pedantismo futebolístico

Eu nem havia aprendido a falar quando a seleção brasileira conquistou o tetra em 1994 e ainda era uma criança quando conquistaram o penta em 2002. Meu pai tem boas recordações da Copa de 1994 e sempre fala com saudosismo da dupla Romário e Bebeto, que não cheguei a ver jogando. No início da adolescência, ainda acompanhei as últimas partidas de Romário em busca do seu tão desejado milésimo gol. Da Copa de 1998, em que o Brasil foi derrotado na final, não me lembro de absolutamente nada.

Minha recordação mais antiga de uma Copa do Mundo é a final da de 2002. Minha memória não vai além do último jogo e, mesmo assim, é constituída de lembranças muito turvas deste momento. Consigo lembrar que, na época, vários homens imitavam o estranho corte de cabelo do Ronaldo (chamado de “estilo cascão”). Recordo ainda de um programa do Domingo Legal, ainda com o Gugu como apresentador, pagando algum valor para que as mulheres da plateia cortassem o cabelo como o do Ronaldo no palco, ao vivo, mas não sei se isso foi durante ou depois da Copa, se realmente aconteceu, se é invenção da minha cabeça ou uma confusão com outra lembrança. Por favor, se alguém lembrar disso, corrija-me nos comentários se eu estiver errado. Recordo ainda que, no jogo da final, algumas pessoas estavam aqui em casa, mas só consigo me lembrar do meu pai, não relembro mais quem eram os outros presentes, na verdade, nem consigo visualizar o rosto delas na minha memória. Assim fica difícil de identificar, embora arrisque afirmar que eram meus tios. Enfim, esses detalhes não importam.

Mencionei isso tudo para dizer que a seleção já conquistou dois títulos de Copa do Mundo desde que nasci, ainda que não tenha visto nenhum. Não consigo considerar a Copa de 2002. Quatro anos depois, na Copa de 2006, eu torci e acompanhei de verdade. Lembro-me dos jogos, de tudo. Marcou-me também o fato de meu tio, irmão de meu pai, dizer-me que aquela seria a minha primeira Copa de verdade, e acabou sendo mesmo. No entanto, a seleção brasileira perdeu, como a gente já sabe. Em 2010, outra derrota, e agora, mais recentemente, em 2014…

Nunca vi a seleção de futebol mais vitoriosa de todos os tempos vencer uma Copa do Mundo. Se estou frustrado? Vou ser muito sincero: eu nem ligo! Sou um apaixonado por futebol, acompanho sempre. Certas partidas são para mim bem mais emocionantes que muitos filmes insossos, mas minha felicidade e minha tristeza não são reféns de um esporte. Se meu time conquista um título, é claro que fico satisfeito. É bom vencer, comemorar, mas a grande verdade é que eu não ganho nada quando meu time vence e não perco nada quando ele perde (a não ser que eu fosse muito idiota a ponto de ficar apostando dinheiro).

É tudo psicológico. Quando torço para um time, estou dizendo para meu subconsciente que devo ficar contente quando ele vence e aborrecido quando ele perde. Já fui assim, mas vamos combinar que ficar triste não é nada legal e decididamente nenhum time (nem seleção) tem o poder de me fazer feliz ou infeliz. E se já teve é porque eu lhe dei inconscientemente esse poder. Claro que quero que meu time vença, que a seleção brasileira vença, afinal, nós seres humanos somos inflados de ego e nunca queremos perder para ninguém, não importa o que seja. É por isso que só retiro a parte boa: se o time (ou seleção) vence, fico satisfeito (satisfação essa, tão momentânea, que no dia seguinte já acaba), mas se o time perde, não permito-me ficar triste.

