gentileza gera gentileza

Falta pouco para amanhecer. Depois de uma noite inteira tentando dormir, o sono finalmente chega. Estou quase adormecendo quando mudo de posição para me aconchegar melhor. Como resultado do movimento, afugento o sono. Desisto de rolar na cama e levanto. Ouço música, faço anotações em agendas e tomo um café forte acompanhado de uma tapioca. Começa a chover. Penso no frio. Odeio frio. A chuva para, o sol surge. Ligo a TV. No telejornal local, vejo imagens ao vivo das avenidas mais engarrafadas da cidade. Em pouco mais de uma hora eu estarei dirigindo justamente por uma delas. Começo o dia – quer dizer, continuo o dia anterior, pois não consegui dormir – sabendo que enfrentarei o quarto trânsito mais congestionado do Brasil, segundo um estudo divulgado nessa mesma manhã no mesmo telejornal local. Desligo a TV quando notícias ruins começam a ser transmitidas. Considero-me um sujeito atualizado, mas tenho visto tanto negativismo na mídia que estou começando a achar que o melhor para minha saúde mental é me manter desinformado. Tenho medo de que essa overdose de desgraças faça com que eu perca minha sensibilidade diante do absurdo. Não consigo ver tantas notícias ruins sem me sentir revoltado, impotente e deprimido. Mesmo assim, não quero me acostumar a ver tudo isso e fingir que nada está acontecendo. Consciente de que bombardeios diários de informações desagradáveis podem destruir minha empatia, decido por me afastar dos noticiários por um tempo. Miro meu reflexo no espelho: olheiras. Tomo um banho gelado para afastar o cansaço que começa a se avizinhar do meu corpo insone. Antes de sair, mais uma xícara de café. Na mochila vai o livro ‘Garranchos’, uma coletânea de textos de Graciliano Ramos. Minha manhã acaba sendo mais agitada do que eu esperava que fosse. Não consegui ler nenhum texto do livro. Na volta, o trânsito está bem mais congestionado do que de manhã cedinho. É quase meio-dia, horário de pico. Sigo em uma pista de sentido único. Estou do lado e direito e preciso mudar para a faixa da esquerda. O sinal fecha, os carros param. O sinal abre. Sinalizo para o carro ao lado que vou mudar de faixa. Ele me dá passagem. Quando acelero, o motorista que me deu passagem acelera também. Os carros se chocam. Merda! Que merda! Apesar disso, tenho a sensação de que a batida não foi tão forte assim e de que, no máximo, o carro sofreu alguns arranhões. “Ainda bem que tenho seguro”, penso. O motorista do carro que bateu em mim estaciona um pouco a frente. Não quero confusão. Confesso que desejei intimamente que ele não tivesse parado. Estaciono meu carro no acostamento. Do outro veículo desce um senhor de aparentemente cinquenta anos de idade vestindo calça, camisa e sapatos sociais. Minha roupa é o oposto: uma calça jeans preta e uma camisa do Sepultura, também preta. Saiu do seu carro tão rápido que eu mal havia estacionado e ele já estava batendo na minha janela pedindo para baixar o vidro. No seu rosto, um semblante fechado. Baixo o vidro e ele pergunta: “meu carro bateu em você?” Respondo que sim. O tom de sua voz é calmo e prestativo. Fico mais tranquilo. Desço do carro e finalmente vejo a lateral do veículo dele totalmente amaçada e destruída. Ele se apressa em explicar: “isso foi uma batida com um motoqueiro”. Menos mal. Ele também se apressa em dizer que vai pagar o prejuízo, mas quando olho para a lateral do meu carro atingida pelo veículo dele, não vejo nenhum arranhão ou amassado. Absolutamente nada fora do normal. Não, não foi um milagre. Logo diagnosticamos que o carro dele havia batido no pneu do meu. Ao também se dar conta de que não houve nada, o senhor me explica que parou porque é “um cidadão direito”. Agradeço o seu gesto e nos cumprimentamos com um aperto de mão. Sorrio. Ele sorri de volta. Entramos em nossos respectivos veículos e partimos. Nada de anormal no restante do caminho de volta para casa. Tocava uma música no som quando ocorreu a colisão, mas já não consigo recordar qual era. Mesmo depois de tomar banho e almoçar, não deixo de pensar na batida. Mais especificamente na gentileza do senhor. Presencio tantas brigas no trânsito. Motoristas nervosos e impacientes. Xingamentos, buzinas. Definitivamente não é um ambiente saudável. No entanto, esse senhor e eu éramos duas pessoas dispostas a não brigar. De quem foi a culpa? Não interessa. Ninguém se acusou de nada. Meu dia tinha tudo para ser ruim, mas nem foi. Terminou bem. A primeira batida a gente nunca esquece. Lembrarei sempre da minha como uma experiência agradável. O mundo está precisando de mais “cidadãos direitos” (não de direita). As pessoas ainda podem ser pacientes e gentis umas com as outras. Até mesmo no trânsito.

