finais abertos

[contém revelações de enredo]

Lembro que, quando assisti ‘Central do Brasil’ com meu pai, ele se mostrou muito decepcionado com o final. Ele não se conformou em esperar quase duas horas para o filme acabar e Josué não encontrar o pai dele. E Dora? Por que ela não ficou com o menino? Tempos depois, assistimos juntos ‘Que Horas Ela Volta?’. Pelo envolvimento dele com os personagens durante todo o filme, deu para perceber que ele estava gostando muito. No entanto, quando a projeção terminou e eu lhe perguntei se ele havia gostado, ele apenas se limitou a dizer: que final feio. Conheço bem o meu pai, e não foi necessário lhe fazer perguntas para descobrir o que ele havia detestado. Foi difícil para ele ver a personagem Val terminar desempregada. E Jéssica, conseguiu ingressar na graduação?

Quando fui assistir ‘Aquarius’ no cinema, eu não estava acompanhado de ninguém. Cheguei cedo, com medo de não conseguir ingresso (eu sempre acho que não tem mais ingresso). Paguei minha entrada e fiquei esperando o filme que ainda ia demorar para começar, sentado em um banquinho do lado de fora da sala. Nesse mesmo banco estava sentada uma senhora idosa rodeada de sacolas plásticas lendo uma notícia em um jornal impresso que puxou conversa comigo. Contou-me de uma viagem que havia feito recentemente e que, devido a ela, estava usando bengala, pois havia andado tanto que ainda estava com as pernas cansadas. Era início de tarde e, segundo ela, já estava na rua desde de manhã cedinho. Ademais, ela me disse que, quando acabasse ‘Aquarius’, ainda iria ver uma mostra de filmes LGBTs que estava acontecendo no centro cultural ao lado. Confesso que fiquei com inveja de sua vitalidade. Ela até me convidou para lhe fazer companhia durante a mostra, mas quando me entregou a programação, desisti de ir por ser composta apenas de filmes que eu já havia assistido.

No pouco tempo em que ficou do meu lado, ouvi essa senhora disparar o maior número de histórias por minuto que eu já tive oportunidade de presenciar, mas tenho que admitir que estava apreciando sua companhia. Era uma pessoa muito inteligente, simpática e agradável (mesmo que tenha me assustado com seu ódio quase doentio por Dilma Rousseff, em quem, segundo ela, gostaria de dar uma surra). A senhora saiu de onde eu estava para comprar uma água e uma moça bonita e educada que havia sentado perto de nós puxou assunto comigo. Ela me contou que era atriz e eu lhe disse que fazia cinema. Conversamos então sobre testes de elenco, preparações de elenco e produções cinematográficas locais. Apesar de rápida, também foi uma conversa muito agradável. Assim como a senhora idosa e eu, ela também estava esperando a próxima sessão de ‘Aquarius’ começar.

Sem que eu nada perguntasse, a moça comentou que a atuação de Sônia Braga estava maravilhosa. Só então lhe perguntei se já havia assistido ao filme, ao que ela me revelou que aquela seria a sua terceira sessão, mas ainda não a última. Com todo o cuidado do mundo para mudar de assunto, tentei falar de outras coisas com medo de que ela me revelasse algo do filme antes mesmo de eu assisti-lo. Ela não revelou nada, mas do alto de sua empolgação, comentou: “Já estou esperando a continuação”. Como assim seria feita uma continuação de ‘Aquarius’ e eu não estava sabendo? Perguntei-lhe se ela havia visto alguma notícia sobre isso e ela negou. Ela não tinha provas de que seria produzida uma continuação, mas tinha convicções, pois reforçou sua tese: “Do jeito que o filme termina é impossível não ter uma continuação, tem que ter um ‘Aquarius 2′”. Eu nem havia assistido ao filme ainda, mas naquele exato momento eu soube que se tratava de um final aberto. Assim como a moça, que não sei o nome, pois acabamos não nos apresentando, eu não tinha provas, mas tinha convicções de que Kleber Mendonça Filho não faria uma continuação, e claro, lhe expus meu posicionamento. No entanto, a moça estava certa de seu ponto de vista tanto quanto eu estava do meu. As pessoas então começaram a entrar na sala e eu me apressei para entrar também para garantir um bom lugar. A moça, a senhora e eu sentamos em lugares diferentes e nunca mais nos encontramos. Porém, é preciso registrar que em algo eu e a moça concordamos: Sônia Braga está maravilhosa!

