mãos que não escrevem

Sou fascinado por manuscritos. Sempre que vou a alguma exposição ou retrospectiva em homenagem a algum(a) escritor(a), procuro por eles. A última exposição desse gênero que tive a oportunidade de prestigiar foi a Múltiplo Leminski, dedicada ao escritor e poeta curitibano Paulo Leminski (1944-1989). Além dos seus manuscritos, a mostra reuniu mais de mil objetos pessoais, entre fotos, livros, pinturas, textos datilografados, vídeos e filmes. Recentemente, li ‘Menino de Engenho’, de José Lins do Rego (1901-1957). Minha edição, que é de 1992, apresenta o manuscrito da última página do livro ao final do volume. Tal registro vem acompanhado do seguinte texto: […] para decifrar a quase ilegível letra de José Lins, colamos a ‘tradução’ nas linhas respectivas. “Quase ilegível” é elogio, pois salvo uma ou duas palavras, eu não consegui entender nada dos garranchos do escritor paraibano. Apresento abaixo uma foto que fiz da página com o manuscrito, mas aconselho quem ainda não leu que não veja com atenção, pois contém revelações de enredo.

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Após o término da leitura, fiquei pensativo. A maioria dos escritores contemporâneos não deve escrever mais à mão, preferindo digitar em seus computadores. Aposto que muitos autores só utilizam a caneta em sessões de autógrafo – que um dia ainda hão de ser totalmente substituídas por sessões de selfies. Suponho que, daqui a algumas décadas, quando organizarem mostras em homenagem a eles, não haja nenhum manuscrito. Os exemplares das primeiras edições impressas de seus livros talvez se tornem os documentos mais valiosos dos futuros escritores. Não os condeno, pois eu mesmo não escrevo mais à mão. É muito mais prático digitar, posso reescrever uma frase na hora que eu quiser, sem ter de apagar o que já foi posto com borracha ou riscar as linhas com caneta ao escrever outra coisa por cima. Ainda posso inserir palavras novas ou até mesmo frases inteiras no texto redigido sem precisar fazer isso na borda da folha. Sem contar o que para mim é a maior vantagem: a rapidez. Passaria horas escrevendo à mão o que digito em alguns minutos. Digitando, consigo acompanhar meu raciocínio, enquanto que à mão, a velocidade da escrita não respeita a do cérebro: acabo deixando de colocar no papel o que estou pensando naquele momento, resultando em um acumulo de ideias que, consequentemente, acarreta o esquecimento de algumas delas, me forçando a pensar novamente o que devo escrever. Com o auxílio do teclado, praticamente consigo digitar o que penso em tempo real.

Sempre fui um militante da escrita eletrônica por entender que quanto menos papel for usado, melhor será para o ecossistema, pois, mesmo que seja oriundo de reflorestamento, o solo e a água não deixam de ser usados. Sei que a geração de energia elétrica afeta o meio ambiente, mas o desmatamento de árvores também é muito nocivo à natureza. A combinação da escrita eletrônica com a utilização de energia sustentável é o ideal. Porém, eu ainda não havia percebido que estamos caminhando para a extinção em massa dos manuscritos. Em um futuro próximo, além da morte desses documentos de grande valor histórico, poderemos assistir até mesmo ao fim do ensino da chamada “escrita à mão”. Tudo ao nosso redor está trabalhando em função disso, até nossas assinaturas em documentos estão ficando cada vez mais raras, já que a biometria digital está sendo implantada em todos os lugares: além dos bancos e das votações eleitorais, eu já havia usado a biometria no colégio (para o controle da entrada e saída dos alunos), na academia e na autoescola. Sem contar que a prova teórica do exame de CNH foi realizada no computador. Não está muito distante o dia em que todos os vestibulares também serão realizados dessa forma, com o aluno recebendo o resultado logo após o término da prova. Para usar carteirinha de estudante também já está sendo preciso fazer a biometria facial. Temo que, muito em breve, todo e qualquer estabelecimento cobrará nossa identificação e, finalmente, cada movimento nosso será monitorado ao bel-prazer do Sistema.

