programado para morrer

Um amigo, que sempre consertou meus computadores, costumava dizer que preferia máquinas a pessoas. Para ele, a convivência com a tecnologia era muito mais fácil, pois quando uma máquina apresenta um defeito, é só consertá-la. Já o ser humano, além de não ter cura para todos os seus males, exige mais complexidade no tocante à convivência. Quando uma amizade ou um relacionamento amoroso, por exemplo, apresenta um desgaste ou um conflito, não podemos simplesmente formatar e começar tudo de novo. Fazer as pazes e entrar em um acordo é muito mais difícil.

Nunca concordei com esse meu amigo. Não que eu seja o ser mais sociável do mundo, muito pelo contrário, mas sempre tive problemas com certas tecnologias. Isso não significa que eu não saiba utilizar as máquinas, e sim que tenho muita dificuldade em aceitar que elas saiam intencionalmente de suas fábricas com uma data de validade para deixar de funcionar, apenas para aumentar o consumo.

Vez ou outra, eu me pergunto quando vamos gritar e nos rebelar contra a obsolescência programada. Cada vez mais empresas produzem propositalmente produtos que se tornam obsoletos ou não-funcionais em um curto período de tempo para que possamos comprar a nova geração do mesmo produto. É natural que um objeto se desgaste com o passar do tempo e pare de funcionar, mas é inaceitável que os fabricantes planejem esse envelhecimento. Acabamos por consumir mercadorias que duram menos do que a tecnologia permite.

A obsolescência programada pode ser notada com maior frequência na área tecnológica. O sistema operacional dos computadores estão se desgastando cada vez mais rápido, as baterias e carregadores de computador duram cada vez menos e o cabo dos carregadores de celular são mais frágeis do que deveriam. Qual a razão para uma marca de celulares de última geração fabricar carregadores tão vagabundos se não para nos obrigar a comprar outro aparelho? Os fones de ouvido são outros que também quebram com facilidade. Ao mesmo tempo em que essas mercadorias são planejadas para durar cada vez menos, o preço para a manutenção desses equipamentos se torna cada vez mais alto, induzido os consumidores a adquirir um produto novo.

Os fabricantes tentam se justificar apontando para o avanço da tecnologia. Por essa razão, segundo eles, estão sempre criando novos modelos. Que avanço é esse? Como pode haver tantos progressos em tão pouco tempo? Marcas lançam modelos novos apenas poucos meses após o lançamento do anterior. Antes mesmo de acabar o ano, já é possível comprar versões de carros do ano seguinte. Essa troca regular de produtos só aumenta a produção de lixo e, para piorar, como se não bastasse a humanidade estar consumindo 30% a mais do que o planeta é capaz de repor, o destino de quase 70% dos equipamentos eletrônicos descartados por consumidores de países desenvolvidos são lixões de cidades de países subdesenvolvidos. Os mais pobres, como sempre, continuam pagando a conta.

O consumo permanente tem como finalidade a criação de um consumidor cronicamente insatisfeito. Banhado pelo desejo de comprar sempre o produto mais novo, o da moda, o mais rápido e com a imagem mais moderna, o consumidor cansa cada vez mais rápido do produto que já usufruiu. Esse fenômeno é chamado por muitos de “obsolescência percebida”, e ocorre quando, antes mesmo de apresentar defeito, o consumidor considera o produto que tem em casa como velho diante de todos os novos modelos lançados a todo instante no mercado.

Os smartphones exigem cada vez mais atualizações de seus sistemas operacionais. Atualizações essas que além de não mudarem muita coisa, consomem grande parte da memória que, por sua vez, nos impossibilita de atualizar os aplicativos. Não consigo descrever o quanto isso me irrita. Depois de certo tempo, parei de atualizar o iOS, pois não havia mais memória disponível, a não ser que eu excluísse todos os aplicativos. Em seguida foi a vez dos aplicativos exigirem suas atualizações. Quando não havia mais espaço, fui excluindo os menos usados. Desde o início do ano, o WhatsApp parou de funcionar no meu celular, pois só é possível utilizá-lo em um sistema operacional mais novo. Logo mais será a vez dos demais aplicativos deixarem de funcionar. Eu não queria ter que trocar de celular agora. Não necessito do aparelho mais novo, da moda. Poderia, tranquilamente, passar mais alguns anos com meu aparelho atual, se não estivesse sendo “obrigado” a comprar um novo.

No entanto, tudo isso parece tão natural aos olhos do mundo, que até culturalmente falando podemos encontrar casos de obsolescência programada. É a música feita para tocar só no carnaval, aquele sucesso do verão, os filmes de natal ou os filmes de determinado gênero que fazem sucesso até se tornarem saturados. Atualmente, são os títulos de super-heróis e comédia pastelão. As produtoras vão usar essa fórmula e inundar as salas de cinema com filmes desses gêneros até causar uma overdose no público (vai me dizer que você não consegue enxergar o propósito por trás de tantas sequências das mesmas histórias ou livros de um só volume transformado em séries e mais séries de filmes?). Já no mercado editorial, são os livros de youtubers que estão na moda, o que tem levado muita gente a acreditar que o primeiro passo para se tornar um(a) escritor(a) é criar um canal no YouTube. Calma! Isso é só uma fase – alguém ainda se lembra dos livros de colorir? -, logo essa onda passa e não teremos que ver dezenas de biografias de adolescentes nas prateleiras das livrarias (pelo menos espero).

Contudo, sentei para escrever porque queria dissertar justamente sobre essa obsolescência cultural programada, mas está cada vez mais recorrente em meus textos desejar escrever sobre algo e acabar falando sobre outro assunto. Tal qual um pai que deseja uma profissão para um filho e o rebento acaba seguindo outra. Como eu não segui a profissão que meus pais desejavam para mim, deixo o texto livre para ele ser o que quiser. De toda forma, os dois assuntos entram no mesmo pacote: tudo está ficando cada vez mais descartável. Em consequência disso, sigo não confiando nas máquinas, ou seria em seus fabricantes? E você, antes de substituir qualquer objeto, se pergunta antes se realmente precisa de outro?

irrealidade virtual

Um conselho sincero: você pode iniciar a leitura desse texto a partir do nono parágrafo sem maiores prejuízos.

Muitas coisas me aconteceram em janeiro, inclusive alguns infortúnios envolvendo meu computador e a internet. Os problemas que tive com o computador nem me deram tanta dor de cabeça quanto os que tive com a internet, mas todos aconteceram ao mesmo tempo em uma semana cheia de compromissos em que eu iria precisar muito do acesso de ambos.

Certo dia, desembarquei do ônibus em uma parada localizada a quatro ruas antes da minha casa para poder caminhar um pouco como faço quase sempre. Logo que desci, ouvi um burburinho na rua de pessoas comentando estarem sem energia elétrica em suas residências. Fiquei tranquilo, pois imaginei que, como ainda estava longe de casa, a falta de energia com certeza não estaria atingido a rua onde moro e, consequentemente, o meu lar. Na rua seguinte, mais pessoas comentavam nas calçadas umas com as outras sobre a falta de energia. Então, durante o trajeto das duas próximas ruas, apurei bem os ouvidos na tentativa de ouvir algum som ligado, o barulho de alguma TV ou até mesmo de um liquidificador. Nada.

Chegando em casa, constatei que a falta de energia era no bairro inteiro e fiquei tranquilo, pois quanto mais ruas são atingidas, maiores são as chances do problema ser solucionado com rapidez. Bebi um copo com água, tirei a roupa e, quando ainda estava debaixo do chuveiro, a energia elétrica voltou. No entanto, não me preocupei em momento algum. Se a falta de energia durasse a tarde inteira, eu sabia muito bem o que fazer: ler. Se no começo da noite ainda estivesse faltando energia, eu dormiria e acordaria durante a madrugada para fazer as coisas que deveria ter feito mais cedo e que necessitavam de eletricidade, isso se ela tivesse voltado – caso não, eu continuaria dormindo na tentativa de diminuir o sono acumulado que eu jamais conseguirei recuperar.

De toda forma, fiquei lendo durante a tarde toda. Como costuma acontecer aqui em casa, quando há quedas de energia, a internet demora um pouco a voltar. Dessa vez, não foi diferente. Quer dizer, foi. Horas depois, a internet ainda não havia voltado e eu saberia que não voltaria mais até receber a visita de algum técnico. Havia chovido forte na noite anterior. Quando acordei, percebi, ainda antes de sair de casa, uma poça de água no chão do quarto, próxima ao computador. Olhei para o teto à procura de alguma mancha de água no forro, mas não havia nada. Desconhecia completamente a origem da poça misteriosa. Fiquei preocupado e corri para ver se meus livros estavam molhados, mas encontrei-os sequinhos. O wi-fi também estava funcionando, o que me levou a crer, mais tarde, quando eu cheguei em casa, que a queda de energia era, de fato, a responsável por ter causado o problema – eu iria descobrir depois que estava enganado.

Liguei para o serviço de atendimento e agendei uma visita com um técnico. Deram-me o prazo de até quarenta e oito horas para solucionar o problema. Em qualquer época do ano, ficar dois dias sem acesso a rede mundial de computadores para mim não é nenhum sacrifício. Entretanto, eu iria filmar um documentário em poucos dias e dependia da internet para fechar todo o cronograma com a equipe, além de fazer umas pesquisas de última hora. Felizmente, o técnico veio no dia seguinte e resolveu tudo. Foi quando eu descobri a origem da água.

Minha internet era à rádio e a água vinha de dentro do cabo que era conectado na torre que ficava em cima da casa. Como a água entrou nele eu ainda não iria ficar sabendo. O técnico retirou a água do cabo e me perguntou se havia ocorrido alguma queda de energia. Respondi que sim e, como eu, ele diagnosticou erroneamente o problema: com a queda de energia, o moldem havia se desconfigurado. Ele reconfigurou tudo e foi embora. Usei a internet normalmente durante o resto do dia e fui dormir. Choveu a noite toda. Ao acordar, a primeira coisa que percebi ao levantar da cama foi o chão mais uma vez molhado com uma poça de água ainda maior que a anterior. A internet estava funcionando normalmente, mas minutos depois ela parou de vez. Eu teria então que resolver tudo com a equipe de filmagem por telefone.

Por falar em telefone, gastei todos os créditos do celular em outra ligação para a central de atendimento. Além de pedir que solucionassem o problema, solicitei a troca da internet à rádio por uma de fibra óptica. Dessa vez, não tive o mesmo fortúnio de antes, pois o técnico só veio no limite das quarenta e oito horas. Ao retirar de cima da casa a torre que capta o sinal, o técnico descobriu um pequeno buraco no cabo, por onde a água entrou e desceu até o meu quarto. Segundo a perícia que ele fez, era a água que estava danificando o cabo e desconfigurando o sinal.

Depois desse dia, não houve mais queda de energia, a internet não voltou a cair, a água não visitou mais meu quarto (embora tenha chovido bastante desde então), e a filmagem aconteceu normalmente. Porém, se você leu até aqui, desde já gostaria de me desculpar por não ter sido mais sucinto – esse é um talento que eu definitivamente não possuo. Dessa forma, tudo o que foi escrito até agora, por mais que tenha consumido metade do corpo do texto, é o que podemos chamar por introdução.

Tudo isso pode não fazer nenhum sentido, mas após esses acontecimentos banais fui acometido por algumas pequenas reflexões. Não é de hoje que a vida virtual vem me preocupando. Já é um fato que a internet está matando em escalas maiores ou menores o consumo de discos físicos, DVDs, livros, entre outras coisas. É possível baixar tudo isso quase sempre de graça, o que ajudou a democratizar o acesso a muitas obras de arte. No entanto, agora é a cultura do download que está sendo morta pelos serviços de streaming.

