finais abertos

[contém revelações de enredo]

Lembro que, quando assisti ‘Central do Brasil’ com meu pai, ele se mostrou muito decepcionado com o final. Ele não se conformou em esperar quase duas horas para o filme acabar e Josué não encontrar o pai dele. E Dora? Por que ela não ficou com o menino? Tempos depois, assistimos juntos ‘Que Horas Ela Volta?’. Pelo envolvimento dele com os personagens durante todo o filme, deu para perceber que ele estava gostando muito. No entanto, quando a projeção terminou e eu lhe perguntei se ele havia gostado, ele apenas se limitou a dizer: que final feio. Conheço bem o meu pai, e não foi necessário lhe fazer perguntas para descobrir o que ele havia detestado. Foi difícil para ele ver a personagem Val terminar desempregada. E Jéssica, conseguiu ingressar na graduação?

Quando fui assistir ‘Aquarius’ no cinema, eu não estava acompanhado de ninguém. Cheguei cedo, com medo de não conseguir ingresso (eu sempre acho que não tem mais ingresso). Paguei minha entrada e fiquei esperando o filme que ainda ia demorar para começar, sentado em um banquinho do lado de fora da sala. Nesse mesmo banco estava sentada uma senhora idosa rodeada de sacolas plásticas lendo uma notícia em um jornal impresso que puxou conversa comigo. Contou-me de uma viagem que havia feito recentemente e que, devido a ela, estava usando bengala, pois havia andado tanto que ainda estava com as pernas cansadas. Era início de tarde e, segundo ela, já estava na rua desde de manhã cedinho. Ademais, ela me disse que, quando acabasse ‘Aquarius’, ainda iria ver uma mostra de filmes LGBTs que estava acontecendo no centro cultural ao lado. Confesso que fiquei com inveja de sua vitalidade. Ela até me convidou para lhe fazer companhia durante a mostra, mas quando me entregou a programação, desisti de ir por ser composta apenas de filmes que eu já havia assistido.

No pouco tempo em que ficou do meu lado, ouvi essa senhora disparar o maior número de histórias por minuto que eu já tive oportunidade de presenciar, mas tenho que admitir que estava apreciando sua companhia. Era uma pessoa muito inteligente, simpática e agradável (mesmo que tenha me assustado com seu ódio quase doentio por Dilma Rousseff, em quem, segundo ela, gostaria de dar uma surra). A senhora saiu de onde eu estava para comprar uma água e uma moça bonita e educada que havia sentado perto de nós puxou assunto comigo. Ela me contou que era atriz e eu lhe disse que fazia cinema. Conversamos então sobre testes de elenco, preparações de elenco e produções cinematográficas locais. Apesar de rápida, também foi uma conversa muito agradável. Assim como a senhora idosa e eu, ela também estava esperando a próxima sessão de ‘Aquarius’ começar.

Sem que eu nada perguntasse, a moça comentou que a atuação de Sônia Braga estava maravilhosa. Só então lhe perguntei se já havia assistido ao filme, ao que ela me revelou que aquela seria a sua terceira sessão, mas ainda não a última. Com todo o cuidado do mundo para mudar de assunto, tentei falar de outras coisas com medo de que ela me revelasse algo do filme antes mesmo de eu assisti-lo. Ela não revelou nada, mas do alto de sua empolgação, comentou: “Já estou esperando a continuação”. Como assim seria feita uma continuação de ‘Aquarius’ e eu não estava sabendo? Perguntei-lhe se ela havia visto alguma notícia sobre isso e ela negou. Ela não tinha provas de que seria produzida uma continuação, mas tinha convicções, pois reforçou sua tese: “Do jeito que o filme termina é impossível não ter uma continuação, tem que ter um ‘Aquarius 2′”. Eu nem havia assistido ao filme ainda, mas naquele exato momento eu soube que se tratava de um final aberto. Assim como a moça, que não sei o nome, pois acabamos não nos apresentando, eu não tinha provas, mas tinha convicções de que Kleber Mendonça Filho não faria uma continuação, e claro, lhe expus meu posicionamento. No entanto, a moça estava certa de seu ponto de vista tanto quanto eu estava do meu. As pessoas então começaram a entrar na sala e eu me apressei para entrar também para garantir um bom lugar. A moça, a senhora e eu sentamos em lugares diferentes e nunca mais nos encontramos. Porém, é preciso registrar que em algo eu e a moça concordamos: Sônia Braga está maravilhosa!

Minha cinefilia começou muito cedo. Eu já era cinéfilo antes mesmo de saber que essa palavra existia, e desde o início cultivei um fascínio por finais abertos. ‘Central do Brasil’ foi exibido pela primeira vez em uma mostra regional de cinema na Suíça em 16 de janeiro de 1998. No dia 19 de janeiro foi exibido no Festival Sundance de Cinema nos Estados Unidos e no dia 14 de fevereiro no Festival de Berlim, de onde saiu consagrado com o Urso de Ouro de Melhor Filme. O lançamento no Brasil ocorreu apenas no dia 3 de abril do mesmo ano. Eu tinha então quatro anos de idade. Lógico que eu só fui tomar conhecimento do filme anos depois. Cresci com ele no meu imaginário, assistindo-o repetidas vezes na Sessão da Tarde. Até hoje é um dos meus filmes favoritos, embora seja completamente diferente do tipo de filmes que gosto de ver atualmente. Claro que há um toque de nostalgia em tudo isso. Todavia, Fernanda Montenegro continua sendo minha atriz favorita, o que não se deve apenas por esse trabalho.

Não posso afirmar o ano em que vi ‘Central do Brasil’ pela primeira vez, mas sei que eu tinha por volta de dez anos, não mais que isso. Vinicius de Oliveira tinha apenas doze quando interpretou Josué no filme. Hoje, ele não é assim tão mais velho do que eu e, embora não façamos parte da mesma geração, de uma forma ou de outra, crescemos “juntos”. Durante esses anos todos, me peguei várias vezes pensando no que haveria acontecido com Dora e Josué, mas quando revejo o filme hoje em dia, nem consigo considerar mais que ele tenha um final aberto, pelo menos não tão aberto assim.

O filme de Walter Salles tem um roteiro clássico, nos apresenta uma jornada do herói com seus três atos, pontos de virada, evolução, clímax e resolução da história. Considero-o agora um filme quase “fechado”. Dora é uma vigarista que se dispõe a viajar com Josué até o nordeste do Brasil em busca do pai do garoto. Eles viajam, tornam-se amigos e passam por situações que mudam suas formas de encarar a vida. Não conseguem encontrar o pai de Josué, mas encontram os irmãos do garoto, que também são sua família. A missão de Dora está cumprida. Sei que é difícil encarar a separação dos protagonistas, mas é preciso seguir em frente. O que aconteceu com Dora, se Josué encontrou o pai ou se eles dois voltaram a se encontrar novamente, sinceramente, não importa. O filme apenas se propõe a nos apresentar esse pequeno período da vida dos dois personagens, esse momento chave, essa experiência que resultou na transformação de ambos, tornando-os pessoas melhores e mais fortes. E praticamente tudo que eu disse sobre ‘Central do Brasil’ pode ser aplicado a ‘Que Horas Ela Volta?’ e ‘Aquarius’.

Como roteiro é uma das minhas áreas de atuação, estou sempre estudando e pesquisando sobre. Já li praticamente todos os manuais de roteiro disponíveis no país e posso afirmar que eles não me ajudaram, muito pelo contrário. Manuais são ótimos para quem quer entender o que é um roteiro, para quem quer aprender como ler um roteiro, para quem quer conhecer a formatação de um roteiro, mas são igualmente péssimos na tentativa de ensinar como escrever um. Além de serem livros muito parecidos, alguns quase cópias idênticas, castram a criatividade de um roteirista. Apontam quantos atos um roteiro deve ter, quantas páginas devem conter em cada ato, a duração máxima que um filme deve respeitar, onde devem ser apresentados os pontos de virada, onde deverá ser apresentado o clímax, a forma de apresentar um personagem, a forma de estabelecer um conflito, tudo. Se todos seguissem esses manuais, todos os filmes seriam praticamente iguais. E o que é mais hipócrita nessa história toda é que os prêmios de melhor roteiro quase sempre são entregues para filmes que vão contra essas regras, que subvertem as formas tradicionais de se contar uma história. É como se esses manuais nos ensinassem a como não escrever um roteiro. Acontece, caríssimos, que prêmios não geram bilheteria, então os estúdios seguem impondo essa forma clássica que eu prefiro chamar de forma engessada de escrever roteiros.