Minha cinefilia começou muito cedo. Eu já era cinéfilo antes mesmo de saber que essa palavra existia, e desde o início cultivei um fascínio por finais abertos. ‘Central do Brasil’ foi exibido pela primeira vez em uma mostra regional de cinema na Suíça em 16 de janeiro de 1998. No dia 19 de janeiro foi exibido no Festival Sundance de Cinema nos Estados Unidos e no dia 14 de fevereiro no Festival de Berlim, de onde saiu consagrado com o Urso de Ouro de Melhor Filme. O lançamento no Brasil ocorreu apenas no dia 3 de abril do mesmo ano. Eu tinha então quatro anos de idade. Lógico que eu só fui tomar conhecimento do filme anos depois. Cresci com ele no meu imaginário, assistindo-o repetidas vezes na Sessão da Tarde. Até hoje é um dos meus filmes favoritos, embora seja completamente diferente do tipo de filmes que gosto de ver atualmente. Claro que há um toque de nostalgia em tudo isso. Todavia, Fernanda Montenegro continua sendo minha atriz favorita, o que não se deve apenas por esse trabalho.

Não posso afirmar o ano em que vi ‘Central do Brasil’ pela primeira vez, mas sei que eu tinha por volta de dez anos, não mais que isso. Vinicius de Oliveira tinha apenas doze quando interpretou Josué no filme. Hoje, ele não é assim tão mais velho do que eu e, embora não façamos parte da mesma geração, de uma forma ou de outra, crescemos “juntos”. Durante esses anos todos, me peguei várias vezes pensando no que haveria acontecido com Dora e Josué, mas quando revejo o filme hoje em dia, nem consigo considerar mais que ele tenha um final aberto, pelo menos não tão aberto assim.

O filme de Walter Salles tem um roteiro clássico, nos apresenta uma jornada do herói com seus três atos, pontos de virada, evolução, clímax e resolução da história. Considero-o agora um filme quase “fechado”. Dora é uma vigarista que se dispõe a viajar com Josué até o nordeste do Brasil em busca do pai do garoto. Eles viajam, tornam-se amigos e passam por situações que mudam suas formas de encarar a vida. Não conseguem encontrar o pai de Josué, mas encontram os irmãos do garoto, que também são sua família. A missão de Dora está cumprida. Sei que é difícil encarar a separação dos protagonistas, mas é preciso seguir em frente. O que aconteceu com Dora, se Josué encontrou o pai ou se eles dois voltaram a se encontrar novamente, sinceramente, não importa. O filme apenas se propõe a nos apresentar esse pequeno período da vida dos dois personagens, esse momento chave, essa experiência que resultou na transformação de ambos, tornando-os pessoas melhores e mais fortes. E praticamente tudo que eu disse sobre ‘Central do Brasil’ pode ser aplicado a ‘Que Horas Ela Volta?’ e ‘Aquarius’.

