todo dia é dia de gênio

Certa feita, em uma aula de Cinema Moderno que cursei no segundo semestre do curso de Cinema, a turma assistiu ao filme ‘O Bandido da Luz Vermelha’, de 1968, do diretor Rogério Sganzerla (1946-2004). Era um seminário e havia uma equipe de cinco alunos responsável pela projeção do filme e o debate com o restante da turma sobre a importância deste longa para o cinema brasileiro moderno. Na aula da semana anterior, minha equipe havia apresentado ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, de 1964, do diretor Glauber Rocha (1939-1981). Ao final da aula, a professora, aproveitando a repercussão dessas duas apresentações e o fato de Sganzerla ter apenas vinte e dois anos quando dirigiu ‘O Bandido…’ e Glauber vinte e cinco anos quando lançou ‘Deus e o Diabo…’ – antes disso, tendo lançado seu primeiro longa-metragem, ‘Barravento’, em 1962, aos vinte e três anos -, soltou um comentário que até hoje julgo um tanto quanto irresponsável: “Vocês não se sentem mal por estarem na mesma faixa de idade deles e ainda não terem lançado um longa?”.

Desde o primeiro momento, eu também encarei essa pergunta como uma forma de incentivo, uma provocação, uma tentativa de nos encorajar, digamos assim, a produzirmos. Por ser uma professora e uma pessoa maravilhosa, sei que a intenção era das melhores: fazer-nos sair da teoria e partir para a prática. No entanto, a boa intenção não exclui os muitos problemas dessa pergunta-provocação-incentivo. Um deles é imediato: o sentimento de culpa e fracasso desnecessário que se instala em nossa consciência ao sermos comparados com pessoas da nossa faixa-etária mais bem sucedidas que nós.

A turma dessa disciplina era formada por alguns alunos com menos de vinte anos, a grande maioria na casa dos vinte, alguns com trinta e poucos e até aluno com mais de cinquenta anos. Diante da pergunta, todos ficaram calados, ninguém respondeu nada até eu, que sempre fui de falar muito, respondi com um “não, não me sinto mal por não ter lançado nenhum longa ainda”. Nesse momento todos os olhares se voltaram para mim e eu comecei a dar minhas justificativas, que só não transcrevo aqui porque já não lembro palavra por palavra, mas recordo de ter usado Suzana Amaral como um dos exemplos.

Suzana começou a estudar cinema quando já havia criado os nove filhos. Lançou o primeiro filme, ‘A Hora da Estrela’, um clássico do cinema brasileiro de 1985, aos cinquenta e três anos de idade, baseado na obra homônima de Clarice Lispector. Quando falei dela, um dos alunos, na época com vinte e sete ou vinte e oito anos, comentou que estava aliviado, pois ele ainda estava no tempo. O que muita gente esquece é que todo tempo é tempo. O próprio Sebastião Salgado só começou a fotografar aos vinte e nove. Não há necessidade desse tipo de comparação, principalmente quando o assunto é arte.

Agora, sempre que vejo o exemplo de um artista que começou “tarde”, lembro dessa aula. A própria concepção de “começar tarde” é errada, pois cada profissional tem o seu tempo próprio. O momento de criação de cada um é o tempo certo. É óbvio que muitos fatores nos impedem de começar antes. Artistas que conseguem reconhecimento logo no início são exceções. É difícil estudar em uma universidade um curso que não nos traz muitas ou quase nenhuma perspectivava de emprego. É como saltar sem paraquedas. Para muitos é preciso fazer outro curso antes e se profissionalizar em algo apenas para se conseguir estabilidade financeira. Para a grande maioria (e nisso me incluo), apesar de já cursar a área de interesse, é preciso trabalhar com o que não gostamos para, no futuro, finalmente conseguir trabalhar com o que queremos. Entretanto, nunca é tarde para começar.

