas que pretendo lutar dignamente. Sei também que é esteticamente pobre comparar o próximo trabalho com um degrau, mas a cada dia que passa, vejo mais artistas rolando escada abaixo, incapazes de se reinventar e superar sucessos antigos.

Costumo dizer que, uma vez concluído, o trabalho está morto para mim. O discurso nem sempre funciona na prática, pois alguns textos ou curtas nunca morrem, fazendo com que eu sempre me lembre deles. No entanto, eu não lembrava do texto Procrastinatório. O blogue vai fazer dois anos em junho e eu também nem lembrava mais que um dia quis outro título para ele sem ser Satãnatório. Foi bom ler um texto que nem é tão antigo assim (foi publicado há sete meses atrás), mas é evidente que ele não me marcou tanto quanto outros, pois eu nem lembrava mais. Apesar disso, é muito louca a sensação de ver que alguém ainda lembra de um texto meu que eu havia esquecido.

Não pretendo renegar trabalhos passados. Quando digo que estão “mortos”, não significa que não os veja com carinho. Eles são importantes, fazem parte de quem eu sou, de onde estou e de onde pretendo chegar. Apenas não desejo aproveitá-los além do necessário. Não pretendo ser o cineasta que realiza sempre o mesmo filme ou o escritor que escreve sempre o mesmo livro. Por mais relevantes que possam ser os trabalhos passados, uma hora eles precisam dar espaço para novas criações.

A escrita, mais do que o cinema e, creio que bem mais do que qualquer outra arte, nos engana melhor. Quando leio um texto realmente muito antigo, quase sempre não me reconheço mais naquelas palavras, o que me faz pensar: eu escrevi isso? Não houve esse choque com o texto Procrastinatório porque ele ainda é bem recente. Até gostei de lê-lo e não modifiquei nada. Talvez, se eu o ler daqui a alguns anos, fique pensando nas possíveis melhores maneiras de redigi-lo, mas no presente momento eu apenas não me lembrava de tê-lo escrito. Contudo, sei que o escrevi porque continuo procrastinador e lembro muito bem do argumento que citei no final, pois ele foi muito trabalhoso de escrever. Claro que esse texto de agora não tem função nenhuma e se autodestruirá da minha mente assim que for publicado. No entanto, se alguém ler e também encontrar vantagem em adotar o ‘antirretrospecto’ como filosofia de vida, já fico satisfeito. Até a próxima, abraçaço.

mãos que não escrevem

Sou fascinado por manuscritos. Sempre que vou a alguma exposição ou retrospectiva em homenagem a algum(a) escritor(a), procuro por eles. A última exposição desse gênero que tive a oportunidade de prestigiar foi a Múltiplo Leminski, dedicada ao escritor e poeta curitibano Paulo Leminski (1944-1989). Além dos seus manuscritos, a mostra reuniu mais de mil objetos pessoais, entre fotos, livros, pinturas, textos datilografados, vídeos e filmes. Recentemente, li ‘Menino de Engenho’, de José Lins do Rego (1901-1957). Minha edição, que é de 1992, apresenta o manuscrito da última página do livro ao final do volume. Tal registro vem acompanhado do seguinte texto: […] para decifrar a quase ilegível letra de José Lins, colamos a ‘tradução’ nas linhas respectivas. “Quase ilegível” é elogio, pois salvo uma ou duas palavras, eu não consegui entender nada dos garranchos do escritor paraibano. Apresento abaixo uma foto que fiz da página com o manuscrito, mas aconselho quem ainda não leu que não veja com atenção, pois contém revelações de enredo.

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Após o término da leitura, fiquei pensativo. A maioria dos escritores contemporâneos não deve escrever mais à mão, preferindo digitar em seus computadores. Aposto que muitos autores só utilizam a caneta em sessões de autógrafo – que um dia ainda hão de ser totalmente substituídas por sessões de selfies. Suponho que, daqui a algumas décadas, quando organizarem mostras em homenagem a eles, não haja nenhum manuscrito. Os exemplares das primeiras edições impressas de seus livros talvez se tornem os documentos mais valiosos dos futuros escritores. Não os condeno, pois eu mesmo não escrevo mais à mão. É muito mais prático digitar, posso reescrever uma frase na hora que eu quiser, sem ter de apagar o que já foi posto com borracha ou riscar as linhas com caneta ao escrever outra coisa por cima. Ainda posso inserir palavras novas ou até mesmo frases inteiras no texto redigido sem precisar fazer isso na borda da folha. Sem contar o que para mim é a maior vantagem: a rapidez. Passaria horas escrevendo à mão o que digito em alguns minutos. Digitando, consigo acompanhar meu raciocínio, enquanto que à mão, a velocidade da escrita não respeita a do cérebro: acabo deixando de colocar no papel o que estou pensando naquele momento, resultando em um acumulo de ideias que, consequentemente, acarreta o esquecimento de algumas delas, me forçando a pensar novamente o que devo escrever. Com o auxílio do teclado, praticamente consigo digitar o que penso em tempo real.

