leite de coco é melhor que coca-cola

“Vende-se em segunda mão, e por preço módico, uma consciência quase nova, em perfeito estado de conservação. Por um excesso de escrúpulo, declaramos que ela já foi usada, mas devemos acrescentar que o primitivo dono se serviu dela poucas vezes, podendo assim ser utilizada sem receio por qualquer cidadão.” (Graciliano Ramos)

Este “anúncio” de Graciliano Ramos foi publicado em 27 de fevereiro de 1921, em sua coluna Factos e Fitas do jornal O Índio. Ao ler tal texto em 2017 pela primeira vez, quase cem anos depois de publicado, não pude deixar de pensar em todas as vezes em que ouvi alguém dizer uma variação da frase “gosto de ver filmes para desopilar; quando vou ao cinema, deixo a cabeça em casa”.

“Tem Hollywood o objetivo de atingir o coração do grande público e lhe conquistar simpatia e preferência. Partindo do pressuposto de que o homem de classe média quando entra no cinema procura uma fuga e não espelho da realidade, os produtores capricham nos clichês de entorpecimento e retiram o público do social para o alienante fantástico. A usina de sonhos produz esperança infantil e insufla a consciência de guerra. Há subestimação da solidariedade humana e simpatia exagerada pela moral ensinada. O cinema deixa sua função cultural e assume o papel deseducador. O público elegeu seus “Heróis” e não cede lugar ao aparecimento de outros”. (Glauber Rocha em ‘O Século do Cinema’)

No que convencionei chamar de Trilogia Glauberiana (os livros ‘Revisão Crítica do Cinema Brasileiro’, ‘Revolução do Cinema Novo’ e ‘O Século do Cinema’), Glauber Rocha ataca cirurgicamente o sedentarismo mental das plateias. No início de ‘Revolução do Cinema Novo’, o cineasta faz uso de um texto do ator Miguel Torres, falecido em 1962, aos 36 anos: “Estamos atravessando uma das fases mais graves da história da humanidade e nosso cinema tem que ser sério e grave. Chegou o momento de fechar o circo cinematográfico e fazer conferências maçantes contra a vontade da plateia. Enquanto não realizarmos filmes que violentem o comodismo dessa plateia intoxicada de convicções erradas, não estaremos igualados ao nosso presente”. Torres era um dos argumentistas do Cinema Novo, mas morreu antes de realizar o sonho de dirigir seu próprio filme. Esse e outros textos citados por Glauber, indicando autoria de Miguel Torres, não foram localizados, o que não me deixaria surpreso se descobrisse que foram escritos pelo próprio cineasta que assina o livro. De toda forma, esse é principal mote: atacar o sedentarismo mental das plateias. Como realizar esse ataque? A forma encontrada pelo Cinema Novo foi a violência:

“Nós compreendemos esta fome que o europeu e o brasileiro na maioria não entende. Para o europeu é um estranho surrealismo tropical. Para o brasileiro é uma vergonha nacional. Ele não come mas tem vergonha de dizer isto; e, sobretudo, não sabe de onde vem esta fome. Sabemos nós – que fizemos estes filmes feios e tristes, estes filmes gritados e desesperados onde nem sempre a razão falou mais alto – que a fome não será curada pelos planejamentos de gabinete e que os remendos do tecnicolor não escondem mas agravam seus tumores. Assim, somente uma cultura da fome, minando suas próprias estruturas, pode superar-se qualitativamente: e a mais nobre manifestação cultural da fome é a violência. […] A mendicância, tradição que se implantou com a redentora piedade colonialista, tem sido uma das causadoras de mistificação política e da ufanista mentira cultural: os relatórios oficiais da fome pedem dinheiro aos países colonialistas com o fito de construir escolas sem criar professores, de construir casas sem dar trabalho, de ensinar o ofício sem ensinar o analfabeto. A diplomacia pede, os economistas pedem, a política pede; o cinema novo, no campo internacional, nada pediu: impôs-se a violência de suas imagens e sons em 22 festivais internacionais”. (Glauber Rocha em ‘Revolução do Cinema Novo’)

