nostalgia

Semana passada, estava eu deitado em minha cama, lendo, quando meu cérebro fez um download dos meus treze anos. O livro era ‘Doidinho’, de José Lins do Rego (1901-1957), um romance que estou lendo pela primeira vez e que tem como protagonista o garoto Carlinhos (também figura central de ‘Menino de Engenho’), apelidado nessa obra de Doidinho. O personagem está agora com doze anos de idade e até o final da história suponho que deva completar os treze – não sei, pois ainda não concluí a leitura. Porém, não creio que isso justifique a brincadeira que meu cérebro fez comigo. Sigo acreditando que foi apenas uma grande coincidência.

‘Doidinho’, publicado pela primeira vez em 1933, narra as experiências de Carlinhos como interno em um colégio severo. Mesmo aos doze anos, Carlinhos não é mais um garoto inocente, já tendo realizado até mesmo suas primeiras experiências sexuais – coisa que eu, aos treze, ainda nem sonhava em ter. Com essa idade eu estava fazendo outras descobertas, e a música era uma delas.

Foi aos treze anos que a música entrou de verdade em minha vida, ou seja, muito tarde. Antes disso, minha memória musical é quase nula. Pouquíssimas canções possuem o poder de me deixar com saudade da infância e as que conseguem isso constituem um pequeno número de sucessos do passado que inevitavelmente ouvi através da televisão. Algumas delas são músicas dos Mamonas Assassinas ou da Xuxa que, ao ouvir novamente hoje em dia, me fazem retornar imediatamente ao meu passado, me deixando imensamente feliz por terem sido essas as músicas que ouvi quando criança. Tenho pavor só de imaginar a possibilidade de ser criado ao som de Patati Patatá.

Em minha casa, tínhamos um aparelho de rádio que funcionou por pouco tempo, embora que, mesmo depois de quebrado, tenha sido deixado por meu pai anos e anos sobre a estante da sala. Só recordo de ouvir música nele uma vez, quando meu pai o sintonizou em alguma estação e minha irmã e eu, ainda muito pequenos, pulamos ao som de uma música que eu não lembro qual era.

Ainda aos treze anos, quando eu cursava a sétima série do ensino fundamental, redescobri a TV União. Eu já tinha conhecimento de sua existência, mas foi só nessa idade que me viciei nela. A programação do canal local era e ainda é quase que inteiramente dedicada à transmissão de videoclipes. Hoje, encaro de forma benéfica o fato de até essa época não ter construído nenhuma bagagem musical. Como meus pais não apreciam música, acabei crescendo sem ouvir nada, porém, tive a vantagem de não ter sido influenciado pelo gosto musical dos outros. Aos treze anos, era como se meus ouvidos fossem virgens. Eu haveria de descobrir por conta própria minhas preferências musicais, e foi justamente isso que aconteceu. Imediatamente descobri que o rock e eu estabeleceríamos um relacionamento para a vida toda.

O programa da TV União que eu mais gostava era um chamado Top Mais, que ainda existe. Nele são exibidos os dez videoclipes mais pedidos na programação. Eu simplesmente adorava. Era transmitido das onze da manhã ao meio dia, de segunda a sábado, pois no domingo eles faziam um especial. Os telespectadores enviavam cartas com os seus dez videoclipes favoritos e, em cada domingo, eles sorteavam um felizardo que teria seu pedido atendido. Escrevi várias cartas, mas nunca cheguei a enviar, pois era incapaz de selecionar apenas dez videoclipes. Depois de algum tempo, o programa mudou de horário, passando a ser transmitido do meio dia às treze horas da tarde, o que complicou para o meu lado. Eu estudava no turno da tarde e a aula começava justamente às treze horas. Depois dessa mudança, eu só conseguia assistir do décimo ao quarto colocado e saía correndo para o colégio. Perdia o pódio com os três mais votados. Entretanto, minha melhor amiga na época morava perto do colégio e conseguia assistir tudo. Ela sempre me contava o que eu havia perdido quando nos encontrávamos na aula. Atualmente, não sei mais qual o horário exato do programa e nem se continuam fazendo esse especial aos domingos.

A banda Luxúria foi a primeira que considerei como favorita em minha vida. O videoclipe da música ‘Imperecível’ ficou por muito tempo entre os mais pedidos da programação. Depois lançaram ‘Lama’, que, juntamente com ‘Ódio’, foram suas músicas mais conhecidas – pois tocaram em novelas. Pouco tempo depois, a banda acabou e a vocalista, Megh Stock, seguiu em carreira solo. Megh chegou a lançar dois álbuns: ‘Da Minha Vida Cuido Eu’, em 2009, e ‘Minha Mente Está em Seu Caos’, em 2011. No entanto, ela está longe dos palcos desde então e sem previsão de volta. As músicas do Luxúria, bem mais do que as dos discos solos de Megh, são muito nostálgicas para mim. Foram elas que, na semana passada, baixaram repentinamente em meu cérebro durante a leitura de ‘Doidinho’. No momento em que isso aconteceu, interrompi a leitura e fui assistir aos videoclipes da banda pelo celular. Quanta saudade!

