irrealidade virtual

Um conselho sincero: você pode iniciar a leitura desse texto a partir do nono parágrafo sem maiores prejuízos.

Muitas coisas me aconteceram em janeiro, inclusive alguns infortúnios envolvendo meu computador e a internet. Os problemas que tive com o computador nem me deram tanta dor de cabeça quanto os que tive com a internet, mas todos aconteceram ao mesmo tempo em uma semana cheia de compromissos em que eu iria precisar muito do acesso de ambos.

Certo dia, desembarquei do ônibus em uma parada localizada a quatro ruas antes da minha casa para poder caminhar um pouco como faço quase sempre. Logo que desci, ouvi um burburinho na rua de pessoas comentando estarem sem energia elétrica em suas residências. Fiquei tranquilo, pois imaginei que, como ainda estava longe de casa, a falta de energia com certeza não estaria atingido a rua onde moro e, consequentemente, o meu lar. Na rua seguinte, mais pessoas comentavam nas calçadas umas com as outras sobre a falta de energia. Então, durante o trajeto das duas próximas ruas, apurei bem os ouvidos na tentativa de ouvir algum som ligado, o barulho de alguma TV ou até mesmo de um liquidificador. Nada.

Chegando em casa, constatei que a falta de energia era no bairro inteiro e fiquei tranquilo, pois quanto mais ruas são atingidas, maiores são as chances do problema ser solucionado com rapidez. Bebi um copo com água, tirei a roupa e, quando ainda estava debaixo do chuveiro, a energia elétrica voltou. No entanto, não me preocupei em momento algum. Se a falta de energia durasse a tarde inteira, eu sabia muito bem o que fazer: ler. Se no começo da noite ainda estivesse faltando energia, eu dormiria e acordaria durante a madrugada para fazer as coisas que deveria ter feito mais cedo e que necessitavam de eletricidade, isso se ela tivesse voltado – caso não, eu continuaria dormindo na tentativa de diminuir o sono acumulado que eu jamais conseguirei recuperar.

De toda forma, fiquei lendo durante a tarde toda. Como costuma acontecer aqui em casa, quando há quedas de energia, a internet demora um pouco a voltar. Dessa vez, não foi diferente. Quer dizer, foi. Horas depois, a internet ainda não havia voltado e eu saberia que não voltaria mais até receber a visita de algum técnico. Havia chovido forte na noite anterior. Quando acordei, percebi, ainda antes de sair de casa, uma poça de água no chão do quarto, próxima ao computador. Olhei para o teto à procura de alguma mancha de água no forro, mas não havia nada. Desconhecia completamente a origem da poça misteriosa. Fiquei preocupado e corri para ver se meus livros estavam molhados, mas encontrei-os sequinhos. O wi-fi também estava funcionando, o que me levou a crer, mais tarde, quando eu cheguei em casa, que a queda de energia era, de fato, a responsável por ter causado o problema – eu iria descobrir depois que estava enganado.

Liguei para o serviço de atendimento e agendei uma visita com um técnico. Deram-me o prazo de até quarenta e oito horas para solucionar o problema. Em qualquer época do ano, ficar dois dias sem acesso a rede mundial de computadores para mim não é nenhum sacrifício. Entretanto, eu iria filmar um documentário em poucos dias e dependia da internet para fechar todo o cronograma com a equipe, além de fazer umas pesquisas de última hora. Felizmente, o técnico veio no dia seguinte e resolveu tudo. Foi quando eu descobri a origem da água.

Minha internet era à rádio e a água vinha de dentro do cabo que era conectado na torre que ficava em cima da casa. Como a água entrou nele eu ainda não iria ficar sabendo. O técnico retirou a água do cabo e me perguntou se havia ocorrido alguma queda de energia. Respondi que sim e, como eu, ele diagnosticou erroneamente o problema: com a queda de energia, o moldem havia se desconfigurado. Ele reconfigurou tudo e foi embora. Usei a internet normalmente durante o resto do dia e fui dormir. Choveu a noite toda. Ao acordar, a primeira coisa que percebi ao levantar da cama foi o chão mais uma vez molhado com uma poça de água ainda maior que a anterior. A internet estava funcionando normalmente, mas minutos depois ela parou de vez. Eu teria então que resolver tudo com a equipe de filmagem por telefone.

Por falar em telefone, gastei todos os créditos do celular em outra ligação para a central de atendimento. Além de pedir que solucionassem o problema, solicitei a troca da internet à rádio por uma de fibra óptica. Dessa vez, não tive o mesmo fortúnio de antes, pois o técnico só veio no limite das quarenta e oito horas. Ao retirar de cima da casa a torre que capta o sinal, o técnico descobriu um pequeno buraco no cabo, por onde a água entrou e desceu até o meu quarto. Segundo a perícia que ele fez, era a água que estava danificando o cabo e desconfigurando o sinal.

Depois desse dia, não houve mais queda de energia, a internet não voltou a cair, a água não visitou mais meu quarto (embora tenha chovido bastante desde então), e a filmagem aconteceu normalmente. Porém, se você leu até aqui, desde já gostaria de me desculpar por não ter sido mais sucinto – esse é um talento que eu definitivamente não possuo. Dessa forma, tudo o que foi escrito até agora, por mais que tenha consumido metade do corpo do texto, é o que podemos chamar por introdução.

Tudo isso pode não fazer nenhum sentido, mas após esses acontecimentos banais fui acometido por algumas pequenas reflexões. Não é de hoje que a vida virtual vem me preocupando. Já é um fato que a internet está matando em escalas maiores ou menores o consumo de discos físicos, DVDs, livros, entre outras coisas. É possível baixar tudo isso quase sempre de graça, o que ajudou a democratizar o acesso a muitas obras de arte. No entanto, agora é a cultura do download que está sendo morta pelos serviços de streaming.

Nunca gostei de streaming. Quando ele ainda não era moda, grande parte das bandas que curto, disponibilizavam, muitas vezes gratuitamente, seus discos para download. Isso vem deixando de acontecer. Essas mesmas bandas que liberavam seus álbuns agora simplesmente os lançam no Spotfy. O site é bom, admito. Tem, inclusive, me ajudado muito a ouvir os lançamentos dos meus artistas favoritos. O preço a pagar para me ver livre dos anúncios é pequeno, mas não é isso o que eu desejo. Eu quero é ter as músicas no meu computador e no meu celular sem que eu precise ser refém de um wi-fi para ouvi-las, nem que eu tenha que pagar por isso. Quero poder enviá-las para amigos quando me pedirem dicas de músicas, quero poder reproduzi-las no carro e poder levá-las para onde eu for.

Não consumo os dados móveis da minha operadora de celular. Adoto uma filosofia de que nada na internet é tão importante assim para que eu precise dela quando não estou em casa. Quase todos os lugares que frequento possuem acesso a wi-fi, então, tecnicamente, só fico sem internet quando estou na rua me locomovendo de um lugar para o outro. Se estou em um ônibus, prefiro adiantar minhas leituras. Nada é tão urgente que não possa esperar. Se for algo muito sério, alguém vai me ligar.

