o cinema é nosso

“Eu vejo o futuro repetir o passado”. Esse trecho da música ‘O Tempo Não Para’ de Cazuza vem martelando em minha cabeça sempre que penso no cenário brasileiro atual. Sinto como se estivesse vivendo situações que só conhecia através dos livros de História, quando estudava os capítulos sobre ditadura militar e respirava aliviado por ter nascido em outra época. Nesses mesmos livros didáticos, muito se falava sobre a censura imposta a todo tipo de arte, embora a música, com o exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil, ganhasse sempre um aprofundamento maior. Não recordo de ler nada relacionado à repressão sofrida pelo cinema brasileiro. Isso eu fui aprender depois por conta própria.

Quando os militares derrubaram João Goulart (1919-1976), o então presidente democraticamente eleito, o cinema brasileiro vivia um importante momento de sua história. ‘O Pagador de Promessas’, de 1962, escrito e dirigido por Anselmo Duarte (1920-2009) e baseado na peça teatral homônima de Dias Gomes (1922-1999), havia ganhado a Palma de Ouro no Festival de Cannes, e o Cinema Novo havia acabado de nos brindar com três clássicos eternos da nossa cinematografia: ‘Vidas Secas’, de 1963, escrito e dirigido por Nelson Pereira dos Santos e baseado no livro homônimo de Graciliano Ramos (1892-1953), ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, de Glauber Rocha (1939-1981) e ‘Os Fuzis’, de Ruy Guerra, ambos de 1964. ‘Vidas Secas’ e ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ foram indicados à Palma de Ouro com grande repercussão internacional, enquanto que Ruy Guerra receberia o Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim por ‘Os Fuzis’.

O Cinema Novo, movimento iniciado ainda na década de 1950 e formado por artistas de esquerda, resultou no maior engajamento político da filmografia nacional. A vida precária no sertão e nas favelas, questões raciais e sociais, a fome e a miséria, foram fortemente denunciados e debatidos em dezenas e dezenas de filmes. Com o golpe militar, esses longa-metragens e seus realizadores passaram a ser perseguidos e censurados. Glauber Rocha, maior nome do movimento, foi exilado.

O Cinema Marginal surgiria nesse meio tempo e, enquanto os cinemanovistas eram perseguidos por sua forte ideologia política, os marginais eram censurados por criticarem o comportamento moralista. Os filmes eram verdadeiramente retalhados e cineastas como José Mojica Marins, que não fazia parte de nenhum dos dois movimentos, foram algumas das maiores vítimas da repressão. Marins teve de cortar dezenas de cenas e falas em seus filmes, chegando até mesmo a modificar finais para conseguir lançá-los. Assim como ‘Terra em Transe’, de 1967, de Glauber, seu longa-metragem ‘Ritual dos Sádicos’, de 1969, foi proibido em todo o território nacional, não chegando nem a ser lançado nos cinemas por ter quase todas as suas cópias apreendidas e queimadas. Recuperado em 1982, foi exibido apenas em mostras e festivais com o título de ‘O Despertar da Besta’. Falido, Mojica teve que dirigir filmes pornôs para não morrer de fome, o que destruiu sua carreira. Na década de 1990 foi redescoberto pelos americanos e conseguiu voltar a dirigir seus filmes de terror, mas o estrago já estava feito. Uma carreira que tinha tudo para ser meteórica foi minada pela censura da ditadura militar.

Em 1964, Eduardo Coutinho (1933-2014) ainda era um diretor de longas de ficção. Ele estava realizando na Paraíba o filme que contaria a história de João Pedro Teixeira, líder camponês da região, assassinado em 1962. O cineasta já estava filmando há duas semanas quando parte da equipe foi presa sob a alegação de comunismo. A produção foi interrompida e Coutinho teve que voltar a trabalhar com jornalismo. Somente dezessete anos depois o trabalho foi retomado, dessa vez, colhendo depoimentos dos camponeses que trabalharam nas primeiras filmagens, com foco principal na história da viúva de João Pedro, dona Elizabeth Altino Teixeira que, desde 1964, teve que viver na clandestinidade, separada dos filhos. Lançado em 1984, ‘Cabra Marcado Para Morrer’ é até hoje o melhor e mais importante documentário brasileiro de todos os tempos.

Somente em 1975, com a abertura política, os filmes conseguiram uma liberdade maior para abordar temáticas que não agradavam ao governo, sendo lançados com poucos ou até mesmo nenhum corte. Por ter um público infinitamente maior que o do cinema, a censura voltou sua atenção para a televisão. No entanto, mesmo os filmes liberados sem cortes eram censurados quando transmitidos na TV. ‘Pixote: A Lei do Mais Fraco’, de 1980, do diretor Hector Babenco (1946-2016), só foi liberado para a telinha cinco anos depois e com trinta e oito cenas censuradas. Com o fim do regime militar, a censura acabou e os filmes dessa época puderam ser assistidos na íntegra em todo o território nacional.

Os vinte e um anos do regime militar foram o período mais sombrio já vivido pelas criações artísticas brasileiras, um verdadeiro desprezo pela informação e liberdade de expressão. Ao ler essas histórias, parece tudo muito absurdo, mas estamos de fato repetindo o passado. Temos o Congresso mais conservador desde 1964, ano do golpe militar. Hoje, assim como há cinquenta e dois anos atrás, vivemos mais um golpe, dessa vez, parlamentar, em que 367 deputados e 55 senadores anularam 54,5 milhões de votos. A imprensa, assim como em 1964, apoiou o golpe. Em 2013, apenas quarenta e nove anos depois, a Rede Globo se desculpou publicamente, classificando seu apoio ao golpe militar como um erro. No futuro, ela e tantos outros veículos de imprensa haverão de se desculpar novamente. Só espero que não demore outros quarenta e nove anos.