Como maior aliado teórico desse movimento, Glauber defende a violência como a mais nobre manifestação cultural da fome, e aponta a fome como vergonha nacional: “Ele [o povo brasileiro] não come mas tem vergonha de dizer isto”. Esse trecho fez-me refletir sobre alguns filmes recentes da nossa cinematografia: ‘Cidade de Deus’ (2002), ‘Tropa de Elite’ (2007) e ‘Que Horas Ela Volta?’ (2015). No caso dos filmes de Fernando Meirelles e José Padilha, ambos com grande repercussão internacional, a rejeição por uma parte do público brasileiro se pautava na mesma justificativa: mancham a imagem do Brasil no exterior. De forma velada, o mesmo aconteceu com o filme de Anna Muylaert. Um texto de Nina Lemos chamado ‘Assistir Que Horas Ela Volta na Europa’ publicado na Revista Trip no ano de lançamento do longa-metragem e intensamente compartilhado nas redes sociais, relatava a vergonha da autora em assistir ao filme ao lado de uma plateia europeia.

“Não há quem, neste mundo de hoje dominado pela técnica, não tenha sido influenciado pelo cinema. Mesmo que nunca tenha ido ao cinema em toda vida, o homem recebe influências do cinema: as culturas mais nacionais não resistiriam a uma certa forma de comportamento, a uma certa noção de beleza, a um certo moralismo e, sobretudo, ao estímulo fantástico que o cinema faz à imaginação. Os reflexos se fazem a curto e longo prazo e a sedimentação de uma cultura cinematográfica é fato profundo na vida contemporânea. Não se pode porém falar de cinema sem se falar em cinema americano. Esta noção de cinema com cinema americano é praticamente a mesma coisa: essa influência do cinema é pois uma influência do cinema americano, como forma mais agressiva e difundida da cultura americana sobre o mundo. Esta influência atingiu inclusive o próprio público americano de tal forma que o público, condicionado, passou a exigir do cinema uma imagem à sua própria semelhança. Monstro produtor de ilusões e devorador de alienações, o cinema americano não pôde deixar de gerar similares que logo sentiram a necessidade de devorar o pai para sobreviver”. (Glauber Rocha em ‘Revolução do Cinema Novo’)

Fortemente influenciado pelo cinema americano, uma parte do público brasileiro rejeita os filmes nacionais. Sabemos que existem favelas no Brasil, mas sentimos vergonha de vê-las expostas na tela. Sabemos que existe corrupção na polícia, mas não queremos que os estrangeiros saibam disso. Conhecemos bem, seja de um lado ou de outro, a relação da classe A e B com suas empregadas domésticas, mas ficamos constrangidos se um filme que aborda o assunto é exibido fora do país.

“Muito mais próximos econômica e culturalmente dos Estados Unidos do que da Europa, os nossos espectadores têm uma imagem da vida através do cinema americano. Quando um cidadão brasileiro pensa em fazer seu filme, ele pensa em fazer um filme “à americana”. E é por isto que o espectador brasileiro de um filme brasileiro exige, em primeira instância, um filme “brasileiro à americana”. Se o filme, por ser nacional não é americano, decepciona. O espectador condicionado impõe uma ditadura artística a priori ao filme nacional: não aceita a imagem do Brasil vista por cineastas brasileiros porque ela não corresponde a um mundo tecnicamente desenvolvido e moralmente ideal como se vê nos filmes de Hollywood. Assim, não é mistério quando um filme brasileiro faz sucesso popular: todos os filmes brasileiros que fazem sucesso são aqueles que, mesmo abordando temas nacionais, o fazem utilizando uma técnica e uma arte imitadas do americano”. (Glauber Rocha em ‘Revolução do Cinema Novo’)

Quando alguém elogia um filme nacional dizendo que ele “nem parece brasileiro”, é porque ele de fato, não é brasileiro. Está completamente desprovido de personalidade, de identidade. É uma simples cópia. Atualmente, os filmes brasileiros que alcançam sucesso nacional ou internacional continuam sendo os que de um modo ou de outro imitam as técnicas do cinema americano. O que justifica a teoria de Glauber de que “o público, condicionado pela ideologia de Hollywood, é igual em todas as partes do mundo”. Então, como construir uma cultura nacional?

