cinco passos para ser um(a) escritor(a)

Hoje o texto será um pouco diferente, pois tratará da gravação de uma palestra do Rubem Fonseca. Não recordo como encontrei o vídeo, mas certamente foi quando estava navegando, como sempre, à procura de coisas novas. Informações essas que são muitas, muitas mesmo e, por mais que eu seja um astronauta libertado, as novidades me ultrapassam em qualquer rota que eu faça (viva Tom Zé!). É uma corrida desleal, estou sempre atrás das notícias. É humanamente impossível acompanhar tudo e, mesmo que fosse possível, não faria questão. Embora a quantidade de novidades ruins seja infinitamente maior do que as boas, ainda assim as boas continuam em demasia para um único ser humano que, como eu, é sedento por assuntos “desconhecidos”.

Pesquisando, consegui descobrir algumas coisas sobre o vídeo: é de 2012 e foi realizado durante a 13ª edição do Correntes d’Escritas, que é um encontro de escritores de expressão ibérica. Rubem Fonseca foi o convidado especial e recebeu o Prêmio Literário Casino da Póvoa com o livro ‘Bufo & Spallanzani’. No primeiro dia do evento ele palestrou em uma mesa que tinha como tema “A escrita é um risco total”. Foi essa palestra que eu encontrei em vídeo e resolvi compartilhar aqui, afinal, ele não costuma dar entrevistas porque considera que o autor deve ser reconhecido por sua obra, sendo a fala desta palestra um verdadeiro presente.

Lembram que eu disse lá no início que o texto de hoje seria diferente? Pelo menos a intenção era de que realmente o fosse. Os últimos textos do blogue são enormes, o último sempre maior que o antecessor. Desaprendi a escrever textos pequenos e a cada textão que publicava, me sentia mal por roubar o tempo do(a) Leitor(a). A princípio eu compartilharia apenas o vídeo, mas para isso eu tenho meu Tumblr, então decidi escrever algumas palavras sobre a palestra do Rubem Fonseca, que indica cinco coisas que precisamos ter para ser um(a) escritor(a) e fazer um pequeno paralelo com os leitores, mas essas palavras acabaram desaguando em um texto enorme. Portanto, deixo aqui o meu mais sincero conselho: veja o vídeo a seguir (antes que saia do ar) e não leia o resto do texto.

Correntes d’Escritas 2012 – Rubem Fonseca

Vi que vosmecê é um(a) Leitor(a) teimoso(a). Certo, se já está lendo essas palavras, que faça a gentileza de acompanhar-me até o fim. No vídeo, Rubem Fonseca nos brinda com a frase “escrever é uma forma socialmente aceita de loucura”. Como não concordar? É dessa forma que ele dá início à sua tese de que precisamos de cinco coisas para ser um escritor, a começar pela loucura.

1 – Loucura

Para Rubem Fonseca, todos os escritores são loucos, cada um à sua maneira. Para exemplificar, ele diz que é um escritor digitador, enquanto outros escrevem a lápis, portanto, uma loucura diferente. Identifiquei-me prontamente com a loucura de Fonseca, pois também só sei escrever digitando. Primeiro porque escrevendo à mão fica muito difícil acompanhar o raciocínio: mesmo escrevendo o mais rápido que posso, acabo deixando algo passar. Digitando, esse prejuízo é quase zero. Segundo, por um motivo mais nobre, digamos assim, pois quanto menos uso o papel, menos árvores estão sendo derrubadas. Já bastam as que morrem para que eu tenha livros na minha estante. Para Fonseca, a loucura é a característica mais importante de um escritor.