Luxúria não passou muito tempo no posto de minha banda favorita. Logo ela seria substituída por outras conforme fui descobrindo grupos melhores e com sons mais pesados, porém, nesse curto espaço de tempo, eu me lembro de ter tido aulas com uma excelente professora de geografia que também era roqueira. Ela tinha uns quarenta anos (ou menos) e usava sempre lentes de contato coloridas, embora as vermelhas e as cinzas fossem as que ela usasse com mais frequência. Certo dia, perguntei-lhe se conhecia a banda Luxúria e ela respondeu que não, mas que já tinha ouvido falar e que queria experimentar seu som. Prometi então de lhe gravar um CD com o único álbum da banda lançado em 2006, mas ela acabou saindo do colégio antes que eu lhe entregasse o presente. Meses depois, nos chegava a notícia de que ela havia morrido de overdose. Quem nos contou foi um colega de sala que era vizinho dela. Fiquei muito triste quando soube.

Ouvi muito os discos solos de Megh também, mas isso foi no período em que eu cursava o ensino médio, já na adolescência. Ainda existia o programa de mensagens instantâneas do MSN. Praticamente todos os amigos virtuais que fiz são dessa época. Hoje, o Skype cumpre bem a função do seu antepassado que, convenhamos, era uma bagunça, embora eu veja com saudosismo as funções de chamar atenção e saber o que os amigos estão ouvindo. Estou falando disso porque existia algo no MSN chamado subnick, mais conhecido como “digite sua indireta aqui”. Todo mundo colocava letras de músicas com a ilusão de encobrir a verdadeira intenção da mensagem e todos fingiam que acreditavam. Nós passávamos vergonha e nem sabíamos. Eu adorava usar trechos de músicas da Megh: “não apodreça, ninguém vai reparar”, “mas o que você me faz me dando todos os sinais de que agora eu acertei?”, “daria um pedaço do meu medo pra saber se você tem coragem”, “se eu me escondo aqui nesse lugar tranquilo não se esqueça que pro caos eu tô partindo”. Quem nunca? Faz só três anos que o MSN desativou seu programa de mensagens instantâneas, mas por eu ter deixado de usá-lo antes mesmo do fim, tenho a sensação de que foi há um século.

O meu eu roqueiro de anos atrás não veria com bons olhos o também fã de Tropicália e MPB de hoje. Há anos que eu não ouvia Luxúria e Megh Stock – se não fosse essa lembrança repentina, talvez passasse muitos outros anos sem ouvir novamente. Escrevi esse texto ouvindo essas canções. Elas, juntamente com muitas outras, marcaram minha adolescência que, ao contrário da infância, foi extremamente musical. Gostaria, inclusive, que Megh gravasse um disco novo e voltasse a fazer shows. Eu, que nunca tive a oportunidade de vê-la ao vivo, iria adorar.

Um detalhe é que essa revisitação me serviu para descobrir que eu cantava a letra de ‘Dúvidas’ errado. No trecho “muitas vezes eu te desviei da meta” eu sempre cantei “muitas vezes eu te desviei da merda”. Essa não foi a única: eu também cantava ‘Lama’ de forma errada, já que no trecho “tira essa lama das botas” eu cantava “tira essa lama das portas”. No entanto, o erro de ‘Lama’ eu descobri bem lá no início, na adolescência mesmo. Confesso que prefiro minha versão errada de ‘Dúvidas’. Enfim, vou encerrar por aqui porque ‘Doidinho’ não vai terminar de se ler só. Até a próxima, abraçaço.

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que horas ela volta?

O primeiro livro que li esse ano foi Agosto (1990), do Rubem Fonseca. O mês em questão, que dá título à obra, é o de 1954, o agosto mais conturbado da história brasileira. O romance tem como pano de fundo os acontecimentos que culminaram no suicídio de Getúlio Vargas. Na contracapa da minha edição, encontra-se o seguinte texto: […] Um mês de crimes estarrecedores, de atentados políticos, de lutas infames pelo poder. Um mês de paixões, de gestos de desespero e de loucura. Um mês de multidões vociferantes nas ruas. Um mês sombrio de trágicas ilusões, encerrado pela inalterabilidade do cotidiano – a vida continua. […]

Após a leitura, fiquei me perguntando que outro mês da história brasileira ficou tão famoso. Não sei vosmecê, Leitor(a), mas o que me veio a cabeça foi obviamente o abril de 1964, que culminou no golpe militar que encerrou o governo do presidente democraticamente eleito João Goulart. Até hoje, os simpatizantes ao golpe insistem em ‘comemorar’ a data no dia 31 de março, levando em consideração os acontecimentos desse dia que culminaram no golpe do dia 1°, afinal, não pega nada bem para eles comemorarem um feito no dia da mentira. Ademais, foram os atos de abril que resultaram em vinte e um anos de regime militar.

Contudo, hoje, após ter vivido pouco mais de duas décadas, arrisco afirmar que maio de 2016 é um forte concorrente ao agosto de 1954 e o abril de 1964. Basta ler o pequeno texto da contracapa do livro de Rubem Fonseca que reproduzi acima. Esse texto poderia muito bem ter sido escrito sobre o nosso atual momento político que ninguém estranharia. Entretanto, maio também foi encerrado pela inalterabilidade do cotidiano, assim como foram os outros dois meses citados. Encerrada também pela inalterabilidade do cotidiano foi a votação na Câmara, que autorizou a instauração de processo de impeachment de Dilma Rousseff em 17 de abril desse ano. Não sei como consegui voltar à rotina no dia seguinte depois de sentir tanta vergonha alheia, nojo e tristeza ao ver a bancada da bíblia e da bala juntamente com um presidente réu, autorizarem um processo de impeachment sem crime de responsabilidade fiscal de uma presidenta democraticamente eleita.