Um centenário foi mais do que suficiente para engessar também a forma do público de consumir cinema. Os manuais servem para corresponder a todas as expectativas de quem assiste ao filme. Durante muito tempo, esses manuais só serviram para me deixar inseguro com tudo o que eu escrevia. Eu pensava que se eu não os seguisse à risca, minhas histórias iam ser consideradas péssimas. Antes de ler esses livros eu me sentia muito mais livre e tinha mais coragem de arriscar. Hoje eles ainda são um fantasma, mas já não os leio mais e tento esquecê-los. Agora leio livros de edição e montagem, pois eles não estão preocupados em apresentar uma fórmula, e sim em nos mostrar várias formas diferentes de construir uma mesma cena. E claro, sigo firme no melhor método de aprendizado de todos: assistindo ao maior número de filmes diferentes possível.

Entre as muitas barbaridades que já li em manuais de roteiro, algumas me chamaram mais atenção. Em um deles li que um filme não pode ter mais de duas horas de duração, que o final deve ser sempre feliz, pois filmes tristes deixam o público frustrado, que o filme deve sempre ter um clímax a poucos minutos do fim, que se eu estou escrevendo um roteiro é porque estou pensando em vendê-lo por uma boa quantia em dinheiro e que a melhor forma de conseguir isso é dando ao público o que ele quer ver. Sou contra todas essas estratégias comerciais. O espectador está muito acomodado; é preciso reeducá-lo apresentando coisas novas e não somente o que ele acha que quer. Este é um trabalho difícil, e da forma como o cérebro de boa parte do público está atrofiado, pode ser tarde demais para conseguir reverter essa situação.

O resultado disso é um público preguiçoso que não consegue nem realizar o esforço de fazer uso do belo presente que filmes com finais abertos nos proporcionam. Para quê imaginar o que aconteceu com Clara de ‘Aquarius’ se eu posso esperar uma sequência que responda minhas dúvidas? Esse exercício gostoso de dar continuidade às histórias dos filmes quando eles acabam eu aprendi há muito tempo com ‘Central do Brasil’. Na minha continuação, Dora e Josué nunca mais se reencontraram. Ela morreu sozinha sem nunca conseguir casar e Josué nunca encontrou o pai. Consigo até imaginar que Irene, personagem de Marília Pêra, também terminou sozinha, embora ainda tenha se relacionado com alguns homens, mas nenhum resultando em um relacionamento duradouro. Em minha continuação de ‘Que Horas Ela Volta?’ de Anna Muylaert, Val, personagem de Regina Casé, conseguiu um novo emprego e mesmo com todas as dificuldades, realizou o sonho de ver a filha formada. Jéssica, personagem de Camila Márdila, com o bom emprego que conseguiu, deu uma boa casa à sua mãe, que não precisou mais trabalhar graças ao ótimo salário da filha. Para Clara, personagem de Sônia Braga em ‘Aquarius’, não construí uma história muito otimista. Acredito que ela tenha se saído vitoriosa, mas só depois de muitos anos com o processo correndo na lenta Justiça de nosso país. O sofrimento foi longo, mas ela também causou muita dor de cabeça aos donos da construtora.

Longe de mim defender que todos os finais devam ser abertos. Esse tipo de desfecho deve ser apenas uma forma entre várias outras de se contar uma história. Que finais assim não sejam usados como justificativas para classificar um filme como ruim. O anticlímax proposital também tem o seu valor. A supervalorização da expectativa correspondida deveria ser substituída pela surpresa. O público tem que sair de sua zona de conforto e abandonar esse olhar que não se permite enxergar outras possibilidades. Nem todos os filmes precisam de uma continuação, pois eles podem (e devem) continuar dentro de nós, em nossas mentes. É divertido se surpreender, é divertido ser apresentado a coisas novas que ainda não sabemos que gostamos. Não tenho problemas com finais felizes, mas tenho pavor do “viveram felizes para sempre”. É o mesmo que matar os personagens. A vida não é feita só de sorrisos. É bom ver nossos heróis vencerem seus desafios, mas o último minuto do filme não pode significar o fim deles – a não ser que eles morram. Se o roteirista decidir por não ceifar a vida de suas criações, assim como nós, suas jornadas “continuam”, pois no fim das contas, enquanto não morrermos, todo dia é um final em aberto.

distância estratégica

Sou um homem de muitos ídolos, em especial cineastas, escritores(as) e compositores(as), mas se tem algo que tenho aprendido com o passar dos anos é que, em alguns casos, manter distância deles pode ser uma decisão muito saudável. Na adolescência, passei por uma fase de fanatismo por bandas de rock, bandas essas que me ajudaram a moldar boa parte da minha personalidade. Ainda gosto dessas bandas, conheci outras e fui ao show de muitas. Conservo em mim a vontade de ainda ver ao vivo as que nunca cheguei a ver – não são poucas, apesar de boa parte delas não existir mais.

Mesmo nessa fase, nunca fui a camarim, nunca fui a aeroporto esperar meus ídolos chegarem na minha cidade, nunca fiz nenhum tipo de loucura de fã, mesmo já tendo sido membro de alguns fã clubes. Não julgo quem faz essas demonstrações de amor, contanto que não passem dos limites do bom senso e jamais ponham a própria segurança e a dos outros em risco. Foi uma fase importante da minha vida, em que conheci muitas pessoas que gostavam das mesmas coisas que eu. Se pudesse voltar no tempo, com certeza faria muita coisa diferente, mas essa fase da adolescência eu não mudaria. Fiz muitas amizades, das quais algumas permanecem até hoje. A música, em especial o rock, me aproximou de muita gente incrível e essas bandas apresentaram-me a muitas outras bandas, a vários filmes e livros. Não foram poucas as ocasiões em que li um livro ou vi um filme porque certo cantor ou cantora dizia gostar em entrevistas. Até hoje fico muito feliz quando alguém me apresenta algo que ainda não conheço, embora nada supere a sensação de sozinho fazer essas descobertas. É por isso que pesquiso tanto, estou sempre desbravando listas de filmes, livros, discos e, conforme o tempo vai passando, menos entrevistas eu leio ou assisto.

Show para mim tem que ser na grade, bem perto do palco. Se eu ficar longe, tenho a sensação de que não fui. Por isso, sempre compro os ingressos no primeiro lote para não correr o risco de perder. Chego cedo, mesmo que tenha que ficar algum tempo na fila. Tenho forte resistência, posso passar bastante tempo em pé, sem comer ou ir ao banheiro. Em quase todos os shows que fui na adolescência, fui a primeira pessoa da fila. Não sei se continuo com essa mesma resistência, porque faz bastante tempo que não sou e nem me preocupo mais em ser o primeiro. Não chego mais com muitas horas de antecedência, porém, chego tarde o suficiente para ainda conseguir ficar na grade (isso não significa que chego cedo, são as pessoas que chegam tarde, acredite). A energia da grade é diferente da dos outros espaços. Ali estão os fãs mais enérgicos, os mais apaixonados, os mais loucos, os que querem ser vistos pela banda. Gosto dessa energia. Hoje não pulo tanto quanto antes e nem tento ser o que grita mais alto. Sempre tenho algo para fazer no dia seguinte, não posso mais dar-me ao luxo de ficar muito cansado e rouco. Agora, só o fato de estar ali me basta, embora continue querendo estar perto.

Todas as vezes que vou a um show, as pessoas perguntam-me no dia seguinte se consegui entrar no camarim e tirar foto com a banda. Eu sempre digo que não (porque, na verdade, nem tento) e recebo sempre uma reação decepcionada. Nunca consegui entender isso. Vou aos shows ver e ouvir as bandas ao vivo, não para tirar fotos com os músicos. Costumo explicar brincando que quando vou a um show só interessa-me a “missa” proporcionada pela banda. O importante mesmo é comungar aquele momento com as pessoas ali presentes. Nos primeiros shows que fui, costumava filmar várias músicas e fotografar bastante, hoje, não faço mais isso. Em boa parte dos casos é uma grande oportunidade estar ali. Sei que queremos registrar cada segundo, mas se estamos muito preocupados em registrar a apresentação, esquecemo-nos de viver aquele momento. Agora, costumo tirar uma ou duas fotos para guardar de recordação, mas não tenho nenhum registro fotográfico do último show que fui. No entanto, lembro nitidamente de tudo e sou capaz de contar em detalhes quando me perguntam como foi.