Alguns países do primeiro mundo já estão deixando de ensinar a letra cursiva, cobrando dos alunos apenas o aprendizado da letra de forma e substituindo o velho caderno de caligrafia por tablets e computadores. As crianças aprendem a reconhecer as letras escritas de forma cursiva, mas não são mais ensinadas a reproduzi-las. Nos últimos anos as crianças estão apresentando cada vez mais dificuldade em aprender a escrita de mão, entretanto, com o crescente contato com as novas tecnologias, estima-se que um terço dos bebês usa smartphones e outros aparelhos digitais antes mesmo de aprender a andar e a falar.

No entanto, alguns pais estão preocupados, acreditando que o fim do ensino da letra de mão pode prejudicar seus filhos. A discussão divide especialistas: de um lado estão os que defendem que a escrita é importante para desenvolver a psicomotricidade fina, fundamental para o desenvolvimento psicomotor, pois quanto mais estímulos o cérebro recebe, mais sinapses ele faz, aumentando sua capacidade, e o uso das mãos têm grande influência no desenvolvimento das sinapses; do outro lado, estão aqueles que defendem que, mesmo com o fim do ensino da escrita de mão, as habilidades motoras das crianças continuam sendo exercitadas com o manejo de smartphones, tablets, videogames e computadores. Estes últimos também argumentam que as habilidades motoras podem ser treinadas nas disciplinas de desenho e pintura. Não sou nenhum especialista para conseguir justificar a importância de escrever à mão, mas sei que se cada vez mais países desenvolvidos aderirem ao fim da letra cursiva, logo essa medida também deverá estar sendo implantada nos países emergentes, e aqui, onde mal temos direito à educação, não teremos aulas de desenho e pintura para suprir o desenvolvimento psicomotor das crianças.

Aprendi a ler e a escrever aos seis anos de idade e recordo bem da alegria que senti no dia em que a professora me pediu para escrever a palavra “lago” na lousa e não errei. Sempre elogiaram a beleza da minha letra grande e redonda, mas hoje ela não é mais a mesma. Atualmente estou lendo ‘Revisão Crítica do Cinema Brasileiro’ de Glauber Rocha (1939-1981) e, quando me debruço sobre livros que tratam do cinema, costumo fazer anotações em algum caderno, pois nunca, em hipótese nenhuma, risco um impresso. Havia certo tempo em que eu não lia alguma obra acerca da sétima arte e havia mais tempo ainda em que eu não fazia anotações. Acredito que escrever é como andar de bicicleta: quem aprende, nunca esquece, mas quando não praticamos, sofremos um pouquinho para voltar a dominar o guidão. Quando fui fazer as anotações, senti a caneta correndo rápido demais, foi preciso algumas linhas para me familiarizar novamente com aquele objeto.

Não recordo de ter tido muita dificuldade em aprender a escrever, pois a professora que me alfabetizou era tão rigorosa que com certeza haveria feito disso um trauma na minha infância. De certa forma, me lembro de uma única ocasião em que fiz um teste de caligrafia e a professora me mandou refazer várias vezes porque minha letra estava feia. Os alunos que terminavam podiam ir para o recreio. Fiquei vendo todos os colegas brincando no pátio e eu ali, preso no teste de caligrafia. Reescrevi tantas vezes que a folha foi ficando cada vez mais fina de tanto apagar com a borracha, até chegar ao ponto de rasgar em algumas partes. Por fim, acabei chorando e as lágrimas borraram tudo ainda mais. Não lembro se consegui ir para o recreio, minha memória só chega até esse ponto da lembrança.