O desenrolar de todo o processo de impeachment tem sido tão absurdo que a sensação é de estar dentro de um pesadelo ou de um filme de terror, e por falar em filme, estão lembrados(as) de que o produtor Antônio de Assis divulgou em 2011 que iria produzir um longa-metragem sobre a vida de Dilma Rousseff? O roteiro seria baseado no livro A Primeira Presidenta (2011), escrito pelo jornalista Helder Caldeira. O papel de Dilma foi oferecido a Marieta Severo que recusou, alegando ter outros compromissos para o mesmo período de filmagens (que deveria ter ocorrido em 2012). A recusa de Marieta deve ter sido um forte baque na produção do filme, pois desde então não se ouviu falar mais nele e até hoje não foi filmado. Falei desse assunto porque não gosto muito de cinebiografias de pessoas que ainda estão vivas. É comum existirem mais de uma biografia para pessoas públicas, porém, quando lançam uma cinebiografia, dificilmente outra será feita. Existem dois fatores que podem justificar isso: produzir um filme é infinitamente mais caro do que escrever um livro e o cinema está diretamente ligado a mercado, com os produtores dificilmente decidindo arriscar a bilheteria ao se vincularem a outro filme de uma mesma pessoa, acreditando que ninguém vai interessar-se por ver algo que já foi feito, mesmo que seja filmado de uma outra forma e com outro elenco. Teoricamente, seria diferente de um remake, porque neste os diretores podem mudar o final ou até mesmo o filme inteiro. Todavia, como mudar um filme que foi feito para contar uma história real?

Lembro que quando fiquei sabendo do filme, protestei comigo mesmo, pois Dilma mal havia assumido o primeiro mandato. Só conseguia pensar na seguinte questão: e se algo muito importante acontecer depois? Parece que eu estava adivinhando, pois nada (além do fato de ter sido presa e torturada durante a ditadura militar) parece ser mais importante do que o processo de impeachment que ela vive hoje, que por si só daria um filme e de terror! Foi pensando nisso que resolvi estruturar de uma forma clássica um mini-pseudo-argumento sobre tudo o que aconteceu com Dilma, caso tivesse que levar essa história às telonas. O filme seria um melodrama dos fortes, banhado de muito terror psicológico. Respire e leia:


1° Ato

Aqui começa nosso filme. No primeiro ato somos apresentados ao protagonista da história, que será Dilma Rousseff, nossa heroína (ou anti-heroína, se preferirem). É aqui que conheceremos também o mundo da história, que será ambientado em Brasília. Nesse início, será apresentado também o aliado da protagonista, que no filme será o ex-presidente Lula, além de conhecermos também os vilões da história, os inimigos da nossa protagonista, que aqui serão Michel Temer, oposição (em especial o PSDB), imprensa (em especial a Rede Globo), FIESP e claro, Eduardo Cunha. Veja que pelo grande número de inimigos e quase nenhum aliado, nossa protagonista é praticamente uma heroína solitária.

O filme começa em janeiro de 2015, quando Dilma já assumiu seu segundo mandato. Nossa protagonista encontra-se em exercício de sua função e, embora enfrente uma queda nos índices de popularidade e o país esteja vivendo uma crise financeira, acredita que agora, com o início do segundo mandato, conseguirá colocar novamente o país nos trilhos. Até que ela sofre sua primeira derrota: Eduardo Cunha (PMDB) é eleito presidente da Câmara com 267 votos. O candidato da presidenta, Arlindo Chinaglia (PT) recebeu 136 votos. Foi uma grande derrota para ela e instaura-se agora um forte clima de tensão no filme. Damo-nos conta de que a jornada de Dilma não será assim tão fácil.

No Dia Internacional da Mulher, 8 de março, nossa protagonista faz um pronunciamento em cadeia nacional e, em protesto, uma parte da população bate panelas: é o primeiro panelaço. Essa cena no filme será muito importante, porque vai ser aqui que a trilha sonora começará a ganhar forma. A partir de agora, toda a trilha do filme será formada por sons cada vez mais irritantes de panelaços.

2° Ato

Em paralelo à trama principal, a Operação Lava Jato segue a todo vapor, fazendo as primeiras vítimas no meio político. Estamos agora em maio. No segundo ato, nossa protagonista faz suas primeiras tentativas para livrar-se do problema que, no momento, é sua forte rejeição popular. Com isso, ela desiste de fazer seu pronunciamento nacional no 1° de maio, mas quando o programa do PT é veiculado no dia 5, acontecem novos panelaços.

Outra tentativa da nossa protagonista, foi o veto do reajuste de servidores no Judiciário, para não abrir um rombo ainda maior nas contas públicas, pois o custo desse aumento salarial para o governo seria de R$ 5,3 bilhões em 2016, de acordo com cálculo do Ministério do Planejamento. Em quatro anos, até 2019, o custo total seria de R$ 36,2 bilhões.