Acredito que permanecerei sempre como um rato de shows. A sensação de ver minhas bandas favoritas ao vivo é maravilhosa. É um pouco semelhante com o que acontece com o cinema. Muita gente costuma ir ao cinema ver os filmes de seus atores favoritos ou dos gêneros que mais gostam. Se vou ao cinema, o motivo sempre é o(a) diretor(a). Acompanho o trabalho de muitos(as) e sei que ver seus filmes na tela grande é completamente diferente de vê-los em casa. A literatura parece mesmo ser a arte mais solitária – os(as) escritores(as) quase sempre escrevem sozinhos(as), diferente de artes mais coletivas, como a música e o próprio cinema. Eu até posso fazer música sozinho, da mesma forma que posso me filmar, editar e lançar esse filme “solo”, mas sabemos todos que casos assim são raras exceções. Da mesma forma que não são muito comuns leituras coletivas, embora alguns grupos de leitura estejam tentando mudar essa realidade.

No entanto, atualmente, quase não acompanho nada, salvo uma ou duas bandas que eu tô sempre observando. Quando são lançados discos novos, praticamente sou pego de surpresa. São tantas notícias que não dá para acompanhar tudo. Mesmo quando se trata de filmes, que possuem um processo de produção mais longo (captação de recursos, pré-produção, produção, edição, participação em festivais, divulgação, exibição nos cinemas), consigo ser pego de surpresa com um ou outro lançamento, principalmente tratando-se da fonte nacional, que é o que eu mais gosto de acompanhar e assistir, mas que não tem uma distribuição tão massiva quanto a dos filmes enlatados que as distribuidoras brasileiras importam de outros países para ocuparem as salas de cinema do Brasil inteiro. Quando a questão envolve os livros, é aí que eu sou surpreendido mesmo, por isso, sempre que posso, dou uma pesquisada para ver o que tem sido publicado atualmente (mesmo saindo geralmente muito triste de ver os títulos e os autores que estão ocupando as prateleiras das livrarias).

Apesar disso, não sofro. Muito pelo contrário, estou evitando cada vez mais saber o que eles estão fazendo e principalmente falando. Não tem sido poucas as ocasiões em que venho decepcionando-me com artistas. Toda vez que assisto uma entrevista em que José Mojica Marins faz comentários homofóbicos, dói-me o coração. Quando vi Caetano Veloso, Chico Buarque, Djavan e Gilberto Gil aderindo ao Procure Saber, grupo que luta pela proibição de biografias não autorizadas, custei a acreditar. Não fiquei surpreso com Roberto Carlos, porque já conhecia seu histórico de proibições que, inclusive, não é de hoje. Quando Jô Soares constrangeu a youtuber Jout Jout com comentários machistas em seu programa, eu também me senti constrangido. Nunca acompanhei a carreira de Roger, embora goste muito dos primeiros discos do Ultraje a Rigor, mas recentemente tenho ficado impressionado com o modo como o vocalista dessa banda que produziu um dos discos fundamentais do rock brasileiro dos anos 1980, o Nós Vamos Invadir Sua Praia (1985), consegue a proeza de em várias ocasiões precisar de tão poucas palavras para destilar seu machismo e homofobia. Por falar nisso, tem sido cada vez mais difícil ouvir as piadas homofóbicas de Silvio Santos, quem tanto respeito e admiro. Sei que ele é um senhor de idade que nasceu e viveu em outra época, mas ele é um homem inteligente o suficiente para saber que nunca é tarde demais para aprender. Foi muito difícil também ler o texto de Fernanda Torres para o Agora é Que São Elas com posicionamentos tão equivocados sobre o feminismo. Sei que ela publicou depois outro texto retratando-se, mas o primeiro havia sido tão exageradamente sincero que, por mais que ela tenha se desculpado, sabemos que infelizmente é daquela forma que ela pensa. Porém, as pessoas mudam, e prefiro acreditar que ela mudou também. Aliás, as intervenções machistas de Claudio Assis durante o debate de Anna Muylaert sobre o filme Que Horas Ela Volta? (2015) e que acabou banindo-o por um ano do Cinema da Fundação Joaquim Nabuco, reduto da arte cinematográfica contemporânea no Recife, foi outro caso difícil de engolir. São casos assim que estão ensinando-me cada vez mais a separar a obra da pessoa. Dessa forma, tenho cada vez menos ídolos, mas admiro cada vez mais as obras de arte em si. Inclusive, seria muito interessante se mais pessoas fossem fãs apenas dos livros, filmes, discos, fotografias, telas, esculturas. Isso me tem evitado muito mal estar. Afinal, são as obras que de fato interessam. São elas que ficam quando o artista morre. Contudo, precisamos sim indignar-se com esses casos, deixar passar esse tipo de coisa só pelo fato de serem artistas é exercer a indignação seletiva. Intolerância, machismo, racismo, homofobia, transfobia, todo tipo de discriminação e preconceito precisam ser combatidos, na vida e nas artes.

o selo de qualidade dos vira-latas

Em 16 de julho de 1950, a nossa seleção de futebol perdeu a partida para a seleção uruguaia na final da Copa do Mundo realizada no Brasil. A derrota aconteceu em pleno Maracanã, o que contribuiu ainda mais para o forte trauma sofrido pelos brasileiros. Nelson Rodrigues escreveu então um texto* sobre o ocorrido, em que falou pela primeira vez sobre o complexo de inferioridade do nosso povo, que ele chamou de “complexo de vira-lata”. Dizia ele no texto: Por “complexo de vira-lata” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima.

Para Rodrigues, o fenômeno não se limitava somente ao campo futebolístico, até porque o Brasil se recuperaria do complexo de inferioridade no futebol com a conquista da Copa do Mundo de 1958. Estou falando sobre isso porque no próximo dia 28 acontece a cerimônia do Oscar e estamos concorrendo na categoria de Melhor Animação com o filme ‘O Menino e o Mundo’ (2013), do diretor Alê Abreu. Desde a indicação, vejo amigos meus, dentre eles, tanto quem não entende de cinema, quanto quem entende e estuda o assunto, assistindo ao filme de maneira ensandecida. Prestigiei a produção pela primeira vez ano passado – para ser mais preciso, no dia 6 de fevereiro. Todavia, desde 2014 que eu já queria vê-lo. Acho ótimo que o estejam assistindo, afinal, o filme é realmente bom e merece estar entre os cinco indicados. No entanto, se tem uma coisa que eu tenho certeza é que, muitos desses meus amigos (e pessoas por esse Brasilsão a fora) não o veriam se ele não tivesse sido indicado ao Oscar. Esse pensamento é explicado pelo fato de que a maioria dos brasileiros já não gosta do cinema nacional em live-action (termo utilizado no cinema, teatro e televisão para definir os trabalhos que são realizados por atores reais), que dirá um filme de animação, gênero em que o país não possui forte tradição.

Acontece, caríssimo Leitor, que a indicação de um filme para o Oscar é visto como um selo de qualidade pelo povo brasileiro: “se os gringos acham que é bom, então é porque é”. Mas não precisa ser necessariamente um Oscar, qualquer prêmio internacional já é o suficiente para que o público comece a prestar atenção, ou você realmente acha que se o filme ‘Que Horas Ela Volta?’ (2015), da diretora Anna Muylaert, não tivesse vencido o Sundance na categoria especial de Atuação para Regina Casé e Camila Márdila, teria acontecido toda essa repercussão? Muito provavelmente não, o que me deixa muito triste, porque o filme é realmente bom e levantou questões muito importantes que, de fato, precisam ser debatidas urgentemente pela sociedade brasileira. Mesmo com esse prêmio e outros importantes, o filme de Muylaert (que já havia sido transmitido na TV por assinatura) ficou engavetado pela Rede Globo na esperança do filme conseguir a indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A Rede Globo sabe, assim como sabem todos os veículos de comunicação desse país que, se o filme fosse indicado, aumentaria a curiosidade dos brasileiros e, por consequência, a audiência quando o filme fosse exibido. Quando a Academia divulgou a prévia dos nove filmes estrangeiros que concorreriam e ficamos sabendo que a produção protagonizada por Regina Casé estava de fora, em poucos dias ele foi exibido na Tela Quente para aproveitar que ainda era assunto na boca do povo. Deu certo, o filme conseguiu marcar a ótima média de 22 pontos de audiência. O índice foi quatro pontos maior do que a média do último mês, na mesma faixa.