Preciso dizer também que a seleção brasileira não me representa. A CBF é uma entidade privada que se apropriou do nome “Brasil”, mas o Brasil somos nós e não temos poder de decisão nenhum sobre quem preside a entidade, que lucra ano após ano em cima da nossa paixão por futebol, em cima dos atletas e nossa identificação como pátria. Afinal, futebol e Brasil ainda continuam sendo sinônimos um do outro. Sempre quis que nosso país fosse diretamente associado a outras coisas, como música, educação, sustentabilidade ambiental, ciência, cinema ou literatura, por exemplo. No entanto, parece que uma vez país do futebol, sempre país do futebol. E embora adore esse esporte, admito que isso pode ser ruim, como já está sendo, inclusive.

Ao contrário do que tentam nos fazer acreditar, não vivemos a maior crise política do país. Esse, definitivamente, não é o momento mais difícil que o Brasil já atravessou. Não esqueçamos da ditadura militar. O que são cinquenta anos para a História? Isso mesmo, nada! E tem mais, ela só acabou há trinta e um anos. Isso é menos que nada. A ferida ainda não cicatrizou, nossa “democracia” ainda é muito jovem e, graças a ela, podemos ganhar as ruas para manifestar contra o que quer que seja (ainda que abaixo de balas de borracha, bombas de efeito moral e gás de pimenta). Graças a ela, posso escrever neste blogue sobre política e você, caro(a) Leitor(a), pode ler sobre o que quiser. E foi nesse período tão tenebroso que a seleção brasileira teve suas gerações mais talentosas e vitoriosas. Foi em pleno regime militar que a seleção conquistou o tri, em 1970. Todas essas vitórias mantiveram muitas pessoas hipnotizadas. Não raramente, vejo reportagens tratando essas conquistas como uma espécie de consolação para o povo brasileiro que estava tão sofrido (quando não esteve?). Acho isso duplamente absurdo, primeiro porque é altamente pretensioso achar que títulos de torneios de futebol servem para consolar mazelas (embora alguns infelizmente tenham-se deixado consolar por isso) e segundo porque é um comportamento de alienados abstrair os problemas ao redor por causa de campeonatos de futebol. Sem contar que os militares souberam muito bem utilizar o tri como propaganda para enaltecer a ditadura e a noção de pátria que queriam incumbir no povo. Ou seja, durante muitos anos tivemos pouco pão e muito, muito circo.

Entretanto, vivemos sim outra crise política (quando é que não estamos vivendo uma?) e as derrotas no futebol não podem ser mais importantes que isso. O debate sobre quem deve ocupar o cargo de técnico não pode ser mais importante que o debate sobre nossos representantes em Brasília. Eu trocaria fácil essas cinco estrelas que só servem como ornamento na camisa da seleção por um país com mais educação, segurança, inclusão e cultura.

Acostumamo-nos mal, quer dizer, quem viu a seleção ganhar tantas vezes se acostumou mal – a minha geração, que não viu essas vitórias todas, já nasceu foi com mania de grandeza. Aprendemos, desde cedo, que a nossa seleção é a maior e a mais forte. Já foi, não é mais. O que não quer dizer que não volte a ser no futuro. Seria melhor e mais saudável se todos admitíssemos isso. Bom, muitos já admitem, mas continuam achando que a seleção brasileira vai vencer toda nova competição que enfrentar. Nós somos os únicos que insistimos em não enxergar o que o mundo inteiro já sabe: não somos mais os melhores e, quando entramos em qualquer torneio, não estamos nem sequer entre os favoritos. É preciso esperar e aceitar o pior. Não temos mais camisa e muito menos time para acreditar que seremos sempre finalistas. É preciso tolerar quando voltarmos para casa mais cedo e de mãos abanando. Admitir que a vida é cheia de reviravoltas: hoje estamos por baixo, mas amanhã podemos estar por cima novamente. O mundo inteiro aprendeu a jogar futebol estudando as gerações de seleções brasileiras; hoje não temos mais nada a ensinar, mas muitíssimo a aprender. É preciso descer do salto e submeter-se à condição de aprendiz.