O Conselho de Ética da Câmara instaura processo que pode levar à cassação de Eduardo Cunha, presidente da Casa. O PT, partido da protagonista dessa história, decide votar a favor do processo de cassação no Conselho de Ética. É então que o vilão Eduardo Cunha, por retaliação à decisão do PT, aceita o pedido de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff. Aqui, na primeira metade do segundo ato, Dilma sofre essa forte manobra de seu inimigo. Não há mais volta para a protagonista, é preciso seguir em frente. Sua necessidade dramática agora será tentar livrar-se do golpe.

Tenhamos calma, nem tudo está perdido para Dilma, que possui maioria na Câmara, o que a deixa otimista. Ela sabe que conseguirá barrar o golpe, no entanto, nosso filme sofre aqui uma forte reviravolta: Dilma recebe uma carta do vice-presidente Michel Temer. A missiva (escrita para vazar) vaza e o país inteiro toma conhecimento de seu conteúdo. Nela, Temer deixa claro a frágil relação de ambos e reclama de cargos não concedidos, o que deixa o governo de Dilma ainda mais fragilizado.

O país perde o grau de investimento e a saída do PMDB da base aliada deixa a presidenta isolada no Congresso. Dilma, porém, tem mais uma carta na manga e convida o ex-presidente Lula para ocupar a Casa Civil, com a intenção de que ele consiga fazer uma ligação com os partidos. O que ninguém esperava é que áudios da presidenta fossem vazados pelo juiz Sérgio Moro. Os áudios foram utilizados para suspender a posse de Lula como ministro-chefe da Casa Civil. O filme encaminha-se para seu terceiro e último ato, com Dilma sofrendo uma série de derrotas consecutivas. Enquanto isso, a FIESP segue financiando o golpe e a Rede Globo ignorando as manifestações pró-Dilma. A votação na Câmara, que autoriza a instauração de processo de impeachment de Dilma em 17 de abril, é responsável pelas cenas mais nojentas, revoltantes e tristes do filme.

Na comissão do Senado, o parecer favorável ao impeachment de Dilma foi aprovado por 15 votos a 5. Conforme as votações vão sendo favoráveis ao afastamento, pensei em afastá-la cada vez mais do filme. Seu tempo diante da tela vai gradualmente diminuindo conforme o filme desenrola-se para o final. Tudo parece estar perdido, porém, o Supremo Tribunal Federal (STF) afasta por unanimidade Eduardo Cunha da Câmara, e o presidente interino, o deputado Waldir Maranhão (PP), anula a tramitação do processo de impeachment, cancelando a votação do processo na Câmara. Acende-se uma luz no fim do túnel, por um breve momento todos os inimigos parecem estar derrotados.

3° Ato

A sensação é de volta por cima, quase é possível ouvir a marcha da vitória. Entretanto, esse filme é uma tragédia. Todos sabemos que, no cinema, nossos heróis quase morrem nos minutos finais do filme antes de vencerem o vilão e desembocarem no tão desejado final feliz. Nas tragédias acontece o contrário: nos minutos finais, tudo parece bem, a sensação de vitória é palpável, mas o herói perde ou morre. Horas depois, o próprio Maranhão revoga sua anulação após sofrer fortes ameaças de expulsão do partido e uma possível perda de mandato. No apagar das luzes, Dilma ainda cria mais cinco universidades federais e regulamenta o importante Marco Civil da Internet e, no dia 12 de maio, a abertura do processo de impeachment é aprovada no plenário do Senado Federal por 55 votos a favor e 22 contra; nossa protagonista é derrotada. Afastada por até 180 dias, o vice-presidente Michel Temer assume a presidência. Sem vencer nenhuma eleição para Presidência da República em seus 50 anos de história, o PMDB emplaca o terceiro presidente em 30 anos, atingindo “100% de aproveitamento” de seus três vices que chegaram à Presidência.

Nesse momento do filme, a protagonista Dilma não aparece mais na tela. O que vemos é Temer assumir o governo na única sexta-feira 13 do ano, cortando ministérios e nomeando ministros citados na Lava-Jato para seu gabinete (dando-lhes foro privilegiado, sendo que, pelo mesmo motivo, Lula havia sido impedido de assumir a Casa Civil), formado apenas por homens brancos, sendo o primeiro desde o período de Ernesto Geisel (1974-1979), ainda na ditadura, a não incluir mulheres. O lema de seu governo é “não fale em crise, trabalhe” (qualquer semelhança com o “Brasil, ame-o ou deixe-o” do regime militar é mera coincidência). Em poucos dias de governo Temer, diálogos gravados de Romero Jucá revelam o que eles chamaram de “pacto” para deter o avanço da Lava Jato. Outros áudios ainda revelariam que PMDB, DEM, PSDB e SD financiaram com caixa 2 o Movimento Brasil Livre (MBL) que sempre se definiu como apartidário e sem ligações financeiras com siglas políticas (o que só os alienados conseguiam acreditar), escancarando para o Brasil inteiro o pacto feito pelos partidos para derrubar Dilma. ‘Pacto’, inclusive, poderia ser o título do filme, ou então ‘Volta, Querida’.

Eduardo Cunha, mesmo afastado, continua a dar as cartas. Os escândalos só aumentam, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pede ao Supremo Tribunal Federal (STF) a prisão do presidente do Senado, Renan Calheiros, do presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha, do senador Romero Jucá e do ex-presidente da República José Sarney, todos do PMDB, mesmo partido do então presidente Temer. Nas ruas (agora sem financiamento de partidos e da FIESP – pois eles já conseguiram o que queriam) não se ouvem mais o som das panelas. Sobem os créditos.


