todo dia é dia de gênio

Certa feita, em uma aula de Cinema Moderno que cursei no segundo semestre do curso de Cinema, a turma assistiu ao filme ‘O Bandido da Luz Vermelha’, de 1968, do diretor Rogério Sganzerla (1946-2004). Era um seminário e havia uma equipe de cinco alunos responsável pela projeção do filme e o debate com o restante da turma sobre a importância deste longa para o cinema brasileiro moderno. Na aula da semana anterior, minha equipe havia apresentado ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, de 1964, do diretor Glauber Rocha (1939-1981). Ao final da aula, a professora, aproveitando a repercussão dessas duas apresentações e o fato de Sganzerla ter apenas vinte e dois anos quando dirigiu ‘O Bandido…’ e Glauber vinte e cinco anos quando lançou ‘Deus e o Diabo…’ – antes disso, tendo lançado seu primeiro longa-metragem, ‘Barravento’, em 1962, aos vinte e três anos -, soltou um comentário que até hoje julgo um tanto quanto irresponsável: “Vocês não se sentem mal por estarem na mesma faixa de idade deles e ainda não terem lançado um longa?”.

Desde o primeiro momento, eu também encarei essa pergunta como uma forma de incentivo, uma provocação, uma tentativa de nos encorajar, digamos assim, a produzirmos. Por ser uma professora e uma pessoa maravilhosa, sei que a intenção era das melhores: fazer-nos sair da teoria e partir para a prática. No entanto, a boa intenção não exclui os muitos problemas dessa pergunta-provocação-incentivo. Um deles é imediato: o sentimento de culpa e fracasso desnecessário que se instala em nossa consciência ao sermos comparados com pessoas da nossa faixa-etária mais bem sucedidas que nós.

A turma dessa disciplina era formada por alguns alunos com menos de vinte anos, a grande maioria na casa dos vinte, alguns com trinta e poucos e até aluno com mais de cinquenta anos. Diante da pergunta, todos ficaram calados, ninguém respondeu nada até eu, que sempre fui de falar muito, respondi com um “não, não me sinto mal por não ter lançado nenhum longa ainda”. Nesse momento todos os olhares se voltaram para mim e eu comecei a dar minhas justificativas, que só não transcrevo aqui porque já não lembro palavra por palavra, mas recordo de ter usado Suzana Amaral como um dos exemplos.

Suzana começou a estudar cinema quando já havia criado os nove filhos. Lançou o primeiro filme, ‘A Hora da Estrela’, um clássico do cinema brasileiro de 1985, aos cinquenta e três anos de idade, baseado na obra homônima de Clarice Lispector. Quando falei dela, um dos alunos, na época com vinte e sete ou vinte e oito anos, comentou que estava aliviado, pois ele ainda estava no tempo. O que muita gente esquece é que todo tempo é tempo. O próprio Sebastião Salgado só começou a fotografar aos vinte e nove. Não há necessidade desse tipo de comparação, principalmente quando o assunto é arte.

Agora, sempre que vejo o exemplo de um artista que começou “tarde”, lembro dessa aula. A própria concepção de “começar tarde” é errada, pois cada profissional tem o seu tempo próprio. O momento de criação de cada um é o tempo certo. É óbvio que muitos fatores nos impedem de começar antes. Artistas que conseguem reconhecimento logo no início são exceções. É difícil estudar em uma universidade um curso que não nos traz muitas ou quase nenhuma perspectivava de emprego. É como saltar sem paraquedas. Para muitos é preciso fazer outro curso antes e se profissionalizar em algo apenas para se conseguir estabilidade financeira. Para a grande maioria (e nisso me incluo), apesar de já cursar a área de interesse, é preciso trabalhar com o que não gostamos para, no futuro, finalmente conseguir trabalhar com o que queremos. Entretanto, nunca é tarde para começar.

Pode até ser desanimador fazer cinema diante de gênios como Glauber e Sganzerla, que começaram tão cedo. Para outros também pode ser desanimador ser escritor ao lado de gênios como Machado de Assis (1839-1908) e Álvares de Azevedo (1831-1852), que começaram tão jovens. Contudo, caríssimos, o fato de Suzana Amaral ter lançado o primeiro filme aos cinquenta e três, Kleber Mendonça Filho ter lançado seu primeiro longa-metragem aos quarenta e cinco anos, e Fernando Meirelles e Cláudio Assis aos quarenta e três anos, não os torna piores. O trabalho de todos eles, inclusive, é muito maduro e consistente. Sganzerla, por exemplo, nunca conseguiu fazer um filme melhor que ‘O Bandido da Luz Vermelha’, enquanto que Kleber Mendonça acaba de lançar a obra-prima ‘Aquarius’, aos quarenta e oito anos. Em 2002, quando Meirelles lançou ‘Cidade de Deus’, ele estava então com quarenta e sete.