Como roteiro é uma das minhas áreas de atuação, estou sempre estudando e pesquisando sobre. Já li praticamente todos os manuais de roteiro disponíveis no país e posso afirmar que eles não me ajudaram, muito pelo contrário. Manuais são ótimos para quem quer entender o que é um roteiro, para quem quer aprender como ler um roteiro, para quem quer conhecer a formatação de um roteiro, mas são igualmente péssimos na tentativa de ensinar como escrever um. Além de serem livros muito parecidos, alguns quase cópias idênticas, castram a criatividade de um roteirista. Apontam quantos atos um roteiro deve ter, quantas páginas devem conter em cada ato, a duração máxima que um filme deve respeitar, onde devem ser apresentados os pontos de virada, onde deverá ser apresentado o clímax, a forma de apresentar um personagem, a forma de estabelecer um conflito, tudo. Se todos seguissem esses manuais, todos os filmes seriam praticamente iguais. E o que é mais hipócrita nessa história toda é que os prêmios de melhor roteiro quase sempre são entregues para filmes que vão contra essas regras, que subvertem as formas tradicionais de se contar uma história. É como se esses manuais nos ensinassem a como não escrever um roteiro. Acontece, caríssimos, que prêmios não geram bilheteria, então os estúdios seguem impondo essa forma clássica que eu prefiro chamar de forma engessada de escrever roteiros.

Um centenário foi mais do que suficiente para engessar também a forma do público de consumir cinema. Os manuais servem para corresponder a todas as expectativas de quem assiste ao filme. Durante muito tempo, esses manuais só serviram para me deixar inseguro com tudo o que eu escrevia. Eu pensava que se eu não os seguisse à risca, minhas histórias iam ser consideradas péssimas. Antes de ler esses livros eu me sentia muito mais livre e tinha mais coragem de arriscar. Hoje eles ainda são um fantasma, mas já não os leio mais e tento esquecê-los. Agora leio livros de edição e montagem, pois eles não estão preocupados em apresentar uma fórmula, e sim em nos mostrar várias formas diferentes de construir uma mesma cena. E claro, sigo firme no melhor método de aprendizado de todos: assistindo ao maior número de filmes diferentes possível.

Entre as muitas barbaridades que já li em manuais de roteiro, algumas me chamaram mais atenção. Em um deles li que um filme não pode ter mais de duas horas de duração, que o final deve ser sempre feliz, pois filmes tristes deixam o público frustrado, que o filme deve sempre ter um clímax a poucos minutos do fim, que se eu estou escrevendo um roteiro é porque estou pensando em vendê-lo por uma boa quantia em dinheiro e que a melhor forma de conseguir isso é dando ao público o que ele quer ver. Sou contra todas essas estratégias comerciais. O espectador está muito acomodado; é preciso reeducá-lo apresentando coisas novas e não somente o que ele acha que quer. Este é um trabalho difícil, e da forma como o cérebro de boa parte do público está atrofiado, pode ser tarde demais para conseguir reverter essa situação.

O resultado disso é um público preguiçoso que não consegue nem realizar o esforço de fazer uso do belo presente que filmes com finais abertos nos proporcionam. Para quê imaginar o que aconteceu com Clara de ‘Aquarius’ se eu posso esperar uma sequência que responda minhas dúvidas? Esse exercício gostoso de dar continuidade às histórias dos filmes quando eles acabam eu aprendi há muito tempo com ‘Central do Brasil’. Na minha continuação, Dora e Josué nunca mais se reencontraram. Ela morreu sozinha sem nunca conseguir casar e Josué nunca encontrou o pai. Consigo até imaginar que Irene, personagem de Marília Pêra, também terminou sozinha, embora ainda tenha se relacionado com alguns homens, mas nenhum resultando em um relacionamento duradouro. Em minha continuação de ‘Que Horas Ela Volta?’ de Anna Muylaert, Val, personagem de Regina Casé, conseguiu um novo emprego e mesmo com todas as dificuldades, realizou o sonho de ver a filha formada. Jéssica, personagem de Camila Márdila, com o bom emprego que conseguiu, deu uma boa casa à sua mãe, que não precisou mais trabalhar graças ao ótimo salário da filha. Para Clara, personagem de Sônia Braga em ‘Aquarius’, não construí uma história muito otimista. Acredito que ela tenha se saído vitoriosa, mas só depois de muitos anos com o processo correndo na lenta Justiça de nosso país. O sofrimento foi longo, mas ela também causou muita dor de cabeça aos donos da construtora.

