vítima da inércia

Sinto saudades de quando Fernando Meirelles dirigia filmes. Ele costumava criar um blogue por longa-metragem, em que escrevia sobre os processos de pré-produção, filmagens, pós-produção, etc., embora ele sempre os abandonasse sem mais nem menos quando o filme estava próximo do seu lançamento. Sempre tive a sensação de que só eu conhecia esses blogues, pois nunca ouvi alguém falar sobre eles. Na página de 360, de 2012, ele escreveu o seguinte: “Sou uma vítima da inércia. […] me pego com aquela conhecida sensação de ter dado um passo errado ao entrar neste filme. Sob o peso do grande esforço que é começar a colocar esta enorme máquina em movimento penso: Tudo estava tão bem em São Paulo, para que me coloco nestas situações?”. Sei que essa sensação não é privilégio de cineastas, mas é exatamente o que sinto sempre que entro em um projeto novo. Atualmente, estou dirigindo um curta-metragem e já rodamos 70% das cenas. A pré-produção começou logo no início do ano e tivemos que correr para filmar a tempo no dia 28 de abril, na greve geral. Depois fizemos uma pausa para pré-produzir as próximas cenas e voltamos a filmar no final de maio. No final deste mês e início de julho, filmaremos as últimas sequências. Foi por esse motivo que este blogue ficou abandonado por tanto tempo. Sinceramente, acreditei que não voltaria mais a publicar aqui, mas hoje deu vontade de contar-lhes o motivo de minha ausência, pois alguns leitores carinhosos me escreveram perguntando o que havia acontecido. Bom, agora vocês já sabem: eu estava bem aqui na minha casa, vivendo tranquilamente, e me coloquei nesta situação. Sempre que estou em um projeto novo digo para mim mesmo que demorarei muito tempo para entrar em outro, mas isso sempre acontece no processo de pré-produção. É o trabalho mais difícil: montar uma equipe, escalar elenco, conseguir as locações, fechar cronogramas, conseguir equipamentos, patrocínio, objetos de cena, figurinos e por aí vai. Durante as filmagens tudo isso passa, e ficamos tristes quando o filme se aproxima do fim. Algumas semanas antes de filmar, eu havia sido assaltado, e não fiquei nervoso em momento algum, mesmo com uma faca apontada para mim. No entanto, quanto mais o dia das filmagens se aproximava, mais nervoso eu ficava. É esse frio na barriga que também faz de mim uma vítima da inércia. Quando o filme acabar e eu finalmente puder descansar, não conseguirei ficar parado por muito tempo, pois vou querer sentir toda essa adrenalina novamente. Em teoria, estou com duas semanas de folga. Digo teoricamente porque ainda terei que resolver algumas burocracias antes de entrar na curva final. O blogue completou dois anos dia 1 de junho e eu nem tive tempo de escrever algo especial. Eu havia até preparado um texto sobre isso, mas não consegui concluir. Fica para o aniversário de três anos. Isso se ele chegar até lá. Eu voltei, mas não sei se para ficar. Neste mesmo blogue do Fernando, ele escreveu a seguinte frase: “Antes as ideias aproveitavam qualquer brecha para entrar, hoje, prefiro ajudá-las, criando um certo espaço mental para elas aparecerem”. Ideias não me faltam, mas elas nem sempre chegam no momento certo. Por essa razão, prefiro aproveitar todo tempinho de folga para respirar em prol do projeto. Talvez eu volte a escrever aqui durante esse período, mas não prometo nada. Para encerrar, deixo com vocês um documentário que fiz com Lola Aronovich no início do ano. Espero que gostem. Abraçaço.

Escreva Lola Escreva

todo dia é dia de gênio

Certa feita, em uma aula de Cinema Moderno que cursei no segundo semestre do curso de Cinema, a turma assistiu ao filme ‘O Bandido da Luz Vermelha’, de 1968, do diretor Rogério Sganzerla (1946-2004). Era um seminário e havia uma equipe de cinco alunos responsável pela projeção do filme e o debate com o restante da turma sobre a importância deste longa para o cinema brasileiro moderno. Na aula da semana anterior, minha equipe havia apresentado ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, de 1964, do diretor Glauber Rocha (1939-1981). Ao final da aula, a professora, aproveitando a repercussão dessas duas apresentações e o fato de Sganzerla ter apenas vinte e dois anos quando dirigiu ‘O Bandido…’ e Glauber vinte e cinco anos quando lançou ‘Deus e o Diabo…’ – antes disso, tendo lançado seu primeiro longa-metragem, ‘Barravento’, em 1962, aos vinte e três anos -, soltou um comentário que até hoje julgo um tanto quanto irresponsável: “Vocês não se sentem mal por estarem na mesma faixa de idade deles e ainda não terem lançado um longa?”.