Enquanto isso, segue todo mundo errando. A CBF com seus escândalos de corrupção que não são de hoje, mas que os bons resultados da seleção sempre ajudaram a mascarar; a comissão técnica claramente desatualizada com o que há de melhor no futebol no momento; a péssima safra de jogadores que também não ajuda; os próprios torcedores, que exaltam o futebol europeu mas que com dois resultados negativos já pedem a cabeça do técnico; além, claro, da imprensa esportiva, que alardeia toda e qualquer derrota como humilhante, vexatória e constrangedora. Eu não me sinto nada humilhado ou constrangido quando a seleção brasileira perde. Não fico com vergonha do resto do mundo. Para mim é infinitamente mais vergonhoso ser o 60° país em educação. Muito mais constrangedor é ter vinte e uma cidades entre as cinquenta mais violentas do mundo. Vexame para mim é ter a quarta maior população carcerária do mundo. Humilhação é saber que a cada vinte e sete horas acontece um assassinato contra pessoas LGBT no Brasil. As derrotas da seleção são o nosso menor problema, se é que se pode classificar isso como um problema.

Muitos vão dizer que não sou um torcedor de verdade e que não amo o futebol tanto quanto digo amar. Não importa, de mim eu é quem sei. Ademais, reitero que não há nada de humilhante em perder. As outras seleções não se sentem humilhadas quando tropeçam, e até as mais vitoriosas estão sempre tropeçando. Mal sabem elas o bem que esses tropeços fazem. O mesmo vale para os torcedores desses países. Nós só começamos a tropeçar de alguns anos para cá. Somos mimados, não queremos aceitar que outras seleções também brinquem com a taça de campeã. Somos tão malcriados que, quando a seleção vence, tá tudo ótimo, mas basta uma derrotinha para falarmos mal, fazermos piadas, desmerecer. Nós, brasileiros, somos os piores torcedores do mundo; as torcidas de times estrangeiros até brigam entre si de vez em quando, mas aqui, além disso, é comum ver torcidas depredando estádios quando os times perdem e torcedores à espera de jogadores no aeroporto para hostilizá-los. Só quando o time vence é que tudo é divino e maravilhoso. Com a seleção não é muito diferente, para muita gente qualquer derrota é motivo de demérito. Não há motivo para se envergonhar com o 7 a 1. Nossa seleção aplicou placares elásticos (alguns maiores que esse) em quase todos os seus rivais dentro de campo. Pergunta para o haitianos se eles estão envergonhados pelo 7 a 1 que eles levaram da seleção brasileira recentemente. Não estão, não. E não me venha com essa de que o Brasil é penta e que o Haiti não tem tradição. A seleção que conquistou o penta não é essa de hoje. Dos pentacampeões até que seria coerente cobrar que fizessem jus ao título, mas a geração atual ainda não conquistou nada e insistem em cobrá-la que honrem cinco títulos que não foram conquistados por ela.

Durante todos os anos de hegemonia da seleção brasileira, todos as outras seleções aprenderam que o importante é competir. Lição que a gente aprende quando criança nas aulas de educação física, mas que esquece quando cresce. No fundo, bem lá no fundo, eu ainda acredito que verei a seleção brasileira vencendo uma Copa do Mundo. Vai ser divertido, mas estou consciente de que, se ela ganhar, minha vida não vai mudar em nada, assim como não mudará se ela nunca mais conquistar um título. Alguém sempre tem que perder; se ganhássemos tudo, não teria a menos graça. O charme do esporte está exatamente no fato de saber que ninguém será invencível para sempre. Saber perder também é uma atitude de gente campeã, mas ser humilde, pelo visto, ninguém quer.

meu útero

Esse lance de que a inspiração só corresponde a um por cento do trabalho quando os outros noventa e nove por cento são de transpiração é muito verdade. Consegui ver isso melhor agora que tenho o blogue. Não adianta só ter a ideia de um tema interessante para o próximo texto e achar que metade do trabalho está feito. Muitas vezes, quando não é um tema do meu domínio, o empenho só aumenta, colocando a pesquisa como trabalho extra.