Se olharmos para o passado, veremos que sempre foi assim. Nosso querido José Mojica Marins, criador do personagem Zé do Caixão, era tido como louco, mas foi só vencer o Festival Internacional de Cinema Fantástico e de Horror em Sitges, na Espanha, com seu filme ‘O Estranho Mundo de Zé do Caixão’ (1968), que a imprensa brasileira começou a enxergar (ainda que a contragosto) o gênio por detrás da capa preta. O mesmo festival ainda lhe homenagearia anos depois com uma menção honrosa pelo conjunto de sua obra e por grandes serviços prestados ao cinema de horror. Também anos depois, dessa vez na França, Mojica participou da 3° Convenção de Cinema Fantástico, realizada em Paris. No encerramento do festival, ele ganhou o troféu L’Écran Fantastique também pelo conjunto de sua obra. Na década de 1990, Mojica ainda seria descoberto pelos fãs de terror nos EUA, onde ficaria conhecido como Coffin Joe. Hoje é ídolo cult, mas dificilmente o seria sem o reconhecimento internacional. Em 1998, André Barcinski e Ivan Finotti publicaram ‘Maldito’, biografia de Mojica. Quem escreveu o prefácio do livro foi Rogério Sganzerla (outro brasileiro que não recebeu o devido reconhecimento de seus compatriotas) ainda vivo na época. Bem no início do texto, Sganzerla aponta: “Mojica deu tudo de si para construir uma obra, perfeitamente assimilada e reconhecida no exterior. Mas não passa de um estrangeiro em seu próprio país, devido à omissão generalizadora da maioria de seus pares – pois tudo se perdoa nos trópicos, menos a inteligência e a criatividade”.

Ademais, como se não bastasse todo esse descaso com o cinema nacional, o mesmo ainda acontece com a música brasileira. Tom Zé talvez seja o nosso maior exemplo desta perspectiva. Se David Byrne não o tivesse descoberto e lançado seus discos no exterior, o Pai da Invenção (como Tom Zé é conhecido internacionalmente) estaria hoje trabalhando como frentista em um posto de gasolina de seu sobrinho, em Irará. Não desmerecendo a profissão dos frentistas (que é tão digna quanto qualquer outra), mas Tom Zé estaria exercendo amargamente essa profissão pelo simples fato de não conseguir viver da própria arte no Brasil. Usando as palavras de Sganzerla como exemplo, por que a obra de nossos melhores artistas é perfeitamente assimilada e reconhecida no exterior, e no Brasil não? Seria uma sequela do terceiro mundismo? Hoje Tom Zé finalmente goza de prestígio em nosso país e consegue viver dos shows que faz e dos discos que vende, mas só depois de conquistar o “selo de qualidade” imposto pelo público brasileiro. Ainda fico na dúvida se a música de Tom Zé é realmente assimilada por todos que dizem admirá-lo ou se o fazem só porque os primos distantes do primeiro mundo ditam a moda. Se realmente assimilam, por que esperar que os países desenvolvidos o façam primeiro? Que espírito de colonizado é esse? Quando nós poderíamos estar recolonizando o mundo com a nossa arte, esperamos que os outros países exportem-na primeiro para depois “venderem” aqui. Nunca conseguirei entender isso.

Outro exemplo musical é Os Mutantes, considerada por muitos (me incluo nesse grupo) como a maior banda brasileira de rock de todos os tempos. Rita Lee e os irmãos Baptista só conquistaram prestígio no Brasil após se apresentarem na Europa e os jornais europeus se curvarem ao seu som. No livro ‘A Divina Comédia dos Mutantes’, biografia da banda publicada pela primeira vez em 1995, pelo escritor Carlos Calado, encontramos um trecho que expressa isso muito bem: Como costuma acontecer nessas ocasiões, a imprensa brasileira fez coro com os elogios dos estrangeiros. Até então tratados com ironias e preconceitos por boa parte da mídia nacional, pela primeira vez Os Mutantes foram enaltecidos como verdadeiros representantes da música popular brasileira. Afinal, a Europa havia se curvado frente aos “nossos” garotos…

Também não esqueçamos de nossos compatriotas que olham enviesado para nossa literatura só por não possuir um prêmio Nobel. Como se realmente precisássemos disso para afirmar que a literatura brasileira é uma das melhores do mundo, com autores incríveis e traduzidos em todos os continentes. É verdade que todos esses prêmios trazem prestígio para um país e ajudam a divulgar os seus artistas, mas não podemos depender disso para nos orgulhar da arte feita aqui. Não podemos depender de uma visão de fora para decidir o que é bom ou ruim. Não precisamos de um Nobel para provar que Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, José de Alencar, Lima Barreto, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Lygia Fagundes Telles, Manuel Bandeira entre tantos outros, são gênios de sua arte. O prêmio nem existia quando alguns dos maiores escritores de todos os tempos já haviam escrito suas obras-primas. Não, não precisamos de um Nobel! Um prêmio criado pelo inventor da dinamite e que acumulou uma das maiores fortunas de sua época com suas fábricas de armamentos não pode ser selo de qualidade para ninguém. Inclusive com sua categoria da Paz.

Outro fato que pouca gente lembra (ou talvez faça questão de esquecer, tamanha foi a ignorância), é que se hoje a bossa nova é foda, não foi esse o pensamento quando João Gilberto surgiu no final de década de 1950. Esse que é indiscutivelmente um dos gênios da música brasileira, foi chamado de desafinado, sem ritmo, ventríloquo. Contudo, o final da história todo mundo conhece: sua música ultrapassou todas as fronteiras possíveis e, claro que depois de entrar para a seleta lista de brasileiros detentores do prêmio Grammy (o Awards e não o Latino), incluindo um de Álbum do Ano (!), viria a se tornar unanimidade em seu país. Anos depois, Tom Zé apresentaria em sua música “Vaia de Bêbado Não Vale” a interessante tese de que a bossa nova inventou o Brasil. Na música ele canta: “no dia em que a bossa nova inventou o Brasil / no dia em que a bossa nova pariu o Brasil / teve que fazer direito / teve que fazer Brasil / criando a bossa nova em 58 / o Brasil foi protagonista / de coisa que jamais aconteceu / pra toda a humanidade / seja na moderna História / seja na História da Antiguidade […] / quando aquele ano começou, nas / Águas de Março de 58, / o Brasil só exportava matéria-prima / essa tisana / isto é o mais baixo grau da capacidade humana / e o mundo dizia: / que povinho retardado / que povo mais atrasado […] / a surpresa foi que no fim daquele mesmo ano / para toda a parte / o Brasil d’O Pato / com a bossa-nova, exportava arte / o grau mais alto da capacidade humana / e a Europa, assombrada: / que povinho audacioso / que povo civilizado.” Como Tom Zé muito bem apresentou em sua música, o Brasil deixava de exportar matéria-prima (café) para exportar arte (música). O mundo se curvava para um país que, até pouco tempo, era muito pouco conhecido. Muito se falava, mas pouco se sabia, de fato. O Brasil entrava com pé direito para a história da música mundial, de onde nunca mais saiu, estando, desde então, na lista dos países que produzem a melhor música do mundo.

Quando tento pensar em brasileiros pouco premiados no exterior, mas altamente reconhecidos em seu país, Eduardo Coutinho é um dos poucos exemplos que me vem à mente. Embora reconhecido internacionalmente, Coutinho nunca ganhou um prêmio de grande expressão. Entretanto, no meio cinematográfico brasileiro, é o que chamamos de unanimidade. Morreu gozando de grande prestígio entre a crítica e fãs de documentários. Não precisou de um Oscar para que os brasileiros o reconhecessem como um reinventor do gênero documental. O que significa que ainda temos salvação. A bossa nova já provou que podemos ser um povo audacioso e civilizado aos olhos das outras nações. Não precisamos nos impor um selo de qualidade. Vamos enxergar com nossos próprios olhos o que temos de melhor sem esperar que alguém de fora faça isso por nós. ‘O Menino e o Mundo’, com ou sem Oscar, já merece destaque na história da cinematografia brasileira, mas se o prêmio de Melhor Animação servir para dar um fim a esse complexo de vira-lata do cinema nacional, desejo então boa sorte no próximo dia 28. Mas lembrando sempre: não precisamos disso!