Também não assino Netflix. O catálogo de filmes, segundo o que meus amigos me falam, não é tão sedutor assim. Não estão lá os filmes que gosto de assistir. Concordo que é bem mais prático fazer um login e assistir a um filme, ao invés de ter que pesquisar na internet e ainda esperar o download terminar – o que às vezes pode demorar bastante. Sem contar a caça por legendas. Sinto que o download de filmes tem caído ainda mais do que o de músicas. Está cada vez mais difícil encontrar torrents ou até mesmo outras formas de download. A pirataria de internet é um assunto complicado, mas qual a outra forma disponível para assistir filmes que não chegam às salas de cinema? Nem estou falando tanto dos filmes estrangeiros, mas do próprio cinema brasileiro mesmo. Só porque não há uma grande procura por determinados títulos, nenhuma empresa se preocupa em vendê-los. Devo me conformar em não assisti-los? É isso que devo fazer? Sinto muito, mas me recuso a proceder assim.

É infinitamente melhor não ter que ocupar a memória do celular ou do computador com músicas e filmes. Todavia, existem os pendrives, que são absurdamente pequenos, e os HDs externos, que muitas vezes são menores que muitos celulares de hoje em dia. O que não dá para aceitar é a segregação dessas obras. Estamos correndo um grande perigo, pois nem tudo está no Spotify e muito menos no Netflix. Essa deve ser a única forma legal de se consumir música e cinema? Os dois são serviços comerciais como qualquer outro. Se não gerarem lucros, eles não vão se interessar por adquirir os direitos de obras que não possuem forte apelo popular. Formas alternativas ao streaming precisam existir. Hoje é o download, amanhã pode ser outra tecnologia, e todas elas devem ser legalizadas para que todos os artistas possam receber por seus direitos autorais (sem que para isso tenhamos que pagar preços abusivos).

Espero estar sendo mais pessimista do que deveria, e acreditar que o download vai resistir. Inclusive, na falta de formas legais de se consumir obras cinematográficas, musicais e literárias, que a pirataria virtual continue fazendo seu serviço de democratização da arte, pois é praticamente isso que ela faz. Os responsáveis por isso são pessoas que na grande maioria das vezes não ganham nada para disponibilizar obras e legendar filmes, além do prazer de compartilhar conteúdo. Sou a favor de pagar por tudo isso que consumo, desde que os filmes que desejo ver estejam nos catálogos dos serviços de vendas e que as músicas que desejo ouvir estejam legalmente disponíveis para download. Quanto à literatura, sou daqueles que acreditam que alguém só lê um livro no computador ou no tablet se realmente não tem condições de comprar (ou porque o título está fora de circulação).

Por fim, sei que sou um romântico, pois quando realmente gosto de um disco, faço questão de adquirir. Já perdi a conta dos CDs que comprei sem nunca ter colocado no aparelho de som. Comprei só para tê-los e, consequentemente, ajudar as bandas que gosto. Só não consumo mais DVDs de filmes porque quase nunca encontro os títulos que gosto disponíveis para comprar. Sobre os livros, espero não viver o suficiente para ver o fim do formato físico, pois se deixarem de existir, eu mesmo irei imprimi-los e encaderná-los.

Ainda sobre livros, eu realmente gostaria que todas as obras de arte fossem como eles. Explico: para ver um filme, eu preciso de um projetor e uma tela, ou um computador, enquanto que, para ouvir música, eu necessito de um aparelho de som ou um celular. Para consumir os livros, eu só preciso deles, pois se estiverem em formato físico, o único suporte que necessito para desfrutá-los são meus olhos. Nesse sentido, os livros são perfeitos, pois as outras formas de arte requerem tecnologia adicional. É como se os livros tivessem sido feitos sob medida para o corpo humano: um só depende do outro. Acredito que boa parte dos instrumentos musicais também cai nessa categoria. É assustador imaginar um pane global na rede mundial de computadores. Imaginar também alguma catástrofe que deixe a população sem energia elétrica. Em um caso como esses, só teríamos a literatura. Creio que muitas pessoas não resistiriam ao ver suas vidas virtuais sepultadas. Contudo, acredito que estou sendo apocalíptico demais. Estou? Enfim, esse é outro assunto e eu deveria ter escrito só sobre isso. Deveria.

antirretrospecto

Na madrugada de hoje, terminei minha segunda leitura do ano: ‘Cinema Brasileiro a Partir da Retomada – Aspectos Econômicos e Políticos’, do Marcelo Ikeda. Esse livro me surpreendeu muito positivamente, e o recomendo para quem trabalha, estuda ou pretende estudar cinema, principalmente quem se interessa pela área de produção e distribuição de filmes. Estou escrevendo sobre isso por dois motivos: primeiro, para indicar o livro, e segundo, para falar que minha meta de leitura está atrasada.

Iniciamos ontem a quarta semana do ano e eu já deveria já estar no quarto livro. No entanto, estou na metade do terceiro, que pretendo terminar antes do fim da semana para já iniciar o próximo. Não estou correndo, nem fazendo leituras atropeladas, mas apenas me organizando melhor para conseguir ler mais. Diante disso e de tudo o que tem acontecido em janeiro, tomei uma decisão que preciso compartilhar: só escreverei aqui quando concluir um livro. Dessa forma, vocês saberão que a cada novo texto publicado, uma leitura foi concluída por mim.

Pois bem, esse não é o tão prometido artigo elaborado que falei na postagem anterior. Até comecei a elaborar um que deve ser o próximo a ser publicado. Só não trabalhei nele agora porque aconteceu algo que me motivou a escrever essas linhas. Hoje cedo, quando eu acordei, recebi um e-mail notificando que o blogue Calculadamente havia citado um texto meu chamado Procrastinatório. O autor do blogue é o David, meu amigo de muitos anos, que vive criando blogues e abandonando. Nesse novo texto ele prometeu uma porrada de publicações para esse ano. Vamos ver se dessa vez ele cumpre. De toda forma, não é exatamente sobre isso que eu queria falar, e sim do fato de que eu não lembrava de ter escrito algo com esse título – se eu não lembrava do título, também não fazia a menor ideia do que havia escrito no corpo do texto.

Intencionalmente, tento me distanciar das coisas que já escrevi. Evito ler os textos antigos desse blogue, por exemplo. Quase sempre sinto vergonha do que está escrito e mudaria muita coisa, se possível. Na verdade, é possível, e é justamente por isso que tento não ler – para não ficar reescrevendo eternamente o mesmo texto. O sentimento é o mesmo para os meus primeiros curtas-metragens. Não gosto muito de assisti-los. Ao contrário dos textos, não é possível modificá-los. Por outro lado, ler ou rever trabalhos antigos tem o lado positivo de nos fazer reconhecer os próprios erros e constatar se está ou não havendo uma evolução ao comparar com os trabalhos mais recentes.

Todos esses trabalhos foram importantes na época de suas realizações. Entretanto, não me interessa revisitá-los. Ao fim de cada trabalho realizado, só consigo pensar no próximo degrau. Certa vez, Jô Soares disse em um de seus programas que Tom Zé era um artista antirretrospecto. Ou seja, que não vive de glórias passadas. O Mestre está sempre lançando trabalhos novos e relevantes, o que evidencia sua capacidade de evolução. Claro que ninguém, muito menos eu, vai conseguir chegar ao patamar do Tom Zé, mas me interessa tentar. É uma briga perdida, eu sei, mas que pretendo lutar dignamente. Sei também que é esteticamente pobre comparar o próximo trabalho com um degrau, mas a cada dia que passa, vejo mais artistas rolando escada abaixo, incapazes de se reinventar e superar sucessos antigos.