No entanto, quando ele diz que cada escritor tem neuroses, psicoses e depressões singulares, o mesmo pode-se aplicar aos leitores. Apenas para ilustrar, cada leitor lê de uma forma distinta. Alguns preferem ler pela manhã, outros à noite, como eu. Alguns preferem livros no formato digital, outros ainda conservam o romantismo de ter o livro físico e não abrir mão do cheiro de páginas novas, também como eu. Alguns se dedicam a um livro por vez, outros leem vários ao mesmo tempo, como quem vos escreve. Não obstante, o leitor tem que ser igualmente louco para “acreditar” no que está lendo através da suspensão temporária da incredulidade. No livro ‘A Vaca e o Hypogrifo’, Mário Quintana diz que “ao ler alguém que consegue expressar-se com toda a limpidez, nem sentimos que estamos lendo um livro: é como se o estivéssemos pensando.”. Quintana está falando de um escritor que escreve muito bem, mas sua frase torna-se importante aqui porque, ao acharmos que estamos pensando, suspendendo temporariamente nossa incredulidade, somos tão loucos quanto o autor. Porém, não basta apenas ser louco.

2 – Alfabetização

Para ser escritor você também precisa ser alfabetizado (obviamente), para que, através de sua escrita, consiga fazer o leitor sentir e, acima de tudo, ver, para assim poder entender. Nessa parte da palestra, Rubem Fonseca destila seu sarcasmo ao dizer que um escritor alfabetizado não significa ser um escritor inteligente e, que ser alfabetizado não é algo assim tão importante, pois uma pessoa não precisa ser muito alfabetizada para escrever um livro. Um exemplo disso é a enorme quantidade de livros de qualidade duvidosa que sempre inundam o mercado editorial.

Costumo dizer que vivemos na era do gosto literário duvidoso. Se Rubem Fonseca afirma que um escritor não precisa ser muito alfabetizado, que dirá os leitores? Muitos passam a vida toda boiando em uma literatura rasa porque não desenvolveram capacidade suficiente para mergulhar em mares mais profundos das letras. Capacidade essa que todos podemos desenvolver e que, se por um lado muitos não o fazem por conta própria, a grande maioria não desenvolve graças a um péssimo Sistema educacional que ainda restringe conhecimento e informação a poucos. Entretanto, realmente existem livros que exigem mais dos leitores. No livro ‘O Design da Escrita’, o autor Antonio Suarez Abreu diz que um texto é “uma proposta de construção de sentidos. Somos nós, leitores, que, vasculhando nossa memória, buscamos dentro do nosso conhecimento de mundo informações adicionais que possam complementar aquilo que lemos. Sem isso, não há entendimento possível.” Sem informações prévias, qualquer um de nós está sujeito a experimentar o analfabetismo funcional diante de um livro. Eu acredito, por exemplo, que não iria conseguir interpretar muita coisa de um texto de medicina ou de arquitetura, embora conseguisse decodificar as palavras. Apesar disso, sou daqueles que ainda prefere pessoas que leem livros indiscutivelmente rasos, do que quem passa a vida inteira com medo de se molhar e não lê nada. Todavia, não basta ser louco e alfabetizado.

3 – Motivação

Sem motivação você não faz nada, nem descasca uma banana, diz Rubem Fonseca. O escritor precisa ser motivado e cada um encontra motivação de uma maneira diferente, não importa qual seja. Na palestra, ele não diz o que o motiva a escrever e eu só não digo o que me motiva porque acho que ainda não sei. Não ganho absolutamente nada escrevendo, no entanto, gosto de escrever, sinto prazer. Talvez seja apenas por satisfação pessoal.

Ademais, também é preciso ser motivado para ler. A motivação mais comum talvez seja para descobrir o final da história, mas há quem lê porque precisa fazer uma prova ou porque anseia por mais conhecimento. Confesso que não preciso de muita motivação para pegar nos livros, estou sempre com vontade de ler, é quase uma necessidade fisiológica. Porém, às vezes preciso de motivação para terminar certos livros. Para isso, aplico a lei do esforço e recompensa: dou uma pausa na leitura que está enfadonha e inicio outra, dessa vez de algum livro que eu tenho certeza que vou gostar bastante e que vai reacender em mim a motivação pela leitura. Geralmente são biografias ou romances de autores que gosto muito. Concluída a leitura desse livro, coloco outro livro que também sei que dificilmente vai me decepcionar, na cabeceira da minha cama. Dessa forma, sempre que eu olhar para aquele livro que estou com muita vontade de ler e que só me permitirei fazê-lo depois de terminar a leitura enfadonha do livro que eu havia pausado, sentir-me-ei muito estimulado. Contudo, não basta ser louco, alfabetizado e motivado.