hoje eu acordei com rubem braga

“Hoje eu acordei com sono, sem vontade de acordar. O meu amor foi embora e só deixou pra mim um bilhetinho todo azul com seus garranchos”. Não era bem assim que eu pretendia iniciar esse texto, mas ao escrever “hoje eu acordei”, me veio à mente a letra de ‘Bilhetinho Azul’, do Barão Vermelho, música presente no primeiro álbum da banda lançado em 1982. Escrevi o texto ouvindo esse disco que eu adoro e que não escutava há bastante tempo. Sessão nostalgia.

Não deixa de ser verdade que hoje eu acordei com sono, afinal, eu acordo assim todos os dias. No entanto, ao levantar da cama, lembranças há muito perdidas em um passado distante despertaram também. Recordei do livro ‘200 Crônicas Escolhidas’, do escritor Rubem Braga (1913-1990), livro que ganhei ainda criança. Foi o primeiro título adulto que me lembro de ter lido, pois até então eu só havia consumido literatura infantil. O livro tem o selo de venda proibida do Ministério da Educação na capa. Ganhei-o de um tio que era professor na época – se ele o ganhou ou roubou, eu não sei, só sei que ele me deu e que eu o tenho até hoje. A capa, inclusive, tem o desenho de uma mulher nua lendo e, por isso, eu tinha vergonha de lê-lo na frente das pessoas. Se eu era criança, a minha irmã que é mais nova do que eu, era mais criança ainda, e achava a capa super engraçada.

200 Crônicas Escolhidas

Confesso que nunca entendi essa mulher nua na capa, mas o que interessa é que o li por anos e que foi lendo-o que eu tive vontade de ser escritor. A cada crônica lida, eu pensava que podia fazer igual. Fiquei apaixonado pelos textos, queria ser cronista. O primeiro blogue que tive na vida era dedicado ao gênero. Na época, eu não entendia porque lia e achava que era fácil escrever, mas hoje está claro que a genialidade de Rubem Braga fazia tudo parecer fácil, como os atletas de alto nível, que nos banham com a sensação de que é possível fazer igual. Não é que seja fácil, eles é que são bons demais.

Hoje eu não escrevo mais crônicas (eu acho), mas consigo ver uma influência muito forte do gênero em meus textos. Meu tio, que me deu esse livro, nem imagina que foi ele o responsável por despertar o amor pela leitura em mim. Antes mesmo de me dar esse do Braga, ele já havia me presenteado com vários outros, de gênero infantil. Serei eternamente grato e tratarei de contar isso para ele em breve. É uma pena que Rubem Braga não esteja mais entre nós para que eu possa lhe agradecer por me despertar o amor pela escrita. Nem quando eu li o livro seria possível, pois ele já havia morrido quando eu nasci.

Para escrever o texto, retirei da estante minha edição de ‘200 Crônicas Escolhidas’, que já está amarelada pelo tempo, para folhear. Não me lembro da última vez que fiz isso, tanto é que fiquei surpreso ao ver no sumário que eu havia marcado com um marca-texto amarelo, o título de vinte crônicas. Coisa que eu jamais faria hoje, pois não risco um livro nem que me paguem. Pelo título das crônicas marcadas, não consegui recordar se eram as que eu mais gostava. Isso eu vou descobrir em breve, pois pretendo relê-lo de cabo a rabo. Porém, achei estranho que a crônica que mais me marcou (pois me lembro dela até hoje) não estava sinalizada com marca-texto. Ela se chama ‘Rita’ e ironicamente se encontra na página de número duzentos desta edição – a reproduzi para vocês abaixo. Até a próxima, abraçaço.


RITA

No meio da noite despertei sonhando com minha filha Rita. Eu a via nitidamente, na graça de seus cinco anos.

Seus cabelos castanhos – a fita azul – o nariz reto, correto, os olhos de água, o riso fino, engraçado, brusco…

Depois um instante de seriedade; minha filha Rita encarando a vida sem medo, mas séria, com dignidade.

Rita ouvindo música; vendo campos, mares, montanhas; ouvindo de seu pai o pouco, o nada que ele sabe das coisas, mas pegando dele seu jeito de amar – sério, quieto, devagar.

Eu lhe traria cajus amarelos e vermelhos, seus olhos brilhariam de prazer. Eu lhe ensinaria a palavra cica, e também a amar os bichos tristes, a anta e a pequena cutia; e o córrego; e a nuvem tangida pela viração.

Minha filha Rita em meu sonho me sorria – com pena deste seu pai, que nunca a teve.

Janeiro, 1955