meus livros favoritos de 2016

Tenho certeza de que 2016 foi o ano em que mais li até hoje. Essa afirmação pode soar mentirosa e contraditória quando comparo o número de livros lidos com os do ano anterior. Em 2015, eu li quarenta e seis títulos, em um total de onze mil novecentas e cinquenta e oito páginas. Enquanto que, em 2016, foram trinta e oito títulos, em um total de nove mil duzentas e trinta e nove páginas – o que dá uma média de vinte e cinco páginas por dia, abaixo das trinta e três diárias de 2015.

Os resultados foram bem inferiores, eu sei. Confesso que finalizei o ano frustrado, pois tinha expectativas maiores. No entanto, estou consciente de que um dos principais motivos (se não o maior) dessa diminuição foi o grande número de conteúdo online que eu consumi. Acompanhei muitos blogues em 2016, principalmente os de conteúdo político e feminista. Aprendi coisas como nunca antes e não me arrependo de ter dedicado tanto tempo a ler os textos de outros blogueiros e blogueiras, muito pelo contrário: neste ano, pretendo continuar acompanhando esses blogues e espero conhecer muitos outros.

Acredito muito na força da blogosfera e no poder do ativismo virtual. É importante consumir esse conteúdo alternativo escrito por minorias. Na atual conjuntura, é mais necessário do que nunca dar voz aos silenciados pelo Sistema. Essas leituras constituem uma parte importante da minha vida e sei que, se fosse possível contabilizar as páginas virtuais lidas por mim ano passado, conseguiria provar que foi o ano em que mais li. Porém, vou tratar no texto apenas dos livros.

Apesar de ter lido obras de nove nacionalidades, exatamente metade dos trinta e oito foram de títulos brasileiros e, é dessa metade, que saíram as leituras mais prazerosas. Não sei e não me atrevo a escrever resenhas, então irei tecer apenas breves comentários sobre cada livro da lista. Os títulos não estão classificados por ordem de importância, mas sim por ordem alfabética. São eles:

Abraçado ao Meu Rancor

Publicado originalmente em 1986, ‘Abraçado ao Meu Rancor’ foi minha terceira leitura concluída em 2016. Foi também o primeiro livro que li de João Antônio. Por ser um compêndio de contos, eu esperava ler com mais calma, como geralmente faço com títulos desse gênero (quase nunca leio mais de um conto por vez). No entanto, suas histórias do submundo me envolveram de tal forma, que quando me dei conta, já havia lido tudo.

A Divina Comédia dos Mutantes

Publicado originalmente em 1995, ‘A Divina Comédia dos Mutantes’ foi minha sexta leitura concluída em 2016. O livro de Carlos Calado é a biografia mais completa d’Os Mutantes, minha banda favorita. Foi outro livro que li muito rápido, principalmente por se tratar de um assunto de grande interesse. A pesquisa de Calado nos brinda com muitas curiosidades sobre os bastidores de gravações e, claro, nos apresenta aos vários pontos de vista sobre a polêmica saída de Rita Lee da banda.

Agosto

Publicado originalmente em 1990, ‘Agosto’ foi o primeiro livro que li em 2016. Foi uma das leituras mais gostosas do ano e se tornou um dos meus livros favoritos. A mescla entre ficção e realidade, usando como pano de fundo os acontecimentos que culminaram no suicídio de Getúlio Vargas, em agosto de 1954, foi o que me fascinou. Essa é apenas a terceira obra que leio de Rubem Fonseca e, a cada leitura nova, este autor ganha um lugar cada vez mais especial no meu coração. Agora, sempre que me lembro de ‘Agosto’, sinto uma imensa vontade de reler (e olha que só faz um ano que o folheei).

Cazuza - Só As Mães São Felizes

Publicado originalmente em 1997, ‘Cazuza – Só as Mães São Felizes’ foi minha segunda leitura concluída em 2016. Escrito por Lucinha Araújo e Regina Echeverria, a biografia conta a história de Cazuza desde seu nascimento até sua morte prematura. Também o li muito rápido, pois praticamente não o consegui largar enquanto não concluí. Por ser narrado através do ponto de vista de Lucinha, o livro é muito rico em detalhes, principalmente os capítulos que dizem respeito aos últimos dias de vida de Cazuza. Foi de longe a leitura mais emocionante do ano.

Contos Escolhidos

‘Contos Escolhidos’ é uma coleção de contos do Machado de Assis. Foi minha trigésima terceira leitura concluída em 2016. Li-o praticamente o ano inteiro, com muita calma. Como leio muitos livros ao mesmo tempo, quando chega dezembro, eu não inicio mais nenhuma leitura, pois trato de terminar aquelas que eu já iniciei durante o ano. Em dezembro, ainda faltavam alguns contos para concluir e, ao final de cada um deles, eu só conseguia imaginar o quanto ficariam bons se adaptados para o cinema em curtas-metragens. Inclusive, alguns contos desta coleção realmente ganharam adaptações, como foi o caso de ‘A Missa do Galo’ e ‘Uns Braços’.

Golpe 16

‘Golpe 16’ foi uma leitura especial, apesar de se tratar de um assunto amargo. O livro contém vinte e três artigos de blogueiros(as) e intelectuais de esquerda, além de um prefácio escrito pelo ex-presidente Lula e uma entrevista com a presidenta eleita Dilma Rousseff. A ideia do livro foi de Renato Rovai, editor do portal Fórum. Fui ao lançamento do livro em setembro, a convite da blogueira e feminista Lola Aronovich, que eu havia conhecido pessoalmente dias antes. Minha edição está autografada por ela. Além de Lola, há nele artigos de outras pessoas que eu admiro muito, como Cynara Menezes e Paulo Henrique Amorim. Foi minha vigésima oitava leitura concluída em 2016 e outro livro que li rápido, pois parei todas as leituras que havia iniciado para ler ‘Golpe 16’, um dos mais urgentes e importantes títulos publicados no ano passado.