Desde o primeiro momento, eu também encarei essa pergunta como uma forma de incentivo, uma provocação, uma tentativa de nos encorajar, digamos assim, a produzirmos. Por ser uma professora e uma pessoa maravilhosa, sei que a intenção era das melhores: fazer-nos sair da teoria e partir para a prática. No entanto, a boa intenção não exclui os muitos problemas dessa pergunta-provocação-incentivo. Um deles é imediato: o sentimento de culpa e fracasso desnecessário que se instala em nossa consciência ao sermos comparados com pessoas da nossa faixa-etária mais bem sucedidas que nós.

A turma dessa disciplina era formada por alguns alunos com menos de vinte anos, a grande maioria na casa dos vinte, alguns com trinta e poucos e até aluno com mais de cinquenta anos. Diante da pergunta, todos ficaram calados, ninguém respondeu nada até eu, que sempre fui de falar muito, respondi com um “não, não me sinto mal por não ter lançado nenhum longa ainda”. Nesse momento todos os olhares se voltaram para mim e eu comecei a dar minhas justificativas, que só não transcrevo aqui porque já não lembro palavra por palavra, mas recordo de ter usado Suzana Amaral como um dos exemplos.

Suzana começou a estudar cinema quando já havia criado os nove filhos. Lançou o primeiro filme, ‘A Hora da Estrela’, um clássico do cinema brasileiro de 1985, aos cinquenta e três anos de idade, baseado na obra homônima de Clarice Lispector. Quando falei dela, um dos alunos, na época com vinte e sete ou vinte e oito anos, comentou que estava aliviado, pois ele ainda estava no tempo. O que muita gente esquece é que todo tempo é tempo. O próprio Sebastião Salgado só começou a fotografar aos vinte e nove. Não há necessidade desse tipo de comparação, principalmente quando o assunto é arte.

Agora, sempre que vejo o exemplo de um artista que começou “tarde”, lembro dessa aula. A própria concepção de “começar tarde” é errada, pois cada profissional tem o seu tempo próprio. O momento de criação de cada um é o tempo certo. É óbvio que muitos fatores nos impedem de começar antes. Artistas que conseguem reconhecimento logo no início são exceções. É difícil estudar em uma universidade um curso que não nos traz muitas ou quase nenhuma perspectivava de emprego. É como saltar sem paraquedas. Para muitos é preciso fazer outro curso antes e se profissionalizar em algo apenas para se conseguir estabilidade financeira. Para a grande maioria (e nisso me incluo), apesar de já cursar a área de interesse, é preciso trabalhar com o que não gostamos para, no futuro, finalmente conseguir trabalhar com o que queremos. Entretanto, nunca é tarde para começar.

Pode até ser desanimador fazer cinema diante de gênios como Glauber e Sganzerla, que começaram tão cedo. Para outros também pode ser desanimador ser escritor ao lado de gênios como Machado de Assis (1839-1908) e Álvares de Azevedo (1831-1852), que começaram tão jovens. Contudo, caríssimos, o fato de Suzana Amaral ter lançado o primeiro filme aos cinquenta e três, Kleber Mendonça Filho ter lançado seu primeiro longa-metragem aos quarenta e cinco anos, e Fernando Meirelles e Cláudio Assis aos quarenta e três anos, não os torna piores. O trabalho de todos eles, inclusive, é muito maduro e consistente. Sganzerla, por exemplo, nunca conseguiu fazer um filme melhor que ‘O Bandido da Luz Vermelha’, enquanto que Kleber Mendonça acaba de lançar a obra-prima ‘Aquarius’, aos quarenta e oito anos. Em 2002, quando Meirelles lançou ‘Cidade de Deus’, ele estava então com quarenta e sete.

