boi-leitor

Glauber Rocha inicia ‘Riverão Sussuarana’, seu único romance, publicado originalmente em 1978, com duas resenhas literárias escritas e publicadas por ele em 1956, quando o mesmo tinha apenas dezessete anos. Em um desses textos, ele atribui a seguinte frase a Guimarães Rosa: “Minha literatura é pra bois. Não é para ser engolida de vez”. Hoje, lendo ‘A Normalista’, de Adolfo Caminha, deparei-me com a cena em que a personagem Maria do Carmo lê e relê a carta de amor que recebeu de Zuza, o quintanista de direito. Maria lê como uma ruminante. Quem já recebeu uma carta de amor, um bilhete, que seja, sabe que só passar os olhos rapidamente pela tinta no papel não é suficiente. Como uma leitura só não basta, relemos, interpretamos, lemos nas entrelinhas. Tentamos decifrar o sentido de cada palavra, cada vírgula. Analisamos o dito e o não dito. Não engolimos de vez. Com o tempo curto diante de tantos clássicos e tantas publicações interessantes, é angustiante ver a lista de livros para ler antes de morrer só aumentar. É preciso lutar contra a vontade de ler mais rápido diante do desejo de ler como um boi. Ler tudo o que quero é uma guerra já perdida. Por isso, tenho que me contentar em vencer as batalhas que me cabe lutar, ou seja, os livros que terei a oportunidade de ler antes de morrer. Saber aproveitar bem cada obra, extraindo dela o máximo possível. Como um ruminante. Para isso, tratarei cada livro, a partir de hoje, como uma declaração de amor dos autores para mim.

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