Cora Coralina (1889-1985) e Graciliano Ramos (1892-1953) são dois gênios da literatura, tendo lançado seus primeiros livros aos setenta e seis e quarenta e um, respectivamente. Não estou dizendo que começar “tarde” é melhor, mas esse desejo de ser o mais rápido, o mais forte e o mais jovem, causa muitos problemas. No desespero de lançar logo a primeira obra, muitos artistas produzem trabalhos que com certeza seriam melhores se houvessem se dado o tempo de amadurecê-los.

Repito, nunca é tarde para começar. E nem para recomeçar. Tom Zé havia abandonado a carreira, mas conseguiu sair do ostracismo aos cinquenta e seis anos. Se já havia lançado clássicos como ‘Todos os Olhos’ (1973) e ‘Estudando o Samba’ (1976), ainda conseguiu realizar um de seus melhores trabalhos em 2012, o disco ‘Tropicália Lixo Lógico’, aos setenta e seis. Esse ano, aos oitenta, acaba de lançar o disco ‘Canções Eróticas de Ninar’, que eu ainda não ouvi e já gostei. Nada está perdido; bons trabalhos são realizados em qualquer idade. Se os artistas mais velhos nos incentivam a sempre continuar tentando, os artistas jovens não podem ser usados para nos desencorajar a produzir depois de uma determinada idade. E tenho dito: todo dia é dia de gênio.

o cinema é nosso

“Eu vejo o futuro repetir o passado”. Esse trecho da música ‘O Tempo Não Para’ de Cazuza vem martelando em minha cabeça sempre que penso no cenário brasileiro atual. Sinto como se estivesse vivendo situações que só conhecia através dos livros de História, quando estudava os capítulos sobre ditadura militar e respirava aliviado por ter nascido em outra época. Nesses mesmos livros didáticos, muito se falava sobre a censura imposta a todo tipo de arte, embora a música, com o exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil, ganhasse sempre um aprofundamento maior. Não recordo de ler nada relacionado à repressão sofrida pelo cinema brasileiro. Isso eu fui aprender depois por conta própria.

Quando os militares derrubaram João Goulart (1919-1976), o então presidente democraticamente eleito, o cinema brasileiro vivia um importante momento de sua história. ‘O Pagador de Promessas’, de 1962, escrito e dirigido por Anselmo Duarte (1920-2009) e baseado na peça teatral homônima de Dias Gomes (1922-1999), havia ganhado a Palma de Ouro no Festival de Cannes, e o Cinema Novo havia acabado de nos brindar com três clássicos eternos da nossa cinematografia: ‘Vidas Secas’, de 1963, escrito e dirigido por Nelson Pereira dos Santos e baseado no livro homônimo de Graciliano Ramos (1892-1953), ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, de Glauber Rocha (1939-1981) e ‘Os Fuzis’, de Ruy Guerra, ambos de 1964. ‘Vidas Secas’ e ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ foram indicados à Palma de Ouro com grande repercussão internacional, enquanto que Ruy Guerra receberia o Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim por ‘Os Fuzis’.

O Cinema Novo, movimento iniciado ainda na década de 1950 e formado por artistas de esquerda, resultou no maior engajamento político da filmografia nacional. A vida precária no sertão e nas favelas, questões raciais e sociais, a fome e a miséria, foram fortemente denunciados e debatidos em dezenas e dezenas de filmes. Com o golpe militar, esses longa-metragens e seus realizadores passaram a ser perseguidos e censurados. Glauber Rocha, maior nome do movimento, foi exilado.

O Cinema Marginal surgiria nesse meio tempo e, enquanto os cinemanovistas eram perseguidos por sua forte ideologia política, os marginais eram censurados por criticarem o comportamento moralista. Os filmes eram verdadeiramente retalhados e cineastas como José Mojica Marins, que não fazia parte de nenhum dos dois movimentos, foram algumas das maiores vítimas da repressão. Marins teve de cortar dezenas de cenas e falas em seus filmes, chegando até mesmo a modificar finais para conseguir lançá-los. Assim como ‘Terra em Transe’, de 1967, de Glauber, seu longa-metragem ‘Ritual dos Sádicos’, de 1969, foi proibido em todo o território nacional, não chegando nem a ser lançado nos cinemas por ter quase todas as suas cópias apreendidas e queimadas. Recuperado em 1982, foi exibido apenas em mostras e festivais com o título de ‘O Despertar da Besta’. Falido, Mojica teve que dirigir filmes pornôs para não morrer de fome, o que destruiu sua carreira. Na década de 1990 foi redescoberto pelos americanos e conseguiu voltar a dirigir seus filmes de terror, mas o estrago já estava feito. Uma carreira que tinha tudo para ser meteórica foi minada pela censura da ditadura militar.