Todos os absurdos que eu lia nos livros de História começam a se repetir. Primeiro um golpe parlamentar derruba Dilma Rousseff, nossa presidenta democraticamente eleita. Depois, Michel Temer, em seu primeiro pronunciamento ao assumir o cargo, diz à nação brasileira: “Não fale em crise, trabalhe!” Qualquer semelhança com o “Brasil, ame-o ou deixe-o” não é mera coincidência. Depois, decreta o fim do Ministério da Cultura (recriado após calorosos protestos da classe artística). Não deu nem muito tempo para comemorar a volta do ministério quando seu novo ministro, Marcelo Calero, simplesmente decidiu exonerar a presidente da Cinemateca Brasileira, Olga Futemma, juntamente com outros quatro técnicos da instituição. A Cinemateca é responsável pela preservação da produção audiovisual brasileira. Dias depois, após forte apelo da classe cinematográfica, o Ministério da Cultura voltou atrás e manteve o emprego de Olga e dos outros quatro funcionários.

Nesse meio tempo, a equipe do filme ‘Aquarius’, do diretor Kleber Mendonça Filho, protestou contra o impeachment da presidenta Dilma no tapete vermelho do Festival de Cannes, em que concorreu a Palma de Ouro depois de oito anos sem um representante brasileiro na disputa oficial. O último filme nacional a concorrer ao prêmio havia sido ‘Linha de Passe’, de Walter Salles e Daniela Thomas, em 2008. O ministro Calero criticou o protesto e disse que os membros da equipe do filme “estão comprometendo [a imagem do país] em nome de uma tese política, e isso é ruim. Eu acho até um pouco totalitário, porque você quer pretender que aquela sua visão específica realmente cobre a imagem de um país inteiro. Eu acho que a democracia precisa ser respeitada e acho que é um desrespeito falar em golpe de Estado com aqueles que viveram o golpe realmente, o de 1964. Pessoas morreram. E as pessoas esquecem isso. Então eu acho [o protesto] de uma irresponsabilidade quase infantil”. Sônia Braga, que interpreta a protagonista do filme, rebateu: “Como pode um Ministro dizer que um ato democrático como o nosso é a representação de um País inteiro? Isso é desconhecimento do que significa plena democracia. Se estivéssemos falando em nome de todos não precisaríamos, evidentemente, fazer o ato. Uma coisa é certa: estamos juntos. O Ministro da Cultura ofendendo artistas é inadmissível. O senhor está nesse cargo para dialogar, para nos ajudar, para fazer a ponte com quem nos explora. A propósito, as críticas para Aquarius foram fabulosas. Quatro estrelas em jornais franceses, italianos, poloneses, russos e três citações no The New York Times. Ponto grande para a imagem da cultura brasileira no exterior. Senhor Ministro, não podemos perder as nossas conquistas. Sobretudo a mais importante delas, o respeito”. Desde então, o filme vem sofrendo uma forte perseguição política.

A repressão ao longa só ficou ainda mais evidente quando o Ministério da Justiça o proibiu para menores de dezoito anos, alegando conter situações sexuais complexas. Assisti ao filme e considerei a classificação um abuso. As três cenas de sexo de ‘Aquarius’ duram cada uma menos de trinta segundos. Filmes recentes do cinema nacional, como ‘Tatuagem’, de 2013, escrito e dirigido por Hilton Lacerda, e ‘Boi Neon’, de 2016, escrito e dirigido por Gabriel Mascaro, possuem longas cenas de sexo explícito e foram classificados como impróprios para menores de dezesseis anos. Usando esses exemplos como argumento, Silvia Cruz, sócia da distribuidora Vitrine Filmes, em uma reunião com Gustavo Marrone, secretário nacional de Justiça e Cidadania, pediu a reconsideração da classificação estabelecida. O Ministério da Justiça aceitou o pedido de revisão feito pela distribuidora e o filme acabou lançado como impróprio para menores de dezesseis anos. Em 1964, ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ foi lançado sem cortes, no entanto, foi proibido para menores de dezoito anos. Quem já viu o filme de Glauber sabe o quão isso é absurdo. Quem assistir ‘Aquarius’ também vai considerar a classificação do filme bastante incoerente. Todos sabemos que uma classificação máxima prejudica muito a vida de um filme, que acaba por ter seu leque de público muito reduzido, prejudicando inclusive sua arrecadação com bilheteria, e é justamente isso que o governo está tentando fazer: evitar que as pessoas assistam ao novo filme de Kleber Mendonça Filho. Na França, por exemplo, a produção recebeu a classificação livre para todos os públicos.