Longe de mim defender que todos os finais devam ser abertos. Esse tipo de desfecho deve ser apenas uma forma entre várias outras de se contar uma história. Que finais assim não sejam usados como justificativas para classificar um filme como ruim. O anticlímax proposital também tem o seu valor. A supervalorização da expectativa correspondida deveria ser substituída pela surpresa. O público tem que sair de sua zona de conforto e abandonar esse olhar que não se permite enxergar outras possibilidades. Nem todos os filmes precisam de uma continuação, pois eles podem (e devem) continuar dentro de nós, em nossas mentes. É divertido se surpreender, é divertido ser apresentado a coisas novas que ainda não sabemos que gostamos. Não tenho problemas com finais felizes, mas tenho pavor do “viveram felizes para sempre”. É o mesmo que matar os personagens. A vida não é feita só de sorrisos. É bom ver nossos heróis vencerem seus desafios, mas o último minuto do filme não pode significar o fim deles – a não ser que eles morram. Se o roteirista decidir por não ceifar a vida de suas criações, assim como nós, suas jornadas “continuam”, pois no fim das contas, enquanto não morrermos, todo dia é um final em aberto.

saindo do livro/filme

Sabe quando você lê várias páginas de um livro e depois se dá conta de que não entendeu nada? Isso geralmente acontece, pelo menos comigo, quando se está com a mente muito cheia. Não importa se são pensamentos bons ou ruins, o fluxo excessivo deles me atira fora do livro. Por esse motivo, tento esvaziar ao máximo a mente antes de ler, algo que não é fácil, sobretudo para quem, como eu, lê todos os dias. Diferentemente de quem o faz esporadicamente e retira um bom momento para isso, geralmente um dia de folga, eu leio sempre que tenho um tempinho livre menor que duas horas (porque se esse tempo for maior ou igual a duas horas, eu prefiro ver um filme).

Sendo detentor de uma crise existencial crônica que me faz sofrer por saber que tenho cada vez menos tempo para ler e assistir ao que quero, não posso me dar ao luxo de passar por várias páginas sem entender nada e ter que voltar a leitura. Então se estou triste, ou acabo de realizar um grande feito que me cause muita euforia, eu sei que não posso pegar nos livros. Não adianta, não consigo.

No entanto, ler todos os dias de alguma forma me ajudou a combater isso. Afinal, como se não bastasse a rotina pesada, estamos sempre lidando com problemas, imprevistos, aborrecimentos e todo tipo de mazelas que nos são reservadas sempre que levantamos da cama toda manhã. Entretanto, consigo manter minhas leituras diárias e poucas vezes ela é comprometida pelos acontecimentos que vivencio.

Lembro-me de uma ocasião em que eu estava doente. Não rememoro exatamente o que eu tinha, mas nesse determinado dia eu estava sofrendo com enjoos. Para me distrair, adivinha o que eu fui fazer? Isso mesmo, ler! Ler quando se está doente não é uma boa ideia. Por que diabos eu fui inventar de fazer isso? Se você Leitor, está pensando que deu merda, acertou novamente. Eu não vomitei no livro, que fique bem claro, mas depois que fiquei curado, toda vez em que eu o pegava para ler, eu me sentia enjoado. Claro que isso foi um dano psicológico que me fez assimilar aquele livro ao momento ruim que tive. Essa nossa mente nos prega peças que a gente nem imagina que ela é capaz, a minha então, vive testando minha paciência. O que posso dizer é que concluir o livro foi um processo bastante difícil. Ademais, se tem uma coisa que eu aprendi é nunca mais ler estando doente. O livro merece o meu melhor, minha máxima dedicação. Se não posso oferecer isso a ele, eu que encontre outra forma de lazer.