Em 1964, Eduardo Coutinho (1933-2014) ainda era um diretor de longas de ficção. Ele estava realizando na Paraíba o filme que contaria a história de João Pedro Teixeira, líder camponês da região, assassinado em 1962. O cineasta já estava filmando há duas semanas quando parte da equipe foi presa sob a alegação de comunismo. A produção foi interrompida e Coutinho teve que voltar a trabalhar com jornalismo. Somente dezessete anos depois o trabalho foi retomado, dessa vez, colhendo depoimentos dos camponeses que trabalharam nas primeiras filmagens, com foco principal na história da viúva de João Pedro, dona Elizabeth Altino Teixeira que, desde 1964, teve que viver na clandestinidade, separada dos filhos. Lançado em 1984, ‘Cabra Marcado Para Morrer’ é até hoje o melhor e mais importante documentário brasileiro de todos os tempos.

Somente em 1975, com a abertura política, os filmes conseguiram uma liberdade maior para abordar temáticas que não agradavam ao governo, sendo lançados com poucos ou até mesmo nenhum corte. Por ter um público infinitamente maior que o do cinema, a censura voltou sua atenção para a televisão. No entanto, mesmo os filmes liberados sem cortes eram censurados quando transmitidos na TV. ‘Pixote: A Lei do Mais Fraco’, de 1980, do diretor Hector Babenco (1946-2016), só foi liberado para a telinha cinco anos depois e com trinta e oito cenas censuradas. Com o fim do regime militar, a censura acabou e os filmes dessa época puderam ser assistidos na íntegra em todo o território nacional.

Os vinte e um anos do regime militar foram o período mais sombrio já vivido pelas criações artísticas brasileiras, um verdadeiro desprezo pela informação e liberdade de expressão. Ao ler essas histórias, parece tudo muito absurdo, mas estamos de fato repetindo o passado. Temos o Congresso mais conservador desde 1964, ano do golpe militar. Hoje, assim como há cinquenta e dois anos atrás, vivemos mais um golpe, dessa vez, parlamentar, em que 367 deputados e 55 senadores anularam 54,5 milhões de votos. A imprensa, assim como em 1964, apoiou o golpe. Em 2013, apenas quarenta e nove anos depois, a Rede Globo se desculpou publicamente, classificando seu apoio ao golpe militar como um erro. No futuro, ela e tantos outros veículos de imprensa haverão de se desculpar novamente. Só espero que não demore outros quarenta e nove anos.

Todos os absurdos que eu lia nos livros de História começam a se repetir. Primeiro um golpe parlamentar derruba Dilma Rousseff, nossa presidenta democraticamente eleita. Depois, Michel Temer, em seu primeiro pronunciamento ao assumir o cargo, diz à nação brasileira: “Não fale em crise, trabalhe!” Qualquer semelhança com o “Brasil, ame-o ou deixe-o” não é mera coincidência. Depois, decreta o fim do Ministério da Cultura (recriado após calorosos protestos da classe artística). Não deu nem muito tempo para comemorar a volta do ministério quando seu novo ministro, Marcelo Calero, simplesmente decidiu exonerar a presidente da Cinemateca Brasileira, Olga Futemma, juntamente com outros quatro técnicos da instituição. A Cinemateca é responsável pela preservação da produção audiovisual brasileira. Dias depois, após forte apelo da classe cinematográfica, o Ministério da Cultura voltou atrás e manteve o emprego de Olga e dos outros quatro funcionários.

Nesse meio tempo, a equipe do filme ‘Aquarius’, do diretor Kleber Mendonça Filho, protestou contra o impeachment da presidenta Dilma no tapete vermelho do Festival de Cannes, em que concorreu a Palma de Ouro depois de oito anos sem um representante brasileiro na disputa oficial. O último filme nacional a concorrer ao prêmio havia sido ‘Linha de Passe’, de Walter Salles e Daniela Thomas, em 2008. O ministro Calero criticou o protesto e disse que os membros da equipe do filme “estão comprometendo [a imagem do país] em nome de uma tese política, e isso é ruim. Eu acho até um pouco totalitário, porque você quer pretender que aquela sua visão específica realmente cobre a imagem de um país inteiro. Eu acho que a democracia precisa ser respeitada e acho que é um desrespeito falar em golpe de Estado com aqueles que viveram o golpe realmente, o de 1964. Pessoas morreram. E as pessoas esquecem isso. Então eu acho [o protesto] de uma irresponsabilidade quase infantil”. Sônia Braga, que interpreta a protagonista do filme, rebateu: “Como pode um Ministro dizer que um ato democrático como o nosso é a representação de um País inteiro? Isso é desconhecimento do que significa plena democracia. Se estivéssemos falando em nome de todos não precisaríamos, evidentemente, fazer o ato. Uma coisa é certa: estamos juntos. O Ministro da Cultura ofendendo artistas é inadmissível. O senhor está nesse cargo para dialogar, para nos ajudar, para fazer a ponte com quem nos explora. A propósito, as críticas para Aquarius foram fabulosas. Quatro estrelas em jornais franceses, italianos, poloneses, russos e três citações no The New York Times. Ponto grande para a imagem da cultura brasileira no exterior. Senhor Ministro, não podemos perder as nossas conquistas. Sobretudo a mais importante delas, o respeito”. Desde então, o filme vem sofrendo uma forte perseguição política.