4 – Paciência

É preciso ser paciente e não parar de escrever. A ação de escrever permanentemente, continuamente, entretanto, deve ser realizada sem pressa. É compreensível que escritores passem cinco anos escrevendo um livro de duzentas páginas, por exemplo, a procura das palavras perfeitas. Para Fonseca, não existem sinônimos, com cada palavra possuindo um significado diferente, próprio. Para ele, sinônimos são conversa dos gramáticos para boi dormir.

Nós, leitores, também estamos sempre exercitando nossa paciência, afinal, não é fácil ler ao final de um dia cansativo. Estamos sempre correndo contra o tempo, não conseguimos ler tanto quanto gostaríamos e muitas vezes precisamos ler textos contra a nossa vontade, seja na escola, universidade ou trabalho. É preciso não parar, ler permanentemente, em cada tempinho livre. Devagar se vai longe! Não obstante, não basta ser louco, alfabetizado, motivado e paciente.

5 – Imaginação

O escritor tem que ter imaginação. Para Fonseca, é fundamental que o escritor invente. Tudo bem que o Chacrinha já nos ensinou que nada se cria e tudo se copia, mas não temos acesso a todos os livros do mundo e, por esse motivo, é imprescindível que os livros que cheguem até nós nos pareçam novos, diferentes. No fundo, eu sei que alguém em algum lugar do mundo já deve ter escrito algum livro parecido e que todas as histórias possíveis já foram contadas. Apesar disso, não li e nem vou conseguir ler todos os livros do mundo, por isso estou sempre procurando livros criativos que sejam novos para mim.

Em 2013, Rubem Fonseca participou da inauguração do ambiente de leitura que leva seu nome, no canteiro de obras da Linha 4 do metrô carioca, na Praça Antero de Quental, no Leblon. A Biblioteca Rubem Fonseca é destinada aos funcionários da obra. No seu empolgado discurso de inauguração (veja o discurso nesse vídeo), Fonseca disse que a palavra é extremamente polissêmica, que cada leitor lê de uma maneira diferente e que cada um de nós recria o que está lendo. Essa é a vantagem da leitura: nós preenchemos as lacunas que os escritores deixam deliberadamente ou inconscientemente. Ou seja, o livro não é uma coisa que vem pronta; o leitor precisa ser igualmente imaginativo para preencher esses espaços. Para finalizar, deixo com vocês a teoria do escritor e filósofo Eduardo Giannetti, que expressa bem essa ideia em seu livro ‘Auto-engano’: Ler é recriar. A palavra final não é dada por quem a escreve, mas por quem a lê. O diálogo interno do autor é a semente que frutifica (ou definha) no diálogo interno do leitor. A aposta é recíproca, o resultado imprevisível. Entendimento absoluto não há. Um mal-entendido – o folhear aleatório e absorto de um texto que acidentalmente nos cai nas mãos – pode ser o início de algo mais criativo e valioso do que uma leitura reta, porém burocrática e maquinal. “Autores são atores, livros são teatros.” A verdadeira trama é a que transcorre na mente do leitor-interlocutor.