Pode até ser desanimador fazer cinema diante de gênios como Glauber e Sganzerla, que começaram tão cedo. Para outros também pode ser desanimador ser escritor ao lado de gênios como Machado de Assis (1839-1908) e Álvares de Azevedo (1831-1852), que começaram tão jovens. Contudo, caríssimos, o fato de Suzana Amaral ter lançado o primeiro filme aos cinquenta e três, Kleber Mendonça Filho ter lançado seu primeiro longa-metragem aos quarenta e cinco anos, e Fernando Meirelles e Cláudio Assis aos quarenta e três anos, não os torna piores. O trabalho de todos eles, inclusive, é muito maduro e consistente. Sganzerla, por exemplo, nunca conseguiu fazer um filme melhor que ‘O Bandido da Luz Vermelha’, enquanto que Kleber Mendonça acaba de lançar a obra-prima ‘Aquarius’, aos quarenta e oito anos. Em 2002, quando Meirelles lançou ‘Cidade de Deus’, ele estava então com quarenta e sete.

Cora Coralina (1889-1985) e Graciliano Ramos (1892-1953) são dois gênios da literatura, tendo lançado seus primeiros livros aos setenta e seis e quarenta e um, respectivamente. Não estou dizendo que começar “tarde” é melhor, mas esse desejo de ser o mais rápido, o mais forte e o mais jovem, causa muitos problemas. No desespero de lançar logo a primeira obra, muitos artistas produzem trabalhos que com certeza seriam melhores se houvessem se dado o tempo de amadurecê-los.

Repito, nunca é tarde para começar. E nem para recomeçar. Tom Zé havia abandonado a carreira, mas conseguiu sair do ostracismo aos cinquenta e seis anos. Se já havia lançado clássicos como ‘Todos os Olhos’ (1973) e ‘Estudando o Samba’ (1976), ainda conseguiu realizar um de seus melhores trabalhos em 2012, o disco ‘Tropicália Lixo Lógico’, aos setenta e seis. Esse ano, aos oitenta, acaba de lançar o disco ‘Canções Eróticas de Ninar’, que eu ainda não ouvi e já gostei. Nada está perdido; bons trabalhos são realizados em qualquer idade. Se os artistas mais velhos nos incentivam a sempre continuar tentando, os artistas jovens não podem ser usados para nos desencorajar a produzir depois de uma determinada idade. E tenho dito: todo dia é dia de gênio.

distância estratégica

Sou um homem de muitos ídolos, em especial cineastas, escritores(as) e compositores(as), mas se tem algo que tenho aprendido com o passar dos anos é que, em alguns casos, manter distância deles pode ser uma decisão muito saudável. Na adolescência, passei por uma fase de fanatismo por bandas de rock, bandas essas que me ajudaram a moldar boa parte da minha personalidade. Ainda gosto dessas bandas, conheci outras e fui ao show de muitas. Conservo em mim a vontade de ainda ver ao vivo as que nunca cheguei a ver – não são poucas, apesar de boa parte delas não existir mais.

Mesmo nessa fase, nunca fui a camarim, nunca fui a aeroporto esperar meus ídolos chegarem na minha cidade, nunca fiz nenhum tipo de loucura de fã, mesmo já tendo sido membro de alguns fã clubes. Não julgo quem faz essas demonstrações de amor, contanto que não passem dos limites do bom senso e jamais ponham a própria segurança e a dos outros em risco. Foi uma fase importante da minha vida, em que conheci muitas pessoas que gostavam das mesmas coisas que eu. Se pudesse voltar no tempo, com certeza faria muita coisa diferente, mas essa fase da adolescência eu não mudaria. Fiz muitas amizades, das quais algumas permanecem até hoje. A música, em especial o rock, me aproximou de muita gente incrível e essas bandas apresentaram-me a muitas outras bandas, a vários filmes e livros. Não foram poucas as ocasiões em que li um livro ou vi um filme porque certo cantor ou cantora dizia gostar em entrevistas. Até hoje fico muito feliz quando alguém me apresenta algo que ainda não conheço, embora nada supere a sensação de sozinho fazer essas descobertas. É por isso que pesquiso tanto, estou sempre desbravando listas de filmes, livros, discos e, conforme o tempo vai passando, menos entrevistas eu leio ou assisto.