Maldito

Publicado originalmente em 1998, ‘Maldito’ foi minha quarta leitura concluída em 2016. Minha edição, lançada em 2015 é, de longe, o livro mais lindo da minha coleção. O volume tem seiscentas e sessenta e seis páginas, que eu devorei em pouquíssimos dias. Escrita por André Barcinski e Ivan Finotti, a biografia é o título mais completo sobre José Mojica Marins, diretor de clássicos como ‘À Meia-Noite Levarei Sua Alma’, de 1963, e ‘Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver’, de 1966, ambos inclusos na minha lista de filmes favoritos. O livro aborda todas as fases da carreira de Mojica e, apesar de não ser chapa branca (pois aborda também os problemas do cineasta com o álcool, ostracismo, adultérios e o envolvimento com a indústria pornô), tudo é escrito com o maior respeito, tratando Marins como o verdadeiro gênio que é. Foi certamente uma das melhores biografias que já li na vida.

Menino de Engenho

Doidinho

Publicado originalmente em 1932, ‘Menino de Engenho’ foi minha décima primeira leitura concluída no ano passado e o primeiro livro de José Lins do Rego que li. A obra narra a história do menino Carlinhos, que vai morar no engenho do seu avô após perder a mãe assassinada pelo próprio pai. ‘Doidinho’, publicado pela primeira vez em 1933, foi minha vigésima quarta leitura concluída em 2016, e é a continuação de ‘Menino de Engenho’. Inclusive, começa exatamente onde o volume anterior termina. Esse segundo volume foi uma das leituras mais divertidas que fiz até hoje e, apesar de ser uma história triste em muitos momentos, a narrativa não perde o bom humor. Os dois fazem parte do “ciclo da cana-de-açúcar”, composta ainda por ‘Banguê’, publicado em 1934, ‘O Moleque Ricardo’, lançado em 1935, e ‘Usina’, lançado em 1936, títulos que eu pretendo ler muito em breve.

Revisao Crítica do Cinema Brasileiro / O Século do Cinema / Revolução do Cinema Novo

Essa trilogia glauberiana é formada por ‘Revisão Crítica do Cinema Brasileiro’, publicado originalmente em 1963, ‘O Século do Cinema’, de 1983, e ‘Revolução do Cinema Novo’, de 1981. Eles foram minhas leituras de número vinte e dois, trinta, e trinta e um de 2016, respectivamente. São livros escritos para quem realmente ama cinema, sobretudo o brasileiro. Glauber Rocha é meu cineasta favorito e tenho muito interesse por tudo o que diz respeito à sua vida e obra. Nenhum outro diretor me influenciou ou influencia tanto quanto ele. ‘Revolução do Cinema Novo’ trata do maior movimento cinematográfico da história do nosso país e foi o livro de cinema mais importante que já li.

Sargento Getúlio

Publicado originalmente em 1971, ‘Sargento Getúlio’ foi minha décima leitura concluída em 2016, e meu primeiro livro de João Ubaldo Ribeiro. Esse era um título que eu já queria ler há muitos anos, desde que assisti sua adaptação cinematográfica de mesmo nome de 1983, dirigido por Hermanno Penna, com Lima Duarte no papel do protagonista-título. Apesar de ser um livro pequeno, algumas passagens foram sabiamente cortadas no filme. Não por serem ruins, mas por não funcionarem tão perfeitamente no cinema quanto na literatura. Apesar disso, é uma das adaptações mais fiéis que já assisti (Ubaldo também assinou o roteiro) e tanto o filme quanto o livro fazem parte agora da minha lista de obras favoritas.

Minha meta inicial era ler cinquenta livros. No entanto, me dei conta de que um ano tem cinquenta e duas semanas, então esse se tornou o número mágico. Como vocês podem ver, não consegui alcançar nenhum dos dois. Quem sabe em 2017? Gosto de ler com calma e estou consciente de que ler muito rápido não é algo tão bom. Porém, também tenho que lutar contra o fato de que só viverei um determinado número de anos. Esse sentimento gera emoções contraditórias dentro de mim. Por já saber que não vou conseguir ler tudo o que quero, eu poderia muito bem ler livros aleatoriamente. Contudo, tento ser seletivo na maior parte das vezes, mas confesso que também gosto de ler ao acaso. Aprecio muito leituras estranhas, de títulos que quase ninguém ouviu falar.

Para esse ano, gostaria de convidar vocês a participarem do #DesafioLivrosBR do blogue 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer. O desafio consiste em ler, em 2017, doze livros brasileiros de diferentes categorias. Cliquem aqui no link para mais informações. É a primeira vez que participarei de um desafio literário e estou bastante entusiasmado. Segundo a Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2015, o brasileiro lê, em média, apenas dois livros inteiros por ano. Mais do que um país que lê pouco, o Brasil é um país que se lê pouco. Por isso, considero iniciativas como essa muito importantes.

Para finalizar, deixo abaixo o arquivo em PDF de ‘GOLPE: Antologia Manifesto’, obra que reúne cento e vinte artistas contra o golpe acometido contra a nossa democracia no ano passado. Foi uma das minhas leituras de 2016 e cito-o aqui nas menções honrosas. Espero que essa lista possa inspirar a leitura de muitos de vocês. Não se esqueçam de comentar quais desses títulos vocês já leram, quais querem ler e, claro, que livros vocês me indicam para 2017. Até a próxima, abraçaço.

GOLPE: Antologia Manifesto

Anúncios

finais abertos

[contém revelações de enredo]

Lembro que, quando assisti ‘Central do Brasil’ com meu pai, ele se mostrou muito decepcionado com o final. Ele não se conformou em esperar quase duas horas para o filme acabar e Josué não encontrar o pai dele. E Dora? Por que ela não ficou com o menino? Tempos depois, assistimos juntos ‘Que Horas Ela Volta?’. Pelo envolvimento dele com os personagens durante todo o filme, deu para perceber que ele estava gostando muito. No entanto, quando a projeção terminou e eu lhe perguntei se ele havia gostado, ele apenas se limitou a dizer: que final feio. Conheço bem o meu pai, e não foi necessário lhe fazer perguntas para descobrir o que ele havia detestado. Foi difícil para ele ver a personagem Val terminar desempregada. E Jéssica, conseguiu ingressar na graduação?

Quando fui assistir ‘Aquarius’ no cinema, eu não estava acompanhado de ninguém. Cheguei cedo, com medo de não conseguir ingresso (eu sempre acho que não tem mais ingresso). Paguei minha entrada e fiquei esperando o filme que ainda ia demorar para começar, sentado em um banquinho do lado de fora da sala. Nesse mesmo banco estava sentada uma senhora idosa rodeada de sacolas plásticas lendo uma notícia em um jornal impresso que puxou conversa comigo. Contou-me de uma viagem que havia feito recentemente e que, devido a ela, estava usando bengala, pois havia andado tanto que ainda estava com as pernas cansadas. Era início de tarde e, segundo ela, já estava na rua desde de manhã cedinho. Ademais, ela me disse que, quando acabasse ‘Aquarius’, ainda iria ver uma mostra de filmes LGBTs que estava acontecendo no centro cultural ao lado. Confesso que fiquei com inveja de sua vitalidade. Ela até me convidou para lhe fazer companhia durante a mostra, mas quando me entregou a programação, desisti de ir por ser composta apenas de filmes que eu já havia assistido.

