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Sem a menor dúvida, Eduardo Coutinho afirmava que o documentário, em todo lugar do mundo sempre foi, é e será um tipo de cinema marginal. Isso não quer dizer que não se possa aumentar a margem. Sou obrigado a concordar com ele, mas esse tímido crescimento do documentário em todo o mundo, no Brasil principalmente, é algo real e que muito me agrada. Os brasileiros produzem os melhores documentários do mundo. Ponto. E Coutinho foi e continua sendo o maior entre os maiores. Já virou chavão dizer que seu nome é sinônimo de documentário e vice versa.

Todos os anos o vencedor do Oscar de Melhor Documentário deveria ser uma produção brasileira. Mas sabemos que gringos, assim como os brasileiros, são preguiçosos e não gostam de ler legendas. Quando um filme estrangeiro faz muito sucesso em seu país de origem, ele é vendido para outros países e dublado (muito pior do que aqui, por sinal) ou refilmado com atores de língua inglesa. Como não existe essa tradição de se dublar documentários, o mundo segue ignorando o fato dos nossos documentários serem os melhores. Apesar do reconhecimento internacional, os gringos jamais vão compreender a verdadeira importância da obra de Eduardo Coutinho. Ele afirmava fazer filmes para o Brasil, pois seu cinema tem como foco as palavras, que na nossa língua são muitas vezes impossíveis de serem traduzidas, como é o caso de alguns exemplos que ele mesmo adorava: ‘presidentinho’, ‘sobejo’.

Eu tento eliminar tudo que eu acho que é perfumaria. O elemento essencial é a palavra humana e o que acontece quando um cara filma outro.
Eduardo Coutinho

Coutinho não gostava de entrevistar pessoas que ele conhecia e muito menos pessoas públicas (que possuem reputação a preservar e muito a perder). Seu interesse estava nas pessoas anônimas, o chamado “peixe pequeno” (sem nome a zelar e nada a perder, e que por isso mesmo podiam contar tudo sem receio). Ele queria saber o que essas pessoas achavam delas mesmas e não o que os outros pensavam delas. Para ele, quase todo o cinema mundial (principalmente o documental) é feito na perspectiva do intelectual. O cineasta que quer mudar o mundo e o mundo que ele vai filmar, e que só procura aquele cuja fala lhe interessa para os fins a que se propôs. Quem não lhe interessa, ele exclui ou auxilia tentando fazer prevalecer seu ponto de vista. Coutinho não discutia com nem discordava de seus entrevistados porque achava que cabia ao público pensar sozinho sobre os assuntos abordados.

Essa vontade de mudar o mundo que se filma torna impossível de conhecer o que está sendo filmado, pois só é selecionado aquilo que previamente se quer mostrar. Coutinho achava que a visão militante podia ser mortal para o filme e que querer mudar o mundo era uma utopia maluca. Como mudar o lugar que está sendo filmado? Como fazer essas pessoas mudarem apenas fazendo um filme? Considerava isso de uma arrogância e um autoritarismo absurdo. Deve ser por isso que seus filmes estão preocupados com a história cotidiana, a história com h minúsculo, a história do povo miúdo. Não lhe interessava fazer filmes contra as comunidades que filmava, fossem elas de suburbanos, pobres, ricos etc. Na verdade, ele não tinha nenhuma pretensão de mudar o mundo. Estava preocupado em conhecer seus entrevistados e não prejudicá-los, pois essas pessoas estavam lhe dando um tesouro, que é a fala. Elas se entregavam diante da câmera, por isso ele não queria que se sentissem traídas ou lesadas quando vissem o filme. Era sua regra de conduta.

A luz do documentário é o enquadramento.
Eduardo Coutinho

Eduardo Coutinho tinha a tese de que duas tragédias impedem o documentário de ser apreciado pelas pessoas menos informadas, sobretudo os jovens. A primeira maldição é a de que documentário deve educar e informar, método que algumas produções do tipo e as reportagens de televisão seguem (embora achasse um tipo aceitável de documentário, não era o que lhe interessava). A segunda é a de que o documentário diz a verdade. Considerava esses dois pensamentos uma tragédia, algo ultrapassado, pois acreditava que documentários não possuem compromissos forçosos com a informação, com a instrução e sequer em dizer a verdade, já que esse tipo de filme apenas joga com a questão da verdade.