Bom, esse seria o meu filme; outras pessoas com certeza o fariam de outra forma. Muita coisa fica de fora e muitos fatos podem ficar sem as mínimas explicações. O mais ideal seria o formato de narrativa seriada, mas como vocês já devem saber, não gosto de séries. A sinopse, inclusive, eu pegaria emprestado da contracapa desta minha edição de Agosto: Um mês de crimes estarrecedores, de atentados políticos, de lutas infames pelo poder. Um mês de paixões, de gestos de desespero e de loucura. Um mês de multidões vociferantes nas ruas. Um mês sombrio de trágicas ilusões, encerrado pela inalterabilidade do cotidiano – a vida continua.

Preciso confessar que nem de longe sou a pessoa mais otimista do mundo. Por mais que a oposição ao novo governo Temer ganhe força e os movimentos populares ganhem cada vez mais as ruas, fico pensando que, se Dilma voltar, ela novamente será impedida de governar como foi desde que assumiu seu segundo mandato. Claro que, ainda assim, será melhor tê-la de volta do que continuar mais dois anos com um governo ilegítimo, que é uma ameaça real aos programas sociais. Resta-me torcer para que esse filme da vida real tenha uma continuação, de preferência, chamado de ‘Dilma, O Retorno’.

As coisas aqui mudaram muito. A vanguarda cristã assumiu o poder, o clima tá tenso”. A frase é de um dos personagens do filme Branco Sai, Preto Fica (2014), do diretor Adirley Queirós, um dos melhores e mais inteligentes filmes brasileiros dos últimos anos. É quando a ficção transcende a realidade. É exatamente com essa frase que eu responderia para alguém que me perguntasse sobre a atual situação política do país. Estou confuso, não faço a mínima ideia do que esperar daqui para frente. Embora tenha muitas críticas ao governo Dilma e reconheça seus erros, não consigo parar de me perguntar: que horas ela volta?

os dez melhores livros que li em 2015

Saímos de 2015, mas 2015 não saiu de nós. Mesmo que você, Leitor, não tenha realizado grandes feitos em sua vida nesse ano que se passou (esse foi o meu caso), assim como eu, viu muitas coisas acontecerem no nosso país e no mundo. Grandes ídolos morreram, grandes filmes e discos foram lançados. Novos escândalos de corrupção vieram à tona, ataques terroristas foram realizados, aconteceram diversos eventos esportivos, eventos culturais e festivais de música. Vivemos para ver tudo de bom e de ruim que ocorreu no ano passado. Seja com esses eventos globais ou especificamente localizados, 2015 fará para sempre parte da nossa tragetória, afinal, passamos por ele e estamos aqui para contar a história. Trata-se de um ano que particularmente me marcou pelas leituras que fiz. O conhecimento adquirido no ano passado é algo que vai continuar comigo para o resto da vida, algo que ninguém pode me tirar. Parece um tremendo clichê, mas é verdade. Também foi o ano em que mais li na minha vida: quarenta e seis livros, um total de onze mil novecentas e cinquenta e oito páginas, com média de trinta e três páginas por dia segundo meu perfil no Skoob. Infelizmente, não contei as páginas dos livros para saber se esses números estavam corretos (afinal, sou de humanas), mas resolvi escrever um post sobre os dez melhores livros que li ano passado. São eles, em ordem alfabética:

Discos

Título: Discos
Autor: Arnaldo Cohen, Céline Imbert, Eduardo Giannetti, Lia Rodrigues, Luiz Tatit, Marcelo Coelho, Tom Zé
Primeira publicação: 2003
Minha edição: PubliFolha

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‘Discos’ era um livro que tinha na minha estante já fazia certo tempo, mas que só ano passado resolvi ler. Achava que não ia gostar da leitura, mas me enganei redondamente. O livro me fisgou logo na primeira página. Nele, sete autores dissertam sobre os dez discos que levariam para uma ilha deserta. Sou apaixonado por listas, por isso devo ter gostado tanto de ler algumas feitas por pessoas que admiro, sem contar que, ao longo dos seus mais de setenta capítulos, acaba se tornando um ótimo livro para se pegar dicas de discos para ouvir. Este também foi o livro que me fez conhecer o grande Luiz Tatit. Falei sobre isso em um dos primeiros posts do Satãnatório: o ‘eterno ignorante, parte 1’.

Elite da Tropa

Título: Elite da Tropa
Autor: Luiz Eduardo Soares, André Batista, Rodrigo Pimentel
Primeira publicação: 2005
Minha edição: Objetiva

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Gosto muito do filme ‘Tropa de Elite’ (2007), do diretor José Padilha, e admito que esse livro chegou até mim graças à sua adaptação cinematográfica. No princípio, não tive vontade nenhuma de ler ‘Elite da Tropa’, pois acreditava que devia ser muito parecido com o longa-metragem. Todavia, depois de saber que muitos detalhes são diferentes na obra impressa, decidi ler e me surpreendi. Constatei que, de fato, neste caso, livro e filme parecem ser duas coisas totalmente distintas, incluindo aqui a estrutura narrativa. O escrito está dividido em duas partes. A primeira conta histórias sobre o Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), considerado um esquadrão de elite na Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Baseado em relatos reais de ex-policiais do BOPE, o livro mostra os oficiais como uma tropa aparentemente incorruptível e extremamente violenta. Desse momento inicial foram retirados os personagens do filme e algumas histórias que o compõe. Contudo, a segunda parte, que fala sobre o plano para assassinar Leonel Brizola, na época governador do Rio de Janeiro, é o suprassumo do livro, e nada disso está no longa. Esta outra seção com certeza daria um excelente roteiro se fosse adaptado para o cinema. Já havia falado da minha edição do livro no post ‘livros sebosos’.

