programado para morrer

Um amigo, que sempre consertou meus computadores, costumava dizer que preferia máquinas a pessoas. Para ele, a convivência com a tecnologia era muito mais fácil, pois quando uma máquina apresenta um defeito, é só consertá-la. Já o ser humano, além de não ter cura para todos os seus males, exige mais complexidade no tocante à convivência. Quando uma amizade ou um relacionamento amoroso, por exemplo, apresenta um desgaste ou um conflito, não podemos simplesmente formatar e começar tudo de novo. Fazer as pazes e entrar em um acordo é muito mais difícil.

Nunca concordei com esse meu amigo. Não que eu seja o ser mais sociável do mundo, muito pelo contrário, mas sempre tive problemas com certas tecnologias. Isso não significa que eu não saiba utilizar as máquinas, e sim que tenho muita dificuldade em aceitar que elas saiam intencionalmente de suas fábricas com uma data de validade para deixar de funcionar, apenas para aumentar o consumo.

Vez ou outra, eu me pergunto quando vamos gritar e nos rebelar contra a obsolescência programada. Cada vez mais empresas produzem propositalmente produtos que se tornam obsoletos ou não-funcionais em um curto período de tempo para que possamos comprar a nova geração do mesmo produto. É natural que um objeto se desgaste com o passar do tempo e pare de funcionar, mas é inaceitável que os fabricantes planejem esse envelhecimento. Acabamos por consumir mercadorias que duram menos do que a tecnologia permite.

A obsolescência programada pode ser notada com maior frequência na área tecnológica. O sistema operacional dos computadores estão se desgastando cada vez mais rápido, as baterias e carregadores de computador duram cada vez menos e o cabo dos carregadores de celular são mais frágeis do que deveriam. Qual a razão para uma marca de celulares de última geração fabricar carregadores tão vagabundos se não para nos obrigar a comprar outro aparelho? Os fones de ouvido são outros que também quebram com facilidade. Ao mesmo tempo em que essas mercadorias são planejadas para durar cada vez menos, o preço para a manutenção desses equipamentos se torna cada vez mais alto, induzido os consumidores a adquirir um produto novo.

Os fabricantes tentam se justificar apontando para o avanço da tecnologia. Por essa razão, segundo eles, estão sempre criando novos modelos. Que avanço é esse? Como pode haver tantos progressos em tão pouco tempo? Marcas lançam modelos novos apenas poucos meses após o lançamento do anterior. Antes mesmo de acabar o ano, já é possível comprar versões de carros do ano seguinte. Essa troca regular de produtos só aumenta a produção de lixo e, para piorar, como se não bastasse a humanidade estar consumindo 30% a mais do que o planeta é capaz de repor, o destino de quase 70% dos equipamentos eletrônicos descartados por consumidores de países desenvolvidos são lixões de cidades de países subdesenvolvidos. Os mais pobres, como sempre, continuam pagando a conta.

O consumo permanente tem como finalidade a criação de um consumidor cronicamente insatisfeito. Banhado pelo desejo de comprar sempre o produto mais novo, o da moda, o mais rápido e com a imagem mais moderna, o consumidor cansa cada vez mais rápido do produto que já usufruiu. Esse fenômeno é chamado por muitos de “obsolescência percebida”, e ocorre quando, antes mesmo de apresentar defeito, o consumidor considera o produto que tem em casa como velho diante de todos os novos modelos lançados a todo instante no mercado.

Os smartphones exigem cada vez mais atualizações de seus sistemas operacionais. Atualizações essas que além de não mudarem muita coisa, consomem grande parte da memória que, por sua vez, nos impossibilita de atualizar os aplicativos. Não consigo descrever o quanto isso me irrita. Depois de certo tempo, parei de atualizar o iOS, pois não havia mais memória disponível, a não ser que eu excluísse todos os aplicativos. Em seguida foi a vez dos aplicativos exigirem suas atualizações. Quando não havia mais espaço, fui excluindo os menos usados. Desde o início do ano, o WhatsApp parou de funcionar no meu celular, pois só é possível utilizá-lo em um sistema operacional mais novo. Logo mais será a vez dos demais aplicativos deixarem de funcionar. Eu não queria ter que trocar de celular agora. Não necessito do aparelho mais novo, da moda. Poderia, tranquilamente, passar mais alguns anos com meu aparelho atual, se não estivesse sendo “obrigado” a comprar um novo.