“O cinema é uma indústria geradora de cultura. Se o cinema americano gerou um tipo de gosto e se o cinema brasileiro, para se desenvolver, precisa seguir o caminho mais fácil, que é utilizar as formas americanas, o cinema industrial brasileiro será apenas um gerador em maior potência da cultura de dominação. Esta cultura, inclusive, poderia ser francesa, russa ou belga: não importa. Num país subdesenvolvido é fundamental que a sociedade adquira um comportamento nascido das condições de sua estrutura econômica. O primeiro desafio ao cineasta brasileiro é este: como conquistar o público sem usar as formas americanas, hoje já diluídas em outras subformas europeias? Este impasse, que reflete a noção moderna das civilizações subdesenvolvidas tropicais, tem uma repercussão moral dupla e diversa: sobre o cineasta que “produz a imitação”, e sobre o público que “recusa a original””. (Glauber Rocha em ‘Revoluções do Cinema Novo’)

A única saída para a indústria nacional é tomar consciência de nossas tradições. É preciso modernizar-se através do passado, ou seja, olhar para nossas raízes, como Mário de Andrade fez em ‘Macunaíma’, livro que causou dificuldade de apreensão desde sua primeira edição em 1928. No livro, o autor paulista resgata vários mitos indígenas, além de lendas e provérbios do folclore brasileiro. Como uma obra tão enraizadamente nacional pode ainda nos soar estranha, mesmo 89 anos depois? No final do livro [pule para o parágrafo seguinte se não quiser ler revelações do enredo], o protagonista Macunaíma, herói de nossa gente, se aborrece de tudo e vira uma estrela, passando a viver solitário do brilho inútil das estrelas no céu. Isso é muito simbólico.

“O público não quer saber de nada disto, ele vai ao cinema para se divertir mas encontra na tela um filme nacional que exige dele um esforço anormal para estabelecer um diálogo com um cineasta que faz, de sua parte, um esforço anormal para falar com o público… em outra linguagem! Sobre esta “linguagem” as discussões são prolixas e reveladoras. O cinema novo, recusando o cinema de imitação e escolhendo uma outra linguagem, recusou também o caminho mais fácil desta “outra linguagem”. Esta outra linguagem, típica das chamadas artes nacionalistas, é o “populismo”. É reflexo de uma atitude política muito nossa. Como o caudilho, o artista se sente pai do povo: a palavra de ordem é “vamos falar coisas simples que o povo entenda”. Considero um desrespeito ao público, por mais subdesenvolvido que ele seja, “fazer coisas simples para um povo simples”. Em primeiro lugar o povo não é simples. Doente, faminto e analfabeto, o povo é complexo. O artista/paternalista idealiza os tipos populares, sujeitos fabulosos que mesmo na miséria têm sua filosofia e, coitados, precisam apenas de um pouco de “consciência política” para, de uma aurora para outra, inverter o processo histórico.” (Glauber Rocha em ‘Revolução do Cinema Novo’)

Em ‘Macunaíma’, podemos constatar um esforço anormal por parte de alguns leitores para estabelecer um diálogo com Mário de Andrade que, por sua parte, fez um esforço anormal (ou não) para nos falar em outra linguagem, a brasileira, que deveria também ser a nossa. Possuímos uma cultura rica e esquecemos isso, tão submissos somos ao que vem de fora. No entanto, mesmo importada, se a obra não apresentar uma cópia da linguagem vigente, essa criação também será rejeitada. O sedentarismo mental da plateia dificulta o diálogo entre público e arte/artista. Para Glauber, o público se recusa a seguir o filme mas quer que o filme siga suas ideias.