Até agora, ‘Aquarius’ conseguiu reverter bem as perseguições que o Ministério da Cultura tem feito contra o longa. Nos primeiros quatro dias de exibição, o filme conseguiu uma bilheteria de cinquenta e cinco mil espectadores, sendo o melhor lançamento da semana em média por sala. No entanto, há um último desafio a ser vencido: ser o representante brasileiro na disputa do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Para a maioria dos profissionais, cinéfilos e críticos nacionais e internacionais, ‘Aquarius’ é o grande favorito, todavia, o Ministério da Cultura ainda tem mais uma carta na manga: o crítico Marcos Petrucelli (da rádio CBN e do site e-Pipoca), anunciado como integrante da comissão responsável pela seleção do representante nacional no Oscar. Petrucelli vem criticando duramente ‘Aquarius’ e especialmente seu diretor, Kleber Mendonça Filho, desde sua passagem no Festival de Cannes. A nomeação de Petrucelli (que confessou não ter visto o filme) é uma clara tentativa do governo de tirar a vaga do longa com o intuito de evitar mais um protesto político de sua equipe com repercussão internacional. Após a polêmica, dois integrantes, a atriz Ingra Lyberato e o diretor Guilherme Fiúza Zenha, se desligaram da comissão, sendo substituídos por Carla Camuratti e Bruno Barreto. Adriana Rattes, Luiz Alberto Rodrigues, George Torquato Firmeza, Paulo de Tarso Basto Menelau, Silvia Maria Sachs Rabello e Sylvia Regina Bahiense Naves são os demais integrantes da comissão. Em protesto, os diretores Gabriel Mascaro e Anna Muylaert retiraram da disputa seus filmes ‘Boi Neon’ e ‘Mãe Só Há Uma’, respectivamente.

O longa de Kleber Mendonça Filho concorrerá com outros dezesseis filmes para representar o Brasil no Oscar: ‘A Bruta Flor do Querer’ (Andradina Azevedo, Dida Andrade); ‘A Despedida’ (Marcelo Galvão); ‘A Hora e a Vez de Augusto Matraga’ (Vinícius Coimbra); ‘Até Que a Casa Caia’ (Mauro Giuntini); ‘Campo Grande’ (Sandra Kogut); ‘Chatô – O rei do Brasil’ (Guilherme Fontes); ‘Mais Forte Que o Mundo – A História de José Aldo’ (Afonso Poyart); ‘Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil’ (Belisário Franca); ‘Nise – O Coração da Loucura’ (Roberto Berliner); ‘O Começo da Vida’ (Estela Renner); ‘O Outro Lado do Paraíso’ (André Ristum); ‘O Roubo da Taça’ (Caíto Ortiz); ‘Pequeno Segredo’ (David Schürmann); ‘Tudo Que Aprendemos Juntos’ (Sérgio Machado); ‘Uma Loucura de Mulher’ (Marcus Ligocki Júnior); ‘Vidas Partidas’ (Marcos Schechtman). Nosso representante será anunciado na próxima segunda-feira (12/09), em cerimônia na Cinemateca Brasileira, em São Paulo.

Em seu livro ‘Revisão Crítica do Cinema Brasileiro’, Glauber Rocha dizia que a luta do Cinema Novo era contra a chanchada e o trust americano, e que era preciso salvar o cinema independente: “temos de salvar o cinema independente, temos de construir o cinema brasileiro com os independentes. Somente assim os diretores terão liberdade para criar filmes novos. […] Tudo é muito claro: o que se precisa é a união dos independentes contra o trust americano – a primeira batalha foi interna, contra a chanchada. A segunda é maior, é uma luta igual às outras da indústria brasileira e mais do que nunca, agora, este amadurecimento político de um povo necessita da legenda: o cinema é nosso, como no caso do petróleo.” O Cinema Novo, de fato, conseguiu derrubar a chanchada, mas nunca vencemos a invasão americana. Fosse hoje, Glauber diria que a luta deveria ser contra a comédia pastelão (a chanchada atual), a invasão americana e o boicote do governo ilegítimo.

O cinema é nosso, assim como todas as outras formas de expressão artística. Não podemos deixar que censores virjões tramem boicotes a obras de arte bem debaixo do nosso nariz. É preciso abrir os olhos: a mídia quase sempre está contra nós e suas crias, como Reinaldo Azevedo, da “Revista” Veja, sempre escreverão barbaridades como as que ele escreveu: “o dever das pessoas de bem é boicotar Aquarius”. Bem, confesso que não boicotei, assisti e gostei muito. Estou convicto de que vi um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos. A ideia que os golpistas fazem de moral e bons costumes aos meus olhos são conservadoras e preconceituosas, um retrocesso sem fim. Querem voltar para a idade da pedra. Pessoas do “mal”, uni-vos! Vejam ‘Aquarius’!

pedantismo futebolístico

Eu nem havia aprendido a falar quando a seleção brasileira conquistou o tetra em 1994 e ainda era uma criança quando conquistaram o penta em 2002. Meu pai tem boas recordações da Copa de 1994 e sempre fala com saudosismo da dupla Romário e Bebeto, que não cheguei a ver jogando. No início da adolescência, ainda acompanhei as últimas partidas de Romário em busca do seu tão desejado milésimo gol. Da Copa de 1998, em que o Brasil foi derrotado na final, não me lembro de absolutamente nada.

Minha recordação mais antiga de uma Copa do Mundo é a final da de 2002. Minha memória não vai além do último jogo e, mesmo assim, é constituída de lembranças muito turvas deste momento. Consigo lembrar que, na época, vários homens imitavam o estranho corte de cabelo do Ronaldo (chamado de “estilo cascão”). Recordo ainda de um programa do Domingo Legal, ainda com o Gugu como apresentador, pagando algum valor para que as mulheres da plateia cortassem o cabelo como o do Ronaldo no palco, ao vivo, mas não sei se isso foi durante ou depois da Copa, se realmente aconteceu, se é invenção da minha cabeça ou uma confusão com outra lembrança. Por favor, se alguém lembrar disso, corrija-me nos comentários se eu estiver errado. Recordo ainda que, no jogo da final, algumas pessoas estavam aqui em casa, mas só consigo me lembrar do meu pai, não relembro mais quem eram os outros presentes, na verdade, nem consigo visualizar o rosto delas na minha memória. Assim fica difícil de identificar, embora arrisque afirmar que eram meus tios. Enfim, esses detalhes não importam.