Nunca gostei de streaming. Quando ele ainda não era moda, grande parte das bandas que curto, disponibilizavam, muitas vezes gratuitamente, seus discos para download. Isso vem deixando de acontecer. Essas mesmas bandas que liberavam seus álbuns agora simplesmente os lançam no Spotfy. O site é bom, admito. Tem, inclusive, me ajudado muito a ouvir os lançamentos dos meus artistas favoritos. O preço a pagar para me ver livre dos anúncios é pequeno, mas não é isso o que eu desejo. Eu quero é ter as músicas no meu computador e no meu celular sem que eu precise ser refém de um wi-fi para ouvi-las, nem que eu tenha que pagar por isso. Quero poder enviá-las para amigos quando me pedirem dicas de músicas, quero poder reproduzi-las no carro e poder levá-las para onde eu for.

Não consumo os dados móveis da minha operadora de celular. Adoto uma filosofia de que nada na internet é tão importante assim para que eu precise dela quando não estou em casa. Quase todos os lugares que frequento possuem acesso a wi-fi, então, tecnicamente, só fico sem internet quando estou na rua me locomovendo de um lugar para o outro. Se estou em um ônibus, prefiro adiantar minhas leituras. Nada é tão urgente que não possa esperar. Se for algo muito sério, alguém vai me ligar.

Também não assino Netflix. O catálogo de filmes, segundo o que meus amigos me falam, não é tão sedutor assim. Não estão lá os filmes que gosto de assistir. Concordo que é bem mais prático fazer um login e assistir a um filme, ao invés de ter que pesquisar na internet e ainda esperar o download terminar – o que às vezes pode demorar bastante. Sem contar a caça por legendas. Sinto que o download de filmes tem caído ainda mais do que o de músicas. Está cada vez mais difícil encontrar torrents ou até mesmo outras formas de download. A pirataria de internet é um assunto complicado, mas qual a outra forma disponível para assistir filmes que não chegam às salas de cinema? Nem estou falando tanto dos filmes estrangeiros, mas do próprio cinema brasileiro mesmo. Só porque não há uma grande procura por determinados títulos, nenhuma empresa se preocupa em vendê-los. Devo me conformar em não assisti-los? É isso que devo fazer? Sinto muito, mas me recuso a proceder assim.

É infinitamente melhor não ter que ocupar a memória do celular ou do computador com músicas e filmes. Todavia, existem os pendrives, que são absurdamente pequenos, e os HDs externos, que muitas vezes são menores que muitos celulares de hoje em dia. O que não dá para aceitar é a segregação dessas obras. Estamos correndo um grande perigo, pois nem tudo está no Spotify e muito menos no Netflix. Essa deve ser a única forma legal de se consumir música e cinema? Os dois são serviços comerciais como qualquer outro. Se não gerarem lucros, eles não vão se interessar por adquirir os direitos de obras que não possuem forte apelo popular. Formas alternativas ao streaming precisam existir. Hoje é o download, amanhã pode ser outra tecnologia, e todas elas devem ser legalizadas para que todos os artistas possam receber por seus direitos autorais (sem que para isso tenhamos que pagar preços abusivos).

Espero estar sendo mais pessimista do que deveria, e acreditar que o download vai resistir. Inclusive, na falta de formas legais de se consumir obras cinematográficas, musicais e literárias, que a pirataria virtual continue fazendo seu serviço de democratização da arte, pois é praticamente isso que ela faz. Os responsáveis por isso são pessoas que na grande maioria das vezes não ganham nada para disponibilizar obras e legendar filmes, além do prazer de compartilhar conteúdo. Sou a favor de pagar por tudo isso que consumo, desde que os filmes que desejo ver estejam nos catálogos dos serviços de vendas e que as músicas que desejo ouvir estejam legalmente disponíveis para download. Quanto à literatura, sou daqueles que acreditam que alguém só lê um livro no computador ou no tablet se realmente não tem condições de comprar (ou porque o título está fora de circulação).

Por fim, sei que sou um romântico, pois quando realmente gosto de um disco, faço questão de adquirir. Já perdi a conta dos CDs que comprei sem nunca ter colocado no aparelho de som. Comprei só para tê-los e, consequentemente, ajudar as bandas que gosto. Só não consumo mais DVDs de filmes porque quase nunca encontro os títulos que gosto disponíveis para comprar. Sobre os livros, espero não viver o suficiente para ver o fim do formato físico, pois se deixarem de existir, eu mesmo irei imprimi-los e encaderná-los.

Ainda sobre livros, eu realmente gostaria que todas as obras de arte fossem como eles. Explico: para ver um filme, eu preciso de um projetor e uma tela, ou um computador, enquanto que, para ouvir música, eu necessito de um aparelho de som ou um celular. Para consumir os livros, eu só preciso deles, pois se estiverem em formato físico, o único suporte que necessito para desfrutá-los são meus olhos. Nesse sentido, os livros são perfeitos, pois as outras formas de arte requerem tecnologia adicional. É como se os livros tivessem sido feitos sob medida para o corpo humano: um só depende do outro. Acredito que boa parte dos instrumentos musicais também cai nessa categoria. É assustador imaginar um pane global na rede mundial de computadores. Imaginar também alguma catástrofe que deixe a população sem energia elétrica. Em um caso como esses, só teríamos a literatura. Creio que muitas pessoas não resistiriam ao ver suas vidas virtuais sepultadas. Contudo, acredito que estou sendo apocalíptico demais. Estou? Enfim, esse é outro assunto e eu deveria ter escrito só sobre isso. Deveria.

guarda baixa

Sempre me perguntei por que alguns cineastas, após realizarem grandes filmes no passado, verdadeiros clássicos do cinema, dirigem produções tão fracas quando chegam à velhice. Isso quando nem esperam amadurecer para começar a manchar a própria filmografia lançando trabalhos medíocres. Esse também é um fato que vejo com uma frequência ainda maior no cenário musical. Muitas bandas ou artistas-solo que revolucionaram a música quando jovens não conseguiram manter o mesmo nível após alguns anos de carreira. Até na literatura há os que também ficam eternamente marcados pelo livro de estreia.

Esse é um assunto que muitas vezes orbitou em rodas de conversas e eu nunca soube apontar uma razão para esse “fenômeno”. No entanto, há algumas semanas atrás, encontrei a resposta assistindo a vídeos de Leandro Karnal que, de tão óbvia, me passou despercebida. Esses artistas caíram na terrível zona de conforto. Tentei encontrar o vídeo para transcrever as palavras de Karnal, mas não encontrei. É um vídeo em que ele usa a expressão “baixar a guarda”. De toda forma, encontrei outras palestras em que ele novamente disserta sobre o tema.

Para Karnal, é natural do ser humano buscar zonas de conforto, pois elas fazem com que não gastemos energia pessoal e cerebral. Porém, para todos aqueles que se dedicam ao estudo de carreira, a zona de conforto é a grande armadilha da vida. Ela nos diz para relaxarmos, para ficarmos bem porque “chegamos lá”. Entretanto, toda vez que acreditamos ter “chegado lá”, começamos a diminuir a potência de tudo aquilo que podemos fazer. Zona de conforto é o que buscamos, mas ela também é o início do nosso declínio, afinal, ela produz a felicidade que nos leva à acomodação, que nos leva à preguiça e esta, por sua vez, nos leva ao não desenvolvimento do nosso potencial. Ou seja, aquilo que nos favorece é também aquilo que nos prejudica.

Tudo isso faz muito sentido. Estudamos, nos esforçamos e damos tudo de si quando estamos desenvolvendo nossos primeiros projetos. Queremos provar para o mundo do que somos capazes. Toda essa motivação inicial é mesmo difícil de ser mantida se já conquistamos um espaço em nossas áreas de atuação. Sempre que penso nisso, me vem à mente o exemplo de Tom Zé, que a cada novo trabalho consegue se superar. O Mestre sempre fala em uma espécie de deficiência, de dificuldade na hora de criar. Segundo ele, esse sofrimento é o que o motiva a estudar todos os dias para conseguir compor suas músicas. Além do talento natural que Tom Zé possui, acredito que essa dificuldade que ele diz ter o impulsiona em direção ao trabalho árduo dos estudos e, consequentemente, para fora de qualquer zona de conforto.

Escrevi essas linhas ao som de Raul Seixas e, coincidentemente, em sua canção ‘Eu Sou Egoísta’, ele fala, entre outras coisas, sobre zonas de conforto. É uma das minhas músicas favoritas do pai do rock brasileiro. Na letra ele diz: […] Eu sou estrela no abismo do espaço / O que eu quero é o que eu penso e o que eu faço / Onde eu tô não há bicho-papão / Eu vou sempre avante no nada infinito / Flamejando meu rock, meu grito / Minha espada é a guitarra na mão / Se o que você quer em sua vida é só paz / Muitas doçuras, seu nome em cartaz / E fica arretado se o açúcar demora / E você chora, cê reza, cê pede, implora / Enquanto eu provo sempre o vinagre e o vinho / Eu quero é ter tentação no caminho / Pois o homem é o exercício que faz […]. Estou sempre em busca dessa tentação no meio do caminho. Perder totalmente o medo da mudança é meu verdadeiro desafio. Nós somos o exercício do que fazemos.

Por fim, quero dizer que escrevi esse texto para agradecer todo o apoio durante o ano de 2016. Sou grato por cada acesso ao blogue, a cada pessoa que tirou alguns minutos do seu precioso tempo para ler meus textos, a cada pessoa que curtiu, seguiu e comentou. Muito obrigado. O que desejo para nós em 2017 e para vida toda é que não baixemos a guarda. Nunca! Feliz ano novo! Abraçaço

finais abertos

[contém revelações de enredo]

Lembro que, quando assisti ‘Central do Brasil’ com meu pai, ele se mostrou muito decepcionado com o final. Ele não se conformou em esperar quase duas horas para o filme acabar e Josué não encontrar o pai dele. E Dora? Por que ela não ficou com o menino? Tempos depois, assistimos juntos ‘Que Horas Ela Volta?’. Pelo envolvimento dele com os personagens durante todo o filme, deu para perceber que ele estava gostando muito. No entanto, quando a projeção terminou e eu lhe perguntei se ele havia gostado, ele apenas se limitou a dizer: que final feio. Conheço bem o meu pai, e não foi necessário lhe fazer perguntas para descobrir o que ele havia detestado. Foi difícil para ele ver a personagem Val terminar desempregada. E Jéssica, conseguiu ingressar na graduação?

Quando fui assistir ‘Aquarius’ no cinema, eu não estava acompanhado de ninguém. Cheguei cedo, com medo de não conseguir ingresso (eu sempre acho que não tem mais ingresso). Paguei minha entrada e fiquei esperando o filme que ainda ia demorar para começar, sentado em um banquinho do lado de fora da sala. Nesse mesmo banco estava sentada uma senhora idosa rodeada de sacolas plásticas lendo uma notícia em um jornal impresso que puxou conversa comigo. Contou-me de uma viagem que havia feito recentemente e que, devido a ela, estava usando bengala, pois havia andado tanto que ainda estava com as pernas cansadas. Era início de tarde e, segundo ela, já estava na rua desde de manhã cedinho. Ademais, ela me disse que, quando acabasse ‘Aquarius’, ainda iria ver uma mostra de filmes LGBTs que estava acontecendo no centro cultural ao lado. Confesso que fiquei com inveja de sua vitalidade. Ela até me convidou para lhe fazer companhia durante a mostra, mas quando me entregou a programação, desisti de ir por ser composta apenas de filmes que eu já havia assistido.

