meus discos favoritos de 2015

Espero que o título seja o suficiente para evitar retaliações. Esta não é uma lista dos melhores discos nacionais de 2015, e sim dos meus favoritos. Já tive um blogue sobre música onde anualmente fazia uma lista dos melhores lançamentos e, agora que estou blogando novamente, decidi fazer essa brincadeira mais uma vez. Devo confessar que foi muito difícil selecionar apenas dez de uma pré-lista de duzentos álbuns que eu fiz; foi um verdadeiro suicídio. Ademais, sendo muito sincero com o Leitor, tenho de admitir que não ouvi tudo com a mesma atenção. Uns eu escutei mais que outros, sendo que, no final, esse foi uns dos critérios para a seleção.

Justamente por não ter apreciado todos com a mesma dedicação, sei que me arrependerei futuramente por ter deixado alguns de fora, como já é o caso de ‘Carbono’ do Lenine, ‘Estado de Poesia’ do Chico César, ‘Selvática’ da Karina Burh, além de tantos outros. Isso significa que, se eu tivesse que refazer essa lista daqui a alguns anos, ela com certeza sofreria alguma alteração, por menor que seja. Mas é como eu sempre digo: listas só existem para deixar algo de fora, ainda mais quando o assunto é a música brasileira. Você sabe como é, né? Música nacional ou você gosta, ou você não conhece. Ademais, não vou ficar rasgando seda para os escolhidos (tentarei, pelo menos), já que aprendi com o meu finado blogue de música que não adianta ficar justificando ou tentando convencer os leitores das minhas escolhas. Portanto, além da própria lista, me limitarei a breves comentários. O que quero mesmo é que vocês ouçam e tirem suas próprias conclusões. Eis a seguir a minha lista:

10° Selva Mundo (Vivendo do Ócio)
Selva MundoOUVIR

Em décimo lugar, ‘Selva Mundo’, da Vivendo do Ócio. Trata-se do terceiro álbum de estúdio da banda baiana que estava há três anos sem registrar nada de novo. Lançado de forma independente e sem a participação de Rafael Ramos, que produziu os discos anteriores, ‘Selva Mundo’ mostra um lado ainda mais roqueiro da banda nacionalmente conhecida pelo seu som indie.

9° De Baile Solto (Siba)
De Baile SoltoBAIXAR

Em nono lugar, ‘De Baile Solto’, do Siba. O segundo álbum de carreira solo do pernambucano conseguiu ser ainda melhor que o muito elogiado ‘Avante’ (seu trabalho anterior). Tenho de confessar que só vim ter contato com a música do Siba no ano passado, consequência da falta de tempo e do grande número de discos lançados anualmente. Simplesmente não consigo acompanhar tudo (mas sigo tentando).

8° Ava Patrya Yndia Yracema (Ava Rocha)
Ava Patrya Yndia YracemaBAIXAR

Em oitavo lugar, ‘Ava Patrya Yndia Yracema’, da Ava Rocha. Este é, sem dúvida, um dos discos mais deliciosos de 2015. Com um som fortemente influenciado pelo tropicalismo, o álbum é uma verdadeira colagem antropofágica. Glauber Rocha (seu pai) ficaria muito orgulhoso.

7° Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa (Emicida)
Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa

Em sétimo lugar, ‘Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa’, do Emicida. Esse é o segundo álbum de estúdio do cantor paulista e conta sua experiência de viagem à África, com músicas sobre preconceito, racismo e indiferença.

6° Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito! (Johnny Hooker)
Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!OUVIR

Em sexto lugar, ‘Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!’, do Johnny Hooker. Assim como a maioria das pessoas, conheci o som do Hooker através de sua aparição em ‘Tatuagem’, o excelente filme de Hilton Lacerda. O disco em questão é um dos mais interessantes dessa nova leva de artistas brasileiros.

5° O Homem Bruxa (André Abujamra)
O Homem BruxaOUVIR

Em quinto lugar ‘O Homem Bruxa’, de André Abujamra. Esse é o quarto álbum de estúdio da carreira solo do músico paulista. O disco tem algumas músicas em homenagem ao seu pai, Antônio Abujamra, falecido ano passado, que também da voz a algumas composições. O material já estava pronto antes dele morrer, servindo como uma última homenagem ao importante diretor, ator e apresentador.

4° Babylon By Gus – Vol. II: No Princípio Era O Verbo (Black Alien)
Babylon By Gus – Vol. II No Princípio Era O VerboOUVIR

Em quarto lugar, ‘Babylon By Gus – Vol. II: No Princípio Era O Verbo’, do Black Alien. O segundo álbum de estúdio da carreira solo do rapper carioca demorou onze anos para ser lançado, mas a espera valeu muito à pena.