Costumo dizer que, uma vez concluído, o trabalho está morto para mim. O discurso nem sempre funciona na prática, pois alguns textos ou curtas nunca morrem, fazendo com que eu sempre me lembre deles. No entanto, eu não lembrava do texto Procrastinatório. O blogue vai fazer dois anos em junho e eu também nem lembrava mais que um dia quis outro título para ele sem ser Satãnatório. Foi bom ler um texto que nem é tão antigo assim (foi publicado há sete meses atrás), mas é evidente que ele não me marcou tanto quanto outros, pois eu nem lembrava mais. Apesar disso, é muito louca a sensação de ver que alguém ainda lembra de um texto meu que eu havia esquecido.

Não pretendo renegar trabalhos passados. Quando digo que estão “mortos”, não significa que não os veja com carinho. Eles são importantes, fazem parte de quem eu sou, de onde estou e de onde pretendo chegar. Apenas não desejo aproveitá-los além do necessário. Não pretendo ser o cineasta que realiza sempre o mesmo filme ou o escritor que escreve sempre o mesmo livro. Por mais relevantes que possam ser os trabalhos passados, uma hora eles precisam dar espaço para novas criações.

A escrita, mais do que o cinema e, creio que bem mais do que qualquer outra arte, nos engana melhor. Quando leio um texto realmente muito antigo, quase sempre não me reconheço mais naquelas palavras, o que me faz pensar: eu escrevi isso? Não houve esse choque com o texto Procrastinatório porque ele ainda é bem recente. Até gostei de lê-lo e não modifiquei nada. Talvez, se eu o ler daqui a alguns anos, fique pensando nas possíveis melhores maneiras de redigi-lo, mas no presente momento eu apenas não me lembrava de tê-lo escrito. Contudo, sei que o escrevi porque continuo procrastinador e lembro muito bem do argumento que citei no final, pois ele foi muito trabalhoso de escrever. Claro que esse texto de agora não tem função nenhuma e se autodestruirá da minha mente assim que for publicado. No entanto, se alguém ler e também encontrar vantagem em adotar o ‘antirretrospecto’ como filosofia de vida, já fico satisfeito. Até a próxima, abraçaço.

todo dia é dia de gênio

Certa feita, em uma aula de Cinema Moderno que cursei no segundo semestre do curso de Cinema, a turma assistiu ao filme ‘O Bandido da Luz Vermelha’, de 1968, do diretor Rogério Sganzerla (1946-2004). Era um seminário e havia uma equipe de cinco alunos responsável pela projeção do filme e o debate com o restante da turma sobre a importância deste longa para o cinema brasileiro moderno. Na aula da semana anterior, minha equipe havia apresentado ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, de 1964, do diretor Glauber Rocha (1939-1981). Ao final da aula, a professora, aproveitando a repercussão dessas duas apresentações e o fato de Sganzerla ter apenas vinte e dois anos quando dirigiu ‘O Bandido…’ e Glauber vinte e cinco anos quando lançou ‘Deus e o Diabo…’ – antes disso, tendo lançado seu primeiro longa-metragem, ‘Barravento’, em 1962, aos vinte e três anos -, soltou um comentário que até hoje julgo um tanto quanto irresponsável: “Vocês não se sentem mal por estarem na mesma faixa de idade deles e ainda não terem lançado um longa?”.

Desde o primeiro momento, eu também encarei essa pergunta como uma forma de incentivo, uma provocação, uma tentativa de nos encorajar, digamos assim, a produzirmos. Por ser uma professora e uma pessoa maravilhosa, sei que a intenção era das melhores: fazer-nos sair da teoria e partir para a prática. No entanto, a boa intenção não exclui os muitos problemas dessa pergunta-provocação-incentivo. Um deles é imediato: o sentimento de culpa e fracasso desnecessário que se instala em nossa consciência ao sermos comparados com pessoas da nossa faixa-etária mais bem sucedidas que nós.

A turma dessa disciplina era formada por alguns alunos com menos de vinte anos, a grande maioria na casa dos vinte, alguns com trinta e poucos e até aluno com mais de cinquenta anos. Diante da pergunta, todos ficaram calados, ninguém respondeu nada até eu, que sempre fui de falar muito, respondi com um “não, não me sinto mal por não ter lançado nenhum longa ainda”. Nesse momento todos os olhares se voltaram para mim e eu comecei a dar minhas justificativas, que só não transcrevo aqui porque já não lembro palavra por palavra, mas recordo de ter usado Suzana Amaral como um dos exemplos.

Suzana começou a estudar cinema quando já havia criado os nove filhos. Lançou o primeiro filme, ‘A Hora da Estrela’, um clássico do cinema brasileiro de 1985, aos cinquenta e três anos de idade, baseado na obra homônima de Clarice Lispector. Quando falei dela, um dos alunos, na época com vinte e sete ou vinte e oito anos, comentou que estava aliviado, pois ele ainda estava no tempo. O que muita gente esquece é que todo tempo é tempo. O próprio Sebastião Salgado só começou a fotografar aos vinte e nove. Não há necessidade desse tipo de comparação, principalmente quando o assunto é arte.

Agora, sempre que vejo o exemplo de um artista que começou “tarde”, lembro dessa aula. A própria concepção de “começar tarde” é errada, pois cada profissional tem o seu tempo próprio. O momento de criação de cada um é o tempo certo. É óbvio que muitos fatores nos impedem de começar antes. Artistas que conseguem reconhecimento logo no início são exceções. É difícil estudar em uma universidade um curso que não nos traz muitas ou quase nenhuma perspectivava de emprego. É como saltar sem paraquedas. Para muitos é preciso fazer outro curso antes e se profissionalizar em algo apenas para se conseguir estabilidade financeira. Para a grande maioria (e nisso me incluo), apesar de já cursar a área de interesse, é preciso trabalhar com o que não gostamos para, no futuro, finalmente conseguir trabalhar com o que queremos. Entretanto, nunca é tarde para começar.

Pode até ser desanimador fazer cinema diante de gênios como Glauber e Sganzerla, que começaram tão cedo. Para outros também pode ser desanimador ser escritor ao lado de gênios como Machado de Assis (1839-1908) e Álvares de Azevedo (1831-1852), que começaram tão jovens. Contudo, caríssimos, o fato de Suzana Amaral ter lançado o primeiro filme aos cinquenta e três, Kleber Mendonça Filho ter lançado seu primeiro longa-metragem aos quarenta e cinco anos, e Fernando Meirelles e Cláudio Assis aos quarenta e três anos, não os torna piores. O trabalho de todos eles, inclusive, é muito maduro e consistente. Sganzerla, por exemplo, nunca conseguiu fazer um filme melhor que ‘O Bandido da Luz Vermelha’, enquanto que Kleber Mendonça acaba de lançar a obra-prima ‘Aquarius’, aos quarenta e oito anos. Em 2002, quando Meirelles lançou ‘Cidade de Deus’, ele estava então com quarenta e sete.

Cora Coralina (1889-1985) e Graciliano Ramos (1892-1953) são dois gênios da literatura, tendo lançado seus primeiros livros aos setenta e seis e quarenta e um, respectivamente. Não estou dizendo que começar “tarde” é melhor, mas esse desejo de ser o mais rápido, o mais forte e o mais jovem, causa muitos problemas. No desespero de lançar logo a primeira obra, muitos artistas produzem trabalhos que com certeza seriam melhores se houvessem se dado o tempo de amadurecê-los.