No pouco tempo em que ficou do meu lado, ouvi essa senhora disparar o maior número de histórias por minuto que eu já tive oportunidade de presenciar, mas tenho que admitir que estava apreciando sua companhia. Era uma pessoa muito inteligente, simpática e agradável (mesmo que tenha me assustado com seu ódio quase doentio por Dilma Rousseff, em quem, segundo ela, gostaria de dar uma surra). A senhora saiu de onde eu estava para comprar uma água e uma moça bonita e educada que havia sentado perto de nós puxou assunto comigo. Ela me contou que era atriz e eu lhe disse que fazia cinema. Conversamos então sobre testes de elenco, preparações de elenco e produções cinematográficas locais. Apesar de rápida, também foi uma conversa muito agradável. Assim como a senhora idosa e eu, ela também estava esperando a próxima sessão de ‘Aquarius’ começar.

Sem que eu nada perguntasse, a moça comentou que a atuação de Sônia Braga estava maravilhosa. Só então lhe perguntei se já havia assistido ao filme, ao que ela me revelou que aquela seria a sua terceira sessão, mas ainda não a última. Com todo o cuidado do mundo para mudar de assunto, tentei falar de outras coisas com medo de que ela me revelasse algo do filme antes mesmo de eu assisti-lo. Ela não revelou nada, mas do alto de sua empolgação, comentou: “Já estou esperando a continuação”. Como assim seria feita uma continuação de ‘Aquarius’ e eu não estava sabendo? Perguntei-lhe se ela havia visto alguma notícia sobre isso e ela negou. Ela não tinha provas de que seria produzida uma continuação, mas tinha convicções, pois reforçou sua tese: “Do jeito que o filme termina é impossível não ter uma continuação, tem que ter um ‘Aquarius 2′”. Eu nem havia assistido ao filme ainda, mas naquele exato momento eu soube que se tratava de um final aberto. Assim como a moça, que não sei o nome, pois acabamos não nos apresentando, eu não tinha provas, mas tinha convicções de que Kleber Mendonça Filho não faria uma continuação, e claro, lhe expus meu posicionamento. No entanto, a moça estava certa de seu ponto de vista tanto quanto eu estava do meu. As pessoas então começaram a entrar na sala e eu me apressei para entrar também para garantir um bom lugar. A moça, a senhora e eu sentamos em lugares diferentes e nunca mais nos encontramos. Porém, é preciso registrar que em algo eu e a moça concordamos: Sônia Braga está maravilhosa!

Minha cinefilia começou muito cedo. Eu já era cinéfilo antes mesmo de saber que essa palavra existia, e desde o início cultivei um fascínio por finais abertos. ‘Central do Brasil’ foi exibido pela primeira vez em uma mostra regional de cinema na Suíça em 16 de janeiro de 1998. No dia 19 de janeiro foi exibido no Festival Sundance de Cinema nos Estados Unidos e no dia 14 de fevereiro no Festival de Berlim, de onde saiu consagrado com o Urso de Ouro de Melhor Filme. O lançamento no Brasil ocorreu apenas no dia 3 de abril do mesmo ano. Eu tinha então quatro anos de idade. Lógico que eu só fui tomar conhecimento do filme anos depois. Cresci com ele no meu imaginário, assistindo-o repetidas vezes na Sessão da Tarde. Até hoje é um dos meus filmes favoritos, embora seja completamente diferente do tipo de filmes que gosto de ver atualmente. Claro que há um toque de nostalgia em tudo isso. Todavia, Fernanda Montenegro continua sendo minha atriz favorita, o que não se deve apenas por esse trabalho.

Não posso afirmar o ano em que vi ‘Central do Brasil’ pela primeira vez, mas sei que eu tinha por volta de dez anos, não mais que isso. Vinicius de Oliveira tinha apenas doze quando interpretou Josué no filme. Hoje, ele não é assim tão mais velho do que eu e, embora não façamos parte da mesma geração, de uma forma ou de outra, crescemos “juntos”. Durante esses anos todos, me peguei várias vezes pensando no que haveria acontecido com Dora e Josué, mas quando revejo o filme hoje em dia, nem consigo considerar mais que ele tenha um final aberto, pelo menos não tão aberto assim.

O filme de Walter Salles tem um roteiro clássico, nos apresenta uma jornada do herói com seus três atos, pontos de virada, evolução, clímax e resolução da história. Considero-o agora um filme quase “fechado”. Dora é uma vigarista que se dispõe a viajar com Josué até o nordeste do Brasil em busca do pai do garoto. Eles viajam, tornam-se amigos e passam por situações que mudam suas formas de encarar a vida. Não conseguem encontrar o pai de Josué, mas encontram os irmãos do garoto, que também são sua família. A missão de Dora está cumprida. Sei que é difícil encarar a separação dos protagonistas, mas é preciso seguir em frente. O que aconteceu com Dora, se Josué encontrou o pai ou se eles dois voltaram a se encontrar novamente, sinceramente, não importa. O filme apenas se propõe a nos apresentar esse pequeno período da vida dos dois personagens, esse momento chave, essa experiência que resultou na transformação de ambos, tornando-os pessoas melhores e mais fortes. E praticamente tudo que eu disse sobre ‘Central do Brasil’ pode ser aplicado a ‘Que Horas Ela Volta?’ e ‘Aquarius’.