A repressão ao longa só ficou ainda mais evidente quando o Ministério da Justiça o proibiu para menores de dezoito anos, alegando conter situações sexuais complexas. Assisti ao filme e considerei a classificação um abuso. As três cenas de sexo de ‘Aquarius’ duram cada uma menos de trinta segundos. Filmes recentes do cinema nacional, como ‘Tatuagem’, de 2013, escrito e dirigido por Hilton Lacerda, e ‘Boi Neon’, de 2016, escrito e dirigido por Gabriel Mascaro, possuem longas cenas de sexo explícito e foram classificados como impróprios para menores de dezesseis anos. Usando esses exemplos como argumento, Silvia Cruz, sócia da distribuidora Vitrine Filmes, em uma reunião com Gustavo Marrone, secretário nacional de Justiça e Cidadania, pediu a reconsideração da classificação estabelecida. O Ministério da Justiça aceitou o pedido de revisão feito pela distribuidora e o filme acabou lançado como impróprio para menores de dezesseis anos. Em 1964, ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ foi lançado sem cortes, no entanto, foi proibido para menores de dezoito anos. Quem já viu o filme de Glauber sabe o quão isso é absurdo. Quem assistir ‘Aquarius’ também vai considerar a classificação do filme bastante incoerente. Todos sabemos que uma classificação máxima prejudica muito a vida de um filme, que acaba por ter seu leque de público muito reduzido, prejudicando inclusive sua arrecadação com bilheteria, e é justamente isso que o governo está tentando fazer: evitar que as pessoas assistam ao novo filme de Kleber Mendonça Filho. Na França, por exemplo, a produção recebeu a classificação livre para todos os públicos.

Até agora, ‘Aquarius’ conseguiu reverter bem as perseguições que o Ministério da Cultura tem feito contra o longa. Nos primeiros quatro dias de exibição, o filme conseguiu uma bilheteria de cinquenta e cinco mil espectadores, sendo o melhor lançamento da semana em média por sala. No entanto, há um último desafio a ser vencido: ser o representante brasileiro na disputa do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Para a maioria dos profissionais, cinéfilos e críticos nacionais e internacionais, ‘Aquarius’ é o grande favorito, todavia, o Ministério da Cultura ainda tem mais uma carta na manga: o crítico Marcos Petrucelli (da rádio CBN e do site e-Pipoca), anunciado como integrante da comissão responsável pela seleção do representante nacional no Oscar. Petrucelli vem criticando duramente ‘Aquarius’ e especialmente seu diretor, Kleber Mendonça Filho, desde sua passagem no Festival de Cannes. A nomeação de Petrucelli (que confessou não ter visto o filme) é uma clara tentativa do governo de tirar a vaga do longa com o intuito de evitar mais um protesto político de sua equipe com repercussão internacional. Após a polêmica, dois integrantes, a atriz Ingra Lyberato e o diretor Guilherme Fiúza Zenha, se desligaram da comissão, sendo substituídos por Carla Camuratti e Bruno Barreto. Adriana Rattes, Luiz Alberto Rodrigues, George Torquato Firmeza, Paulo de Tarso Basto Menelau, Silvia Maria Sachs Rabello e Sylvia Regina Bahiense Naves são os demais integrantes da comissão. Em protesto, os diretores Gabriel Mascaro e Anna Muylaert retiraram da disputa seus filmes ‘Boi Neon’ e ‘Mãe Só Há Uma’, respectivamente.

O longa de Kleber Mendonça Filho concorrerá com outros dezesseis filmes para representar o Brasil no Oscar: ‘A Bruta Flor do Querer’ (Andradina Azevedo, Dida Andrade); ‘A Despedida’ (Marcelo Galvão); ‘A Hora e a Vez de Augusto Matraga’ (Vinícius Coimbra); ‘Até Que a Casa Caia’ (Mauro Giuntini); ‘Campo Grande’ (Sandra Kogut); ‘Chatô – O rei do Brasil’ (Guilherme Fontes); ‘Mais Forte Que o Mundo – A História de José Aldo’ (Afonso Poyart); ‘Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil’ (Belisário Franca); ‘Nise – O Coração da Loucura’ (Roberto Berliner); ‘O Começo da Vida’ (Estela Renner); ‘O Outro Lado do Paraíso’ (André Ristum); ‘O Roubo da Taça’ (Caíto Ortiz); ‘Pequeno Segredo’ (David Schürmann); ‘Tudo Que Aprendemos Juntos’ (Sérgio Machado); ‘Uma Loucura de Mulher’ (Marcus Ligocki Júnior); ‘Vidas Partidas’ (Marcos Schechtman). Nosso representante será anunciado na próxima segunda-feira (12/09), em cerimônia na Cinemateca Brasileira, em São Paulo.