No pouco tempo em que ficou do meu lado, ouvi essa senhora disparar o maior número de histórias por minuto que eu já tive oportunidade de presenciar, mas tenho que admitir que estava apreciando sua companhia. Era uma pessoa muito inteligente, simpática e agradável (mesmo que tenha me assustado com seu ódio quase doentio por Dilma Rousseff, em quem, segundo ela, gostaria de dar uma surra). A senhora saiu de onde eu estava para comprar uma água e uma moça bonita e educada que havia sentado perto de nós puxou assunto comigo. Ela me contou que era atriz e eu lhe disse que fazia cinema. Conversamos então sobre testes de elenco, preparações de elenco e produções cinematográficas locais. Apesar de rápida, também foi uma conversa muito agradável. Assim como a senhora idosa e eu, ela também estava esperando a próxima sessão de ‘Aquarius’ começar.

Sem que eu nada perguntasse, a moça comentou que a atuação de Sônia Braga estava maravilhosa. Só então lhe perguntei se já havia assistido ao filme, ao que ela me revelou que aquela seria a sua terceira sessão, mas ainda não a última. Com todo o cuidado do mundo para mudar de assunto, tentei falar de outras coisas com medo de que ela me revelasse algo do filme antes mesmo de eu assisti-lo. Ela não revelou nada, mas do alto de sua empolgação, comentou: “Já estou esperando a continuação”. Como assim seria feita uma continuação de ‘Aquarius’ e eu não estava sabendo? Perguntei-lhe se ela havia visto alguma notícia sobre isso e ela negou. Ela não tinha provas de que seria produzida uma continuação, mas tinha convicções, pois reforçou sua tese: “Do jeito que o filme termina é impossível não ter uma continuação, tem que ter um ‘Aquarius 2′”. Eu nem havia assistido ao filme ainda, mas naquele exato momento eu soube que se tratava de um final aberto. Assim como a moça, que não sei o nome, pois acabamos não nos apresentando, eu não tinha provas, mas tinha convicções de que Kleber Mendonça Filho não faria uma continuação, e claro, lhe expus meu posicionamento. No entanto, a moça estava certa de seu ponto de vista tanto quanto eu estava do meu. As pessoas então começaram a entrar na sala e eu me apressei para entrar também para garantir um bom lugar. A moça, a senhora e eu sentamos em lugares diferentes e nunca mais nos encontramos. Porém, é preciso registrar que em algo eu e a moça concordamos: Sônia Braga está maravilhosa!

Minha cinefilia começou muito cedo. Eu já era cinéfilo antes mesmo de saber que essa palavra existia, e desde o início cultivei um fascínio por finais abertos. ‘Central do Brasil’ foi exibido pela primeira vez em uma mostra regional de cinema na Suíça em 16 de janeiro de 1998. No dia 19 de janeiro foi exibido no Festival Sundance de Cinema nos Estados Unidos e no dia 14 de fevereiro no Festival de Berlim, de onde saiu consagrado com o Urso de Ouro de Melhor Filme. O lançamento no Brasil ocorreu apenas no dia 3 de abril do mesmo ano. Eu tinha então quatro anos de idade. Lógico que eu só fui tomar conhecimento do filme anos depois. Cresci com ele no meu imaginário, assistindo-o repetidas vezes na Sessão da Tarde. Até hoje é um dos meus filmes favoritos, embora seja completamente diferente do tipo de filmes que gosto de ver atualmente. Claro que há um toque de nostalgia em tudo isso. Todavia, Fernanda Montenegro continua sendo minha atriz favorita, o que não se deve apenas por esse trabalho.

Não posso afirmar o ano em que vi ‘Central do Brasil’ pela primeira vez, mas sei que eu tinha por volta de dez anos, não mais que isso. Vinicius de Oliveira tinha apenas doze quando interpretou Josué no filme. Hoje, ele não é assim tão mais velho do que eu e, embora não façamos parte da mesma geração, de uma forma ou de outra, crescemos “juntos”. Durante esses anos todos, me peguei várias vezes pensando no que haveria acontecido com Dora e Josué, mas quando revejo o filme hoje em dia, nem consigo considerar mais que ele tenha um final aberto, pelo menos não tão aberto assim.

O filme de Walter Salles tem um roteiro clássico, nos apresenta uma jornada do herói com seus três atos, pontos de virada, evolução, clímax e resolução da história. Considero-o agora um filme quase “fechado”. Dora é uma vigarista que se dispõe a viajar com Josué até o nordeste do Brasil em busca do pai do garoto. Eles viajam, tornam-se amigos e passam por situações que mudam suas formas de encarar a vida. Não conseguem encontrar o pai de Josué, mas encontram os irmãos do garoto, que também são sua família. A missão de Dora está cumprida. Sei que é difícil encarar a separação dos protagonistas, mas é preciso seguir em frente. O que aconteceu com Dora, se Josué encontrou o pai ou se eles dois voltaram a se encontrar novamente, sinceramente, não importa. O filme apenas se propõe a nos apresentar esse pequeno período da vida dos dois personagens, esse momento chave, essa experiência que resultou na transformação de ambos, tornando-os pessoas melhores e mais fortes. E praticamente tudo que eu disse sobre ‘Central do Brasil’ pode ser aplicado a ‘Que Horas Ela Volta?’ e ‘Aquarius’.

Como roteiro é uma das minhas áreas de atuação, estou sempre estudando e pesquisando sobre. Já li praticamente todos os manuais de roteiro disponíveis no país e posso afirmar que eles não me ajudaram, muito pelo contrário. Manuais são ótimos para quem quer entender o que é um roteiro, para quem quer aprender como ler um roteiro, para quem quer conhecer a formatação de um roteiro, mas são igualmente péssimos na tentativa de ensinar como escrever um. Além de serem livros muito parecidos, alguns quase cópias idênticas, castram a criatividade de um roteirista. Apontam quantos atos um roteiro deve ter, quantas páginas devem conter em cada ato, a duração máxima que um filme deve respeitar, onde devem ser apresentados os pontos de virada, onde deverá ser apresentado o clímax, a forma de apresentar um personagem, a forma de estabelecer um conflito, tudo. Se todos seguissem esses manuais, todos os filmes seriam praticamente iguais. E o que é mais hipócrita nessa história toda é que os prêmios de melhor roteiro quase sempre são entregues para filmes que vão contra essas regras, que subvertem as formas tradicionais de se contar uma história. É como se esses manuais nos ensinassem a como não escrever um roteiro. Acontece, caríssimos, que prêmios não geram bilheteria, então os estúdios seguem impondo essa forma clássica que eu prefiro chamar de forma engessada de escrever roteiros.

Um centenário foi mais do que suficiente para engessar também a forma do público de consumir cinema. Os manuais servem para corresponder a todas as expectativas de quem assiste ao filme. Durante muito tempo, esses manuais só serviram para me deixar inseguro com tudo o que eu escrevia. Eu pensava que se eu não os seguisse à risca, minhas histórias iam ser consideradas péssimas. Antes de ler esses livros eu me sentia muito mais livre e tinha mais coragem de arriscar. Hoje eles ainda são um fantasma, mas já não os leio mais e tento esquecê-los. Agora leio livros de edição e montagem, pois eles não estão preocupados em apresentar uma fórmula, e sim em nos mostrar várias formas diferentes de construir uma mesma cena. E claro, sigo firme no melhor método de aprendizado de todos: assistindo ao maior número de filmes diferentes possível.

Entre as muitas barbaridades que já li em manuais de roteiro, algumas me chamaram mais atenção. Em um deles li que um filme não pode ter mais de duas horas de duração, que o final deve ser sempre feliz, pois filmes tristes deixam o público frustrado, que o filme deve sempre ter um clímax a poucos minutos do fim, que se eu estou escrevendo um roteiro é porque estou pensando em vendê-lo por uma boa quantia em dinheiro e que a melhor forma de conseguir isso é dando ao público o que ele quer ver. Sou contra todas essas estratégias comerciais. O espectador está muito acomodado; é preciso reeducá-lo apresentando coisas novas e não somente o que ele acha que quer. Este é um trabalho difícil, e da forma como o cérebro de boa parte do público está atrofiado, pode ser tarde demais para conseguir reverter essa situação.

O resultado disso é um público preguiçoso que não consegue nem realizar o esforço de fazer uso do belo presente que filmes com finais abertos nos proporcionam. Para quê imaginar o que aconteceu com Clara de ‘Aquarius’ se eu posso esperar uma sequência que responda minhas dúvidas? Esse exercício gostoso de dar continuidade às histórias dos filmes quando eles acabam eu aprendi há muito tempo com ‘Central do Brasil’. Na minha continuação, Dora e Josué nunca mais se reencontraram. Ela morreu sozinha sem nunca conseguir casar e Josué nunca encontrou o pai. Consigo até imaginar que Irene, personagem de Marília Pêra, também terminou sozinha, embora ainda tenha se relacionado com alguns homens, mas nenhum resultando em um relacionamento duradouro. Em minha continuação de ‘Que Horas Ela Volta?’ de Anna Muylaert, Val, personagem de Regina Casé, conseguiu um novo emprego e mesmo com todas as dificuldades, realizou o sonho de ver a filha formada. Jéssica, personagem de Camila Márdila, com o bom emprego que conseguiu, deu uma boa casa à sua mãe, que não precisou mais trabalhar graças ao ótimo salário da filha. Para Clara, personagem de Sônia Braga em ‘Aquarius’, não construí uma história muito otimista. Acredito que ela tenha se saído vitoriosa, mas só depois de muitos anos com o processo correndo na lenta Justiça de nosso país. O sofrimento foi longo, mas ela também causou muita dor de cabeça aos donos da construtora.

Longe de mim defender que todos os finais devam ser abertos. Esse tipo de desfecho deve ser apenas uma forma entre várias outras de se contar uma história. Que finais assim não sejam usados como justificativas para classificar um filme como ruim. O anticlímax proposital também tem o seu valor. A supervalorização da expectativa correspondida deveria ser substituída pela surpresa. O público tem que sair de sua zona de conforto e abandonar esse olhar que não se permite enxergar outras possibilidades. Nem todos os filmes precisam de uma continuação, pois eles podem (e devem) continuar dentro de nós, em nossas mentes. É divertido se surpreender, é divertido ser apresentado a coisas novas que ainda não sabemos que gostamos. Não tenho problemas com finais felizes, mas tenho pavor do “viveram felizes para sempre”. É o mesmo que matar os personagens. A vida não é feita só de sorrisos. É bom ver nossos heróis vencerem seus desafios, mas o último minuto do filme não pode significar o fim deles – a não ser que eles morram. Se o roteirista decidir por não ceifar a vida de suas criações, assim como nós, suas jornadas “continuam”, pois no fim das contas, enquanto não morrermos, todo dia é um final em aberto.

todo dia é dia de gênio

Certa feita, em uma aula de Cinema Moderno que cursei no segundo semestre do curso de Cinema, a turma assistiu ao filme ‘O Bandido da Luz Vermelha’, de 1968, do diretor Rogério Sganzerla (1946-2004). Era um seminário e havia uma equipe de cinco alunos responsável pela projeção do filme e o debate com o restante da turma sobre a importância deste longa para o cinema brasileiro moderno. Na aula da semana anterior, minha equipe havia apresentado ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, de 1964, do diretor Glauber Rocha (1939-1981). Ao final da aula, a professora, aproveitando a repercussão dessas duas apresentações e o fato de Sganzerla ter apenas vinte e dois anos quando dirigiu ‘O Bandido…’ e Glauber vinte e cinco anos quando lançou ‘Deus e o Diabo…’ – antes disso, tendo lançado seu primeiro longa-metragem, ‘Barravento’, em 1962, aos vinte e três anos -, soltou um comentário que até hoje julgo um tanto quanto irresponsável: “Vocês não se sentem mal por estarem na mesma faixa de idade deles e ainda não terem lançado um longa?”.

