pedantismo futebolístico

Eu nem havia aprendido a falar quando a seleção brasileira conquistou o tetra em 1994 e ainda era uma criança quando conquistaram o penta em 2002. Meu pai tem boas recordações da Copa de 1994 e sempre fala com saudosismo da dupla Romário e Bebeto, que não cheguei a ver jogando. No início da adolescência, ainda acompanhei as últimas partidas de Romário em busca do seu tão desejado milésimo gol. Da Copa de 1998, em que o Brasil foi derrotado na final, não me lembro de absolutamente nada.

Minha recordação mais antiga de uma Copa do Mundo é a final da de 2002. Minha memória não vai além do último jogo e, mesmo assim, é constituída de lembranças muito turvas deste momento. Consigo lembrar que, na época, vários homens imitavam o estranho corte de cabelo do Ronaldo (chamado de “estilo cascão”). Recordo ainda de um programa do Domingo Legal, ainda com o Gugu como apresentador, pagando algum valor para que as mulheres da plateia cortassem o cabelo como o do Ronaldo no palco, ao vivo, mas não sei se isso foi durante ou depois da Copa, se realmente aconteceu, se é invenção da minha cabeça ou uma confusão com outra lembrança. Por favor, se alguém lembrar disso, corrija-me nos comentários se eu estiver errado. Recordo ainda que, no jogo da final, algumas pessoas estavam aqui em casa, mas só consigo me lembrar do meu pai, não relembro mais quem eram os outros presentes, na verdade, nem consigo visualizar o rosto delas na minha memória. Assim fica difícil de identificar, embora arrisque afirmar que eram meus tios. Enfim, esses detalhes não importam.

Mencionei isso tudo para dizer que a seleção já conquistou dois títulos de Copa do Mundo desde que nasci, ainda que não tenha visto nenhum. Não consigo considerar a Copa de 2002. Quatro anos depois, na Copa de 2006, eu torci e acompanhei de verdade. Lembro-me dos jogos, de tudo. Marcou-me também o fato de meu tio, irmão de meu pai, dizer-me que aquela seria a minha primeira Copa de verdade, e acabou sendo mesmo. No entanto, a seleção brasileira perdeu, como a gente já sabe. Em 2010, outra derrota, e agora, mais recentemente, em 2014…

Nunca vi a seleção de futebol mais vitoriosa de todos os tempos vencer uma Copa do Mundo. Se estou frustrado? Vou ser muito sincero: eu nem ligo! Sou um apaixonado por futebol, acompanho sempre. Certas partidas são para mim bem mais emocionantes que muitos filmes insossos, mas minha felicidade e minha tristeza não são reféns de um esporte. Se meu time conquista um título, é claro que fico satisfeito. É bom vencer, comemorar, mas a grande verdade é que eu não ganho nada quando meu time vence e não perco nada quando ele perde (a não ser que eu fosse muito idiota a ponto de ficar apostando dinheiro).

É tudo psicológico. Quando torço para um time, estou dizendo para meu subconsciente que devo ficar contente quando ele vence e aborrecido quando ele perde. Já fui assim, mas vamos combinar que ficar triste não é nada legal e decididamente nenhum time (nem seleção) tem o poder de me fazer feliz ou infeliz. E se já teve é porque eu lhe dei inconscientemente esse poder. Claro que quero que meu time vença, que a seleção brasileira vença, afinal, nós seres humanos somos inflados de ego e nunca queremos perder para ninguém, não importa o que seja. É por isso que só retiro a parte boa: se o time (ou seleção) vence, fico satisfeito (satisfação essa, tão momentânea, que no dia seguinte já acaba), mas se o time perde, não permito-me ficar triste.

Preciso dizer também que a seleção brasileira não me representa. A CBF é uma entidade privada que se apropriou do nome “Brasil”, mas o Brasil somos nós e não temos poder de decisão nenhum sobre quem preside a entidade, que lucra ano após ano em cima da nossa paixão por futebol, em cima dos atletas e nossa identificação como pátria. Afinal, futebol e Brasil ainda continuam sendo sinônimos um do outro. Sempre quis que nosso país fosse diretamente associado a outras coisas, como música, educação, sustentabilidade ambiental, ciência, cinema ou literatura, por exemplo. No entanto, parece que uma vez país do futebol, sempre país do futebol. E embora adore esse esporte, admito que isso pode ser ruim, como já está sendo, inclusive.

Ao contrário do que tentam nos fazer acreditar, não vivemos a maior crise política do país. Esse, definitivamente, não é o momento mais difícil que o Brasil já atravessou. Não esqueçamos da ditadura militar. O que são cinquenta anos para a História? Isso mesmo, nada! E tem mais, ela só acabou há trinta e um anos. Isso é menos que nada. A ferida ainda não cicatrizou, nossa “democracia” ainda é muito jovem e, graças a ela, podemos ganhar as ruas para manifestar contra o que quer que seja (ainda que abaixo de balas de borracha, bombas de efeito moral e gás de pimenta). Graças a ela, posso escrever neste blogue sobre política e você, caro(a) Leitor(a), pode ler sobre o que quiser. E foi nesse período tão tenebroso que a seleção brasileira teve suas gerações mais talentosas e vitoriosas. Foi em pleno regime militar que a seleção conquistou o tri, em 1970. Todas essas vitórias mantiveram muitas pessoas hipnotizadas. Não raramente, vejo reportagens tratando essas conquistas como uma espécie de consolação para o povo brasileiro que estava tão sofrido (quando não esteve?). Acho isso duplamente absurdo, primeiro porque é altamente pretensioso achar que títulos de torneios de futebol servem para consolar mazelas (embora alguns infelizmente tenham-se deixado consolar por isso) e segundo porque é um comportamento de alienados abstrair os problemas ao redor por causa de campeonatos de futebol. Sem contar que os militares souberam muito bem utilizar o tri como propaganda para enaltecer a ditadura e a noção de pátria que queriam incumbir no povo. Ou seja, durante muitos anos tivemos pouco pão e muito, muito circo.