Em seu livro ‘Revisão Crítica do Cinema Brasileiro’, Glauber Rocha dizia que a luta do Cinema Novo era contra a chanchada e o trust americano, e que era preciso salvar o cinema independente: “temos de salvar o cinema independente, temos de construir o cinema brasileiro com os independentes. Somente assim os diretores terão liberdade para criar filmes novos. […] Tudo é muito claro: o que se precisa é a união dos independentes contra o trust americano – a primeira batalha foi interna, contra a chanchada. A segunda é maior, é uma luta igual às outras da indústria brasileira e mais do que nunca, agora, este amadurecimento político de um povo necessita da legenda: o cinema é nosso, como no caso do petróleo.” O Cinema Novo, de fato, conseguiu derrubar a chanchada, mas nunca vencemos a invasão americana. Fosse hoje, Glauber diria que a luta deveria ser contra a comédia pastelão (a chanchada atual), a invasão americana e o boicote do governo ilegítimo.

O cinema é nosso, assim como todas as outras formas de expressão artística. Não podemos deixar que censores virjões tramem boicotes a obras de arte bem debaixo do nosso nariz. É preciso abrir os olhos: a mídia quase sempre está contra nós e suas crias, como Reinaldo Azevedo, da “Revista” Veja, sempre escreverão barbaridades como as que ele escreveu: “o dever das pessoas de bem é boicotar Aquarius”. Bem, confesso que não boicotei, assisti e gostei muito. Estou convicto de que vi um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos. A ideia que os golpistas fazem de moral e bons costumes aos meus olhos são conservadoras e preconceituosas, um retrocesso sem fim. Querem voltar para a idade da pedra. Pessoas do “mal”, uni-vos! Vejam ‘Aquarius’!

que horas ela volta?

O primeiro livro que li esse ano foi Agosto (1990), do Rubem Fonseca. O mês em questão, que dá título à obra, é o de 1954, o agosto mais conturbado da história brasileira. O romance tem como pano de fundo os acontecimentos que culminaram no suicídio de Getúlio Vargas. Na contracapa da minha edição, encontra-se o seguinte texto: […] Um mês de crimes estarrecedores, de atentados políticos, de lutas infames pelo poder. Um mês de paixões, de gestos de desespero e de loucura. Um mês de multidões vociferantes nas ruas. Um mês sombrio de trágicas ilusões, encerrado pela inalterabilidade do cotidiano – a vida continua. […]

Após a leitura, fiquei me perguntando que outro mês da história brasileira ficou tão famoso. Não sei vosmecê, Leitor(a), mas o que me veio a cabeça foi obviamente o abril de 1964, que culminou no golpe militar que encerrou o governo do presidente democraticamente eleito João Goulart. Até hoje, os simpatizantes ao golpe insistem em ‘comemorar’ a data no dia 31 de março, levando em consideração os acontecimentos desse dia que culminaram no golpe do dia 1°, afinal, não pega nada bem para eles comemorarem um feito no dia da mentira. Ademais, foram os atos de abril que resultaram em vinte e um anos de regime militar.

Contudo, hoje, após ter vivido pouco mais de duas décadas, arrisco afirmar que maio de 2016 é um forte concorrente ao agosto de 1954 e o abril de 1964. Basta ler o pequeno texto da contracapa do livro de Rubem Fonseca que reproduzi acima. Esse texto poderia muito bem ter sido escrito sobre o nosso atual momento político que ninguém estranharia. Entretanto, maio também foi encerrado pela inalterabilidade do cotidiano, assim como foram os outros dois meses citados. Encerrada também pela inalterabilidade do cotidiano foi a votação na Câmara, que autorizou a instauração de processo de impeachment de Dilma Rousseff em 17 de abril desse ano. Não sei como consegui voltar à rotina no dia seguinte depois de sentir tanta vergonha alheia, nojo e tristeza ao ver a bancada da bíblia e da bala juntamente com um presidente réu, autorizarem um processo de impeachment sem crime de responsabilidade fiscal de uma presidenta democraticamente eleita.

O desenrolar de todo o processo de impeachment tem sido tão absurdo que a sensação é de estar dentro de um pesadelo ou de um filme de terror, e por falar em filme, estão lembrados(as) de que o produtor Antônio de Assis divulgou em 2011 que iria produzir um longa-metragem sobre a vida de Dilma Rousseff? O roteiro seria baseado no livro A Primeira Presidenta (2011), escrito pelo jornalista Helder Caldeira. O papel de Dilma foi oferecido a Marieta Severo que recusou, alegando ter outros compromissos para o mesmo período de filmagens (que deveria ter ocorrido em 2012). A recusa de Marieta deve ter sido um forte baque na produção do filme, pois desde então não se ouviu falar mais nele e até hoje não foi filmado. Falei desse assunto porque não gosto muito de cinebiografias de pessoas que ainda estão vivas. É comum existirem mais de uma biografia para pessoas públicas, porém, quando lançam uma cinebiografia, dificilmente outra será feita. Existem dois fatores que podem justificar isso: produzir um filme é infinitamente mais caro do que escrever um livro e o cinema está diretamente ligado a mercado, com os produtores dificilmente decidindo arriscar a bilheteria ao se vincularem a outro filme de uma mesma pessoa, acreditando que ninguém vai interessar-se por ver algo que já foi feito, mesmo que seja filmado de uma outra forma e com outro elenco. Teoricamente, seria diferente de um remake, porque neste os diretores podem mudar o final ou até mesmo o filme inteiro. Todavia, como mudar um filme que foi feito para contar uma história real?