Desde o primeiro momento, eu também encarei essa pergunta como uma forma de incentivo, uma provocação, uma tentativa de nos encorajar, digamos assim, a produzirmos. Por ser uma professora e uma pessoa maravilhosa, sei que a intenção era das melhores: fazer-nos sair da teoria e partir para a prática. No entanto, a boa intenção não exclui os muitos problemas dessa pergunta-provocação-incentivo. Um deles é imediato: o sentimento de culpa e fracasso desnecessário que se instala em nossa consciência ao sermos comparados com pessoas da nossa faixa-etária mais bem sucedidas que nós.

A turma dessa disciplina era formada por alguns alunos com menos de vinte anos, a grande maioria na casa dos vinte, alguns com trinta e poucos e até aluno com mais de cinquenta anos. Diante da pergunta, todos ficaram calados, ninguém respondeu nada até eu, que sempre fui de falar muito, respondi com um “não, não me sinto mal por não ter lançado nenhum longa ainda”. Nesse momento todos os olhares se voltaram para mim e eu comecei a dar minhas justificativas, que só não transcrevo aqui porque já não lembro palavra por palavra, mas recordo de ter usado Suzana Amaral como um dos exemplos.

Suzana começou a estudar cinema quando já havia criado os nove filhos. Lançou o primeiro filme, ‘A Hora da Estrela’, um clássico do cinema brasileiro de 1985, aos cinquenta e três anos de idade, baseado na obra homônima de Clarice Lispector. Quando falei dela, um dos alunos, na época com vinte e sete ou vinte e oito anos, comentou que estava aliviado, pois ele ainda estava no tempo. O que muita gente esquece é que todo tempo é tempo. O próprio Sebastião Salgado só começou a fotografar aos vinte e nove. Não há necessidade desse tipo de comparação, principalmente quando o assunto é arte.

Agora, sempre que vejo o exemplo de um artista que começou “tarde”, lembro dessa aula. A própria concepção de “começar tarde” é errada, pois cada profissional tem o seu tempo próprio. O momento de criação de cada um é o tempo certo. É óbvio que muitos fatores nos impedem de começar antes. Artistas que conseguem reconhecimento logo no início são exceções. É difícil estudar em uma universidade um curso que não nos traz muitas ou quase nenhuma perspectivava de emprego. É como saltar sem paraquedas. Para muitos é preciso fazer outro curso antes e se profissionalizar em algo apenas para se conseguir estabilidade financeira. Para a grande maioria (e nisso me incluo), apesar de já cursar a área de interesse, é preciso trabalhar com o que não gostamos para, no futuro, finalmente conseguir trabalhar com o que queremos. Entretanto, nunca é tarde para começar.

Pode até ser desanimador fazer cinema diante de gênios como Glauber e Sganzerla, que começaram tão cedo. Para outros também pode ser desanimador ser escritor ao lado de gênios como Machado de Assis (1839-1908) e Álvares de Azevedo (1831-1852), que começaram tão jovens. Contudo, caríssimos, o fato de Suzana Amaral ter lançado o primeiro filme aos cinquenta e três, Kleber Mendonça Filho ter lançado seu primeiro longa-metragem aos quarenta e cinco anos, e Fernando Meirelles e Cláudio Assis aos quarenta e três anos, não os torna piores. O trabalho de todos eles, inclusive, é muito maduro e consistente. Sganzerla, por exemplo, nunca conseguiu fazer um filme melhor que ‘O Bandido da Luz Vermelha’, enquanto que Kleber Mendonça acaba de lançar a obra-prima ‘Aquarius’, aos quarenta e oito anos. Em 2002, quando Meirelles lançou ‘Cidade de Deus’, ele estava então com quarenta e sete.

Cora Coralina (1889-1985) e Graciliano Ramos (1892-1953) são dois gênios da literatura, tendo lançado seus primeiros livros aos setenta e seis e quarenta e um, respectivamente. Não estou dizendo que começar “tarde” é melhor, mas esse desejo de ser o mais rápido, o mais forte e o mais jovem, causa muitos problemas. No desespero de lançar logo a primeira obra, muitos artistas produzem trabalhos que com certeza seriam melhores se houvessem se dado o tempo de amadurecê-los.

Repito, nunca é tarde para começar. E nem para recomeçar. Tom Zé havia abandonado a carreira, mas conseguiu sair do ostracismo aos cinquenta e seis anos. Se já havia lançado clássicos como ‘Todos os Olhos’ (1973) e ‘Estudando o Samba’ (1976), ainda conseguiu realizar um de seus melhores trabalhos em 2012, o disco ‘Tropicália Lixo Lógico’, aos setenta e seis. Esse ano, aos oitenta, acaba de lançar o disco ‘Canções Eróticas de Ninar’, que eu ainda não ouvi e já gostei. Nada está perdido; bons trabalhos são realizados em qualquer idade. Se os artistas mais velhos nos incentivam a sempre continuar tentando, os artistas jovens não podem ser usados para nos desencorajar a produzir depois de uma determinada idade. E tenho dito: todo dia é dia de gênio.

o cinema é nosso

“Eu vejo o futuro repetir o passado”. Esse trecho da música ‘O Tempo Não Para’ de Cazuza vem martelando em minha cabeça sempre que penso no cenário brasileiro atual. Sinto como se estivesse vivendo situações que só conhecia através dos livros de História, quando estudava os capítulos sobre ditadura militar e respirava aliviado por ter nascido em outra época. Nesses mesmos livros didáticos, muito se falava sobre a censura imposta a todo tipo de arte, embora a música, com o exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil, ganhasse sempre um aprofundamento maior. Não recordo de ler nada relacionado à repressão sofrida pelo cinema brasileiro. Isso eu fui aprender depois por conta própria.

Quando os militares derrubaram João Goulart (1919-1976), o então presidente democraticamente eleito, o cinema brasileiro vivia um importante momento de sua história. ‘O Pagador de Promessas’, de 1962, escrito e dirigido por Anselmo Duarte (1920-2009) e baseado na peça teatral homônima de Dias Gomes (1922-1999), havia ganhado a Palma de Ouro no Festival de Cannes, e o Cinema Novo havia acabado de nos brindar com três clássicos eternos da nossa cinematografia: ‘Vidas Secas’, de 1963, escrito e dirigido por Nelson Pereira dos Santos e baseado no livro homônimo de Graciliano Ramos (1892-1953), ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, de Glauber Rocha (1939-1981) e ‘Os Fuzis’, de Ruy Guerra, ambos de 1964. ‘Vidas Secas’ e ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ foram indicados à Palma de Ouro com grande repercussão internacional, enquanto que Ruy Guerra receberia o Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim por ‘Os Fuzis’.

O Cinema Novo, movimento iniciado ainda na década de 1950 e formado por artistas de esquerda, resultou no maior engajamento político da filmografia nacional. A vida precária no sertão e nas favelas, questões raciais e sociais, a fome e a miséria, foram fortemente denunciados e debatidos em dezenas e dezenas de filmes. Com o golpe militar, esses longa-metragens e seus realizadores passaram a ser perseguidos e censurados. Glauber Rocha, maior nome do movimento, foi exilado.

O Cinema Marginal surgiria nesse meio tempo e, enquanto os cinemanovistas eram perseguidos por sua forte ideologia política, os marginais eram censurados por criticarem o comportamento moralista. Os filmes eram verdadeiramente retalhados e cineastas como José Mojica Marins, que não fazia parte de nenhum dos dois movimentos, foram algumas das maiores vítimas da repressão. Marins teve de cortar dezenas de cenas e falas em seus filmes, chegando até mesmo a modificar finais para conseguir lançá-los. Assim como ‘Terra em Transe’, de 1967, de Glauber, seu longa-metragem ‘Ritual dos Sádicos’, de 1969, foi proibido em todo o território nacional, não chegando nem a ser lançado nos cinemas por ter quase todas as suas cópias apreendidas e queimadas. Recuperado em 1982, foi exibido apenas em mostras e festivais com o título de ‘O Despertar da Besta’. Falido, Mojica teve que dirigir filmes pornôs para não morrer de fome, o que destruiu sua carreira. Na década de 1990 foi redescoberto pelos americanos e conseguiu voltar a dirigir seus filmes de terror, mas o estrago já estava feito. Uma carreira que tinha tudo para ser meteórica foi minada pela censura da ditadura militar.

Em 1964, Eduardo Coutinho (1933-2014) ainda era um diretor de longas de ficção. Ele estava realizando na Paraíba o filme que contaria a história de João Pedro Teixeira, líder camponês da região, assassinado em 1962. O cineasta já estava filmando há duas semanas quando parte da equipe foi presa sob a alegação de comunismo. A produção foi interrompida e Coutinho teve que voltar a trabalhar com jornalismo. Somente dezessete anos depois o trabalho foi retomado, dessa vez, colhendo depoimentos dos camponeses que trabalharam nas primeiras filmagens, com foco principal na história da viúva de João Pedro, dona Elizabeth Altino Teixeira que, desde 1964, teve que viver na clandestinidade, separada dos filhos. Lançado em 1984, ‘Cabra Marcado Para Morrer’ é até hoje o melhor e mais importante documentário brasileiro de todos os tempos.

Somente em 1975, com a abertura política, os filmes conseguiram uma liberdade maior para abordar temáticas que não agradavam ao governo, sendo lançados com poucos ou até mesmo nenhum corte. Por ter um público infinitamente maior que o do cinema, a censura voltou sua atenção para a televisão. No entanto, mesmo os filmes liberados sem cortes eram censurados quando transmitidos na TV. ‘Pixote: A Lei do Mais Fraco’, de 1980, do diretor Hector Babenco (1946-2016), só foi liberado para a telinha cinco anos depois e com trinta e oito cenas censuradas. Com o fim do regime militar, a censura acabou e os filmes dessa época puderam ser assistidos na íntegra em todo o território nacional.

Os vinte e um anos do regime militar foram o período mais sombrio já vivido pelas criações artísticas brasileiras, um verdadeiro desprezo pela informação e liberdade de expressão. Ao ler essas histórias, parece tudo muito absurdo, mas estamos de fato repetindo o passado. Temos o Congresso mais conservador desde 1964, ano do golpe militar. Hoje, assim como há cinquenta e dois anos atrás, vivemos mais um golpe, dessa vez, parlamentar, em que 367 deputados e 55 senadores anularam 54,5 milhões de votos. A imprensa, assim como em 1964, apoiou o golpe. Em 2013, apenas quarenta e nove anos depois, a Rede Globo se desculpou publicamente, classificando seu apoio ao golpe militar como um erro. No futuro, ela e tantos outros veículos de imprensa haverão de se desculpar novamente. Só espero que não demore outros quarenta e nove anos.

Todos os absurdos que eu lia nos livros de História começam a se repetir. Primeiro um golpe parlamentar derruba Dilma Rousseff, nossa presidenta democraticamente eleita. Depois, Michel Temer, em seu primeiro pronunciamento ao assumir o cargo, diz à nação brasileira: “Não fale em crise, trabalhe!” Qualquer semelhança com o “Brasil, ame-o ou deixe-o” não é mera coincidência. Depois, decreta o fim do Ministério da Cultura (recriado após calorosos protestos da classe artística). Não deu nem muito tempo para comemorar a volta do ministério quando seu novo ministro, Marcelo Calero, simplesmente decidiu exonerar a presidente da Cinemateca Brasileira, Olga Futemma, juntamente com outros quatro técnicos da instituição. A Cinemateca é responsável pela preservação da produção audiovisual brasileira. Dias depois, após forte apelo da classe cinematográfica, o Ministério da Cultura voltou atrás e manteve o emprego de Olga e dos outros quatro funcionários.