Entretanto, vivemos sim outra crise política (quando é que não estamos vivendo uma?) e as derrotas no futebol não podem ser mais importantes que isso. O debate sobre quem deve ocupar o cargo de técnico não pode ser mais importante que o debate sobre nossos representantes em Brasília. Eu trocaria fácil essas cinco estrelas que só servem como ornamento na camisa da seleção por um país com mais educação, segurança, inclusão e cultura.

Acostumamo-nos mal, quer dizer, quem viu a seleção ganhar tantas vezes se acostumou mal – a minha geração, que não viu essas vitórias todas, já nasceu foi com mania de grandeza. Aprendemos, desde cedo, que a nossa seleção é a maior e a mais forte. Já foi, não é mais. O que não quer dizer que não volte a ser no futuro. Seria melhor e mais saudável se todos admitíssemos isso. Bom, muitos já admitem, mas continuam achando que a seleção brasileira vai vencer toda nova competição que enfrentar. Nós somos os únicos que insistimos em não enxergar o que o mundo inteiro já sabe: não somos mais os melhores e, quando entramos em qualquer torneio, não estamos nem sequer entre os favoritos. É preciso esperar e aceitar o pior. Não temos mais camisa e muito menos time para acreditar que seremos sempre finalistas. É preciso tolerar quando voltarmos para casa mais cedo e de mãos abanando. Admitir que a vida é cheia de reviravoltas: hoje estamos por baixo, mas amanhã podemos estar por cima novamente. O mundo inteiro aprendeu a jogar futebol estudando as gerações de seleções brasileiras; hoje não temos mais nada a ensinar, mas muitíssimo a aprender. É preciso descer do salto e submeter-se à condição de aprendiz.

Enquanto isso, segue todo mundo errando. A CBF com seus escândalos de corrupção que não são de hoje, mas que os bons resultados da seleção sempre ajudaram a mascarar; a comissão técnica claramente desatualizada com o que há de melhor no futebol no momento; a péssima safra de jogadores que também não ajuda; os próprios torcedores, que exaltam o futebol europeu mas que com dois resultados negativos já pedem a cabeça do técnico; além, claro, da imprensa esportiva, que alardeia toda e qualquer derrota como humilhante, vexatória e constrangedora. Eu não me sinto nada humilhado ou constrangido quando a seleção brasileira perde. Não fico com vergonha do resto do mundo. Para mim é infinitamente mais vergonhoso ser o 60° país em educação. Muito mais constrangedor é ter vinte e uma cidades entre as cinquenta mais violentas do mundo. Vexame para mim é ter a quarta maior população carcerária do mundo. Humilhação é saber que a cada vinte e sete horas acontece um assassinato contra pessoas LGBT no Brasil. As derrotas da seleção são o nosso menor problema, se é que se pode classificar isso como um problema.

Muitos vão dizer que não sou um torcedor de verdade e que não amo o futebol tanto quanto digo amar. Não importa, de mim eu é quem sei. Ademais, reitero que não há nada de humilhante em perder. As outras seleções não se sentem humilhadas quando tropeçam, e até as mais vitoriosas estão sempre tropeçando. Mal sabem elas o bem que esses tropeços fazem. O mesmo vale para os torcedores desses países. Nós só começamos a tropeçar de alguns anos para cá. Somos mimados, não queremos aceitar que outras seleções também brinquem com a taça de campeã. Somos tão malcriados que, quando a seleção vence, tá tudo ótimo, mas basta uma derrotinha para falarmos mal, fazermos piadas, desmerecer. Nós, brasileiros, somos os piores torcedores do mundo; as torcidas de times estrangeiros até brigam entre si de vez em quando, mas aqui, além disso, é comum ver torcidas depredando estádios quando os times perdem e torcedores à espera de jogadores no aeroporto para hostilizá-los. Só quando o time vence é que tudo é divino e maravilhoso. Com a seleção não é muito diferente, para muita gente qualquer derrota é motivo de demérito. Não há motivo para se envergonhar com o 7 a 1. Nossa seleção aplicou placares elásticos (alguns maiores que esse) em quase todos os seus rivais dentro de campo. Pergunta para o haitianos se eles estão envergonhados pelo 7 a 1 que eles levaram da seleção brasileira recentemente. Não estão, não. E não me venha com essa de que o Brasil é penta e que o Haiti não tem tradição. A seleção que conquistou o penta não é essa de hoje. Dos pentacampeões até que seria coerente cobrar que fizessem jus ao título, mas a geração atual ainda não conquistou nada e insistem em cobrá-la que honrem cinco títulos que não foram conquistados por ela.