Show para mim tem que ser na grade, bem perto do palco. Se eu ficar longe, tenho a sensação de que não fui. Por isso, sempre compro os ingressos no primeiro lote para não correr o risco de perder. Chego cedo, mesmo que tenha que ficar algum tempo na fila. Tenho forte resistência, posso passar bastante tempo em pé, sem comer ou ir ao banheiro. Em quase todos os shows que fui na adolescência, fui a primeira pessoa da fila. Não sei se continuo com essa mesma resistência, porque faz bastante tempo que não sou e nem me preocupo mais em ser o primeiro. Não chego mais com muitas horas de antecedência, porém, chego tarde o suficiente para ainda conseguir ficar na grade (isso não significa que chego cedo, são as pessoas que chegam tarde, acredite). A energia da grade é diferente da dos outros espaços. Ali estão os fãs mais enérgicos, os mais apaixonados, os mais loucos, os que querem ser vistos pela banda. Gosto dessa energia. Hoje não pulo tanto quanto antes e nem tento ser o que grita mais alto. Sempre tenho algo para fazer no dia seguinte, não posso mais dar-me ao luxo de ficar muito cansado e rouco. Agora, só o fato de estar ali me basta, embora continue querendo estar perto.

Todas as vezes que vou a um show, as pessoas perguntam-me no dia seguinte se consegui entrar no camarim e tirar foto com a banda. Eu sempre digo que não (porque, na verdade, nem tento) e recebo sempre uma reação decepcionada. Nunca consegui entender isso. Vou aos shows ver e ouvir as bandas ao vivo, não para tirar fotos com os músicos. Costumo explicar brincando que quando vou a um show só interessa-me a “missa” proporcionada pela banda. O importante mesmo é comungar aquele momento com as pessoas ali presentes. Nos primeiros shows que fui, costumava filmar várias músicas e fotografar bastante, hoje, não faço mais isso. Em boa parte dos casos é uma grande oportunidade estar ali. Sei que queremos registrar cada segundo, mas se estamos muito preocupados em registrar a apresentação, esquecemo-nos de viver aquele momento. Agora, costumo tirar uma ou duas fotos para guardar de recordação, mas não tenho nenhum registro fotográfico do último show que fui. No entanto, lembro nitidamente de tudo e sou capaz de contar em detalhes quando me perguntam como foi.

Acredito que permanecerei sempre como um rato de shows. A sensação de ver minhas bandas favoritas ao vivo é maravilhosa. É um pouco semelhante com o que acontece com o cinema. Muita gente costuma ir ao cinema ver os filmes de seus atores favoritos ou dos gêneros que mais gostam. Se vou ao cinema, o motivo sempre é o(a) diretor(a). Acompanho o trabalho de muitos(as) e sei que ver seus filmes na tela grande é completamente diferente de vê-los em casa. A literatura parece mesmo ser a arte mais solitária – os(as) escritores(as) quase sempre escrevem sozinhos(as), diferente de artes mais coletivas, como a música e o próprio cinema. Eu até posso fazer música sozinho, da mesma forma que posso me filmar, editar e lançar esse filme “solo”, mas sabemos todos que casos assim são raras exceções. Da mesma forma que não são muito comuns leituras coletivas, embora alguns grupos de leitura estejam tentando mudar essa realidade.