O filme de ficção, aquele com atores que são pagos para viver o papel e a paixão dos outros em enredos inventados, baseados em histórias reais ou não, sempre será a corrente cinematográfica principal. As pessoas vão ao cinema para ver isso e sonhar. Para ele, isso é uma necessidade humana e a maioria dos documentários passa a impressão de que não possuem esse elemento onírico. O que difere dos seus filmes, que também ficaram conhecidos como documentários ficcionais. Neles, é possível encontrar um efeito poético e se identificar com seus entrevistados a quem ele chamava de personagens, projetando-se na tela como no “sonho” do filme de ficção. Considerava que documentário não é um gênero cinematográfico e sim um sistema, defendendo também o pensamento de que tudo o que se passa entre quem está diante da câmera e quem está atrás é sempre ficcional, já que a memória é sempre inventada. Por esse motivo chamava suas filmagens de “jogos”.

Acham muitas vezes que a câmera pensa. A câmera não pensa. A câmera é burra, o computador é burro.
Eduardo Coutinho

Coutinho também é responsável pela realização de ‘Cabra Marcado Para Morrer’, o marco maior do documentário brasileiro que, na opinião do também cineasta Vladimir Carvalho, juntamente com ‘Vidas Secas’ de Nelson Pereira dos Santos e ‘Terra em Transe’ de Glauber Rocha, forma a tríade que vai dar o recado para a vida toda do que foi o Brasil do século vinte. ‘Cabra Marcado Para Morrer’ inaugurou um cinema que recupera o passado e o próprio material do passado, no caso, seu material filmado em 1964, e em 1984 elabora um pensamento teórico sobre a história. O filme quebra a ideia do documentário que separa o observador e analista do objeto examinado. Há uma relação direta entre o meio (as ligas camponesas de Galiléia e de Sapé) e o observador (Eduardo Coutinho). Não há distâncias e sim um fluxo entre os dois. Coutinho se desloca, vai até Elizabeth Teixeira, viúva do líder camponês João Pedro Teixeira, para recontar sua história e descobrir o que aconteceu com ela e seus filhos nesses vinte anos.

Esse deslocamento para ouvir pessoas também se tornou uma marca registrada, que se repetiu em ‘Santo Forte’ (moradores da favela Vila Parque da Cidade), ‘Babilônia 2000’ (moradores do Morro da Babilônia), ‘Edifício Master’ (moradores de um antigo e tradicional edifício situado em Copacabana), ‘Peões’ (trabalhadores da indústria metalúrgica do ABC) e ‘O Fim e o Princípio’ (moradores do Sítio Araçás, comunidade rural no sertão da Paraíba). Ademais, ele também se reinventou nos filmes ‘Jogo de Cena’ e ‘As Canções’, onde são as pessoas que se deslocam até ele.

Com suas produções, Eduardo também desenvolveu a chamada “arte do encontro”. Sua equipe de pesquisa entrevistava previamente as pessoas que viriam participar do filme, mas Coutinho só encontrava com esses personagens na hora da filmagem. Só fazia filmes porque não sabia o que ia acontecer. O processo lhe interessava, a fabricação. Com isso, o essencial na hora da conversa era a surpresa e o acaso.

Coutinho é um dos meus cineastas favoritos. Impossível não assistir a uma entrevista dele e não aprender. Uma pena que ele nos tenha deixado de uma forma tão absurda. Sou apenas um de seus muitos órfãos. Mesmo não tendo pretensões de fazer documentários, sua obra é uma das que mais me influencia. Sua teoria de que os melhores filmes do mundo não possuem artigo no título foi seguido à risca por ele (com exceção de ‘O Fio da Memória’, ‘O Fim e o Princípio’ e ‘As Canções’) e que pretendo seguir em sua homenagem. Além das vinte e três imagens, deixo para você cineasta, documentarista, fã de Eduardo Coutinho, cinéfilo, leigo, curioso, o curta-metragem ‘Coutinho Repórter’, em que ele fala sobre os anos em que trabalhou no programa Globo Repórter, em que, durante a ditadura, forjou um estilo e realizou obras de empenho social que, na época, a censura impedia o cinema de concretizar. Até a próxima, abraçaço.

Coutinho Repórter

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Não sei quem são os fotógrafos responsáveis pelas fotos, mas se você conhece ou fotografou alguma delas, é só deixar o nome com o número da foto para que sejam devidamente creditados.

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Sempre que me perguntam qual o meu ator favorito, eu hesito em responder. Vários grandes nomes me veem à cabeça: José Dumont, Raul Cortez, Paulo Autran, Paulo José. Nunca consigo me decidir entre eles e outros que eu sempre esqueço e só lembro depois. Mas em toda a minha vida eu nunca tive uma resposta diferente para quando perguntam quem é a minha atriz favorita: não tem como não responder Fernanda Montenegro.