Mencionei isso tudo para dizer que a seleção já conquistou dois títulos de Copa do Mundo desde que nasci, ainda que não tenha visto nenhum. Não consigo considerar a Copa de 2002. Quatro anos depois, na Copa de 2006, eu torci e acompanhei de verdade. Lembro-me dos jogos, de tudo. Marcou-me também o fato de meu tio, irmão de meu pai, dizer-me que aquela seria a minha primeira Copa de verdade, e acabou sendo mesmo. No entanto, a seleção brasileira perdeu, como a gente já sabe. Em 2010, outra derrota, e agora, mais recentemente, em 2014…

Nunca vi a seleção de futebol mais vitoriosa de todos os tempos vencer uma Copa do Mundo. Se estou frustrado? Vou ser muito sincero: eu nem ligo! Sou um apaixonado por futebol, acompanho sempre. Certas partidas são para mim bem mais emocionantes que muitos filmes insossos, mas minha felicidade e minha tristeza não são reféns de um esporte. Se meu time conquista um título, é claro que fico satisfeito. É bom vencer, comemorar, mas a grande verdade é que eu não ganho nada quando meu time vence e não perco nada quando ele perde (a não ser que eu fosse muito idiota a ponto de ficar apostando dinheiro).

É tudo psicológico. Quando torço para um time, estou dizendo para meu subconsciente que devo ficar contente quando ele vence e aborrecido quando ele perde. Já fui assim, mas vamos combinar que ficar triste não é nada legal e decididamente nenhum time (nem seleção) tem o poder de me fazer feliz ou infeliz. E se já teve é porque eu lhe dei inconscientemente esse poder. Claro que quero que meu time vença, que a seleção brasileira vença, afinal, nós seres humanos somos inflados de ego e nunca queremos perder para ninguém, não importa o que seja. É por isso que só retiro a parte boa: se o time (ou seleção) vence, fico satisfeito (satisfação essa, tão momentânea, que no dia seguinte já acaba), mas se o time perde, não permito-me ficar triste.

Preciso dizer também que a seleção brasileira não me representa. A CBF é uma entidade privada que se apropriou do nome “Brasil”, mas o Brasil somos nós e não temos poder de decisão nenhum sobre quem preside a entidade, que lucra ano após ano em cima da nossa paixão por futebol, em cima dos atletas e nossa identificação como pátria. Afinal, futebol e Brasil ainda continuam sendo sinônimos um do outro. Sempre quis que nosso país fosse diretamente associado a outras coisas, como música, educação, sustentabilidade ambiental, ciência, cinema ou literatura, por exemplo. No entanto, parece que uma vez país do futebol, sempre país do futebol. E embora adore esse esporte, admito que isso pode ser ruim, como já está sendo, inclusive.

Ao contrário do que tentam nos fazer acreditar, não vivemos a maior crise política do país. Esse, definitivamente, não é o momento mais difícil que o Brasil já atravessou. Não esqueçamos da ditadura militar. O que são cinquenta anos para a História? Isso mesmo, nada! E tem mais, ela só acabou há trinta e um anos. Isso é menos que nada. A ferida ainda não cicatrizou, nossa “democracia” ainda é muito jovem e, graças a ela, podemos ganhar as ruas para manifestar contra o que quer que seja (ainda que abaixo de balas de borracha, bombas de efeito moral e gás de pimenta). Graças a ela, posso escrever neste blogue sobre política e você, caro(a) Leitor(a), pode ler sobre o que quiser. E foi nesse período tão tenebroso que a seleção brasileira teve suas gerações mais talentosas e vitoriosas. Foi em pleno regime militar que a seleção conquistou o tri, em 1970. Todas essas vitórias mantiveram muitas pessoas hipnotizadas. Não raramente, vejo reportagens tratando essas conquistas como uma espécie de consolação para o povo brasileiro que estava tão sofrido (quando não esteve?). Acho isso duplamente absurdo, primeiro porque é altamente pretensioso achar que títulos de torneios de futebol servem para consolar mazelas (embora alguns infelizmente tenham-se deixado consolar por isso) e segundo porque é um comportamento de alienados abstrair os problemas ao redor por causa de campeonatos de futebol. Sem contar que os militares souberam muito bem utilizar o tri como propaganda para enaltecer a ditadura e a noção de pátria que queriam incumbir no povo. Ou seja, durante muitos anos tivemos pouco pão e muito, muito circo.

Entretanto, vivemos sim outra crise política (quando é que não estamos vivendo uma?) e as derrotas no futebol não podem ser mais importantes que isso. O debate sobre quem deve ocupar o cargo de técnico não pode ser mais importante que o debate sobre nossos representantes em Brasília. Eu trocaria fácil essas cinco estrelas que só servem como ornamento na camisa da seleção por um país com mais educação, segurança, inclusão e cultura.