Sempre fui um militante da escrita eletrônica por entender que quanto menos papel for usado, melhor será para o ecossistema, pois, mesmo que seja oriundo de reflorestamento, o solo e a água não deixam de ser usados. Sei que a geração de energia elétrica afeta o meio ambiente, mas o desmatamento de árvores também é muito nocivo à natureza. A combinação da escrita eletrônica com a utilização de energia sustentável é o ideal. Porém, eu ainda não havia percebido que estamos caminhando para a extinção em massa dos manuscritos. Em um futuro próximo, além da morte desses documentos de grande valor histórico, poderemos assistir até mesmo ao fim do ensino da chamada “escrita à mão”. Tudo ao nosso redor está trabalhando em função disso, até nossas assinaturas em documentos estão ficando cada vez mais raras, já que a biometria digital está sendo implantada em todos os lugares: além dos bancos e das votações eleitorais, eu já havia usado a biometria no colégio (para o controle da entrada e saída dos alunos), na academia e na autoescola. Sem contar que a prova teórica do exame de CNH foi realizada no computador. Não está muito distante o dia em que todos os vestibulares também serão realizados dessa forma, com o aluno recebendo o resultado logo após o término da prova. Para usar carteirinha de estudante também já está sendo preciso fazer a biometria facial. Temo que, muito em breve, todo e qualquer estabelecimento cobrará nossa identificação e, finalmente, cada movimento nosso será monitorado ao bel-prazer do Sistema.

Alguns países do primeiro mundo já estão deixando de ensinar a letra cursiva, cobrando dos alunos apenas o aprendizado da letra de forma e substituindo o velho caderno de caligrafia por tablets e computadores. As crianças aprendem a reconhecer as letras escritas de forma cursiva, mas não são mais ensinadas a reproduzi-las. Nos últimos anos as crianças estão apresentando cada vez mais dificuldade em aprender a escrita de mão, entretanto, com o crescente contato com as novas tecnologias, estima-se que um terço dos bebês usa smartphones e outros aparelhos digitais antes mesmo de aprender a andar e a falar.

No entanto, alguns pais estão preocupados, acreditando que o fim do ensino da letra de mão pode prejudicar seus filhos. A discussão divide especialistas: de um lado estão os que defendem que a escrita é importante para desenvolver a psicomotricidade fina, fundamental para o desenvolvimento psicomotor, pois quanto mais estímulos o cérebro recebe, mais sinapses ele faz, aumentando sua capacidade, e o uso das mãos têm grande influência no desenvolvimento das sinapses; do outro lado, estão aqueles que defendem que, mesmo com o fim do ensino da escrita de mão, as habilidades motoras das crianças continuam sendo exercitadas com o manejo de smartphones, tablets, videogames e computadores. Estes últimos também argumentam que as habilidades motoras podem ser treinadas nas disciplinas de desenho e pintura. Não sou nenhum especialista para conseguir justificar a importância de escrever à mão, mas sei que se cada vez mais países desenvolvidos aderirem ao fim da letra cursiva, logo essa medida também deverá estar sendo implantada nos países emergentes, e aqui, onde mal temos direito à educação, não teremos aulas de desenho e pintura para suprir o desenvolvimento psicomotor das crianças.

Aprendi a ler e a escrever aos seis anos de idade e recordo bem da alegria que senti no dia em que a professora me pediu para escrever a palavra “lago” na lousa e não errei. Sempre elogiaram a beleza da minha letra grande e redonda, mas hoje ela não é mais a mesma. Atualmente estou lendo ‘Revisão Crítica do Cinema Brasileiro’ de Glauber Rocha (1939-1981) e, quando me debruço sobre livros que tratam do cinema, costumo fazer anotações em algum caderno, pois nunca, em hipótese nenhuma, risco um impresso. Havia certo tempo em que eu não lia alguma obra acerca da sétima arte e havia mais tempo ainda em que eu não fazia anotações. Acredito que escrever é como andar de bicicleta: quem aprende, nunca esquece, mas quando não praticamos, sofremos um pouquinho para voltar a dominar o guidão. Quando fui fazer as anotações, senti a caneta correndo rápido demais, foi preciso algumas linhas para me familiarizar novamente com aquele objeto.