“A colonização econômica de nosso cinema gera a colonização cultural do nosso povo. O povo brasileiro é inconscientemente deformado pela visão moral e artística do cinema americano e por isto inconscientemente venera e respeita os Estados Unidos. O fenômeno é igual na América Latina. Hollywood, impondo sua civilização através do cinema, debilita psicologicamente o povo e consolida sua penetração. Se alguém achar que estou mentindo é só fazer uma pesquisa. A colonização do povo pelo cinema hollywoodiano atinge as classes médias e proletária. A burguesia é colonizada “esteticamente” pelo cinema euro-americano. Inconscientemente, duas a três gerações de intelectuais brasileiros foram colonizadas pelo cinema euro-americano. Formou-se uma linguagem. Modelos. Chavões. Clichês. A colonização é um vírus tão forte que contamina até mesmo os espíritos mais nacionalistas. Esta burguesia colonizada produziu um grupo de críticos e cineastas que há muitos anos colabora direta ou indiretamente para a permanência do cinema euro-americano no Brasil e consequentemente sabota o desenvolvimento do cinema nacional. […] Este grupo, colonizado, frustrado, desesperado raciocina abstratamente sobre cinema nacional. Ninguém ousa discutir as estruturas econômicas do cinema nacional. Discutem apenas a estética do cinema nacional. A colonização gerou neles o complexo de que “cineasta brasileiro não sabe fazer filme”. Escreveram isto nos jornais. Excitaram o público e os intelectuais contra o cinema nacional. Botaram a esquerda e a direita contra o cinema nacional. O cineasta brasileiro é uma vítima solitária. Ninguém perdoa a ele o ato de ousar fazer um filme no Brasil. É isto exatamente o que desejam: desmoralizar o cinema brasileiro a fim de que não se crie indústria nacional e o mercado econômico e moral de um povo fique nas mãos dos americanos”. (Glauber Rocha em ‘Revolução do Cinema Novo’)

A inércia mental é tão grave que boa parte do público não consegue assimilar obras com linguagens originais. Fenômeno esse que passei a chamar de Disfagia Cultural. Disfagia é o nome dado à dificuldade para deglutir alimentos, secreções, líquidos ou saliva, desde o seu trajeto inicial na boca até sua transição do esôfago para o estômago. Apesar de não ser uma doença, a disfagia pode trazer prejuízos às condições pulmonares e nutricionais, como desnutrição e desidratação. Por sua vez, a Disfagia Cultural seria a dificuldade de consumir e assimilar obras de arte originais. Condicionado, o público recusa o novo. Desta forma, a arte nacional é estrangeira dentro do próprio país. O mercado audiovisual brasileiro produz mais de 120 filmes longa-metragem por ano, o que dá uma média de um filme brasileiro novo a cada 3 dias. No entanto, esses mesmos filmes representam, segundo dados da ANCINE, apenas 15% do conteúdo consumido pelo público.

“Com a consciência de classe. É necessário que os camponeses pobres se organizem para trabalhar a terra e vender seus produtos no mercado. As pessoas preferem os potes de conservas importados; ninguém tem a coragem de dizer-lhes que o leite de coco é melhor do que a coca-cola”. (Glauber Rocha em ‘Revolução do Cinema Novo’)

Em seu livro ‘O Baú do Raul’, nosso saudoso Raul Seixas diz que “o brasileiro não faz História; ele é um espectador da História”. Como discordar disso quando colocados diante dos números da ANCINE? Consumindo apenas conteúdo estrangeiro, deixamos de ser protagonistas de nossa própria história. Somos coadjuvantes em nosso próprio país. Em ‘Brejo das Almas’, de 1934, Carlos Drummond de Andrade incluiu um poema chamado ‘Hino Nacional’, em que dizia que precisamos descobrir o Brasil:

Precisamos descobrir o Brasil!
Escondido atrás das florestas,
com a água dos rios no meio,
o Brasil está dormindo, coitado.
Precisamos colonizar o Brasil.
[…]
Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!
Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,
ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.
O Brasil não nos quer! Está farto de nós!
Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?

Precisamos urgentemente descobrir o Brasil. Não é questão de patriotismo e sim de sobrevivência. Vivemos sufocados por culturas que não são nossas enquanto a cultura brasileira morre. Estamos perdendo nossa identidade. Estamos riscando o Brasil do mapa. Um povo camuflado de culturas que não a sua deixa de existir para reproduzir em maior escala a cultura dominante. Estamos nos rebelando contra nossa própria cultura, estamos destruindo-a, eliminando-a.