* Nelson Rodrigues. “Complexo de vira-lata”. In: À sombra das chuteiras imortais: crônicas de futebol. São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p. 51.

os dez melhores livros que li em 2015

Saímos de 2015, mas 2015 não saiu de nós. Mesmo que você, Leitor, não tenha realizado grandes feitos em sua vida nesse ano que se passou (esse foi o meu caso), assim como eu, viu muitas coisas acontecerem no nosso país e no mundo. Grandes ídolos morreram, grandes filmes e discos foram lançados. Novos escândalos de corrupção vieram à tona, ataques terroristas foram realizados, aconteceram diversos eventos esportivos, eventos culturais e festivais de música. Vivemos para ver tudo de bom e de ruim que ocorreu no ano passado. Seja com esses eventos globais ou especificamente localizados, 2015 fará para sempre parte da nossa tragetória, afinal, passamos por ele e estamos aqui para contar a história. Trata-se de um ano que particularmente me marcou pelas leituras que fiz. O conhecimento adquirido no ano passado é algo que vai continuar comigo para o resto da vida, algo que ninguém pode me tirar. Parece um tremendo clichê, mas é verdade. Também foi o ano em que mais li na minha vida: quarenta e seis livros, um total de onze mil novecentas e cinquenta e oito páginas, com média de trinta e três páginas por dia segundo meu perfil no Skoob. Infelizmente, não contei as páginas dos livros para saber se esses números estavam corretos (afinal, sou de humanas), mas resolvi escrever um post sobre os dez melhores livros que li ano passado. São eles, em ordem alfabética:

Discos

Título: Discos
Autor: Arnaldo Cohen, Céline Imbert, Eduardo Giannetti, Lia Rodrigues, Luiz Tatit, Marcelo Coelho, Tom Zé
Primeira publicação: 2003
Minha edição: PubliFolha

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‘Discos’ era um livro que tinha na minha estante já fazia certo tempo, mas que só ano passado resolvi ler. Achava que não ia gostar da leitura, mas me enganei redondamente. O livro me fisgou logo na primeira página. Nele, sete autores dissertam sobre os dez discos que levariam para uma ilha deserta. Sou apaixonado por listas, por isso devo ter gostado tanto de ler algumas feitas por pessoas que admiro, sem contar que, ao longo dos seus mais de setenta capítulos, acaba se tornando um ótimo livro para se pegar dicas de discos para ouvir. Este também foi o livro que me fez conhecer o grande Luiz Tatit. Falei sobre isso em um dos primeiros posts do Satãnatório: o ‘eterno ignorante, parte 1’.

Elite da Tropa

Título: Elite da Tropa
Autor: Luiz Eduardo Soares, André Batista, Rodrigo Pimentel
Primeira publicação: 2005
Minha edição: Objetiva

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Gosto muito do filme ‘Tropa de Elite’ (2007), do diretor José Padilha, e admito que esse livro chegou até mim graças à sua adaptação cinematográfica. No princípio, não tive vontade nenhuma de ler ‘Elite da Tropa’, pois acreditava que devia ser muito parecido com o longa-metragem. Todavia, depois de saber que muitos detalhes são diferentes na obra impressa, decidi ler e me surpreendi. Constatei que, de fato, neste caso, livro e filme parecem ser duas coisas totalmente distintas, incluindo aqui a estrutura narrativa. O escrito está dividido em duas partes. A primeira conta histórias sobre o Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), considerado um esquadrão de elite na Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Baseado em relatos reais de ex-policiais do BOPE, o livro mostra os oficiais como uma tropa aparentemente incorruptível e extremamente violenta. Desse momento inicial foram retirados os personagens do filme e algumas histórias que o compõe. Contudo, a segunda parte, que fala sobre o plano para assassinar Leonel Brizola, na época governador do Rio de Janeiro, é o suprassumo do livro, e nada disso está no longa. Esta outra seção com certeza daria um excelente roteiro se fosse adaptado para o cinema. Já havia falado da minha edição do livro no post ‘livros sebosos’.

Encontros Tom Zé

Título: Encontros – Tom Zé
Autor: Tom Zé, Heyk Pimenta
Primeira publicação: 2011
Minha edição: Azougue

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Primeiro tenho que contar como encontrei essa pérola. Jorge du Peixe, vocalista da Nação Zumbi, publicou uma foto do livro em seu perfil no Instagram com a seguinte legenda: “Livrinho fuderoso da coleção Encontros. Entrevistas antológicas com Tom Zé, o mestre dos mestres e punk mais original do Brasil.” Dias depois, eu já estava com o livro em mãos e me segurando para não ler de uma só vez. Sempre fico triste após terminar de ler uma boa publicação por completo. Quando mais tempo eu convivo com o livro, melhor. Mesmo assim, terminei logo, tanto por ser curto, quanto por ser sobre Tom Zé. Tenho que concordar com du Peixe, o livro é mesmo fuderoso.

Estação Carandiru

Título: Estação Carandiru
Autor: Drauzio Varella
Primeira publicação: 1999
Minha edição: Companhia das Letras

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Esse foi outro livro que cheguei através de um filme: ‘Carandiru’ (2003) de Hector Babenco. A obra de Drauzio Varella é um dos poucos casos em que um sucesso editorial, verdadeiro fenômeno de vendas realmente vale a pena ser lido. Vencedor do Prêmio Jabuti em 2000 na categoria Livro do Ano de Não-Ficção, a publicação conta a experiência de Varella como médico voluntário, a partir de 1989, na Casa de Detenção de São Paulo, onde realiza atendimento em saúde, especialmente na prevenção da AIDS. No post ‘livros sebosos’ também falei sobre a minha edição desse livro.

O Centauro no Jardim

Título: O Centauro no Jardim
Autor: Moacyr Scliar
Primeira publicação: 1980
Minha edição: Companhia de Bolso

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Esse foi meu primeiro livro de Moacyr Scliar, constituindo o suficiente para que eu me tornasse um grande admirador da sua escrita criativa. A obra mistura elementos fantásticos em uma trama muito instigante, contando a estória do centauro Guedali, um ser metade homem, metade cavalo. O blogue 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer fez uma excelente resenha sobre esse livro.

O Guarani

Título: O Guarani
Autor: José de Alencar
Primeira publicação: 1857
Minha edição: Martin Claret

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Meu primeiro contato com a história do livro veio com a ópera de mesmo nome do compositor Carlos Gomes e depois com o filme ‘O Guarani’ (1996), da diretora Norma Bengell. Anos depois, minha irmã ganhou um exemplar do romance, que acabou me dando por não gostar. Eu também acabei o abandonando por não conseguir me envolver com o enredo. Entretanto, no ano passado, resolvi dar mais uma chance a ele e acabei me apaixonando, principalmente por sua parte final. Assim que concluí a leitura, assisti a outra versão cinematográfica do livro, ‘O Guarani’ (1979), do diretor Fauzi Mansur, que supera a outra produção citada. A primeira adaptação do livro para o cinema aconteceu em 1912, em um filme mudo hoje considerado perdido.

O Que é Isso, Companheiro?

Título: O Que é Isso, Companheiro?
Autor: Fernando Gabeira
Primeira publicação: 1979
Minha edição: Companhia de Bolso

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Mais um livro que cheguei através de um filme, dessa vez foi ‘O Que é Isso, Companheiro?’ (1997), do diretor Bruno Barreto, que representou o Brasil no Oscar de 1998, sendo indicado ao prêmio de melhor filme estrangeiro. Até pouco tempo atrás, eu evitava ler livros que eram adaptados para o cinema, tentando focar em histórias que eu ainda não conhecia. Ainda bem que parei com isso, até porque o filme de Barreto é inspirado apenas no 15° capítulo do livro de Gabeira, o trecho que diz respeito ao sequestro do embaixador norte-americano. O livro é um ótimo depoimento sobre quem viveu na pele o terror da ditadura militar brasileira. Super indico a obra para os politicamente alienados que saíram às ruas no ano passado pedindo a volta do regime militar. O blogue 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer também fez uma ótima resenha sobre ele.