Não recordo de ter tido muita dificuldade em aprender a escrever, pois a professora que me alfabetizou era tão rigorosa que com certeza haveria feito disso um trauma na minha infância. De certa forma, me lembro de uma única ocasião em que fiz um teste de caligrafia e a professora me mandou refazer várias vezes porque minha letra estava feia. Os alunos que terminavam podiam ir para o recreio. Fiquei vendo todos os colegas brincando no pátio e eu ali, preso no teste de caligrafia. Reescrevi tantas vezes que a folha foi ficando cada vez mais fina de tanto apagar com a borracha, até chegar ao ponto de rasgar em algumas partes. Por fim, acabei chorando e as lágrimas borraram tudo ainda mais. Não lembro se consegui ir para o recreio, minha memória só chega até esse ponto da lembrança.

Que benefícios o ensino da letra escrita me trouxe, eu não sou capaz de dizer. Talvez, aos seis anos de idade, adorasse receber a notícia de que não precisaria aprender a escrever, e olha que, no meu tempo, as crianças ainda não possuíam celulares – o meu primeiro aparelho eu só fui ter aos catorze anos. Admito que a escrita cursiva exige muita coordenação motora e que aprender a desenhar as letras é um processo demorado. É como se fossemos alfabetizados duas vezes, aprendendo a ler as letras e depois a reproduzi-las. Todavia, hoje eu optaria por ter aprendido a escrever, e acredito que o ideal seria a junção do ensino da letra de mão com o aprendizado das novas tecnologias. Uma não precisa substituir a outra, embora o já esteja fazendo sem que percebamos. No dia a dia, não necessito mais carregar um bloquinho de notas juntamente com uma caneta (que sempre periga estourar dentro do bolso) ou mandar bilhete para ninguém, pois uso o celular para fazer anotações e os aplicativos de mensagens instantâneas para enviar algum recado.

Com o fim do ensino da escrita cursiva, as crianças só serão capazes de escrever em letras de forma, pois são mais fáceis de reproduzir. Em uma sociedade cada vez mais prática, as pessoas defendem que, se não usam algo, não há porque perder tempo aprendendo. O mais irônico nessa história toda é que as variantes cursivas foram desenvolvidas durante a Idade Média para permitir uma escrita manual mais rápida, pois é possível alcançar uma velocidade de escrita maior quando se usa o método clássico de passar de uma letra a outra sem levantar a caneta do papel.

Reconheço que a tecnologia tem força suficiente para dar fim à escrita de mão, e saber que existe a possibilidade dos meus netos ficarem intrigados ao me verem escrevendo no papel, prática usada há cerca de sete mil anos, é um pouco assustador. Por um longo período, usaram o termo “pré-história” para dividir o tempo em antes e depois da invenção da escrita como registro da realidade. Novas formas de contar a história hão de nascer com o desenvolvimento feroz da informática e talvez um dia também sejamos pré-alguma coisa.

Quando os arqueólogos do futuro (se é que ainda se chamarão assim) ou até mesmo seres de outro planeta em um possível período pós-apocalíptico procurarem vestígios de nossa civilização aqui na Terra, além de fósseis, encontrarão muitos fragmentos de computadores, tablets e smartphones. Haverão também muitos muros grafitados que dirão mais coisas sobre nós do que vosmecê imagina (a arte do grafite é uma espécie de pintura rupestre moderna). Talvez ainda encontrem restos de manuscritos, que poderão ser os vestígios mais preciosos da nossa civilização, pois a letra de alguém diz muito sobre sua personalidade, o que ainda não é possível estudar através da digitação.

anacronismo cibernético

Reconheço que manter um blogue nos dias de hoje é como utilizar máquina de escrever ou fotografar com câmera analógica, isto é, algo ultrapassado (retrô, se preferir). Por onde ando, ouço que as redes sociais mataram os blogues, enquanto que os vlogues jogaram a pá de cal. No entanto, mesmo que inconscientemente, os usuários das mídias sociais se tornaram “blogueiros”, nos contando sempre os que estão fazendo, comentando assuntos do momento, postando fotos de onde estão, o que estão comendo, frases com falsas autorias e até mesmo textões (que ninguém lê). Os sites, inclusive, também aparentam estar caindo em desuso; muitos artistas e empresas nem os possuem mais, aderindo às redes sociais para divulgar suas agendas, novidades e informações, já que, afinal, todos estão lá.

Por que então se exilar e escrever em um lugar ermo? Esse foi um dos dilemas que tive quando decidi criar esse blogue. Dizer que foi para aumentar o leque de leitores é uma grande mentira, já que todas as redes sociais possuem em suas configurações as opções de público e privado. Dizer também que é para conquistar prestígio e fama é uma grande ilusão, pois nós blogueiros(as) temos conhecimento de que muitos nos menosprezam, principalmente no universo acadêmico, de onde nos olham enviezadamente, pois acreditam que só escrevemos em blogues porque não conquistamos um espaço em veículos maiores. Não entra na cabeça deles que muitos(as) de nós não queremos nos filiar a nenhum grupo e muito menos ter que se enquadrar em padrões que podem censurar muitas de nossas liberdades textuais.