Como roteiro é uma das minhas áreas de atuação, estou sempre estudando e pesquisando sobre. Já li praticamente todos os manuais de roteiro disponíveis no país e posso afirmar que eles não me ajudaram, muito pelo contrário. Manuais são ótimos para quem quer entender o que é um roteiro, para quem quer aprender como ler um roteiro, para quem quer conhecer a formatação de um roteiro, mas são igualmente péssimos na tentativa de ensinar como escrever um. Além de serem livros muito parecidos, alguns quase cópias idênticas, castram a criatividade de um roteirista. Apontam quantos atos um roteiro deve ter, quantas páginas devem conter em cada ato, a duração máxima que um filme deve respeitar, onde devem ser apresentados os pontos de virada, onde deverá ser apresentado o clímax, a forma de apresentar um personagem, a forma de estabelecer um conflito, tudo. Se todos seguissem esses manuais, todos os filmes seriam praticamente iguais. E o que é mais hipócrita nessa história toda é que os prêmios de melhor roteiro quase sempre são entregues para filmes que vão contra essas regras, que subvertem as formas tradicionais de se contar uma história. É como se esses manuais nos ensinassem a como não escrever um roteiro. Acontece, caríssimos, que prêmios não geram bilheteria, então os estúdios seguem impondo essa forma clássica que eu prefiro chamar de forma engessada de escrever roteiros.

Um centenário foi mais do que suficiente para engessar também a forma do público de consumir cinema. Os manuais servem para corresponder a todas as expectativas de quem assiste ao filme. Durante muito tempo, esses manuais só serviram para me deixar inseguro com tudo o que eu escrevia. Eu pensava que se eu não os seguisse à risca, minhas histórias iam ser consideradas péssimas. Antes de ler esses livros eu me sentia muito mais livre e tinha mais coragem de arriscar. Hoje eles ainda são um fantasma, mas já não os leio mais e tento esquecê-los. Agora leio livros de edição e montagem, pois eles não estão preocupados em apresentar uma fórmula, e sim em nos mostrar várias formas diferentes de construir uma mesma cena. E claro, sigo firme no melhor método de aprendizado de todos: assistindo ao maior número de filmes diferentes possível.

Entre as muitas barbaridades que já li em manuais de roteiro, algumas me chamaram mais atenção. Em um deles li que um filme não pode ter mais de duas horas de duração, que o final deve ser sempre feliz, pois filmes tristes deixam o público frustrado, que o filme deve sempre ter um clímax a poucos minutos do fim, que se eu estou escrevendo um roteiro é porque estou pensando em vendê-lo por uma boa quantia em dinheiro e que a melhor forma de conseguir isso é dando ao público o que ele quer ver. Sou contra todas essas estratégias comerciais. O espectador está muito acomodado; é preciso reeducá-lo apresentando coisas novas e não somente o que ele acha que quer. Este é um trabalho difícil, e da forma como o cérebro de boa parte do público está atrofiado, pode ser tarde demais para conseguir reverter essa situação.

O resultado disso é um público preguiçoso que não consegue nem realizar o esforço de fazer uso do belo presente que filmes com finais abertos nos proporcionam. Para quê imaginar o que aconteceu com Clara de ‘Aquarius’ se eu posso esperar uma sequência que responda minhas dúvidas? Esse exercício gostoso de dar continuidade às histórias dos filmes quando eles acabam eu aprendi há muito tempo com ‘Central do Brasil’. Na minha continuação, Dora e Josué nunca mais se reencontraram. Ela morreu sozinha sem nunca conseguir casar e Josué nunca encontrou o pai. Consigo até imaginar que Irene, personagem de Marília Pêra, também terminou sozinha, embora ainda tenha se relacionado com alguns homens, mas nenhum resultando em um relacionamento duradouro. Em minha continuação de ‘Que Horas Ela Volta?’ de Anna Muylaert, Val, personagem de Regina Casé, conseguiu um novo emprego e mesmo com todas as dificuldades, realizou o sonho de ver a filha formada. Jéssica, personagem de Camila Márdila, com o bom emprego que conseguiu, deu uma boa casa à sua mãe, que não precisou mais trabalhar graças ao ótimo salário da filha. Para Clara, personagem de Sônia Braga em ‘Aquarius’, não construí uma história muito otimista. Acredito que ela tenha se saído vitoriosa, mas só depois de muitos anos com o processo correndo na lenta Justiça de nosso país. O sofrimento foi longo, mas ela também causou muita dor de cabeça aos donos da construtora.

Longe de mim defender que todos os finais devam ser abertos. Esse tipo de desfecho deve ser apenas uma forma entre várias outras de se contar uma história. Que finais assim não sejam usados como justificativas para classificar um filme como ruim. O anticlímax proposital também tem o seu valor. A supervalorização da expectativa correspondida deveria ser substituída pela surpresa. O público tem que sair de sua zona de conforto e abandonar esse olhar que não se permite enxergar outras possibilidades. Nem todos os filmes precisam de uma continuação, pois eles podem (e devem) continuar dentro de nós, em nossas mentes. É divertido se surpreender, é divertido ser apresentado a coisas novas que ainda não sabemos que gostamos. Não tenho problemas com finais felizes, mas tenho pavor do “viveram felizes para sempre”. É o mesmo que matar os personagens. A vida não é feita só de sorrisos. É bom ver nossos heróis vencerem seus desafios, mas o último minuto do filme não pode significar o fim deles – a não ser que eles morram. Se o roteirista decidir por não ceifar a vida de suas criações, assim como nós, suas jornadas “continuam”, pois no fim das contas, enquanto não morrermos, todo dia é um final em aberto.

pedantismo futebolístico

Eu nem havia aprendido a falar quando a seleção brasileira conquistou o tetra em 1994 e ainda era uma criança quando conquistaram o penta em 2002. Meu pai tem boas recordações da Copa de 1994 e sempre fala com saudosismo da dupla Romário e Bebeto, que não cheguei a ver jogando. No início da adolescência, ainda acompanhei as últimas partidas de Romário em busca do seu tão desejado milésimo gol. Da Copa de 1998, em que o Brasil foi derrotado na final, não me lembro de absolutamente nada.

Minha recordação mais antiga de uma Copa do Mundo é a final da de 2002. Minha memória não vai além do último jogo e, mesmo assim, é constituída de lembranças muito turvas deste momento. Consigo lembrar que, na época, vários homens imitavam o estranho corte de cabelo do Ronaldo (chamado de “estilo cascão”). Recordo ainda de um programa do Domingo Legal, ainda com o Gugu como apresentador, pagando algum valor para que as mulheres da plateia cortassem o cabelo como o do Ronaldo no palco, ao vivo, mas não sei se isso foi durante ou depois da Copa, se realmente aconteceu, se é invenção da minha cabeça ou uma confusão com outra lembrança. Por favor, se alguém lembrar disso, corrija-me nos comentários se eu estiver errado. Recordo ainda que, no jogo da final, algumas pessoas estavam aqui em casa, mas só consigo me lembrar do meu pai, não relembro mais quem eram os outros presentes, na verdade, nem consigo visualizar o rosto delas na minha memória. Assim fica difícil de identificar, embora arrisque afirmar que eram meus tios. Enfim, esses detalhes não importam.