Nesse meio tempo, a equipe do filme ‘Aquarius’, do diretor Kleber Mendonça Filho, protestou contra o impeachment da presidenta Dilma no tapete vermelho do Festival de Cannes, em que concorreu a Palma de Ouro depois de oito anos sem um representante brasileiro na disputa oficial. O último filme nacional a concorrer ao prêmio havia sido ‘Linha de Passe’, de Walter Salles e Daniela Thomas, em 2008. O ministro Calero criticou o protesto e disse que os membros da equipe do filme “estão comprometendo [a imagem do país] em nome de uma tese política, e isso é ruim. Eu acho até um pouco totalitário, porque você quer pretender que aquela sua visão específica realmente cobre a imagem de um país inteiro. Eu acho que a democracia precisa ser respeitada e acho que é um desrespeito falar em golpe de Estado com aqueles que viveram o golpe realmente, o de 1964. Pessoas morreram. E as pessoas esquecem isso. Então eu acho [o protesto] de uma irresponsabilidade quase infantil”. Sônia Braga, que interpreta a protagonista do filme, rebateu: “Como pode um Ministro dizer que um ato democrático como o nosso é a representação de um País inteiro? Isso é desconhecimento do que significa plena democracia. Se estivéssemos falando em nome de todos não precisaríamos, evidentemente, fazer o ato. Uma coisa é certa: estamos juntos. O Ministro da Cultura ofendendo artistas é inadmissível. O senhor está nesse cargo para dialogar, para nos ajudar, para fazer a ponte com quem nos explora. A propósito, as críticas para Aquarius foram fabulosas. Quatro estrelas em jornais franceses, italianos, poloneses, russos e três citações no The New York Times. Ponto grande para a imagem da cultura brasileira no exterior. Senhor Ministro, não podemos perder as nossas conquistas. Sobretudo a mais importante delas, o respeito”. Desde então, o filme vem sofrendo uma forte perseguição política.

A repressão ao longa só ficou ainda mais evidente quando o Ministério da Justiça o proibiu para menores de dezoito anos, alegando conter situações sexuais complexas. Assisti ao filme e considerei a classificação um abuso. As três cenas de sexo de ‘Aquarius’ duram cada uma menos de trinta segundos. Filmes recentes do cinema nacional, como ‘Tatuagem’, de 2013, escrito e dirigido por Hilton Lacerda, e ‘Boi Neon’, de 2016, escrito e dirigido por Gabriel Mascaro, possuem longas cenas de sexo explícito e foram classificados como impróprios para menores de dezesseis anos. Usando esses exemplos como argumento, Silvia Cruz, sócia da distribuidora Vitrine Filmes, em uma reunião com Gustavo Marrone, secretário nacional de Justiça e Cidadania, pediu a reconsideração da classificação estabelecida. O Ministério da Justiça aceitou o pedido de revisão feito pela distribuidora e o filme acabou lançado como impróprio para menores de dezesseis anos. Em 1964, ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ foi lançado sem cortes, no entanto, foi proibido para menores de dezoito anos. Quem já viu o filme de Glauber sabe o quão isso é absurdo. Quem assistir ‘Aquarius’ também vai considerar a classificação do filme bastante incoerente. Todos sabemos que uma classificação máxima prejudica muito a vida de um filme, que acaba por ter seu leque de público muito reduzido, prejudicando inclusive sua arrecadação com bilheteria, e é justamente isso que o governo está tentando fazer: evitar que as pessoas assistam ao novo filme de Kleber Mendonça Filho. Na França, por exemplo, a produção recebeu a classificação livre para todos os públicos.

Até agora, ‘Aquarius’ conseguiu reverter bem as perseguições que o Ministério da Cultura tem feito contra o longa. Nos primeiros quatro dias de exibição, o filme conseguiu uma bilheteria de cinquenta e cinco mil espectadores, sendo o melhor lançamento da semana em média por sala. No entanto, há um último desafio a ser vencido: ser o representante brasileiro na disputa do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Para a maioria dos profissionais, cinéfilos e críticos nacionais e internacionais, ‘Aquarius’ é o grande favorito, todavia, o Ministério da Cultura ainda tem mais uma carta na manga: o crítico Marcos Petrucelli (da rádio CBN e do site e-Pipoca), anunciado como integrante da comissão responsável pela seleção do representante nacional no Oscar. Petrucelli vem criticando duramente ‘Aquarius’ e especialmente seu diretor, Kleber Mendonça Filho, desde sua passagem no Festival de Cannes. A nomeação de Petrucelli (que confessou não ter visto o filme) é uma clara tentativa do governo de tirar a vaga do longa com o intuito de evitar mais um protesto político de sua equipe com repercussão internacional. Após a polêmica, dois integrantes, a atriz Ingra Lyberato e o diretor Guilherme Fiúza Zenha, se desligaram da comissão, sendo substituídos por Carla Camuratti e Bruno Barreto. Adriana Rattes, Luiz Alberto Rodrigues, George Torquato Firmeza, Paulo de Tarso Basto Menelau, Silvia Maria Sachs Rabello e Sylvia Regina Bahiense Naves são os demais integrantes da comissão. Em protesto, os diretores Gabriel Mascaro e Anna Muylaert retiraram da disputa seus filmes ‘Boi Neon’ e ‘Mãe Só Há Uma’, respectivamente.

O longa de Kleber Mendonça Filho concorrerá com outros dezesseis filmes para representar o Brasil no Oscar: ‘A Bruta Flor do Querer’ (Andradina Azevedo, Dida Andrade); ‘A Despedida’ (Marcelo Galvão); ‘A Hora e a Vez de Augusto Matraga’ (Vinícius Coimbra); ‘Até Que a Casa Caia’ (Mauro Giuntini); ‘Campo Grande’ (Sandra Kogut); ‘Chatô – O rei do Brasil’ (Guilherme Fontes); ‘Mais Forte Que o Mundo – A História de José Aldo’ (Afonso Poyart); ‘Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil’ (Belisário Franca); ‘Nise – O Coração da Loucura’ (Roberto Berliner); ‘O Começo da Vida’ (Estela Renner); ‘O Outro Lado do Paraíso’ (André Ristum); ‘O Roubo da Taça’ (Caíto Ortiz); ‘Pequeno Segredo’ (David Schürmann); ‘Tudo Que Aprendemos Juntos’ (Sérgio Machado); ‘Uma Loucura de Mulher’ (Marcus Ligocki Júnior); ‘Vidas Partidas’ (Marcos Schechtman). Nosso representante será anunciado na próxima segunda-feira (12/09), em cerimônia na Cinemateca Brasileira, em São Paulo.

Em seu livro ‘Revisão Crítica do Cinema Brasileiro’, Glauber Rocha dizia que a luta do Cinema Novo era contra a chanchada e o trust americano, e que era preciso salvar o cinema independente: “temos de salvar o cinema independente, temos de construir o cinema brasileiro com os independentes. Somente assim os diretores terão liberdade para criar filmes novos. […] Tudo é muito claro: o que se precisa é a união dos independentes contra o trust americano – a primeira batalha foi interna, contra a chanchada. A segunda é maior, é uma luta igual às outras da indústria brasileira e mais do que nunca, agora, este amadurecimento político de um povo necessita da legenda: o cinema é nosso, como no caso do petróleo.” O Cinema Novo, de fato, conseguiu derrubar a chanchada, mas nunca vencemos a invasão americana. Fosse hoje, Glauber diria que a luta deveria ser contra a comédia pastelão (a chanchada atual), a invasão americana e o boicote do governo ilegítimo.

O cinema é nosso, assim como todas as outras formas de expressão artística. Não podemos deixar que censores virjões tramem boicotes a obras de arte bem debaixo do nosso nariz. É preciso abrir os olhos: a mídia quase sempre está contra nós e suas crias, como Reinaldo Azevedo, da “Revista” Veja, sempre escreverão barbaridades como as que ele escreveu: “o dever das pessoas de bem é boicotar Aquarius”. Bem, confesso que não boicotei, assisti e gostei muito. Estou convicto de que vi um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos. A ideia que os golpistas fazem de moral e bons costumes aos meus olhos são conservadoras e preconceituosas, um retrocesso sem fim. Querem voltar para a idade da pedra. Pessoas do “mal”, uni-vos! Vejam ‘Aquarius’!

me julgue

Nos últimos tempos, tenho escutado uma variedade de frases absurdas e outras nem tanto, acompanhadas das palavras “me julgue”. Algumas são tristíssimas de ouvir, principalmente quando saem da boca de alguns amigos e amigas. As mais dolorosas continuam sendo “não gosto de literatura brasileira, me julgue”, “não gosto de cinema nacional, me julgue” e “não gosto de música cantada em português, me julgue”. Nesses casos de generalizações o “me julgue” funciona como um “foda-se”. De certa forma, é até uma maneira agressiva de se dizer não gostar e não estar nem um pouco interessado em tentar pesquisar e conhecer melhor o que diz não apreciar – e é por isso que quem diz não liga se é julgado ou não.

Há também um segundo caso, o dos que se sentem constrangidos por gostarem de alguma coisa: “gosto de novelas, me julgue”, “gosto de reality shows, me julgue”, “gosto de música sertaneja, me julgue”. Aqui, o “me julgue” significa “por favor, não me julgue”. Essas pessoas se envergonham por gostarem do que todos adoram falar mal, e essa é a única forma de conseguir revelar suas preferencias para o mundo – funciona como um mecanismo de defesa. Com essas duas palavrinhas, as pessoas tentam nos ludibriar, fingindo não ligar para a opinião alheia, o que evidentemente não é verdade. Quando não nos importamos com a opinião dos outros não sentimos nenhuma necessidade de demonstrar esse posicionamento, apenas dizemos “eu gosto disso” e pronto.

Para os que se sentem envergonhados por gostarem de algo, tudo o que eu tenho a lhes dizer é: gostem, continuem gostando, gostem com força! Se um dia mudarem de ideia e pararem de gostar, que seja por conta própria ou por uma dessas mudanças que o próprio tempo se encarrega de realizar, e não por imposição, julgamento e preconceito da opinião alheia.

Não devemos fazer juízo de valor em nenhum dos dois casos. Não há problema algum em gostar ou não gostar de algo, porém, todavia, entretanto, fazer generalizações como no primeiro caso explanado acima é, digamos assim, exercer uma visão preconceituosa. Quando alguém me diz não gostar de cinema brasileiro (usarei esse exemplo por ser o que mais escuto), eu não julgo, mas isso não me impede de tentar fazer com que o outro enxergue seu posicionamento de forma diferente, pois quase sempre ele não percebe que pode estar sendo induzido a pensar assim.

Somos criados assistindo a um cinema que não é nosso e que nos apresenta uma cultura que também não é nossa. Basta ligar a TV a qualquer hora do dia que em algum canal estará sendo transmitido um filme estrangeiro. Acabamos consumindo aquele estilo de vida e considerando sua estética cinematográfica como a melhor. No entanto, o dinheiro usado para realizar um filme na gringa pagaria a produção de uns vinte filmes brasileiros ou mais. Quando dizem que o público de cinema é elitista há sempre quem rebata essa teoria, mas poder pagar trinta reais em um ingresso é um privilégio de poucos e sabemos disso. Talvez por essa razão, pouca gente ache absurdo gastar milhões para se realizar um filme. Fazer cinema deveria ser barato e o preço do ingresso mais barato ainda. Os altos valores cobrados por uma sessão mantêm o público de classe baixa bem longe da sétima arte.