No entanto, tudo isso parece tão natural aos olhos do mundo, que até culturalmente falando podemos encontrar casos de obsolescência programada. É a música feita para tocar só no carnaval, aquele sucesso do verão, os filmes de natal ou os filmes de determinado gênero que fazem sucesso até se tornarem saturados. Atualmente, são os títulos de super-heróis e comédia pastelão. As produtoras vão usar essa fórmula e inundar as salas de cinema com filmes desses gêneros até causar uma overdose no público (vai me dizer que você não consegue enxergar o propósito por trás de tantas sequências das mesmas histórias ou livros de um só volume transformado em séries e mais séries de filmes?). Já no mercado editorial, são os livros de youtubers que estão na moda, o que tem levado muita gente a acreditar que o primeiro passo para se tornar um(a) escritor(a) é criar um canal no YouTube. Calma! Isso é só uma fase – alguém ainda se lembra dos livros de colorir? -, logo essa onda passa e não teremos que ver dezenas de biografias de adolescentes nas prateleiras das livrarias (pelo menos espero).

Contudo, sentei para escrever porque queria dissertar justamente sobre essa obsolescência cultural programada, mas está cada vez mais recorrente em meus textos desejar escrever sobre algo e acabar falando sobre outro assunto. Tal qual um pai que deseja uma profissão para um filho e o rebento acaba seguindo outra. Como eu não segui a profissão que meus pais desejavam para mim, deixo o texto livre para ele ser o que quiser. De toda forma, os dois assuntos entram no mesmo pacote: tudo está ficando cada vez mais descartável. Em consequência disso, sigo não confiando nas máquinas, ou seria em seus fabricantes? E você, antes de substituir qualquer objeto, se pergunta antes se realmente precisa de outro?

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mãos que não escrevem

Sou fascinado por manuscritos. Sempre que vou a alguma exposição ou retrospectiva em homenagem a algum(a) escritor(a), procuro por eles. A última exposição desse gênero que tive a oportunidade de prestigiar foi a Múltiplo Leminski, dedicada ao escritor e poeta curitibano Paulo Leminski (1944-1989). Além dos seus manuscritos, a mostra reuniu mais de mil objetos pessoais, entre fotos, livros, pinturas, textos datilografados, vídeos e filmes. Recentemente, li ‘Menino de Engenho’, de José Lins do Rego (1901-1957). Minha edição, que é de 1992, apresenta o manuscrito da última página do livro ao final do volume. Tal registro vem acompanhado do seguinte texto: […] para decifrar a quase ilegível letra de José Lins, colamos a ‘tradução’ nas linhas respectivas. “Quase ilegível” é elogio, pois salvo uma ou duas palavras, eu não consegui entender nada dos garranchos do escritor paraibano. Apresento abaixo uma foto que fiz da página com o manuscrito, mas aconselho quem ainda não leu que não veja com atenção, pois contém revelações de enredo.

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Após o término da leitura, fiquei pensativo. A maioria dos escritores contemporâneos não deve escrever mais à mão, preferindo digitar em seus computadores. Aposto que muitos autores só utilizam a caneta em sessões de autógrafo – que um dia ainda hão de ser totalmente substituídas por sessões de selfies. Suponho que, daqui a algumas décadas, quando organizarem mostras em homenagem a eles, não haja nenhum manuscrito. Os exemplares das primeiras edições impressas de seus livros talvez se tornem os documentos mais valiosos dos futuros escritores. Não os condeno, pois eu mesmo não escrevo mais à mão. É muito mais prático digitar, posso reescrever uma frase na hora que eu quiser, sem ter de apagar o que já foi posto com borracha ou riscar as linhas com caneta ao escrever outra coisa por cima. Ainda posso inserir palavras novas ou até mesmo frases inteiras no texto redigido sem precisar fazer isso na borda da folha. Sem contar o que para mim é a maior vantagem: a rapidez. Passaria horas escrevendo à mão o que digito em alguns minutos. Digitando, consigo acompanhar meu raciocínio, enquanto que à mão, a velocidade da escrita não respeita a do cérebro: acabo deixando de colocar no papel o que estou pensando naquele momento, resultando em um acumulo de ideias que, consequentemente, acarreta o esquecimento de algumas delas, me forçando a pensar novamente o que devo escrever. Com o auxílio do teclado, praticamente consigo digitar o que penso em tempo real.