Que benefícios o ensino da letra escrita me trouxe, eu não sou capaz de dizer. Talvez, aos seis anos de idade, adorasse receber a notícia de que não precisaria aprender a escrever, e olha que, no meu tempo, as crianças ainda não possuíam celulares – o meu primeiro aparelho eu só fui ter aos catorze anos. Admito que a escrita cursiva exige muita coordenação motora e que aprender a desenhar as letras é um processo demorado. É como se fossemos alfabetizados duas vezes, aprendendo a ler as letras e depois a reproduzi-las. Todavia, hoje eu optaria por ter aprendido a escrever, e acredito que o ideal seria a junção do ensino da letra de mão com o aprendizado das novas tecnologias. Uma não precisa substituir a outra, embora o já esteja fazendo sem que percebamos. No dia a dia, não necessito mais carregar um bloquinho de notas juntamente com uma caneta (que sempre periga estourar dentro do bolso) ou mandar bilhete para ninguém, pois uso o celular para fazer anotações e os aplicativos de mensagens instantâneas para enviar algum recado.

Com o fim do ensino da escrita cursiva, as crianças só serão capazes de escrever em letras de forma, pois são mais fáceis de reproduzir. Em uma sociedade cada vez mais prática, as pessoas defendem que, se não usam algo, não há porque perder tempo aprendendo. O mais irônico nessa história toda é que as variantes cursivas foram desenvolvidas durante a Idade Média para permitir uma escrita manual mais rápida, pois é possível alcançar uma velocidade de escrita maior quando se usa o método clássico de passar de uma letra a outra sem levantar a caneta do papel.

Reconheço que a tecnologia tem força suficiente para dar fim à escrita de mão, e saber que existe a possibilidade dos meus netos ficarem intrigados ao me verem escrevendo no papel, prática usada há cerca de sete mil anos, é um pouco assustador. Por um longo período, usaram o termo “pré-história” para dividir o tempo em antes e depois da invenção da escrita como registro da realidade. Novas formas de contar a história hão de nascer com o desenvolvimento feroz da informática e talvez um dia também sejamos pré-alguma coisa.

Quando os arqueólogos do futuro (se é que ainda se chamarão assim) ou até mesmo seres de outro planeta em um possível período pós-apocalíptico procurarem vestígios de nossa civilização aqui na Terra, além de fósseis, encontrarão muitos fragmentos de computadores, tablets e smartphones. Haverão também muitos muros grafitados que dirão mais coisas sobre nós do que vosmecê imagina (a arte do grafite é uma espécie de pintura rupestre moderna). Talvez ainda encontrem restos de manuscritos, que poderão ser os vestígios mais preciosos da nossa civilização, pois a letra de alguém diz muito sobre sua personalidade, o que ainda não é possível estudar através da digitação.

o pior texto de todos os tempos da última semana

Não sou de viver de passado e raramente tenho momentos de nostalgia. Estou sempre pensando no futuro. Não gosto muito de ver minhas fotos antigas, de ouvir músicas que marcaram minha infância e filmes principalmente. Hoje em dia, se assisto a um que eu gostava muito quando criança, acabo dissecando-o através do ponto de vista do profissional de cinema (não tenho como evitar) e acabo achando tudo uma porcaria. Prefiro então não revê-los para manter em mim a magia e continuar gostando deles.

Os mais velhos costumam dizer que gostariam de voltar a ser criança para não ter que enfrentar as dificuldades da vida adulta. Ainda não cheguei nesse estágio de querer regressar ao passado e, embora comece a ter cada vez mais dificuldades para enfrentar o futuro, me conforta saber que agora posso lutar para realizar meus objetivos. Passei minha infância e adolescência inteira querendo me tornar adulto e agora que sou um não vou querer deixar de ser só porque estou no nível mais difícil e cada vez mais próximo de enfrentar o chefão. Se os outros conseguem eu consigo também. Para o bem ou para o mal, esse é o pensamento que me motiva sempre que acho que sou incapaz de realizar algo.