Escrever é realmente muito difícil, pois o texto é sempre mais interessante na nossa cabeça. Quando transposto para o computador (quanto menos papel, mais arvores!), é como se algo se perdesse nesse processo. Pode ser que gere um bom resultado, mas nunca como achávamos que ficaria.

Escrever também é físico, pelo menos comigo, que sou amador. Os profissionais, aqueles que escrevem sob encomenda e prazo pré-estabelecido, não devem sofrer tanto, mas eu sofro, mesmo só escrevendo quando quero. Sempre comparei minhas escritas a um parto. Sendo homem, só posso imaginar. Jamais saberei o que é parir uma pessoa. Mas isso são outros quinhentos. Estou falando de parir um texto. Como disse no inicio do parágrafo, é algo físico (além de mental). Uma tarde toda escrevendo me deixa nocauteado no final do dia. Nem quando trabalhava o dia inteiro em pé eu ficava tão cansado.

Quando o assunto é parir um filme, a inspiração corresponde ainda menos de um por cento. Praticamente tudo é transpiração. Ter a ideia do roteiro é o mais fácil. Escrevê-lo e depois reescrevê-lo dezenas de vezes geralmente corresponde a mais de um ano de trabalho. Captar recursos, montar uma equipe, ensaiar, filmar, pós-produzir, lançar, divulgar geram um trabalho tão grande que, sempre que enfrento uma produção, me pergunto se realmente quero continuar fazendo isso. Todo esse processo realmente gera uma crise existencial. Agora vou dissertar sobre o que deveria ter sido esse texto para no mínimo justificar o título. Para isso, preciso transcrever alguns trechos da entrevista de Tom Zé para seu livro ‘Tropicalista Lenta Luta’ (2003). Para quem não gosta de tergiversações, até o próximo texto.

A entrevista foi realizada no dia 22 de agosto de 2003 por Luiz Tatit e Arthur Nestrovski. A conversa editada em livro aparece dividida em diversas seções. Os trechos transcritos a seguir são do capítulo “Os Homens-fêmeos”:

[…] tem uma coisa na Bahia que é muito diferente, que a gente nunca pode explicar. É que o homem é mais feminino do que o homem do Sul. Isso é que é muito difícil de explicar. A mulher tem mais participação. O mundo é mais matriarcal; quer dizer, não é matriarcado, mas a mulher tem mais participação nas decisões e o homem é mais feminino. Essas duas coisas mudam tudo na maneira de você ver o mundo. […] No Nordeste tem isso: o homem era mais feminino, mais gracioso. […] O homem baiano é muito feminino e isso de alguma maneira aumenta o leque do olho. Fica mais observador. […] Você sabe que o lado feminino da gente é que é o lado artista, não é? O lado que tem a gravidez cósmica, que tem a intuição. Neusa (esposa de Tom Zé), por exemplo, é uma pessoa culta e ela mesmo me confessa de vez em quando: “Puxa vida, essa intuição sua é um pecado.” E a intuição é feminina.

Só depois que li essa entrevista foi que entendi a declaração dele em outra ocasião. Trata-se de sua participação no programa de Jô Soares, no dia 15 de abril de 2010, quando ele foi divulgar seu DVD ‘O Pirulito da Ciência’. Tom Zé foi aos estúdios de gravação vestido de saia e Jô quis saber o motivo. Ele disse: “Eu gosto de vir de saia porque eu posso não ter uma vagina, mas útero eu tenho. Eu sou mulher, sempre vivi na sociedade como uma mulher, sofrendo como mulher. Outro dia o João Gordo me chamou pra dizer ‘você é homossexual’ eu disse ‘não, eu sou mulher, é outra coisa’”. Em 30 de outubro de 2014 ele voltou ao Jô, dessa vez para lançar seu mais recente álbum, o ‘Vira Lata na Via Láctea’ e, mais uma vez afirmou: “Eu sempre fui um pouco mulher”.