Acostumamo-nos mal, quer dizer, quem viu a seleção ganhar tantas vezes se acostumou mal – a minha geração, que não viu essas vitórias todas, já nasceu foi com mania de grandeza. Aprendemos, desde cedo, que a nossa seleção é a maior e a mais forte. Já foi, não é mais. O que não quer dizer que não volte a ser no futuro. Seria melhor e mais saudável se todos admitíssemos isso. Bom, muitos já admitem, mas continuam achando que a seleção brasileira vai vencer toda nova competição que enfrentar. Nós somos os únicos que insistimos em não enxergar o que o mundo inteiro já sabe: não somos mais os melhores e, quando entramos em qualquer torneio, não estamos nem sequer entre os favoritos. É preciso esperar e aceitar o pior. Não temos mais camisa e muito menos time para acreditar que seremos sempre finalistas. É preciso tolerar quando voltarmos para casa mais cedo e de mãos abanando. Admitir que a vida é cheia de reviravoltas: hoje estamos por baixo, mas amanhã podemos estar por cima novamente. O mundo inteiro aprendeu a jogar futebol estudando as gerações de seleções brasileiras; hoje não temos mais nada a ensinar, mas muitíssimo a aprender. É preciso descer do salto e submeter-se à condição de aprendiz.

Enquanto isso, segue todo mundo errando. A CBF com seus escândalos de corrupção que não são de hoje, mas que os bons resultados da seleção sempre ajudaram a mascarar; a comissão técnica claramente desatualizada com o que há de melhor no futebol no momento; a péssima safra de jogadores que também não ajuda; os próprios torcedores, que exaltam o futebol europeu mas que com dois resultados negativos já pedem a cabeça do técnico; além, claro, da imprensa esportiva, que alardeia toda e qualquer derrota como humilhante, vexatória e constrangedora. Eu não me sinto nada humilhado ou constrangido quando a seleção brasileira perde. Não fico com vergonha do resto do mundo. Para mim é infinitamente mais vergonhoso ser o 60° país em educação. Muito mais constrangedor é ter vinte e uma cidades entre as cinquenta mais violentas do mundo. Vexame para mim é ter a quarta maior população carcerária do mundo. Humilhação é saber que a cada vinte e sete horas acontece um assassinato contra pessoas LGBT no Brasil. As derrotas da seleção são o nosso menor problema, se é que se pode classificar isso como um problema.

Muitos vão dizer que não sou um torcedor de verdade e que não amo o futebol tanto quanto digo amar. Não importa, de mim eu é quem sei. Ademais, reitero que não há nada de humilhante em perder. As outras seleções não se sentem humilhadas quando tropeçam, e até as mais vitoriosas estão sempre tropeçando. Mal sabem elas o bem que esses tropeços fazem. O mesmo vale para os torcedores desses países. Nós só começamos a tropeçar de alguns anos para cá. Somos mimados, não queremos aceitar que outras seleções também brinquem com a taça de campeã. Somos tão malcriados que, quando a seleção vence, tá tudo ótimo, mas basta uma derrotinha para falarmos mal, fazermos piadas, desmerecer. Nós, brasileiros, somos os piores torcedores do mundo; as torcidas de times estrangeiros até brigam entre si de vez em quando, mas aqui, além disso, é comum ver torcidas depredando estádios quando os times perdem e torcedores à espera de jogadores no aeroporto para hostilizá-los. Só quando o time vence é que tudo é divino e maravilhoso. Com a seleção não é muito diferente, para muita gente qualquer derrota é motivo de demérito. Não há motivo para se envergonhar com o 7 a 1. Nossa seleção aplicou placares elásticos (alguns maiores que esse) em quase todos os seus rivais dentro de campo. Pergunta para o haitianos se eles estão envergonhados pelo 7 a 1 que eles levaram da seleção brasileira recentemente. Não estão, não. E não me venha com essa de que o Brasil é penta e que o Haiti não tem tradição. A seleção que conquistou o penta não é essa de hoje. Dos pentacampeões até que seria coerente cobrar que fizessem jus ao título, mas a geração atual ainda não conquistou nada e insistem em cobrá-la que honrem cinco títulos que não foram conquistados por ela.

Durante todos os anos de hegemonia da seleção brasileira, todos as outras seleções aprenderam que o importante é competir. Lição que a gente aprende quando criança nas aulas de educação física, mas que esquece quando cresce. No fundo, bem lá no fundo, eu ainda acredito que verei a seleção brasileira vencendo uma Copa do Mundo. Vai ser divertido, mas estou consciente de que, se ela ganhar, minha vida não vai mudar em nada, assim como não mudará se ela nunca mais conquistar um título. Alguém sempre tem que perder; se ganhássemos tudo, não teria a menos graça. O charme do esporte está exatamente no fato de saber que ninguém será invencível para sempre. Saber perder também é uma atitude de gente campeã, mas ser humilde, pelo visto, ninguém quer.

o selo de qualidade dos vira-latas

Em 16 de julho de 1950, a nossa seleção de futebol perdeu a partida para a seleção uruguaia na final da Copa do Mundo realizada no Brasil. A derrota aconteceu em pleno Maracanã, o que contribuiu ainda mais para o forte trauma sofrido pelos brasileiros. Nelson Rodrigues escreveu então um texto* sobre o ocorrido, em que falou pela primeira vez sobre o complexo de inferioridade do nosso povo, que ele chamou de “complexo de vira-lata”. Dizia ele no texto: Por “complexo de vira-lata” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima.