Até a próxima, abraçaço.

os dez melhores livros que li em 2015

Saímos de 2015, mas 2015 não saiu de nós. Mesmo que você, Leitor, não tenha realizado grandes feitos em sua vida nesse ano que se passou (esse foi o meu caso), assim como eu, viu muitas coisas acontecerem no nosso país e no mundo. Grandes ídolos morreram, grandes filmes e discos foram lançados. Novos escândalos de corrupção vieram à tona, ataques terroristas foram realizados, aconteceram diversos eventos esportivos, eventos culturais e festivais de música. Vivemos para ver tudo de bom e de ruim que ocorreu no ano passado. Seja com esses eventos globais ou especificamente localizados, 2015 fará para sempre parte da nossa tragetória, afinal, passamos por ele e estamos aqui para contar a história. Trata-se de um ano que particularmente me marcou pelas leituras que fiz. O conhecimento adquirido no ano passado é algo que vai continuar comigo para o resto da vida, algo que ninguém pode me tirar. Parece um tremendo clichê, mas é verdade. Também foi o ano em que mais li na minha vida: quarenta e seis livros, um total de onze mil novecentas e cinquenta e oito páginas, com média de trinta e três páginas por dia segundo meu perfil no Skoob. Infelizmente, não contei as páginas dos livros para saber se esses números estavam corretos (afinal, sou de humanas), mas resolvi escrever um post sobre os dez melhores livros que li ano passado. São eles, em ordem alfabética:

Discos

Título: Discos
Autor: Arnaldo Cohen, Céline Imbert, Eduardo Giannetti, Lia Rodrigues, Luiz Tatit, Marcelo Coelho, Tom Zé
Primeira publicação: 2003
Minha edição: PubliFolha

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‘Discos’ era um livro que tinha na minha estante já fazia certo tempo, mas que só ano passado resolvi ler. Achava que não ia gostar da leitura, mas me enganei redondamente. O livro me fisgou logo na primeira página. Nele, sete autores dissertam sobre os dez discos que levariam para uma ilha deserta. Sou apaixonado por listas, por isso devo ter gostado tanto de ler algumas feitas por pessoas que admiro, sem contar que, ao longo dos seus mais de setenta capítulos, acaba se tornando um ótimo livro para se pegar dicas de discos para ouvir. Este também foi o livro que me fez conhecer o grande Luiz Tatit. Falei sobre isso em um dos primeiros posts do Satãnatório: o ‘eterno ignorante, parte 1’.

Elite da Tropa

Título: Elite da Tropa
Autor: Luiz Eduardo Soares, André Batista, Rodrigo Pimentel
Primeira publicação: 2005
Minha edição: Objetiva

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Gosto muito do filme ‘Tropa de Elite’ (2007), do diretor José Padilha, e admito que esse livro chegou até mim graças à sua adaptação cinematográfica. No princípio, não tive vontade nenhuma de ler ‘Elite da Tropa’, pois acreditava que devia ser muito parecido com o longa-metragem. Todavia, depois de saber que muitos detalhes são diferentes na obra impressa, decidi ler e me surpreendi. Constatei que, de fato, neste caso, livro e filme parecem ser duas coisas totalmente distintas, incluindo aqui a estrutura narrativa. O escrito está dividido em duas partes. A primeira conta histórias sobre o Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), considerado um esquadrão de elite na Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Baseado em relatos reais de ex-policiais do BOPE, o livro mostra os oficiais como uma tropa aparentemente incorruptível e extremamente violenta. Desse momento inicial foram retirados os personagens do filme e algumas histórias que o compõe. Contudo, a segunda parte, que fala sobre o plano para assassinar Leonel Brizola, na época governador do Rio de Janeiro, é o suprassumo do livro, e nada disso está no longa. Esta outra seção com certeza daria um excelente roteiro se fosse adaptado para o cinema. Já havia falado da minha edição do livro no post ‘livros sebosos’.