3° Fortaleza (Cidadão Instigado)
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Em terceiro lugar, ‘Fortaleza’, do Cidadão Instigado. O quarto trabalho de estúdio da banda traça uma interessante reverência à sua cidade de origem. Poucas vezes ouvi uma homenagem tão linda.

2° Vinil Virtual (Daniela Mercury)
Vinil Virtual

Em segundo lugar, ‘Vinil Virtal’, da Daniela Mercury. O décimo primeiro álbum de estúdio da cantora baiana só veio reforçar sua grande evolução como compositora. Com todas as faixas escritas por ela, o disco é um manifesto ao amor, em todas as suas formas.

1° A Mulher do Fim do Mundo (Elza Soares)
A Mulher do Fim do MundoOUVIR

Em primeiro lugar, ‘A Mulher do Fim do Mundo’, da Elza Soares. Esse disco eu posso afirmar que jamais mudaria de lugar. Além de mantê-lo para sempre na lista dos melhores de 2015, afirmo que ele entrará para a história como um dos álbuns mais importantes da música brasileira de todos os tempos. Viva, Elza!

E você, Leitor, quais os seus discos brasileiros favoritos de 2015? Me conta! Vamos trocar figurinhas.

como seria o mundo sem a bahia?

Para vocês que leram E se eu não tivesse escrito esse texto?, esse é o que eu posso chamar de parte dois. Vocês hão de me perguntar: mas Jaírlos, você não disse que iria evitar ficar pensando em coisas que não podem acontecer? Sim, eu evito, mas essa pergunta vai muito além de um simples “e se não existisse Bahia?”. É a mesma pergunta feita de um jeito diferente: você Leitor, já imaginou como seria o mundo sem a Bahia?

Eu pergunto, mas nem de longe sou a pessoa mais ideal para responder. Não sou baiano, entretanto tenho um fascínio enorme pela Bahia e só consigo pensar o quanto o mundo perderia sem ela e o quanto o Brasil seria mais pobre. Para começo de conversa, nosso cinema seria muito mais apagado e bem menos respeitado no mundo. O maior cineasta desse país foi e sempre será Glauber Rocha. Já imaginou a filmografia brasileira sem ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ e ‘Terra em Transe’?

E a dramaturgia seria igualmente modesta. Nosso cinema não teria Antonio Pitanga, Geraldo Del Rey e Othon Bastos. E o cinema marginal não teria Helena Ignez, sua maior estrela. A nova geração também perderia grandes nomes como Lázaro Ramos e Wagner Moura. Você consegue imaginar outra pessoa como Capitão Nascimento?

Não teríamos Milton Santos e Carlos Marighella, e nem os escritores Gregório de Matos, Castro Alvez, João Ubaldo Ribeiro e Jorge Amado. Não teríamos Gabriela, nem Dona Flor e nem seus dois maridos. E o que dizer de Tieta? Consegue sentir como o nosso imaginário popular seria bem mais carente?

E quando o assunto é música, caríssimos, o prejuízo seria ainda maior. Só para início de conversa, não teríamos Tom Zé, Caetano Veloso e Gilberto Gil. A pergunta que fica disso é a seguinte: teria existido tropicalismo? E tem mais, todos sabemos do caso da bossa nova com o Rio de Janeiro, é algo que não dá para negar, mas que fica difícil imaginar a bossa nova sem João Gilberto, fica.

Sem esses quatro a música brasileira já não seria o que é, mas a facada não para por aí, ainda temos (ou não teríamos) Dorival Caymmi, Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Carlinhos Brown e Waldick Soriano. E me diga, Leitor(a), o que é que a Bahia tem? Tem Gal Costa, Daniela Mercury, Astrud Gilberto, Ivete Sangalo, Karina Buhr, Maria Bethânia, Margareth Menezes e o que para mim é a cereja do bolo: as bandas de rock.

Muitos só conseguem enxergar os trios elétricos e se esquecem que Raul Seixas, o eterno pai do rock brasileiro era baiano. Além de Marcelo Nova que com o Camisa de Vênus fez história nos anos 80. Mas nem só de glórias passadas vive o rock baiano, além das bandas Cascadura, Vivendo do Ócio e Maglore, temos Pitty, que é a maior representante do rock da atualidade. Ela já está a mais de dez anos nesse posto e parece que ainda vai ficar por muito tempo nele.