Mencionei isso tudo para dizer que a seleção já conquistou dois títulos de Copa do Mundo desde que nasci, ainda que não tenha visto nenhum. Não consigo considerar a Copa de 2002. Quatro anos depois, na Copa de 2006, eu torci e acompanhei de verdade. Lembro-me dos jogos, de tudo. Marcou-me também o fato de meu tio, irmão de meu pai, dizer-me que aquela seria a minha primeira Copa de verdade, e acabou sendo mesmo. No entanto, a seleção brasileira perdeu, como a gente já sabe. Em 2010, outra derrota, e agora, mais recentemente, em 2014…

Nunca vi a seleção de futebol mais vitoriosa de todos os tempos vencer uma Copa do Mundo. Se estou frustrado? Vou ser muito sincero: eu nem ligo! Sou um apaixonado por futebol, acompanho sempre. Certas partidas são para mim bem mais emocionantes que muitos filmes insossos, mas minha felicidade e minha tristeza não são reféns de um esporte. Se meu time conquista um título, é claro que fico satisfeito. É bom vencer, comemorar, mas a grande verdade é que eu não ganho nada quando meu time vence e não perco nada quando ele perde (a não ser que eu fosse muito idiota a ponto de ficar apostando dinheiro).

É tudo psicológico. Quando torço para um time, estou dizendo para meu subconsciente que devo ficar contente quando ele vence e aborrecido quando ele perde. Já fui assim, mas vamos combinar que ficar triste não é nada legal e decididamente nenhum time (nem seleção) tem o poder de me fazer feliz ou infeliz. E se já teve é porque eu lhe dei inconscientemente esse poder. Claro que quero que meu time vença, que a seleção brasileira vença, afinal, nós seres humanos somos inflados de ego e nunca queremos perder para ninguém, não importa o que seja. É por isso que só retiro a parte boa: se o time (ou seleção) vence, fico satisfeito (satisfação essa, tão momentânea, que no dia seguinte já acaba), mas se o time perde, não permito-me ficar triste.

Preciso dizer também que a seleção brasileira não me representa. A CBF é uma entidade privada que se apropriou do nome “Brasil”, mas o Brasil somos nós e não temos poder de decisão nenhum sobre quem preside a entidade, que lucra ano após ano em cima da nossa paixão por futebol, em cima dos atletas e nossa identificação como pátria. Afinal, futebol e Brasil ainda continuam sendo sinônimos um do outro. Sempre quis que nosso país fosse diretamente associado a outras coisas, como música, educação, sustentabilidade ambiental, ciência, cinema ou literatura, por exemplo. No entanto, parece que uma vez país do futebol, sempre país do futebol. E embora adore esse esporte, admito que isso pode ser ruim, como já está sendo, inclusive.

Ao contrário do que tentam nos fazer acreditar, não vivemos a maior crise política do país. Esse, definitivamente, não é o momento mais difícil que o Brasil já atravessou. Não esqueçamos da ditadura militar. O que são cinquenta anos para a História? Isso mesmo, nada! E tem mais, ela só acabou há trinta e um anos. Isso é menos que nada. A ferida ainda não cicatrizou, nossa “democracia” ainda é muito jovem e, graças a ela, podemos ganhar as ruas para manifestar contra o que quer que seja (ainda que abaixo de balas de borracha, bombas de efeito moral e gás de pimenta). Graças a ela, posso escrever neste blogue sobre política e você, caro(a) Leitor(a), pode ler sobre o que quiser. E foi nesse período tão tenebroso que a seleção brasileira teve suas gerações mais talentosas e vitoriosas. Foi em pleno regime militar que a seleção conquistou o tri, em 1970. Todas essas vitórias mantiveram muitas pessoas hipnotizadas. Não raramente, vejo reportagens tratando essas conquistas como uma espécie de consolação para o povo brasileiro que estava tão sofrido (quando não esteve?). Acho isso duplamente absurdo, primeiro porque é altamente pretensioso achar que títulos de torneios de futebol servem para consolar mazelas (embora alguns infelizmente tenham-se deixado consolar por isso) e segundo porque é um comportamento de alienados abstrair os problemas ao redor por causa de campeonatos de futebol. Sem contar que os militares souberam muito bem utilizar o tri como propaganda para enaltecer a ditadura e a noção de pátria que queriam incumbir no povo. Ou seja, durante muitos anos tivemos pouco pão e muito, muito circo.

Entretanto, vivemos sim outra crise política (quando é que não estamos vivendo uma?) e as derrotas no futebol não podem ser mais importantes que isso. O debate sobre quem deve ocupar o cargo de técnico não pode ser mais importante que o debate sobre nossos representantes em Brasília. Eu trocaria fácil essas cinco estrelas que só servem como ornamento na camisa da seleção por um país com mais educação, segurança, inclusão e cultura.

Acostumamo-nos mal, quer dizer, quem viu a seleção ganhar tantas vezes se acostumou mal – a minha geração, que não viu essas vitórias todas, já nasceu foi com mania de grandeza. Aprendemos, desde cedo, que a nossa seleção é a maior e a mais forte. Já foi, não é mais. O que não quer dizer que não volte a ser no futuro. Seria melhor e mais saudável se todos admitíssemos isso. Bom, muitos já admitem, mas continuam achando que a seleção brasileira vai vencer toda nova competição que enfrentar. Nós somos os únicos que insistimos em não enxergar o que o mundo inteiro já sabe: não somos mais os melhores e, quando entramos em qualquer torneio, não estamos nem sequer entre os favoritos. É preciso esperar e aceitar o pior. Não temos mais camisa e muito menos time para acreditar que seremos sempre finalistas. É preciso tolerar quando voltarmos para casa mais cedo e de mãos abanando. Admitir que a vida é cheia de reviravoltas: hoje estamos por baixo, mas amanhã podemos estar por cima novamente. O mundo inteiro aprendeu a jogar futebol estudando as gerações de seleções brasileiras; hoje não temos mais nada a ensinar, mas muitíssimo a aprender. É preciso descer do salto e submeter-se à condição de aprendiz.