Em 2007, Hector Babenco deu uma entrevista para Cynara Menezes em que falou um pouco sobre isso, comparando o cinema brasileiro com o argentino: “Quem vai ao cinema no Brasil são as pessoas que podem pagar 16, 20 reais, são de classe média. E o cinema brasileiro de fato tem dado mais espaço a uma dramaturgia alimentada pelos excluídos, pelas desigualdades sociais, por essa mentira em que o país se transformou, essa lepra, como diz o Jabor. Já as tragédias argentinas são dramas de classe média: a vovó que não morre e não deixa a casa que tem que ser dividida pelos filhos, o filho cujo pai está com câncer e não sabe o que fazer… Como o público brasileiro também é de classe média, acha que o cinema daqui teria que ser como o de lá. Sou mais o cinema brasileiro, com suas imperfeições, do que o argentino com seu aburguesamento.”

A razão apontada por Babenco é apenas uma das muitas que mantém o público brasileiro distante do próprio cinema. Reconheço que também produzimos filmes medíocres, mas dizer não gostar da produção nacional por ser um cinema ruim é generalizar. Cinema brasileiro não é só Globo Filmes e, se fosse dessa forma, eu deveria dizer que não gosto de filmes norte-americanos, pois quase todos os que passam na TV ou estão em cartaz nos cinemas, para mim, são desprezíveis. Porém, jamais faria uma afirmação dessas, pois esse mesmo país já produziu e ainda produz obras primas, sem contar o seu circuito independente, que quase nunca decepciona. Porém, esses filmes mais baratos, que fogem dos padrões comerciais e não apresentam em seu elenco atores e atrizes famosos, não chegam às nossas salas de cinema e muito menos são televisionados. Ou seja, todos os países do mundo produzem filmes bons e ruins, não dá para generalizar.

Acontece, caríssimos, que uma espessa nuvem de preguiça paira sobre as plateias, e isso não é uma característica só do público brasileiro. O comodismo impede que muitas pessoas procurem conteúdos por conta própria. Assistir apenas o que fica em cartaz nos cinemas de shopping, ver apenas o que a televisão transmite, ler somente os best-sellers que ocupam as prateleiras das livrarias ou ouvir só o que toca no rádio ou na novela é ficar à deriva, consumindo apenas o que os grandes veículos de mídia tentam impor. É por isso que muita gente diz não gostar de música em português, pois estão acostumados a só ouvirem música internacional tema de casal de novela, muitas vezes sem nem entender o que diz a letra.

Contudo, não é julgando que fazemos o outro ter uma visão nova e talvez mais lúcida da situação. Quando alguém me diz que cinema brasileiro só tem filme de favela, peço sempre que me diga o título de cinco filmes que abordem o tema sem ser ‘Cidade de Deus’ (2002) e ‘Tropa de Elite’ (2007). É óbvio que existem outros longas brasileiros que falam sobre isso, pesquisar e responder é fácil, mas até hoje ninguém conseguiu me informar outros cinco títulos de cabeça. Fazer perguntas para pessoas sem argumentos sempre as deixa sem defesa, pois se não conseguem justificar seus posicionamentos, são automaticamente forçadas a reconhecer que estão sem razão por contradizerem o próprio discurso. O próximo passo é sempre apresentar um bom filme, ou um ótimo livro ou disco, dependendo da generalização. Se a pessoa não gostar, apresentamos outro e mais outro e, se depois de algumas tentativas a pessoa continuar dizendo que não gosta, temos que respeitar, já que, pelo menos, houve uma tentativa do outro lado em conhecer nossa perspectiva.

No filme ‘Real Beleza’ (2015) do diretor Jorge Furtado, o fotógrafo João, personagem de Vladimir Brichta, conversa com seu assistente que lhe diz que “gosto não se discute”, ao que João rebate: “se discute sim, aliás, o tempo todo, é praticamente só o que se faz”. Concordo que gosto se discute o tempo inteiro, mas penso que não deveria. Cada um gosta do que quiser, no entanto, é preciso problematizar as generalizações. Bem mais do que dar uma chance a outras produções, a verdadeira questão é se dar uma chance de pesquisar e conhecer outros nichos e movimentos culturais que vivem à margem. É preciso entrar em contato antes de afirmar não gostar de algo, conceito prévio (pré-conceito) é um comportamento de mentes fechadas.

Não é assustador imaginar que podemos morrer sem conhecer nossos verdadeiros filmes, livros e discos favoritos, só por preguiça de pesquisar? Eles estão em algum lugar por aí, só esperando por nós. Mentes à deriva é tudo que o Sistema deseja para unificar a massa cada vez mais, oprimindo personalidades e rotulando por conta própria o que é bom ou ruim. Também não há problema nenhum em fazer parte de um público massivo e consumir a corrente principal (mainstream), uma vez que esse seja realmente seu conteúdo de preferência. No final, os fãs de filmes blockbusters, de filmes brasileiros e os que não apreciam cinema, vão todos morrer. A vida é curta demais para perder tempo julgando o gosto dos outros, mas que dá vontade de julgar quem faz generalizações, ah isso dá, me julgue.

filho ingrato da televisão

Sábado último, fiquei acordado até tarde esperando um filme que ia passar na televisão. Foi como ter voltado no tempo, pois não recordo a última vez em que esperei um filme ser exibido na TV para poder assisti-lo. O longa em questão foi ‘Meu Amigo Hindu’, última produção do cineasta Hector Babenco, lançada nos cinemas em março. Anos atrás, após sua estreia nas salas de cinema, os filmes demoravam alguns meses até serem lançados em VHS ou DVD. Eles iam direto para as locadoras de vídeo e, só depois, chegavam às lojas. Passados um, dois anos, ou até mesmo um período maior, o filme seria finalmente exibido na TV, que o anunciaria com grande estardalhaço: “pela primeira vez na televisão”. Toda essa espera para que as locadoras de vídeo pudessem lucrar com o aluguel dos filmes e para que estes fossem exibidos até cansar em emissoras de TV por assinatura. Com o fim das locadoras e o avanço da internet, o caminho que o filme faz das salas de cinema até a TV aberta ficou bem mais curto. Agora, ou as emissoras transmitem os lançamentos em um prazo menor, ou todos já terão assistido quando forem transmitidos. Mesmo assim, ‘Meu Amigo Hindu’ foi televisionado em tempo recorde. A exibição foi uma homenagem da Rege Globo a Babenco, que morreu no último dia 13, dia do rock. Não fosse a morte do diretor, o filme jamais teria sido exibido tão rapidamente.

Estava querendo assistir a ‘Meu Amigo Hindu’ desde o ano passado, quando ele foi apresentado pela primeira vez durante a 39ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O filme teve um lançamento modesto, chegando a poucas salas de cinema e saindo de cartaz rapidamente. Com isso, acabei perdendo a oportunidade de vê-lo na tela grande. Começou então a minha espera pelo lançamento do filme em alguma plataforma online, até que, na quinta-feira (13), acordo e vejo no celular uma mensagem do meu namorado me contando que Hector Babenco havia morrido aos 70 anos de parada cardíaca. Ele sabe da minha forte admiração por Babenco e até já havia me presenteado com o livro ‘Pixote – A Lei do Mais Forte’, de José Louzeiro, que conta a trágica história de Fernando Ramos da Silva, famoso em todo o Brasil por interpretar Pixote, figura central do romance-reportagem ‘Infância dos Mortos’ (do próprio Louzeiro) e do filme de Hector Babenco, nele baseado, ‘Pixote – A Lei do Mais Fraco’ (1980).

Quem nasce hoje, tem como mãe legítima a internet, que é minha mãe adotiva, pois mesmo ainda sendo jovem, faço parte da última geração de filhos biológicos da televisão. Fui da parte pobre da família, porque a minha tia rica, quer dizer, a TV por assinatura, nem cheguei a conhecer. Ainda acompanhei os últimos anos das locadoras de vídeo. Nem precisava alugar os DVDs na sexta, como faziam a maioria dos clientes, para ficar com os filmes por mais tempo, já que a locadora fechava aos domingos. Como os títulos que eu alugava eram sempre os que ninguém levava, os donos da locadora me permitiam ficar com eles por mais tempo, sem que fosse preciso pagar multa por atraso. Não faço o tipo saudosista, mas vai ser divertido contar para as futuras gerações que eu alugava o que hoje possuímos ao alcance de um clique.

Durante a infância, estudava no turno da manhã e, quando acabava a aula, corria desesperadamente para chegar em casa e assistir a desenhos animados na TV. Os mais legais ficavam sempre para o final, então dava para assistir as duas últimas atrações. Algumas vezes, eu acabava perdendo certos episódios – isso acontecia quando minha mãe atrasava na hora de ir me buscar na escola ou quando ela decidia fazer alguma compra no caminho de volta. Já escrevi aqui sobre como meus pais eram superprotetores comigo, então minha mãe levava e buscava de bicicleta minha irmã e eu todos os dias. Estudamos sempre nos mesmos colégios, embora em séries diferentes: ela, por ser mais nova, esteve sempre duas sérias abaixo de mim. Quando ganhei minha primeira bicicleta, minha mãe me deixava ir na minha enquanto ela e minha irmã iam em outra, só deixando de nos levar à escola quando fez uma cirurgia, poucos dias após o meu aniversário de dez anos. Isso aconteceu no meu primeiro ano em escola pública, em que todos os meus colegas de sala de aula iam sozinhos, diferente dos meus colegas de colégio particular, que eram levados pelos pais de carro. Foi quando comecei a sentir vergonha por ser levado por minha mãe, pois os garotos me zoavam. Hoje, tenho vergonha por ter sentido vergonha disso. Ela ficou bastante tempo em recuperação após a cirurgia, então passei a ir sozinho à aula. Aquele foi também o meu primeiro ano estudando no turno da tarde. Minha irmã continuou no turno da manhã e ia à aula de carona com nosso vizinho cujo filho estudava na mesma escola. Quando se recuperou, minha mãe havia perdido o medo de me deixar ir sozinho, e não voltou a me levar mais.

Assisti a temporadas inteiras de desenhos animados e tenho de confessar que, às vezes, fingia estar doente para faltar aula e não correr o risco de perder certos episódios, geralmente os últimos da temporada. Quando passei a estudar no turno da tarde, isso deixou de ser um problema, mas continuei fingindo estar doente em algumas ocasiões, dessa vez para não perder o filme que ia passar na TV. Minha mãe sempre desconfiava dessas minhas mentiras, pois eu ficava milagrosamente curado quando estava assistindo televisão.