Contudo, essas linhas nasceram porque não tive um bom dia. Com a mente atolada em pensamentos ruins, fui ver um filme. Tenho tentado cumprir minha meta cinematográfica à risca. Não adianta marcar os filmes como “quero ver” no meu perfil no Filmow que isso não vai fazer que eles sejam assistidos. É preciso meter a cara e vê-los de fato, mas vocês sabem que tudo o que falei até aqui sobre os livros também pode se aplicar aos filmes. Como entrar em um filme talvez seja o processo mais importante de uma experiência cinéfila, é preciso estar bem ao assistí-lo. Se você está cansado, sonolento, com fome, com sede, irritado, com muito calor, com vontade de ir ao banheiro, numa cadeira desconfortável, numa sala barulhenta, tudo isso pode (e vai) influenciar negativamente na sua experiência fílmica. Muitas vezes, se não gostamos de um filme, a culpa é nossa ou das condições em que nos encontramos. Cabe a nós reconhecer isso e assisti-lo novamente para ver se é mesmo ruim como havíamos julgado.

Há todo um ritual antes de começar a ver o filme, de fato. É preciso se preparar, estar bem, confortável, alimentado. É preciso ir ao banheiro antes de iniciar a projeção. Se você vai ao cinema então o ritual é ainda maior. Escolher uma roupa confortável para suportar o frio do ar-condicionado, levar sua garrafa com água e talvez o mais importante: chegar cedo. Entrar na sala de projeção depois que o filme começou devia ser crime com pena de morte. É ruim para quem chega atrasado, pois deve ter corrido, está suado, irritado porque perdeu o início, e ruim para quem cumpriu corretamente todo o ritual e chegou cedo, pois vai ter a atenção roubada pelo filho da puta que vai passar na sua frente procurando uma cadeira para sentar. Infelizmente, para muitas pessoas, cinema é apenas um motivo para sair de casa, comer pipoca e beber um litro de refrigerante. Em vista disso, não frequento mais cinema de shopping e, mesmo assim, ainda passo por infortúnios, embora numa escala muito menor.

No início de janeiro desse ano fui ver um filme no cinema. Cheguei bem cedo e a bilheteria demorou muito para abrir. Quando abriu, já estava quase na hora do filme iniciar, o que fez com que a sessão atrasasse. Já na sala de projeção, sentado, o lanterninha entra e nos avisa que houve um problema com a cópia do filme, informando que todos ali poderiam receber o dinheiro de volta e, quem quisesse, poderia continuar na sala para a exibição de outro filme. Como eu já tinha saído de casa e não queria voltar sem ter feito nada, decidi por ver o outro. Pois bem, quando já devia ter passado uns trinta minutos desde o início da sessão, a projeção foi interrompida por um problema técnico, que deve ter demorado em torno de cinco a dez minutos para voltar (não tenho noção exata do tempo que demorou). Até aquele momento, já havia acontecido de tudo que atrapalhasse minha experiência com o filme. A sessão começou atrasada e não era o filme que eu queria ver (qual não foi a minha frustração por sair de casa para ver um filme a acabar vendo outro). Todos esses problemas deveriam ter prejudicado minha imersão, mas não. Estava tão determinado a ver o filme que consegui imergir nele mesmo depois de todos os ocorridos. Quando a projeção foi interrompida e eu “saí do filme”, achei que não conseguiria voltar para ele, o que acredito que aconteceu com as outras poucas pessoas que estavam na sala, já que, depois do ocorrido, elas se mostraram muito dispersas e irrequietas. É como uma viagem que foi interrompida porque o carro quebrou ou uma leitura em que você está completamente absorto, mas tem que imergir para o mundo real porque sua mãe te pediu para ir comprar pão. No mais, quando o problema foi resolvido e o filme voltou a ser projetado, inexplicavelmente eu consegui voltar para ele e imergir novamente. Quando acabou, eu havia visto um dos meus filmes favoritos, mas certamente não gostaria de passar por tudo aquilo novamente. Foi a única vez em que tal coisa aconteceu comigo e, para que se mantenha especial, espero que não aconteça de novo.