No entanto, atualmente, quase não acompanho nada, salvo uma ou duas bandas que eu tô sempre observando. Quando são lançados discos novos, praticamente sou pego de surpresa. São tantas notícias que não dá para acompanhar tudo. Mesmo quando se trata de filmes, que possuem um processo de produção mais longo (captação de recursos, pré-produção, produção, edição, participação em festivais, divulgação, exibição nos cinemas), consigo ser pego de surpresa com um ou outro lançamento, principalmente tratando-se da fonte nacional, que é o que eu mais gosto de acompanhar e assistir, mas que não tem uma distribuição tão massiva quanto a dos filmes enlatados que as distribuidoras brasileiras importam de outros países para ocuparem as salas de cinema do Brasil inteiro. Quando a questão envolve os livros, é aí que eu sou surpreendido mesmo, por isso, sempre que posso, dou uma pesquisada para ver o que tem sido publicado atualmente (mesmo saindo geralmente muito triste de ver os títulos e os autores que estão ocupando as prateleiras das livrarias).

Apesar disso, não sofro. Muito pelo contrário, estou evitando cada vez mais saber o que eles estão fazendo e principalmente falando. Não tem sido poucas as ocasiões em que venho decepcionando-me com artistas. Toda vez que assisto uma entrevista em que José Mojica Marins faz comentários homofóbicos, dói-me o coração. Quando vi Caetano Veloso, Chico Buarque, Djavan e Gilberto Gil aderindo ao Procure Saber, grupo que luta pela proibição de biografias não autorizadas, custei a acreditar. Não fiquei surpreso com Roberto Carlos, porque já conhecia seu histórico de proibições que, inclusive, não é de hoje. Quando Jô Soares constrangeu a youtuber Jout Jout com comentários machistas em seu programa, eu também me senti constrangido. Nunca acompanhei a carreira de Roger, embora goste muito dos primeiros discos do Ultraje a Rigor, mas recentemente tenho ficado impressionado com o modo como o vocalista dessa banda que produziu um dos discos fundamentais do rock brasileiro dos anos 1980, o Nós Vamos Invadir Sua Praia (1985), consegue a proeza de em várias ocasiões precisar de tão poucas palavras para destilar seu machismo e homofobia. Por falar nisso, tem sido cada vez mais difícil ouvir as piadas homofóbicas de Silvio Santos, quem tanto respeito e admiro. Sei que ele é um senhor de idade que nasceu e viveu em outra época, mas ele é um homem inteligente o suficiente para saber que nunca é tarde demais para aprender. Foi muito difícil também ler o texto de Fernanda Torres para o Agora é Que São Elas com posicionamentos tão equivocados sobre o feminismo. Sei que ela publicou depois outro texto retratando-se, mas o primeiro havia sido tão exageradamente sincero que, por mais que ela tenha se desculpado, sabemos que infelizmente é daquela forma que ela pensa. Porém, as pessoas mudam, e prefiro acreditar que ela mudou também. Aliás, as intervenções machistas de Claudio Assis durante o debate de Anna Muylaert sobre o filme Que Horas Ela Volta? (2015) e que acabou banindo-o por um ano do Cinema da Fundação Joaquim Nabuco, reduto da arte cinematográfica contemporânea no Recife, foi outro caso difícil de engolir. São casos assim que estão ensinando-me cada vez mais a separar a obra da pessoa. Dessa forma, tenho cada vez menos ídolos, mas admiro cada vez mais as obras de arte em si. Inclusive, seria muito interessante se mais pessoas fossem fãs apenas dos livros, filmes, discos, fotografias, telas, esculturas. Isso me tem evitado muito mal estar. Afinal, são as obras que de fato interessam. São elas que ficam quando o artista morre. Contudo, precisamos sim indignar-se com esses casos, deixar passar esse tipo de coisa só pelo fato de serem artistas é exercer a indignação seletiva. Intolerância, machismo, racismo, homofobia, transfobia, todo tipo de discriminação e preconceito precisam ser combatidos, na vida e nas artes.

sobre tempo e pessoas-livro

Se tem uma coisa que eu sempre vi e vejo nas redes sociais são as pessoas se dizendo entediadas. Sendo a internet um lugar de infinitas possibilidades, é cômico ver uma pessoa fazer uso dela para tornar público seu tédio quando seria muito mais produtivo usá-la para saná-lo. Faz tanto tempo que não sinto tédio que minhas últimas lembranças desse aborrecimento dizem respeito à mais tenra idade, quando meus dias eram longos, trancados dentro de casa sem o direito de brincar na rua com os outros garotos. Não há imaginação fértil que suprisse essa rotina. Uma hora ou outra o tédio se permitia vencer.