Durante todos os anos de hegemonia da seleção brasileira, todos as outras seleções aprenderam que o importante é competir. Lição que a gente aprende quando criança nas aulas de educação física, mas que esquece quando cresce. No fundo, bem lá no fundo, eu ainda acredito que verei a seleção brasileira vencendo uma Copa do Mundo. Vai ser divertido, mas estou consciente de que, se ela ganhar, minha vida não vai mudar em nada, assim como não mudará se ela nunca mais conquistar um título. Alguém sempre tem que perder; se ganhássemos tudo, não teria a menos graça. O charme do esporte está exatamente no fato de saber que ninguém será invencível para sempre. Saber perder também é uma atitude de gente campeã, mas ser humilde, pelo visto, ninguém quer.

que horas ela volta?

O primeiro livro que li esse ano foi Agosto (1990), do Rubem Fonseca. O mês em questão, que dá título à obra, é o de 1954, o agosto mais conturbado da história brasileira. O romance tem como pano de fundo os acontecimentos que culminaram no suicídio de Getúlio Vargas. Na contracapa da minha edição, encontra-se o seguinte texto: […] Um mês de crimes estarrecedores, de atentados políticos, de lutas infames pelo poder. Um mês de paixões, de gestos de desespero e de loucura. Um mês de multidões vociferantes nas ruas. Um mês sombrio de trágicas ilusões, encerrado pela inalterabilidade do cotidiano – a vida continua. […]

Após a leitura, fiquei me perguntando que outro mês da história brasileira ficou tão famoso. Não sei vosmecê, Leitor(a), mas o que me veio a cabeça foi obviamente o abril de 1964, que culminou no golpe militar que encerrou o governo do presidente democraticamente eleito João Goulart. Até hoje, os simpatizantes ao golpe insistem em ‘comemorar’ a data no dia 31 de março, levando em consideração os acontecimentos desse dia que culminaram no golpe do dia 1°, afinal, não pega nada bem para eles comemorarem um feito no dia da mentira. Ademais, foram os atos de abril que resultaram em vinte e um anos de regime militar.

Contudo, hoje, após ter vivido pouco mais de duas décadas, arrisco afirmar que maio de 2016 é um forte concorrente ao agosto de 1954 e o abril de 1964. Basta ler o pequeno texto da contracapa do livro de Rubem Fonseca que reproduzi acima. Esse texto poderia muito bem ter sido escrito sobre o nosso atual momento político que ninguém estranharia. Entretanto, maio também foi encerrado pela inalterabilidade do cotidiano, assim como foram os outros dois meses citados. Encerrada também pela inalterabilidade do cotidiano foi a votação na Câmara, que autorizou a instauração de processo de impeachment de Dilma Rousseff em 17 de abril desse ano. Não sei como consegui voltar à rotina no dia seguinte depois de sentir tanta vergonha alheia, nojo e tristeza ao ver a bancada da bíblia e da bala juntamente com um presidente réu, autorizarem um processo de impeachment sem crime de responsabilidade fiscal de uma presidenta democraticamente eleita.

O desenrolar de todo o processo de impeachment tem sido tão absurdo que a sensação é de estar dentro de um pesadelo ou de um filme de terror, e por falar em filme, estão lembrados(as) de que o produtor Antônio de Assis divulgou em 2011 que iria produzir um longa-metragem sobre a vida de Dilma Rousseff? O roteiro seria baseado no livro A Primeira Presidenta (2011), escrito pelo jornalista Helder Caldeira. O papel de Dilma foi oferecido a Marieta Severo que recusou, alegando ter outros compromissos para o mesmo período de filmagens (que deveria ter ocorrido em 2012). A recusa de Marieta deve ter sido um forte baque na produção do filme, pois desde então não se ouviu falar mais nele e até hoje não foi filmado. Falei desse assunto porque não gosto muito de cinebiografias de pessoas que ainda estão vivas. É comum existirem mais de uma biografia para pessoas públicas, porém, quando lançam uma cinebiografia, dificilmente outra será feita. Existem dois fatores que podem justificar isso: produzir um filme é infinitamente mais caro do que escrever um livro e o cinema está diretamente ligado a mercado, com os produtores dificilmente decidindo arriscar a bilheteria ao se vincularem a outro filme de uma mesma pessoa, acreditando que ninguém vai interessar-se por ver algo que já foi feito, mesmo que seja filmado de uma outra forma e com outro elenco. Teoricamente, seria diferente de um remake, porque neste os diretores podem mudar o final ou até mesmo o filme inteiro. Todavia, como mudar um filme que foi feito para contar uma história real?

Lembro que quando fiquei sabendo do filme, protestei comigo mesmo, pois Dilma mal havia assumido o primeiro mandato. Só conseguia pensar na seguinte questão: e se algo muito importante acontecer depois? Parece que eu estava adivinhando, pois nada (além do fato de ter sido presa e torturada durante a ditadura militar) parece ser mais importante do que o processo de impeachment que ela vive hoje, que por si só daria um filme e de terror! Foi pensando nisso que resolvi estruturar de uma forma clássica um mini-pseudo-argumento sobre tudo o que aconteceu com Dilma, caso tivesse que levar essa história às telonas. O filme seria um melodrama dos fortes, banhado de muito terror psicológico. Respire e leia:


1° Ato

Aqui começa nosso filme. No primeiro ato somos apresentados ao protagonista da história, que será Dilma Rousseff, nossa heroína (ou anti-heroína, se preferirem). É aqui que conheceremos também o mundo da história, que será ambientado em Brasília. Nesse início, será apresentado também o aliado da protagonista, que no filme será o ex-presidente Lula, além de conhecermos também os vilões da história, os inimigos da nossa protagonista, que aqui serão Michel Temer, oposição (em especial o PSDB), imprensa (em especial a Rede Globo), FIESP e claro, Eduardo Cunha. Veja que pelo grande número de inimigos e quase nenhum aliado, nossa protagonista é praticamente uma heroína solitária.