Sempre fui um militante da escrita eletrônica por entender que quanto menos papel for usado, melhor será para o ecossistema, pois, mesmo que seja oriundo de reflorestamento, o solo e a água não deixam de ser usados. Sei que a geração de energia elétrica afeta o meio ambiente, mas o desmatamento de árvores também é muito nocivo à natureza. A combinação da escrita eletrônica com a utilização de energia sustentável é o ideal. Porém, eu ainda não havia percebido que estamos caminhando para a extinção em massa dos manuscritos. Em um futuro próximo, além da morte desses documentos de grande valor histórico, poderemos assistir até mesmo ao fim do ensino da chamada “escrita à mão”. Tudo ao nosso redor está trabalhando em função disso, até nossas assinaturas em documentos estão ficando cada vez mais raras, já que a biometria digital está sendo implantada em todos os lugares: além dos bancos e das votações eleitorais, eu já havia usado a biometria no colégio (para o controle da entrada e saída dos alunos), na academia e na autoescola. Sem contar que a prova teórica do exame de CNH foi realizada no computador. Não está muito distante o dia em que todos os vestibulares também serão realizados dessa forma, com o aluno recebendo o resultado logo após o término da prova. Para usar carteirinha de estudante também já está sendo preciso fazer a biometria facial. Temo que, muito em breve, todo e qualquer estabelecimento cobrará nossa identificação e, finalmente, cada movimento nosso será monitorado ao bel-prazer do Sistema.

Alguns países do primeiro mundo já estão deixando de ensinar a letra cursiva, cobrando dos alunos apenas o aprendizado da letra de forma e substituindo o velho caderno de caligrafia por tablets e computadores. As crianças aprendem a reconhecer as letras escritas de forma cursiva, mas não são mais ensinadas a reproduzi-las. Nos últimos anos as crianças estão apresentando cada vez mais dificuldade em aprender a escrita de mão, entretanto, com o crescente contato com as novas tecnologias, estima-se que um terço dos bebês usa smartphones e outros aparelhos digitais antes mesmo de aprender a andar e a falar.

No entanto, alguns pais estão preocupados, acreditando que o fim do ensino da letra de mão pode prejudicar seus filhos. A discussão divide especialistas: de um lado estão os que defendem que a escrita é importante para desenvolver a psicomotricidade fina, fundamental para o desenvolvimento psicomotor, pois quanto mais estímulos o cérebro recebe, mais sinapses ele faz, aumentando sua capacidade, e o uso das mãos têm grande influência no desenvolvimento das sinapses; do outro lado, estão aqueles que defendem que, mesmo com o fim do ensino da escrita de mão, as habilidades motoras das crianças continuam sendo exercitadas com o manejo de smartphones, tablets, videogames e computadores. Estes últimos também argumentam que as habilidades motoras podem ser treinadas nas disciplinas de desenho e pintura. Não sou nenhum especialista para conseguir justificar a importância de escrever à mão, mas sei que se cada vez mais países desenvolvidos aderirem ao fim da letra cursiva, logo essa medida também deverá estar sendo implantada nos países emergentes, e aqui, onde mal temos direito à educação, não teremos aulas de desenho e pintura para suprir o desenvolvimento psicomotor das crianças.

Aprendi a ler e a escrever aos seis anos de idade e recordo bem da alegria que senti no dia em que a professora me pediu para escrever a palavra “lago” na lousa e não errei. Sempre elogiaram a beleza da minha letra grande e redonda, mas hoje ela não é mais a mesma. Atualmente estou lendo ‘Revisão Crítica do Cinema Brasileiro’ de Glauber Rocha (1939-1981) e, quando me debruço sobre livros que tratam do cinema, costumo fazer anotações em algum caderno, pois nunca, em hipótese nenhuma, risco um impresso. Havia certo tempo em que eu não lia alguma obra acerca da sétima arte e havia mais tempo ainda em que eu não fazia anotações. Acredito que escrever é como andar de bicicleta: quem aprende, nunca esquece, mas quando não praticamos, sofremos um pouquinho para voltar a dominar o guidão. Quando fui fazer as anotações, senti a caneta correndo rápido demais, foi preciso algumas linhas para me familiarizar novamente com aquele objeto.