Alguns anos antes dela fazer essa cirurgia, eu lembro que, à noite, assistia, juntamente com meu pai e minha irmã, às novelas infantis do SBT (pois minha mãe nunca gostou de qualquer folhetim televisivo). Toda noite, duas vizinhas vinham com seus filhos assistir televisão aqui em casa, pois não tinham televisores em seus lares. Uma delas era minha madrinha, que sempre trazia seu filho que, por sua vez, correndo de um lado para o outro, não deixava ninguém em paz. A outra era uma senhora deveras religiosa que trazia o casal de filhos. Ela era a única evangélica da rua que assistia à TV e os outros consideravam isso um pecado, pois quem via aqueles programas corria o risco de não ver Jesus quando ele voltasse à Terra para buscar os seus fiéis no dia do juízo final. O mais irônico é que ela e seus filhos evangélicos eram os que mais gostavam de assistir às novelas, ficando verdadeiramente hipnotizados. Os filhos dela eram meus amigos e da minha irmã. Eles possuíam rádio em casa, o que não tínhamos, e nos contavam que também ouviam novelas pelo rádio. Eu não conseguia entender como alguém podia acompanhar a uma novela só pelo som, e eles me contavam que era do mesmo jeito que assistir na TV, só que sem as imagens. Somente anos depois eu fui descobrir o que eram radionovelas. Certa vez, minha mãe, a religiosa mais herege que eu conheço, disse para uma cliente evangélica que se incomodou com o fato de assistirmos à TV ao invés de ficarmos atentos a volta do Messias: “Quando ele voltar, você nos avisa. Você é minha amiga! Será que vai deixar de me chamar quando Jesus estiver te levando para o céu?” Nem preciso dizer que minha mãe perdeu a cliente.

Esse período da infância foi o único em que assisti a telenovelas; na adolescência, ainda cheguei a acompanhar umas duas, mas nunca tive muita paciência. Meu interesse mesmo era pelos filmes. Metade dos títulos que vi na vida foi assistida na televisão e a outra parte, na era pós-internet. Vi na TV muitos dos filmes que hoje são considerados clássicos e, desde muito cedo, descobri que os melhores passavam durante a madrugada. Não porque eram longas adultos, pois nunca vi pornô na televisão, mesmo nas sessões da madrugada, e sim porque, na maioria das vezes, não eram produções blockbusters e sim as de baixo orçamento, filmes de arte. É algo até engraçado, visto que os filmes que antes passavam durante a tarde hoje não são mais transmitidos nesse horário por não respeitarem a indicação de faixa-etária livre.

Com a chegada da internet na adolescência, a televisão continuou tendo um lugar de destaque na minha vida. Embora não assistisse mais a desenhos animados, continuava firme e forte com os filmes. O declínio da TV em minha rotina só não aconteceu mais cedo graças à tecla SAP (sigla em inglês para Segundo Programa de Áudio). Permitir assistir aos filmes com o áudio original e legendados foi o que ainda me manteve por um tempo ao lado da minha velha companheira. Quando eu era criança e ainda não sabia o que era a tecla SAP, uma prima de segundo grau veio aqui em casa e, enquanto brincávamos na sala, sentou sem querer sobre o controle remoto que estava no sofá. A TV estava ligada e do nada os personagens do filme que estava passando começaram a falar em inglês. Apertei os vários botões do aparelho na tentativa de fazer o som voltar ao “normal”. Fiquei desesperado, pois achava que meu pai iria me matar quando chegasse em casa à noite e encontrasse a TV falando aquele idioma tão estranho. Depois de muitas tentativas, o som da TV voltou ao áudio dublado, mas eu só vim descobrir o que havia acontecido naquela ocasião anos depois. Tecla SAP é vida!

Hoje, existem quatro aparelhos de televisão aqui em casa, mas assistimos cada vez menos. Não vejo mais filmes na TV, pois são sempre cortados para que caibam na programação. No entanto, os aparelhos ainda me são necessários para que eu possa ver os filmes que coloco no DVD. Admito que, uma vez ou outra, ainda assisto a telejornais, embora minha fonte de informações seja realmente a internet. Também assisto a transmissões de jogos, mas quando estes não são os que desejo ver, mais uma vez recorro à rede. Até alguns programas de entrevistas que gosto de assistir não me preocupam mais, já que, em poucas horas, todos estão disponíveis online. Admito também que, quando um filme que gosto muito está passando e não tenho nada mais importante para fazer, acabo revendo. Esse ano isso aconteceu com ‘Que Horas Ela Volta?’ (2015) e, muito recentemente, com ‘O Som ao Redor’ (2012), sendo que este começou quando eu estava me preparando para deitar. Gosto tanto do filme que só consegui ir dormir quando acabou, mesmo irritado por algumas cenas terem sido suprimidas. Aparentemente, o filme de Babenco foi exibido na íntegra, pois ficou no ar por mais de duas horas, mas só terei certeza acerca disso quando revê-lo.

Havia anos que a TV não transmitia algo do meu interesse e que me fosse inédito. Por Hector Babenco, voltei mais uma vez à tecla SAP e fui dormir de madrugada, todavia, valeu muito a pena. Ainda não sei o que ‘Meu Amigo Hindu’ representa para mim diante de todas as belas sensações que me despertou. Terminei o filme com um nó na garganta por saber que era a última produção de Babenco e feliz por ter sacado todas as suas auto-referências profissionais, mesmo reconhecendo que jamais saberemos o que é ou não biográfico no roteiro. Acabado o longa-metragem, voltei à internet, pois sou um filho ingrato da televisão e espero sinceramente nunca mais ter de voltar a ela devido a morte de alguém querido. Ser um refém da TV é um retrocesso, é estar à mercê da alienação e ser passado para trás por toda uma geração conectada à rede mundial de computadores. Infelizmente, muita gente depende exclusivamente da TV como fonte de informações: segundo o IBGE, 50% dos lares brasileiros ainda não tem acesso à internet. O Estado deveria estar trabalhando para levar acesso aos outros 50% dos lares, e não as operadoras brigando na Justiça para limitar o acesso desta. No entanto, isso é assunto para outro texto. Por hora, sei que sou um afortunado por ter abandonado a TV antes que ela me deixasse igual ao eu lírico da canção ‘Televisão’ dos Titãs: burro, muito burro demais.

distância estratégica

Sou um homem de muitos ídolos, em especial cineastas, escritores(as) e compositores(as), mas se tem algo que tenho aprendido com o passar dos anos é que, em alguns casos, manter distância deles pode ser uma decisão muito saudável. Na adolescência, passei por uma fase de fanatismo por bandas de rock, bandas essas que me ajudaram a moldar boa parte da minha personalidade. Ainda gosto dessas bandas, conheci outras e fui ao show de muitas. Conservo em mim a vontade de ainda ver ao vivo as que nunca cheguei a ver – não são poucas, apesar de boa parte delas não existir mais.

Mesmo nessa fase, nunca fui a camarim, nunca fui a aeroporto esperar meus ídolos chegarem na minha cidade, nunca fiz nenhum tipo de loucura de fã, mesmo já tendo sido membro de alguns fã clubes. Não julgo quem faz essas demonstrações de amor, contanto que não passem dos limites do bom senso e jamais ponham a própria segurança e a dos outros em risco. Foi uma fase importante da minha vida, em que conheci muitas pessoas que gostavam das mesmas coisas que eu. Se pudesse voltar no tempo, com certeza faria muita coisa diferente, mas essa fase da adolescência eu não mudaria. Fiz muitas amizades, das quais algumas permanecem até hoje. A música, em especial o rock, me aproximou de muita gente incrível e essas bandas apresentaram-me a muitas outras bandas, a vários filmes e livros. Não foram poucas as ocasiões em que li um livro ou vi um filme porque certo cantor ou cantora dizia gostar em entrevistas. Até hoje fico muito feliz quando alguém me apresenta algo que ainda não conheço, embora nada supere a sensação de sozinho fazer essas descobertas. É por isso que pesquiso tanto, estou sempre desbravando listas de filmes, livros, discos e, conforme o tempo vai passando, menos entrevistas eu leio ou assisto.

Show para mim tem que ser na grade, bem perto do palco. Se eu ficar longe, tenho a sensação de que não fui. Por isso, sempre compro os ingressos no primeiro lote para não correr o risco de perder. Chego cedo, mesmo que tenha que ficar algum tempo na fila. Tenho forte resistência, posso passar bastante tempo em pé, sem comer ou ir ao banheiro. Em quase todos os shows que fui na adolescência, fui a primeira pessoa da fila. Não sei se continuo com essa mesma resistência, porque faz bastante tempo que não sou e nem me preocupo mais em ser o primeiro. Não chego mais com muitas horas de antecedência, porém, chego tarde o suficiente para ainda conseguir ficar na grade (isso não significa que chego cedo, são as pessoas que chegam tarde, acredite). A energia da grade é diferente da dos outros espaços. Ali estão os fãs mais enérgicos, os mais apaixonados, os mais loucos, os que querem ser vistos pela banda. Gosto dessa energia. Hoje não pulo tanto quanto antes e nem tento ser o que grita mais alto. Sempre tenho algo para fazer no dia seguinte, não posso mais dar-me ao luxo de ficar muito cansado e rouco. Agora, só o fato de estar ali me basta, embora continue querendo estar perto.

Todas as vezes que vou a um show, as pessoas perguntam-me no dia seguinte se consegui entrar no camarim e tirar foto com a banda. Eu sempre digo que não (porque, na verdade, nem tento) e recebo sempre uma reação decepcionada. Nunca consegui entender isso. Vou aos shows ver e ouvir as bandas ao vivo, não para tirar fotos com os músicos. Costumo explicar brincando que quando vou a um show só interessa-me a “missa” proporcionada pela banda. O importante mesmo é comungar aquele momento com as pessoas ali presentes. Nos primeiros shows que fui, costumava filmar várias músicas e fotografar bastante, hoje, não faço mais isso. Em boa parte dos casos é uma grande oportunidade estar ali. Sei que queremos registrar cada segundo, mas se estamos muito preocupados em registrar a apresentação, esquecemo-nos de viver aquele momento. Agora, costumo tirar uma ou duas fotos para guardar de recordação, mas não tenho nenhum registro fotográfico do último show que fui. No entanto, lembro nitidamente de tudo e sou capaz de contar em detalhes quando me perguntam como foi.

Acredito que permanecerei sempre como um rato de shows. A sensação de ver minhas bandas favoritas ao vivo é maravilhosa. É um pouco semelhante com o que acontece com o cinema. Muita gente costuma ir ao cinema ver os filmes de seus atores favoritos ou dos gêneros que mais gostam. Se vou ao cinema, o motivo sempre é o(a) diretor(a). Acompanho o trabalho de muitos(as) e sei que ver seus filmes na tela grande é completamente diferente de vê-los em casa. A literatura parece mesmo ser a arte mais solitária – os(as) escritores(as) quase sempre escrevem sozinhos(as), diferente de artes mais coletivas, como a música e o próprio cinema. Eu até posso fazer música sozinho, da mesma forma que posso me filmar, editar e lançar esse filme “solo”, mas sabemos todos que casos assim são raras exceções. Da mesma forma que não são muito comuns leituras coletivas, embora alguns grupos de leitura estejam tentando mudar essa realidade.

No entanto, atualmente, quase não acompanho nada, salvo uma ou duas bandas que eu tô sempre observando. Quando são lançados discos novos, praticamente sou pego de surpresa. São tantas notícias que não dá para acompanhar tudo. Mesmo quando se trata de filmes, que possuem um processo de produção mais longo (captação de recursos, pré-produção, produção, edição, participação em festivais, divulgação, exibição nos cinemas), consigo ser pego de surpresa com um ou outro lançamento, principalmente tratando-se da fonte nacional, que é o que eu mais gosto de acompanhar e assistir, mas que não tem uma distribuição tão massiva quanto a dos filmes enlatados que as distribuidoras brasileiras importam de outros países para ocuparem as salas de cinema do Brasil inteiro. Quando a questão envolve os livros, é aí que eu sou surpreendido mesmo, por isso, sempre que posso, dou uma pesquisada para ver o que tem sido publicado atualmente (mesmo saindo geralmente muito triste de ver os títulos e os autores que estão ocupando as prateleiras das livrarias).