Não acompanho telenovelas, então raramente vi seus trabalhos feitos para a TV. Minha admiração por ela surgiu mesmo com seus personagens cinematográficos. Quando ‘Central do Brasil’ foi lançado lá em 1998, eu tinha cinco anos de idade. Desde então, o filme passou repetidas vezes na TV. Acho que só não continuou passando tantas vezes porque anos depois perderia esse lugar cativo na programação para ‘O Auto da Compadecida’ que, por coincidência ou não, também tem Fernanda Montenegro no elenco. Esses são os filmes que eu mais vi na vida e a maioria das vezes foi na infância. Quando os assisto hoje, principalmente ‘Central do Brasil’, eu me transporto para um passado não tão distante assim, quando meus pais não me permitiam brincar na rua com os outros garotos. Durante o dia, brincava no quintal sozinho com vários “eus” que criava na minha cabeça. Ficava muito triste quando anoitecia porque tinha de entrar em casa, já que no quintal não havia luz elétrica. Com o passar dos anos, o quintal foi perdendo para os filmes que passavam na TV a tarde. Eu achava cada vez mais interessante ver filmes do que fazê-los na minha cabeça enquanto brincava no quintal.

Durante muitos anos, ‘Central do Brasil’ também foi meu filme favorito. Hoje ele perdeu esse lugar de número um, mas continua especial, talvez até mesmo o mais especial de todos. Quando o revejo e identifico todas as vertentes do cinema clássico em sua produção, sei que aquele não é o tipo de cinema no qual eu me reconheço, mas foi e é um filme muito importante em minha vida, sendo um dos responsáveis por me fazer ter vontade de estudar a fundo o cinema brasileiro.

Há menos de um mês eu o revi novamente. Dessa vez com meu pai que nunca o havia assistido completamente. Tenho que confessar uma mania (seja lá qual nome se dá a isso), mas quando mostro a alguém um filme que já vi, geralmente eu não presto muita atenção no filme para ficar vendo as reações da pessoa. O cinema tem essa magia de sugar as pessoas para dentro da fantasia e fazer com que elas esqueçam da vida ao redor. Magia essa que não tem mais efeito em mim. É que estudantes e profissionais de cinema (não todos) geralmente perdem a ingenuidade do olhar, passando então a enxergar o processo de feitura do filme. Confesso que, no começo, isso parece bastante assustador, mas com o tempo se descobre que essa forma de assistir também é divertida. Então, como eu sempre chamo pessoas que não estão ligadas ao cinema para ver esses filmes que eu gosto, elas acabam hipnotizadas com a estória, facilitando com isso o meu processo de observação das reações de quem assiste. Mas é claro que faço isso da forma mais discreta possível. Ninguém nunca nota. Enfim, não sei como cheguei a essa curva em um texto sobre Fernanda Montenegro, então voltemos a ela.

Em 2011, Antônio Abujamra (saudades Abu!) entrevistou Antônio Fagundes em seu programa Provocações e perguntou que bom artista brasileiro, na opinião dele, se deu mal na vida. Fagundes pensa um pouco e responde: Fernanda Montenegro. Abujamra parece ter ficado um pouco surpreso com a resposta ao que Fagundes justificou dizendo que se Fernanda fosse de outro país ela seria endeusada por todos por onde ela passasse. Ele aponta que aqui no Brasil ela não é devidamente valorizada. O reconhecimento que ela teria aqui ainda seria pouco. Para Fagundes, ela deveria ser aplaudida de pé em qualquer lugar que passasse. Já achava isso antes mesmo de vê-lo falar no assunto. Fernanda ainda está entre nós e, mesmo prestes a completar oitenta e seis anos de vida, continua na ativa, trabalhando intensamente, nos brindando com sua arte.

Além das vinte e três imagens, deixo com vocês a parte da entrevista em que Abujamra faz a pergunta que lhes falei. Mas aconselho a assistir as outras partes, pois elas também valem a pena. Até a próxima, abraçaço.

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Não sei quem são os fotógrafos responsáveis pelas fotos, mas se você conhece ou fotografou alguma delas, é só deixar o nome com o número da foto para que sejam devidamente creditados.

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Não sei vocês, caríssimos, mas tenho muita dificuldade em falar sobre coisas que gosto. É complicado traduzir em palavras o que sinto, o que não acontece quando tenho que falar sobre as coisas que não gosto. Quando não gosto, os motivos estão sempre muito claros. A resposta na maioria das vezes está na ponta da língua e expressar isso é fácil. Mas quando me perguntam por que gosto de tal músico ou tal livro é difícil dar uma resposta. Por mais que eu fale me parece que nunca consigo responder a altura do meu amor pela obra ou pessoa. Se tento ser objetivo, me parece que a resposta nunca é satisfatória para quem pergunta e se preparo um discurso mais elaborado, tenho a sensação de que não passo confiança. Coisa de geminiano (ou não), vai entender.