Cora Coralina (1889-1985) e Graciliano Ramos (1892-1953) são dois gênios da literatura, tendo lançado seus primeiros livros aos setenta e seis e quarenta e um, respectivamente. Não estou dizendo que começar “tarde” é melhor, mas esse desejo de ser o mais rápido, o mais forte e o mais jovem, causa muitos problemas. No desespero de lançar logo a primeira obra, muitos artistas produzem trabalhos que com certeza seriam melhores se houvessem se dado o tempo de amadurecê-los.

Repito, nunca é tarde para começar. E nem para recomeçar. Tom Zé havia abandonado a carreira, mas conseguiu sair do ostracismo aos cinquenta e seis anos. Se já havia lançado clássicos como ‘Todos os Olhos’ (1973) e ‘Estudando o Samba’ (1976), ainda conseguiu realizar um de seus melhores trabalhos em 2012, o disco ‘Tropicália Lixo Lógico’, aos setenta e seis. Esse ano, aos oitenta, acaba de lançar o disco ‘Canções Eróticas de Ninar’, que eu ainda não ouvi e já gostei. Nada está perdido; bons trabalhos são realizados em qualquer idade. Se os artistas mais velhos nos incentivam a sempre continuar tentando, os artistas jovens não podem ser usados para nos desencorajar a produzir depois de uma determinada idade. E tenho dito: todo dia é dia de gênio.

cinco passos para ser um(a) escritor(a)

Hoje o texto será um pouco diferente, pois tratará da gravação de uma palestra do Rubem Fonseca. Não recordo como encontrei o vídeo, mas certamente foi quando estava navegando, como sempre, à procura de coisas novas. Informações essas que são muitas, muitas mesmo e, por mais que eu seja um astronauta libertado, as novidades me ultrapassam em qualquer rota que eu faça (viva Tom Zé!). É uma corrida desleal, estou sempre atrás das notícias. É humanamente impossível acompanhar tudo e, mesmo que fosse possível, não faria questão. Embora a quantidade de novidades ruins seja infinitamente maior do que as boas, ainda assim as boas continuam em demasia para um único ser humano que, como eu, é sedento por assuntos “desconhecidos”.

Pesquisando, consegui descobrir algumas coisas sobre o vídeo: é de 2012 e foi realizado durante a 13ª edição do Correntes d’Escritas, que é um encontro de escritores de expressão ibérica. Rubem Fonseca foi o convidado especial e recebeu o Prêmio Literário Casino da Póvoa com o livro ‘Bufo & Spallanzani’. No primeiro dia do evento ele palestrou em uma mesa que tinha como tema “A escrita é um risco total”. Foi essa palestra que eu encontrei em vídeo e resolvi compartilhar aqui, afinal, ele não costuma dar entrevistas porque considera que o autor deve ser reconhecido por sua obra, sendo a fala desta palestra um verdadeiro presente.

Lembram que eu disse lá no início que o texto de hoje seria diferente? Pelo menos a intenção era de que realmente o fosse. Os últimos textos do blogue são enormes, o último sempre maior que o antecessor. Desaprendi a escrever textos pequenos e a cada textão que publicava, me sentia mal por roubar o tempo do(a) Leitor(a). A princípio eu compartilharia apenas o vídeo, mas para isso eu tenho meu Tumblr, então decidi escrever algumas palavras sobre a palestra do Rubem Fonseca, que indica cinco coisas que precisamos ter para ser um(a) escritor(a) e fazer um pequeno paralelo com os leitores, mas essas palavras acabaram desaguando em um texto enorme. Portanto, deixo aqui o meu mais sincero conselho: veja o vídeo a seguir (antes que saia do ar) e não leia o resto do texto.

Correntes d’Escritas 2012 – Rubem Fonseca

Vi que vosmecê é um(a) Leitor(a) teimoso(a). Certo, se já está lendo essas palavras, que faça a gentileza de acompanhar-me até o fim. No vídeo, Rubem Fonseca nos brinda com a frase “escrever é uma forma socialmente aceita de loucura”. Como não concordar? É dessa forma que ele dá início à sua tese de que precisamos de cinco coisas para ser um escritor, a começar pela loucura.