Lembro que quando fiquei sabendo do filme, protestei comigo mesmo, pois Dilma mal havia assumido o primeiro mandato. Só conseguia pensar na seguinte questão: e se algo muito importante acontecer depois? Parece que eu estava adivinhando, pois nada (além do fato de ter sido presa e torturada durante a ditadura militar) parece ser mais importante do que o processo de impeachment que ela vive hoje, que por si só daria um filme e de terror! Foi pensando nisso que resolvi estruturar de uma forma clássica um mini-pseudo-argumento sobre tudo o que aconteceu com Dilma, caso tivesse que levar essa história às telonas. O filme seria um melodrama dos fortes, banhado de muito terror psicológico. Respire e leia:


1° Ato

Aqui começa nosso filme. No primeiro ato somos apresentados ao protagonista da história, que será Dilma Rousseff, nossa heroína (ou anti-heroína, se preferirem). É aqui que conheceremos também o mundo da história, que será ambientado em Brasília. Nesse início, será apresentado também o aliado da protagonista, que no filme será o ex-presidente Lula, além de conhecermos também os vilões da história, os inimigos da nossa protagonista, que aqui serão Michel Temer, oposição (em especial o PSDB), imprensa (em especial a Rede Globo), FIESP e claro, Eduardo Cunha. Veja que pelo grande número de inimigos e quase nenhum aliado, nossa protagonista é praticamente uma heroína solitária.

O filme começa em janeiro de 2015, quando Dilma já assumiu seu segundo mandato. Nossa protagonista encontra-se em exercício de sua função e, embora enfrente uma queda nos índices de popularidade e o país esteja vivendo uma crise financeira, acredita que agora, com o início do segundo mandato, conseguirá colocar novamente o país nos trilhos. Até que ela sofre sua primeira derrota: Eduardo Cunha (PMDB) é eleito presidente da Câmara com 267 votos. O candidato da presidenta, Arlindo Chinaglia (PT) recebeu 136 votos. Foi uma grande derrota para ela e instaura-se agora um forte clima de tensão no filme. Damo-nos conta de que a jornada de Dilma não será assim tão fácil.

No Dia Internacional da Mulher, 8 de março, nossa protagonista faz um pronunciamento em cadeia nacional e, em protesto, uma parte da população bate panelas: é o primeiro panelaço. Essa cena no filme será muito importante, porque vai ser aqui que a trilha sonora começará a ganhar forma. A partir de agora, toda a trilha do filme será formada por sons cada vez mais irritantes de panelaços.

2° Ato

Em paralelo à trama principal, a Operação Lava Jato segue a todo vapor, fazendo as primeiras vítimas no meio político. Estamos agora em maio. No segundo ato, nossa protagonista faz suas primeiras tentativas para livrar-se do problema que, no momento, é sua forte rejeição popular. Com isso, ela desiste de fazer seu pronunciamento nacional no 1° de maio, mas quando o programa do PT é veiculado no dia 5, acontecem novos panelaços.

Outra tentativa da nossa protagonista, foi o veto do reajuste de servidores no Judiciário, para não abrir um rombo ainda maior nas contas públicas, pois o custo desse aumento salarial para o governo seria de R$ 5,3 bilhões em 2016, de acordo com cálculo do Ministério do Planejamento. Em quatro anos, até 2019, o custo total seria de R$ 36,2 bilhões.

O Conselho de Ética da Câmara instaura processo que pode levar à cassação de Eduardo Cunha, presidente da Casa. O PT, partido da protagonista dessa história, decide votar a favor do processo de cassação no Conselho de Ética. É então que o vilão Eduardo Cunha, por retaliação à decisão do PT, aceita o pedido de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff. Aqui, na primeira metade do segundo ato, Dilma sofre essa forte manobra de seu inimigo. Não há mais volta para a protagonista, é preciso seguir em frente. Sua necessidade dramática agora será tentar livrar-se do golpe.

Tenhamos calma, nem tudo está perdido para Dilma, que possui maioria na Câmara, o que a deixa otimista. Ela sabe que conseguirá barrar o golpe, no entanto, nosso filme sofre aqui uma forte reviravolta: Dilma recebe uma carta do vice-presidente Michel Temer. A missiva (escrita para vazar) vaza e o país inteiro toma conhecimento de seu conteúdo. Nela, Temer deixa claro a frágil relação de ambos e reclama de cargos não concedidos, o que deixa o governo de Dilma ainda mais fragilizado.