Não recordo de ter tido muita dificuldade em aprender a escrever, pois a professora que me alfabetizou era tão rigorosa que com certeza haveria feito disso um trauma na minha infância. De certa forma, me lembro de uma única ocasião em que fiz um teste de caligrafia e a professora me mandou refazer várias vezes porque minha letra estava feia. Os alunos que terminavam podiam ir para o recreio. Fiquei vendo todos os colegas brincando no pátio e eu ali, preso no teste de caligrafia. Reescrevi tantas vezes que a folha foi ficando cada vez mais fina de tanto apagar com a borracha, até chegar ao ponto de rasgar em algumas partes. Por fim, acabei chorando e as lágrimas borraram tudo ainda mais. Não lembro se consegui ir para o recreio, minha memória só chega até esse ponto da lembrança.

Que benefícios o ensino da letra escrita me trouxe, eu não sou capaz de dizer. Talvez, aos seis anos de idade, adorasse receber a notícia de que não precisaria aprender a escrever, e olha que, no meu tempo, as crianças ainda não possuíam celulares – o meu primeiro aparelho eu só fui ter aos catorze anos. Admito que a escrita cursiva exige muita coordenação motora e que aprender a desenhar as letras é um processo demorado. É como se fossemos alfabetizados duas vezes, aprendendo a ler as letras e depois a reproduzi-las. Todavia, hoje eu optaria por ter aprendido a escrever, e acredito que o ideal seria a junção do ensino da letra de mão com o aprendizado das novas tecnologias. Uma não precisa substituir a outra, embora o já esteja fazendo sem que percebamos. No dia a dia, não necessito mais carregar um bloquinho de notas juntamente com uma caneta (que sempre periga estourar dentro do bolso) ou mandar bilhete para ninguém, pois uso o celular para fazer anotações e os aplicativos de mensagens instantâneas para enviar algum recado.

Com o fim do ensino da escrita cursiva, as crianças só serão capazes de escrever em letras de forma, pois são mais fáceis de reproduzir. Em uma sociedade cada vez mais prática, as pessoas defendem que, se não usam algo, não há porque perder tempo aprendendo. O mais irônico nessa história toda é que as variantes cursivas foram desenvolvidas durante a Idade Média para permitir uma escrita manual mais rápida, pois é possível alcançar uma velocidade de escrita maior quando se usa o método clássico de passar de uma letra a outra sem levantar a caneta do papel.

Reconheço que a tecnologia tem força suficiente para dar fim à escrita de mão, e saber que existe a possibilidade dos meus netos ficarem intrigados ao me verem escrevendo no papel, prática usada há cerca de sete mil anos, é um pouco assustador. Por um longo período, usaram o termo “pré-história” para dividir o tempo em antes e depois da invenção da escrita como registro da realidade. Novas formas de contar a história hão de nascer com o desenvolvimento feroz da informática e talvez um dia também sejamos pré-alguma coisa.

Quando os arqueólogos do futuro (se é que ainda se chamarão assim) ou até mesmo seres de outro planeta em um possível período pós-apocalíptico procurarem vestígios de nossa civilização aqui na Terra, além de fósseis, encontrarão muitos fragmentos de computadores, tablets e smartphones. Haverão também muitos muros grafitados que dirão mais coisas sobre nós do que vosmecê imagina (a arte do grafite é uma espécie de pintura rupestre moderna). Talvez ainda encontrem restos de manuscritos, que poderão ser os vestígios mais preciosos da nossa civilização, pois a letra de alguém diz muito sobre sua personalidade, o que ainda não é possível estudar através da digitação.

anacronismo cibernético

Reconheço que manter um blogue nos dias de hoje é como utilizar máquina de escrever ou fotografar com câmera analógica, isto é, algo ultrapassado (retrô, se preferir). Por onde ando, ouço que as redes sociais mataram os blogues, enquanto que os vlogues jogaram a pá de cal. No entanto, mesmo que inconscientemente, os usuários das mídias sociais se tornaram “blogueiros”, nos contando sempre os que estão fazendo, comentando assuntos do momento, postando fotos de onde estão, o que estão comendo, frases com falsas autorias e até mesmo textões (que ninguém lê). Os sites, inclusive, também aparentam estar caindo em desuso; muitos artistas e empresas nem os possuem mais, aderindo às redes sociais para divulgar suas agendas, novidades e informações, já que, afinal, todos estão lá.