Se Tom Zé, o pai da invenção, afirma que o nosso lado artista é o feminino, quem sou eu para discordar? A única coisa que posso dizer é que entendo muito bem quando ele fala que a mulher tem mais participação nas decisões do homem. Não sou baiano, mas sou nordestino. Seria esse o motivo da compreensão? Não sei, mas embora tenha um pai muito carinhoso, posso afirmar que minha mãe é quem está sempre presente. A participação dela na minha educação foi tão forte que praticamente anulou a participação do meu pai. Aprendi infinitamente mais com ela do que com ele. Minha mãe e eu quase não discordamos de nada no dia a dia, diferentemente do meu pai, detentor de um ponto de vista oposto ao meu em praticamente quase todo assunto. Não estou querendo diminuí-lo ou dizer que um é melhor do que o outro, ou que amo mais um do que outro. Ademais, minha forma de ver o mundo se aproxima muito mais do olhar da minha mãe. Também vejo isso em quase todos os meus amigos e acredito que não seja um fenômeno assim tão nordestino. Torço para que não. O mundo seria muito melhor.

No entanto, há algumas semanas, eu estava querendo escrever um texto sobre essas palavras de Tom Zé e não conseguia. Até sentei para escrever, mas as ideias ainda muito prematuras me fizeram abortar o texto. Foi quase como uma gravidez psicológica. Aquela em que você acredita estar gestante de um texto quando na verdade não está. Depois a inspiração (o meu lado feminino) penetrou novamente no meu cérebro e semeou a ideia de falar sobre o trabalho duro que é dar vida a esses embriões. Então, na próxima gestação, decidi que juntaria os dois temas. Não são temas exatamente univitelinos, mas achei que seria a última chance de falar sobre essas entrevistas. Ainda na conversa de 2010 com Jô Soares, Tom Zé disse: “Ideia precisa de silêncio. Ideia não gosta de bater papo. O sítio da ideia é o silêncio, até ela pesar no cérebro e você escrever sobre ela. Sofrer até acertar.” Esse silêncio é mesmo fundamental, sobretudo para mim que escrevo o texto mentalmente antes de entrar em trabalho de parto. Dessa forma, meu cérebro escreve quase o dia todo. Esse processo de ócio criativo me permite gerar a ideia no ventre. Bem, a ideia pesou no meu cérebro, escrevi e o texto nasceu, embora eu acredite que não acertei. Todo texto é como um filho que não pertence aos pais e sim ao mundo. Publicar é cortar o cordão umbilical. Depois disso, alguns fenecem, enquanto outros sobrevivem. Esses que permanecem, escrevem por si só a sua história, totalmente independentes de seus progenitores. Contudo, o que me interessa agora é justamente dar mais vazão ao meu lado artístico (ou feminino) e parir cada vez mais textos e filmes, ciente de que sim, eu tenho útero.

eduardo coutinho em 23 imagens

Sem a menor dúvida, Eduardo Coutinho afirmava que o documentário, em todo lugar do mundo sempre foi, é e será um tipo de cinema marginal. Isso não quer dizer que não se possa aumentar a margem. Sou obrigado a concordar com ele, mas esse tímido crescimento do documentário em todo o mundo, no Brasil principalmente, é algo real e que muito me agrada. Os brasileiros produzem os melhores documentários do mundo. Ponto. E Coutinho foi e continua sendo o maior entre os maiores. Já virou chavão dizer que seu nome é sinônimo de documentário e vice versa.