O país perde o grau de investimento e a saída do PMDB da base aliada deixa a presidenta isolada no Congresso. Dilma, porém, tem mais uma carta na manga e convida o ex-presidente Lula para ocupar a Casa Civil, com a intenção de que ele consiga fazer uma ligação com os partidos. O que ninguém esperava é que áudios da presidenta fossem vazados pelo juiz Sérgio Moro. Os áudios foram utilizados para suspender a posse de Lula como ministro-chefe da Casa Civil. O filme encaminha-se para seu terceiro e último ato, com Dilma sofrendo uma série de derrotas consecutivas. Enquanto isso, a FIESP segue financiando o golpe e a Rede Globo ignorando as manifestações pró-Dilma. A votação na Câmara, que autoriza a instauração de processo de impeachment de Dilma em 17 de abril, é responsável pelas cenas mais nojentas, revoltantes e tristes do filme.

Na comissão do Senado, o parecer favorável ao impeachment de Dilma foi aprovado por 15 votos a 5. Conforme as votações vão sendo favoráveis ao afastamento, pensei em afastá-la cada vez mais do filme. Seu tempo diante da tela vai gradualmente diminuindo conforme o filme desenrola-se para o final. Tudo parece estar perdido, porém, o Supremo Tribunal Federal (STF) afasta por unanimidade Eduardo Cunha da Câmara, e o presidente interino, o deputado Waldir Maranhão (PP), anula a tramitação do processo de impeachment, cancelando a votação do processo na Câmara. Acende-se uma luz no fim do túnel, por um breve momento todos os inimigos parecem estar derrotados.

3° Ato

A sensação é de volta por cima, quase é possível ouvir a marcha da vitória. Entretanto, esse filme é uma tragédia. Todos sabemos que, no cinema, nossos heróis quase morrem nos minutos finais do filme antes de vencerem o vilão e desembocarem no tão desejado final feliz. Nas tragédias acontece o contrário: nos minutos finais, tudo parece bem, a sensação de vitória é palpável, mas o herói perde ou morre. Horas depois, o próprio Maranhão revoga sua anulação após sofrer fortes ameaças de expulsão do partido e uma possível perda de mandato. No apagar das luzes, Dilma ainda cria mais cinco universidades federais e regulamenta o importante Marco Civil da Internet e, no dia 12 de maio, a abertura do processo de impeachment é aprovada no plenário do Senado Federal por 55 votos a favor e 22 contra; nossa protagonista é derrotada. Afastada por até 180 dias, o vice-presidente Michel Temer assume a presidência. Sem vencer nenhuma eleição para Presidência da República em seus 50 anos de história, o PMDB emplaca o terceiro presidente em 30 anos, atingindo “100% de aproveitamento” de seus três vices que chegaram à Presidência.

Nesse momento do filme, a protagonista Dilma não aparece mais na tela. O que vemos é Temer assumir o governo na única sexta-feira 13 do ano, cortando ministérios e nomeando ministros citados na Lava-Jato para seu gabinete (dando-lhes foro privilegiado, sendo que, pelo mesmo motivo, Lula havia sido impedido de assumir a Casa Civil), formado apenas por homens brancos, sendo o primeiro desde o período de Ernesto Geisel (1974-1979), ainda na ditadura, a não incluir mulheres. O lema de seu governo é “não fale em crise, trabalhe” (qualquer semelhança com o “Brasil, ame-o ou deixe-o” do regime militar é mera coincidência). Em poucos dias de governo Temer, diálogos gravados de Romero Jucá revelam o que eles chamaram de “pacto” para deter o avanço da Lava Jato. Outros áudios ainda revelariam que PMDB, DEM, PSDB e SD financiaram com caixa 2 o Movimento Brasil Livre (MBL) que sempre se definiu como apartidário e sem ligações financeiras com siglas políticas (o que só os alienados conseguiam acreditar), escancarando para o Brasil inteiro o pacto feito pelos partidos para derrubar Dilma. ‘Pacto’, inclusive, poderia ser o título do filme, ou então ‘Volta, Querida’.

Eduardo Cunha, mesmo afastado, continua a dar as cartas. Os escândalos só aumentam, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pede ao Supremo Tribunal Federal (STF) a prisão do presidente do Senado, Renan Calheiros, do presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha, do senador Romero Jucá e do ex-presidente da República José Sarney, todos do PMDB, mesmo partido do então presidente Temer. Nas ruas (agora sem financiamento de partidos e da FIESP – pois eles já conseguiram o que queriam) não se ouvem mais o som das panelas. Sobem os créditos.


Bom, esse seria o meu filme; outras pessoas com certeza o fariam de outra forma. Muita coisa fica de fora e muitos fatos podem ficar sem as mínimas explicações. O mais ideal seria o formato de narrativa seriada, mas como vocês já devem saber, não gosto de séries. A sinopse, inclusive, eu pegaria emprestado da contracapa desta minha edição de Agosto: Um mês de crimes estarrecedores, de atentados políticos, de lutas infames pelo poder. Um mês de paixões, de gestos de desespero e de loucura. Um mês de multidões vociferantes nas ruas. Um mês sombrio de trágicas ilusões, encerrado pela inalterabilidade do cotidiano – a vida continua.