O filme começa em janeiro de 2015, quando Dilma já assumiu seu segundo mandato. Nossa protagonista encontra-se em exercício de sua função e, embora enfrente uma queda nos índices de popularidade e o país esteja vivendo uma crise financeira, acredita que agora, com o início do segundo mandato, conseguirá colocar novamente o país nos trilhos. Até que ela sofre sua primeira derrota: Eduardo Cunha (PMDB) é eleito presidente da Câmara com 267 votos. O candidato da presidenta, Arlindo Chinaglia (PT) recebeu 136 votos. Foi uma grande derrota para ela e instaura-se agora um forte clima de tensão no filme. Damo-nos conta de que a jornada de Dilma não será assim tão fácil.

No Dia Internacional da Mulher, 8 de março, nossa protagonista faz um pronunciamento em cadeia nacional e, em protesto, uma parte da população bate panelas: é o primeiro panelaço. Essa cena no filme será muito importante, porque vai ser aqui que a trilha sonora começará a ganhar forma. A partir de agora, toda a trilha do filme será formada por sons cada vez mais irritantes de panelaços.

2° Ato

Em paralelo à trama principal, a Operação Lava Jato segue a todo vapor, fazendo as primeiras vítimas no meio político. Estamos agora em maio. No segundo ato, nossa protagonista faz suas primeiras tentativas para livrar-se do problema que, no momento, é sua forte rejeição popular. Com isso, ela desiste de fazer seu pronunciamento nacional no 1° de maio, mas quando o programa do PT é veiculado no dia 5, acontecem novos panelaços.

Outra tentativa da nossa protagonista, foi o veto do reajuste de servidores no Judiciário, para não abrir um rombo ainda maior nas contas públicas, pois o custo desse aumento salarial para o governo seria de R$ 5,3 bilhões em 2016, de acordo com cálculo do Ministério do Planejamento. Em quatro anos, até 2019, o custo total seria de R$ 36,2 bilhões.

O Conselho de Ética da Câmara instaura processo que pode levar à cassação de Eduardo Cunha, presidente da Casa. O PT, partido da protagonista dessa história, decide votar a favor do processo de cassação no Conselho de Ética. É então que o vilão Eduardo Cunha, por retaliação à decisão do PT, aceita o pedido de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff. Aqui, na primeira metade do segundo ato, Dilma sofre essa forte manobra de seu inimigo. Não há mais volta para a protagonista, é preciso seguir em frente. Sua necessidade dramática agora será tentar livrar-se do golpe.

Tenhamos calma, nem tudo está perdido para Dilma, que possui maioria na Câmara, o que a deixa otimista. Ela sabe que conseguirá barrar o golpe, no entanto, nosso filme sofre aqui uma forte reviravolta: Dilma recebe uma carta do vice-presidente Michel Temer. A missiva (escrita para vazar) vaza e o país inteiro toma conhecimento de seu conteúdo. Nela, Temer deixa claro a frágil relação de ambos e reclama de cargos não concedidos, o que deixa o governo de Dilma ainda mais fragilizado.

O país perde o grau de investimento e a saída do PMDB da base aliada deixa a presidenta isolada no Congresso. Dilma, porém, tem mais uma carta na manga e convida o ex-presidente Lula para ocupar a Casa Civil, com a intenção de que ele consiga fazer uma ligação com os partidos. O que ninguém esperava é que áudios da presidenta fossem vazados pelo juiz Sérgio Moro. Os áudios foram utilizados para suspender a posse de Lula como ministro-chefe da Casa Civil. O filme encaminha-se para seu terceiro e último ato, com Dilma sofrendo uma série de derrotas consecutivas. Enquanto isso, a FIESP segue financiando o golpe e a Rede Globo ignorando as manifestações pró-Dilma. A votação na Câmara, que autoriza a instauração de processo de impeachment de Dilma em 17 de abril, é responsável pelas cenas mais nojentas, revoltantes e tristes do filme.

Na comissão do Senado, o parecer favorável ao impeachment de Dilma foi aprovado por 15 votos a 5. Conforme as votações vão sendo favoráveis ao afastamento, pensei em afastá-la cada vez mais do filme. Seu tempo diante da tela vai gradualmente diminuindo conforme o filme desenrola-se para o final. Tudo parece estar perdido, porém, o Supremo Tribunal Federal (STF) afasta por unanimidade Eduardo Cunha da Câmara, e o presidente interino, o deputado Waldir Maranhão (PP), anula a tramitação do processo de impeachment, cancelando a votação do processo na Câmara. Acende-se uma luz no fim do túnel, por um breve momento todos os inimigos parecem estar derrotados.

3° Ato

A sensação é de volta por cima, quase é possível ouvir a marcha da vitória. Entretanto, esse filme é uma tragédia. Todos sabemos que, no cinema, nossos heróis quase morrem nos minutos finais do filme antes de vencerem o vilão e desembocarem no tão desejado final feliz. Nas tragédias acontece o contrário: nos minutos finais, tudo parece bem, a sensação de vitória é palpável, mas o herói perde ou morre. Horas depois, o próprio Maranhão revoga sua anulação após sofrer fortes ameaças de expulsão do partido e uma possível perda de mandato. No apagar das luzes, Dilma ainda cria mais cinco universidades federais e regulamenta o importante Marco Civil da Internet e, no dia 12 de maio, a abertura do processo de impeachment é aprovada no plenário do Senado Federal por 55 votos a favor e 22 contra; nossa protagonista é derrotada. Afastada por até 180 dias, o vice-presidente Michel Temer assume a presidência. Sem vencer nenhuma eleição para Presidência da República em seus 50 anos de história, o PMDB emplaca o terceiro presidente em 30 anos, atingindo “100% de aproveitamento” de seus três vices que chegaram à Presidência.