Repito, nunca é tarde para começar. E nem para recomeçar. Tom Zé havia abandonado a carreira, mas conseguiu sair do ostracismo aos cinquenta e seis anos. Se já havia lançado clássicos como ‘Todos os Olhos’ (1973) e ‘Estudando o Samba’ (1976), ainda conseguiu realizar um de seus melhores trabalhos em 2012, o disco ‘Tropicália Lixo Lógico’, aos setenta e seis. Esse ano, aos oitenta, acaba de lançar o disco ‘Canções Eróticas de Ninar’, que eu ainda não ouvi e já gostei. Nada está perdido; bons trabalhos são realizados em qualquer idade. Se os artistas mais velhos nos incentivam a sempre continuar tentando, os artistas jovens não podem ser usados para nos desencorajar a produzir depois de uma determinada idade. E tenho dito: todo dia é dia de gênio.

o cinema é nosso

“Eu vejo o futuro repetir o passado”. Esse trecho da música ‘O Tempo Não Para’ de Cazuza vem martelando em minha cabeça sempre que penso no cenário brasileiro atual. Sinto como se estivesse vivendo situações que só conhecia através dos livros de História, quando estudava os capítulos sobre ditadura militar e respirava aliviado por ter nascido em outra época. Nesses mesmos livros didáticos, muito se falava sobre a censura imposta a todo tipo de arte, embora a música, com o exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil, ganhasse sempre um aprofundamento maior. Não recordo de ler nada relacionado à repressão sofrida pelo cinema brasileiro. Isso eu fui aprender depois por conta própria.

Quando os militares derrubaram João Goulart (1919-1976), o então presidente democraticamente eleito, o cinema brasileiro vivia um importante momento de sua história. ‘O Pagador de Promessas’, de 1962, escrito e dirigido por Anselmo Duarte (1920-2009) e baseado na peça teatral homônima de Dias Gomes (1922-1999), havia ganhado a Palma de Ouro no Festival de Cannes, e o Cinema Novo havia acabado de nos brindar com três clássicos eternos da nossa cinematografia: ‘Vidas Secas’, de 1963, escrito e dirigido por Nelson Pereira dos Santos e baseado no livro homônimo de Graciliano Ramos (1892-1953), ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, de Glauber Rocha (1939-1981) e ‘Os Fuzis’, de Ruy Guerra, ambos de 1964. ‘Vidas Secas’ e ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ foram indicados à Palma de Ouro com grande repercussão internacional, enquanto que Ruy Guerra receberia o Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim por ‘Os Fuzis’.

O Cinema Novo, movimento iniciado ainda na década de 1950 e formado por artistas de esquerda, resultou no maior engajamento político da filmografia nacional. A vida precária no sertão e nas favelas, questões raciais e sociais, a fome e a miséria, foram fortemente denunciados e debatidos em dezenas e dezenas de filmes. Com o golpe militar, esses longa-metragens e seus realizadores passaram a ser perseguidos e censurados. Glauber Rocha, maior nome do movimento, foi exilado.

O Cinema Marginal surgiria nesse meio tempo e, enquanto os cinemanovistas eram perseguidos por sua forte ideologia política, os marginais eram censurados por criticarem o comportamento moralista. Os filmes eram verdadeiramente retalhados e cineastas como José Mojica Marins, que não fazia parte de nenhum dos dois movimentos, foram algumas das maiores vítimas da repressão. Marins teve de cortar dezenas de cenas e falas em seus filmes, chegando até mesmo a modificar finais para conseguir lançá-los. Assim como ‘Terra em Transe’, de 1967, de Glauber, seu longa-metragem ‘Ritual dos Sádicos’, de 1969, foi proibido em todo o território nacional, não chegando nem a ser lançado nos cinemas por ter quase todas as suas cópias apreendidas e queimadas. Recuperado em 1982, foi exibido apenas em mostras e festivais com o título de ‘O Despertar da Besta’. Falido, Mojica teve que dirigir filmes pornôs para não morrer de fome, o que destruiu sua carreira. Na década de 1990 foi redescoberto pelos americanos e conseguiu voltar a dirigir seus filmes de terror, mas o estrago já estava feito. Uma carreira que tinha tudo para ser meteórica foi minada pela censura da ditadura militar.

Em 1964, Eduardo Coutinho (1933-2014) ainda era um diretor de longas de ficção. Ele estava realizando na Paraíba o filme que contaria a história de João Pedro Teixeira, líder camponês da região, assassinado em 1962. O cineasta já estava filmando há duas semanas quando parte da equipe foi presa sob a alegação de comunismo. A produção foi interrompida e Coutinho teve que voltar a trabalhar com jornalismo. Somente dezessete anos depois o trabalho foi retomado, dessa vez, colhendo depoimentos dos camponeses que trabalharam nas primeiras filmagens, com foco principal na história da viúva de João Pedro, dona Elizabeth Altino Teixeira que, desde 1964, teve que viver na clandestinidade, separada dos filhos. Lançado em 1984, ‘Cabra Marcado Para Morrer’ é até hoje o melhor e mais importante documentário brasileiro de todos os tempos.

Somente em 1975, com a abertura política, os filmes conseguiram uma liberdade maior para abordar temáticas que não agradavam ao governo, sendo lançados com poucos ou até mesmo nenhum corte. Por ter um público infinitamente maior que o do cinema, a censura voltou sua atenção para a televisão. No entanto, mesmo os filmes liberados sem cortes eram censurados quando transmitidos na TV. ‘Pixote: A Lei do Mais Fraco’, de 1980, do diretor Hector Babenco (1946-2016), só foi liberado para a telinha cinco anos depois e com trinta e oito cenas censuradas. Com o fim do regime militar, a censura acabou e os filmes dessa época puderam ser assistidos na íntegra em todo o território nacional.

Os vinte e um anos do regime militar foram o período mais sombrio já vivido pelas criações artísticas brasileiras, um verdadeiro desprezo pela informação e liberdade de expressão. Ao ler essas histórias, parece tudo muito absurdo, mas estamos de fato repetindo o passado. Temos o Congresso mais conservador desde 1964, ano do golpe militar. Hoje, assim como há cinquenta e dois anos atrás, vivemos mais um golpe, dessa vez, parlamentar, em que 367 deputados e 55 senadores anularam 54,5 milhões de votos. A imprensa, assim como em 1964, apoiou o golpe. Em 2013, apenas quarenta e nove anos depois, a Rede Globo se desculpou publicamente, classificando seu apoio ao golpe militar como um erro. No futuro, ela e tantos outros veículos de imprensa haverão de se desculpar novamente. Só espero que não demore outros quarenta e nove anos.

Todos os absurdos que eu lia nos livros de História começam a se repetir. Primeiro um golpe parlamentar derruba Dilma Rousseff, nossa presidenta democraticamente eleita. Depois, Michel Temer, em seu primeiro pronunciamento ao assumir o cargo, diz à nação brasileira: “Não fale em crise, trabalhe!” Qualquer semelhança com o “Brasil, ame-o ou deixe-o” não é mera coincidência. Depois, decreta o fim do Ministério da Cultura (recriado após calorosos protestos da classe artística). Não deu nem muito tempo para comemorar a volta do ministério quando seu novo ministro, Marcelo Calero, simplesmente decidiu exonerar a presidente da Cinemateca Brasileira, Olga Futemma, juntamente com outros quatro técnicos da instituição. A Cinemateca é responsável pela preservação da produção audiovisual brasileira. Dias depois, após forte apelo da classe cinematográfica, o Ministério da Cultura voltou atrás e manteve o emprego de Olga e dos outros quatro funcionários.