Hoje o tédio se tornou mesmo uma sensação alheia a mim. Como sempre tenho muita coisa para fazer e estou sempre inventando obrigações novas e como geralmente gosto das coisas que faço, acabo sofrendo é com a falta de tempo para concluir todos esses projetos. Sabe aquele tipo de pessoa que respira festas? Para quem final de semana é sinônimo de sair de casa? Que está sempre planejando a próxima saída? Então, eu não sou esse tipo de pessoa. Não que isso seja ruim. Como nunca fui assim, não posso fazer nenhum tipo de julgamento e mesmo se tivesse sido algum dia, acredito que não julgaria. Apenas sigo outro método que funciona melhor comigo. Meu negócio é ficar em casa. Se estudo ou trabalho a semana inteira, no final de semana meu objetivo de vida é ficar no meu quarto, na minha cama, com meus travesseiros, meus livros, meus filmes.

É difícil saber que tenho cada vez menos tempo para ler todos os livros que quero, ver todos os filmes que tenho vontade, viajar, ouvir música. O tempo passa rápido demais. O ano já entrou em contagem regressiva. Todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou e, ao contrário de Renato Russo, mesmo sendo tão jovem, não tenho todo o tempo do mundo. Já falei aqui em outro texto o quanto odeio perder tempo me locomovendo. Talvez seja esse o maior motivo que me faça preferir ficar em casa conspirando contra o mundo e engordando o cérebro e a barriga. Onde cabe o tédio nisso tudo?

Enquanto o tédio é a falta de coisas interessantes para fazer, a procrastinação é o adiamento das coisas a serem feitas (interessantes ou não). Claro que você, Leitor, sabe disso. Mas quero dizer que procrastino pelo prazer de procrastinar. Porque não fazer nada também tem o seu lado bom. É claro que depois eu saio feito louco correndo contra o relógio e chegará o dia em que não terei mais tempo para correr atrás do tempo perdido.

Gosto de festas, principalmente da comida que encontro nelas. Ademais, se passo muito tempo em alguma, já fico com vontade de ir para casa. Não consigo ver muito sentido em passar a noite toda bebendo e dançando. Não dá nem para aproveitar a companhia dos amigos porque todo mundo fica logo bêbado mesmo. Isso pode ser maravilhoso para outras pessoas, mas orgasmos fílmicos e literários me deixam muito mais feliz. Então a verdade é que evito sair de casa sempre que posso. Tenho ótimas desculpas para não ir a algum evento e geralmente fico muito feliz quando desmarcam um passeio para que eu possa ficar no meu aconchego. Detesto ficar pensando no tempo que estou perdendo. Passei a só aceitar convites de saídas de quem considero o que chamo de “pessoa-livro”, que é aquela pessoa que gosta de ler e tem uma conversa tão interessante que vale por uma leitura. Só assim para não sentir remorso por ter saído de casa. É o tipo perfeito para namorar. É por isso que eu sempre digo: namore quem lê, quem te dá livros e quem te apresenta autores que você não conhecia.

Então as pessoas normais chegam para mim e falam: “nossa você tem que sair de casa, se divertir”. O que elas não sabem é que eu me divirto justamente ficando em casa. Passo a semana inteira saindo, vendo pessoas, encontrando os amigos (nem sempre nos lugares mais apropriados para conversar), mas sempre socializando. É no tempo livre (como o próprio nome diz) que eu escolho o que considero ser melhor para mim. Sei muito bem que a vida pulsa mais forte lá fora, e justamente por não banalizar minhas saídas, quando vou ao cinema, numa exposição, à praia, numa livraria, num restaurante, qualquer lugar que seja, essa saída é sempre tão mais divertida. Lembro que quando trabalhava em frente à praia e passava todos dias por lá, ela começou a não ter mais tanta graça.