O Réu e o Rei

Título: O Réu e o Rei
Autor: Paulo Cesar de Araújo
Primeira publicação: 2014
Minha edição: Companhia das Letras

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Se não me engano, esse é o maior livro dessa lista e o que li mais rápido. Eu já sabia como terminava a história de Paulo Cesar de Araújo com Roberto Carlos, mas queria saber os detalhes. No livro, o autor fala sobre a polêmica proibição de seu livro anterior, a biografia ‘Roberto Carlos em Detalhes’. ‘O Réu e o Rei’ não é uma nova biografia sobre o cantor, mas sim um relato sobre a relação do autor com Roberto. Durante a leitura ainda ficamos conhecendo a história de amizade entre Paulo Cesar de Araújo e João Gilberto, sem dúvida a maior surpresa do livro.

Secreções, Excreções e Desatinos

Título: Secreções, Excreções e Desatinos
Autor: Rubem Fonseca
Primeira publicação: 2001
Minha edição: Companhia das Letras

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Esse foi meu primeiro livro lido em 2015. É um compêndio de contos e constituiu meu segundo título de Rubem Fonseca, depois de ‘O Caso Morel’. Com essa obra, rapidamente descobri porque ele é considerado um dos melhores contistas deste país. O primeiro conto da coletânea, ‘Copromancia’, se tornou um dos meus textos favoritos e, assim como todos os outros que a compõe, a cada parágrafo lido, eu imaginava como ficariam ótimos se fossem adaptados para o cinema.

Tropicalista Lenta Luta

Título: Tropicalista Lenta Luta
Autor: Tom Zé
Primeira publicação: 2003
Minha edição: PubliFolha

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Mais uma vez um livro do Tom Zé! Este, por sua vez, merece destaque por considerado sua biografia. ‘Tropicalista Lenta Luta’ tem capítulos escritos pelo próprio cantor e compositor, contando sobre sua infância em Irará, acerca de sua formação e ida a São Paulo, discutindo o ostracismo e muitas outras curiosidades de sua vida. Ademais, esses capítulos são curtos e não se aprofundam o suficiente como as biografias convencionais (embora não sejam superficiais, pois Tom Zé nunca é superficial naquilo que escreve). Grande parte do livro é formada pelas letras de seus discos, contendo também cartas e uma extensa entrevista concedida a Luiz Tatit e Arthur Nestrovski. Trata-se de um livro indispensável para aqueles que, como eu, são grandes fãs do Pai da Invenção. Citei esse livro no post ‘vinte e três’ e foi também uma parte dele que me inspirou a escrever o texto ‘meu útero’.

E então, caríssimo Leitor, já leu algum desses livros? Gostou? Não gostou? Pretende ler algum? Me conta!

meus discos favoritos de 2015

Espero que o título seja o suficiente para evitar retaliações. Esta não é uma lista dos melhores discos nacionais de 2015, e sim dos meus favoritos. Já tive um blogue sobre música onde anualmente fazia uma lista dos melhores lançamentos e, agora que estou blogando novamente, decidi fazer essa brincadeira mais uma vez. Devo confessar que foi muito difícil selecionar apenas dez de uma pré-lista de duzentos álbuns que eu fiz; foi um verdadeiro suicídio. Ademais, sendo muito sincero com o Leitor, tenho de admitir que não ouvi tudo com a mesma atenção. Uns eu escutei mais que outros, sendo que, no final, esse foi uns dos critérios para a seleção.

Justamente por não ter apreciado todos com a mesma dedicação, sei que me arrependerei futuramente por ter deixado alguns de fora, como já é o caso de ‘Carbono’ do Lenine, ‘Estado de Poesia’ do Chico César, ‘Selvática’ da Karina Burh, além de tantos outros. Isso significa que, se eu tivesse que refazer essa lista daqui a alguns anos, ela com certeza sofreria alguma alteração, por menor que seja. Mas é como eu sempre digo: listas só existem para deixar algo de fora, ainda mais quando o assunto é a música brasileira. Você sabe como é, né? Música nacional ou você gosta, ou você não conhece. Ademais, não vou ficar rasgando seda para os escolhidos (tentarei, pelo menos), já que aprendi com o meu finado blogue de música que não adianta ficar justificando ou tentando convencer os leitores das minhas escolhas. Portanto, além da própria lista, me limitarei a breves comentários. O que quero mesmo é que vocês ouçam e tirem suas próprias conclusões. Eis a seguir a minha lista:

10° Selva Mundo (Vivendo do Ócio)
Selva MundoOUVIR

Em décimo lugar, ‘Selva Mundo’, da Vivendo do Ócio. Trata-se do terceiro álbum de estúdio da banda baiana que estava há três anos sem registrar nada de novo. Lançado de forma independente e sem a participação de Rafael Ramos, que produziu os discos anteriores, ‘Selva Mundo’ mostra um lado ainda mais roqueiro da banda nacionalmente conhecida pelo seu som indie.

9° De Baile Solto (Siba)
De Baile SoltoBAIXAR

Em nono lugar, ‘De Baile Solto’, do Siba. O segundo álbum de carreira solo do pernambucano conseguiu ser ainda melhor que o muito elogiado ‘Avante’ (seu trabalho anterior). Tenho de confessar que só vim ter contato com a música do Siba no ano passado, consequência da falta de tempo e do grande número de discos lançados anualmente. Simplesmente não consigo acompanhar tudo (mas sigo tentando).

8° Ava Patrya Yndia Yracema (Ava Rocha)
Ava Patrya Yndia YracemaBAIXAR

Em oitavo lugar, ‘Ava Patrya Yndia Yracema’, da Ava Rocha. Este é, sem dúvida, um dos discos mais deliciosos de 2015. Com um som fortemente influenciado pelo tropicalismo, o álbum é uma verdadeira colagem antropofágica. Glauber Rocha (seu pai) ficaria muito orgulhoso.

7° Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa (Emicida)
Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa

Em sétimo lugar, ‘Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa’, do Emicida. Esse é o segundo álbum de estúdio do cantor paulista e conta sua experiência de viagem à África, com músicas sobre preconceito, racismo e indiferença.

6° Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito! (Johnny Hooker)
Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!OUVIR

Em sexto lugar, ‘Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!’, do Johnny Hooker. Assim como a maioria das pessoas, conheci o som do Hooker através de sua aparição em ‘Tatuagem’, o excelente filme de Hilton Lacerda. O disco em questão é um dos mais interessantes dessa nova leva de artistas brasileiros.

5° O Homem Bruxa (André Abujamra)
O Homem BruxaOUVIR

Em quinto lugar ‘O Homem Bruxa’, de André Abujamra. Esse é o quarto álbum de estúdio da carreira solo do músico paulista. O disco tem algumas músicas em homenagem ao seu pai, Antônio Abujamra, falecido ano passado, que também da voz a algumas composições. O material já estava pronto antes dele morrer, servindo como uma última homenagem ao importante diretor, ator e apresentador.

4° Babylon By Gus – Vol. II: No Princípio Era O Verbo (Black Alien)
Babylon By Gus – Vol. II No Princípio Era O VerboOUVIR

Em quarto lugar, ‘Babylon By Gus – Vol. II: No Princípio Era O Verbo’, do Black Alien. O segundo álbum de estúdio da carreira solo do rapper carioca demorou onze anos para ser lançado, mas a espera valeu muito à pena.

3° Fortaleza (Cidadão Instigado)
FortalezaBAIXAR

Em terceiro lugar, ‘Fortaleza’, do Cidadão Instigado. O quarto trabalho de estúdio da banda traça uma interessante reverência à sua cidade de origem. Poucas vezes ouvi uma homenagem tão linda.

2° Vinil Virtual (Daniela Mercury)
Vinil Virtual

Em segundo lugar, ‘Vinil Virtal’, da Daniela Mercury. O décimo primeiro álbum de estúdio da cantora baiana só veio reforçar sua grande evolução como compositora. Com todas as faixas escritas por ela, o disco é um manifesto ao amor, em todas as suas formas.

1° A Mulher do Fim do Mundo (Elza Soares)
A Mulher do Fim do MundoOUVIR

Em primeiro lugar, ‘A Mulher do Fim do Mundo’, da Elza Soares. Esse disco eu posso afirmar que jamais mudaria de lugar. Além de mantê-lo para sempre na lista dos melhores de 2015, afirmo que ele entrará para a história como um dos álbuns mais importantes da música brasileira de todos os tempos. Viva, Elza!

E você, Leitor, quais os seus discos brasileiros favoritos de 2015? Me conta! Vamos trocar figurinhas.