Encontros Tom Zé

Título: Encontros – Tom Zé
Autor: Tom Zé, Heyk Pimenta
Primeira publicação: 2011
Minha edição: Azougue

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Primeiro tenho que contar como encontrei essa pérola. Jorge du Peixe, vocalista da Nação Zumbi, publicou uma foto do livro em seu perfil no Instagram com a seguinte legenda: “Livrinho fuderoso da coleção Encontros. Entrevistas antológicas com Tom Zé, o mestre dos mestres e punk mais original do Brasil.” Dias depois, eu já estava com o livro em mãos e me segurando para não ler de uma só vez. Sempre fico triste após terminar de ler uma boa publicação por completo. Quando mais tempo eu convivo com o livro, melhor. Mesmo assim, terminei logo, tanto por ser curto, quanto por ser sobre Tom Zé. Tenho que concordar com du Peixe, o livro é mesmo fuderoso.

Estação Carandiru

Título: Estação Carandiru
Autor: Drauzio Varella
Primeira publicação: 1999
Minha edição: Companhia das Letras

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Esse foi outro livro que cheguei através de um filme: ‘Carandiru’ (2003) de Hector Babenco. A obra de Drauzio Varella é um dos poucos casos em que um sucesso editorial, verdadeiro fenômeno de vendas realmente vale a pena ser lido. Vencedor do Prêmio Jabuti em 2000 na categoria Livro do Ano de Não-Ficção, a publicação conta a experiência de Varella como médico voluntário, a partir de 1989, na Casa de Detenção de São Paulo, onde realiza atendimento em saúde, especialmente na prevenção da AIDS. No post ‘livros sebosos’ também falei sobre a minha edição desse livro.

O Centauro no Jardim

Título: O Centauro no Jardim
Autor: Moacyr Scliar
Primeira publicação: 1980
Minha edição: Companhia de Bolso

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Esse foi meu primeiro livro de Moacyr Scliar, constituindo o suficiente para que eu me tornasse um grande admirador da sua escrita criativa. A obra mistura elementos fantásticos em uma trama muito instigante, contando a estória do centauro Guedali, um ser metade homem, metade cavalo. O blogue 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer fez uma excelente resenha sobre esse livro.

O Guarani

Título: O Guarani
Autor: José de Alencar
Primeira publicação: 1857
Minha edição: Martin Claret

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Meu primeiro contato com a história do livro veio com a ópera de mesmo nome do compositor Carlos Gomes e depois com o filme ‘O Guarani’ (1996), da diretora Norma Bengell. Anos depois, minha irmã ganhou um exemplar do romance, que acabou me dando por não gostar. Eu também acabei o abandonando por não conseguir me envolver com o enredo. Entretanto, no ano passado, resolvi dar mais uma chance a ele e acabei me apaixonando, principalmente por sua parte final. Assim que concluí a leitura, assisti a outra versão cinematográfica do livro, ‘O Guarani’ (1979), do diretor Fauzi Mansur, que supera a outra produção citada. A primeira adaptação do livro para o cinema aconteceu em 1912, em um filme mudo hoje considerado perdido.

O Que é Isso, Companheiro?

Título: O Que é Isso, Companheiro?
Autor: Fernando Gabeira
Primeira publicação: 1979
Minha edição: Companhia de Bolso

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Mais um livro que cheguei através de um filme, dessa vez foi ‘O Que é Isso, Companheiro?’ (1997), do diretor Bruno Barreto, que representou o Brasil no Oscar de 1998, sendo indicado ao prêmio de melhor filme estrangeiro. Até pouco tempo atrás, eu evitava ler livros que eram adaptados para o cinema, tentando focar em histórias que eu ainda não conhecia. Ainda bem que parei com isso, até porque o filme de Barreto é inspirado apenas no 15° capítulo do livro de Gabeira, o trecho que diz respeito ao sequestro do embaixador norte-americano. O livro é um ótimo depoimento sobre quem viveu na pele o terror da ditadura militar brasileira. Super indico a obra para os politicamente alienados que saíram às ruas no ano passado pedindo a volta do regime militar. O blogue 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer também fez uma ótima resenha sobre ele.

O Réu e o Rei

Título: O Réu e o Rei
Autor: Paulo Cesar de Araújo
Primeira publicação: 2014
Minha edição: Companhia das Letras

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Se não me engano, esse é o maior livro dessa lista e o que li mais rápido. Eu já sabia como terminava a história de Paulo Cesar de Araújo com Roberto Carlos, mas queria saber os detalhes. No livro, o autor fala sobre a polêmica proibição de seu livro anterior, a biografia ‘Roberto Carlos em Detalhes’. ‘O Réu e o Rei’ não é uma nova biografia sobre o cantor, mas sim um relato sobre a relação do autor com Roberto. Durante a leitura ainda ficamos conhecendo a história de amizade entre Paulo Cesar de Araújo e João Gilberto, sem dúvida a maior surpresa do livro.