“É função do artista violentar – o artista é sempre a esquerda eterna, lógico ou anárquico – o artista só começa a se negar quando adere à ordem estabelecida, quando deixa de exercer seu poder crítico sobre o mundo, sobre o Estado, sobre o conformismo burguês, sobre o gosto fácil. O artista é um ser em oposição – se ele vive no fascismo é antifascista, se vive no Brasil subdesenvolvido e faminto ou na África do Norte colonizada é um revolucionário, usando cabeça e coração para defender e libertar o homem do totalitarismo”. (Glauber Rocha em ‘O Século do Cinema’)

Glauber questionava: dar ao público o que o público quer será uma forma de conquista ou de aproveitamento do condicionamento cultural do público? Mostrar o que o público não conhece não seria então o verdadeiro caminho pela conquista desse público? Afinal, não é função do artista provocar?

Arte no Brasil (ou em qualquer país do Terceiro Mundo) tem sentido, sim senhor! Pobre do país subdesenvolvido que não tiver uma arte forte e loucamente nacional porque, sem sua arte, ele está mais fraco (para ser colonizado na cuca) e essa é a extensão mais perigosa da colonização econômica. É PRECISO CONTINUAR A FAZER CINEMA NO BRASIL. (Glauber Rocha em ‘O Século do Cinema’)

As pessoas podem até preferirem beber coca-cola, e podem até dizer que ela ou outra bebida qualquer são melhores que o leite de coco. Embora talvez pareça, essa não é uma questão de gosto. Outras bebidas podem até ser melhores, e concordo que a coca-cola é a mais poderosa delas, sendo até onipresente. É mesmo muito difícil competir. No entanto, o leite de coco é o melhor para o Brasil, e para a cultura brasileira. Sendo, desta forma, também o melhor para os artistas brasileiros e brasileiras que lutam pelo direito de existir.

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programado para morrer

Um amigo, que sempre consertou meus computadores, costumava dizer que preferia máquinas a pessoas. Para ele, a convivência com a tecnologia era muito mais fácil, pois quando uma máquina apresenta um defeito, é só consertá-la. Já o ser humano, além de não ter cura para todos os seus males, exige mais complexidade no tocante à convivência. Quando uma amizade ou um relacionamento amoroso, por exemplo, apresenta um desgaste ou um conflito, não podemos simplesmente formatar e começar tudo de novo. Fazer as pazes e entrar em um acordo é muito mais difícil.

Nunca concordei com esse meu amigo. Não que eu seja o ser mais sociável do mundo, muito pelo contrário, mas sempre tive problemas com certas tecnologias. Isso não significa que eu não saiba utilizar as máquinas, e sim que tenho muita dificuldade em aceitar que elas saiam intencionalmente de suas fábricas com uma data de validade para deixar de funcionar, apenas para aumentar o consumo.

Vez ou outra, eu me pergunto quando vamos gritar e nos rebelar contra a obsolescência programada. Cada vez mais empresas produzem propositalmente produtos que se tornam obsoletos ou não-funcionais em um curto período de tempo para que possamos comprar a nova geração do mesmo produto. É natural que um objeto se desgaste com o passar do tempo e pare de funcionar, mas é inaceitável que os fabricantes planejem esse envelhecimento. Acabamos por consumir mercadorias que duram menos do que a tecnologia permite.

A obsolescência programada pode ser notada com maior frequência na área tecnológica. O sistema operacional dos computadores estão se desgastando cada vez mais rápido, as baterias e carregadores de computador duram cada vez menos e o cabo dos carregadores de celular são mais frágeis do que deveriam. Qual a razão para uma marca de celulares de última geração fabricar carregadores tão vagabundos se não para nos obrigar a comprar outro aparelho? Os fones de ouvido são outros que também quebram com facilidade. Ao mesmo tempo em que essas mercadorias são planejadas para durar cada vez menos, o preço para a manutenção desses equipamentos se torna cada vez mais alto, induzido os consumidores a adquirir um produto novo.