Apesar disso, não sofro. Muito pelo contrário, estou evitando cada vez mais saber o que eles estão fazendo e principalmente falando. Não tem sido poucas as ocasiões em que venho decepcionando-me com artistas. Toda vez que assisto uma entrevista em que José Mojica Marins faz comentários homofóbicos, dói-me o coração. Quando vi Caetano Veloso, Chico Buarque, Djavan e Gilberto Gil aderindo ao Procure Saber, grupo que luta pela proibição de biografias não autorizadas, custei a acreditar. Não fiquei surpreso com Roberto Carlos, porque já conhecia seu histórico de proibições que, inclusive, não é de hoje. Quando Jô Soares constrangeu a youtuber Jout Jout com comentários machistas em seu programa, eu também me senti constrangido. Nunca acompanhei a carreira de Roger, embora goste muito dos primeiros discos do Ultraje a Rigor, mas recentemente tenho ficado impressionado com o modo como o vocalista dessa banda que produziu um dos discos fundamentais do rock brasileiro dos anos 1980, o Nós Vamos Invadir Sua Praia (1985), consegue a proeza de em várias ocasiões precisar de tão poucas palavras para destilar seu machismo e homofobia. Por falar nisso, tem sido cada vez mais difícil ouvir as piadas homofóbicas de Silvio Santos, quem tanto respeito e admiro. Sei que ele é um senhor de idade que nasceu e viveu em outra época, mas ele é um homem inteligente o suficiente para saber que nunca é tarde demais para aprender. Foi muito difícil também ler o texto de Fernanda Torres para o Agora é Que São Elas com posicionamentos tão equivocados sobre o feminismo. Sei que ela publicou depois outro texto retratando-se, mas o primeiro havia sido tão exageradamente sincero que, por mais que ela tenha se desculpado, sabemos que infelizmente é daquela forma que ela pensa. Porém, as pessoas mudam, e prefiro acreditar que ela mudou também. Aliás, as intervenções machistas de Claudio Assis durante o debate de Anna Muylaert sobre o filme Que Horas Ela Volta? (2015) e que acabou banindo-o por um ano do Cinema da Fundação Joaquim Nabuco, reduto da arte cinematográfica contemporânea no Recife, foi outro caso difícil de engolir. São casos assim que estão ensinando-me cada vez mais a separar a obra da pessoa. Dessa forma, tenho cada vez menos ídolos, mas admiro cada vez mais as obras de arte em si. Inclusive, seria muito interessante se mais pessoas fossem fãs apenas dos livros, filmes, discos, fotografias, telas, esculturas. Isso me tem evitado muito mal estar. Afinal, são as obras que de fato interessam. São elas que ficam quando o artista morre. Contudo, precisamos sim indignar-se com esses casos, deixar passar esse tipo de coisa só pelo fato de serem artistas é exercer a indignação seletiva. Intolerância, machismo, racismo, homofobia, transfobia, todo tipo de discriminação e preconceito precisam ser combatidos, na vida e nas artes.

surpresa x expectativa

Não sou tão velho assim, afinal, “só” vivi duas décadas até agora. Ademais, quem nasceu antes de mim deve entender. Na infância e adolescência, quando um filme era lançado, eu quase sempre era pego de surpresa. O que me despertava para os filmes que estavam em cartaz geralmente era o burburinho que se formava sobre ele ou a indicação de algum amigo: “você já foi ver o filme tal que está nos cinemas?”. O fato de a internet ainda não fazer parte da minha vida naquele período justifica muita coisa. De toda forma, era uma época em que as produções ficavam muito mais tempo em cartaz. Talvez tendo em vista que tivéssemos tempo suficiente para saber que tal filme estava nos cinemas e conseguir ir antes que fosse substituído por outro ou porque a produção cinematográfica (que já era intensa) não era tão acentuada quanto hoje.

Atualmente, eu nem sei o que vou fazer da minha vida amanhã, mas, se quiser, posso saber quais filmes já estão programados para serem lançados nos próximos três anos e quais trilogias ou franquias estarão finalizadas daqui uma década. Como se não bastasse, também é possível saber que trailers, veja bem, que trailers serão lançados até o ano que vem para produções que devem sair em 2018. Enquanto tudo isso não acontece, um tsunami de outras informações vai chegar antes do filme propriamente dito, coisas do tipo “o diretor será substituído”, “ator foi escalado para o papel tal”, “roteirista briga com estúdio”, “atriz foi confirmada para o papel da personagem tal”, “diretor é novamente substituído”, “cantor ou cantora tal (geralmente o/a do momento) irá gravar a canção tema”, “filmagens só devem começar no ano que vem”, “‘vaza’ foto dos bastidores”, “são divulgados cartazes individuais para todo o elenco do filme”, “o filme só deve estrear em 2020 mas os estúdios já confirmaram que haverá uma continuação em 2025”, etc.

Em relação a alguns filmes de super-heróis (não que eu os assista), você até sabe por antecedência que alguém do time protagonista vai morrer. Olha que absurdo! Você entrar na sala do cinema já sabendo que alguém vai morrer e ficar o filme todo tentando adivinhar quem será. Não seria muito melhor ser pego de surpresa? Você está lá, vendo o filme e de repente, pá! Fulano morre. Isso é incrível! Muito melhor do que você estar vendo o filme e quando o personagem morre você pensar consigo “eu sabia que seria ele” ou “imaginava que seria o outro”, o que não deixaria de ser uma mini surpresa, no caso da segunda opção, mas jamais uma surpresa autêntica.

Não sou um desocupado (bem que gostaria de ser), mas tenho muito que fazer e, mesmo que não tivesse, tenho certeza de que não consumiria esse tipo de “informação”. Não ia ficar acompanhando cada foto de bastidor, cada trailer. Entendo que fã é fã. Eu mesmo, quando o assunto é música, gosto muito de acompanhar as notícias das gravações dos álbuns das bandas que admiro, saber quem serão as participações especiais, ver a arte da capa, ouvir o primeiro single (que geralmente é lançado antes do álbum ficar pronto), esse tipo de coisa. Todavia, ao contrário dos filmes, as bandas (pelo menos as que eu escuto) gostam de fazer muito suspense com seus lançamentos. Elas gostam de surpreender. Há quem lance álbum sem que ninguém estivesse esperando. Olha que coisa maravilhosa: você acordar um belo dia e descobrir que uma das suas bandas favoritas lançou disco novo. É uma surpresa indescritível. Contudo, faz tanto tempo que não posso ficar fuçando sites de música que, quando alguém lança disco novo (mesmo avisando previamente), eu sou pego de surpresa do mesmo jeito. No início desse mês saiu o disco novo dos Selvagens à Procura de Lei, ‘Praieiro’, e eu nem sabia que iam lançar álbum novo. Tá incrível! Recomendo! E querem saber? Vou continuar assim, sem acompanhar. Se algum dia eu tiver tempo para navegar na internet por sites de música, vou usar esse tempo para ler meus livros e continuar sendo pego de surpresa. Que venham as próximas!

Na universidade, tive que lidar com muitas revelações de enredo. No entanto, estavam sendo discutidos em sala de aula filmes clássicos, que se eu não tinha visto até então era por culpa minha. O que estava em jogo não era propriamente o enredo do filme e sim como ele foi feito, então sempre nos interessava saber como o diretor conseguiu realizar tal cena ou como o montador solucionou tal problema. Realmente, não me interessa saber como será o cartaz ou quem gravará a canção tema, por exemplo. Se o filme é de uma grande produção de estúdio internacional, também não me interessa saber quem vai dirigir, porque nessas ocasiões o diretor é quase sempre um simples capacho fazendo um filme por encomenda. Interessa-me a atividade dos diretores do circuito independente ou dos diretores consagrados que, mesmo trabalhando para um grande estúdio, conseguem se impor e fazer do seu jeito. Em suma, o que interessa mesmo é o filme.

Se há uma frase que todo mundo já disse ou ouviu foi essa: “não julgue um livro pela capa”. Por que será então que as pessoas fazem tanta questão de julgar um filme pelo trailer? O trailer é como se fosse a capa de um filme: mesmo que seja ótimo, não significa que o filme será, assim como não significa que, se o trailer for ruim, o filme também deve ser. Poderia passar bastante tempo aqui citando trailers que são melhores do que seus respectivos filmes. Todo mundo já deve ter sido enganado por um trailer maravilhoso. É puro marketing. Seria muita ingenuidade da minha parte continuar assistindo essas propagandas enganosas. Resultado: não assisto mais trailers. As únicas exceções são quando vou ao cinema e eles passam antes da sessão ou quando eu já vi o filme e decido conferir o seu trailer.

Pode parecer radical, mas eu não leio nem sinopses. Quando vou ao cinema, o motivo é sempre o (a) diretor (a). Se é um (a) diretor (a) que eu gosto e tem uma obra consistente, sei que são pequenas as chances de jogar meu dinheiro fora. Além disso, existem muitas formas de um filme me chamar atenção, seja por ter como protagonista um ator/atriz que gosto bastante, seja porque ganhou algum prêmio, seja por estar em listas de melhores filmes, seja pela curiosidade do título, seja por indicação de amigos, seja por ter feito parte de algum movimento cinematográfico, seja por ter sido adaptado de algum livro que eu gosto, por ser de um determinado país, enfim, até a intuição vale. Quando o assunto é cinema, minha seletividade não é tão rigorosa como é em relação à música e à literatura.

Durante anos, pensei que os culpados por criarem tantas expectativas eram somente a mídia e os próprios responsáveis pelos filmes ao liberarem muito material prévio. Sabemos inúmeras coisas de um filme antes mesmo dele ser lançado e isso é muito ruim. Sim, eles continuam com sua parcela de culpa liberando esse tipo de material, mas é verdade também que eles não obrigam ninguém a ver nada. O que caracteriza uma culpa de mão dupla: as pessoas pesquisam por conta própria (o que praticamente anula a culpa dos divulgadores do filme). Claro que se essas propagandas enganosas não saíssem, ninguém criaria falsas expectativas e todo mundo já está feio de saber que expectativa não é algo tão bom para se cultivar. Quando alguém me fala que “esperava mais” de um filme, eu primeiramente sei que aquela pessoa é leiga (e não tem problema nenhum nisso – sempre somos leigos em alguma coisa), caso contrário, ela saberia justificar e apontar os aspectos negativos do filme. Também sei que aquela pessoa se inflou de expectativas, então grande culpa por não gostar do filme é dela. O filme não mandou ninguém esperar isso ou aquilo. Seus criadores podem até terem dito que a produção era maravilhosa e feito um trailer emocionante, mas continuar caindo nessa não dá, não é verdade?

Por que então continuar se boicotando e estragando a melhor parte que é a surpresa? Todo esse material prévio é muito mais interessante quando lido depois de assistir ao filme. Descobrir como aquela cena que você gostou foi feita, quem foram os profissionais que trabalharam por trás das câmeras, ver as fotos dos bastidores e até mesmo ficar por dentro das picuinhas que aconteceram durante a produção. Muito melhor do que aguardar o lançamento de um trailer (tem gente que ainda faz contagem regressiva para isso), assistir, postar nas redes sociais que chorou (!) e muitas vezes se decepcionar ao ver o filme. Sem contar (pasmem!) quem filma as próprias reações assistindo a um trailer. Ainda bem que na sala escura ninguém pode ver o rosto de frustração da pessoa ao lado. Contudo, quem sou eu para dizer qual a melhor forma de se ver um filme? Ademais, quem melhor para dizer o que é bom para mim senão eu mesmo? De toda forma, não sei você, caríssimo Leitor, mas continuo achando que é muito mais interessante ser surpreendido do que criar expectativas e quebrar a cara. E isso vale para tudo.