Enquanto isso, segue todo mundo errando. A CBF com seus escândalos de corrupção que não são de hoje, mas que os bons resultados da seleção sempre ajudaram a mascarar; a comissão técnica claramente desatualizada com o que há de melhor no futebol no momento; a péssima safra de jogadores que também não ajuda; os próprios torcedores, que exaltam o futebol europeu mas que com dois resultados negativos já pedem a cabeça do técnico; além, claro, da imprensa esportiva, que alardeia toda e qualquer derrota como humilhante, vexatória e constrangedora. Eu não me sinto nada humilhado ou constrangido quando a seleção brasileira perde. Não fico com vergonha do resto do mundo. Para mim é infinitamente mais vergonhoso ser o 60° país em educação. Muito mais constrangedor é ter vinte e uma cidades entre as cinquenta mais violentas do mundo. Vexame para mim é ter a quarta maior população carcerária do mundo. Humilhação é saber que a cada vinte e sete horas acontece um assassinato contra pessoas LGBT no Brasil. As derrotas da seleção são o nosso menor problema, se é que se pode classificar isso como um problema.

Muitos vão dizer que não sou um torcedor de verdade e que não amo o futebol tanto quanto digo amar. Não importa, de mim eu é quem sei. Ademais, reitero que não há nada de humilhante em perder. As outras seleções não se sentem humilhadas quando tropeçam, e até as mais vitoriosas estão sempre tropeçando. Mal sabem elas o bem que esses tropeços fazem. O mesmo vale para os torcedores desses países. Nós só começamos a tropeçar de alguns anos para cá. Somos mimados, não queremos aceitar que outras seleções também brinquem com a taça de campeã. Somos tão malcriados que, quando a seleção vence, tá tudo ótimo, mas basta uma derrotinha para falarmos mal, fazermos piadas, desmerecer. Nós, brasileiros, somos os piores torcedores do mundo; as torcidas de times estrangeiros até brigam entre si de vez em quando, mas aqui, além disso, é comum ver torcidas depredando estádios quando os times perdem e torcedores à espera de jogadores no aeroporto para hostilizá-los. Só quando o time vence é que tudo é divino e maravilhoso. Com a seleção não é muito diferente, para muita gente qualquer derrota é motivo de demérito. Não há motivo para se envergonhar com o 7 a 1. Nossa seleção aplicou placares elásticos (alguns maiores que esse) em quase todos os seus rivais dentro de campo. Pergunta para o haitianos se eles estão envergonhados pelo 7 a 1 que eles levaram da seleção brasileira recentemente. Não estão, não. E não me venha com essa de que o Brasil é penta e que o Haiti não tem tradição. A seleção que conquistou o penta não é essa de hoje. Dos pentacampeões até que seria coerente cobrar que fizessem jus ao título, mas a geração atual ainda não conquistou nada e insistem em cobrá-la que honrem cinco títulos que não foram conquistados por ela.

Durante todos os anos de hegemonia da seleção brasileira, todos as outras seleções aprenderam que o importante é competir. Lição que a gente aprende quando criança nas aulas de educação física, mas que esquece quando cresce. No fundo, bem lá no fundo, eu ainda acredito que verei a seleção brasileira vencendo uma Copa do Mundo. Vai ser divertido, mas estou consciente de que, se ela ganhar, minha vida não vai mudar em nada, assim como não mudará se ela nunca mais conquistar um título. Alguém sempre tem que perder; se ganhássemos tudo, não teria a menos graça. O charme do esporte está exatamente no fato de saber que ninguém será invencível para sempre. Saber perder também é uma atitude de gente campeã, mas ser humilde, pelo visto, ninguém quer.

os dez melhores livros que li em 2015

Saímos de 2015, mas 2015 não saiu de nós. Mesmo que você, Leitor, não tenha realizado grandes feitos em sua vida nesse ano que se passou (esse foi o meu caso), assim como eu, viu muitas coisas acontecerem no nosso país e no mundo. Grandes ídolos morreram, grandes filmes e discos foram lançados. Novos escândalos de corrupção vieram à tona, ataques terroristas foram realizados, aconteceram diversos eventos esportivos, eventos culturais e festivais de música. Vivemos para ver tudo de bom e de ruim que ocorreu no ano passado. Seja com esses eventos globais ou especificamente localizados, 2015 fará para sempre parte da nossa tragetória, afinal, passamos por ele e estamos aqui para contar a história. Trata-se de um ano que particularmente me marcou pelas leituras que fiz. O conhecimento adquirido no ano passado é algo que vai continuar comigo para o resto da vida, algo que ninguém pode me tirar. Parece um tremendo clichê, mas é verdade. Também foi o ano em que mais li na minha vida: quarenta e seis livros, um total de onze mil novecentas e cinquenta e oito páginas, com média de trinta e três páginas por dia segundo meu perfil no Skoob. Infelizmente, não contei as páginas dos livros para saber se esses números estavam corretos (afinal, sou de humanas), mas resolvi escrever um post sobre os dez melhores livros que li ano passado. São eles, em ordem alfabética:

Discos

Título: Discos
Autor: Arnaldo Cohen, Céline Imbert, Eduardo Giannetti, Lia Rodrigues, Luiz Tatit, Marcelo Coelho, Tom Zé
Primeira publicação: 2003
Minha edição: PubliFolha

.

‘Discos’ era um livro que tinha na minha estante já fazia certo tempo, mas que só ano passado resolvi ler. Achava que não ia gostar da leitura, mas me enganei redondamente. O livro me fisgou logo na primeira página. Nele, sete autores dissertam sobre os dez discos que levariam para uma ilha deserta. Sou apaixonado por listas, por isso devo ter gostado tanto de ler algumas feitas por pessoas que admiro, sem contar que, ao longo dos seus mais de setenta capítulos, acaba se tornando um ótimo livro para se pegar dicas de discos para ouvir. Este também foi o livro que me fez conhecer o grande Luiz Tatit. Falei sobre isso em um dos primeiros posts do Satãnatório: o ‘eterno ignorante, parte 1’.

Elite da Tropa

Título: Elite da Tropa
Autor: Luiz Eduardo Soares, André Batista, Rodrigo Pimentel
Primeira publicação: 2005
Minha edição: Objetiva

.