2015 foi-se

Havia planejado publicar esse texto no último dia do ano, mas sendo esse um blogue que nasceu e se fez nas segundas-feiras, eis aqui minha despedida de 2015, na última segunda do calendário. E que ano, caríssimos! Nem de longe foi o melhor da minha vida e igualmente nem de longe foi um dos piores. Já falei aqui muitas vezes de como segundas-feiras são importantes para mim, como as encaro como um recomeço. O primeiro dia de um novo ano é como se fosse uma segunda-feira tamanho gigante. É claro que podemos recomeçar todos os dias, mas como tenho essa mania de esperar “ciclos” se fecharem para pôr em prática minhas vontades, o início de um novo ano é a minha grande oportunidade.

Embora esse não tenha sido um ano de todo ruim, eu considero que a maior recordação que vou levar dele é a da morte do meu tio-avô, a quem tanto amava. Tenho certeza de que ele me amava também, embora nunca tenha expressado isso em palavras. É nesses momentos tristes que a gente percebe que atitudes realmente valem muito mais do que frases feitas. Ele foi a primeira pessoa ligada a mim que perdi para a morte. Estivemos vivos simultaneamente por vinte e dois anos, tempo suficiente para acumularmos muitas histórias juntos. Um dia, quem sabe, ainda escrevo sobre ele por aqui.

Esse também não foi de muitas realizações. Foi quase um ano sabático, em que me permiti não realizar grandes feitos. Ademais, chegado o seu fim, retornam as atividades, e é justamente isso que quero para o próximo ano: trabalhar. 2016 será um ano de muitas metas, algumas importantes, outras nem tanto. Se esse foi um ano de muitas incertezas, quero muito que o próximo seja o ano das certezas, dos passos firmes, de seguir o itinerário que foi tão planejado.

Fiz uma lista de metas para bater em 2016 e, se eu ainda lembrá-la (e se ainda estiver escrevendo no blogue daqui a um ano), compartilho os resultados com você, Leitor. Continuar blogando é uma dessas metas. Para isso, o Satãnatório vai ter que sobreviver à turbulência dos próximos doze meses. Esse é apenas o post de número trinta e um em quase sete meses de blogue. A sensação que tenho é de que estou escrevendo aqui há uma eternidade. Muita gente interessante apareceu por aqui nesse curto espaço de tempo. Ler as inquietações das pessoas que me acompanham é o que mais me motiva a continuar escrevendo sobre as minhas. E é este o meu maior desejo para 2016: muitas inquietações para todos nós, nada de paz. Sábia foi a pessoa que disse que a paz não leva a lugar nenhum, que ela é apenas um barco perdido no meio de um oceano sem vento. Parafraseando Raul Seixas, “se o que você quer em sua vida é só paz, muitas doçuras, seu nome em cartaz […] eu provo sempre o vinagre e o vinho, eu quero é ter tentação no caminho, pois o homem é o exercício que faz.” Então é isso, caríssimos. Muita tentação em nosso caminho. Que venha 2016!

eduardo coutinho em 23 imagens

Sem a menor dúvida, Eduardo Coutinho afirmava que o documentário, em todo lugar do mundo sempre foi, é e será um tipo de cinema marginal. Isso não quer dizer que não se possa aumentar a margem. Sou obrigado a concordar com ele, mas esse tímido crescimento do documentário em todo o mundo, no Brasil principalmente, é algo real e que muito me agrada. Os brasileiros produzem os melhores documentários do mundo. Ponto. E Coutinho foi e continua sendo o maior entre os maiores. Já virou chavão dizer que seu nome é sinônimo de documentário e vice versa.

Todos os anos o vencedor do Oscar de Melhor Documentário deveria ser uma produção brasileira. Mas sabemos que gringos, assim como os brasileiros, são preguiçosos e não gostam de ler legendas. Quando um filme estrangeiro faz muito sucesso em seu país de origem, ele é vendido para outros países e dublado (muito pior do que aqui, por sinal) ou refilmado com atores de língua inglesa. Como não existe essa tradição de se dublar documentários, o mundo segue ignorando o fato dos nossos documentários serem os melhores. Apesar do reconhecimento internacional, os gringos jamais vão compreender a verdadeira importância da obra de Eduardo Coutinho. Ele afirmava fazer filmes para o Brasil, pois seu cinema tem como foco as palavras, que na nossa língua são muitas vezes impossíveis de serem traduzidas, como é o caso de alguns exemplos que ele mesmo adorava: ‘presidentinho’, ‘sobejo’.

Eu tento eliminar tudo que eu acho que é perfumaria. O elemento essencial é a palavra humana e o que acontece quando um cara filma outro.
Eduardo Coutinho

Coutinho não gostava de entrevistar pessoas que ele conhecia e muito menos pessoas públicas (que possuem reputação a preservar e muito a perder). Seu interesse estava nas pessoas anônimas, o chamado “peixe pequeno” (sem nome a zelar e nada a perder, e que por isso mesmo podiam contar tudo sem receio). Ele queria saber o que essas pessoas achavam delas mesmas e não o que os outros pensavam delas. Para ele, quase todo o cinema mundial (principalmente o documental) é feito na perspectiva do intelectual. O cineasta que quer mudar o mundo e o mundo que ele vai filmar, e que só procura aquele cuja fala lhe interessa para os fins a que se propôs. Quem não lhe interessa, ele exclui ou auxilia tentando fazer prevalecer seu ponto de vista. Coutinho não discutia com nem discordava de seus entrevistados porque achava que cabia ao público pensar sozinho sobre os assuntos abordados.

Essa vontade de mudar o mundo que se filma torna impossível de conhecer o que está sendo filmado, pois só é selecionado aquilo que previamente se quer mostrar. Coutinho achava que a visão militante podia ser mortal para o filme e que querer mudar o mundo era uma utopia maluca. Como mudar o lugar que está sendo filmado? Como fazer essas pessoas mudarem apenas fazendo um filme? Considerava isso de uma arrogância e um autoritarismo absurdo. Deve ser por isso que seus filmes estão preocupados com a história cotidiana, a história com h minúsculo, a história do povo miúdo. Não lhe interessava fazer filmes contra as comunidades que filmava, fossem elas de suburbanos, pobres, ricos etc. Na verdade, ele não tinha nenhuma pretensão de mudar o mundo. Estava preocupado em conhecer seus entrevistados e não prejudicá-los, pois essas pessoas estavam lhe dando um tesouro, que é a fala. Elas se entregavam diante da câmera, por isso ele não queria que se sentissem traídas ou lesadas quando vissem o filme. Era sua regra de conduta.

A luz do documentário é o enquadramento.
Eduardo Coutinho

Eduardo Coutinho tinha a tese de que duas tragédias impedem o documentário de ser apreciado pelas pessoas menos informadas, sobretudo os jovens. A primeira maldição é a de que documentário deve educar e informar, método que algumas produções do tipo e as reportagens de televisão seguem (embora achasse um tipo aceitável de documentário, não era o que lhe interessava). A segunda é a de que o documentário diz a verdade. Considerava esses dois pensamentos uma tragédia, algo ultrapassado, pois acreditava que documentários não possuem compromissos forçosos com a informação, com a instrução e sequer em dizer a verdade, já que esse tipo de filme apenas joga com a questão da verdade.

O filme de ficção, aquele com atores que são pagos para viver o papel e a paixão dos outros em enredos inventados, baseados em histórias reais ou não, sempre será a corrente cinematográfica principal. As pessoas vão ao cinema para ver isso e sonhar. Para ele, isso é uma necessidade humana e a maioria dos documentários passa a impressão de que não possuem esse elemento onírico. O que difere dos seus filmes, que também ficaram conhecidos como documentários ficcionais. Neles, é possível encontrar um efeito poético e se identificar com seus entrevistados a quem ele chamava de personagens, projetando-se na tela como no “sonho” do filme de ficção. Considerava que documentário não é um gênero cinematográfico e sim um sistema, defendendo também o pensamento de que tudo o que se passa entre quem está diante da câmera e quem está atrás é sempre ficcional, já que a memória é sempre inventada. Por esse motivo chamava suas filmagens de “jogos”.