Nesse momento do filme, a protagonista Dilma não aparece mais na tela. O que vemos é Temer assumir o governo na única sexta-feira 13 do ano, cortando ministérios e nomeando ministros citados na Lava-Jato para seu gabinete (dando-lhes foro privilegiado, sendo que, pelo mesmo motivo, Lula havia sido impedido de assumir a Casa Civil), formado apenas por homens brancos, sendo o primeiro desde o período de Ernesto Geisel (1974-1979), ainda na ditadura, a não incluir mulheres. O lema de seu governo é “não fale em crise, trabalhe” (qualquer semelhança com o “Brasil, ame-o ou deixe-o” do regime militar é mera coincidência). Em poucos dias de governo Temer, diálogos gravados de Romero Jucá revelam o que eles chamaram de “pacto” para deter o avanço da Lava Jato. Outros áudios ainda revelariam que PMDB, DEM, PSDB e SD financiaram com caixa 2 o Movimento Brasil Livre (MBL) que sempre se definiu como apartidário e sem ligações financeiras com siglas políticas (o que só os alienados conseguiam acreditar), escancarando para o Brasil inteiro o pacto feito pelos partidos para derrubar Dilma. ‘Pacto’, inclusive, poderia ser o título do filme, ou então ‘Volta, Querida’.

Eduardo Cunha, mesmo afastado, continua a dar as cartas. Os escândalos só aumentam, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pede ao Supremo Tribunal Federal (STF) a prisão do presidente do Senado, Renan Calheiros, do presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha, do senador Romero Jucá e do ex-presidente da República José Sarney, todos do PMDB, mesmo partido do então presidente Temer. Nas ruas (agora sem financiamento de partidos e da FIESP – pois eles já conseguiram o que queriam) não se ouvem mais o som das panelas. Sobem os créditos.


Bom, esse seria o meu filme; outras pessoas com certeza o fariam de outra forma. Muita coisa fica de fora e muitos fatos podem ficar sem as mínimas explicações. O mais ideal seria o formato de narrativa seriada, mas como vocês já devem saber, não gosto de séries. A sinopse, inclusive, eu pegaria emprestado da contracapa desta minha edição de Agosto: Um mês de crimes estarrecedores, de atentados políticos, de lutas infames pelo poder. Um mês de paixões, de gestos de desespero e de loucura. Um mês de multidões vociferantes nas ruas. Um mês sombrio de trágicas ilusões, encerrado pela inalterabilidade do cotidiano – a vida continua.

Preciso confessar que nem de longe sou a pessoa mais otimista do mundo. Por mais que a oposição ao novo governo Temer ganhe força e os movimentos populares ganhem cada vez mais as ruas, fico pensando que, se Dilma voltar, ela novamente será impedida de governar como foi desde que assumiu seu segundo mandato. Claro que, ainda assim, será melhor tê-la de volta do que continuar mais dois anos com um governo ilegítimo, que é uma ameaça real aos programas sociais. Resta-me torcer para que esse filme da vida real tenha uma continuação, de preferência, chamado de ‘Dilma, O Retorno’.

As coisas aqui mudaram muito. A vanguarda cristã assumiu o poder, o clima tá tenso”. A frase é de um dos personagens do filme Branco Sai, Preto Fica (2014), do diretor Adirley Queirós, um dos melhores e mais inteligentes filmes brasileiros dos últimos anos. É quando a ficção transcende a realidade. É exatamente com essa frase que eu responderia para alguém que me perguntasse sobre a atual situação política do país. Estou confuso, não faço a mínima ideia do que esperar daqui para frente. Embora tenha muitas críticas ao governo Dilma e reconheça seus erros, não consigo parar de me perguntar: que horas ela volta?

os dez melhores livros que li em 2015

Saímos de 2015, mas 2015 não saiu de nós. Mesmo que você, Leitor, não tenha realizado grandes feitos em sua vida nesse ano que se passou (esse foi o meu caso), assim como eu, viu muitas coisas acontecerem no nosso país e no mundo. Grandes ídolos morreram, grandes filmes e discos foram lançados. Novos escândalos de corrupção vieram à tona, ataques terroristas foram realizados, aconteceram diversos eventos esportivos, eventos culturais e festivais de música. Vivemos para ver tudo de bom e de ruim que ocorreu no ano passado. Seja com esses eventos globais ou especificamente localizados, 2015 fará para sempre parte da nossa tragetória, afinal, passamos por ele e estamos aqui para contar a história. Trata-se de um ano que particularmente me marcou pelas leituras que fiz. O conhecimento adquirido no ano passado é algo que vai continuar comigo para o resto da vida, algo que ninguém pode me tirar. Parece um tremendo clichê, mas é verdade. Também foi o ano em que mais li na minha vida: quarenta e seis livros, um total de onze mil novecentas e cinquenta e oito páginas, com média de trinta e três páginas por dia segundo meu perfil no Skoob. Infelizmente, não contei as páginas dos livros para saber se esses números estavam corretos (afinal, sou de humanas), mas resolvi escrever um post sobre os dez melhores livros que li ano passado. São eles, em ordem alfabética:

Discos

Título: Discos
Autor: Arnaldo Cohen, Céline Imbert, Eduardo Giannetti, Lia Rodrigues, Luiz Tatit, Marcelo Coelho, Tom Zé
Primeira publicação: 2003
Minha edição: PubliFolha

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‘Discos’ era um livro que tinha na minha estante já fazia certo tempo, mas que só ano passado resolvi ler. Achava que não ia gostar da leitura, mas me enganei redondamente. O livro me fisgou logo na primeira página. Nele, sete autores dissertam sobre os dez discos que levariam para uma ilha deserta. Sou apaixonado por listas, por isso devo ter gostado tanto de ler algumas feitas por pessoas que admiro, sem contar que, ao longo dos seus mais de setenta capítulos, acaba se tornando um ótimo livro para se pegar dicas de discos para ouvir. Este também foi o livro que me fez conhecer o grande Luiz Tatit. Falei sobre isso em um dos primeiros posts do Satãnatório: o ‘eterno ignorante, parte 1’.

Elite da Tropa

Título: Elite da Tropa
Autor: Luiz Eduardo Soares, André Batista, Rodrigo Pimentel
Primeira publicação: 2005
Minha edição: Objetiva

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Gosto muito do filme ‘Tropa de Elite’ (2007), do diretor José Padilha, e admito que esse livro chegou até mim graças à sua adaptação cinematográfica. No princípio, não tive vontade nenhuma de ler ‘Elite da Tropa’, pois acreditava que devia ser muito parecido com o longa-metragem. Todavia, depois de saber que muitos detalhes são diferentes na obra impressa, decidi ler e me surpreendi. Constatei que, de fato, neste caso, livro e filme parecem ser duas coisas totalmente distintas, incluindo aqui a estrutura narrativa. O escrito está dividido em duas partes. A primeira conta histórias sobre o Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), considerado um esquadrão de elite na Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Baseado em relatos reais de ex-policiais do BOPE, o livro mostra os oficiais como uma tropa aparentemente incorruptível e extremamente violenta. Desse momento inicial foram retirados os personagens do filme e algumas histórias que o compõe. Contudo, a segunda parte, que fala sobre o plano para assassinar Leonel Brizola, na época governador do Rio de Janeiro, é o suprassumo do livro, e nada disso está no longa. Esta outra seção com certeza daria um excelente roteiro se fosse adaptado para o cinema. Já havia falado da minha edição do livro no post ‘livros sebosos’.

Encontros Tom Zé

Título: Encontros – Tom Zé
Autor: Tom Zé, Heyk Pimenta
Primeira publicação: 2011
Minha edição: Azougue

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Primeiro tenho que contar como encontrei essa pérola. Jorge du Peixe, vocalista da Nação Zumbi, publicou uma foto do livro em seu perfil no Instagram com a seguinte legenda: “Livrinho fuderoso da coleção Encontros. Entrevistas antológicas com Tom Zé, o mestre dos mestres e punk mais original do Brasil.” Dias depois, eu já estava com o livro em mãos e me segurando para não ler de uma só vez. Sempre fico triste após terminar de ler uma boa publicação por completo. Quando mais tempo eu convivo com o livro, melhor. Mesmo assim, terminei logo, tanto por ser curto, quanto por ser sobre Tom Zé. Tenho que concordar com du Peixe, o livro é mesmo fuderoso.

Estação Carandiru

Título: Estação Carandiru
Autor: Drauzio Varella
Primeira publicação: 1999
Minha edição: Companhia das Letras

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Esse foi outro livro que cheguei através de um filme: ‘Carandiru’ (2003) de Hector Babenco. A obra de Drauzio Varella é um dos poucos casos em que um sucesso editorial, verdadeiro fenômeno de vendas realmente vale a pena ser lido. Vencedor do Prêmio Jabuti em 2000 na categoria Livro do Ano de Não-Ficção, a publicação conta a experiência de Varella como médico voluntário, a partir de 1989, na Casa de Detenção de São Paulo, onde realiza atendimento em saúde, especialmente na prevenção da AIDS. No post ‘livros sebosos’ também falei sobre a minha edição desse livro.

O Centauro no Jardim

Título: O Centauro no Jardim
Autor: Moacyr Scliar
Primeira publicação: 1980
Minha edição: Companhia de Bolso

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Esse foi meu primeiro livro de Moacyr Scliar, constituindo o suficiente para que eu me tornasse um grande admirador da sua escrita criativa. A obra mistura elementos fantásticos em uma trama muito instigante, contando a estória do centauro Guedali, um ser metade homem, metade cavalo. O blogue 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer fez uma excelente resenha sobre esse livro.

O Guarani

Título: O Guarani
Autor: José de Alencar
Primeira publicação: 1857
Minha edição: Martin Claret

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Meu primeiro contato com a história do livro veio com a ópera de mesmo nome do compositor Carlos Gomes e depois com o filme ‘O Guarani’ (1996), da diretora Norma Bengell. Anos depois, minha irmã ganhou um exemplar do romance, que acabou me dando por não gostar. Eu também acabei o abandonando por não conseguir me envolver com o enredo. Entretanto, no ano passado, resolvi dar mais uma chance a ele e acabei me apaixonando, principalmente por sua parte final. Assim que concluí a leitura, assisti a outra versão cinematográfica do livro, ‘O Guarani’ (1979), do diretor Fauzi Mansur, que supera a outra produção citada. A primeira adaptação do livro para o cinema aconteceu em 1912, em um filme mudo hoje considerado perdido.