Por que então se exilar e escrever em um lugar ermo? Esse foi um dos dilemas que tive quando decidi criar esse blogue. Dizer que foi para aumentar o leque de leitores é uma grande mentira, já que todas as redes sociais possuem em suas configurações as opções de público e privado. Dizer também que é para conquistar prestígio e fama é uma grande ilusão, pois nós blogueiros(as) temos conhecimento de que muitos nos menosprezam, principalmente no universo acadêmico, de onde nos olham enviezadamente, pois acreditam que só escrevemos em blogues porque não conquistamos um espaço em veículos maiores. Não entra na cabeça deles que muitos(as) de nós não queremos nos filiar a nenhum grupo e muito menos ter que se enquadrar em padrões que podem censurar muitas de nossas liberdades textuais.

Entretanto, concordo que os blogues saíram fortemente lesionados dessa disputa. Acontece que rede social nunca foi mesmo o meu forte. Utilizo quase todas, caso contrário, não saberia mais o que meus amigos e amigas estão fazendo ou se estão bem ou mal. Ninguém mais se importa em sair para se encontrar e, se saem, a preocupação maior é em fotografar para postar. Essa preocupação em registrar as saídas nunca fez parte de mim, muito menos a necessidade de tornar tudo isso público. Para os meus melhores amigos isso também não é algo que os preocupa e, talvez por isso mesmo, somos melhores amigos. Em certas ocasiões saio até mesmo sem celular, não porque quero ficar incomunicável, mas por medo de assalto. Estou com o mesmo aparelho há três anos e não estou nem um pouco a fim de gastar dinheiro com outro enquanto este estiver suprindo minhas necessidades. Porém, sair sem celular, para muitos outros amigos e amigas, é como sair sem roupa. Alguns(mas) até já foram assaltados(as) enquanto fotografavam. De toda forma, a culpa não é deles(as), caso contrário, eu estaria dando razão aos assaltantes. Ademais, essa obsessão em fotografar tudo foi o que acarretou as vinte e sete mortes registradas ano passado ao redor do mundo por causa de selfies. Infelizmente, esse número só tende a aumentar. Enfim, todo esse rodeio só para dizer que não me interessa o material publicado nas redes sociais e, embora alguns(mas) escritores(as) não saibam fazer diferenciações e reproduzam muito de lá nos seus blogues, pelo menos aqui não há os famigerados “me add”, “troco likes” e “me segue de volta”. Bom, se tem, nunca vi.

Conservo em mim a utopia de que um dia conseguirei excluir todas elas, mas tenho que admitir que este será um trabalho árduo. Criar um perfil em uma rede social é algo fácil, complicado mesmo é sair. Todos os nossos amigos estão lá, nossos contatos, os grupos da universidade e do trabalho. Até nossos avós estão se rendendo. Dói, mas é preciso reconhecer que nos tornamos reféns. Fico me perguntando: quando foi que demos tanto poder às redes de relacionamento online?

Contudo, sigo utilizando uma plataforma que teve o seu auge lá no início dos anos dois mil. Hoje, a tendência tem sido criar vlogues, o que deve perdurar por mais algum tempo até o formato se desgastar ou ser substituído por algo ainda a ser inventado. Ademais, acredito na permanência dos vlogues, principalmente os curtos (pois ninguém tem mais tempo para nada). Confesso que gostaria de ter o talento de escrever textos sucintos, no entanto, a cada post novo, concebo um textão. Sinto-me constrangido por roubar o tempo dos(as) leitores(as), pois em rede social ninguém lê ninguém, só se vê as fotos e os status, mas aqui é diferente: quem acessa blogues o faz porque quer ler, o que também é uma das principais razões para ocupar um domínio em uma plataforma de blogues e resistir escrevendo. “Ocupa e resiste”. Esse tem sido o lema de quem ainda quer manter a engrenagem da Blogosfera girando. Essa resistência tem se mostrado bastante efetiva em blogues feministas e LGBTs, além dos blogues jornalísticos que não estão se curvando ao conservadorismo da imprensa de direita.

Implodir blogues para a construção de textos mal elaborados de opiniões sem aprofundamento em nome da praticidade e da preguiça de criar um espaço em outra plataforma não é o suficiente para me convencer a mudar de lugar. Não escrevo para os meus amigos de redes sociais e sim para quem usa a internet como ferramenta de pesquisa e debate. Realmente não dou atenção ao pessoal que acha que a rede mundial de computadores não vai além de suas timelines e aplicativos de mensagens instantâneas.