Entretanto, concordo que os blogues saíram fortemente lesionados dessa disputa. Acontece que rede social nunca foi mesmo o meu forte. Utilizo quase todas, caso contrário, não saberia mais o que meus amigos e amigas estão fazendo ou se estão bem ou mal. Ninguém mais se importa em sair para se encontrar e, se saem, a preocupação maior é em fotografar para postar. Essa preocupação em registrar as saídas nunca fez parte de mim, muito menos a necessidade de tornar tudo isso público. Para os meus melhores amigos isso também não é algo que os preocupa e, talvez por isso mesmo, somos melhores amigos. Em certas ocasiões saio até mesmo sem celular, não porque quero ficar incomunicável, mas por medo de assalto. Estou com o mesmo aparelho há três anos e não estou nem um pouco a fim de gastar dinheiro com outro enquanto este estiver suprindo minhas necessidades. Porém, sair sem celular, para muitos outros amigos e amigas, é como sair sem roupa. Alguns(mas) até já foram assaltados(as) enquanto fotografavam. De toda forma, a culpa não é deles(as), caso contrário, eu estaria dando razão aos assaltantes. Ademais, essa obsessão em fotografar tudo foi o que acarretou as vinte e sete mortes registradas ano passado ao redor do mundo por causa de selfies. Infelizmente, esse número só tende a aumentar. Enfim, todo esse rodeio só para dizer que não me interessa o material publicado nas redes sociais e, embora alguns(mas) escritores(as) não saibam fazer diferenciações e reproduzam muito de lá nos seus blogues, pelo menos aqui não há os famigerados “me add”, “troco likes” e “me segue de volta”. Bom, se tem, nunca vi.

Conservo em mim a utopia de que um dia conseguirei excluir todas elas, mas tenho que admitir que este será um trabalho árduo. Criar um perfil em uma rede social é algo fácil, complicado mesmo é sair. Todos os nossos amigos estão lá, nossos contatos, os grupos da universidade e do trabalho. Até nossos avós estão se rendendo. Dói, mas é preciso reconhecer que nos tornamos reféns. Fico me perguntando: quando foi que demos tanto poder às redes de relacionamento online?

Contudo, sigo utilizando uma plataforma que teve o seu auge lá no início dos anos dois mil. Hoje, a tendência tem sido criar vlogues, o que deve perdurar por mais algum tempo até o formato se desgastar ou ser substituído por algo ainda a ser inventado. Ademais, acredito na permanência dos vlogues, principalmente os curtos (pois ninguém tem mais tempo para nada). Confesso que gostaria de ter o talento de escrever textos sucintos, no entanto, a cada post novo, concebo um textão. Sinto-me constrangido por roubar o tempo dos(as) leitores(as), pois em rede social ninguém lê ninguém, só se vê as fotos e os status, mas aqui é diferente: quem acessa blogues o faz porque quer ler, o que também é uma das principais razões para ocupar um domínio em uma plataforma de blogues e resistir escrevendo. “Ocupa e resiste”. Esse tem sido o lema de quem ainda quer manter a engrenagem da Blogosfera girando. Essa resistência tem se mostrado bastante efetiva em blogues feministas e LGBTs, além dos blogues jornalísticos que não estão se curvando ao conservadorismo da imprensa de direita.

Implodir blogues para a construção de textos mal elaborados de opiniões sem aprofundamento em nome da praticidade e da preguiça de criar um espaço em outra plataforma não é o suficiente para me convencer a mudar de lugar. Não escrevo para os meus amigos de redes sociais e sim para quem usa a internet como ferramenta de pesquisa e debate. Realmente não dou atenção ao pessoal que acha que a rede mundial de computadores não vai além de suas timelines e aplicativos de mensagens instantâneas.

Engana-se quem enxerga os blogues como espaços individuais, visto que, a partir do momento em que os(as) leitores(as) comentam os textos, o post passa a ser deles(as) também, pois os comentários funcionam como um complemento do que foi proposto pelo(a) escritor(a). Publicar um texto como esse nos perfis das minhas redes sociais é como vomitar, impor um material que ninguém está interessado em ler, sem contar que, em poucos minutos, teria se perdido no buraco negro da linha do tempo. Posso até compartilhar o link do post, mas quase ninguém vai clicar, visto que a preguiça de abrir outra página é motivo suficiente para desistir. Todos os conteúdos devem estar apresentados na timeline e, dessa forma, ninguém sai. Blogue não é cativeiro e não faz nenhum(a) leitor(a) submisso(a) do algoritmo. Rede social é uma espécie de casa-grande (ou seria senzala?), enquanto que aqui fora, nós libertos, escritores(as) e leitores(as), reconhecemos nossos nichos através dos interesses em comum. Caso as mídias sociais realmente acreditem que mataram a Blogosfera, alguém avise-as que esqueceram de enterrar.