O Que é Isso, Companheiro?

Título: O Que é Isso, Companheiro?
Autor: Fernando Gabeira
Primeira publicação: 1979
Minha edição: Companhia de Bolso

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Mais um livro que cheguei através de um filme, dessa vez foi ‘O Que é Isso, Companheiro?’ (1997), do diretor Bruno Barreto, que representou o Brasil no Oscar de 1998, sendo indicado ao prêmio de melhor filme estrangeiro. Até pouco tempo atrás, eu evitava ler livros que eram adaptados para o cinema, tentando focar em histórias que eu ainda não conhecia. Ainda bem que parei com isso, até porque o filme de Barreto é inspirado apenas no 15° capítulo do livro de Gabeira, o trecho que diz respeito ao sequestro do embaixador norte-americano. O livro é um ótimo depoimento sobre quem viveu na pele o terror da ditadura militar brasileira. Super indico a obra para os politicamente alienados que saíram às ruas no ano passado pedindo a volta do regime militar. O blogue 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer também fez uma ótima resenha sobre ele.

O Réu e o Rei

Título: O Réu e o Rei
Autor: Paulo Cesar de Araújo
Primeira publicação: 2014
Minha edição: Companhia das Letras

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Se não me engano, esse é o maior livro dessa lista e o que li mais rápido. Eu já sabia como terminava a história de Paulo Cesar de Araújo com Roberto Carlos, mas queria saber os detalhes. No livro, o autor fala sobre a polêmica proibição de seu livro anterior, a biografia ‘Roberto Carlos em Detalhes’. ‘O Réu e o Rei’ não é uma nova biografia sobre o cantor, mas sim um relato sobre a relação do autor com Roberto. Durante a leitura ainda ficamos conhecendo a história de amizade entre Paulo Cesar de Araújo e João Gilberto, sem dúvida a maior surpresa do livro.

Secreções, Excreções e Desatinos

Título: Secreções, Excreções e Desatinos
Autor: Rubem Fonseca
Primeira publicação: 2001
Minha edição: Companhia das Letras

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Esse foi meu primeiro livro lido em 2015. É um compêndio de contos e constituiu meu segundo título de Rubem Fonseca, depois de ‘O Caso Morel’. Com essa obra, rapidamente descobri porque ele é considerado um dos melhores contistas deste país. O primeiro conto da coletânea, ‘Copromancia’, se tornou um dos meus textos favoritos e, assim como todos os outros que a compõe, a cada parágrafo lido, eu imaginava como ficariam ótimos se fossem adaptados para o cinema.

Tropicalista Lenta Luta

Título: Tropicalista Lenta Luta
Autor: Tom Zé
Primeira publicação: 2003
Minha edição: PubliFolha

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Mais uma vez um livro do Tom Zé! Este, por sua vez, merece destaque por considerado sua biografia. ‘Tropicalista Lenta Luta’ tem capítulos escritos pelo próprio cantor e compositor, contando sobre sua infância em Irará, acerca de sua formação e ida a São Paulo, discutindo o ostracismo e muitas outras curiosidades de sua vida. Ademais, esses capítulos são curtos e não se aprofundam o suficiente como as biografias convencionais (embora não sejam superficiais, pois Tom Zé nunca é superficial naquilo que escreve). Grande parte do livro é formada pelas letras de seus discos, contendo também cartas e uma extensa entrevista concedida a Luiz Tatit e Arthur Nestrovski. Trata-se de um livro indispensável para aqueles que, como eu, são grandes fãs do Pai da Invenção. Citei esse livro no post ‘vinte e três’ e foi também uma parte dele que me inspirou a escrever o texto ‘meu útero’.

E então, caríssimo Leitor, já leu algum desses livros? Gostou? Não gostou? Pretende ler algum? Me conta!

meu útero

Esse lance de que a inspiração só corresponde a um por cento do trabalho quando os outros noventa e nove por cento são de transpiração é muito verdade. Consegui ver isso melhor agora que tenho o blogue. Não adianta só ter a ideia de um tema interessante para o próximo texto e achar que metade do trabalho está feito. Muitas vezes, quando não é um tema do meu domínio, o empenho só aumenta, colocando a pesquisa como trabalho extra.

Escrever é realmente muito difícil, pois o texto é sempre mais interessante na nossa cabeça. Quando transposto para o computador (quanto menos papel, mais arvores!), é como se algo se perdesse nesse processo. Pode ser que gere um bom resultado, mas nunca como achávamos que ficaria.

Escrever também é físico, pelo menos comigo, que sou amador. Os profissionais, aqueles que escrevem sob encomenda e prazo pré-estabelecido, não devem sofrer tanto, mas eu sofro, mesmo só escrevendo quando quero. Sempre comparei minhas escritas a um parto. Sendo homem, só posso imaginar. Jamais saberei o que é parir uma pessoa. Mas isso são outros quinhentos. Estou falando de parir um texto. Como disse no inicio do parágrafo, é algo físico (além de mental). Uma tarde toda escrevendo me deixa nocauteado no final do dia. Nem quando trabalhava o dia inteiro em pé eu ficava tão cansado.