Para Rodrigues, o fenômeno não se limitava somente ao campo futebolístico, até porque o Brasil se recuperaria do complexo de inferioridade no futebol com a conquista da Copa do Mundo de 1958. Estou falando sobre isso porque no próximo dia 28 acontece a cerimônia do Oscar e estamos concorrendo na categoria de Melhor Animação com o filme ‘O Menino e o Mundo’ (2013), do diretor Alê Abreu. Desde a indicação, vejo amigos meus, dentre eles, tanto quem não entende de cinema, quanto quem entende e estuda o assunto, assistindo ao filme de maneira ensandecida. Prestigiei a produção pela primeira vez ano passado – para ser mais preciso, no dia 6 de fevereiro. Todavia, desde 2014 que eu já queria vê-lo. Acho ótimo que o estejam assistindo, afinal, o filme é realmente bom e merece estar entre os cinco indicados. No entanto, se tem uma coisa que eu tenho certeza é que, muitos desses meus amigos (e pessoas por esse Brasilsão a fora) não o veriam se ele não tivesse sido indicado ao Oscar. Esse pensamento é explicado pelo fato de que a maioria dos brasileiros já não gosta do cinema nacional em live-action (termo utilizado no cinema, teatro e televisão para definir os trabalhos que são realizados por atores reais), que dirá um filme de animação, gênero em que o país não possui forte tradição.

Acontece, caríssimo Leitor, que a indicação de um filme para o Oscar é visto como um selo de qualidade pelo povo brasileiro: “se os gringos acham que é bom, então é porque é”. Mas não precisa ser necessariamente um Oscar, qualquer prêmio internacional já é o suficiente para que o público comece a prestar atenção, ou você realmente acha que se o filme ‘Que Horas Ela Volta?’ (2015), da diretora Anna Muylaert, não tivesse vencido o Sundance na categoria especial de Atuação para Regina Casé e Camila Márdila, teria acontecido toda essa repercussão? Muito provavelmente não, o que me deixa muito triste, porque o filme é realmente bom e levantou questões muito importantes que, de fato, precisam ser debatidas urgentemente pela sociedade brasileira. Mesmo com esse prêmio e outros importantes, o filme de Muylaert (que já havia sido transmitido na TV por assinatura) ficou engavetado pela Rede Globo na esperança do filme conseguir a indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A Rede Globo sabe, assim como sabem todos os veículos de comunicação desse país que, se o filme fosse indicado, aumentaria a curiosidade dos brasileiros e, por consequência, a audiência quando o filme fosse exibido. Quando a Academia divulgou a prévia dos nove filmes estrangeiros que concorreriam e ficamos sabendo que a produção protagonizada por Regina Casé estava de fora, em poucos dias ele foi exibido na Tela Quente para aproveitar que ainda era assunto na boca do povo. Deu certo, o filme conseguiu marcar a ótima média de 22 pontos de audiência. O índice foi quatro pontos maior do que a média do último mês, na mesma faixa.

Se olharmos para o passado, veremos que sempre foi assim. Nosso querido José Mojica Marins, criador do personagem Zé do Caixão, era tido como louco, mas foi só vencer o Festival Internacional de Cinema Fantástico e de Horror em Sitges, na Espanha, com seu filme ‘O Estranho Mundo de Zé do Caixão’ (1968), que a imprensa brasileira começou a enxergar (ainda que a contragosto) o gênio por detrás da capa preta. O mesmo festival ainda lhe homenagearia anos depois com uma menção honrosa pelo conjunto de sua obra e por grandes serviços prestados ao cinema de horror. Também anos depois, dessa vez na França, Mojica participou da 3° Convenção de Cinema Fantástico, realizada em Paris. No encerramento do festival, ele ganhou o troféu L’Écran Fantastique também pelo conjunto de sua obra. Na década de 1990, Mojica ainda seria descoberto pelos fãs de terror nos EUA, onde ficaria conhecido como Coffin Joe. Hoje é ídolo cult, mas dificilmente o seria sem o reconhecimento internacional. Em 1998, André Barcinski e Ivan Finotti publicaram ‘Maldito’, biografia de Mojica. Quem escreveu o prefácio do livro foi Rogério Sganzerla (outro brasileiro que não recebeu o devido reconhecimento de seus compatriotas) ainda vivo na época. Bem no início do texto, Sganzerla aponta: “Mojica deu tudo de si para construir uma obra, perfeitamente assimilada e reconhecida no exterior. Mas não passa de um estrangeiro em seu próprio país, devido à omissão generalizadora da maioria de seus pares – pois tudo se perdoa nos trópicos, menos a inteligência e a criatividade”.

Ademais, como se não bastasse todo esse descaso com o cinema nacional, o mesmo ainda acontece com a música brasileira. Tom Zé talvez seja o nosso maior exemplo desta perspectiva. Se David Byrne não o tivesse descoberto e lançado seus discos no exterior, o Pai da Invenção (como Tom Zé é conhecido internacionalmente) estaria hoje trabalhando como frentista em um posto de gasolina de seu sobrinho, em Irará. Não desmerecendo a profissão dos frentistas (que é tão digna quanto qualquer outra), mas Tom Zé estaria exercendo amargamente essa profissão pelo simples fato de não conseguir viver da própria arte no Brasil. Usando as palavras de Sganzerla como exemplo, por que a obra de nossos melhores artistas é perfeitamente assimilada e reconhecida no exterior, e no Brasil não? Seria uma sequela do terceiro mundismo? Hoje Tom Zé finalmente goza de prestígio em nosso país e consegue viver dos shows que faz e dos discos que vende, mas só depois de conquistar o “selo de qualidade” imposto pelo público brasileiro. Ainda fico na dúvida se a música de Tom Zé é realmente assimilada por todos que dizem admirá-lo ou se o fazem só porque os primos distantes do primeiro mundo ditam a moda. Se realmente assimilam, por que esperar que os países desenvolvidos o façam primeiro? Que espírito de colonizado é esse? Quando nós poderíamos estar recolonizando o mundo com a nossa arte, esperamos que os outros países exportem-na primeiro para depois “venderem” aqui. Nunca conseguirei entender isso.