Nesse meio tempo, a equipe do filme ‘Aquarius’, do diretor Kleber Mendonça Filho, protestou contra o impeachment da presidenta Dilma no tapete vermelho do Festival de Cannes, em que concorreu a Palma de Ouro depois de oito anos sem um representante brasileiro na disputa oficial. O último filme nacional a concorrer ao prêmio havia sido ‘Linha de Passe’, de Walter Salles e Daniela Thomas, em 2008. O ministro Calero criticou o protesto e disse que os membros da equipe do filme “estão comprometendo [a imagem do país] em nome de uma tese política, e isso é ruim. Eu acho até um pouco totalitário, porque você quer pretender que aquela sua visão específica realmente cobre a imagem de um país inteiro. Eu acho que a democracia precisa ser respeitada e acho que é um desrespeito falar em golpe de Estado com aqueles que viveram o golpe realmente, o de 1964. Pessoas morreram. E as pessoas esquecem isso. Então eu acho [o protesto] de uma irresponsabilidade quase infantil”. Sônia Braga, que interpreta a protagonista do filme, rebateu: “Como pode um Ministro dizer que um ato democrático como o nosso é a representação de um País inteiro? Isso é desconhecimento do que significa plena democracia. Se estivéssemos falando em nome de todos não precisaríamos, evidentemente, fazer o ato. Uma coisa é certa: estamos juntos. O Ministro da Cultura ofendendo artistas é inadmissível. O senhor está nesse cargo para dialogar, para nos ajudar, para fazer a ponte com quem nos explora. A propósito, as críticas para Aquarius foram fabulosas. Quatro estrelas em jornais franceses, italianos, poloneses, russos e três citações no The New York Times. Ponto grande para a imagem da cultura brasileira no exterior. Senhor Ministro, não podemos perder as nossas conquistas. Sobretudo a mais importante delas, o respeito”. Desde então, o filme vem sofrendo uma forte perseguição política.

A repressão ao longa só ficou ainda mais evidente quando o Ministério da Justiça o proibiu para menores de dezoito anos, alegando conter situações sexuais complexas. Assisti ao filme e considerei a classificação um abuso. As três cenas de sexo de ‘Aquarius’ duram cada uma menos de trinta segundos. Filmes recentes do cinema nacional, como ‘Tatuagem’, de 2013, escrito e dirigido por Hilton Lacerda, e ‘Boi Neon’, de 2016, escrito e dirigido por Gabriel Mascaro, possuem longas cenas de sexo explícito e foram classificados como impróprios para menores de dezesseis anos. Usando esses exemplos como argumento, Silvia Cruz, sócia da distribuidora Vitrine Filmes, em uma reunião com Gustavo Marrone, secretário nacional de Justiça e Cidadania, pediu a reconsideração da classificação estabelecida. O Ministério da Justiça aceitou o pedido de revisão feito pela distribuidora e o filme acabou lançado como impróprio para menores de dezesseis anos. Em 1964, ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ foi lançado sem cortes, no entanto, foi proibido para menores de dezoito anos. Quem já viu o filme de Glauber sabe o quão isso é absurdo. Quem assistir ‘Aquarius’ também vai considerar a classificação do filme bastante incoerente. Todos sabemos que uma classificação máxima prejudica muito a vida de um filme, que acaba por ter seu leque de público muito reduzido, prejudicando inclusive sua arrecadação com bilheteria, e é justamente isso que o governo está tentando fazer: evitar que as pessoas assistam ao novo filme de Kleber Mendonça Filho. Na França, por exemplo, a produção recebeu a classificação livre para todos os públicos.

Até agora, ‘Aquarius’ conseguiu reverter bem as perseguições que o Ministério da Cultura tem feito contra o longa. Nos primeiros quatro dias de exibição, o filme conseguiu uma bilheteria de cinquenta e cinco mil espectadores, sendo o melhor lançamento da semana em média por sala. No entanto, há um último desafio a ser vencido: ser o representante brasileiro na disputa do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Para a maioria dos profissionais, cinéfilos e críticos nacionais e internacionais, ‘Aquarius’ é o grande favorito, todavia, o Ministério da Cultura ainda tem mais uma carta na manga: o crítico Marcos Petrucelli (da rádio CBN e do site e-Pipoca), anunciado como integrante da comissão responsável pela seleção do representante nacional no Oscar. Petrucelli vem criticando duramente ‘Aquarius’ e especialmente seu diretor, Kleber Mendonça Filho, desde sua passagem no Festival de Cannes. A nomeação de Petrucelli (que confessou não ter visto o filme) é uma clara tentativa do governo de tirar a vaga do longa com o intuito de evitar mais um protesto político de sua equipe com repercussão internacional. Após a polêmica, dois integrantes, a atriz Ingra Lyberato e o diretor Guilherme Fiúza Zenha, se desligaram da comissão, sendo substituídos por Carla Camuratti e Bruno Barreto. Adriana Rattes, Luiz Alberto Rodrigues, George Torquato Firmeza, Paulo de Tarso Basto Menelau, Silvia Maria Sachs Rabello e Sylvia Regina Bahiense Naves são os demais integrantes da comissão. Em protesto, os diretores Gabriel Mascaro e Anna Muylaert retiraram da disputa seus filmes ‘Boi Neon’ e ‘Mãe Só Há Uma’, respectivamente.

O longa de Kleber Mendonça Filho concorrerá com outros dezesseis filmes para representar o Brasil no Oscar: ‘A Bruta Flor do Querer’ (Andradina Azevedo, Dida Andrade); ‘A Despedida’ (Marcelo Galvão); ‘A Hora e a Vez de Augusto Matraga’ (Vinícius Coimbra); ‘Até Que a Casa Caia’ (Mauro Giuntini); ‘Campo Grande’ (Sandra Kogut); ‘Chatô – O rei do Brasil’ (Guilherme Fontes); ‘Mais Forte Que o Mundo – A História de José Aldo’ (Afonso Poyart); ‘Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil’ (Belisário Franca); ‘Nise – O Coração da Loucura’ (Roberto Berliner); ‘O Começo da Vida’ (Estela Renner); ‘O Outro Lado do Paraíso’ (André Ristum); ‘O Roubo da Taça’ (Caíto Ortiz); ‘Pequeno Segredo’ (David Schürmann); ‘Tudo Que Aprendemos Juntos’ (Sérgio Machado); ‘Uma Loucura de Mulher’ (Marcus Ligocki Júnior); ‘Vidas Partidas’ (Marcos Schechtman). Nosso representante será anunciado na próxima segunda-feira (12/09), em cerimônia na Cinemateca Brasileira, em São Paulo.

Em seu livro ‘Revisão Crítica do Cinema Brasileiro’, Glauber Rocha dizia que a luta do Cinema Novo era contra a chanchada e o trust americano, e que era preciso salvar o cinema independente: “temos de salvar o cinema independente, temos de construir o cinema brasileiro com os independentes. Somente assim os diretores terão liberdade para criar filmes novos. […] Tudo é muito claro: o que se precisa é a união dos independentes contra o trust americano – a primeira batalha foi interna, contra a chanchada. A segunda é maior, é uma luta igual às outras da indústria brasileira e mais do que nunca, agora, este amadurecimento político de um povo necessita da legenda: o cinema é nosso, como no caso do petróleo.” O Cinema Novo, de fato, conseguiu derrubar a chanchada, mas nunca vencemos a invasão americana. Fosse hoje, Glauber diria que a luta deveria ser contra a comédia pastelão (a chanchada atual), a invasão americana e o boicote do governo ilegítimo.