Gosto muito do filme ‘Tropa de Elite’ (2007), do diretor José Padilha, e admito que esse livro chegou até mim graças à sua adaptação cinematográfica. No princípio, não tive vontade nenhuma de ler ‘Elite da Tropa’, pois acreditava que devia ser muito parecido com o longa-metragem. Todavia, depois de saber que muitos detalhes são diferentes na obra impressa, decidi ler e me surpreendi. Constatei que, de fato, neste caso, livro e filme parecem ser duas coisas totalmente distintas, incluindo aqui a estrutura narrativa. O escrito está dividido em duas partes. A primeira conta histórias sobre o Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), considerado um esquadrão de elite na Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Baseado em relatos reais de ex-policiais do BOPE, o livro mostra os oficiais como uma tropa aparentemente incorruptível e extremamente violenta. Desse momento inicial foram retirados os personagens do filme e algumas histórias que o compõe. Contudo, a segunda parte, que fala sobre o plano para assassinar Leonel Brizola, na época governador do Rio de Janeiro, é o suprassumo do livro, e nada disso está no longa. Esta outra seção com certeza daria um excelente roteiro se fosse adaptado para o cinema. Já havia falado da minha edição do livro no post ‘livros sebosos’.

Encontros Tom Zé

Título: Encontros – Tom Zé
Autor: Tom Zé, Heyk Pimenta
Primeira publicação: 2011
Minha edição: Azougue

.

.

Primeiro tenho que contar como encontrei essa pérola. Jorge du Peixe, vocalista da Nação Zumbi, publicou uma foto do livro em seu perfil no Instagram com a seguinte legenda: “Livrinho fuderoso da coleção Encontros. Entrevistas antológicas com Tom Zé, o mestre dos mestres e punk mais original do Brasil.” Dias depois, eu já estava com o livro em mãos e me segurando para não ler de uma só vez. Sempre fico triste após terminar de ler uma boa publicação por completo. Quando mais tempo eu convivo com o livro, melhor. Mesmo assim, terminei logo, tanto por ser curto, quanto por ser sobre Tom Zé. Tenho que concordar com du Peixe, o livro é mesmo fuderoso.

Estação Carandiru

Título: Estação Carandiru
Autor: Drauzio Varella
Primeira publicação: 1999
Minha edição: Companhia das Letras

.

.

Esse foi outro livro que cheguei através de um filme: ‘Carandiru’ (2003) de Hector Babenco. A obra de Drauzio Varella é um dos poucos casos em que um sucesso editorial, verdadeiro fenômeno de vendas realmente vale a pena ser lido. Vencedor do Prêmio Jabuti em 2000 na categoria Livro do Ano de Não-Ficção, a publicação conta a experiência de Varella como médico voluntário, a partir de 1989, na Casa de Detenção de São Paulo, onde realiza atendimento em saúde, especialmente na prevenção da AIDS. No post ‘livros sebosos’ também falei sobre a minha edição desse livro.

O Centauro no Jardim

Título: O Centauro no Jardim
Autor: Moacyr Scliar
Primeira publicação: 1980
Minha edição: Companhia de Bolso

.

.

Esse foi meu primeiro livro de Moacyr Scliar, constituindo o suficiente para que eu me tornasse um grande admirador da sua escrita criativa. A obra mistura elementos fantásticos em uma trama muito instigante, contando a estória do centauro Guedali, um ser metade homem, metade cavalo. O blogue 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer fez uma excelente resenha sobre esse livro.

O Guarani

Título: O Guarani
Autor: José de Alencar
Primeira publicação: 1857
Minha edição: Martin Claret

.

.

Meu primeiro contato com a história do livro veio com a ópera de mesmo nome do compositor Carlos Gomes e depois com o filme ‘O Guarani’ (1996), da diretora Norma Bengell. Anos depois, minha irmã ganhou um exemplar do romance, que acabou me dando por não gostar. Eu também acabei o abandonando por não conseguir me envolver com o enredo. Entretanto, no ano passado, resolvi dar mais uma chance a ele e acabei me apaixonando, principalmente por sua parte final. Assim que concluí a leitura, assisti a outra versão cinematográfica do livro, ‘O Guarani’ (1979), do diretor Fauzi Mansur, que supera a outra produção citada. A primeira adaptação do livro para o cinema aconteceu em 1912, em um filme mudo hoje considerado perdido.

O Que é Isso, Companheiro?

Título: O Que é Isso, Companheiro?
Autor: Fernando Gabeira
Primeira publicação: 1979
Minha edição: Companhia de Bolso

.

.

Mais um livro que cheguei através de um filme, dessa vez foi ‘O Que é Isso, Companheiro?’ (1997), do diretor Bruno Barreto, que representou o Brasil no Oscar de 1998, sendo indicado ao prêmio de melhor filme estrangeiro. Até pouco tempo atrás, eu evitava ler livros que eram adaptados para o cinema, tentando focar em histórias que eu ainda não conhecia. Ainda bem que parei com isso, até porque o filme de Barreto é inspirado apenas no 15° capítulo do livro de Gabeira, o trecho que diz respeito ao sequestro do embaixador norte-americano. O livro é um ótimo depoimento sobre quem viveu na pele o terror da ditadura militar brasileira. Super indico a obra para os politicamente alienados que saíram às ruas no ano passado pedindo a volta do regime militar. O blogue 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer também fez uma ótima resenha sobre ele.

O Réu e o Rei

Título: O Réu e o Rei
Autor: Paulo Cesar de Araújo
Primeira publicação: 2014
Minha edição: Companhia das Letras

.

.

Se não me engano, esse é o maior livro dessa lista e o que li mais rápido. Eu já sabia como terminava a história de Paulo Cesar de Araújo com Roberto Carlos, mas queria saber os detalhes. No livro, o autor fala sobre a polêmica proibição de seu livro anterior, a biografia ‘Roberto Carlos em Detalhes’. ‘O Réu e o Rei’ não é uma nova biografia sobre o cantor, mas sim um relato sobre a relação do autor com Roberto. Durante a leitura ainda ficamos conhecendo a história de amizade entre Paulo Cesar de Araújo e João Gilberto, sem dúvida a maior surpresa do livro.

Secreções, Excreções e Desatinos

Título: Secreções, Excreções e Desatinos
Autor: Rubem Fonseca
Primeira publicação: 2001
Minha edição: Companhia das Letras

.

.