Encontros Tom Zé

Título: Encontros – Tom Zé
Autor: Tom Zé, Heyk Pimenta
Primeira publicação: 2011
Minha edição: Azougue

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Primeiro tenho que contar como encontrei essa pérola. Jorge du Peixe, vocalista da Nação Zumbi, publicou uma foto do livro em seu perfil no Instagram com a seguinte legenda: “Livrinho fuderoso da coleção Encontros. Entrevistas antológicas com Tom Zé, o mestre dos mestres e punk mais original do Brasil.” Dias depois, eu já estava com o livro em mãos e me segurando para não ler de uma só vez. Sempre fico triste após terminar de ler uma boa publicação por completo. Quando mais tempo eu convivo com o livro, melhor. Mesmo assim, terminei logo, tanto por ser curto, quanto por ser sobre Tom Zé. Tenho que concordar com du Peixe, o livro é mesmo fuderoso.

Estação Carandiru

Título: Estação Carandiru
Autor: Drauzio Varella
Primeira publicação: 1999
Minha edição: Companhia das Letras

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Esse foi outro livro que cheguei através de um filme: ‘Carandiru’ (2003) de Hector Babenco. A obra de Drauzio Varella é um dos poucos casos em que um sucesso editorial, verdadeiro fenômeno de vendas realmente vale a pena ser lido. Vencedor do Prêmio Jabuti em 2000 na categoria Livro do Ano de Não-Ficção, a publicação conta a experiência de Varella como médico voluntário, a partir de 1989, na Casa de Detenção de São Paulo, onde realiza atendimento em saúde, especialmente na prevenção da AIDS. No post ‘livros sebosos’ também falei sobre a minha edição desse livro.

O Centauro no Jardim

Título: O Centauro no Jardim
Autor: Moacyr Scliar
Primeira publicação: 1980
Minha edição: Companhia de Bolso

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Esse foi meu primeiro livro de Moacyr Scliar, constituindo o suficiente para que eu me tornasse um grande admirador da sua escrita criativa. A obra mistura elementos fantásticos em uma trama muito instigante, contando a estória do centauro Guedali, um ser metade homem, metade cavalo. O blogue 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer fez uma excelente resenha sobre esse livro.

O Guarani

Título: O Guarani
Autor: José de Alencar
Primeira publicação: 1857
Minha edição: Martin Claret

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Meu primeiro contato com a história do livro veio com a ópera de mesmo nome do compositor Carlos Gomes e depois com o filme ‘O Guarani’ (1996), da diretora Norma Bengell. Anos depois, minha irmã ganhou um exemplar do romance, que acabou me dando por não gostar. Eu também acabei o abandonando por não conseguir me envolver com o enredo. Entretanto, no ano passado, resolvi dar mais uma chance a ele e acabei me apaixonando, principalmente por sua parte final. Assim que concluí a leitura, assisti a outra versão cinematográfica do livro, ‘O Guarani’ (1979), do diretor Fauzi Mansur, que supera a outra produção citada. A primeira adaptação do livro para o cinema aconteceu em 1912, em um filme mudo hoje considerado perdido.

O Que é Isso, Companheiro?

Título: O Que é Isso, Companheiro?
Autor: Fernando Gabeira
Primeira publicação: 1979
Minha edição: Companhia de Bolso

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Mais um livro que cheguei através de um filme, dessa vez foi ‘O Que é Isso, Companheiro?’ (1997), do diretor Bruno Barreto, que representou o Brasil no Oscar de 1998, sendo indicado ao prêmio de melhor filme estrangeiro. Até pouco tempo atrás, eu evitava ler livros que eram adaptados para o cinema, tentando focar em histórias que eu ainda não conhecia. Ainda bem que parei com isso, até porque o filme de Barreto é inspirado apenas no 15° capítulo do livro de Gabeira, o trecho que diz respeito ao sequestro do embaixador norte-americano. O livro é um ótimo depoimento sobre quem viveu na pele o terror da ditadura militar brasileira. Super indico a obra para os politicamente alienados que saíram às ruas no ano passado pedindo a volta do regime militar. O blogue 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer também fez uma ótima resenha sobre ele.