Eu sei que eu esqueci de muita gente (alguns intencionalmente), afinal, não dá para passar o dia todo citando nomes e nomes. Eu me limitei a falar de quem gosto e acho que ainda assim deu para ter uma noção do estrago que seria para a nossa cultura. Agora vou me aquietar e prometo tentar não perturbar mais vocês com minhas súbitas crises de “e sismos”. Até a próxima.

Abraçaço

o ovo enjaulado das vespas mandarinas

Iniciei a semana muito puto porque a banda Vespas Mandarinas lançou seu primeiro CD e DVD ao vivo. Não sei vocês, mas quando uma banda que eu gosto lança material ao vivo eu particularmente fico triste. Um disco ao vivo para as bandas brasileiras significa um ou dois anos (até mais) de turnê de divulgação e um tempo enorme sem material inédito. Aconteceu algo bem parecido quando anunciaram o último DVD ao vivo da Pitty (A Trupe Delirante no Circo Voador). Quando ela lançou o Chiaroscuro em 2009, depois de quatro anos sem disco de estúdio, intercalado pelo ao vivo {Des}concerto, eu imaginava que em 2011 teríamos um novo disco de inéditas. Que nada! Até veio um álbum no final de 2011, mas era o do projeto Agridoce, que seguiu turnê pelo país para depois ela decidir lançar o SETEVIDAS, que veio com CINCOANOS de atraso. Isso fez com que a cantora quebrasse uma tradição conhecida pelos fãs, só lançando até então álbuns de estúdio em anos de números ímpares: Admirável Chip Novo (2003), Anacrônico (2005), {Des}concerto (2007), Chiaroscuro (2009), A Trupe Delirante no Circo Voador (2011) e Agridoce (2011).

Animal Nacional Ao Vivo

Mas essa birra com registros ao vivo se deve muito também ao fato de que, fazendo cinema, eu não posso usar essas músicas na trilha sonora de um filme. Simplesmente não funciona. E sobre isso tenho mais uma revolta: bandas que lançam músicas ao vivo sem nunca terem feito o registro em estúdio. Como o caso da versão de “Como Nossos Pais” de Daniela Mercury que só existe no DVD ao vivo. Nesse quesito, Pitty está de parabéns, todas as músicas lançadas em registros ao vivo (“Pulsos”, “Malditos Cromossomos”, “Comum de Dois”, “Se Você Pensa”) tiveram suas versões em estúdio liberadas.

Outra coisa que me deixa irritado são essas versões ao vivo que são melhores que as versões em estúdio. As versões ao vivo de “Malandragem” e “Por Enquanto” de Cássia Eller, por exemplo, são muito melhores que as de estúdio. E são as versões que ficaram consagradas na voz dela. Fica até ruim usá-las em uma trilha sonora com versões ao vivo tão boas e consagradas como essas. Isso também aconteceu com O Rappa, quando regravaram “Brixton, Bronx ou Baixada” e “Pescador de Ilusões” no DVD ao vivo. Tais versões dessas músicas são infinitamente melhores que as que estão nos discos O Rappa de 1994 e Rappa Mundi de 1996, respectivamente. Depois de lançadas eu nunca mais ouvi tocar as versões originais por onde quer que eu vá.

Enfim, chega de rodeios e voltemos às Vespas Mandarinas. Eles lançaram seu primeiro registro ao vivo chamado Animal Nacional Ao Vivo e eu fiquei indignado que tenham feito isso com apenas um álbum lançado, o Animal Nacional de 2013. Foi quando eu lembrei que antes do primeiro álbum eles já haviam lançado dois EPs (Da Doo Ron Ron de 2011 e Sasha Grey de 2012) e com isso possuíam músicas suficientes para um show de registro em DVD.

Pausa para eu falar mal dos EPs: eu sei que está virando moda aqui no Brasil as bandas lançarem EPs, e até entendo que é mais viável para as que estão começando e as já velhas que querem renovar um pouco o repertório, mesmo não possuindo ainda músicas suficientes para encher um disco. O fato é que sou guloso demais e EPs são muito pequenos para mim. Se com um álbum cheio eu já fico com gostinho de quero mais, com um EP então não dá nem para começar a se divertir.

Depois de lançarem o disco ao vivo, as Vespas Mandarinas soltaram um vídeo chamado O Ovo Enjaulado, um sinal que indica o lançamento de um álbum novo, embora eu possa estar enganado. Enquanto eles não abrem o jogo para nós, vamos ouvindo o disco ao vivo que, mesmo eu não apoiando, ficou foda e ainda conta com a participação de Edgard Scandurra.