Os fabricantes tentam se justificar apontando para o avanço da tecnologia. Por essa razão, segundo eles, estão sempre criando novos modelos. Que avanço é esse? Como pode haver tantos progressos em tão pouco tempo? Marcas lançam modelos novos apenas poucos meses após o lançamento do anterior. Antes mesmo de acabar o ano, já é possível comprar versões de carros do ano seguinte. Essa troca regular de produtos só aumenta a produção de lixo e, para piorar, como se não bastasse a humanidade estar consumindo 30% a mais do que o planeta é capaz de repor, o destino de quase 70% dos equipamentos eletrônicos descartados por consumidores de países desenvolvidos são lixões de cidades de países subdesenvolvidos. Os mais pobres, como sempre, continuam pagando a conta.

O consumo permanente tem como finalidade a criação de um consumidor cronicamente insatisfeito. Banhado pelo desejo de comprar sempre o produto mais novo, o da moda, o mais rápido e com a imagem mais moderna, o consumidor cansa cada vez mais rápido do produto que já usufruiu. Esse fenômeno é chamado por muitos de “obsolescência percebida”, e ocorre quando, antes mesmo de apresentar defeito, o consumidor considera o produto que tem em casa como velho diante de todos os novos modelos lançados a todo instante no mercado.

Os smartphones exigem cada vez mais atualizações de seus sistemas operacionais. Atualizações essas que além de não mudarem muita coisa, consomem grande parte da memória que, por sua vez, nos impossibilita de atualizar os aplicativos. Não consigo descrever o quanto isso me irrita. Depois de certo tempo, parei de atualizar o iOS, pois não havia mais memória disponível, a não ser que eu excluísse todos os aplicativos. Em seguida foi a vez dos aplicativos exigirem suas atualizações. Quando não havia mais espaço, fui excluindo os menos usados. Desde o início do ano, o WhatsApp parou de funcionar no meu celular, pois só é possível utilizá-lo em um sistema operacional mais novo. Logo mais será a vez dos demais aplicativos deixarem de funcionar. Eu não queria ter que trocar de celular agora. Não necessito do aparelho mais novo, da moda. Poderia, tranquilamente, passar mais alguns anos com meu aparelho atual, se não estivesse sendo “obrigado” a comprar um novo.

No entanto, tudo isso parece tão natural aos olhos do mundo, que até culturalmente falando podemos encontrar casos de obsolescência programada. É a música feita para tocar só no carnaval, aquele sucesso do verão, os filmes de natal ou os filmes de determinado gênero que fazem sucesso até se tornarem saturados. Atualmente, são os títulos de super-heróis e comédia pastelão. As produtoras vão usar essa fórmula e inundar as salas de cinema com filmes desses gêneros até causar uma overdose no público (vai me dizer que você não consegue enxergar o propósito por trás de tantas sequências das mesmas histórias ou livros de um só volume transformado em séries e mais séries de filmes?). Já no mercado editorial, são os livros de youtubers que estão na moda, o que tem levado muita gente a acreditar que o primeiro passo para se tornar um(a) escritor(a) é criar um canal no YouTube. Calma! Isso é só uma fase – alguém ainda se lembra dos livros de colorir? -, logo essa onda passa e não teremos que ver dezenas de biografias de adolescentes nas prateleiras das livrarias (pelo menos espero).

Contudo, sentei para escrever porque queria dissertar justamente sobre essa obsolescência cultural programada, mas está cada vez mais recorrente em meus textos desejar escrever sobre algo e acabar falando sobre outro assunto. Tal qual um pai que deseja uma profissão para um filho e o rebento acaba seguindo outra. Como eu não segui a profissão que meus pais desejavam para mim, deixo o texto livre para ele ser o que quiser. De toda forma, os dois assuntos entram no mesmo pacote: tudo está ficando cada vez mais descartável. Em consequência disso, sigo não confiando nas máquinas, ou seria em seus fabricantes? E você, antes de substituir qualquer objeto, se pergunta antes se realmente precisa de outro?