O Réu e o Rei

Título: O Réu e o Rei
Autor: Paulo Cesar de Araújo
Primeira publicação: 2014
Minha edição: Companhia das Letras

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Se não me engano, esse é o maior livro dessa lista e o que li mais rápido. Eu já sabia como terminava a história de Paulo Cesar de Araújo com Roberto Carlos, mas queria saber os detalhes. No livro, o autor fala sobre a polêmica proibição de seu livro anterior, a biografia ‘Roberto Carlos em Detalhes’. ‘O Réu e o Rei’ não é uma nova biografia sobre o cantor, mas sim um relato sobre a relação do autor com Roberto. Durante a leitura ainda ficamos conhecendo a história de amizade entre Paulo Cesar de Araújo e João Gilberto, sem dúvida a maior surpresa do livro.

Secreções, Excreções e Desatinos

Título: Secreções, Excreções e Desatinos
Autor: Rubem Fonseca
Primeira publicação: 2001
Minha edição: Companhia das Letras

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Esse foi meu primeiro livro lido em 2015. É um compêndio de contos e constituiu meu segundo título de Rubem Fonseca, depois de ‘O Caso Morel’. Com essa obra, rapidamente descobri porque ele é considerado um dos melhores contistas deste país. O primeiro conto da coletânea, ‘Copromancia’, se tornou um dos meus textos favoritos e, assim como todos os outros que a compõe, a cada parágrafo lido, eu imaginava como ficariam ótimos se fossem adaptados para o cinema.

Tropicalista Lenta Luta

Título: Tropicalista Lenta Luta
Autor: Tom Zé
Primeira publicação: 2003
Minha edição: PubliFolha

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Mais uma vez um livro do Tom Zé! Este, por sua vez, merece destaque por considerado sua biografia. ‘Tropicalista Lenta Luta’ tem capítulos escritos pelo próprio cantor e compositor, contando sobre sua infância em Irará, acerca de sua formação e ida a São Paulo, discutindo o ostracismo e muitas outras curiosidades de sua vida. Ademais, esses capítulos são curtos e não se aprofundam o suficiente como as biografias convencionais (embora não sejam superficiais, pois Tom Zé nunca é superficial naquilo que escreve). Grande parte do livro é formada pelas letras de seus discos, contendo também cartas e uma extensa entrevista concedida a Luiz Tatit e Arthur Nestrovski. Trata-se de um livro indispensável para aqueles que, como eu, são grandes fãs do Pai da Invenção. Citei esse livro no post ‘vinte e três’ e foi também uma parte dele que me inspirou a escrever o texto ‘meu útero’.

E então, caríssimo Leitor, já leu algum desses livros? Gostou? Não gostou? Pretende ler algum? Me conta!

eterno ignorante, parte 1

Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz. Gonzaguinha sabia das coisas. Quanto mais estudo, maior é a sensação de que tenho muito o que conhecer. O pior disso tudo é aquele velho clichê de que não vamos ver todos os filmes que queremos e nem ler todos os livros que temos vontade. E ainda vamos morrer sem ouvir o próximo álbum daquela banda nova que gostamos.