Engana-se quem enxerga os blogues como espaços individuais, visto que, a partir do momento em que os(as) leitores(as) comentam os textos, o post passa a ser deles(as) também, pois os comentários funcionam como um complemento do que foi proposto pelo(a) escritor(a). Publicar um texto como esse nos perfis das minhas redes sociais é como vomitar, impor um material que ninguém está interessado em ler, sem contar que, em poucos minutos, teria se perdido no buraco negro da linha do tempo. Posso até compartilhar o link do post, mas quase ninguém vai clicar, visto que a preguiça de abrir outra página é motivo suficiente para desistir. Todos os conteúdos devem estar apresentados na timeline e, dessa forma, ninguém sai. Blogue não é cativeiro e não faz nenhum(a) leitor(a) submisso(a) do algoritmo. Rede social é uma espécie de casa-grande (ou seria senzala?), enquanto que aqui fora, nós libertos, escritores(as) e leitores(as), reconhecemos nossos nichos através dos interesses em comum. Caso as mídias sociais realmente acreditem que mataram a Blogosfera, alguém avise-as que esqueceram de enterrar.

não se pode confiar nas máquinas

Que começo de ano complicado foi esse meu, caríssimos. Dentre tantas coisas, o que mais me deu dor de cabeça foi o fato do meu querido computador, sem qualquer aviso prévio, resolver que era hora de dar defeito. Por isso estive ausente do blogue. Vocês não sabem o que sofri nas mãos desse ingrato que eu trato tão bem. No final do ano passado (como se fosse há muito tempo) ele já começou a travar. No início de janeiro ele parou e permaneceu assim por vários dias. Como estava muito ocupado com outras coisas, resolvi que o levaria para o conserto quando tivesse tempo. Quando finalmente tive esse tempo, ele milagrosamente voltou ao normal e assim se manteve por três dias, período suficiente para eu acreditar que estava tudo bem e que tudo não havia passado de uma crise temperamental. Que nada! Com uma lentidão cada vez mais forte, foi uma via-crúcis escrever os três últimos posts. Na era dos smartphones, em que os computadores estão ficando gradativamente mais obsoletos, ainda não posso me dar ao capricho de ficar sem eles. Tenho que trabalhar. Computadores são para mim um mal necessário e acredito que continuarei dependente deles para realizar os meus projetos até o fim da vida.

Interessante pensar nessa era dos celulares inteligentes, porque é um símbolo cada vez mais forte de uma geração cada vez mais alienada, na qual, para muitos, o escrito mais longo que leram na vida foi algum textão de rede social. Mas isso é outro assunto e prometo tentar não bifurcar essa postagem. Continuando:

Não é segredo para ninguém que todo computador vai ficando mais lento com o passar do tempo e que a maneira como tratamos nosso PC influencia diretamente nesse contexto. Por isso, faço de tudo para que essa porra não “adoeça”. Não tenho muitos programas instalados nele (faço cinema e mesmo assim não tenho programas de edição justamente porque são pesados). Tenho sim muitos arquivos, mas eles não correspondem nem a metade da capacidade de armazenamento dele. Enfim, com um ano e meio de uso, ele pediu por uma formatação do sistema operacional, o que aconteceu no sábado último.

Ainda não reinstalei todos os programas e nem coloquei todos os arquivos de volta. Contudo, a vontade de oxigenar o blogue foi maior. Sendo assim, vocês hão de perdoar esse texto menos elaborado. Estou fazendo tudo aos poucos, justamente para organizar o que estava bagunçado. É como aquela velha promessa que nós fazemos quando compramos um computador novo: nomear todos os arquivos corretamente, armazená-los em suas respectivas pastas, deletar o que não precisamos e manter a área de trabalho sempre limpa. Eu sei que é uma promessa fajuta e em pouco tempo estarei salvando arquivos com o nome de “sjghsdhfkjsnd”, mas vou enxergar isso como uma nova oportunidade de organizar minha vida digital ao menos por enquanto. Talvez tenha sido a única forma que meu computador tenha encontrado para dizer que, assim como eu, estava querendo uma vida mais organizada nesse ano que ainda está engatinhando. Meu computador também é brasileiro e sabe que ainda dá tempo de fazer promessas para 2016, afinal, no Brasil o ano só começa (felizmente ou infelizmente) depois do carnaval. Então avante querido Leitor, porque já é fevereiro. Até a próxima, abraçaço.