Secreções, Excreções e Desatinos

Título: Secreções, Excreções e Desatinos
Autor: Rubem Fonseca
Primeira publicação: 2001
Minha edição: Companhia das Letras

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Esse foi meu primeiro livro lido em 2015. É um compêndio de contos e constituiu meu segundo título de Rubem Fonseca, depois de ‘O Caso Morel’. Com essa obra, rapidamente descobri porque ele é considerado um dos melhores contistas deste país. O primeiro conto da coletânea, ‘Copromancia’, se tornou um dos meus textos favoritos e, assim como todos os outros que a compõe, a cada parágrafo lido, eu imaginava como ficariam ótimos se fossem adaptados para o cinema.

Tropicalista Lenta Luta

Título: Tropicalista Lenta Luta
Autor: Tom Zé
Primeira publicação: 2003
Minha edição: PubliFolha

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Mais uma vez um livro do Tom Zé! Este, por sua vez, merece destaque por considerado sua biografia. ‘Tropicalista Lenta Luta’ tem capítulos escritos pelo próprio cantor e compositor, contando sobre sua infância em Irará, acerca de sua formação e ida a São Paulo, discutindo o ostracismo e muitas outras curiosidades de sua vida. Ademais, esses capítulos são curtos e não se aprofundam o suficiente como as biografias convencionais (embora não sejam superficiais, pois Tom Zé nunca é superficial naquilo que escreve). Grande parte do livro é formada pelas letras de seus discos, contendo também cartas e uma extensa entrevista concedida a Luiz Tatit e Arthur Nestrovski. Trata-se de um livro indispensável para aqueles que, como eu, são grandes fãs do Pai da Invenção. Citei esse livro no post ‘vinte e três’ e foi também uma parte dele que me inspirou a escrever o texto ‘meu útero’.

E então, caríssimo Leitor, já leu algum desses livros? Gostou? Não gostou? Pretende ler algum? Me conta!

eduardo coutinho em 23 imagens

Sem a menor dúvida, Eduardo Coutinho afirmava que o documentário, em todo lugar do mundo sempre foi, é e será um tipo de cinema marginal. Isso não quer dizer que não se possa aumentar a margem. Sou obrigado a concordar com ele, mas esse tímido crescimento do documentário em todo o mundo, no Brasil principalmente, é algo real e que muito me agrada. Os brasileiros produzem os melhores documentários do mundo. Ponto. E Coutinho foi e continua sendo o maior entre os maiores. Já virou chavão dizer que seu nome é sinônimo de documentário e vice versa.

Todos os anos o vencedor do Oscar de Melhor Documentário deveria ser uma produção brasileira. Mas sabemos que gringos, assim como os brasileiros, são preguiçosos e não gostam de ler legendas. Quando um filme estrangeiro faz muito sucesso em seu país de origem, ele é vendido para outros países e dublado (muito pior do que aqui, por sinal) ou refilmado com atores de língua inglesa. Como não existe essa tradição de se dublar documentários, o mundo segue ignorando o fato dos nossos documentários serem os melhores. Apesar do reconhecimento internacional, os gringos jamais vão compreender a verdadeira importância da obra de Eduardo Coutinho. Ele afirmava fazer filmes para o Brasil, pois seu cinema tem como foco as palavras, que na nossa língua são muitas vezes impossíveis de serem traduzidas, como é o caso de alguns exemplos que ele mesmo adorava: ‘presidentinho’, ‘sobejo’.

Eu tento eliminar tudo que eu acho que é perfumaria. O elemento essencial é a palavra humana e o que acontece quando um cara filma outro.
Eduardo Coutinho

Coutinho não gostava de entrevistar pessoas que ele conhecia e muito menos pessoas públicas (que possuem reputação a preservar e muito a perder). Seu interesse estava nas pessoas anônimas, o chamado “peixe pequeno” (sem nome a zelar e nada a perder, e que por isso mesmo podiam contar tudo sem receio). Ele queria saber o que essas pessoas achavam delas mesmas e não o que os outros pensavam delas. Para ele, quase todo o cinema mundial (principalmente o documental) é feito na perspectiva do intelectual. O cineasta que quer mudar o mundo e o mundo que ele vai filmar, e que só procura aquele cuja fala lhe interessa para os fins a que se propôs. Quem não lhe interessa, ele exclui ou auxilia tentando fazer prevalecer seu ponto de vista. Coutinho não discutia com nem discordava de seus entrevistados porque achava que cabia ao público pensar sozinho sobre os assuntos abordados.

Essa vontade de mudar o mundo que se filma torna impossível de conhecer o que está sendo filmado, pois só é selecionado aquilo que previamente se quer mostrar. Coutinho achava que a visão militante podia ser mortal para o filme e que querer mudar o mundo era uma utopia maluca. Como mudar o lugar que está sendo filmado? Como fazer essas pessoas mudarem apenas fazendo um filme? Considerava isso de uma arrogância e um autoritarismo absurdo. Deve ser por isso que seus filmes estão preocupados com a história cotidiana, a história com h minúsculo, a história do povo miúdo. Não lhe interessava fazer filmes contra as comunidades que filmava, fossem elas de suburbanos, pobres, ricos etc. Na verdade, ele não tinha nenhuma pretensão de mudar o mundo. Estava preocupado em conhecer seus entrevistados e não prejudicá-los, pois essas pessoas estavam lhe dando um tesouro, que é a fala. Elas se entregavam diante da câmera, por isso ele não queria que se sentissem traídas ou lesadas quando vissem o filme. Era sua regra de conduta.