Sair do filme é tão comum quanto sair de uma leitura. É preciso dizer também que nem sempre é nossa culpa. Se ficarmos conversando, acessando alguma coisa pelo celular ou até mesmo comendo durante uma projeção, claro que a culpa é nossa. Entretanto, por mais concentrado que o espectador esteja, sempre corre o risco de ser distraído pelos pensamentos involuntários. Isso acontece até mesmo quando estou escrevendo. Muitas vezes já sonhei acordado diante da tela do computador e só depois de alguns minutos é que me dei conta de que estava escrevendo e que precisava concluir o texto. Dessa maneira, tento não ver muitos filmes na TV aberta. Arrisco afirmar que me considero um cinéfilo profissional, sabendo depositar muita concentração ao filme que está sendo exibido na minha frente, mas confesso já ter sido atacado por pensamentos involuntários diante de um filme da TV. Na ocasião, lembro-me de ter pegado o controle do DVD achando que podia voltar a cena, descobrindo então que tal ação não era possível. Sou consciente de que perder dois segundos de filme pode ser o suficiente para causar um grande estrago de interpretação.

Como lhes confidenciei acima, não tive um dia tão bom e estava agora a pouco vendo um filme, quando me dei conta de que haviam se passado quatro minutos e eu não havia entendido nada. Era como se eu tivesse me ausentado completamente nos últimos quatro minutos de projeção. Tive que voltar e mais uma vez saí do filme. Há uma semana, mais ou menos, comecei a escrever num diário coisas que me acontecem (geralmente coisas ruins). Nesse processo, descobri o quanto fico mais leve depois de jogar meus problemas no papel. É quase como se eles ficassem dentro do caderno. Já havia lido bastante que escrever sobre experiências traumáticas pode ajudar a superá-las. Não que eu tenha tido experiências traumáticas, mas tenho usado a mesma filosofia para problemas pequenos e tem dado certo. Assim sendo, resolvi escrever para conseguir voltar aos meus afazeres, entre eles terminar o filme. Como o texto ficaria muito grande para uma página diária no caderno e como eu também não queria ter de escrever tudo isso à mão, resolvi publicar aqui mesmo. Se isso vai resolver o problema, eu não sei, mas valeu a tentativa. De toda forma, estou indo lá (tentar) concluir o filme. Ficar escrevendo sobre ele também não vai fazer com que ele se assista sozinho. Até a próxima, abraçaço.

o filme nosso de cada dia

Ah, a cinefilia! Como não exercer? E pensar que, há pouco mais de cem anos atrás, o mundo ainda não sabia o que viria a ser cinema. Cinefilia é sem sombra de dúvidas a minha única religião, na qual Glauber Rocha é ao mesmo tempo deus e diabo, assim como no seu filme ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, em que Othon Bastos dublou tanto o Deus Negro (Sebastião), interpretado por Lidio Silva, quanto o Diabo Loiro (Corisco), interpretado pelo próprio Othon.

Quando não chamo cinefilia de religião, trato-a por doença. Mas o que é uma religião senão uma doença que ‘cega’ as pessoas? Sendo assim, há mais de dez anos que me autodiagnostiquei cinéfilo (mesmo sem saber exatamente o que era isso). Quando ainda era criança, achava mais divertido ver filmes do que brincar com os garotos da minha idade. Nessa mesma época (quando ainda dependida da programação da TV), festas de finais de ano eram para mim sinônimo de ver filme até o sol raiar. Lembro de uma em que o dia já estava nascendo e começou ‘Central do Brasil’. Era um tempo em que as emissoras ainda selecionavam bons filmes para sua programação. Não sei até onde isso é comum, mas não me recordo de conhecer outras crianças que façam isso. Torço para que elas não sejam assim tão raras.

Foi ainda muito jovem que também comecei a anotar o nome de cada filme que eu assistia, juntamente com a data em que o via. Faço isso até hoje. Juro que lembro nitidamente da noite em que peguei uma agenda e decidi fazer isso. Quando meu tio-avô morreu no ano passado, tive de ir com meu pai selecionar o seus objetos que guardaríamos de recordação de outros que colocaríamos para doação. Foi quando encontrei uma agenda com o nome dos filmes que ele havia assistido acompanhados das datas em que os viu, exatamente da mesma forma que eu ainda faço. Foi algo que me emocionou bastante, ainda mais se tratando de uma coisa que ele nunca soube que eu fazia e que eu também jamais soube que alguém da família fazia igual, muito menos que fazia antes de mim. Já muito debilitado com a doença, ele ainda se deu ao trabalho de anotar os últimos filmes que viu antes de morrer. O nome disso é cinefilia. Guardarei para sempre sua agenda junto com as minhas, tio.