1 – Loucura

Para Rubem Fonseca, todos os escritores são loucos, cada um à sua maneira. Para exemplificar, ele diz que é um escritor digitador, enquanto outros escrevem a lápis, portanto, uma loucura diferente. Identifiquei-me prontamente com a loucura de Fonseca, pois também só sei escrever digitando. Primeiro porque escrevendo à mão fica muito difícil acompanhar o raciocínio: mesmo escrevendo o mais rápido que posso, acabo deixando algo passar. Digitando, esse prejuízo é quase zero. Segundo, por um motivo mais nobre, digamos assim, pois quanto menos uso o papel, menos árvores estão sendo derrubadas. Já bastam as que morrem para que eu tenha livros na minha estante. Para Fonseca, a loucura é a característica mais importante de um escritor.

No entanto, quando ele diz que cada escritor tem neuroses, psicoses e depressões singulares, o mesmo pode-se aplicar aos leitores. Apenas para ilustrar, cada leitor lê de uma forma distinta. Alguns preferem ler pela manhã, outros à noite, como eu. Alguns preferem livros no formato digital, outros ainda conservam o romantismo de ter o livro físico e não abrir mão do cheiro de páginas novas, também como eu. Alguns se dedicam a um livro por vez, outros leem vários ao mesmo tempo, como quem vos escreve. Não obstante, o leitor tem que ser igualmente louco para “acreditar” no que está lendo através da suspensão temporária da incredulidade. No livro ‘A Vaca e o Hypogrifo’, Mário Quintana diz que “ao ler alguém que consegue expressar-se com toda a limpidez, nem sentimos que estamos lendo um livro: é como se o estivéssemos pensando.”. Quintana está falando de um escritor que escreve muito bem, mas sua frase torna-se importante aqui porque, ao acharmos que estamos pensando, suspendendo temporariamente nossa incredulidade, somos tão loucos quanto o autor. Porém, não basta apenas ser louco.

2 – Alfabetização

Para ser escritor você também precisa ser alfabetizado (obviamente), para que, através de sua escrita, consiga fazer o leitor sentir e, acima de tudo, ver, para assim poder entender. Nessa parte da palestra, Rubem Fonseca destila seu sarcasmo ao dizer que um escritor alfabetizado não significa ser um escritor inteligente e, que ser alfabetizado não é algo assim tão importante, pois uma pessoa não precisa ser muito alfabetizada para escrever um livro. Um exemplo disso é a enorme quantidade de livros de qualidade duvidosa que sempre inundam o mercado editorial.

Costumo dizer que vivemos na era do gosto literário duvidoso. Se Rubem Fonseca afirma que um escritor não precisa ser muito alfabetizado, que dirá os leitores? Muitos passam a vida toda boiando em uma literatura rasa porque não desenvolveram capacidade suficiente para mergulhar em mares mais profundos das letras. Capacidade essa que todos podemos desenvolver e que, se por um lado muitos não o fazem por conta própria, a grande maioria não desenvolve graças a um péssimo Sistema educacional que ainda restringe conhecimento e informação a poucos. Entretanto, realmente existem livros que exigem mais dos leitores. No livro ‘O Design da Escrita’, o autor Antonio Suarez Abreu diz que um texto é “uma proposta de construção de sentidos. Somos nós, leitores, que, vasculhando nossa memória, buscamos dentro do nosso conhecimento de mundo informações adicionais que possam complementar aquilo que lemos. Sem isso, não há entendimento possível.” Sem informações prévias, qualquer um de nós está sujeito a experimentar o analfabetismo funcional diante de um livro. Eu acredito, por exemplo, que não iria conseguir interpretar muita coisa de um texto de medicina ou de arquitetura, embora conseguisse decodificar as palavras. Apesar disso, sou daqueles que ainda prefere pessoas que leem livros indiscutivelmente rasos, do que quem passa a vida inteira com medo de se molhar e não lê nada. Todavia, não basta ser louco e alfabetizado.

3 – Motivação

Sem motivação você não faz nada, nem descasca uma banana, diz Rubem Fonseca. O escritor precisa ser motivado e cada um encontra motivação de uma maneira diferente, não importa qual seja. Na palestra, ele não diz o que o motiva a escrever e eu só não digo o que me motiva porque acho que ainda não sei. Não ganho absolutamente nada escrevendo, no entanto, gosto de escrever, sinto prazer. Talvez seja apenas por satisfação pessoal.