A luz do documentário é o enquadramento.
Eduardo Coutinho

Eduardo Coutinho tinha a tese de que duas tragédias impedem o documentário de ser apreciado pelas pessoas menos informadas, sobretudo os jovens. A primeira maldição é a de que documentário deve educar e informar, método que algumas produções do tipo e as reportagens de televisão seguem (embora achasse um tipo aceitável de documentário, não era o que lhe interessava). A segunda é a de que o documentário diz a verdade. Considerava esses dois pensamentos uma tragédia, algo ultrapassado, pois acreditava que documentários não possuem compromissos forçosos com a informação, com a instrução e sequer em dizer a verdade, já que esse tipo de filme apenas joga com a questão da verdade.

O filme de ficção, aquele com atores que são pagos para viver o papel e a paixão dos outros em enredos inventados, baseados em histórias reais ou não, sempre será a corrente cinematográfica principal. As pessoas vão ao cinema para ver isso e sonhar. Para ele, isso é uma necessidade humana e a maioria dos documentários passa a impressão de que não possuem esse elemento onírico. O que difere dos seus filmes, que também ficaram conhecidos como documentários ficcionais. Neles, é possível encontrar um efeito poético e se identificar com seus entrevistados a quem ele chamava de personagens, projetando-se na tela como no “sonho” do filme de ficção. Considerava que documentário não é um gênero cinematográfico e sim um sistema, defendendo também o pensamento de que tudo o que se passa entre quem está diante da câmera e quem está atrás é sempre ficcional, já que a memória é sempre inventada. Por esse motivo chamava suas filmagens de “jogos”.

Acham muitas vezes que a câmera pensa. A câmera não pensa. A câmera é burra, o computador é burro.
Eduardo Coutinho

Coutinho também é responsável pela realização de ‘Cabra Marcado Para Morrer’, o marco maior do documentário brasileiro que, na opinião do também cineasta Vladimir Carvalho, juntamente com ‘Vidas Secas’ de Nelson Pereira dos Santos e ‘Terra em Transe’ de Glauber Rocha, forma a tríade que vai dar o recado para a vida toda do que foi o Brasil do século vinte. ‘Cabra Marcado Para Morrer’ inaugurou um cinema que recupera o passado e o próprio material do passado, no caso, seu material filmado em 1964, e em 1984 elabora um pensamento teórico sobre a história. O filme quebra a ideia do documentário que separa o observador e analista do objeto examinado. Há uma relação direta entre o meio (as ligas camponesas de Galiléia e de Sapé) e o observador (Eduardo Coutinho). Não há distâncias e sim um fluxo entre os dois. Coutinho se desloca, vai até Elizabeth Teixeira, viúva do líder camponês João Pedro Teixeira, para recontar sua história e descobrir o que aconteceu com ela e seus filhos nesses vinte anos.

Esse deslocamento para ouvir pessoas também se tornou uma marca registrada, que se repetiu em ‘Santo Forte’ (moradores da favela Vila Parque da Cidade), ‘Babilônia 2000’ (moradores do Morro da Babilônia), ‘Edifício Master’ (moradores de um antigo e tradicional edifício situado em Copacabana), ‘Peões’ (trabalhadores da indústria metalúrgica do ABC) e ‘O Fim e o Princípio’ (moradores do Sítio Araçás, comunidade rural no sertão da Paraíba). Ademais, ele também se reinventou nos filmes ‘Jogo de Cena’ e ‘As Canções’, onde são as pessoas que se deslocam até ele.

Com suas produções, Eduardo também desenvolveu a chamada “arte do encontro”. Sua equipe de pesquisa entrevistava previamente as pessoas que viriam participar do filme, mas Coutinho só encontrava com esses personagens na hora da filmagem. Só fazia filmes porque não sabia o que ia acontecer. O processo lhe interessava, a fabricação. Com isso, o essencial na hora da conversa era a surpresa e o acaso.

Coutinho é um dos meus cineastas favoritos. Impossível não assistir a uma entrevista dele e não aprender. Uma pena que ele nos tenha deixado de uma forma tão absurda. Sou apenas um de seus muitos órfãos. Mesmo não tendo pretensões de fazer documentários, sua obra é uma das que mais me influencia. Sua teoria de que os melhores filmes do mundo não possuem artigo no título foi seguido à risca por ele (com exceção de ‘O Fio da Memória’, ‘O Fim e o Princípio’ e ‘As Canções’) e que pretendo seguir em sua homenagem. Além das vinte e três imagens, deixo para você cineasta, documentarista, fã de Eduardo Coutinho, cinéfilo, leigo, curioso, o curta-metragem ‘Coutinho Repórter’, em que ele fala sobre os anos em que trabalhou no programa Globo Repórter, em que, durante a ditadura, forjou um estilo e realizou obras de empenho social que, na época, a censura impedia o cinema de concretizar. Até a próxima, abraçaço.

Coutinho Repórter

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Não sei quem são os fotógrafos responsáveis pelas fotos, mas se você conhece ou fotografou alguma delas, é só deixar o nome com o número da foto para que sejam devidamente creditados.