Outro exemplo musical é Os Mutantes, considerada por muitos (me incluo nesse grupo) como a maior banda brasileira de rock de todos os tempos. Rita Lee e os irmãos Baptista só conquistaram prestígio no Brasil após se apresentarem na Europa e os jornais europeus se curvarem ao seu som. No livro ‘A Divina Comédia dos Mutantes’, biografia da banda publicada pela primeira vez em 1995, pelo escritor Carlos Calado, encontramos um trecho que expressa isso muito bem: Como costuma acontecer nessas ocasiões, a imprensa brasileira fez coro com os elogios dos estrangeiros. Até então tratados com ironias e preconceitos por boa parte da mídia nacional, pela primeira vez Os Mutantes foram enaltecidos como verdadeiros representantes da música popular brasileira. Afinal, a Europa havia se curvado frente aos “nossos” garotos…

Também não esqueçamos de nossos compatriotas que olham enviesado para nossa literatura só por não possuir um prêmio Nobel. Como se realmente precisássemos disso para afirmar que a literatura brasileira é uma das melhores do mundo, com autores incríveis e traduzidos em todos os continentes. É verdade que todos esses prêmios trazem prestígio para um país e ajudam a divulgar os seus artistas, mas não podemos depender disso para nos orgulhar da arte feita aqui. Não podemos depender de uma visão de fora para decidir o que é bom ou ruim. Não precisamos de um Nobel para provar que Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, José de Alencar, Lima Barreto, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Lygia Fagundes Telles, Manuel Bandeira entre tantos outros, são gênios de sua arte. O prêmio nem existia quando alguns dos maiores escritores de todos os tempos já haviam escrito suas obras-primas. Não, não precisamos de um Nobel! Um prêmio criado pelo inventor da dinamite e que acumulou uma das maiores fortunas de sua época com suas fábricas de armamentos não pode ser selo de qualidade para ninguém. Inclusive com sua categoria da Paz.

Outro fato que pouca gente lembra (ou talvez faça questão de esquecer, tamanha foi a ignorância), é que se hoje a bossa nova é foda, não foi esse o pensamento quando João Gilberto surgiu no final de década de 1950. Esse que é indiscutivelmente um dos gênios da música brasileira, foi chamado de desafinado, sem ritmo, ventríloquo. Contudo, o final da história todo mundo conhece: sua música ultrapassou todas as fronteiras possíveis e, claro que depois de entrar para a seleta lista de brasileiros detentores do prêmio Grammy (o Awards e não o Latino), incluindo um de Álbum do Ano (!), viria a se tornar unanimidade em seu país. Anos depois, Tom Zé apresentaria em sua música “Vaia de Bêbado Não Vale” a interessante tese de que a bossa nova inventou o Brasil. Na música ele canta: “no dia em que a bossa nova inventou o Brasil / no dia em que a bossa nova pariu o Brasil / teve que fazer direito / teve que fazer Brasil / criando a bossa nova em 58 / o Brasil foi protagonista / de coisa que jamais aconteceu / pra toda a humanidade / seja na moderna História / seja na História da Antiguidade […] / quando aquele ano começou, nas / Águas de Março de 58, / o Brasil só exportava matéria-prima / essa tisana / isto é o mais baixo grau da capacidade humana / e o mundo dizia: / que povinho retardado / que povo mais atrasado […] / a surpresa foi que no fim daquele mesmo ano / para toda a parte / o Brasil d’O Pato / com a bossa-nova, exportava arte / o grau mais alto da capacidade humana / e a Europa, assombrada: / que povinho audacioso / que povo civilizado.” Como Tom Zé muito bem apresentou em sua música, o Brasil deixava de exportar matéria-prima (café) para exportar arte (música). O mundo se curvava para um país que, até pouco tempo, era muito pouco conhecido. Muito se falava, mas pouco se sabia, de fato. O Brasil entrava com pé direito para a história da música mundial, de onde nunca mais saiu, estando, desde então, na lista dos países que produzem a melhor música do mundo.

Quando tento pensar em brasileiros pouco premiados no exterior, mas altamente reconhecidos em seu país, Eduardo Coutinho é um dos poucos exemplos que me vem à mente. Embora reconhecido internacionalmente, Coutinho nunca ganhou um prêmio de grande expressão. Entretanto, no meio cinematográfico brasileiro, é o que chamamos de unanimidade. Morreu gozando de grande prestígio entre a crítica e fãs de documentários. Não precisou de um Oscar para que os brasileiros o reconhecessem como um reinventor do gênero documental. O que significa que ainda temos salvação. A bossa nova já provou que podemos ser um povo audacioso e civilizado aos olhos das outras nações. Não precisamos nos impor um selo de qualidade. Vamos enxergar com nossos próprios olhos o que temos de melhor sem esperar que alguém de fora faça isso por nós. ‘O Menino e o Mundo’, com ou sem Oscar, já merece destaque na história da cinematografia brasileira, mas se o prêmio de Melhor Animação servir para dar um fim a esse complexo de vira-lata do cinema nacional, desejo então boa sorte no próximo dia 28. Mas lembrando sempre: não precisamos disso!