Ademais, também é preciso ser motivado para ler. A motivação mais comum talvez seja para descobrir o final da história, mas há quem lê porque precisa fazer uma prova ou porque anseia por mais conhecimento. Confesso que não preciso de muita motivação para pegar nos livros, estou sempre com vontade de ler, é quase uma necessidade fisiológica. Porém, às vezes preciso de motivação para terminar certos livros. Para isso, aplico a lei do esforço e recompensa: dou uma pausa na leitura que está enfadonha e inicio outra, dessa vez de algum livro que eu tenho certeza que vou gostar bastante e que vai reacender em mim a motivação pela leitura. Geralmente são biografias ou romances de autores que gosto muito. Concluída a leitura desse livro, coloco outro livro que também sei que dificilmente vai me decepcionar, na cabeceira da minha cama. Dessa forma, sempre que eu olhar para aquele livro que estou com muita vontade de ler e que só me permitirei fazê-lo depois de terminar a leitura enfadonha do livro que eu havia pausado, sentir-me-ei muito estimulado. Contudo, não basta ser louco, alfabetizado e motivado.

4 – Paciência

É preciso ser paciente e não parar de escrever. A ação de escrever permanentemente, continuamente, entretanto, deve ser realizada sem pressa. É compreensível que escritores passem cinco anos escrevendo um livro de duzentas páginas, por exemplo, a procura das palavras perfeitas. Para Fonseca, não existem sinônimos, com cada palavra possuindo um significado diferente, próprio. Para ele, sinônimos são conversa dos gramáticos para boi dormir.

Nós, leitores, também estamos sempre exercitando nossa paciência, afinal, não é fácil ler ao final de um dia cansativo. Estamos sempre correndo contra o tempo, não conseguimos ler tanto quanto gostaríamos e muitas vezes precisamos ler textos contra a nossa vontade, seja na escola, universidade ou trabalho. É preciso não parar, ler permanentemente, em cada tempinho livre. Devagar se vai longe! Não obstante, não basta ser louco, alfabetizado, motivado e paciente.

5 – Imaginação

O escritor tem que ter imaginação. Para Fonseca, é fundamental que o escritor invente. Tudo bem que o Chacrinha já nos ensinou que nada se cria e tudo se copia, mas não temos acesso a todos os livros do mundo e, por esse motivo, é imprescindível que os livros que cheguem até nós nos pareçam novos, diferentes. No fundo, eu sei que alguém em algum lugar do mundo já deve ter escrito algum livro parecido e que todas as histórias possíveis já foram contadas. Apesar disso, não li e nem vou conseguir ler todos os livros do mundo, por isso estou sempre procurando livros criativos que sejam novos para mim.

Em 2013, Rubem Fonseca participou da inauguração do ambiente de leitura que leva seu nome, no canteiro de obras da Linha 4 do metrô carioca, na Praça Antero de Quental, no Leblon. A Biblioteca Rubem Fonseca é destinada aos funcionários da obra. No seu empolgado discurso de inauguração (veja o discurso nesse vídeo), Fonseca disse que a palavra é extremamente polissêmica, que cada leitor lê de uma maneira diferente e que cada um de nós recria o que está lendo. Essa é a vantagem da leitura: nós preenchemos as lacunas que os escritores deixam deliberadamente ou inconscientemente. Ou seja, o livro não é uma coisa que vem pronta; o leitor precisa ser igualmente imaginativo para preencher esses espaços. Para finalizar, deixo com vocês a teoria do escritor e filósofo Eduardo Giannetti, que expressa bem essa ideia em seu livro ‘Auto-engano’: Ler é recriar. A palavra final não é dada por quem a escreve, mas por quem a lê. O diálogo interno do autor é a semente que frutifica (ou definha) no diálogo interno do leitor. A aposta é recíproca, o resultado imprevisível. Entendimento absoluto não há. Um mal-entendido – o folhear aleatório e absorto de um texto que acidentalmente nos cai nas mãos – pode ser o início de algo mais criativo e valioso do que uma leitura reta, porém burocrática e maquinal. “Autores são atores, livros são teatros.” A verdadeira trama é a que transcorre na mente do leitor-interlocutor.

Até a próxima, abraçaço.