Todos os anos o vencedor do Oscar de Melhor Documentário deveria ser uma produção brasileira. Mas sabemos que gringos, assim como os brasileiros, são preguiçosos e não gostam de ler legendas. Quando um filme estrangeiro faz muito sucesso em seu país de origem, ele é vendido para outros países e dublado (muito pior do que aqui, por sinal) ou refilmado com atores de língua inglesa. Como não existe essa tradição de se dublar documentários, o mundo segue ignorando o fato dos nossos documentários serem os melhores. Apesar do reconhecimento internacional, os gringos jamais vão compreender a verdadeira importância da obra de Eduardo Coutinho. Ele afirmava fazer filmes para o Brasil, pois seu cinema tem como foco as palavras, que na nossa língua são muitas vezes impossíveis de serem traduzidas, como é o caso de alguns exemplos que ele mesmo adorava: ‘presidentinho’, ‘sobejo’.

Eu tento eliminar tudo que eu acho que é perfumaria. O elemento essencial é a palavra humana e o que acontece quando um cara filma outro.
Eduardo Coutinho

Coutinho não gostava de entrevistar pessoas que ele conhecia e muito menos pessoas públicas (que possuem reputação a preservar e muito a perder). Seu interesse estava nas pessoas anônimas, o chamado “peixe pequeno” (sem nome a zelar e nada a perder, e que por isso mesmo podiam contar tudo sem receio). Ele queria saber o que essas pessoas achavam delas mesmas e não o que os outros pensavam delas. Para ele, quase todo o cinema mundial (principalmente o documental) é feito na perspectiva do intelectual. O cineasta que quer mudar o mundo e o mundo que ele vai filmar, e que só procura aquele cuja fala lhe interessa para os fins a que se propôs. Quem não lhe interessa, ele exclui ou auxilia tentando fazer prevalecer seu ponto de vista. Coutinho não discutia com nem discordava de seus entrevistados porque achava que cabia ao público pensar sozinho sobre os assuntos abordados.

Essa vontade de mudar o mundo que se filma torna impossível de conhecer o que está sendo filmado, pois só é selecionado aquilo que previamente se quer mostrar. Coutinho achava que a visão militante podia ser mortal para o filme e que querer mudar o mundo era uma utopia maluca. Como mudar o lugar que está sendo filmado? Como fazer essas pessoas mudarem apenas fazendo um filme? Considerava isso de uma arrogância e um autoritarismo absurdo. Deve ser por isso que seus filmes estão preocupados com a história cotidiana, a história com h minúsculo, a história do povo miúdo. Não lhe interessava fazer filmes contra as comunidades que filmava, fossem elas de suburbanos, pobres, ricos etc. Na verdade, ele não tinha nenhuma pretensão de mudar o mundo. Estava preocupado em conhecer seus entrevistados e não prejudicá-los, pois essas pessoas estavam lhe dando um tesouro, que é a fala. Elas se entregavam diante da câmera, por isso ele não queria que se sentissem traídas ou lesadas quando vissem o filme. Era sua regra de conduta.

A luz do documentário é o enquadramento.
Eduardo Coutinho

Eduardo Coutinho tinha a tese de que duas tragédias impedem o documentário de ser apreciado pelas pessoas menos informadas, sobretudo os jovens. A primeira maldição é a de que documentário deve educar e informar, método que algumas produções do tipo e as reportagens de televisão seguem (embora achasse um tipo aceitável de documentário, não era o que lhe interessava). A segunda é a de que o documentário diz a verdade. Considerava esses dois pensamentos uma tragédia, algo ultrapassado, pois acreditava que documentários não possuem compromissos forçosos com a informação, com a instrução e sequer em dizer a verdade, já que esse tipo de filme apenas joga com a questão da verdade.

O filme de ficção, aquele com atores que são pagos para viver o papel e a paixão dos outros em enredos inventados, baseados em histórias reais ou não, sempre será a corrente cinematográfica principal. As pessoas vão ao cinema para ver isso e sonhar. Para ele, isso é uma necessidade humana e a maioria dos documentários passa a impressão de que não possuem esse elemento onírico. O que difere dos seus filmes, que também ficaram conhecidos como documentários ficcionais. Neles, é possível encontrar um efeito poético e se identificar com seus entrevistados a quem ele chamava de personagens, projetando-se na tela como no “sonho” do filme de ficção. Considerava que documentário não é um gênero cinematográfico e sim um sistema, defendendo também o pensamento de que tudo o que se passa entre quem está diante da câmera e quem está atrás é sempre ficcional, já que a memória é sempre inventada. Por esse motivo chamava suas filmagens de “jogos”.