O cinema é nosso, assim como todas as outras formas de expressão artística. Não podemos deixar que censores virjões tramem boicotes a obras de arte bem debaixo do nosso nariz. É preciso abrir os olhos: a mídia quase sempre está contra nós e suas crias, como Reinaldo Azevedo, da “Revista” Veja, sempre escreverão barbaridades como as que ele escreveu: “o dever das pessoas de bem é boicotar Aquarius”. Bem, confesso que não boicotei, assisti e gostei muito. Estou convicto de que vi um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos. A ideia que os golpistas fazem de moral e bons costumes aos meus olhos são conservadoras e preconceituosas, um retrocesso sem fim. Querem voltar para a idade da pedra. Pessoas do “mal”, uni-vos! Vejam ‘Aquarius’!

distância estratégica

Sou um homem de muitos ídolos, em especial cineastas, escritores(as) e compositores(as), mas se tem algo que tenho aprendido com o passar dos anos é que, em alguns casos, manter distância deles pode ser uma decisão muito saudável. Na adolescência, passei por uma fase de fanatismo por bandas de rock, bandas essas que me ajudaram a moldar boa parte da minha personalidade. Ainda gosto dessas bandas, conheci outras e fui ao show de muitas. Conservo em mim a vontade de ainda ver ao vivo as que nunca cheguei a ver – não são poucas, apesar de boa parte delas não existir mais.

Mesmo nessa fase, nunca fui a camarim, nunca fui a aeroporto esperar meus ídolos chegarem na minha cidade, nunca fiz nenhum tipo de loucura de fã, mesmo já tendo sido membro de alguns fã clubes. Não julgo quem faz essas demonstrações de amor, contanto que não passem dos limites do bom senso e jamais ponham a própria segurança e a dos outros em risco. Foi uma fase importante da minha vida, em que conheci muitas pessoas que gostavam das mesmas coisas que eu. Se pudesse voltar no tempo, com certeza faria muita coisa diferente, mas essa fase da adolescência eu não mudaria. Fiz muitas amizades, das quais algumas permanecem até hoje. A música, em especial o rock, me aproximou de muita gente incrível e essas bandas apresentaram-me a muitas outras bandas, a vários filmes e livros. Não foram poucas as ocasiões em que li um livro ou vi um filme porque certo cantor ou cantora dizia gostar em entrevistas. Até hoje fico muito feliz quando alguém me apresenta algo que ainda não conheço, embora nada supere a sensação de sozinho fazer essas descobertas. É por isso que pesquiso tanto, estou sempre desbravando listas de filmes, livros, discos e, conforme o tempo vai passando, menos entrevistas eu leio ou assisto.

Show para mim tem que ser na grade, bem perto do palco. Se eu ficar longe, tenho a sensação de que não fui. Por isso, sempre compro os ingressos no primeiro lote para não correr o risco de perder. Chego cedo, mesmo que tenha que ficar algum tempo na fila. Tenho forte resistência, posso passar bastante tempo em pé, sem comer ou ir ao banheiro. Em quase todos os shows que fui na adolescência, fui a primeira pessoa da fila. Não sei se continuo com essa mesma resistência, porque faz bastante tempo que não sou e nem me preocupo mais em ser o primeiro. Não chego mais com muitas horas de antecedência, porém, chego tarde o suficiente para ainda conseguir ficar na grade (isso não significa que chego cedo, são as pessoas que chegam tarde, acredite). A energia da grade é diferente da dos outros espaços. Ali estão os fãs mais enérgicos, os mais apaixonados, os mais loucos, os que querem ser vistos pela banda. Gosto dessa energia. Hoje não pulo tanto quanto antes e nem tento ser o que grita mais alto. Sempre tenho algo para fazer no dia seguinte, não posso mais dar-me ao luxo de ficar muito cansado e rouco. Agora, só o fato de estar ali me basta, embora continue querendo estar perto.

Todas as vezes que vou a um show, as pessoas perguntam-me no dia seguinte se consegui entrar no camarim e tirar foto com a banda. Eu sempre digo que não (porque, na verdade, nem tento) e recebo sempre uma reação decepcionada. Nunca consegui entender isso. Vou aos shows ver e ouvir as bandas ao vivo, não para tirar fotos com os músicos. Costumo explicar brincando que quando vou a um show só interessa-me a “missa” proporcionada pela banda. O importante mesmo é comungar aquele momento com as pessoas ali presentes. Nos primeiros shows que fui, costumava filmar várias músicas e fotografar bastante, hoje, não faço mais isso. Em boa parte dos casos é uma grande oportunidade estar ali. Sei que queremos registrar cada segundo, mas se estamos muito preocupados em registrar a apresentação, esquecemo-nos de viver aquele momento. Agora, costumo tirar uma ou duas fotos para guardar de recordação, mas não tenho nenhum registro fotográfico do último show que fui. No entanto, lembro nitidamente de tudo e sou capaz de contar em detalhes quando me perguntam como foi.

Acredito que permanecerei sempre como um rato de shows. A sensação de ver minhas bandas favoritas ao vivo é maravilhosa. É um pouco semelhante com o que acontece com o cinema. Muita gente costuma ir ao cinema ver os filmes de seus atores favoritos ou dos gêneros que mais gostam. Se vou ao cinema, o motivo sempre é o(a) diretor(a). Acompanho o trabalho de muitos(as) e sei que ver seus filmes na tela grande é completamente diferente de vê-los em casa. A literatura parece mesmo ser a arte mais solitária – os(as) escritores(as) quase sempre escrevem sozinhos(as), diferente de artes mais coletivas, como a música e o próprio cinema. Eu até posso fazer música sozinho, da mesma forma que posso me filmar, editar e lançar esse filme “solo”, mas sabemos todos que casos assim são raras exceções. Da mesma forma que não são muito comuns leituras coletivas, embora alguns grupos de leitura estejam tentando mudar essa realidade.

No entanto, atualmente, quase não acompanho nada, salvo uma ou duas bandas que eu tô sempre observando. Quando são lançados discos novos, praticamente sou pego de surpresa. São tantas notícias que não dá para acompanhar tudo. Mesmo quando se trata de filmes, que possuem um processo de produção mais longo (captação de recursos, pré-produção, produção, edição, participação em festivais, divulgação, exibição nos cinemas), consigo ser pego de surpresa com um ou outro lançamento, principalmente tratando-se da fonte nacional, que é o que eu mais gosto de acompanhar e assistir, mas que não tem uma distribuição tão massiva quanto a dos filmes enlatados que as distribuidoras brasileiras importam de outros países para ocuparem as salas de cinema do Brasil inteiro. Quando a questão envolve os livros, é aí que eu sou surpreendido mesmo, por isso, sempre que posso, dou uma pesquisada para ver o que tem sido publicado atualmente (mesmo saindo geralmente muito triste de ver os títulos e os autores que estão ocupando as prateleiras das livrarias).