Preciso confessar que nem de longe sou a pessoa mais otimista do mundo. Por mais que a oposição ao novo governo Temer ganhe força e os movimentos populares ganhem cada vez mais as ruas, fico pensando que, se Dilma voltar, ela novamente será impedida de governar como foi desde que assumiu seu segundo mandato. Claro que, ainda assim, será melhor tê-la de volta do que continuar mais dois anos com um governo ilegítimo, que é uma ameaça real aos programas sociais. Resta-me torcer para que esse filme da vida real tenha uma continuação, de preferência, chamado de ‘Dilma, O Retorno’.

As coisas aqui mudaram muito. A vanguarda cristã assumiu o poder, o clima tá tenso”. A frase é de um dos personagens do filme Branco Sai, Preto Fica (2014), do diretor Adirley Queirós, um dos melhores e mais inteligentes filmes brasileiros dos últimos anos. É quando a ficção transcende a realidade. É exatamente com essa frase que eu responderia para alguém que me perguntasse sobre a atual situação política do país. Estou confuso, não faço a mínima ideia do que esperar daqui para frente. Embora tenha muitas críticas ao governo Dilma e reconheça seus erros, não consigo parar de me perguntar: que horas ela volta?

como seria o mundo sem a bahia?

Para vocês que leram E se eu não tivesse escrito esse texto?, esse é o que eu posso chamar de parte dois. Vocês hão de me perguntar: mas Jaírlos, você não disse que iria evitar ficar pensando em coisas que não podem acontecer? Sim, eu evito, mas essa pergunta vai muito além de um simples “e se não existisse Bahia?”. É a mesma pergunta feita de um jeito diferente: você Leitor, já imaginou como seria o mundo sem a Bahia?

Eu pergunto, mas nem de longe sou a pessoa mais ideal para responder. Não sou baiano, entretanto tenho um fascínio enorme pela Bahia e só consigo pensar o quanto o mundo perderia sem ela e o quanto o Brasil seria mais pobre. Para começo de conversa, nosso cinema seria muito mais apagado e bem menos respeitado no mundo. O maior cineasta desse país foi e sempre será Glauber Rocha. Já imaginou a filmografia brasileira sem ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ e ‘Terra em Transe’?

E a dramaturgia seria igualmente modesta. Nosso cinema não teria Antonio Pitanga, Geraldo Del Rey e Othon Bastos. E o cinema marginal não teria Helena Ignez, sua maior estrela. A nova geração também perderia grandes nomes como Lázaro Ramos e Wagner Moura. Você consegue imaginar outra pessoa como Capitão Nascimento?

Não teríamos Milton Santos e Carlos Marighella, e nem os escritores Gregório de Matos, Castro Alvez, João Ubaldo Ribeiro e Jorge Amado. Não teríamos Gabriela, nem Dona Flor e nem seus dois maridos. E o que dizer de Tieta? Consegue sentir como o nosso imaginário popular seria bem mais carente?

E quando o assunto é música, caríssimos, o prejuízo seria ainda maior. Só para início de conversa, não teríamos Tom Zé, Caetano Veloso e Gilberto Gil. A pergunta que fica disso é a seguinte: teria existido tropicalismo? E tem mais, todos sabemos do caso da bossa nova com o Rio de Janeiro, é algo que não dá para negar, mas que fica difícil imaginar a bossa nova sem João Gilberto, fica.

Sem esses quatro a música brasileira já não seria o que é, mas a facada não para por aí, ainda temos (ou não teríamos) Dorival Caymmi, Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Carlinhos Brown e Waldick Soriano. E me diga, Leitor(a), o que é que a Bahia tem? Tem Gal Costa, Daniela Mercury, Astrud Gilberto, Ivete Sangalo, Karina Buhr, Maria Bethânia, Margareth Menezes e o que para mim é a cereja do bolo: as bandas de rock.

Muitos só conseguem enxergar os trios elétricos e se esquecem que Raul Seixas, o eterno pai do rock brasileiro era baiano. Além de Marcelo Nova que com o Camisa de Vênus fez história nos anos 80. Mas nem só de glórias passadas vive o rock baiano, além das bandas Cascadura, Vivendo do Ócio e Maglore, temos Pitty, que é a maior representante do rock da atualidade. Ela já está a mais de dez anos nesse posto e parece que ainda vai ficar por muito tempo nele.

Eu sei que eu esqueci de muita gente (alguns intencionalmente), afinal, não dá para passar o dia todo citando nomes e nomes. Eu me limitei a falar de quem gosto e acho que ainda assim deu para ter uma noção do estrago que seria para a nossa cultura. Agora vou me aquietar e prometo tentar não perturbar mais vocês com minhas súbitas crises de “e sismos”. Até a próxima.

Abraçaço