Esse foi meu primeiro livro lido em 2015. É um compêndio de contos e constituiu meu segundo título de Rubem Fonseca, depois de ‘O Caso Morel’. Com essa obra, rapidamente descobri porque ele é considerado um dos melhores contistas deste país. O primeiro conto da coletânea, ‘Copromancia’, se tornou um dos meus textos favoritos e, assim como todos os outros que a compõe, a cada parágrafo lido, eu imaginava como ficariam ótimos se fossem adaptados para o cinema.

Tropicalista Lenta Luta

Título: Tropicalista Lenta Luta
Autor: Tom Zé
Primeira publicação: 2003
Minha edição: PubliFolha

.

.

Mais uma vez um livro do Tom Zé! Este, por sua vez, merece destaque por considerado sua biografia. ‘Tropicalista Lenta Luta’ tem capítulos escritos pelo próprio cantor e compositor, contando sobre sua infância em Irará, acerca de sua formação e ida a São Paulo, discutindo o ostracismo e muitas outras curiosidades de sua vida. Ademais, esses capítulos são curtos e não se aprofundam o suficiente como as biografias convencionais (embora não sejam superficiais, pois Tom Zé nunca é superficial naquilo que escreve). Grande parte do livro é formada pelas letras de seus discos, contendo também cartas e uma extensa entrevista concedida a Luiz Tatit e Arthur Nestrovski. Trata-se de um livro indispensável para aqueles que, como eu, são grandes fãs do Pai da Invenção. Citei esse livro no post ‘vinte e três’ e foi também uma parte dele que me inspirou a escrever o texto ‘meu útero’.

E então, caríssimo Leitor, já leu algum desses livros? Gostou? Não gostou? Pretende ler algum? Me conta!

fernanda montenegro em 23 imagens

Sempre que me perguntam qual o meu ator favorito, eu hesito em responder. Vários grandes nomes me veem à cabeça: José Dumont, Raul Cortez, Paulo Autran, Paulo José. Nunca consigo me decidir entre eles e outros que eu sempre esqueço e só lembro depois. Mas em toda a minha vida eu nunca tive uma resposta diferente para quando perguntam quem é a minha atriz favorita: não tem como não responder Fernanda Montenegro.

Não acompanho telenovelas, então raramente vi seus trabalhos feitos para a TV. Minha admiração por ela surgiu mesmo com seus personagens cinematográficos. Quando ‘Central do Brasil’ foi lançado lá em 1998, eu tinha cinco anos de idade. Desde então, o filme passou repetidas vezes na TV. Acho que só não continuou passando tantas vezes porque anos depois perderia esse lugar cativo na programação para ‘O Auto da Compadecida’ que, por coincidência ou não, também tem Fernanda Montenegro no elenco. Esses são os filmes que eu mais vi na vida e a maioria das vezes foi na infância. Quando os assisto hoje, principalmente ‘Central do Brasil’, eu me transporto para um passado não tão distante assim, quando meus pais não me permitiam brincar na rua com os outros garotos. Durante o dia, brincava no quintal sozinho com vários “eus” que criava na minha cabeça. Ficava muito triste quando anoitecia porque tinha de entrar em casa, já que no quintal não havia luz elétrica. Com o passar dos anos, o quintal foi perdendo para os filmes que passavam na TV a tarde. Eu achava cada vez mais interessante ver filmes do que fazê-los na minha cabeça enquanto brincava no quintal.

Durante muitos anos, ‘Central do Brasil’ também foi meu filme favorito. Hoje ele perdeu esse lugar de número um, mas continua especial, talvez até mesmo o mais especial de todos. Quando o revejo e identifico todas as vertentes do cinema clássico em sua produção, sei que aquele não é o tipo de cinema no qual eu me reconheço, mas foi e é um filme muito importante em minha vida, sendo um dos responsáveis por me fazer ter vontade de estudar a fundo o cinema brasileiro.

Há menos de um mês eu o revi novamente. Dessa vez com meu pai que nunca o havia assistido completamente. Tenho que confessar uma mania (seja lá qual nome se dá a isso), mas quando mostro a alguém um filme que já vi, geralmente eu não presto muita atenção no filme para ficar vendo as reações da pessoa. O cinema tem essa magia de sugar as pessoas para dentro da fantasia e fazer com que elas esqueçam da vida ao redor. Magia essa que não tem mais efeito em mim. É que estudantes e profissionais de cinema (não todos) geralmente perdem a ingenuidade do olhar, passando então a enxergar o processo de feitura do filme. Confesso que, no começo, isso parece bastante assustador, mas com o tempo se descobre que essa forma de assistir também é divertida. Então, como eu sempre chamo pessoas que não estão ligadas ao cinema para ver esses filmes que eu gosto, elas acabam hipnotizadas com a estória, facilitando com isso o meu processo de observação das reações de quem assiste. Mas é claro que faço isso da forma mais discreta possível. Ninguém nunca nota. Enfim, não sei como cheguei a essa curva em um texto sobre Fernanda Montenegro, então voltemos a ela.

Em 2011, Antônio Abujamra (saudades Abu!) entrevistou Antônio Fagundes em seu programa Provocações e perguntou que bom artista brasileiro, na opinião dele, se deu mal na vida. Fagundes pensa um pouco e responde: Fernanda Montenegro. Abujamra parece ter ficado um pouco surpreso com a resposta ao que Fagundes justificou dizendo que se Fernanda fosse de outro país ela seria endeusada por todos por onde ela passasse. Ele aponta que aqui no Brasil ela não é devidamente valorizada. O reconhecimento que ela teria aqui ainda seria pouco. Para Fagundes, ela deveria ser aplaudida de pé em qualquer lugar que passasse. Já achava isso antes mesmo de vê-lo falar no assunto. Fernanda ainda está entre nós e, mesmo prestes a completar oitenta e seis anos de vida, continua na ativa, trabalhando intensamente, nos brindando com sua arte.

Além das vinte e três imagens, deixo com vocês a parte da entrevista em que Abujamra faz a pergunta que lhes falei. Mas aconselho a assistir as outras partes, pois elas também valem a pena. Até a próxima, abraçaço.

01
1

02
2

03
3

04
4

05
5

06
6

07
7

08
8

09
9

10
10

11
11

12
O Dono do Mundo

13
13

14
14

15
15

16
16

17
17

18
18

19
19

20
20

21
21

22
22

23
23

Não sei quem são os fotógrafos responsáveis pelas fotos, mas se você conhece ou fotografou alguma delas, é só deixar o nome com o número da foto para que sejam devidamente creditados.