Apesar disso, não sofro. Muito pelo contrário, estou evitando cada vez mais saber o que eles estão fazendo e principalmente falando. Não tem sido poucas as ocasiões em que venho decepcionando-me com artistas. Toda vez que assisto uma entrevista em que José Mojica Marins faz comentários homofóbicos, dói-me o coração. Quando vi Caetano Veloso, Chico Buarque, Djavan e Gilberto Gil aderindo ao Procure Saber, grupo que luta pela proibição de biografias não autorizadas, custei a acreditar. Não fiquei surpreso com Roberto Carlos, porque já conhecia seu histórico de proibições que, inclusive, não é de hoje. Quando Jô Soares constrangeu a youtuber Jout Jout com comentários machistas em seu programa, eu também me senti constrangido. Nunca acompanhei a carreira de Roger, embora goste muito dos primeiros discos do Ultraje a Rigor, mas recentemente tenho ficado impressionado com o modo como o vocalista dessa banda que produziu um dos discos fundamentais do rock brasileiro dos anos 1980, o Nós Vamos Invadir Sua Praia (1985), consegue a proeza de em várias ocasiões precisar de tão poucas palavras para destilar seu machismo e homofobia. Por falar nisso, tem sido cada vez mais difícil ouvir as piadas homofóbicas de Silvio Santos, quem tanto respeito e admiro. Sei que ele é um senhor de idade que nasceu e viveu em outra época, mas ele é um homem inteligente o suficiente para saber que nunca é tarde demais para aprender. Foi muito difícil também ler o texto de Fernanda Torres para o Agora é Que São Elas com posicionamentos tão equivocados sobre o feminismo. Sei que ela publicou depois outro texto retratando-se, mas o primeiro havia sido tão exageradamente sincero que, por mais que ela tenha se desculpado, sabemos que infelizmente é daquela forma que ela pensa. Porém, as pessoas mudam, e prefiro acreditar que ela mudou também. Aliás, as intervenções machistas de Claudio Assis durante o debate de Anna Muylaert sobre o filme Que Horas Ela Volta? (2015) e que acabou banindo-o por um ano do Cinema da Fundação Joaquim Nabuco, reduto da arte cinematográfica contemporânea no Recife, foi outro caso difícil de engolir. São casos assim que estão ensinando-me cada vez mais a separar a obra da pessoa. Dessa forma, tenho cada vez menos ídolos, mas admiro cada vez mais as obras de arte em si. Inclusive, seria muito interessante se mais pessoas fossem fãs apenas dos livros, filmes, discos, fotografias, telas, esculturas. Isso me tem evitado muito mal estar. Afinal, são as obras que de fato interessam. São elas que ficam quando o artista morre. Contudo, precisamos sim indignar-se com esses casos, deixar passar esse tipo de coisa só pelo fato de serem artistas é exercer a indignação seletiva. Intolerância, machismo, racismo, homofobia, transfobia, todo tipo de discriminação e preconceito precisam ser combatidos, na vida e nas artes.

o selo de qualidade dos vira-latas

Em 16 de julho de 1950, a nossa seleção de futebol perdeu a partida para a seleção uruguaia na final da Copa do Mundo realizada no Brasil. A derrota aconteceu em pleno Maracanã, o que contribuiu ainda mais para o forte trauma sofrido pelos brasileiros. Nelson Rodrigues escreveu então um texto* sobre o ocorrido, em que falou pela primeira vez sobre o complexo de inferioridade do nosso povo, que ele chamou de “complexo de vira-lata”. Dizia ele no texto: Por “complexo de vira-lata” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima.

Para Rodrigues, o fenômeno não se limitava somente ao campo futebolístico, até porque o Brasil se recuperaria do complexo de inferioridade no futebol com a conquista da Copa do Mundo de 1958. Estou falando sobre isso porque no próximo dia 28 acontece a cerimônia do Oscar e estamos concorrendo na categoria de Melhor Animação com o filme ‘O Menino e o Mundo’ (2013), do diretor Alê Abreu. Desde a indicação, vejo amigos meus, dentre eles, tanto quem não entende de cinema, quanto quem entende e estuda o assunto, assistindo ao filme de maneira ensandecida. Prestigiei a produção pela primeira vez ano passado – para ser mais preciso, no dia 6 de fevereiro. Todavia, desde 2014 que eu já queria vê-lo. Acho ótimo que o estejam assistindo, afinal, o filme é realmente bom e merece estar entre os cinco indicados. No entanto, se tem uma coisa que eu tenho certeza é que, muitos desses meus amigos (e pessoas por esse Brasilsão a fora) não o veriam se ele não tivesse sido indicado ao Oscar. Esse pensamento é explicado pelo fato de que a maioria dos brasileiros já não gosta do cinema nacional em live-action (termo utilizado no cinema, teatro e televisão para definir os trabalhos que são realizados por atores reais), que dirá um filme de animação, gênero em que o país não possui forte tradição.

Acontece, caríssimo Leitor, que a indicação de um filme para o Oscar é visto como um selo de qualidade pelo povo brasileiro: “se os gringos acham que é bom, então é porque é”. Mas não precisa ser necessariamente um Oscar, qualquer prêmio internacional já é o suficiente para que o público comece a prestar atenção, ou você realmente acha que se o filme ‘Que Horas Ela Volta?’ (2015), da diretora Anna Muylaert, não tivesse vencido o Sundance na categoria especial de Atuação para Regina Casé e Camila Márdila, teria acontecido toda essa repercussão? Muito provavelmente não, o que me deixa muito triste, porque o filme é realmente bom e levantou questões muito importantes que, de fato, precisam ser debatidas urgentemente pela sociedade brasileira. Mesmo com esse prêmio e outros importantes, o filme de Muylaert (que já havia sido transmitido na TV por assinatura) ficou engavetado pela Rede Globo na esperança do filme conseguir a indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A Rede Globo sabe, assim como sabem todos os veículos de comunicação desse país que, se o filme fosse indicado, aumentaria a curiosidade dos brasileiros e, por consequência, a audiência quando o filme fosse exibido. Quando a Academia divulgou a prévia dos nove filmes estrangeiros que concorreriam e ficamos sabendo que a produção protagonizada por Regina Casé estava de fora, em poucos dias ele foi exibido na Tela Quente para aproveitar que ainda era assunto na boca do povo. Deu certo, o filme conseguiu marcar a ótima média de 22 pontos de audiência. O índice foi quatro pontos maior do que a média do último mês, na mesma faixa.

Se olharmos para o passado, veremos que sempre foi assim. Nosso querido José Mojica Marins, criador do personagem Zé do Caixão, era tido como louco, mas foi só vencer o Festival Internacional de Cinema Fantástico e de Horror em Sitges, na Espanha, com seu filme ‘O Estranho Mundo de Zé do Caixão’ (1968), que a imprensa brasileira começou a enxergar (ainda que a contragosto) o gênio por detrás da capa preta. O mesmo festival ainda lhe homenagearia anos depois com uma menção honrosa pelo conjunto de sua obra e por grandes serviços prestados ao cinema de horror. Também anos depois, dessa vez na França, Mojica participou da 3° Convenção de Cinema Fantástico, realizada em Paris. No encerramento do festival, ele ganhou o troféu L’Écran Fantastique também pelo conjunto de sua obra. Na década de 1990, Mojica ainda seria descoberto pelos fãs de terror nos EUA, onde ficaria conhecido como Coffin Joe. Hoje é ídolo cult, mas dificilmente o seria sem o reconhecimento internacional. Em 1998, André Barcinski e Ivan Finotti publicaram ‘Maldito’, biografia de Mojica. Quem escreveu o prefácio do livro foi Rogério Sganzerla (outro brasileiro que não recebeu o devido reconhecimento de seus compatriotas) ainda vivo na época. Bem no início do texto, Sganzerla aponta: “Mojica deu tudo de si para construir uma obra, perfeitamente assimilada e reconhecida no exterior. Mas não passa de um estrangeiro em seu próprio país, devido à omissão generalizadora da maioria de seus pares – pois tudo se perdoa nos trópicos, menos a inteligência e a criatividade”.

