guarda baixa

Sempre me perguntei por que alguns cineastas, após realizarem grandes filmes no passado, verdadeiros clássicos do cinema, dirigem produções tão fracas quando chegam à velhice. Isso quando nem esperam amadurecer para começar a manchar a própria filmografia lançando trabalhos medíocres. Esse também é um fato que vejo com uma frequência ainda maior no cenário musical. Muitas bandas ou artistas-solo que revolucionaram a música quando jovens não conseguiram manter o mesmo nível após alguns anos de carreira. Até na literatura há os que também ficam eternamente marcados pelo livro de estreia.

Esse é um assunto que muitas vezes orbitou em rodas de conversas e eu nunca soube apontar uma razão para esse “fenômeno”. No entanto, há algumas semanas atrás, encontrei a resposta assistindo a vídeos de Leandro Karnal que, de tão óbvia, me passou despercebida. Esses artistas caíram na terrível zona de conforto. Tentei encontrar o vídeo para transcrever as palavras de Karnal, mas não encontrei. É um vídeo em que ele usa a expressão “baixar a guarda”. De toda forma, encontrei outras palestras em que ele novamente disserta sobre o tema.

Para Karnal, é natural do ser humano buscar zonas de conforto, pois elas fazem com que não gastemos energia pessoal e cerebral. Porém, para todos aqueles que se dedicam ao estudo de carreira, a zona de conforto é a grande armadilha da vida. Ela nos diz para relaxarmos, para ficarmos bem porque “chegamos lá”. Entretanto, toda vez que acreditamos ter “chegado lá”, começamos a diminuir a potência de tudo aquilo que podemos fazer. Zona de conforto é o que buscamos, mas ela também é o início do nosso declínio, afinal, ela produz a felicidade que nos leva à acomodação, que nos leva à preguiça e esta, por sua vez, nos leva ao não desenvolvimento do nosso potencial. Ou seja, aquilo que nos favorece é também aquilo que nos prejudica.

Tudo isso faz muito sentido. Estudamos, nos esforçamos e damos tudo de si quando estamos desenvolvendo nossos primeiros projetos. Queremos provar para o mundo do que somos capazes. Toda essa motivação inicial é mesmo difícil de ser mantida se já conquistamos um espaço em nossas áreas de atuação. Sempre que penso nisso, me vem à mente o exemplo de Tom Zé, que a cada novo trabalho consegue se superar. O Mestre sempre fala em uma espécie de deficiência, de dificuldade na hora de criar. Segundo ele, esse sofrimento é o que o motiva a estudar todos os dias para conseguir compor suas músicas. Além do talento natural que Tom Zé possui, acredito que essa dificuldade que ele diz ter o impulsiona em direção ao trabalho árduo dos estudos e, consequentemente, para fora de qualquer zona de conforto.

Escrevi essas linhas ao som de Raul Seixas e, coincidentemente, em sua canção ‘Eu Sou Egoísta’, ele fala, entre outras coisas, sobre zonas de conforto. É uma das minhas músicas favoritas do pai do rock brasileiro. Na letra ele diz: […] Eu sou estrela no abismo do espaço / O que eu quero é o que eu penso e o que eu faço / Onde eu tô não há bicho-papão / Eu vou sempre avante no nada infinito / Flamejando meu rock, meu grito / Minha espada é a guitarra na mão / Se o que você quer em sua vida é só paz / Muitas doçuras, seu nome em cartaz / E fica arretado se o açúcar demora / E você chora, cê reza, cê pede, implora / Enquanto eu provo sempre o vinagre e o vinho / Eu quero é ter tentação no caminho / Pois o homem é o exercício que faz […]. Estou sempre em busca dessa tentação no meio do caminho. Perder totalmente o medo da mudança é meu verdadeiro desafio. Nós somos o exercício do que fazemos.

Por fim, quero dizer que escrevi esse texto para agradecer todo o apoio durante o ano de 2016. Sou grato por cada acesso ao blogue, a cada pessoa que tirou alguns minutos do seu precioso tempo para ler meus textos, a cada pessoa que curtiu, seguiu e comentou. Muito obrigado. O que desejo para nós em 2017 e para vida toda é que não baixemos a guarda. Nunca! Feliz ano novo! Abraçaço

2015 foi-se

Havia planejado publicar esse texto no último dia do ano, mas sendo esse um blogue que nasceu e se fez nas segundas-feiras, eis aqui minha despedida de 2015, na última segunda do calendário. E que ano, caríssimos! Nem de longe foi o melhor da minha vida e igualmente nem de longe foi um dos piores. Já falei aqui muitas vezes de como segundas-feiras são importantes para mim, como as encaro como um recomeço. O primeiro dia de um novo ano é como se fosse uma segunda-feira tamanho gigante. É claro que podemos recomeçar todos os dias, mas como tenho essa mania de esperar “ciclos” se fecharem para pôr em prática minhas vontades, o início de um novo ano é a minha grande oportunidade.

Embora esse não tenha sido um ano de todo ruim, eu considero que a maior recordação que vou levar dele é a da morte do meu tio-avô, a quem tanto amava. Tenho certeza de que ele me amava também, embora nunca tenha expressado isso em palavras. É nesses momentos tristes que a gente percebe que atitudes realmente valem muito mais do que frases feitas. Ele foi a primeira pessoa ligada a mim que perdi para a morte. Estivemos vivos simultaneamente por vinte e dois anos, tempo suficiente para acumularmos muitas histórias juntos. Um dia, quem sabe, ainda escrevo sobre ele por aqui.

Esse também não foi de muitas realizações. Foi quase um ano sabático, em que me permiti não realizar grandes feitos. Ademais, chegado o seu fim, retornam as atividades, e é justamente isso que quero para o próximo ano: trabalhar. 2016 será um ano de muitas metas, algumas importantes, outras nem tanto. Se esse foi um ano de muitas incertezas, quero muito que o próximo seja o ano das certezas, dos passos firmes, de seguir o itinerário que foi tão planejado.

Fiz uma lista de metas para bater em 2016 e, se eu ainda lembrá-la (e se ainda estiver escrevendo no blogue daqui a um ano), compartilho os resultados com você, Leitor. Continuar blogando é uma dessas metas. Para isso, o Satãnatório vai ter que sobreviver à turbulência dos próximos doze meses. Esse é apenas o post de número trinta e um em quase sete meses de blogue. A sensação que tenho é de que estou escrevendo aqui há uma eternidade. Muita gente interessante apareceu por aqui nesse curto espaço de tempo. Ler as inquietações das pessoas que me acompanham é o que mais me motiva a continuar escrevendo sobre as minhas. E é este o meu maior desejo para 2016: muitas inquietações para todos nós, nada de paz. Sábia foi a pessoa que disse que a paz não leva a lugar nenhum, que ela é apenas um barco perdido no meio de um oceano sem vento. Parafraseando Raul Seixas, “se o que você quer em sua vida é só paz, muitas doçuras, seu nome em cartaz […] eu provo sempre o vinagre e o vinho, eu quero é ter tentação no caminho, pois o homem é o exercício que faz.” Então é isso, caríssimos. Muita tentação em nosso caminho. Que venha 2016!