Quando o assunto é parir um filme, a inspiração corresponde ainda menos de um por cento. Praticamente tudo é transpiração. Ter a ideia do roteiro é o mais fácil. Escrevê-lo e depois reescrevê-lo dezenas de vezes geralmente corresponde a mais de um ano de trabalho. Captar recursos, montar uma equipe, ensaiar, filmar, pós-produzir, lançar, divulgar geram um trabalho tão grande que, sempre que enfrento uma produção, me pergunto se realmente quero continuar fazendo isso. Todo esse processo realmente gera uma crise existencial. Agora vou dissertar sobre o que deveria ter sido esse texto para no mínimo justificar o título. Para isso, preciso transcrever alguns trechos da entrevista de Tom Zé para seu livro ‘Tropicalista Lenta Luta’ (2003). Para quem não gosta de tergiversações, até o próximo texto.

A entrevista foi realizada no dia 22 de agosto de 2003 por Luiz Tatit e Arthur Nestrovski. A conversa editada em livro aparece dividida em diversas seções. Os trechos transcritos a seguir são do capítulo “Os Homens-fêmeos”:

[…] tem uma coisa na Bahia que é muito diferente, que a gente nunca pode explicar. É que o homem é mais feminino do que o homem do Sul. Isso é que é muito difícil de explicar. A mulher tem mais participação. O mundo é mais matriarcal; quer dizer, não é matriarcado, mas a mulher tem mais participação nas decisões e o homem é mais feminino. Essas duas coisas mudam tudo na maneira de você ver o mundo. […] No Nordeste tem isso: o homem era mais feminino, mais gracioso. […] O homem baiano é muito feminino e isso de alguma maneira aumenta o leque do olho. Fica mais observador. […] Você sabe que o lado feminino da gente é que é o lado artista, não é? O lado que tem a gravidez cósmica, que tem a intuição. Neusa (esposa de Tom Zé), por exemplo, é uma pessoa culta e ela mesmo me confessa de vez em quando: “Puxa vida, essa intuição sua é um pecado.” E a intuição é feminina.

Só depois que li essa entrevista foi que entendi a declaração dele em outra ocasião. Trata-se de sua participação no programa de Jô Soares, no dia 15 de abril de 2010, quando ele foi divulgar seu DVD ‘O Pirulito da Ciência’. Tom Zé foi aos estúdios de gravação vestido de saia e Jô quis saber o motivo. Ele disse: “Eu gosto de vir de saia porque eu posso não ter uma vagina, mas útero eu tenho. Eu sou mulher, sempre vivi na sociedade como uma mulher, sofrendo como mulher. Outro dia o João Gordo me chamou pra dizer ‘você é homossexual’ eu disse ‘não, eu sou mulher, é outra coisa’”. Em 30 de outubro de 2014 ele voltou ao Jô, dessa vez para lançar seu mais recente álbum, o ‘Vira Lata na Via Láctea’ e, mais uma vez afirmou: “Eu sempre fui um pouco mulher”.

Se Tom Zé, o pai da invenção, afirma que o nosso lado artista é o feminino, quem sou eu para discordar? A única coisa que posso dizer é que entendo muito bem quando ele fala que a mulher tem mais participação nas decisões do homem. Não sou baiano, mas sou nordestino. Seria esse o motivo da compreensão? Não sei, mas embora tenha um pai muito carinhoso, posso afirmar que minha mãe é quem está sempre presente. A participação dela na minha educação foi tão forte que praticamente anulou a participação do meu pai. Aprendi infinitamente mais com ela do que com ele. Minha mãe e eu quase não discordamos de nada no dia a dia, diferentemente do meu pai, detentor de um ponto de vista oposto ao meu em praticamente quase todo assunto. Não estou querendo diminuí-lo ou dizer que um é melhor do que o outro, ou que amo mais um do que outro. Ademais, minha forma de ver o mundo se aproxima muito mais do olhar da minha mãe. Também vejo isso em quase todos os meus amigos e acredito que não seja um fenômeno assim tão nordestino. Torço para que não. O mundo seria muito melhor.

No entanto, há algumas semanas, eu estava querendo escrever um texto sobre essas palavras de Tom Zé e não conseguia. Até sentei para escrever, mas as ideias ainda muito prematuras me fizeram abortar o texto. Foi quase como uma gravidez psicológica. Aquela em que você acredita estar gestante de um texto quando na verdade não está. Depois a inspiração (o meu lado feminino) penetrou novamente no meu cérebro e semeou a ideia de falar sobre o trabalho duro que é dar vida a esses embriões. Então, na próxima gestação, decidi que juntaria os dois temas. Não são temas exatamente univitelinos, mas achei que seria a última chance de falar sobre essas entrevistas. Ainda na conversa de 2010 com Jô Soares, Tom Zé disse: “Ideia precisa de silêncio. Ideia não gosta de bater papo. O sítio da ideia é o silêncio, até ela pesar no cérebro e você escrever sobre ela. Sofrer até acertar.” Esse silêncio é mesmo fundamental, sobretudo para mim que escrevo o texto mentalmente antes de entrar em trabalho de parto. Dessa forma, meu cérebro escreve quase o dia todo. Esse processo de ócio criativo me permite gerar a ideia no ventre. Bem, a ideia pesou no meu cérebro, escrevi e o texto nasceu, embora eu acredite que não acertei. Todo texto é como um filho que não pertence aos pais e sim ao mundo. Publicar é cortar o cordão umbilical. Depois disso, alguns fenecem, enquanto outros sobrevivem. Esses que permanecem, escrevem por si só a sua história, totalmente independentes de seus progenitores. Contudo, o que me interessa agora é justamente dar mais vazão ao meu lado artístico (ou feminino) e parir cada vez mais textos e filmes, ciente de que sim, eu tenho útero.