Ademais, como se não bastasse todo esse descaso com o cinema nacional, o mesmo ainda acontece com a música brasileira. Tom Zé talvez seja o nosso maior exemplo desta perspectiva. Se David Byrne não o tivesse descoberto e lançado seus discos no exterior, o Pai da Invenção (como Tom Zé é conhecido internacionalmente) estaria hoje trabalhando como frentista em um posto de gasolina de seu sobrinho, em Irará. Não desmerecendo a profissão dos frentistas (que é tão digna quanto qualquer outra), mas Tom Zé estaria exercendo amargamente essa profissão pelo simples fato de não conseguir viver da própria arte no Brasil. Usando as palavras de Sganzerla como exemplo, por que a obra de nossos melhores artistas é perfeitamente assimilada e reconhecida no exterior, e no Brasil não? Seria uma sequela do terceiro mundismo? Hoje Tom Zé finalmente goza de prestígio em nosso país e consegue viver dos shows que faz e dos discos que vende, mas só depois de conquistar o “selo de qualidade” imposto pelo público brasileiro. Ainda fico na dúvida se a música de Tom Zé é realmente assimilada por todos que dizem admirá-lo ou se o fazem só porque os primos distantes do primeiro mundo ditam a moda. Se realmente assimilam, por que esperar que os países desenvolvidos o façam primeiro? Que espírito de colonizado é esse? Quando nós poderíamos estar recolonizando o mundo com a nossa arte, esperamos que os outros países exportem-na primeiro para depois “venderem” aqui. Nunca conseguirei entender isso.

Outro exemplo musical é Os Mutantes, considerada por muitos (me incluo nesse grupo) como a maior banda brasileira de rock de todos os tempos. Rita Lee e os irmãos Baptista só conquistaram prestígio no Brasil após se apresentarem na Europa e os jornais europeus se curvarem ao seu som. No livro ‘A Divina Comédia dos Mutantes’, biografia da banda publicada pela primeira vez em 1995, pelo escritor Carlos Calado, encontramos um trecho que expressa isso muito bem: Como costuma acontecer nessas ocasiões, a imprensa brasileira fez coro com os elogios dos estrangeiros. Até então tratados com ironias e preconceitos por boa parte da mídia nacional, pela primeira vez Os Mutantes foram enaltecidos como verdadeiros representantes da música popular brasileira. Afinal, a Europa havia se curvado frente aos “nossos” garotos…

Também não esqueçamos de nossos compatriotas que olham enviesado para nossa literatura só por não possuir um prêmio Nobel. Como se realmente precisássemos disso para afirmar que a literatura brasileira é uma das melhores do mundo, com autores incríveis e traduzidos em todos os continentes. É verdade que todos esses prêmios trazem prestígio para um país e ajudam a divulgar os seus artistas, mas não podemos depender disso para nos orgulhar da arte feita aqui. Não podemos depender de uma visão de fora para decidir o que é bom ou ruim. Não precisamos de um Nobel para provar que Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, José de Alencar, Lima Barreto, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Lygia Fagundes Telles, Manuel Bandeira entre tantos outros, são gênios de sua arte. O prêmio nem existia quando alguns dos maiores escritores de todos os tempos já haviam escrito suas obras-primas. Não, não precisamos de um Nobel! Um prêmio criado pelo inventor da dinamite e que acumulou uma das maiores fortunas de sua época com suas fábricas de armamentos não pode ser selo de qualidade para ninguém. Inclusive com sua categoria da Paz.

Outro fato que pouca gente lembra (ou talvez faça questão de esquecer, tamanha foi a ignorância), é que se hoje a bossa nova é foda, não foi esse o pensamento quando João Gilberto surgiu no final de década de 1950. Esse que é indiscutivelmente um dos gênios da música brasileira, foi chamado de desafinado, sem ritmo, ventríloquo. Contudo, o final da história todo mundo conhece: sua música ultrapassou todas as fronteiras possíveis e, claro que depois de entrar para a seleta lista de brasileiros detentores do prêmio Grammy (o Awards e não o Latino), incluindo um de Álbum do Ano (!), viria a se tornar unanimidade em seu país. Anos depois, Tom Zé apresentaria em sua música “Vaia de Bêbado Não Vale” a interessante tese de que a bossa nova inventou o Brasil. Na música ele canta: “no dia em que a bossa nova inventou o Brasil / no dia em que a bossa nova pariu o Brasil / teve que fazer direito / teve que fazer Brasil / criando a bossa nova em 58 / o Brasil foi protagonista / de coisa que jamais aconteceu / pra toda a humanidade / seja na moderna História / seja na História da Antiguidade […] / quando aquele ano começou, nas / Águas de Março de 58, / o Brasil só exportava matéria-prima / essa tisana / isto é o mais baixo grau da capacidade humana / e o mundo dizia: / que povinho retardado / que povo mais atrasado […] / a surpresa foi que no fim daquele mesmo ano / para toda a parte / o Brasil d’O Pato / com a bossa-nova, exportava arte / o grau mais alto da capacidade humana / e a Europa, assombrada: / que povinho audacioso / que povo civilizado.” Como Tom Zé muito bem apresentou em sua música, o Brasil deixava de exportar matéria-prima (café) para exportar arte (música). O mundo se curvava para um país que, até pouco tempo, era muito pouco conhecido. Muito se falava, mas pouco se sabia, de fato. O Brasil entrava com pé direito para a história da música mundial, de onde nunca mais saiu, estando, desde então, na lista dos países que produzem a melhor música do mundo.

Quando tento pensar em brasileiros pouco premiados no exterior, mas altamente reconhecidos em seu país, Eduardo Coutinho é um dos poucos exemplos que me vem à mente. Embora reconhecido internacionalmente, Coutinho nunca ganhou um prêmio de grande expressão. Entretanto, no meio cinematográfico brasileiro, é o que chamamos de unanimidade. Morreu gozando de grande prestígio entre a crítica e fãs de documentários. Não precisou de um Oscar para que os brasileiros o reconhecessem como um reinventor do gênero documental. O que significa que ainda temos salvação. A bossa nova já provou que podemos ser um povo audacioso e civilizado aos olhos das outras nações. Não precisamos nos impor um selo de qualidade. Vamos enxergar com nossos próprios olhos o que temos de melhor sem esperar que alguém de fora faça isso por nós. ‘O Menino e o Mundo’, com ou sem Oscar, já merece destaque na história da cinematografia brasileira, mas se o prêmio de Melhor Animação servir para dar um fim a esse complexo de vira-lata do cinema nacional, desejo então boa sorte no próximo dia 28. Mas lembrando sempre: não precisamos disso!

* Nelson Rodrigues. “Complexo de vira-lata”. In: À sombra das chuteiras imortais: crônicas de futebol. São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p. 51.