* Nelson Rodrigues. “Complexo de vira-lata”. In: À sombra das chuteiras imortais: crônicas de futebol. São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p. 51.

enem

Pelas minhas contas, a prova do ENEM que acontece no próximo final de semana é a de número dezoito. Elas acontecem desde 1998. São dezessete anos. Dezessete! O que me admira muito, porque só vim ouvir falar na prova no fim do meu ensino médio, quando a universidade federal da minha cidade decidiu aderir ao exame. Desde aquele tempo, já se falava na realização de duas edições da prova por ano. O que não aconteceu até hoje e, com o MEC reduzindo o repasse de verba para as universidades federais, é algo que não deve acontecer tão cedo. Até porque, sendo o ENEM o segundo maior exame do mundo (o que não é de se impressionar, já que nossa população é imensa), o gasto do governo para a aplicação das provas em 2014 chegou a R$ 453,5 milhões, de acordo com informações do próprio MEC. Esse ano a conta deve ser ainda maior.

Não consegui passar de primeira, nem de segunda. Pois é. E olha que o curso de Cinema nem é um dos mais concorridos. Tudo consequência da minha deficiência em matemática, química, física e biologia. Mesmo tirando boas notas nas provas de redação, ciências humanas, linguagens, códigos e suas tecnologias, não foi o suficiente para ingressar na universidade. Eu me recusava (e nem tinha condições) a pagar uma particular podendo fazer uma de graça. Sendo que tudo era culpa minha. Então desisti. Foi quando ingressei no mercado de trabalho.

Trabalhei como almoxarife em uma construtora e como estagiário em um banco privado. Esse segundo foi onde durei mais tempo e foi uma experiência ótima. É incrível como sua vida muda para melhor quando se tem conhecimento sobre o sistema bancário. Os bancos são um dos maiores males da humanidade, então conhecer suas leis é fundamental para não se deixar dominar pelas altíssimas taxas e juros. É preciso dizer também que foi lá onde tive os melhores chefes e colegas de trabalho até hoje. Como conheço muitas pessoas que trabalham em bancos, posso dizer que isso não é algo muito comum.

Quando não estava trabalhando, aproveitava o tempo livre para ler muito, ver o máximo de filmes possível, desenvolver projetos por baixo dos panos e atualizar um blogue que eu tinha, chamado Escribômano. Nesse meio tempo, eu já havia desistido da ideia de ingressar na universidade. Mas não deixei de realizar as provas do ENEM. É claro que eu não tinha mais esperanças. Não havia passado depois de concluir o ensino médio com todas as disciplinas frescas na memória, não havia passado depois de fazer cursinho pré-vestibular (leia frequentar, porque eu mal assistia às aulas e a única coisa boa que de lá tirei foram os amigos que fiz), e não haveria de passar depois de um ano inteiro academicamente parado. Eu só conseguia pensar que, a cada ano que se passava, o número de inscritos aumentava. Também pudera, o número de vagas é muito inferior ao número de candidatos. E as pessoas que não conseguem passar tentam no ano seguinte com os milhares que alunos que concluem o ensino médio.

Havia madrugado na noite anterior quando fui mais uma vez fazer a prova. Estava com muito sono e zero de motivação. Não queria estar ali. Passar duas tardes da minha vida sentado e realizando uma prova desgastante onde a única coisa boa era o chocolate que eu havia levado. Sem contar que eu só tinha levado canetas de tinta azul. Só tenho canetas dessa cor porque acho que minha letra fica feia com canetas de tinta preta (coisas da minha cabeça). Veja minha falta de atenção. Eu deveria lembrar que só eram permitidas as esferográficas de tinta preta. Lembrei disso quando já havia chegado ao local da prova e lido a informação no cartão de inscrição (parece que esse ano o cartão não será mais entregue pelos Correios e o candidato tem que conferir no site do Inep, o que é ótimo, são menos árvores derrubadas). Acontece que, se não fosse esse cartão de inscrição, eu não teria saído daquele torpor e visto que só eram permitidas canetas de corpo transparente e tinta preta. Na verdade, eu deveria ter lido ele em casa. Enfim, não tinha mais tempo para sair e comprar outra. Foi quando um garoto que estava lá me deu uma caneta para que eu realizasse a prova. Não consegui devolver porque nunca mais o vi. Nem no dia seguinte consegui encontrá-lo. Claro que o agradeci, mas se um dia ele ler esse texto e lembrar, deixo aqui mais uma vez o meu “muito obrigado”.

O que aconteceu, caríssimos, eu não vou saber explicar, mas consegui responder a prova muito bem e mais uma vez fiz uma boa redação. Foi então que, quando eu menos quis e acreditei, consegui ingressar na universidade federal mais concorrida do país. Eu tinha tanta certeza de que não conseguiria que nem conferi quantas questões eu havia acertado. Só quando saíram as inscrições do Sisu que conferi minha nota. Não queria sofrer por antecedência.

Ingressar numa universidade nunca foi um sonho de fato. Mas sim conhecer pessoas que também sonhassem em fazer cinema. Deu certo. E foi até melhor. Enquanto estive fora do ambiente acadêmico me tornei um cinéfilo autodidata. Cheguei à universidade com muita bagagem, o que me permitiu não ficar boiando durante certas aulas. Se você Leitor, sonha em cursar uma universidade e vai fazer a prova do ENEM no próximo final de semana, desejo a você um ótimo desempenho. Mas saiba que você deveria estar fazendo as últimas revisões e não lendo esse texto. Faça o que eu digo e não faça o que eu faço. Corre lá que ainda dá tempo de fazer umas redações. E não esqueça: a caneta é de corpo transparente e cor preta.

Até a próxima. Abraçaço.