Voltando aos livros: gostaria de ler mais rápido. Muitas pessoas me falam de livros que leram em um final de semana ou até mesmo em um dia. A única vez que li um em um dia foi com ‘A Hora da Estrela’ de Clarice Lispector e ele é bem curtinho, ou seja, não há mérito nenhum nisso. Também tem os roteiros de filmes publicados posteriormente à sua exibição nos cinemas, o que também não levanta minha moral. Mas agora que falei de ‘A Hora da Estrela’, vou contar para vocês como Suzana Amaral decidiu filmá-lo. Ela contou isso em entrevista para o programa Sala de Cinema. Quando cursava a universidade de cinema, seu professor de roteiro lhe disse que, quando fosse adaptar um livro, nunca escolhesse um livro grande e sim um livro fininho, porque o grande é muito difícil de adaptar e o com o pequeno é possível se fazer uma recriação. Adaptar os grandes é se limitar a resumi-lo, fazendo disso um filme pobre. Eu não sei se concordo com ele, mas Suzana seguiu seu conselho. Como ela já tinha lido todos os livros de Clarice e gostava da escritora desde adolescente, decidiu que adaptaria o seu menor livro. Foi na biblioteca ver qual era e se deparou com a incrível história de Macabéa. E assim nasceu um dos clássicos do cinema nacional. Por que eu tô contando isso mesmo?

De toda forma, essa corrida contra o tempo não é o meu único drama. Sofro também com a ideia de que tudo isso não me serve de nada. Se vou mesmo morrer e virar pó debaixo da terra (não adianta tentar me convencer do contrário), para que ler? Ver filmes? Viajar? Eu vou morrer mesmo. De nada vai me servir. Estamos todos de passagem. Por que essa vontade de escrever, de fazer filmes, se eu vou morrer e não levarei nada comigo? Também não saberei e nem me interessa saber que fim levará tudo que deixarei. Certo que fazer tudo isso me proporciona um imenso prazer e, já que estou de passagem, melhor aproveitar da melhor forma que me convêm. Além disso, esse conhecimento adquirido nos livros me propicia um leque maior de assuntos para conversar com as pessoas. Ninguém merece ficar conversando sobre o clima, não é mesmo? Mas e daí? Felizes mesmo são os alienados que não sofrem com o Sistema, que não enxergam essa bancada conservadora que defende a redução da maioridade penal e a “cura” gay, que define como família apenas a união entre homem e mulher e tantos outros absurdos. Sinto-me de mãos atadas e com muito medo do Brasil de amanhã.

Para não concluir, prefiro pseudo-acreditar que um dia encontrarei um sentido para todas essas leituras, todas essas horas diante de uma tela, de tanto tempo dedicado à escrita e a escutar as músicas que insistem cada vez mais em dizer tudo o que quero. Não muito raramente, penso também no tempo desperdiçado escrevendo. Sei que continuarei riscando neste blogue ou em qualquer outro lugar. É terapêutico. Contudo, no fim, a frustração é tão grande… Parágrafos e mais parágrafos quando existem músicas de quatro minutos que se expressam muito melhor. Às vezes penso que devia fazer um blogue em que compartilharia apenas músicas com letras que dizem exatamente aquilo que eu estava pensando em dizer. Não sei se funcionaria, mas hoje deixo algumas músicas e a entrevista completa da Suzana Amaral. Até a próxima, abraçaço.

Legião Urbana – Tempo Perdido

Caetano Veloso – Oração ao Tempo

Pitty – Semana Que Vem

Cazuza – O Tempo Não Para

Pato Fu – Sobre o Tempo

Lulu Santos – Tempos Modernos

Sala de Cinema – Suzana Amaral