Se você Leitor acompanha meus escritos desde o início ou não tão desde o início assim, vou tentar deixar mais claro o meu raciocínio. Foi fácil falar aqui no blogue o porquê de não gostar de discos ao vivo, de séries, de acordar cedo, entre outras coisas. Mas quando vou escrever sobre meus grandes ídolos, a coisa fica difícil. Mais difícil ainda é falar do meu cineasta favorito, que se fosse vivo seria hoje meu colega de profissão. É por isso que esse texto é mais sobre minha dificuldade de falar a respeito dele do que um texto sobre ele. Quem foi Glauber Rocha? Eu não sei e acredito que não é possível responder a tão pretensiosa pergunta.

Apontado como o melhor e mais importante cineasta de sua geração, a meu ver ele continua sendo o melhor cineasta daquela e todas as gerações de realizadores brasileiros que vieram posteriormente. Dizem que gostamos mesmo de algo quando queríamos ter feito. E como eu gostaria de ter feito os filmes de Glauber.

O Cinema Novo é um fenômeno dos povos colonizados e não uma entidade privilegiada do Brasil: onde houver um cineasta disposto a filmar a verdade e a enfrentar os padrões hipócritas e policialescos da censura, aí haverá um germe vivo do Cinema Novo. Onde houver um cineasta disposto a enfrentar o comercialismo, a exploração, a pornografia, o tecnicismo, aí haverá um germe do Cinema Novo. Onde houver um cineasta, de qualquer idade ou de qualquer procedência, pronto a pôr seu cinema e sua profissão a serviço das causas importantes de seu tempo, aí haverá um germe do Cinema Novo. A definição é esta e por esta definição o Cinema Novo se marginaliza da indústria porque o compromisso do Cinema Industrial é com a mentira e com a exploração.
Glauber Rocha em ‘A Estética da Fome’

‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ completou cinquenta anos ano passado, e em dois anos será a vez de ‘Terra em Transe’. É fácil ver os dois filmes e fazer uma ligação direta com o período de ditadura militar que o país enfrentava. Mas também é possível fazer uma ponte com a crise política atual. Se em ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, Manuel era o personagem-síntese do povo como massa da manobra, eu vos pergunto: que outro personagem do cinema brasileiro nos traduz hoje melhor que Manuel? O povo continua como massa de manobra. Enquanto a mídia faz cobertura ao vivo dos protestos de impeachment, a Câmara aprova na surdina a redução da maioridade penal. Em ‘Terra em Transe’ o povo de Eldorado não estava pronto para a revolução e quem bate panela pedindo a volta do regime militar também não. Mesmo não tendo votado em Dilma no primeiro turno, e me vendo obrigado a votar nela no segundo por ela ser a menos pior, gostaria de parabenizá-la por ser a primeira a conseguir fazer a classe A colocar as mãos em panelas, mesmo sabendo que é fácil bater panelas que a empregada vai ter que desamassar depois.

Enquanto selecionava as imagens para esse post e me dava conta do quanto Glauber fumava e de como são poucos os registros fotográficos dele se comparados aos outros cineastas de sua época, eu só conseguia pensar nos grandes filmes que ele faria sobre nossa atual situação política se estivesse vivo. Só nos resta ver seus filmes e tristemente constatar que em meio século o Brasil pouco mudou.

Portanto, concluo frustrado esse texto que deveria falar do meu amor por esse cara que junto com Nelson Pereira dos Santos e tantos outros viveram o sonho do cinema brasileiro antes de mim. A sensação é de uma eterna divida de gratidão, em especial a Glauber Rocha que tanto me influenciou e influencia. A ele o meu muito obrigado!

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“Vocês não sabem, mas o Chico Buarque é o meu verdadeiro pai”, diz Cássia Eller em seu Acústico MTV ao final da música “Partido Alto”. Nenhuma outra frase seria tão eficiente para deixar claro tamanha identificação da roqueira com as letras de Chico.

Ela sendo cantora, nada mais natural do que escolher outro para comungar da sua arte. Como tenho muitos pais na literatura, acabo não sendo filho de ninguém. E fazendo cinema eu até poderia fazer essa afirmação com Glauber Rocha, mas, na verdade, é com um músico que me sinto mais à vontade de falar isso: Tom Zé é o meu verdadeiro pai.