No entanto, sendo bem sincero com o Leitor, não era sobre isso que eu queria falar. Os dois parágrafos anteriores nasceram de intrometidos que são. Eu havia iniciado três textos. Não gostei do primeiro e arquivei. Iniciei um segundo sobre outro assunto. Também não gostei e guardei. Iniciei um terceiro e mais uma vez não gostei e arquivado está. Meu cemitério (ou coleção) de textos inacabados cresce a cada dia. Tenho que confessar que, quando não tenho nenhuma ideia nova, corro até eles e vejo se é possível ressuscitar algum. Já aconteceu isso neste blogue, então não choremos a perda desses três textos. Quem sabe eles apareçam aí em um futuro próximo.

Acontece, caríssimos, que sou um escritor de baixa performance (ou baixo rendimento se preferirem). Gosto desse “compromisso” de ter que escrever todas as segundas. Se não fosse assim, diferentemente das outras coisas que faço, escrever se tornaria um exercício procrastinatório. Foi então que, diante de três tentativas de escrever algo para hoje, eu acabei desistindo, mas enquanto fazia outras coisas, continuei pensando na fracassada tentativa de escrever algo interessante.

Quem sabe então escrever um texto especial de dia das crianças? Seria uma boa. Foi então que aos quarenta e cinco do segundo do tempo vim escrever esse post de hoje. Do que falar exatamente se eu nem gosto muito de ficar lembrando o passado? Acho que foi por isso que os dois primeiros parágrafos nasceram. Comecei a pensar em algo que eu sinta falta de quando era criança. Todo mundo deve sentir falta de algo, até eu. Mas o que? A única certeza que eu tenho é de que esse será um dos piores textos do blogue. Mas isso me conforta também. Algum precisa ser “menos melhor” para que os outros sejam, de fato, melhores. No somatório geral, esse será um post que ajudará no equilíbrio. E foi assim que eu comecei esse texto que falaria sobre como era tão fácil ser criança e perguntar para outra: quer ser meu amigo? Falaria.

meus superpoderes

Recentemente estava pensando em um filme que vi já faz certo tempo e que por coincidência passou na TV pouquíssimos dias depois. O filme passou na programação da madrugada e nem cheguei a assisti-lo novamente, apenas vi quando trocava de canal. Acontece que esse fato me fez lembrar de quando eu era criança e achava que tinha o poder de prever/escolher qual filme passaria na TV.

Quem nunca teve vontade de ter algum tipo de poder? Eu já quis ter vários. Já desejei, inclusive, ser imortal. Mas desisti da ideia por ter de ver todas as pessoas que amo morrerem. Depois eu teria que encontrar mais pessoas para amar e elas morreriam também. Com o passar do tempo eu teria me despedido de tantos amores que não suportaria a overdose de saudade.

Também já desejei ler mente, mas hoje vejo que com certeza seria um poder terrível para qualquer um, sobretudo para mim. Classifico as pessoas em quatro categorias: a que você conhece e gosta logo de cara e com o passar do tempo você continua gostando; a que você conhece e gosta logo de cara, mas que conforme vai conhecendo melhor deixa de gostar; a que você conhece e logo de cara não gosta, mas que com o passar do tempo aprende a gostar; e a que você conhece e logo de cara não gosta e não vai gostar nunca por mais tempo que passe. Eu me classifico entre essas duas últimas. Ninguém gosta de mim logo de cara. Claro que existem suas exceções, mas a maioria dos meus amigos me detestou antes de me amar. Imagina só se eu pudesse ler o pensamento dessas pessoas? Do jeito que (infelizmente) sou rancoroso, eu jamais daria oportunidade para elas me conhecerem melhor e ambos perderíamos um amigo.

Contudo, superpoderes não existem e não gosto de perder meu tempo imaginando como seria algo que nunca vai acontecer. Se bem que do jeito que a programação da televisão brasileira vai de mal a pior, eu bem que gostaria mesmo de ter o poder que “tinha” quando criança, onde eu pensava em um filme e dias depois ele passava na TV. Era bem mais divertido esse tempo em que eu ainda não sabia o significado da palavra coincidência.