Acham muitas vezes que a câmera pensa. A câmera não pensa. A câmera é burra, o computador é burro.
Eduardo Coutinho

Coutinho também é responsável pela realização de ‘Cabra Marcado Para Morrer’, o marco maior do documentário brasileiro que, na opinião do também cineasta Vladimir Carvalho, juntamente com ‘Vidas Secas’ de Nelson Pereira dos Santos e ‘Terra em Transe’ de Glauber Rocha, forma a tríade que vai dar o recado para a vida toda do que foi o Brasil do século vinte. ‘Cabra Marcado Para Morrer’ inaugurou um cinema que recupera o passado e o próprio material do passado, no caso, seu material filmado em 1964, e em 1984 elabora um pensamento teórico sobre a história. O filme quebra a ideia do documentário que separa o observador e analista do objeto examinado. Há uma relação direta entre o meio (as ligas camponesas de Galiléia e de Sapé) e o observador (Eduardo Coutinho). Não há distâncias e sim um fluxo entre os dois. Coutinho se desloca, vai até Elizabeth Teixeira, viúva do líder camponês João Pedro Teixeira, para recontar sua história e descobrir o que aconteceu com ela e seus filhos nesses vinte anos.

Esse deslocamento para ouvir pessoas também se tornou uma marca registrada, que se repetiu em ‘Santo Forte’ (moradores da favela Vila Parque da Cidade), ‘Babilônia 2000’ (moradores do Morro da Babilônia), ‘Edifício Master’ (moradores de um antigo e tradicional edifício situado em Copacabana), ‘Peões’ (trabalhadores da indústria metalúrgica do ABC) e ‘O Fim e o Princípio’ (moradores do Sítio Araçás, comunidade rural no sertão da Paraíba). Ademais, ele também se reinventou nos filmes ‘Jogo de Cena’ e ‘As Canções’, onde são as pessoas que se deslocam até ele.

Com suas produções, Eduardo também desenvolveu a chamada “arte do encontro”. Sua equipe de pesquisa entrevistava previamente as pessoas que viriam participar do filme, mas Coutinho só encontrava com esses personagens na hora da filmagem. Só fazia filmes porque não sabia o que ia acontecer. O processo lhe interessava, a fabricação. Com isso, o essencial na hora da conversa era a surpresa e o acaso.

Coutinho é um dos meus cineastas favoritos. Impossível não assistir a uma entrevista dele e não aprender. Uma pena que ele nos tenha deixado de uma forma tão absurda. Sou apenas um de seus muitos órfãos. Mesmo não tendo pretensões de fazer documentários, sua obra é uma das que mais me influencia. Sua teoria de que os melhores filmes do mundo não possuem artigo no título foi seguido à risca por ele (com exceção de ‘O Fio da Memória’, ‘O Fim e o Princípio’ e ‘As Canções’) e que pretendo seguir em sua homenagem. Além das vinte e três imagens, deixo para você cineasta, documentarista, fã de Eduardo Coutinho, cinéfilo, leigo, curioso, o curta-metragem ‘Coutinho Repórter’, em que ele fala sobre os anos em que trabalhou no programa Globo Repórter, em que, durante a ditadura, forjou um estilo e realizou obras de empenho social que, na época, a censura impedia o cinema de concretizar. Até a próxima, abraçaço.

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Não sei quem são os fotógrafos responsáveis pelas fotos, mas se você conhece ou fotografou alguma delas, é só deixar o nome com o número da foto para que sejam devidamente creditados.

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Pelas minhas contas, a prova do ENEM que acontece no próximo final de semana é a de número dezoito. Elas acontecem desde 1998. São dezessete anos. Dezessete! O que me admira muito, porque só vim ouvir falar na prova no fim do meu ensino médio, quando a universidade federal da minha cidade decidiu aderir ao exame. Desde aquele tempo, já se falava na realização de duas edições da prova por ano. O que não aconteceu até hoje e, com o MEC reduzindo o repasse de verba para as universidades federais, é algo que não deve acontecer tão cedo. Até porque, sendo o ENEM o segundo maior exame do mundo (o que não é de se impressionar, já que nossa população é imensa), o gasto do governo para a aplicação das provas em 2014 chegou a R$ 453,5 milhões, de acordo com informações do próprio MEC. Esse ano a conta deve ser ainda maior.

Não consegui passar de primeira, nem de segunda. Pois é. E olha que o curso de Cinema nem é um dos mais concorridos. Tudo consequência da minha deficiência em matemática, química, física e biologia. Mesmo tirando boas notas nas provas de redação, ciências humanas, linguagens, códigos e suas tecnologias, não foi o suficiente para ingressar na universidade. Eu me recusava (e nem tinha condições) a pagar uma particular podendo fazer uma de graça. Sendo que tudo era culpa minha. Então desisti. Foi quando ingressei no mercado de trabalho.

Trabalhei como almoxarife em uma construtora e como estagiário em um banco privado. Esse segundo foi onde durei mais tempo e foi uma experiência ótima. É incrível como sua vida muda para melhor quando se tem conhecimento sobre o sistema bancário. Os bancos são um dos maiores males da humanidade, então conhecer suas leis é fundamental para não se deixar dominar pelas altíssimas taxas e juros. É preciso dizer também que foi lá onde tive os melhores chefes e colegas de trabalho até hoje. Como conheço muitas pessoas que trabalham em bancos, posso dizer que isso não é algo muito comum.

Quando não estava trabalhando, aproveitava o tempo livre para ler muito, ver o máximo de filmes possível, desenvolver projetos por baixo dos panos e atualizar um blogue que eu tinha, chamado Escribômano. Nesse meio tempo, eu já havia desistido da ideia de ingressar na universidade. Mas não deixei de realizar as provas do ENEM. É claro que eu não tinha mais esperanças. Não havia passado depois de concluir o ensino médio com todas as disciplinas frescas na memória, não havia passado depois de fazer cursinho pré-vestibular (leia frequentar, porque eu mal assistia às aulas e a única coisa boa que de lá tirei foram os amigos que fiz), e não haveria de passar depois de um ano inteiro academicamente parado. Eu só conseguia pensar que, a cada ano que se passava, o número de inscritos aumentava. Também pudera, o número de vagas é muito inferior ao número de candidatos. E as pessoas que não conseguem passar tentam no ano seguinte com os milhares que alunos que concluem o ensino médio.

Havia madrugado na noite anterior quando fui mais uma vez fazer a prova. Estava com muito sono e zero de motivação. Não queria estar ali. Passar duas tardes da minha vida sentado e realizando uma prova desgastante onde a única coisa boa era o chocolate que eu havia levado. Sem contar que eu só tinha levado canetas de tinta azul. Só tenho canetas dessa cor porque acho que minha letra fica feia com canetas de tinta preta (coisas da minha cabeça). Veja minha falta de atenção. Eu deveria lembrar que só eram permitidas as esferográficas de tinta preta. Lembrei disso quando já havia chegado ao local da prova e lido a informação no cartão de inscrição (parece que esse ano o cartão não será mais entregue pelos Correios e o candidato tem que conferir no site do Inep, o que é ótimo, são menos árvores derrubadas). Acontece que, se não fosse esse cartão de inscrição, eu não teria saído daquele torpor e visto que só eram permitidas canetas de corpo transparente e tinta preta. Na verdade, eu deveria ter lido ele em casa. Enfim, não tinha mais tempo para sair e comprar outra. Foi quando um garoto que estava lá me deu uma caneta para que eu realizasse a prova. Não consegui devolver porque nunca mais o vi. Nem no dia seguinte consegui encontrá-lo. Claro que o agradeci, mas se um dia ele ler esse texto e lembrar, deixo aqui mais uma vez o meu “muito obrigado”.

O que aconteceu, caríssimos, eu não vou saber explicar, mas consegui responder a prova muito bem e mais uma vez fiz uma boa redação. Foi então que, quando eu menos quis e acreditei, consegui ingressar na universidade federal mais concorrida do país. Eu tinha tanta certeza de que não conseguiria que nem conferi quantas questões eu havia acertado. Só quando saíram as inscrições do Sisu que conferi minha nota. Não queria sofrer por antecedência.

Ingressar numa universidade nunca foi um sonho de fato. Mas sim conhecer pessoas que também sonhassem em fazer cinema. Deu certo. E foi até melhor. Enquanto estive fora do ambiente acadêmico me tornei um cinéfilo autodidata. Cheguei à universidade com muita bagagem, o que me permitiu não ficar boiando durante certas aulas. Se você Leitor, sonha em cursar uma universidade e vai fazer a prova do ENEM no próximo final de semana, desejo a você um ótimo desempenho. Mas saiba que você deveria estar fazendo as últimas revisões e não lendo esse texto. Faça o que eu digo e não faça o que eu faço. Corre lá que ainda dá tempo de fazer umas redações. E não esqueça: a caneta é de corpo transparente e cor preta.

Até a próxima. Abraçaço.