Sou um homem de extremos e minhas declarações são igualmente intensas. É por isso que considero e afirmo sem medo nenhum que para mim Tom Zé é o maior músico-compositor-cantor que existiu, e sei que enquanto for vivo não conhecerei outro gênio da música como ele. Tenho ídolos do cenário musical que são tão importantes para mim quanto ele, mas seus discos são um aprendizado infinito que nos outros não consigo encontrar em tão grande escala. Eles têm sempre uma letra que eu julgo entender, mas que anos depois, mais amadurecido, descubro que está falando de outra coisa. São sons escondidos que apenas com muita atenção se mostram aos seus ouvintes, músicas de protesto que são tão inteligentes que fazem até os criticados cantarem sem saber seu real sentido. Suas letras contra a ditadura militar não foram barradas por serem tão engenhosas a ponto de driblar qualquer censor. E ainda tem o que considero a maior tiração de onda já feita na cara dos militares, que foi a capa do disco ‘Todos os Olhos’, apresentando a foto de um ânus que durante muito tempo enganou a todos que julgavam ser uma boca. Tudo isso para um cara que diz fazer música pensando na classe C, pensando em ser popular e atingir a todos. Quem dera todos que fizessem música popular fizessem músicas tão complexas quanto às dele.

E que fique claro, bem claro, que Caetano Veloso e Gilberto Gil são outros mestres da música para quem tiro o chapéu. Entretanto, o maior tropicalista foi, é, e sempre será Tom Zé. O disco-manifesto ‘Tropicalia ou Panis et Circencis’ revolucionou a música brasileira sem precedentes e é sim um dos marco-zeros da história da nossa música. Considerar um disco melhor que outro não é de jeito nenhum denigrir ou rebaixar o outro. E é agarrado nisto que eu confesso que gosto mais de ‘Tropicália Lixo Lógico’ do que de ‘Tropicalia ou Panis et Circencis’. É Tom Zé em sua melhor fase, mostrando a tropicália em estado puro. Uma evolução que nenhum dos outros tropicalistas foi capaz de conquistar. Sem falar que ele foi o único deles capaz de entender e pensar como a Geração Y. E com o seu último disco, o ‘Vira Lata na Via Láctea’, lançado no ano passado, só mostra o quanto ele está cada vez mais próximo da Geração Z.

Ao escolher fazer esse post sobre ele eu dei um verdadeiro tiro no pé. Tenho outro blogue chamado Tom Zé Mané onde reúno videoclipes, entrevistas, e claro, fotos. O blogue também tem um perfil no Instagram. Ao colocar esse projeto no mundo reuni o máximo de fotos que consegui encontrar e estou sempre à procura de novas. Ou seja, eu sabia que seria muito difícil escolher apenas vinte e três. Mas eu não poderia deixá-lo de fora, então decidi sofrer. Inclusive, esse foi o único post deste blogue até agora que não consegui escrever de uma vez. Recomecei umas quatro, cinco vezes e ainda não me dou por satisfeito, mas tenho que seguir em frente e passar para outro. Vou me arrepender mil vezes com as imagens que não entraram, mas como falei no post do Silvio Santos, listas existem para deixar gente de fora. Eu poderia fazer vinte e três posts do Tom Zé no 23 Imagens, mas esse será o único.

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“Depois da minha família, a pessoa que eu mais amo nesse mundo é o Silvio Santos”. Vi essa frase já faz algum tempo, só não me recordo onde. O que posso dizer é: essa frase nunca foi tão minha.

Não consigo entender por qual motivo o cara me soa tão íntimo. Mesmo tendo uma tia fisicamente parecida com ele (que fique claro que eu sou o único parente dela que acha isso) e de ter crescido assistindo aos seus programas, não acredito que tenho razões fortes o suficiente para sentí-lo como alguém tão familiar. Muitas pessoas cresceram assistindo-o e não nutriram o mesmo sentimento que eu. Minha irmã é uma delas.

Já que com ele eu me sinto totalmente em casa, o escolhi para estrear uma categoria especial aqui no blogue que irei chamar de 23 Imagens. Essa seção, que pretendo postar uma vez por mês, consiste em homenagear meus grandes ídolos em vinte e três fotos. Eu adoro me torturar e fazendo isso sempre vou sofrer por deixar certas fotos de fora. Mas para mim listas são isso, só servem para deixar algo de fora.

Se deus existisse, eu só conseguiria imaginá-lo como sendo alguém bem parecido com o Silvio Santos, com aquele sorriso constante, me despertando esse sentimento de parentesco, além de ser muito divertido e sem papas na língua como o patrão (sempre quis chamá-lo de patrão, como fazem seus funcionários). Hoje não o assisto tanto quanto gostaria, mas a minha admiração só cresce. Silvio, te amo.

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