Contudo, cinefilia não se resume apenas a ver filmes. Por essa e por muitas outras razões, fica cada vez mais difícil acreditar quando alguém me diz ser cinéfilo. Ganhei meu primeiro computador logo quando iniciei a adolescência, devendo utilizá-lo para os trabalhos da escola. Porém, durante bastante tempo eu não tive acesso à internet, o que me obrigava ir em lan houses pesquisar os trabalhos, colocar as pesquisas no pendrive e terminar o estudo em casa. Toda semana eu inventava algum trabalho novo só para ter o pretexto de ir à lan house, onde eu pesquisava tudo o que eu podia e encontrava uma variedade de textos sobre história do cinema, que salvava para ler depois. Cheguei até mesmo a criar uma enorme enciclopédia, bastante organizada com biografias dos grandes diretores, fichas técnicas e histórias de bastidores dos filmes mais famosos, história dos movimentos cinematográficos, festivais de cinema e seus vencedores, e muita, muita história do cinema brasileiro. Mas foi um material que inexplicavelmente acabei perdendo em alguma formatação do computador. Uma grande pena.

Agora, Leitor, hei de fazer-lhe uma confissão. Fico envergonhado quando alguém me pergunta sobre algum filme que ainda não vi. Anos atrás eu mentia, dizia que havia visto o filme, mas logo em seguida corria para casa e tratava logo de assisti-lo para que a mentira se tornasse verdade. Hoje em dia não minto mais. Admito quando não vi o filme, mas dói. É por isso que quando fico sabendo de algum filme que não vi, tento reverter a situação o mais rápido possível, para que o constrangimento não se repita novamente. Pode parecer besteira, mas achei que devia contar.

Acontece que, com o passar dos anos, fica cada vez mais difícil encontrar tempo para ver filmes, sobretudo para mim que também não abro mão dos livros. Sendo assim, havia desistido de sempre ficar tentando ver mais filmes que o ano anterior. Havia estabelecido que vendo trezentos e sessenta e cinco filmes por ano estava de bom tamanho. Um filme por dia era um número que eu sempre alcançava. Foi então que percebi alguns amigos cinéfilos estabeleceram a meta de seiscentos e sessenta e seis filmes para 2015. Eu, claro, não ia me permitir ficar por baixo, e estabeleci para mim esse número como meta. Mas 2015 acabou e só consegui ver quinhentos e trinta e oito filmes, sendo quinhentos e quatro vistos por mim pela primeira vez. Eu estava caminhando bem para alcançar essa meta, mas acabei relaxando nos últimos três meses do ano passado.

A conclusão que posso tirar disso é que quanto mais os anos vão passando, menos filmes eu vou poder ver. As responsabilidades só aumentam e o tempo só diminui. Todavia, quem me conhece sabe que não sou homem de desistir assim tão fácil. Eu até poderia ter ficado feliz por ser quem mais viu filmes desse meu ciclo de amigos que estabeleceu esse número como meta. Se eles vão tentar mais uma vez, eu ainda não sei, mas 2016 é um dos últimos anos, quiçá o último, em que terei tempo para ver esse número de filmes. Talvez eu esteja enganado e não queira enxergar que 2015 foi minha última chance, mas sou um cinéfilo muito otimista e prefiro acreditar que tudo está a meu favor, afinal, 2016 é ano bissexto e terei vinte e quatro horas a mais para conseguir realizar esse feito. Seja o que Glauber Rocha quiser! Se eu sumir uma vez ou outra, não se assuste: estou assistindo a algum filme. Até a próxima! Abraçaço.