Acham muitas vezes que a câmera pensa. A câmera não pensa. A câmera é burra, o computador é burro.
Eduardo Coutinho

Coutinho também é responsável pela realização de ‘Cabra Marcado Para Morrer’, o marco maior do documentário brasileiro que, na opinião do também cineasta Vladimir Carvalho, juntamente com ‘Vidas Secas’ de Nelson Pereira dos Santos e ‘Terra em Transe’ de Glauber Rocha, forma a tríade que vai dar o recado para a vida toda do que foi o Brasil do século vinte. ‘Cabra Marcado Para Morrer’ inaugurou um cinema que recupera o passado e o próprio material do passado, no caso, seu material filmado em 1964, e em 1984 elabora um pensamento teórico sobre a história. O filme quebra a ideia do documentário que separa o observador e analista do objeto examinado. Há uma relação direta entre o meio (as ligas camponesas de Galiléia e de Sapé) e o observador (Eduardo Coutinho). Não há distâncias e sim um fluxo entre os dois. Coutinho se desloca, vai até Elizabeth Teixeira, viúva do líder camponês João Pedro Teixeira, para recontar sua história e descobrir o que aconteceu com ela e seus filhos nesses vinte anos.

Esse deslocamento para ouvir pessoas também se tornou uma marca registrada, que se repetiu em ‘Santo Forte’ (moradores da favela Vila Parque da Cidade), ‘Babilônia 2000’ (moradores do Morro da Babilônia), ‘Edifício Master’ (moradores de um antigo e tradicional edifício situado em Copacabana), ‘Peões’ (trabalhadores da indústria metalúrgica do ABC) e ‘O Fim e o Princípio’ (moradores do Sítio Araçás, comunidade rural no sertão da Paraíba). Ademais, ele também se reinventou nos filmes ‘Jogo de Cena’ e ‘As Canções’, onde são as pessoas que se deslocam até ele.

Com suas produções, Eduardo também desenvolveu a chamada “arte do encontro”. Sua equipe de pesquisa entrevistava previamente as pessoas que viriam participar do filme, mas Coutinho só encontrava com esses personagens na hora da filmagem. Só fazia filmes porque não sabia o que ia acontecer. O processo lhe interessava, a fabricação. Com isso, o essencial na hora da conversa era a surpresa e o acaso.

Coutinho é um dos meus cineastas favoritos. Impossível não assistir a uma entrevista dele e não aprender. Uma pena que ele nos tenha deixado de uma forma tão absurda. Sou apenas um de seus muitos órfãos. Mesmo não tendo pretensões de fazer documentários, sua obra é uma das que mais me influencia. Sua teoria de que os melhores filmes do mundo não possuem artigo no título foi seguido à risca por ele (com exceção de ‘O Fio da Memória’, ‘O Fim e o Princípio’ e ‘As Canções’) e que pretendo seguir em sua homenagem. Além das vinte e três imagens, deixo para você cineasta, documentarista, fã de Eduardo Coutinho, cinéfilo, leigo, curioso, o curta-metragem ‘Coutinho Repórter’, em que ele fala sobre os anos em que trabalhou no programa Globo Repórter, em que, durante a ditadura, forjou um estilo e realizou obras de empenho social que, na época, a censura impedia o cinema de concretizar. Até a próxima, abraçaço.

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Não sei quem são os fotógrafos responsáveis pelas fotos, mas se você conhece ou fotografou alguma delas, é só deixar o nome com o número da foto para que sejam devidamente creditados.