Recentemente li um livro chamado Discos publicado pela PubliFolha em 2003, em que sete autores (Arnaldo Cohen, Céline Imbert, Eduardo Giannetti, Lia Rodrigues, Luiz Tatit, Marcelo Coelho e Tom Zé) dissertam sobre os dez discos que levariam para uma ilha deserta. São mais de setenta capítulos e desde o primeiro eu ficava pensando quais eu listaria se fosse convidado para participar de um livro assim. Quantos do Tom Zé eu levaria? Não poderia deixar Os Mutantes de fora. O primeiro ou o último da Pitty? O Rappa com certeza estaria dentro. Raul Seixas não poderia faltar. Qual da Cássia Eller? Como escolher só um da Elis Regina? Como escolher um único de Jorge Ben Jor se gosto de todos igualmente? Nunca me perdoaria se Zé Ramalho ficasse de fora. Nunca mais ouviria Roberto Carlos? E quando batesse saudade de Daniela Mercury, Cazuza, Rita Lee, Capital Inicial, Skank, Vivendo do Ócio, Talma&Gadelha, Vespas Mandarinas, Titãs, Cachorro Grande, Secos & Molhados, Cascadura, RPM, Kid Abelha, Cícero, Los Hermanos, Mallu Magalhães, Raimundos, Megh Stock, Novos Baianos, Tim Maia, Karol Conka, Planet Hemp, Seu Jorge, Alceu Valença, Ave Sangria, Nação Zumbi, Emicida, Chico César, Cartola, Lenine, Criolo, Caetano Veloso. Gente, Caetano! Tão vendo? É uma tortura. Mesmo com toda a liberdade desse post, eu ainda vou me arrepender por ter esquecido de citar tantos outros que eu amo, quanto mais listar só dez. Por isso jamais aceitaria participar de um projeto como esse. Sou fraco demais e isso é para os fortes.

Discos

Esse é apenas o quinto post do blogue, mas se você leu os anteriores já deve ter se dado conta do quanto esse que vos escreve gosta de dar voltas até chegar nos finalmentes. Então, o eterno ignorante do título sou eu, que só vim descobrir quem era Luiz Tatit depois de ler o livro. E ainda tem mais: embora lendo os dez capítulos escritos por ele, só fui procurar sua música depois de ler o Tom Zé dizendo que levaria um de seus discos para a ilha deserta. Foi o suficiente para me despertar interesse. Se Tom Zé levaria um álbum do cara é porque valeria muito a pena. E vale mesmo!

Luiz Tatit vive enclausurado numa prisão agrícola chamada USP. Neguei-me sempre a escrever sobre ele, porque posso prejudicá-lo e a inveja dos deuses agravar-lhe a pena para um cárcere comum. É que o panteão da canção brasileira já tem seu concreto quase empedrado. E os deuses coroados sabem que, com Tatit, ou a gente continua escondendo, ou terá de quebrar o panteão todo.
Tom Zé no livro Discos

Além de também ser escritor, atualmente Tatit é professor titular do Departamento de Linguística da Faculdade de Filosofia, Letras & Ciências Humanas da USP. Seu último álbum lançado foi o Sem Destino de 2010 e, por enquanto, o cantor não teria planos para discos futuros. Entretanto, há três meses, ele publicou em seu canal oficial no YouTube um projeto chamado Voz e Violão, em que canta suas músicas em versões acústicas.

Tatit tem quatro discos de estúdio em carreira solo (ele lançou outros discos com o Grupo Rumo) e um ao vivo. O álbum que Tom Zé escolheu foi um lançado em 2000 chamado O Meio. Eu ainda não sei qual o meu favorito, mas tá sendo uma delícia descobrir aos poucos. Apesar da dor de ter conhecido esse gênio tão tardiamente, está sendo mais sofrido constatar que poucos o conhecem. Todo mundo usa o título da música do Criolo “Não Existe Amor em SP” como legendas de fotos e todos lembram da famosa “São São Paulo” do Tom Zé no aniversário da maior metrópole do país, mas nunca vi “Deu Pane Em São Paulo” do Tatit nas listas de músicas sobre a terra da garoa. Digo isso mesmo com Tom Zé considerando a canção “Esboço”, também de Tatit, como uma das canções mais lindas compostas sobre São Paulo.

“Em todo caso, desejo aumentar a curiosidade de vocês a respeito dele, porque seu escondimento é um prejuízo”, escreveu Tom Zé ainda no livro Discos. Por isso não levem a mal o que vou dizer, mas sinto pena de quem não conhece Luiz Tatit, a mesma pena que sinto do meu eu anterior que desconhecia esse monstro da música brasileira.

Luiz Tatit – Felicidade